
A regularização extraordinária de pessoas migrantes aprovada pelo governo espanhol se apresenta como um gesto histórico, humanitário e progressista. No entanto, desde uma perspectiva anarquista, convém deslocar o olhar: não tanto para o que é concedido, mas para quem concede e sob qual lógica.
Que fique registrada a admiração e os aplausos a todas as organizações e coletivos de pessoas migrantes que trabalharam rua a rua e durante tantos anos para que esses direitos fossem reconhecidos. Aqui encontrarão uma mão amiga, com reconhecimento e admiração.
Ainda assim, o ponto de partida é incômodo para o discurso institucional: a chamada “irregularidade” não é uma condição natural, mas uma produção política. É o Estado que cria sujeitos ilegais por meio de leis de estrangeiros, controles administrativos e fronteiras armadas. Regularizar, então, não é um ato de generosidade, mas uma correção parcial de uma violência prévia exercida de forma sistemática.
A medida alivia, sem dúvida, a vida de centenas de milhares de pessoas. Reduz o medo cotidiano, permite o acesso a direitos básicos e abre espaços de defesa coletiva. De baixo, ter documentos importa. Negar isso seria uma abstração cruel. Mas esse alívio não deve ser confundido com emancipação. A regularização não desmantela o regime que produz a exclusão; o gerencia. Seleciona, filtra e decide quem merece ficar e quem continua sendo expulsável.
O discurso que acompanha a medida revela seu núcleo: a necessidade de mão de obra, a sustentabilidade do sistema, a escassez em determinados setores. O sujeito migrante aparece assim não como pessoa, mas como recurso econômico. A dignidade se torna condicional: existe na medida em que se trabalha, se contribui, se encaixa. A autorização de residência não reconhece uma vida; autoriza uma utilidade.
Desde um olhar anarquista, a regularização funciona também como um dispositivo de controle. A ilegalidade total se transforma em legalidade vigiada. Os direitos concedidos são reversíveis, as autorizações expiram, a ameaça de expulsão nunca desaparece totalmente. Substitui-se a perseguição aberta por uma dependência silenciosa. A mensagem é clara: você pode ficar, mas sob nossas regras.
E, no entanto, essa contradição não invalida as lutas que a tornaram possível. Historicamente, nenhum direito foi concedido sem pressão. A regularização não nasce da benevolência estatal, mas do conflito social, da resistência cotidiana, da impossibilidade de continuar sustentando um sistema que precisava de corpos invisíveis para funcionar. Nesse sentido, não é uma vitória do Estado, mas uma fissura arrancada de baixo.
O anarquismo não rejeita o alívio imediato nem romantiza a precariedade. Mas insiste em não confundir o remendo com a solução. Enquanto a liberdade de movimento continuar sendo um privilégio e não uma condição humana, enquanto os direitos dependerem de documentos e não da própria vida, qualquer regularização será sempre isso: um alívio dentro de uma gaiola.
A pergunta que fica não é se esta medida é suficiente, mas por que, em pleno século XXI, uma pessoa precisa de autorização para existir em um território. Enquanto essa pergunta permanecer aberta, a luta não terminou.
Fonte: https://www.cnt.es/noticias/regularizacion-siguiente-paso-abolir-la-ley-de-extranjeria/
Tradução > Liberto
agência de notícias anarquistas-ana
Suave impressão de asas
abrindo em tempo-semente
e pausa suspiro
Nazareth Bizutti
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!