
(PRIMEIRA DECLARAÇÃO DO GAI)
Diante de um país que aumenta o controle social; com a invasão policial e militar de nossos povoados e cidades; diante do assédio dos capangas em nossos bairros; diante do colapso da mentira dos discursos; em meio da impotência e da raiva antissistema da juventude que perdeu o medo; sob a ameaça de ser a apresentação e a despedida, mas sem auto vitimização, nos apresentamos no espaço cubano, latino-americano e caribenho, e em geral diante de nossas irmandades anarquistas no mundo.
O GRUPO ANARQUISTA DE INTERVENÇÃO (GAI), o formamos quatrx gatxs que nos associamos livremente. Caminhamos há alguns meses. Fugindo do isolamento, mas também saindo de todas as garras políticas e do otimismo democrático pago que reside em alguns cantos dissidentes. Este percurso tem sido a sós, sem líderes nem dirigentes. Órfãos de toda tutela ou subvenção, com a intenção de promover ações de intervenção junto às pessoas que perderam o medo e de quem ainda sonha em perdê-lo. Não pretendemos fazer o jogo de nenhum grupo político, nem de dentro nem de fora. Somos apolíticxs. Nossa proposta de intervenção é criar espaços amplificados de luta, conformando uma luta diferente à atual polarização dicotômica de “esquerda-direita”, “vermes-revolucionários”, “mercenários-patriotas”, “comunistas-anticomunistas”.
Para nós, todas essas palavras são palavras ocas à disposição do discurso do poder, de qualquer poder. Para nós todes são a mesma merda demagógica.
Por isso, propomos uma revoada generalizada contra todo poder, contra qualquer autoridade, mediante a prática criativa da luta e o impulso libertário de todos os espíritos rebeldes que estão dispostos a pôr ponto final a esta ditadura, mas que também estão dispostos a não deixar que ninguém se sobressaia no poder. Não lutamos para substituir a nossos maus opressores por bons opressores. Não queremos maus governos nem bons governos. Lutamos contra este governo e lutaremos contra o que venha. Lutamos pela destruição do poder; lutamos pela anarquia.
A 48 horas da explosão social, todes contam sua “verdade” das revoltas, e quem não inventa, tenta tirar partido da luta das pessoas excluídas. Umas pessoas dizem que foram algumas pessoas “mercenárias violentas”, manipuladas e pagas pelo governo dos Estados Unidos, que agrediram pessoas “revolucionárias” nas ruas, inclusive com armas brancas. Outras pessoas falam de milhões de cubanas/cubanos nas ruas, tomando instalações governamentais e edifícios de rádio e televisão, que se uniam em massa aos militares e policiais que tiravam o uniforme para abraçar o “povo heroico”. Algumas pessoas dizem que o que nos fez sair às ruas foi o “bloqueio genocida” imposto pelo governo estadunidense. Outras que foi a Covid; a falta de medicamentos e vacinas; os apagões…
A verdade conhecemos nós, protagonistas. As milhares de mulheres e homens de todas as idades, mas majoritariamente jovens, que no domingo passado (11/07) nos jogamos nas ruas das 14 províncias, com um grito nítido e definitivo: “liberdade!”, e “abaixo a ditadura”, fartos de tanta mentira e demagogia. Também, muitas pessoas gritaram com grande expectativa “Pátria e Vida”, antecipando o mundo que querem, e disputando o terreno com o nacionalismo necrológico que domina. Outras pessoas cantavam o velho lema chileno que alenta as manifestações cotidianas da esquerda na América Latina.
Os protestos foram pacíficos. Quase todas as pessoas manifestantes estavam dispostas a pôr primeiro e depois a outra face. Quase todes queriam demonstrar que a violência só seria exercida pela polícia e agentes de segurança do estado. Quando fomos atacades pelos capangas do regime, muitas pessoas pediram para não cair na provocação da violência e se conformavam em gritar aos capatazes “abusadores” e “assassinos”. Mas nós jovens enfrentamos a repressão. Respondemos as balas com pedras. E viramos viaturas e os policiais tiveram que se mandar correndo. Pela primeira vez sentiram o mesmo medo que nos colocam.
Nos bairros mais revoltosos, as pessoas habitantes das cloacas do país saíram para confrontar ao estado; as pessoas faveladas, das periferias marginais, que não se vêm no noticiário, nem nos cartazes turísticos, nem nas capas dos CDs. Quem mora nas ruas de noite e vivem mal, amontoadas e amontoados; as pessoas mais pobres dentre as pobres; as pessoas excluídas do sistema. Saíram para recuperar sua dignidade, mas também para satisfazer a fome. Assaltaram as lojas no MLC, onde nunca puderam comprar. Essa catarse coletiva se transformou em um potencial libertador, porque todes haviam perdido o medo.
