[México] Jorge Esquivel… O “Yorch”!

Um companheiro punk, anarquista, cozinheiro e artesão, membro ativo da Okupa Che ao longo de muitos anos, presente também em coletivos e no apoio a outros movimentos e movidas anticarcerárias.

Um companheiro que por duas vezes esteve encarcerado por uma mesma montagem com acusações fabricadas e provas plantadas, como parte de um golpe repressivo orquestrado pela UNAM e pelo Estado contra a Okupa Che.

Um companheiro que após três anos de prisão perdeu a vida, por responsabilidade da mesma UNAM, do Estado e de seu sistema carcerário.

YORCH NÃO MORREU, O ESTADO O MATOU!

Em 2016, enquanto saía da UNAM depois de um evento anticarcerário na Okupa Che (Cidade Universitária, na Cidade do México), Jorge Esquivel é sequestrado pelo Estado. Colocam-no numa camionete sem placas, com rumo desconhecido. Plantaram-lhe uma mochila cheia de drogas e o torturaram. Passaram-se horas até que fosse apresentado ao MP, com uma acusação fabricada de narcotráfico na modalidade de venda.

Yorch é levado ao presídio de Miahuatlán, Oaxaca, e posteriormente transferido para um presídio de segurança máxima em Hermosillo, Sonora, a centenas de quilômetros de seus companheiros e sua rede de apoio, com a clara estratégia de desmobilizar os compas que exigiam sua liberdade. Mas a solidariedade não reconhece fronteiras, e ainda com as distâncias, os companheiros puderam agir. Depois de 20 dias, em março de 2016, Yorch sai sob fiança. As provas fabricadas contra ele são insuficientes, e a acusação é reclassificada para posse simples de entorpecentes. Quatro testemunhas declararam que Yorch sequer carregava uma mochila no momento de sua detenção, e as provas forenses demonstraram que não havia nenhuma impressão digital sua nem na mochila nem nas embalagens das drogas apresentadas. Este fato se desenvolve em meio a toda uma onda repressiva contra o movimento anarquista nesses anos; a Okupa Che e seus ocupantes foram hostilizados durante um longo período de tempo — coisa que até hoje não cessa —, chegando ao grau de policiais à paisana dispararem contra alguns indivíduos nos arredores da okupa, ferindo 2 deles, assim como ataques paramilitares e perseguição constante. As tentativas de despejo, a espionagem e as notícias sensacionalistas ou notas marrom da imprensa iam armando pouco a pouco a montagem, preparando o terreno para uma arremetida contundente contra a okupa. Yorch saiu em liberdade, mas a montagem continuou sendo armada. As ameaças constantes e informes jornalísticos não cessaram; a imprensa sensacionalista inclusive chegou a divulgar que ele estava morto e o acusou de participar do crime organizado.

Passam-se os anos, é 2022. O governo de turno é do MORENA, os discursos do poder mudam nas palavras, mas as estratégias repressivas seguem, junto à crescente militarização de todo o território e à expansão do controle tecnológico.

Na noite de 8 de dezembro, Yorch é seguido por três pessoas, e uma vez fora da UNAM, mais de uma dúzia de agentes à paisana o separam de sua bicicleta e o imobilizam para colocá-lo à força num carro cinza sem distintivos e com os vidros escurecidos.

Por muitas horas se desconheceu seu paradeiro, até que se soube que estava detido no Reclusório Oriente por ordem de reprise de mandado. O juiz determinou que se considerasse o processo com as acusações originais, sem direito a fiança.

Como sempre, o processo judicial é repleto de muitas irregularidades, com frequentes cancelamentos de audiências e atrasos de todo tipo. O juiz notifica que seria necessário repetir uma parte da etapa de apresentação de provas, atrasando o processo uma vez mais. Assim como antes, não havia nenhuma evidência que sustentasse as acusações fabricadas contra ele, mas o objetivo do poder era mantê-lo ali a todo custo pelo máximo de tempo possível.

Durante seu encarceramento, Yorch tentou manter-se forte e ativo, apesar das múltiplas formas de castigo e punição do isolamento do Estado. Sua comunicação com o exterior seguiu constante por cartas, enquanto também seguiam as visitas, atividades solidárias, os atos, divulgação de seu caso, apoio econômico e material.

Em junho de 2024, Yorch é condenado a 7 anos e 6 meses de prisão, apesar de que as provas apresentadas demonstraram sua inocência, deixando claro uma vez mais o caráter político do processo e as intenções do Estado em mais uma arremetida contra os anarquistas. Após apelação, o Segundo Tribunal Colegiado de Apelação Penal reduziu a pena para 5 anos e 100 dias de multa.

Em 9 de dezembro, um dia depois de se completarem dois anos de sua detenção, Yorch é transferido sem aviso, sem que fosse informado a ninguém seu paradeiro, estado físico, e tampouco os motivos da transferência. Por meio de uma ligação, Yorch confirma ter sido transferido do Reclusório Oriente para o Reclusório Sul, sem que o deixassem levar nenhuma de seus pertences.

O ASSASSINATO DE UM ANARCOPUNK…

Desde 2019 sofria de problemas de saúde após uma apendicite não tratada a tempo. Na prisão, com as muitas negligências, a negativa do poder em lhe dar a atenção médica necessária, as transferências e os mesmos efeitos da cadeia na saúde dos presos, piora-se cada vez mais seu já frágil estado de saúde. No final de 2025, nosso companheiro entra em estado grave. Após muita pressão é transferido, passando semanas vagando de um hospital a outro, sem que ninguém informasse claramente sobre seu nível de gravidade. Será somente no último hospital, minutos antes de que fosse entubado por falhas neurológicas que não lhe permitiam mais respirar por si só, que seus próximos foram informados, mas já era tarde demais.

