
O fundo de um imaginário coletivo subversivo
Comecemos por uma obviedade: no capitalismo, os assuntos comuns geralmente não são resolvidos pelas próprias pessoas envolvidas. Embora as relações hegemônicas em nossa sociedade — aquelas que configuram os modelos sociais dominantes — sejam estruturadas com base na dominação política, elas não são, no entanto, as relações majoritárias. As relações majoritárias são aquelas que poderíamos chamar, em termos políticos amplos, de relações anarquistas, isto é, relações não mediadas pelo mando-obediência.
Em nosso cotidiano, participamos mais da criação comum de regras (explícitas ou não) do que da elaboração de leis e assumimos mais responsabilidades do que ordens. Isso não costuma ser pensado dessa forma, é claro, nem mesmo por quem nos acompanha. Para a maioria das pessoas, a afirmação aristotélica de que no mundo sempre algo manda e algo obedece parece incontestável.
Essa preeminência atribuída às relações baseadas na dominação funciona dentro de um paradigma da dominação justa que permeia quase toda a filosofia política, salvo raríssimas exceções. Segundo esse paradigma, as relações de dominação, as chefias, são inevitáveis. Não importa se para sempre, dado que “o ser humano é o lobo do ser humano”, ou apenas por um período, enquanto se conduz pelo “caminho da verdade”; a dominação política seria justa e necessária.
Essa visão, contestada repetidas vezes pelas ideias e práticas dos espaços de auto-instituição, costuma invisibilizar a multiplicidade de relações existentes. E é justamente nessa multiplicidade que podemos nos apoiar para romper seus pressupostos instituídos. Embora invisibilizada, a auto-instituição — essa série de processos por meio dos quais o comum é produzido e sustentado sem mediações hierárquicas — é parte fundamental das lutas antagonistas e do cotidiano das comunidades.
Na política, porém, não houve nem há maior medo do que do que o de baixo é capaz: a ralé, a plebe, os pobres. A ideia da necessidade de representação da vontade e de chefia encontrou sustentação, repetidas vezes, nesse medo. Mesmo para grande parte da crítica ao populismo atual, o verdadeiro problema, como se se tratasse de uma essência maligna, um monstro adormecido, reside nas classes subalternas. O “pecado” dos partidos populistas, nesse caso, seria exacerbar, liberar esse mal.
Para rejeitar toda visão elitista e paralisante, que transforma o anárquico em patrimônio de uma minoria iluminada, precisamos revisar as noções a partir das quais nos pensamos. Hoje, inclusive em nossas iniciativas, parece haver menos clareza — ou acordo — sobre o que exatamente defendemos.
Duas formas de entender o comum
A uma concepção identitária de comunidade — entendida como um conjunto estável de características compartilhadas por um grupo humano, em última instância, uma propriedade comum — opõe-se uma noção mais ampla, entendida como um modo de ser em comum. Nessa concepção mais dinâmica e relacional de comunidade, as pessoas não são meras receptoras passivas de uma propriedade, mas parte fundamental de um processo contínuo e coletivo de construção. Portanto, a comunidade não é nada exterior, nada “fora” das próprias pessoas. Tampouco é entendida como um bem de propriedade imutável que deva ser defendido.
Em vez disso, a comunidade surge por meio das relações nas quais as pessoas instituem o comum e nas quais, ao mesmo tempo, essas mesmas relações as instituem. Instituir refere-se, então, aos processos pelos quais as pessoas sustentam a vida coletiva: atribuem-lhe sentidos, protegem-na e organizam sua continuidade. Agir como se todos esses processos pertencessem de alguma forma ao Estado — isto é, identificar sociedade com Estado — é tão equivocado quanto pensar que eles estão livres da ingerência dos modos estatais.
O paradigma político identitário, assim, reproduz uma visão bastante limitada dos processos e do papel das pessoas na criação do comum. Embora, no processo de instituição conjunta do real, o novo não surja do nada, mas do previamente instituído, tampouco é jamais a reprodução exata do que já existe. Cada pessoa, ao se relacionar com o e com as demais, recria o mundo, sempre o modificando. O novo emerge inevitavelmente, ainda que transformar de raiz o que foi historicamente instituído não seja algo fácil.
O comum nunca é algo estático, alheio ou superior às pessoas que o compõem, como pretende a visão identitária. O comum é uma copresença, um estar-juntos, um compartilhar que se torna responsabilidade ética diante das outras pessoas. Parece óbvio, mas o fato de as pessoas viverem juntas significa que estão implicadas umas nas outras, e não apenas lado a lado. Essa visão distorcida de como o real é instituído incide na reprodução da ordem atual ao gerar uma ideia que nos desvincula do processo.
