[Chile] Justiça condena 53 agentes por mortes durante a ditadura de Augusto Pinochet

A Justiça do Chile condenou na segunda-feira (03/12) 53 agentes de Estado por responsabilidade na execução de membros do Partido Comunista em 1976, durante a ditadura de Augusto Pinochet, em uma das maiores sentenças no país relacionadas a violações de direitos humanos.

Segundo comunicado do Poder Judiciário, o juiz especial para casos de violações aos direitos humanos da Corte de Apelações de Santiago, Miguel Vázquez Plaza, expediu a sentença pelo crime de sequestro qualificado.

As vítimas eram Mario Zamorano Donoso, Onofre Muñoz Poutays, Uldarico Donaire Cortéz, Jaime Donato Avendaño, Elisa Escobar Cepeda, Lenin Díaz Silva, Eliana Espinoza Fernández e Víctor Díaz López, todos do Partido Comunista chileno.

As penas dos agentes, todos integrantes da Direção de Inteligência Nacional (DINA), a polícia secreta da ditadura entre 1973 e 1977, oscilaram entre três e 20 anos de prisão.

Entre os condenados, destaca-se o brigadeiro do Exército Miguel Krassnoff Martchenko, que, com a sentença de hoje, soma 700 anos de prisão por violações aos direitos humanos.

Por outro lado, os agentes Jorge Madariaga Acevedo, Hugo Clavería Leiva, José Soto Torres, Raúl Soto Pérez, Juan Escobar Valenzuela, Jerónimo Neira Méndez, Pedro Mora Villanueva e Jorge Escobar Fuentes, também investigados pelos crimes, foram absolvidos.

Segundo estabeleceu a investigação, todas as vítimas do processo foram detidas para ser interrogadas e torturadas em razão da sua militância política, para que dessem informações sobre as atividades do partido e, especialmente para que, posteriormente, identificassem outros membros na clandestinidade.

“Tais constrangimentos não cessavam até a obtenção da informação requerida ou até a inconsciência das vítimas”, detalhou a decisão judicial.

Para matá-los, os agentes usavam uma bolsa plástica coma qual cobriam a cabeça da pessoa, amarrando-a ao pescoço e impedindo-lhe a respiração, o que provocava a morte por asfixia. Uma vez constatada a morte, muitos dos corpos foram colocados em grossas bolsas de polietileno, que eram amarradas com arames em torno da sua cintura, atando-os a um pedaço de barra de metal para serem lançados ao mar.

Nesta mesma linha, o juiz Vázquez Plaza estabeleceu que o lançamento de corpos ao mar foi uma prática sistemática utilizada pelos agentes de segurança entre 1974 e 1978.

De acordo com números oficiais, durante a ditadura de Pinochet, cerca de 3.200 chilenos foram mortos por agentes do Estado, dos quais 1.192 figuram ainda como presos desaparecidos. Pelos registros, na época da ditadura, 33.000 pessoas foram torturadas e presas por motivos políticos.

Fonte: agências de notícias

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/09/15/chile-passeata-para-lembrar-vitimas-da-ditadura-acaba-em-confronto/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/07/17/seita-de-nazista-pedofilo-colaborou-com-ditadura-de-pinochet-no-chile/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/03/09/chile-morre-arellano-stark-chefe-da-temida-caravana-da-morte-de-pinochet/ 

agência de notícias anarquistas-ana

Doente da viagem,
Meus sonhos perambulam
Pelo campo seco.

Bashô

“O teatro é sempre necessário. É a forma de arte mais completa para dar as respostas a qualquer conjuntura.”

Na entrevista a seguir, a atriz e anarquista Cibele Troyano, que mora em São Paulo, fala da sua reaproximação com os espaços anarquistas depois das jornadas de luta de Junho de 2013, do monólogo “Emma Goldman, uma Vida Libertária” e muito mais. Confira!

por Flávio Solomon | 06/12/2018

Pergunta > Cibele Troyano, é com uma alegria rebelde que faço a breve conversa, mesmo por meio da frieza digital. O objetivo é saber um pouco da sua aproximação com o teatro e o anarquismo. Por favor, para iniciar, caso tenha algum leitor que a desconheça, você poderia se apresentar?

Resposta < Sou já uma senhora de 63 anos, que ama teatro. Trabalho como atriz, dou aulas e oficinas. Gosto muito de cantar e de vez em quando brinco de ser cantora. Quanto às minhas ideias, pra mim não existe nenhuma proposta política que supere a anarquista.

Pergunta > Em sua vida, o que surgiu primeiro: o teatro ou o anarquismo?

Resposta < O Teatro. Comecei na escola com 15 ou 16 anos. Quando eu era jovem vivíamos em plena ditadura e só fui conhecer as ideias anarquistas um pouco mais tarde.

Pergunta > Em que momento o anarquismo entra em sua vida e passa a ser uma alternativa política?

Resposta < Desde muito jovem as questões sociais me sensibilizam. Sempre achei também que as coisas podem ser diferentes do que são. Então passei a procurar uma maneira de estar com outras pessoas que tivessem as mesmas preocupações que eu. Descobri as ideias anarquistas com Maurício Tragtenberg, que foi meu professor na faculdade de ciências sociais, lá pelos idos de 1973-76. Mas só fui conhecer os anarquistas de carne e osso em 1985. O Jaime Cubero foi visitar uma cooperativa de técnicos de teatro que tinha sido organizada pelo meu companheiro e o convidou para uma reunião. Quando ele me contou fiquei super entusiasmada! Então havia anarquistas em São Paulo! Eles não eram uma relíquia do passado! Desde então comecei a participar das reuniões de reconstrução do Centro de Cultura Social de São Paulo, junto com a velha guarda: Jaime Cubero, Martinez, Chico Cuberos e tantos outros. Fazíamos as reuniões na sapataria do Jaime, depois que as portas se fechavam. Comecei a ler muito e a compreender melhor as ideias anarquistas. O Centro de Cultura foi reaberto logo depois e começamos a fazer atividades e grupos de estudo. Lembro com muita alegria de nosso “cinema na praça”: passávamos filmes ao ar livre numa praça do Brás (bairro de São Paulo). Vinha tanta gente assistir! Na mesma praça havia um cinema que passava filmes pornográficos e o dono do cinema ficou fulo com a gente, pois ele ficou sem público. Fizemos festas culturais, jornais e revistas, muita coisa mesmo.

Pergunta > Os diálogos entre o anarquismo e o teatro no contexto da ditadura civil-militar (1964-1985) e no processo de “redemocratização” acabou esquecido, inclusive pela militância anarquista. Você recorda de trabalhos nesta área? O que foi feito?

Resposta < Puxa, não tenho conhecimento sobre isso. Não me lembro de nada marcante.

Pergunta > Em outra conversa, você comentou que o ator Marco Ricca encenou um monólogo sobre o Bakunin, em 1989. Você assistiu a peça? O que recorda do monólogo?

Resposta < Assisti. A peça contava a história de Bakunin e foi um trabalho em que o Marco desabrochou como ator. O diretor era Val Foli e fez o Marco desafiar seus próprios limites. Ele se pendurava em cordas, fazia mil malabarismos corporais. Era muito bom. Naquela época o Ricca era próximo das ideias anarquistas.

Pergunta > Levantando informações sobre a sua carreira de atriz, foi possível encontrar momentos lindíssimos de você cantando. É perceptível o quanto a música é forte na sua trajetória. Você chegou a montar espetáculos com músicas rebeldes, que questionavam todas as formas de opressões? Pode comentar um pouco sobre este trabalho?

Resposta < Não cheguei a montar nenhum show exclusivamente com músicas desse tipo. Como “cantatriz” fiz um espetáculo em homenagem a uma compositora paulista chamada Miriam Batucada. As canções dela são uma espécie de crônica sobre a vida de São Paulo. Ela é uma espécie de Adoniran Barbosa de saias. Ela também compôs lindas canções de amor, mas não eram canções de protesto.