EM 9 DE DEZEMBRO, TRÊS ANOS DEPOIS DE SUA PRISÃO, nosso companheiro perdeu a vida.

Morreu de cadeia, assim como tantos outros anarquistas ao longo de nossa história ácrata que ousaram lutar pela liberdade e puseram as ideias em ação para fazer cair o poder e toda autoridade. Um lento assassinato do qual responsabilizamos a UNAM, o Estado e seu sistema carcerário.

ASSASSINOS!

Sua morte não se esquece, não se perdoa. Ao YORCH, e a tantos outros companheiros, os recordamos e mantemos viva a memória negra em nossas mentes, corações e em nosso agir anárquico. Mantemo-los vivos nas ruas, no fogo, no silêncio e na escuridão da noite, assim como segue vivo nosso ódio ao poder e nosso amor pela liberdade. Sua morte não se esquece, é um ataque a mais do Estado contra todos os que lutam pela liberdade. E como resposta, só pode haver vingança e confrontação!

Longe de uma visão moralista e cidadã que apoia um compa somente enquanto haja uma suposta inocência declarada, é importante recordar que inocente x culpado são conceitos do mesmo Estado que dizemos combater, baseados em suas próprias leis e juízos morais. Nosso agir e nossas propostas vão em direção ao conflito e à libertação total, à destruição do próprio Estado e de toda forma de poder, e nossa luta não cabe em suas definições. Nem inocentes, nem culpados, inimigos do Estado! E a solidariedade anárquica segue adiante para além destes conceitos.

2026, A REPRESSÃO SEGUE… A REVOLTA TAMBÉM!

A Copa do Mundo no México se aproxima, o contexto político e repressivo se agudiza. Muito aconteceu nestes tempos em nível local, somando-se aos inúmeros conflitos de escala internacional. No mês seguinte à morte de Yorch na cadeia, outro companheiro anarquista e vegano, Arturo Lugo, o “Sheveck”, foi encarcerado num presídio de segurança máxima no Estado do México, por acusações de danos ao patrimônio com agravante de formação de quadrilha. Preso por sua participação em movidas estudantis da FES Acatlán contra o abuso sexual em 2020. Uma vez mais, a UNAM é protagonista do processo repressivo, e seguirá adiante contra outros estudantes.

Não é pura coincidência que estejam novamente em cima dos anarquistas em tão pouco tempo, isto é parte direta das estratégias repressivas do poder a todo tipo de dissidência, que já vinham desde tempos sendo pouco a pouco anunciadas de muitas formas e por muitos meios, e que volta a se intensificar com o atual contexto político.

Há que recordar também o caso de Miguel Peralta, companheiro anarquista que desde há anos sofre perseguição por uma montagem repressiva motivada por sua participação nas lutas pela autonomia de sua comunidade, Eloxochitlán de Flores Magón (Oaxaca), e que atualmente segue numa longa batalha jurídica enfrentando uma possível condenação de 50 anos de prisão por acusações fabricadas. E para além dos anarquistas em específico, a repressão do poder segue atingindo outros tantos grupos, comunidades e individualidades em luta.

Isto tampouco se limita ao território mexicano, os processos repressivos e leis cada vez mais pesadas em todo o mundo contra o que chegam a tipificar como terrorismo, vão a todo vapor em muitos territórios, levando à cadeia por décadas os companheiros anarquistas que ousam agir e atacar — como é o caso de nossos compas Alfredo Cospito na Itália, Mónica Caballero e Francisco Solar no Chile, para nomear alguns dos tantos companheiros atualmente atrás das grades em diversas latitudes. Se por um lado os grupos cidadanistas e de direitos humanos seguem uma e outra vez gritando contra a criminalização e pelo “direito à protesta”, vociferando que “lutar não é crime”, já é mais que hora de abandonar estes discursos, e compreender de uma vez que onde há luta e confronto, onde há insubmissão, ação direta e uma crítica ativa ao poder e a toda forma de autoridade e domínio, sempre haverá repressão. A luta pela liberdade que vai para além dos direitos estabelecidos e aceitos pelo Estado, ou das “formas” de protesto consideradas legítimas desde sua ótica cidadã, sempre será de um modo ou de outro criminalizada, seja com montagens, com leis cada vez mais duras, perseguição e mais anos de cadeia, ou outras estratégias repressivas e legais que vão mudando a cada momento.

As leis, as cadeias, a polícia e seu estado de direito serão sempre seus instrumentos de repressão, adaptados a suas finalidades políticas. Para o Estado, LUTAR SEMPRE SERÁ UM CRIME se a luta em questão não estiver dentro de seus limites de negociação previamente impostos. Não esperemos aceitação nem permissão. Tampouco roguemos pela posta em prática de palavras mortas escritas numa constituição ou num código legal. Nossa liberdade não se negocia, não se pede, não se dá com base na legalidade do Estado.

Se lutar é um crime, a luta é o crime que jamais deixaremos de cometer! Abandonemos o cidadanismo e partamos para o confronto!

YORCH VIVE! LIBERDADE A MIGUEL! LIBERDADE A SHEVECK!

Tradução > Liberto

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A noite caminha.
No negrume, o vaga-lume
acende a bundinha.

Flora Figueiredo

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