Agora vivemos uma calmaria. Povoados e cidades estão militarizados. Se desconhece o número de pessoas mortas e feridas que a repressão deixou; o governo só reconhece um morto entre as pessoas manifestantes. Há milhares de pessoas detidas e centenas de desaparecidas, mas tampouco se conhece a quantidade exata. As organizações independentes de Direitos Humanos indicam que só em La Habana há mais de 3.000 pessoas detidas, e que passam de 15.000 em toda a ilha. Ainda não foram transferidas às prisões, mas se encontram em celas das estações de polícia e em algumas unidades militares enquanto os processam por “vandalismo” e “contra-revolução”.
Os comunistas são tão cínicos que acusam: “que mal agradecidos são os negros, com tanto que demos, e ainda protestam”; e desde as altas esferas do partido, falam do “populacho reacionário”, da “gentalha”, dos “delinquentes”, “desadaptados sociais” e “setores marginalizados”, todes pagos pelo império.
Nosso anarquismo, irmãs e irmãos, aprendemos na rua, confrontando o único bloqueio que temos; o que os capangas impõem e nos engolimos no cotidiano repressivo. Nosso anarquismo nos chegou com o punk e o hip-hop latino americano. Não tivemos tempo de lê-los nos livros. Nos nasceu das entranhas e desde as entranhas continuaremos promovendo a anarquia; procurando manter a guarda alta; aprendendo de nossas irmandades anarquistas chilenas que nos ensinaram que a luta não é de um dia, e que todos os dias podemos fazer a anarquia viva.
Agradecemos nossas irmandades chilenas, italianas e espanholas que nos acompanham no caminho e nos ouvem, nos ajudando a quebrar o mito do bloqueio e toda a merda comunista que também consome algumas pessoas que se autointitulam anarquistas.
GAI
Julho, 2021.
Lista parcial dos presos e presas da revolta:
Abdiel Cedeño Martínez (Santiago de Cuba) / Abel Lescay (Cruces, Mayabeque) / Adonis Abilleira (Cruces, Cienfuegos) / Adrian Portieles (Trinidad, Sancti Spíritus) / Alejandro Mejías Guerra (San Antonio de los Baños, Artemisa) / Alejandro Rodríguez Gelin (Jovellanos, Matanzas) / Alejandro Criado González (detenido en Zanja, La Habana) / Alejandro Rojas Calzadilla (La Habana) / Alexander Fabregas (Trinidad, Sancti Spíritus) / Alvaro Otero Rodríguez (Trinidad, Sancti Spíritus) / Amalia Portieles (ICRT, La Habana) / Amanda Hernández (La Habana) / Amaury Pacheco (La Habana) / Anyelo Troya (detenido en 100 y Aldabó, La Habana) / Ariadna Pérez (Camagüey) / Ariel González Falcón (detenido en la estación de Cerro, La Habana) / Arley Leandro Mejías (San Antonio de los Baños, Artemisa) / Armando Escobar Saldivar (Trinidad, Sancti Spíritus) / Armando Abascal (Jagüey Grande, Matanzas) / Beatriz Valdés García (La Habana) / Camila Acosta (La Habana) / Carlos Chaviano (Cruces, Cienfuegos) / Carlos Ortega (Batabanó, Mayabeque) / Ceimara Carcasés Lobaina (La Habana) / Celina Osorio Claro (Guantánamo) / César Domínguez (Sancti Spíritus) / Coco Fariñas (Villa Clara) / Dairon Labrada Linares (Santiago de Cuba) / Dairon Cuellar González (Encrucijada, Villa Clara) / Dayanne VictoriaSosa Rivas (Camagüey) / Dayris Ruth del Sol (Isla de la Juventud) / Denis Reyes (Artemisa) / Denis Turcaz Guilarte / Edel Carrero (La Habana) / Eduardo Machado Arocha (Santiago de Cuba) / Eliezet Sesma Diago (La Habana) / Emmanuel Hernández Hernández (Unión de Reyes, Matanzas) / Enrique Ferrer Hechevarría (Santiago de Cuba) / Eros Greck (Colón, Matanzas) / Ezequiel Rafael Hermida Rodriguez (detenido en PNR El Capri, La Habana) / Francisco Rangel (Colón, Matanzas) / Frank García Hernández (detenido en Zapata y C, La Habana) / Frank David Suárez Cabrera (Palma Soriano, Santiago de Cuba) / Fredy Gregorio (Cienfuegos) / Gabriela González (detenida en Marianao, La