Pergunta > Em 2017, centenário da revolução russa, ao lado da solidária Beatriz Tragtenberg, você realizou a peça “Horrores e Errores da Revolução Russa na visão crítica de Maurício Tragtenberg“. Como foi produzir um trabalho com a Bia? Qual foi a recepção das pessoas que assistiram?

Resposta < Tenho a maior admiração pela Bia. Foi um presente poder estar ao lado dela nesse trabalho. Há muito tempo que planejávamos fazer alguma coisa juntas, pois não há muitas atrizes anarquistas em São Paulo. Então ela me convidou para montarmos um espetáculo baseado no livro do Maurício Tragtenberg, com quem ela foi casada, sobre a Revolução Russa. Escrevemos o texto, ensaiamos, botamos cenário e figurinos e estreamos no Tuca (Teatro da Universidade Católica de São Paulo), dentro de um evento que discutia a Revolução Russa. Ficou muito bom! Pena que só fizemos uma vez. Mas o texto está aí pra quem quiser ler. Tenho a impressão de que o público gostou, mas que os marxistas ficaram meio ressabiados… O texto não poupou críticas a Lenin e Trotski!

Pergunta > Na peça com Beatriz, você assume a dramaturgia como uma crônica teatral. O que seria uma crônica teatral?

Resposta < A ideia de definir a peça como uma crônica foi da Bia. Achei muito legal, pois a peça foi composta de pequenas cenas que se sucediam em ordem cronológica. Começava no tempo dos czares com a Bia vestida de princesinha Anastácia e terminava com uma cena sobre a revolta dos marinheiros de Kronstadt em 1921. O epílogo era um encontro entre Emma Goldman e Louise Michel. Cada cena falava sobre os fatos verídicos da revolução e continha a nossa visão crítica dos fatos, com muita ironia e sarcasmo. Como pede uma crônica.

Pergunta > Falando em montagem, no ano de 2007, a Revista Verve publicou um texto teatral de sua autoria, segundo consta, foi uma proposta de aula-teatro. O que seria uma aula-teatro? O que tem de teatro e o que tem de aula na proposta?

Resposta < Em 2007 a Revolução Russa completava 90 anos e o pessoal do coletivo Nu-Sol (Núcleo de Sociabilidade Libertária) me convidou para fazermos um trabalho sobre os escritos de Emma Goldman sobre a Revolução Russa. O nome “aula-teatro” foi criado por eles. O texto tem vários autores. Aliás, ele já estava estruturado quando eu cheguei, mas o considerei pouco teatral. Então eu escrevi algumas cenas e dei um monte de ideias. Eles concordaram com tudo e o Edson Passetti dirigiu lindamente. Fez um espetáculo com figurino, luz, sonoplastia e tudo mais. Eu “roubei” o conceito de aula-teatro pra batizar o outro trabalho que fiz sobre a Emma em 2013. Escrevi um texto contando a vida dela desde o nascimento até sua expulsão dos Estados Unidos quando ela tinha mais ou menos 50 anos. Considerei que o texto não chegava a ser um texto teatral, como manda o figurino. Mas não queria que isso me impedisse de apresentá-lo. Daí a definição de “aula-teatro”. Não é um texto com dramaturgia bem acabada, mas também não é uma palestra. É uma mistura dos dois.

Pergunta > Você tem uma paixão pela militante anarquista Emma Goldman. Quando a incendiária Emma entrou em sua vida?

Resposta < Nos anos 1980 eu entrei numa livraria e vi esse livrinho. Comprei e me apaixonei. Descobri o telefone da autora, fui à casa dela e lhe pedi mais material sobre a Emma. Ela me deu dois calhamaços em inglês e em francês – eram duas versões do livro “Vivendo a Minha Vida“. Desde então eu batalhei muito pra montar um super espetáculo sobre a Emma. Mas não consegui. Só fui realizar meu sonho 30 anos depois.

Pergunta > Como foi o processo de escrita dramatúrgica da peça “Emma Goldman, uma Vida Libertária“?

Resposta < Eu tinha muito material sobre ela. Conhecia sua vida de cor e salteado. Já tinha pedido a vários amigos dramaturgos para escrever um texto. Mas nunca deu certo. Eu andava meio afastada do movimento anarquista. Com as manifestações de 2013 eu descobri uma quantidade inesperada de coletivos e grupos. Então em 15 dias eu sentei com um caderninho e fui escrevendo. Pensei: essa história e essas ideias têm que ser conhecidas! Fui arrumando, separando os fatos que achava mais significativos e teatrais. Quando ficou mais ou menos pronto eu entrei em contato com a organização da Feira Anarquista de 2013 e me ofereci pra apresentar. Fiz a primeira apresentação muito insegura. Acho que não ficou nada boa. Mesmo assim, um professor que assistiu me convidou pra fazer uma apresentação pra 150 alunos de uma escola pública. Foi muito legal! A moçada adorou. Daí eu me animei: refiz o texto, pensei numa trilha, pedi pra um amigo gravar a trilha pra mim e ele acabou sugerindo outras canções muito legais. Separei algumas imagens e meu filho montou um pequeno vídeo pra passar no final, com uma canção de fundo composta por meu companheiro. Achei que estava bem melhor. Daí pedi pra um diretor de teatro dar uma olhada. Ele ensaiou comigo umas três vezes, me deu várias dicas, mas falou que eu precisava de um texto melhor. Voltei a falar com alguns dramaturgos, mas ninguém se interessou. Mostrei o que eu tinha pra mais dois diretores e alguns amigos, que me ajudaram bastante. Daí resolvi apresentar assim mesmo, com o texto que eu tinha conseguido escrever. Com todos os seus problemas dramatúrgicos. Uma aula-teatro. Já fiz diversas apresentações, para públicos bem diferentes e vou em frente.

Pergunta > Quais as dificuldades e potencialidades de assumir o papel de dramaturga, diretora e atriz na peça “Emma”?

Resposta < As de dramaturga eu já contei. A de me auto-dirigir foi um desafio assustador. A cada apresentação eu pedia para o público opinar sobre o trabalho e eu ia anotando o que não estava bom e corrigindo. Gravei um áudio comigo falando e fui corrigindo a prosódia. Até agora ainda estou no processo de aperfeiçoamento. Há pouco tempo um amigo sugeriu que eu colocasse em cena dois “mancebos” pra pendurar os chapéus. Fiz isso e ficou bem melhor. Ainda tem muito pra arrumar. Vou fazendo isso no processo, mas não me arrependo de estar me expondo, mesmo sabendo que tem muito pra arrumar. Acho que a idade avançada tem esse privilégio: tudo fica mais urgente.

Pergunta > A sua visão de Emma tem circulado em diferentes cidades, muitas vezes em lugares e espaços organizados pela militância anarquista. Como estes espaços tem recebido a montagem?

Resposta < Os anarquistas já têm mais ou menos um conhecimento prévio sobre a Emma, então costumam gostar bastante. Quando apresento em espaços anarquistas eu tenho a alegria de saber que apesar deles conhecerem muitos dos fatos e ideias apresentadas na peça, eles curtem a maneira como elas foram organizadas na aula-teatro. É muito gostoso!

Mas eu me sinto mais feliz ainda quando apresento em espaços não anarquistas. É impressionante! Muitas pessoas entram em contato comigo querendo saber mais sobre a Emma e sobre o anarquismo. Outros vêm me dizer que não a conheciam e ficaram apaixonados. Outro dia um grupinho de jovens me falou: “Que legal! Nós entendemos tudo!” Uma outra vez, um menino de 14 anos de uma escola pública onde apresentei me disse: “Obrigado, eu nunca vou esquecer esse tesouro!”

