
Nós estamos com aqueles que foram às ruas de Sydney contra o genocídio na Palestina. Nós estamos com aqueles que recusaram a visita de um representante de um etnoestado colonialista de povoamento. Nós estamos com aqueles que não foram recebidos com diálogo, mas sim com spray de pimenta, intimidação e violência policial. Para muitos, essa repressão foi um choque. Na Austrália, a brutalidade deveria acontecer em outro lugar. Aqui, a discordância deve ser educada, fragmentada e exaustiva. O que se desenrolou não foi erro. Nem excesso. Nem fracasso. Foi o Estado reconhecendo uma recusa que não podia mais ignorar sem consequências. Foi o poder respondendo à solidariedade que já não pede permissão. O medo estava do outro lado.
Nenhum de nós é a favor da violência, mas rejeitamos a definição oficial. A pobreza é violência. A fome é violência. A precariedade é violência. O desemprego é violência. A crise habitacional é violência. As fronteiras são violência. O racismo é violência. A ocupação colonial é violência. Isso não são slogans; são as condições materiais da vida cotidiana. As pessoas não vão às ruas porque gostam de confrontos. Elas agem porque a vida foi organizada contra elas, porque a dignidade, a segurança e a possibilidade de um futuro habitável lhes foram roubadas. E agora, porque são forçadas a testemunhar um genocídio.
Não estamos sujeitos apenas à repressão em nosso próprio país, mas também ao espetáculo constante de mortes em massa em outros lugares — mortes possibilitadas por nossos governos, financiadas por nossos impostos, justificadas em nosso nome. Dizem-nos para observar. Para aceitar. Para ficar em silêncio. Para testemunhar um genocídio, ser tornado cúmplice pela inação, ser punido por recusar essa cumplicidade — isso também é violência. E quando as pessoas recusam esse papel, o que as espera? Uma força armada para a ordem e a propriedade: cassetetes, escudos, armas químicas, armas de fogo. Ferimentos não são acidentes. O medo não é um dano colateral. A prisão não é prevenção. São apenas métodos. Ninguém arrisca a própria vida levianamente. Ninguém joga a liberdade por diversão. Reagimos porque somos alvos de ações.
A obsessão com a “violência dos protestos” é uma mentira contada aos quatro ventos para esconder uma verdade mais profunda. Se a revolta envolve violência, este é o mínimo em comparação com a violência permanente do próprio sistema. Este sistema sobrevive pela força. Despejo à força. Disciplina à força. Educação à força. Fronteiras à força. Polícia à força. A crise do custo de vida não é uma tempestade — é planejada. A crise imobiliária não é um fracasso — é uma política aplicada com lei e violência. Eis a diferença: entre a violência que defende a dominação e a recusa que a interrompe. Em Nova Gales do Sul e em toda a Austrália, a máscara está caindo. Protestar é criminalizado. Os poderes da polícia se expandem. A violência estatal fica impune. A solidariedade é rotulada de extremismo. O cuidado é reformulado como ameaça. Enquanto isso, os aluguéis disparam, as hipotecas se tornam insuportáveis, os salários despencam, as pessoas são empurradas para subúrbios intermináveis, deslocamentos intermináveis, exaustão sem fim. Isto não é desordem. É controle. A polícia não está fora deste sistema. Ela é a sua linha de frente visível.
Nossa solidariedade com a Palestina é total. Mas não é um chamado para reproduzir as mesmas estruturas que criaram essa catástrofe inicialmente. Genocídio não vem do nada. Ele cresce da criação das fronteiras, da soberania, exclusão — de estados organizando a vida através de dominação. A Palestina expõe isso com uma claridade brutal: colonialismo, nacionalismo, ordem militarizada e guerra permanente. Mas isso não é isolado. É a regra em qualquer lugar onde o pertencimento é imposto pela força. Nós falamos de terras roubadas. Austrália é construída em invasão e mantida através da lei, da polícia e das prisões. Nós não falamos pelos povos indígenas. Nós não prescrevemos terras, vida, ou libertação. Essas lutas são autônomas e autodeterminadas. Nossa tarefa é a recusa: para prejudicar o sistema do qual nos beneficiamos, para enfraquecer as instituições de expropriação, para praticar solidariedade sem dominação. Estar ao lado da Palestina não é demandar uma bandeira diferente. Trata-se de rejeitar o capitalismo e a própria forma de estado — ao mesmo tempo reconhecendo que a libertação tem muitas etapas, escolhidas por aqueles que vivem seu preço. Nós afirmamos a libertação sem fronteiras, sem exércitos, sem polícia — a libertação vivida diariamente, não administrada de cima.
Nos é dito: votem. Esse é o seu poder. Isso é realismo. Mas o que é realmente oferecido? Reacionários. Conservadores. Ou um partido trabalhista administrando à mesma economia, policiamento, fronteiras, e obediência ao capital e ao império. No fundo, a maioria das pessoas já sabe que esse sistema não funciona para elas. Elas sabem através de avisos de aluguel, de extratos de hipoteca, da impossibilidade de morar perto do trabalho, das horas roubadas pelo tráfego e fadiga, no medo de serem descartadas, nas imagens de morte em massa passando interminavelmente, no isolamento manufaturado como vida normal. Elas sentem isso constantemente — e é dito que elas não tem alternativa. Eleições não rompem essa ordem; elas a ritualizam. Elas tornam a raiva compartilhada em gestos privados e retornam o poder às estruturas que criaram a crise. O problema não é a apatia. É a imaginação sob domínio. Nos tornamos impotentes não porque a mudança é impossível, mas porque a ideia de outra vida é sistematicamente apagada. E, ainda assim, tudo poderia ser diferente. Esse mundo não é inevitável, ele é imposto.
Se eleições não podem nos libertar então a questão é como viver de outra maneira. Nós expandimos a luta recusando a separação. Palestina não é um problema único. Violência policial aqui não é isolada. Fronteiras, habitações, guerra, trabalho — eles formam uma realidade singular. Nós respondemos criando o oposto: ajuda mútua, cuidado coletivo, recursos compartilhados, auto-organização. Formas de viver horizontais que contradizem o presente. Estruturas que não pedem por permissão. Que não esperam por líderes. Que permitem que as pessoas decidam, ajam, e defendam uns aos outros diretamente. Isso não é sobre substituir um governo por outro. Trata-se de abolir a própria dominação.
A luta pela Palestina é uma brecha. Uma rachadura no espetáculo. Um momento onde a recusa se torna visível. A recusa de um mundo organizado envolto em morte. Uma abertura para um mundo organizado envolto em vida. A libertação da humanidade será total ou simplesmente não será. Contra a violência de estado e capital. Pela ajuda mútua, auto-organização e libertação coletiva.
Alguns anarquistas – Em solidariedade
Tradução > Núcleo de Traduções Libertárias Ferrer y Guardia (NTLFG)
agência de notícias anarquistas-ana
No olhar do companheiro
que constrói sem pedir licença,
o amanhã inteiro.
Liberto Herrera
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!
Vida longa à uaf! Vida longa ao anarquismo!