
Análise do estado da política autônoma no chamado México.
A política autônoma está em um impasse no México? Isso depende de onde você a procura e do que entende por autonomia. Mais de trinta anos de organização comunitária e resistência política articuladas em torno de um discurso de autonomia levaram ao enquadramento da política autônoma dentro do arcabouço legislativo e jurídico do Estado mexicano, sem falar da política das organizações de direitos humanos, ONGs e instituições internacionais, o que, por sua vez, moldou a prática da política autônoma no cotidiano e nas comunidades.
Vamos considerar duas concepções diferentes de autonomia. Primeiramente, a política autônoma como prática de auto-organização, autogestão e autodeterminação; algo incorporado no cotidiano, derivado de baixo e de dentro. Uma expressão viva da organização social, sempre em movimento, enraizada mas espontânea. Política autônoma como algo plural, autonomias, definidas e desenvolvidas conforme cada luta em seu contexto. Autonomia como meio de luta, de prefiguração, de ação direta.
Vejamos agora outra concepção. Autonomia como um direito a ser reconhecido e garantido pelo Estado. Autonomia mapeada, definida e ditada pela legislação estatal. Autonomia como uma demanda feita ao Estado. A demanda pelo direito à autonomia; a demanda por respeito à autonomia; até mesmo a demanda pelo direito de defender o direito à autonomia. Política autônoma moldada pelos mecanismos burocráticos, legais e judiciais do Estado.
O desenvolvimento histórico do movimento zapatista em Chiapas encarna essas duas concepções diferentes de autonomia. Nos dias que se seguiram ao levante de 1º de janeiro de 1994, a rebelião foi respondida com força bruta pelo Estado. Após 12 dias de combates, foi alcançado um cessar-fogo e acordados diálogos entre os rebeldes indígenas e o Estado mexicano. Esses diálogos eventualmente levaram à assinatura do que ficou conhecido como os Acordos de San Andrés.
Em 2001, o Congresso aprovou uma versão diluída dos Acordos de San Andrés, que foi rejeitada categoricamente pelos zapatistas. Em resposta, os zapatistas romperam o diálogo com o governo mexicano. A ruptura dos diálogos levou os zapatistas a passarem de uma abordagem da autonomia como demanda dirigida ao Estado e como forma de reconhecimento legal, à organização e construção da autonomia na prática, em seus territórios e comunidades. Essa ruptura com o Estado pode ter sido a chave para o sucesso dos zapatistas.
No entanto, além do movimento zapatista, o Estado parece ter encontrado na política de reconhecimento um meio de restringir a atividade autônoma livre de comunidades e movimentos indígenas. O governo federal, junto a diversos governos estaduais, aprovou legislações que reconhecem, de diferentes formas, a autonomia indígena; contudo, essa autonomia está sempre subordinada à autoridade soberana do Estado-nação mexicano. Enquanto isso, o saque dos territórios indígenas, os assassinatos e encarceramentos de defensores da terra, e as múltiplas formas de expropriação contra comunidades indígenas continuam com força voraz.
Em vez de produzir condições para a liberdade, a autonomia como direito a ser reconhecido pelo Estado parece estar levando movimentos e lutas comunitárias a um beco sem saída. Os efeitos são desmobilização e exclusão de outras táticas e formas de organização que poderiam desafiar, subverter ou ameaçar os caminhos legais exigidos pelo Estado. Isso também leva os movimentos a “performar o Estado”, como diz Audra Simpson, moldando previamente suas práticas para se adequarem às estruturas e discursos do reconhecimento estatal.
Ao mesmo tempo, ONGs, organizações de direitos humanos e outros atores “não estatais” cumprem papel semelhante ao do Estado, restringindo a autodeterminação dos movimentos comunitários. Sempre que uma luta irrompe em algum lugar, essas organizações rapidamente aparecem com advogados, manuais de instrução e caminhos pré-determinados de resistência política. A luta da comunidade então segue um roteiro, em vez de se desenvolver de forma autodeterminada. As estratégias e políticas dessas organizações frequentemente servem mais aos interesses (e às contas bancárias) das próprias organizações do que à luta das comunidades por autodeterminação e autonomia.
Voltando à pergunta inicial: a política autônoma está em um impasse no México? De certo modo, a resposta é óbvia. Se por impasse entendemos um beco sem saída, um espaço sem escapatória, e se entendemos política autônoma como auto-organização, autogestão e autodeterminação livres, então a política autônoma jamais estará em impasse. As expressões de autonomia estão sempre presentes no cotidiano dos bairros e comunidades, no trabalho coletivo e nas terras comunais, nas formas de ajuda mútua e de reprodução comunitária. Essa atividade livre torna o impasse impossível.
Por outro lado, se a autonomia for ainda mais articulada à linguagem, aos limites e processos do Estado e sua burocracia, é provável que esses movimentos e formas de organização se vejam cada vez mais alienados de sua capacidade de auto-organização, mais confinados às geografias legais, judiciais e burocráticas do Estado, sufocando sua espontaneidade e autodeterminação.
Podemos dizer que o impasse é exatamente onde o Estado quer que a política autônoma esteja. Presa no diálogo, reduzida a caminhos e formas de vida permitidas, incapaz de avançar ou escapar, enclausurada em um beco sem saída. A tarefa que se impõe é fortalecer e expandir essas outras expressões de autonomia, onde as comunidades decidem seus futuros de forma livre, coletiva, prática e em movimento.
Fonte: https://itsgoingdown.org/are-autonomous-politics-at-an-impasse/
Tradução > Contrafatual
agência de notícias anarquistas-ana
Ipê desflorido
Sabiá desce do galho
Som de folhas secas.
Mizu No Oto
Perfeito....
Anônimo, não só isso. Acredito que serve também para aqueles que usam os movimentos sociais no ES para capturar almas…
Esse texto é uma paulada nos ongueiros de plantão!
não...
Força aos compas da UAF! Com certeza vou apoiar. e convido aos demais compa tbm a fortalecer!