A peça já foi vista por mais de 2000 pessoas. Acho que foi minha maior realização como atriz.

Pergunta > Eu tenho realizado uma mesma pergunta para muitas pessoas, gostaria de ter uma visão sua: quais os possíveis diálogos entre o anarquismo e o teatro na atual conjuntura?

Resposta < O teatro é sempre necessário. É a forma de arte mais completa para dar as respostas a qualquer conjuntura. O anarquismo é a única corrente política capaz de fazer uma crítica radical sobre as questões presentes no Brasil e no mundo e a que tem as mais eficazes soluções para elas. Cabe a nós, artistas e libertários fazermos essa ligação e fomentarmos esse diálogo.

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/11/26/cassiana-experimentar-o-teatro-experimentar-o-anarquismo-mexer-e-remexer-e-ver-no-que-da/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/08/31/sao-paulo-sp-emma-goldman-uma-vida-libertaria-e-atracao-na-casa-de-cultura-vila-guilherme-neste-domingo-02/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2013/12/12/a-vida-de-emma-goldman-no-teatro-no-ano-que-vem-pretendo-monta-lo/

agência de notícias anarquistas-ana

as peninhas
tão leves, flutuam
no ar

Akemi Yamamoto Amorim

[Espanha] Calendário da FAL 2019, ‘Mujeres Libres (1936-39), precursoras de um mundo novo’

A Fundação Anselmo editou um calendário 2019 como catálogo da exposição ‘Mujeres Libres (1936-39), precursoras de um mundo novo’ que tanto êxito teve ao longo do ano que acaba. Consiga o teu e ajude a financiar nossas atividades!

A exposição que agora ilustra o calendário, trata de recuperar a história esquecida da organização “Mujeres Libres”, uma agrupação feminina surgida no seio do movimento libertário durante o ano de 1936, cujo propósito era unir as mulheres da classe trabalhadora para lutar por sua emancipação.

O calendário conta com abundante material gráfico e documental inédito até agora, tem um tamanho A3 dobrado e grampeado com uma folha para cada mês e está impresso todo em cor.

COMO CONSEGUIR TEU EXEMPLAR:

Preço por unidade: 8 euros+gastos de envio (Para cada dez exemplares, presenteamos outros 3).

Devido aos altos custos do contrareembolso, preferimos que se faça um depósito da quantia (mais os gastos de envio: um exemplar, 1,55€; por 10, 5,25€) em nossa conta de número: (ES27 0182 4003 1702 0011 1862 de BBVA) especificando no depósito “pagamento calendários” e o autor do mesmo e em seguida nos avise para poder comprová-lo.

Os que moram em Madrid podem passar pela sede da fundação (C/. Peñuelas 41), Tarficantes de Sueños, La Malatesta ou qualquer das outras livrarias amigas.

O dinheiro obtido se utilizará para financiar a atividade da fundação.

Para pedidos, ou o esclarecimento de qualquer dúvida, podes contactar com a FAL através do seguinte e-mail: fal@cnt.es ou o seguinte número de telefone: 91 473 82 48.

Fonte: http://fal.cnt.es/blog/es/node/37021

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/03/15/espanha-inauguracao-da-exposicao-mujeres-libres-1936-1939-precursoras-de-un-mundo-nuevo/

agência de notícias anarquistas-ana

Eis o meu haikai:
Contido porém florido,
Bom (como um bonsai).

O Poeta de Meia-Tigela

[Espanha] Andaluzia: Após as eleições da Andaluzia, contra a desmobilização e o fascismo, organização e luta.

As recentes eleições na Andaluzia foram um confronto brutal com a realidade para aqueles que depositaram grande parte de suas esperanças nos resultados eleitorais. Para aqueles que confiavam no continuísmo, mais ou menos modulado pela [coligação de esquerda] “Adelante Andaluzia” [Podemos mais Esquerda Unida], do regime que o PSOE [socialistas] tem mantido por décadas em nossa terra e aqueles que o percebiam, como em Madrid, como um mal menor.

É evidente que a abstenção foi o caminho escolhido por muitos trabalhadores andaluzes para mostrar a sua rejeição, seu cansaço e desconfiança para aqueles que reclamando-se de esquerda mantiveram a nossa terra em prostração, falta de alternativas, pobreza, e exclusão social, com níveis crescentes de precariedade enquanto faz o governo o oposto do que foi prometido, repetidas vezes, a partir de um estilo de governo marcado há muito tempo pela arrogância e corrupção.

Mas estas eleições também foram um sinal de alerta sobre como o discurso da extrema direita populista foi se infiltrando no tecido social, abrangendo os efeitos brutais de anos de insegurança, desemprego, emigração, da absoluta falta de segurança e perspectivas vitais para muitos de nós que pertencem às classes populares da Andaluzia. Já sabemos que quando desde a esquerda no governo não há respostas para o desespero e a falta de expectativas da classe trabalhadora, a extrema direita, em qualquer de suas versões, está sempre à espera de sua vez.

Anos de reformas trabalhistas, declínio social, desemprego de longa duração, a precariedade vital, emigração, serviços sociais em declínio, deserto industrial, austeridade, o clientelismo e a corrupção, impulsionado mais ou menos por partidos que, afirmando-se diferentes, acabam praticando políticas muito semelhantes no fundamental, o que afeta a vida cotidiana da classe trabalhadora, que geraram o clima social do individualismo e desconfiança nas soluções coletivas, apatia, desesperança e bodes expiatórios, bem como o nacionalismo identitário, de um tipo ou outro, que evidenciam os resultados eleitorais do último domingo (02/12).

Porque nestas eleições, a abstenção e o voto para a extrema direita coincidem com uma forte desmobilização da classe trabalhadora, cujas causas podemos buscar na dureza da crise, o desemprego ou a insegurança, mas também no compromisso eleitoral excessivo e o acesso a parcelas muito limitadas de poder, ao sabor sempre dos meios de comunicação, como horizonte exclusivo para canalizar as aspirações que emergiram das praças, passeatas, greves gerais e manifestações contra as reformas trabalhistas, cortes de direitos e pensões, ou contra o patriarcado.

Mas desde o anarcossindicalismo defendemos que não há atalhos, e precisamos de um contrapoder popular nos locais de trabalho e bairros, como anticorpos contra o fascismo, com antecipação de outros valores, como a melhor ferramenta para permitir a transformação social radical que precisamos, essas eleições devem nos servir como uma chamada de atenção, como uma chamada à reflexão, não só para a ação, sobre a urgência da construção desde os sindicatos, dos ateneus, das assembleias de vizinhos e populares, dos centros sociais e ocupações rurais uma alternativa real e cotidiana com os milhões de trabalhadores e trabalhadoras que não votaram, mas que também não se organizam em um sindicato, nem saíram às ruas para defender seus direitos. Uma alternativa desde a solidariedade e da luta, também para aqueles que podem ser tentados a buscar nos bodes expiatórios, que lhes acenam desde a classe política e das oligarquias, a solução para seus problemas.

É hora de colocar as necessidades básicas da classe trabalhadora em primeiro plano, o Pão, o Trabalho, o Teto e a Dignidade, que gritamos coletivamente por ruas e estradas; tempo para construir ferramentas eficazes para a luta, desde baixo e buscando alianças; hora de se situar na primeira fila na defesa dos direitos e conquistas que certamente o governo da Junta, independentemente de sua composição, vai tentar minar, com o aprofundamento das políticas neoliberais que já estávamos sofrendo e que sempre escondem atrás de seus slogans eleitorais vazios, agravando ainda mais a situação de desemprego e precariedade.

O regime surgido da transição se desfaz e evidencia, o que deve ser para aqueles que o têm desafiado desde a sua criação, não sem preocupação e incerteza, uma oportunidade de fazer progressos para uma sociedade alternativa, mais justa e solidária.

