
No dia 14 de setembro de 2024, o ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil, Luíz Roberto Barroso, em uma sessão de julgamento da corte, afirmou que “não há vestígio de ditadura porque nós temos eleições livres e periódicas a cada dois anos no Brasil. E do proletariado muito menos. Talvez a Faria Lima tenha mais influência do que o proletariado“, afirmou o ministro em meio a risos.
Essas declarações do magistrado sobre a preponderância do poder do mercado e dos empresários revelam uma percepção acurada da realidade política e econômica do país por parte deste membro de alto escalão do Estado Brasileiro. O que o juiz explicitou é um fato que a sociedade brasileira, em geral e infelizmente, ainda não percebe claramente (ou parece não se importar): a classe trabalhadora, historicamente vista como força motriz de transformações sociais profundas, não representa, no momento atual, uma ameaça ao status quo.
A ausência de uma mobilização popular consistente e organizada, capaz de desafiar e destruir o poder econômico e político das elites, cria um vácuo que é prontamente ocupado pelo capital e seus lacaios. As reformas trabalhistas, a precarização das relações de trabalho e a fragilidade das organizações sindicais são apenas alguns exemplos de como o Estado brasileiro, em nome da competitividade e do desenvolvimento, tem privilegiado, como sempre foi, os interesses das grandes corporações em detrimento dos direitos dos trabalhadores.
Ao afirmar que vivemos em uma ditadura do capital, não estamos sugerindo a existência de um regime político autoritário no sentido clássico do termo (sendo certo, no entanto, que tal possibilidade também pode voltar a ocorrer em determinado momento histórico). A dominação do capital se manifesta, sobretudo, através de mecanismos sutis e perversos, como a concentração de renda, a alienação cada vez mais intensa que produz, a influência das empresas sobre as políticas públicas e a cooptação das instituições ditas democráticas. A mídia, por exemplo, atua como porta-voz dos interesses do mercado, moldando a opinião pública, legitimando as desigualdades sociais e desencorajando as possibilidades de transformações sociais.
Em suma, o comentário de Barroso reflete uma realidade incômoda, mas inegável: o Estado brasileiro, longe de temer uma revolução proletária, antiestatal e anticapitalista, é um instrumento a serviço do capital, enquanto a classe trabalhadora, fragmentada e desmobilizada, assiste passivamente à consolidação de um modelo econômico que beneficia uma minoria privilegiada, aprofundando ainda mais as desigualdades sociais e a exclusão. No entanto, não será pela captura do Estado que iremos alterar esta conjuntura – a história bem o mostra.
A superação desse cenário exige uma profunda transformação das relações políticas e de produção, com a participação efetiva de todos os setores explorados e marginalizados da sociedade, uma transformação que avance justamente contra o Estado e o Capital. Eis o desafio.
Liberto Herrera.
agência de notícias anarquistas-ana
Cresce a erva do tempo, devagar,
brota do chão
e me devora.
Thiago de Mello
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!