Habana) / Gretchen Santiesteban (detenida en Sancti Spíritus) / Gretel Medina (detenida en Vivac, La Habana) / Hairo Labori (Isla de la Juventud) / Henry Constantin Ferreiro (Camagüey) / Iris Mariño (Camagüey) / Isaac Blanco (Cienfuegos) / Ismael Molina Rodríguez (Trinidad, Sancti Spíritus) / Iván Alcaraz (detenido en Zapata y C, La Habana) / Iván Arocha Quiala (Santiago de Cuba) / Jaime Mantilla Peña (Camagüey) / Javier González (detenido en Artemisa) / Javier Delgado / Javier Pérez Rodríguez / Javier Sánchez (Nuevitas, Camagüey) / Javier Alejandro Urquias Dumas (Santiago de Cuba) / José Bolaños Rodríguez (detenido en La Habana Vieja) / José Daniel Ferrer (Santiago de Cuba) / José Luis Acosta (Camagüey) / José Manuel Sánchez Zerquera (Trinidad, Sancti Spíritus) / Juan Carlos Saenz (detenido en Vivac, La Habana) / Juan Carlos Chillón Paizan (Santiago de Cuba) / Julio César Santos (Trinidad, Sancti Spíritus) / Julio Rolando Castañeda / Kender (La Habana) / Larisa Castillo Rodriguez (detenida en Zapata y C, La Habana) / Lázara Naidelys Rodríguez (detenida en 100 y Aldabó, La Habana) / Lázaro Díaz (Colón, Matanzas) / Leandry González Capote (Artemisa) / Leonardo Romero Negrín (detenido en La Habana) / Leonardo Fernandez Otaño / Liam Sánchez (La Habana) / Luis Manuel Otero Alcántara (La Habana) / Luis Mario Niedas Hernández (Sancti Spíritus) / Luis Raúl Ibarra (Santiago de Cuba) / Maykel González Vivero (La Habana) / Manuel Díaz (Bauta, Artemisa) / Manuel Cuesta Morúa (La Habana) / Manuel Alejandro Rodríguez Yong (detenido) / Marieta Martínez Aguilera (La Habana) / Mario Miguel Pérez Valdés (detenido en Zapata y C, La Habana) / Mario Miguel Pineda (Bejucal, Mayabeque) / Marisol Peña Cobas (Camagüey) / Michel Góngora (La Habana) / Michel Suárez Peña (San Antonio de los Baños, Artemisa) / Nadir Martín (San Antonio de los Baños, Artemisa) / Neife Rigau (Camagüey) / Nelvys Ismaray Ortega (Santiago de Cuba) / Néstor Vega (La Habana) / Niober García Fournier (Guantánamo) / Noel Ramírez / Omar Planos Cordoví (Santiago de Cuba) / Orelvis Cabrera (Cárdenas, Matanzas) / Óscar Antonio Escobar Fernández (La Habana) / Pedro Albert Sánchez (detenido en Guanabacoa, La Habana) / Pedro Rafael Aslan (La Habana) / Pedro Rognis Puig Murgado (Santiago de Cuba) / Rafael Cruz / Rafael Fajardo Cardenas (La Habana) / Rafael Cruz Debora (Unión de Reyes, Matanzas) / Ramón Samada Suárez / Rangel Randy Aragón Carmenate (La Habana) / Ricardo Barrios (detenido en Zanja, La Habana) / Richard Zamora “El Radical” (detenido en su casa en Matanzas) / Richard Berra (Unión de Reyes, Matanzas) / Roberto Carlos (Cienfuegos) / Rodmelis Nuñez (Batabanó, Mayabeque) / Rolando Rodríguez Robaina (Guantánamo) / Ruth Campos / Santiago Aldama Torres (detenido en Zapata y C, La Habana) / Saúl Pérez Taño (detenido en su casa en Santa Fé, La Habana) / Sergio Santana (Sancti Spíritus) / Solveig Font (detenida en Vivac, La Habana) / Tania Delgado / Víctor Manuel Rodríguez (Unión de Reyes, Matanzas) / William Echevarria Sayu (Unión de Reyes, Matanzas) / Yarian Sierra (Matanzas) / Yeremi Blanco (Matanzas) / Yilian Flores / Yilian Lorena Medinilla Pérez (Trinidad, Sancti Spíritus) / Yoan Carlos López (Encrucijada, Villa Clara) / Yoandry Benguria / Yolanda Carmenate Fernández (Granma) / Yumey Besu / Yusniel Pérez Montejo (Songo La Maya, Santiago de Cuba) / Zusely Echavarria Gregorio (Cienfuegos) / César Alejandro Gattorno (Santa Clara, Villa Clara) / Jorge Naranjo / Yilian Lorena Medinilla Perez (Sancti Spíritus)
Tradução > Caninana
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agência de notícias anarquistas-ana
As folhas caindo
Na roça em frente ao portão
Divertem o gato.
Issa
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!