Se não o fizermos, se não construirmos alternativas reais, também seremos responsáveis pela deriva fascista que se adivinha e que bebe do desespero e do ódio para os mais fracos como a principal válvula de escape. Portanto, temos que fazer realidade nosso chamado para se organizar e lutar.

Comitê Regional CNT Andaluzia

Fonte: http://cnt.es/noticias/andaluc%C3%ADa-tras-las-elecciones-andaluzas-contra-la-desmovilizaci%C3%B3n-y-el-fascismo-organizaci%C3%B3

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

o azul mais azul
além do cetim da safira
e do lápis-lazúli

Cláudio Daniel

Sebastián Oversluij presente! Em cada ação ofensiva contra o poder

Hoje voltamos a cruzar com o Angry desde o companheirismo, a irmandade e a amizade, tornando-nos cúmplices na memória, levantando uma memória anti-autoritária e combativa, lembrando Angry como um companheiro de luta, um amigo e um irmão, quatro anos depois de sua morte sob as balas de um mercenário do capital em meio de uma tentativa de expropriação bancária.

Reivindicamos uma memória que põe em perigo os planos do poder e alimenta nossas convicções de luta pela libertação total.

Cruzar os passos com Angry no transitar anárquico nos permite projetar sua vida até o presente, dialogando e tensionando suas vivências e reflexões com as nossas, conectando sua individualidade com o coletivo, vagando juntxs no caminho comum onde as ideias entre afins se materializam em projetos concretos de agitação anárquica e ação liberadora.

Angry algumxs conhecíamos em vida, outrxs fizemos através de seus escritos, de suas ações e das iniciativas de memória que surgiram no entorno dele.

Hoje, a cinco anos de sua última ação de combate, ativamos conjuntamente a memória para que o companheiro não seja esquecido. Recordamos Angry em suas múltiplas dimensões pessoais e políticas, reconhecendo nele a expressão criativa das ideias através do desenho, a música, a escrita, a tensão pela conseqüência entre palavra e ação, e a luta multiforme em uma constante prática de agitação e ação de confronto.

Tudo isso nos aproxima de sua vida desde diversos fluxos de afinidade e companheirismo em um cotidiano de luta contra o poder, projetando em nossa luta a vigência das ideias do Angry, pondo em contato as experiências e aprendizagens do passado com xs do presente para deixar claro que com a morte de umx companheirx a luta não morre, que a anarquia seguiu e segue viva em nossas ações e projetos atuais.

A nossa é uma memória iconoclasta que destrói a figura dx personagem heróicx ou extraordinárix. É uma memória da luta multiforme que lembra a vida do companheiro com suas contradições, afirmações, trânsitos e múltiplas decisões de luta, incluindo aquelas que o levaram ao longo de sua vida a praticar a ação direta e usar uma arma para expropriar o dinheiro de um templo do capital.

A nossa é uma memória negadora e perigosa, é uma parte da ação que busca destruir a autoridade, reforçando nossa identidade individual/coletiva como negadorxs do poder e da sociedade em ofensiva contra toda forma de dominação.

Nossa memória é um ato que dá sentido e se (re)afirma em um presente de luta, mantendo vigente uma promessa de guerra com a qual avivamos – como Angry fez – o fogo das individualidades anárquicas que influem na realidade, abrindo caminho para a Libertação Total em múltiplos espaços, projetos e ações de luta contra a autoridade.

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/12/15/chile-sebastian-oversluij-presente-em-cada-acao-expropriadora-e-de-ofensiva-contra-o-poder/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/12/14/chile-sabotagem-a-caminhao-de-transporte-de-animais-em-memoria-do-companheiro-sebastian-oversluij/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2013/12/15/chile-expropriacao-a-banco-estatal-termina-com-um-compa-morto-outros-dois-presos-e-um-fugitivo/

agência de notícias anarquistas-ana

Uma flor que cai –
Ao vê-la tornar ao galho,
Uma borboleta!

Arakida Moritake

Vídeo: A ascensão do fascismo no Brasil – Resista ao fascismo!

por Antimídia

À frente de um movimento neo-fascista, Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil. Com todas as características de um movimento fascista, seu líder carismático, a mobilização de massas, o nacionalismo, a perseguição violenta da oposição, entre outras, o neo-fascismo se diferencia do fascismo clássico por possuir políticas econômicas ultra-liberais, em contraste com o nacionalismo ferrenho.

Depois de 13 anos controlando o Estado, a esquerda partidária busca agora se mostrar como uma alternativa ao autoritarismo de Bolsonaro, achando que esquecemos que foram eles que aprovaram a lei antiterrorismo, que fortaleceram e militarizaram as polícias.

É o momento de nos prepararmos, nos reorganizarmos de baixo para cima, e através da solidariedade e do apoio mútuo sermos capazes de nos defender e de criar alternativas ao Estado e ao capital.

>> Assista o vídeo (03:27) aqui:

https://vimeo.com/303764083

antimidia.noblogs.org

agência de notícias anarquistas-ana

Ah, como é bonita!
Pela porta esburacada
surge a Via Láctea.

Issa

Claudia Andujar: a sobrevivente do Holocausto que há quase 50 anos luta pelos direitos dos ianomâmis

Fotógrafa Claudia Andujar viveu quase uma década com o povo ianomâmi em Roraima, registrando seu cotidiano e sua luta contra a violência, doenças e a destruição da floresta.

por Letícia Mori | 08/12/2018

Aos 40 anos, em 1971, a fotógrafa Claudia Andujar teve um encontro que mudou o rumo de sua vida.

Nascida na Suíça, Claudia já vivia no Brasil havia 16 anos, tendo construído uma carreira de sucesso no fotojornalismo. Mas naquele início da década de 1970, sua profissão tomou outra direção quando ela fotografou os índios ianomâmi de Roraima para a revista Realidade, que fazia um especial sobre a Amazônia. Na época, o povo ianomâmi era relativamente isolado.

A viagem não foi o primeiro contato dela com as populações nativas do Brasil. Amiga de Darcy Ribeiro, ela visitou por orientação dele a Ilha do Bananal em 1958, quando fotografou o povo Karajá – imagens que foram publicadas pela revista Life. Claudia também visitou os Bororo e os Xikrin Kayapó.

Mas foi o encontro com os ianomâmis que a marcou definitivamente. A fotógrafa se envolveu com a comunidade para o resto da vida, voltando inúmeras vezes para a região e mais tarde passando a militar em defesa dos índios, produzindo um acervo que agora é tema de exposição em São Paulo.

Nos anos 1970, ela decidiu abandonar São Paulo e foi viver na Amazônia – morando entre os Estados de Roraima e Amazonas. Uma bolsa da Fundação Guggenheim permitiu que ela se dedicasse integralmente ao trabalho com índios entre 1971 e 1974, e outra, da Fapesp, que ela continuasse o projeto até 1976.

Entre 1971 e 1977, fez uma série de fotografias a partir de sua convivência com os ianomâmis na região do Catrimani. Acompanhava o cotidiano na floresta e, na maloca (habitação coletiva), retratava as pessoas em suas atividades diárias e durante os rituais xamânicos – e foi passando cada vez mais tempo na floresta.

Andujar fez amizade com o missionário Carlo Zacquini, que vivia há muito tempo entre os ianomâmis, e passou a acompanhar viagens, festas e expedições de caça.

“É claro que cortar um animal é algo sangrento, mas, não sei, acho que já me acostumei com isso, não me choca mais e nem acho estranho. É o jeito que as coisas são”, descreveu ela, na época, em áudio gravado na mata. “Para falar a verdade, estou há tanto tempo com os índios que não acho mais nada estranho. Sempre olho e tento entender. As coisas são do jeito que são.”

Sobrevivente

A suíça Claudia cresceu na região da Transilvânia, entre a Romênia e a Hungria, com sua família paterna, de origem judaica.

