[Espanha] Mambrú não foi à guerra: 45 anos desobedecendo

Salam aleikum.

Replicamos hoje, na íntegra, o texto de 4 de fevereiro com o qual o Coletivo Mambrú, de Zaragoza, celebra seus primeiros 45 anos desobedecendo. O celebram com o texto que segue, com o convite a um ato e com um link à primeira publicação de Mambrú.

Muitas felicidades. Parabéns e um forte abraço.

E vão quarenta… e cinco.

Este inverno, enquanto os amos do dinheiro — que não de nossas vidas, pois são só nossas —  se esforçam para empobrecer o mundo e militarizá-lo, nosso coletivo Mambrú completa 45 anos de vida desobediente e 40 da publicação antimilitarista da qual tomamos seu nome após conseguir acabar com a mili.

O antigo COA (Coletivo de Objeção e Antimilitarismo) nasceu em novembro de 1980 junto ao desaparecido CAN (Coletivo para uma Alternativa Não violenta). Ambos surgiram do primordial Grupo de Objetores de Zaragoza, que começou sua trajetória até 1973. Com o COA criamos o fanzine antimilitarista Mambrú, uma humilde revista aragonesa de contrainformação editada pela primeira vez em dezembro de 1985.

Esta publicação se converteu no órgão ‘oficial’ de um florescente Movimento de Objeção de Consciência no Estado espanhol (o MOC), cuja fundação em 1977 contou com a contribuição de integrantes de nosso grupo. Hoje, aquela velha revista é um meio de expressão digital para a aprendizagem da não violência que serve de porta voz à resistência civil de todo o planeta, uma infinidade de experiências pacíficas, muitas delas ignoradas, que os contamos com orgulho e admiração.

Se olhas atrás… a luta histórica pela objeção de consciência frente aos quartéis da ditadura franquista, a insubmissão em uma democracia que a chamam assim e não é, a auto-organização antimilitarista, tenaz, valorosa, dentro e fora de seus cárceres ate acabar com o serviço militar obrigatório e a prestação substituta, a desobediência civil sem fronteiras contra os senhores da globalização neoliberal, oficinas e mais oficinas de educação para a paz, contra a economia de guerra e a precarização social, a denúncia dos crimes e a repressão na Bósnia, Iraque, Palestina, Síria, Ucrânia, Venezuela, Irã, Mineapolis…

Uma soma interminável de guerras, invasões racistas e coloniais, ditaduras, estados policiais… Mas também uma corrida emocionante para melhorar a condição da humanidade, para oferecer ferramentas não violentas aos movimentos civis para opor-nos às injustiças e divulgar alternativas à defesa armada e a autodestruição humana e meio ambiental.

Mambrú é centenas e centenas de ações diretas coerentes, transformadoras e divertidas — Por que não mudar o mundo com alegria? — Para defender-nos dos que dizem defender-nos, ainda que na verdade só defendam, a sangue e fogo, capitais, impérios e privilégios. Ao longo de todo este tempo compartilhado nos moveu a convicção de que o caminho que seguimos é um espelho do destino; por isso, nos esforçamos para que nossos métodos sejam sempre coerentes com nossos fins, com o mundo que desejamos viver. Não queremos esperar o futuro para sermos livres, queremos que nossas formas de atuar agora sejam já um reflexo desse mundo novo que levamos em nossos corações.

Somos um punhado de gente disposta a frear a apologia da guerra, que questiona a normalização da violência e a dominação estrutural, que trata de prevenir-nos de novas e mortíferas guerras ou da repressão cotidiana superando a ideia de que a segurança requer exércitos, autoritarismo, hierarquias, rearmamento, obediência cega…

Se diz que quem controla o passado controla o futuro, e quem controla o presente controla o passado. A nossa é uma luta contra o controle do tempo vivido e por viver, também contra a indiferença e o esquecimento que perpetua as causas e agrava as consequências dos problemas aos quais nos enfrentamos. Celebramos nossa memória, refletindo sobre o ontem para imaginar, e construir, um amanhã de justiça. Somos um pequeno coletivo fazendo coisas pequenas para mudar o mundo.

Por isso, e porque cuidar da memória antimilitarista é imprescindível para cuidar uma sociedade que urge desmilitarizar, te convidamos para sexta-feira, 13 de fevereiro, a uma jornada de debate e reencontro. Esse dia, celebraremos, às 18h30 em La Pantera Rossa (San Vicente de Paúl 28), um cine fórum com «Te harán un hombre», de Mireia Prats e Joan Torrents. Um documentário que repreende a sociedade sobre a normalização da violência militarista, a impunidade do exército espanhol e a ausência de transparência institucional em uma democracia sob a sombra da ditadura franquista.

O filme conta em primeira pessoa os abusos que sofreu a juventude durante o serviço militar espanhol, um maltrato institucional que poderia repetir-se no caso de implantar-se de novo aproveitando o impulso belicista que vivemos e com o pretexto de fortalecer a segurança europeia.

Gostaríamos de ver-nos, refletir juntas, sorrirmos de novo e seguir imaginando contigo outra existência. Vens?

Fonte: https://www.politicanoviolenta.org/mambru-no-fue-a-la-guerra-45-anos-desobedeciendo/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

folhas escuras
tremem na brisa
à contra-lua

Rogério Martins

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