Alteridade e coimplicação
No paradigma identitário, além disso, a alteridade — toda relação com o outro — é tomada como um processo negativo. A relação não é produtiva, mas sempre uma relação de contenção. Ao papel passivo na construção do comum atribuído às pessoas soma-se a interpretação da interação social como um conflito contínuo entre indivíduos negociando sua sobrevivência.
Essa ontologia individualista, majoritariamente associada à ideia liberal — sujeitos independentes ou, no máximo, relações intersubjetivas — não consegue descrever adequadamente as relações entre as pessoas. Mesmo quando se afirma que da negação do outro possa surgir algo posteriormente positivo, a visão dos limites é sempre negativa. Isso levou à interpretação equivocada de que o anarquismo seria apenas uma reação especular ao poder político instituído. Esse erro explica, ao menos em parte, um falso antagonismo e um reducionismo entre a capacidade destituinte e instituinte dos movimentos antagonistas e antiautoritários.
No entanto, é possível conceber a alteridade a partir de outro ponto de vista, que suponha uma experiência diferente do limite. Não estamos obrigados a sobreviver aos outros; nossa singularidade, nós mesmos, emergimos de uma vasta série de relações — não apenas de negação — que estabelecemos com eles. Ao contrário do que dizem aqueles que incitam o medo do outro, as demais pessoas são a própria condição de possibilidade de todos os nossos desenvolvimentos possíveis, bons e maus. Quem nos cerca é parte do que somos e, na alteridade, ampliamos ou diminuímos nossas próprias potências.
A relação entre os sujeitos e o meio, portanto, é de coimplicação e cofuncionamento, não de separação ou mera negação. O comum é o que surge nessa relação. Pensar a comunidade e suas relações a partir da diferença e da alteridade desafia certa pretensão autoritária de uniformidade e homogeneidade das comunidades.
Uma figuração anárquica do comum
Ao abandonar a ideia de uma alteridade sempre negativa e de sujeitos substanciais, podemos enfrentar o desafio de pensar o comum como condição mesma dos desenvolvimentos coletivos antiautoritários, ali onde a diferença se torna produtiva. O comum é o terreno de conflito e a condição de possibilidade da criação anárquica: a auto-instituição. A singularidade e a vitalidade desse tipo de criação residem em práticas que prescindem tanto de qualquer chefia externa ou interna quanto de qualquer forma de representação ou passividade.
A cultura do comum deve enfatizar o caráter contingente, relacional e transformador do estar-juntos. A contingência própria do que é vivo reforça a proposta. Na prática, a auto-instituição, por sua vez, supõe a rejeição da representação e de qualquer vínculo com princípios abstratos universais colocados acima das pessoas. Portanto, embora propostas de todo tipo sejam importantíssimas, não há espaço para modelos de pretensão universalista que busquem substituir os envolvidos ou abarcar toda a complexidade social.
Uma figuração anárquica da cultura do comum pode irromper no imaginário coletivo como a afirmação e o máximo possível de ampliação das potências coletivas.
Instituir a diferença
Não é preciso se preocupar com o comum, no sentido de que ele simplesmente já existe; mas sim com as possibilidades que se abrem ao pensá-lo de maneira diferente. Por que insistir em uma ideia de alteridade que não reconhece as infinitas possibilidades da interação? Por que apegar-se a um elitismo que reduz a anarquia ao excepcional?
O antagonismo entre construção e destruição é falso. O anarquismo não pode ser reduzido à simples negação ou reação especular da ordem instituída que, embora o condicione, não pode determiná-lo. Na prática, a negação, como destruição parcial ou total do mundo instituído, é indissociável da instituição, ao mesmo tempo, de outros mundos. Mesmo na perspectiva insurrecional, não há fim do capitalismo sem mais “instituições anarquistas”, ou seja, sem generalizar esse sustentar a vida coletiva em chave antiautoritária. Portanto, rejeitar a necessidade da projeção anárquica equivale já a fracassar.
Ao mesmo tempo, o anarquismo tampouco pode ser reduzido a uma construção paródica em que, de algum modo, se vive um ideal futuro. As práticas anárquicas afirmam e ampliam potências comuns, transformações e conflitos no presente. A projeção dos movimentos, o impulso projetual das capacidades do de baixo, não supõe criar modelos únicos nem combater monstros com monstros. A criação auto-instituinte é sempre provisória, aberta e mutável. É o terreno de combate do possível.
O que defendemos não pertence ao futuro, não é abstrato, nem está fora ou acima de nós. Não há anarquismo sem sujar as mãos; a luta por generalizar a auto-instituição do comum não garante resultados, mas justamente por isso torna tudo possível.
Regino Martinez
Fonte: https://redeslibertarias.com/2026/01/21/la-cultura-anarquica-de-lo-comun/
Tradução > Liberto
agência de notícias anarquistas-ana
Árvore amiga
enfeita meus cabelos
com flores amarelas
Rosalva
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!
Vida longa à uaf! Vida longa ao anarquismo!
Perfeito....