Durante a Segunda Guerra Mundial, essa parte da família foi assassinada nos campos de concentração de Auschwitz e Dachau, e Claudia conseguiu fugir com a mãe de volta para a Suíça em 1944.

Depois emigrou para os Estados Unidos, onde foi morar com um tio. Lá, trabalhou como guia na sede da ONU e começou a se interessar por arte. Casou-se pela primeira vez, com Julio Andujar, refugiado da Guerra Civil Espanhola, mas se separou meses depois, quando ele foi enviado para a Guerra da Coreia.

A carreira de fotógrafa começou por volta de 1955, quando veio ao Brasil visitar a mãe. Sem falar português, ela decidiu ficar. Ao longo da carreira, produziu um acervo de mais de 40 mil imagens.

Uma seleção de cerca de 300 obras desse acervo será exibida no IMS (Instituto Moreira Salles) da avenida Paulista, em São Paulo, a partir de 15 de dezembro. A exposição terá também livros, documentos e uma instalação que fazem um panorama sobre a artista, que hoje tem 87 anos. A exposição terá entrada gratuita e funcionará de terça a domingo das 10h às 20h e, nas quintas, até as 22h.

Segundo Thyago Nogueira, curador da exposição, os anos de dedicação de Claudia ao seu trabalho fizeram com que seu interesse jornalístico se transformasse em “interpretação radicalmente original da cultura (ianomâmi)”.

Para Nogueira, um dos conjuntos de fotografias mais impactantes feito por Claudia nos anos 1970 é o registro das festas reahu – cerimônias complexas que misturam rituais funerários e ritos que reforçam a aliança intercomunitária, marcado pela fartura de comida.

Antes de registrar os rituais, ela fez experimentos fotográficos em São Paulo, testando lamparinas, flashes, e filmes infravermelhos, que depois usou na mata.

Sua obra também é repleta de retratos das centenas de pessoas que conheceu – crianças, jovens, adultos –, feitos com luz natural e que trazem um ar de intimidade.

A fotógrafa também propôs aos ianomâmis que eles mesmos representassem sua cultura e sua universo por meio do desenho de mitos e cenas do cotidiano. Em 1974, com a ajuda de Zacquini, levou à mata papéis e canetas hidrográficas. Cerca de 30 desenhos originais resultantes desse projeto estarão na mostra no IMS.

Devastação

Em quase uma década vivendo entre os ianomâmis, Claudia presenciou não apenas alegrias das festas e a placidez do cotidiano mas também cenas de conflito e devastação gerados pelo contato dos brancos com o povo indígena.

Ela foi testemunha de um rastro de doenças, violências e poluição resultantes dos conflitos de terras gerados pelo garimpo e pelos planos de desenvolvimento da Amazônia do governo militar. Comunidades indígenas inteiras foram aniquiladas, levando a fotógrafa iniciar uma batalha para ajudar o povo em sua luta por sobrevivência.

Em plena ditadura militar, ela acabou enquadrada, em 1978, pela Lei de Segurança Nacional. Foi expulsa do território indígenas pela Funai e voltou a São Paulo, onde começou a organizar um grupo em defesa da criação de uma reserva ianomâmi – a Comissão pela Criação do Parque Yanomami (hoje Comissão Pró-Yanomami).

A demarcação da reserva só foi acontecer em 1992, após a redemocratização do país e às vésperas da Rio-92, a conferência-geral da ONU sobre o clima realizada naquele ano no Brasil.

Ao assumir a coordenação da campanha pela demarcação da terra indígena, foi diminuindo seu trabalho fotográfico e dando força a seu ativismo político. Mobilizou ONGs nacionais e estrangeiras, participou de programas de saúde e educação na terra indígena, levantou dinheiro para a causa e viajou pelo mundo para denunciar o genocídio de índios.

Suas fotos se tornaram forte instrumento de luta política. Um de seus trabalhos mais conhecidos é uma série de fotos numeradas em várias regiões de cadastros de saúde e vacinação.

“Criamos uma nova identidade para eles, sem dúvida, um sistema alheio a sua cultura”, disse a fotógrafa sobre a exposição com seu acervo. “São as circunstâncias desse trabalho que pretendo mostrar por meio das imagens feitas na época. Não se trata de justificar a marca colocada em seu peito, mas de explicitar que ela se refere a um terreno sensível, ambíguo, que pode suscitar constrangimento e dor.”

Fonte: BBC News | Brasil

agência de notícias anarquistas-ana

Nuvem vaidosa
Pra se despedir do sol
Se vestiu de rosa.

Setsuko Geni Oyakawa

[França] Vídeo: Em Paris, antifascistas identificam grupo de extrema direita dos “coletes amarelos” e…

A onda de protestos do movimento chamado de “coletes amarelos” na França levou às ruas todo o espectro político do país, da extrema-esquerda à extrema-direita. Porém, neste último sábado (08/12), em mais um protesto em Paris, antifascistas identificaram um grupo de extrema-direita (Action Française) dos “coletes amarelos” entre os manifestantes. O que aconteceu? Os escrotos fascistas tomaram uma surra e foram postos para correr!

Paris, Paris, antifa!

>> Assista o vídeo (00:35) aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=29MdAWiWfMo

agência de notícias anarquistas-ana

Ah, terra natal —
Não toco nem chego perto
das roseiras-bravas.

Issa

[EUA] Relato de Riverside, CA, sobre o Dia do Skate Queer e Feminino

Por Cactus Collective|20/11/2018

Relato de um evento comunitário em Riverside, California, organizado pelo Coletivo Cactus.

O que é o dia do Skate Queer/Feminino?

Dia do Skate Queer para nós é uma reivindicação de espaço. Pessoas queer e mulheres não possuem espaço para se livrarem do assédio e ameças de violência da nossa sociedade. Assediadas, ameaçadas ou agredidas, nós raramente conseguimos romper com o medo constante que deriva da mera afirmação da nossa existência.

Com isso em mente, por muito tempo tivemos a ideia vaga de construir um evento relacionado ao skate, já que algumas de nós são skaters e vimos potencial em radicalizar outras pessoas na pista local. A ideia não foi desenvolvida por inteiro até uma membra desse coletivo ter sido sexualmente assediada no Hunt Skate Park, em Riverside. O seu crime foi o de ter um corpo de mulher e usar trajes de mulher em público. É desnecessário dizer que isso é completamente inaceitável. Depois de algumas conversas nós decidimos que a melhor maneira de revidar era ocupando espaço para nós mesmas, fazendo disso uma declaração de que não somos homens brancos e heterossexuais, e não vamos ceder espaço por isso.

Por quê?

O nosso mundo está pegando fogo, o fascismo está em alta globalmente e estamos lutando para pagar o aluguel e colocar comida na mesa. Para piorar, estamos sendo cada vez mais atacadas e marginalizadas pela administração atual através da audiência de Kavanaugh, e do retrocesso de direitos para pessoas trans nos locais de trabalho. Estamos sofrendo muito e retrair-se em nós mesmas só pode significar isolamento e depressão. Deve haver algo em que possamos nos sentir bem, algo que possa nos unir e nos fazer perceber que não estamos totalmente fodidas e sozinhas. O Dia do Skate Queer é a nossa resposta.

Nós vamos para a rua, encontramos com outras queers, ensinamos as pessoas a andar de skate, e nos engajamos com a nossa comunidade de maneira humana. O sentimento geral entre as membras do coletivo foi que não só o evento foi bem sucedido no seu objetivo de criar espaço, mas que também foi algo que todas as que participaram precisavam desesperadamente. Nós organizamos esse evento por acreditar em solidariedade e ajuda mútua. Cuidar umas das outras é o caminho e vamos continuar providenciando o suporte que a nossa comunidade precisa.

Como eu posso fazer isso na minha própria cidade?

Organizar não é magia, é algo que acontece no mundo real e pode ser feito por qualquer pessoa para qualquer fim. Não temos uma fórmula mágica, não é uma tarefa fácil. Organizar demanda dedicação, trabalho duro e um processo de tentativa e erro.

Se organizar não é simplesmente espalhar cartazes e esperar que as pessoas apareçam. Você tem que conversar com pessoas cara a cara e construir conexões. Se você é LGBT+, vá até encontros em faculdades (eles raramente se importam se você é um estudante ou não). Se existem organizações radicais na sua região, vá até elas e veja se estão dispostas a colaborar.

Não tenha simplesmente fé que as pessoas vão se convencer, peça-as para apoiar o seu evento, mesmo se elas não andam de skate. Se somente algumas pessoas aparecerem, não se sinta desencorajada. Se pergunte sobre o que funcionou e o que deu errado, e mude a abordagem da próxima vez. Só pelo fato de tentar já vamos aprendendo como fazer um mundo melhor e que a própria experiência já compensa todo o esforço.

Ficando por dentro:

Gay Shame (twitter.com/Evict_Twit_ter?s=09): As opiniões do movimento Gay Shame contra a gentrificação e sobrereivindicação de espaços queer nos ajudou a formular as nossas próprias ideias.

Unity Queer Skateboarding (unityzines.com)O modelo da Unity Queer Skateboarding é o que nós tentamos seguir, os seus eventos de skate nos inspiraram a começar a agir.

Fonte: https://itsgoingdown.org/queer-femme-skate-day-report-back-in-riverside-ca/

agência de notícias anarquistas-ana

Árvore sozinha
a primavera
me cobre de folhas

Ricardo Portugal

[Argentina] Mantêm-se na prisão os 10 anarquistas argentinos presos por colocarem explosivos

Um juiz federal manteve hoje (06/12) na prisão, para processá-los em prisão preventiva, dez anarquistas acusados de ter colocado dois explosivos em Buenos Aires, em um cemitério histórico e na casa de um juiz.

O juiz Federal Julián Ercolini disse em uma decisão que teve acesso a agência estatal Télam que os detidos faziam parte de uma “organização” que utilizava os explosivos, entre outros, para cometer “crimes contra a segurança, a fim de instilar o medo público, para impor as suas ideias e lutar contra os outros, e para gerar agitação social, tumultos e desordem”.

Os eventos

O primeiro incidente envolvendo explosivos ocorreu há três semanas, quando o grupo tentou explodir uma bomba caseira na casa do juiz federal Claudio Bonadio por suas atuações contra os anarquistas.

Uma semana depois, outra explosão atingiu uma mulher que a tinha preparado no histórico cemitério da Recoleta, juntamente com um acompanhante que foi preso.

A mulher que foi ferida após a explosão segue no hospital em estado grave, pelo que não pôde depor e o juiz não definiu a sua situação jurídica, ainda que o juiz considere que também faça parte do grupo anarquista.

A decisão do juiz

Segundo a investigação, os dois anarquistas tinham a intenção de atacar o mausoléu de Ramón Falcón, o chefe da Polícia de Buenos Aires que foi assassinado por um jovem trabalhador em 1909.

Em seu escrito, o juiz observou que, embora “inúmeras provas dão conta das ideias anarquistas” dos detidos, seu processamento não deve a isso, mas “ao modo usado para fazê-las prevalecer, colocando explosivos na casa de um juiz e onde jazem os restos de quem revestiu a chefatura da Polícia Federal e morreu produto de um artefato explosivo”.

Fonte: https://emisorasunidas.com/mantienen-en-prision-a-10-anarquistas-argentinos-por-colocar-explosivos/?fbclid=IwAR3xaZw9RvCChJLzG71ZYOzaNWMH7OQ2VuuzF3H3Cy73EPMdzd0Hs0WNjAI

Tradução > Liberto

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/11/15/argentina-jovem-lanca-bomba-em-casa-de-juiz-argentino-e-jazigo-do-ex-chefe-de-policia-ramon-falcon-e-atacado-a-duas-semanas-do-g20/

agência de notícias anarquistas-ana

Tão miseráveis,
As glicínias sem folhas
Do velho templo.

Buson

[São Paulo-SP] Quem matou Índio? – Uma resposta ao chamado anarquista por um Dezembro Negro

Como assim, quem o matou? Se os nomes e rostos dos assassinos já são conhecidos… A mídia carniceira não perdeu tempo em transformar rapidamente o acontecimento em espetáculo. Houve uma exposição não só de quem o agrediu até o último suspiro como da sua família, das transexuais a quem defendeu, da sua história de vida e uma série de informações, apenas para criar uma grande cortina de fumaça. Diante dessa situação vexatória, dois anos após sua morte, torna-se indispensável narrar o acontecimento desde abaixo das garras da dominação.

Numa noite natalina nada pacífica, dois neonazistas perseguiram transexuais que estavam dentro da estação Pedro II com intenção de faze-las o mesmo que fizeram com Índio. O que apenas demonstra a persistente caça contra quem liberta seus desejos e vontades e se levanta diante da normalidade imposta. No entanto, numa convicta negação da passividade, o vendedor ambulante de 54 anos decidiu firmemente defende-las. Essa atitude lhe custou a vida.

A presença dos guardas do metrô e dos cidadãos comportados não adiantou e não seria diferente. Todos os dias aquela estação está cheia de autômatos cegos pela rotina cumprindo ordens superiores. Luiz Carlos Ruas, negro, trabalhador autônomo, que mantinha seu ganha pão ao lado de fora da estação, na contramão desse marasmo habitual das cidades, no seu último dia, como provavelmente em seus tantos outros anteriores, seguiu instintivamente a busca pela liberdade.

Um ato verdadeiramente insurgente de solidariedade e ação direta, em meio a uma sociedade cada vez mais domesticada que fecha os olhos para a guerra instalada aqui e agora. Uma guerra contraditória reforçada pelos agentes que igualmente aos agressores causaram a morte de mais um negro sem nenhum questionamento dessa suspeita autoria. São estruturas todas programadas para matar e deixar morrer.

A postura da segurança do metrô não surpreende nem um pouco. São omitidos inúmeros casos dia após dia, de assédio sexual contra mulheres, de agressão contra pessoas que trabalham nos vagões do trem, espancamentos contra pessoas que não são bem-vindas nesse ambiente e meio de transporte que, apesar de poucas conseguirem pagar para usar, todas sofrem os danos da existência de tal tecnologia civilizatória que atenta contra a vida e a natureza. Nas veias da cidade corre o sangue derramado pelas autoridades e só dessa forma se mantém essa arquitetura assassina.

Portanto, ao lado de Alexis Grigoropoulos, assassinado pela polícia no gueto de Atenas em 2008, Sebastian Oversluij, assassinado pela segurança bancária após tentativa de assalto em 2013, ao lado de tantas outras pessoas que ousaram buscar a liberdade e por isso morreram sem ter seu nome lembrado, Luiz Carlos Ruas é mais um que está mais que vivo em cada ato de inconformidade e rebeldia incontida. As autoridades e a passividade mataram Índio.

A ÚNICA MORTE É O ESQUECIMENTO!

LUIZ CARLOS RUAS PRESENTE!

POR UM DEZEMBRO NEGRO!

Anarquistas

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/12/01/por-um-dezembro-negro/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/02/27/sao-paulo-sp-homem-negro-em-situacao-de-rua-e-assassinado-a-tiros/

agência de notícias anarquistas-ana

Chuva de primavera
A capa e o guarda-chuva}
Em viva conversa.

Buson

[Alemanha] Alemão é acusado de cumplicidade em 36 mil mortes em campo nazista

Um alemão de 95 anos que reside em Berlim foi acusado de ser cúmplice do assassinato de mais de 36 mil pessoas no campo de extermínio de Mauthausen, na Áustria, durante a Segunda Guerra Mundial, informou a procuradoria-geral de Berlim.

O homem, identificado somente como Hans H. por razões legais, supostamente serviu em uma companhia da SS nazista no maior campo de extermínio austríaco do verão de 1944 à primavera de 1945.

Ele é acusado de ter vigiado prisioneiros no campo, que fica a cerca de 20 quilômetros da cidade austríaca de Linz, e durante marchas para locais de trabalho forçado, disse a procuradoria-geral em um comunicado.

“Durante a época do crime, ao menos 36.223 foram mortas no campo de concentração de Mauthausen. Os assassinatos foram realizados em sua maioria por meio do uso de gás, mas também por meio de ‘ações de banho mortais’, injeções e fuzilamentos, e também por meio da fome e do frio”.

O suspeito estava “ciente de todos os métodos de assassinato, além das condições de vida desastrosas da pessoas encarceradas no campo”, disse o comunicado. O texto ainda afirma que ele quis “apoiar ou ao menos ajudar a facilitar as muitas milhares de mortes causadas pelo principal perpetrador”.

A procuradoria-geral disse que está apresentando as acusações segundo novas leis que permitem o processo de pessoas envolvidas no “maquinário da morte” nazista, ainda que não tenham matado ninguém pessoalmente.

Tendo em conta a idade avançada dos suspeitos, a Alemanha vem acelerando os processos de indivíduos de baixo escalão desde a condenação de John Demjanjuk, um guarda do campo de extermínio de Sobibor, em 2011. Seu caso estabeleceu um novo precedente segundo o qual nenhuma prova de um crime específico é necessária para condenar um réu.

Fonte: agências de notícias

agência de notícias anarquistas-ana

O canto do rouxinol
E seu biquinho
Aberto.

Buson

[Espanha] A memória que o franquismo apagou

O livro “Para hacerte saber mil cosas nuevas” reúne 4.000 histórias de represaliados pelo franquismo na província de Ciudad Real

por Agustín Cacho Borrás | 02/11/2018

Com os olhos da democracia é difícil muitas vezes ver a repressão que viveram muitas pessoas de nosso entorno. Uma barbárie que se exerceu desde o estado, quando a Espanha tinha um governo fascista e que deixou centenas de dramas familiares enterrados nos baús.

Histórias as quais o antropólogo Jorge Moreno trouxe à luz. Primeiro realizando um mapa da repressão na Ciudad Real e depois levou essas histórias a um livro que agora vê a luz: “Para hacerte saber mil cosas nuevas“. Reúne cerca de 4.000 relatos de repressão do franquismo na Ciudad Real. Trata-se de uma publicação editada pela UNED em colaboração com o Conselho Provincial de Ciudad Real.

Histórias que para muitos ecoam longe, outros a vivem muito próximo porque as sofreram em suas próprias carnes. É o caso de Germinal, ciudadrealenho neto, filho e sobrinho de represaliados.

Com uma mescla de orgulho e emoção, Germinal nos conta a história de seu pai, suas recordações de quando apenas tinha 5 anos são muito claras. Seu pai tinha feito parte da CNT durante a Guerra Civil. Quando terminou se transladou a Madrid. Após um breve período na capital da Espanha, foi detido e submetido a julgamento sumaríssimo e sem garantias. Passados uns poucos anos de seu fuzilamento, o próprio Germinal se pôs no cemitério, com apenas 11 anos, para tirar os restos de seu pai e dar-lhe uma sepultura digna.

Sentada junto a Germinal se encontra Paloma. Seu avô também é um dos represaliados que aparecem no livro, uma história que lhe foi transmitida por sua mãe. Foi em fevereiro de 1942 e também após um julgamento sumaríssimo, fazia três anos que havia terminado a guerra. Após vários anos escondido em sua casa, sob uma cama e sem que nem sequer sua própria filha o pudesse chamar papai, foi detido e executado mediante “garrote vil”.

Uma horripilante história de um estado que mostrava sua pior cara… e que marcava a lei do silêncio. Por isso, diz Paloma, é fundamental contá-lo, para fazer justiça a toda uma geração que ainda segue viva.

Paloma, após a morte de seu pai há algumas décadas, animou a sua mãe a escrever a história da família, e quando conheceu o projeto quis que fizesse parte do livro, e a transcreveu.

A ditadura na maioria dos casos não ficou apenas nisso, deixou as famílias dos represaliados na mais absoluta miséria, assinalados durante décadas e no último escalão social.

Fonte: http://cadenaser.com/emisora/2018/10/31/ser_ciudad_real/1541012759_278498.html?fbclid=IwAR2_dMnHqEFOsyvN8Gp7FXCoKEVpNX4MPeOGK1APQW1UJP9idG3uzaebupg

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Atrás do portão
um latido afoito
chegamos junto com a noite

Winston

[EUA] Entrevista com Matthew N. Lyons sobre o antifascismo, o anti-imperialismo e o futuro da organização

Segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Matthew N. Lyons é um autor e pesquisador antifascista cujo trabalho começou há vinte e cinco anos. Sempre na vanguarda da compreensão de como a extrema direita se transforma e se reconfigura, ele desenvolveu uma obra histórica e teórica profunda que está diretamente destinada a ajudar na organização do antifascismo e alcança resultados.

Seu livro “Right-Wing Populism in America: Too Close for Comfort”, em coautoria com Chip Berlet, analisou a história dos Estados Unidos e aprofundou o que exatamente se entende pelo termo ambíguo “populismo” e como motiva a classe trabalhadora a assumir movimentos políticos radicais de direita. Foi precursor do blog “Three-Way Fight”, nomeado assim pelo conceito de que qualquer luta revolucionária pode ter uma força insurgente que é diferente da esquerda e da classe dominante, e é nesse ponto onde você pode encontrar muitas vezes ideólogos fascistas construindo sua própria versão de um movimento revolucionário.

Em seu livro mais recente, “Insurgent Supremacists: The U.S. Far Right’s Challenge to State and Empire” (Supremacistas Insurgentes: O Desafio da extrema direita americana desafiando o Estado e o Império), Lyons analisa as tensões do fascismo que se apropriam das lutas anti-imperialistas e outras frequentemente associadas com a esquerda, e como a extrema direita está mudando e criando novos movimentos sociais, e como podemos entender o futuro do fascismo.

Esta é uma entrevista com Matthew N. Lyons que faz algumas destas perguntas, como entender o populismo e o fascismo, como os fascistas usam a política anti-imperialista e anticapitalista, e o que podemos fazer sobre isso.

Seu livro passa muito tempo discutindo movimentos anti-imperialistas, anticapitalistas e antiguerra que se cruzam com o fascismo. Qual é a posição nacionalista sobre essas questões? Como sua perspectiva rompe com a interpretação que a esquerda tem desses movimentos?

Nas seções do livro ao qual você se refere, meu foco não é tanto na interseção dos movimentos anti-imperialistas, anticapitalistas e antiguerra com o fascismo. Pelo contrário, são as tendências anti-imperialistas, anticapitalistas e antiguerra dentro dos próprios movimentos de direita. Essas tendências tomaram várias formas e têm profundas raízes históricas, tanto no fascismo clássico quanto em seções do conservadorismo americano. Hoje, nos Estados Unidos, a extrema direita acredita que o governo dos EUA e muitas instituições transnacionais, como as Nações Unidas são controlados por elites globalistas malévolas, que estão trabalhando para enfraquecer e destruir as sociedades tradicionais e homogeneizar tudo para ajudar a construir sua própria riqueza e poder. Os nacionalistas brancos definem essa suposta ameaça em termos raciais, como as elites judaicas contra a raça branca, enquanto outros ramos da extrema direita nos Estados Unidos (como teocratas cristãos e a maioria dos grupos patrióticos) tendem a defini-la como um ataque à soberania nacional dos Estados Unidos e à cultura ocidental.

Aqui estão duas coisas diferentes acontecendo. Fascistas e outros fascistas de direita têm uma longa história em fornecerem uma versão distorcida da política da esquerda radical, para ajudá-los a aproveitar a energia rebelde e raiva do povo contra o status quo. Quando eu descrevo dessa maneira, parece oportunismo político, e isso é definitivamente parte disso. Mas a um nível mais profundo, há aqui um conflito genuíno entre o capitalismo global moderno e as hierarquias sociais tradicionais, tais como raça, nação e sexo que serviram bem ao capitalismo no passado, mas agora, por vezes o restringem. O capitalismo global moderno depende da movimentação de bens e serviços e de trabalhadores e investimentos em fronteiras antigas, nacionais ou não. Isso ameaça muitos grupos sociais tradicionalmente privilegiados, cujo privilégio é baseado nessas fronteiras e divisões. Assim, por exemplo, as corporações multinacionais pressionam a entrada de mais trabalhadores estrangeiros, o que desencadeia uma reação anti-imigrante. E há também empresas multinacionais pressionando para projetar poder militar estrangeiro para ajudar a proteger seus investimentos e setores da direita, fascista e outros, se alinham contra eles e dizem que o nosso povo nada tem a ganhar nessas guerras.

Na superfície, a oposição da extrema direita ao intervencionismo militar ou às elites capitalistas ou ao imperialismo pode parecer de esquerda. Mas existem diferenças básicas subjacentes. A política de esquerda baseia-se – pelo menos em teoria – na promoção da igualdade humana e no desmantelamento da opressão e exploração humanas. Em contraste, fascistas e outros direitistas acreditam que a igualdade humana é uma farsa. Dizem que a desigualdade é inevitável ou um bem positivo que deve ser protegido. Para eles, as elites capitalistas globais são ruins porque as veem como promotoras da igualdade, não como oponentes. Uma questão relacionada é que uma crítica genuinamente radical de poder se concentra em sistemas de opressão e exploração, enquanto a extrema direita geralmente analisa o poder em termos de teorias da conspiração que culpam um grupo sinistro de pessoas de fora (como os judeus) que supostamente distorcem o funcionamento normal da sociedade, pelos problemas sociais.

Como você define o fascismo?

Em Supremacistas Insurgentes e outros escritos ofereço uma definição prática do fascismo como “uma forma revolucionária do populismo de direita, inspirado por uma visão totalitária do renascimento coletivo, que desafia o poder político e cultural capitalista, promovendo hierarquia econômica e social”. Isto é baseado em um esforço para combinar duas abordagens diferentes. O historiador Roger Griffin vê o fascismo como uma ideologia política que enfatiza um mito da recriação nacional, ou renascimento coletivo de uma crise quase fatal. Em contraste, uma série de marxistas independentes (desde August Thalheimer na década de 1930 a J. Sakai e Don Hamerquist hoje) analisaram o fascismo como uma relação contraditória com a classe dominante capitalista – atacar a esquerda e promovendo a hierarquia de classes, mas também perseguindo uma agenda que se choca com os interesses capitalistas de uma maneira importante. Ambas as abordagens consideram o fascismo como uma força revolucionária de direita, mas Griffin é forte em delinear a ideologia fascista, enquanto os marxistas independentes são fortes na dinâmica de classe do fascismo. Ambos são importantes.

Eu faço uma distinção clara entre o fascismo e o que eu chamaria de autoritarismo conservador. A maior parte da repressão nas sociedades capitalistas opera mais ou menos diretamente nos interesses das grandes empresas. Eu vejo o fascismo como uma campanha para arrancar o controle político das grandes empresas e estabelecer uma nova elite política. Historicamente, os fascistas fizeram acordos com os capitalistas para ajudá-los a conquistar o poder, mas o pressuposto de que os capitalistas poderiam parar os fascistas foi errôneo. Em vez disso, os fascistas tentaram reformar todas as esferas da sociedade de acordo com a sua própria agenda totalitária e, no caso do nazismo alemão, empreenderam uma profunda transformação e de grande alcance da ordem social de acordo com sua ideologia racista. Muitos regimes capitalistas cometeram genocídio contra populações vulneráveis, mas o nazismo é o único regime que cometeu genocídio contra um setor significativo da classe operária industrial, um ato que colidiu diretamente com os interesses econômicos dos capitalistas.

Nos Estados Unidos de hoje, a política fascista é impulsionada por uma visão totalitária para reformar a sociedade, mas isso pode assumir diferentes formas. A visão dos nacionalistas brancos concentra-se na raça e no sonho de criar uma nação totalmente branca. Mas acho apropriado usar o termo “fascismo” também para visões totalitárias de direita que não se concentram na raça. O exemplo mais importante é a facção linha-dura dentro da direita cristã – liderada pelos Reconstrucionistas Cristãos – que querem impor uma teocracia completa. Essa visão enfoca a religião, é claro, mas também a supremacia masculina e a conformidade de gênero, muito mais que raça. Além disso, algumas correntes fascistas, como a rede de Lyndon LaRouche, levam adiante a visão do fascismo clássico de um grande estado centralizado, mas muitos fascistas agora querem impor sua visão totalitária de forma descentralizada – através de redes “tribais” ou “etno-estados” segregados ou igrejas locais e famílias patriarcais. Usei o termo “totalitarismo social” para descrever esse tipo de política autoritária e descentralizada.

Como você vê a administração Trump em relação ao nacionalismo insurgente branco? Sua opinião mudou no tempo em que Trump está no cargo?

Nacionalistas brancos – não apenas pessoas com políticas racistas, mas pessoas que querem especificamente criar uma nação totalmente branca – desempenharam um papel mais importante na eleição de Donald Trump em 2016 do que na eleição de qualquer um de seus predecessores. Mais especificamente, o uso hábil do ativismo na Internet pelos nacional-populistas (direita alternativa) foi um fator significativo para derrotar os rivais republicanos de Trump e, em menor escala, para derrotar Hillary Clinton. Após a eleição, Richard Spencer proclamou que os nacional-populistas eram a vanguarda da coalizão Trump. Ao mesmo tempo, os nacional-populistas tinham claro que Trump não era um nacionalista branco, mas que ele era útil, mas ele não era um deles. Faria algo que eles quisessem, e lhes daria tempo e espaço para espalhar sua mensagem, mas eles não compartilhavam seus objetivos de longo prazo.

Desde a posse de Trump, os nacional-populistas têm sentimentos muito mistos sobre sua administração. Eles gostaram de sua demagogia e bode expiatório e seus movimentos contra imigrantes de cor e muçulmanos, mas eles gostariam que fosse muito mais longe. Eles gostam de algumas de suas ações de política externa, como desafiar a ortodoxia do livre comércio, criticar a OTAN e se aproximar de Kim Jong-un. Mas, em graus variados, eles também acham que ele capitulou (ou talvez esteja sendo chantageado) pelo establishment conservador. Eles não se importam muito com as posições conservadoras que ele tomou sobre a política fiscal e a destruição do Obamacare. Eles odeiam seu apoio a Israel e seus ataques com mísseis contra o governo de Assad na Síria. Alguns deles ainda olham para Trump positivamente, enquanto outros acham que não tem remédio.

Na obra Supremacistas Insurgentes, argumentei que a administração Trump representava uma coalizão entre conservadores convencionais de vários tipos e nacionalistas da “Primeira América”, alguns dos quais tinham ligações com a direita alternativa (nacional populismo). Eu ainda acho que isso está correto. Vários dos American Firsters deixaram o governo, como Steve Bannon e Mike Flynn, mas ainda há vários, como Stephen Miller, Peter Navarro e especialmente Jeff Sessions. Eles se beneficiam do que parece ser o desprezo sincero de Trump pela maioria dos políticos do establishment, mas são limitados pela falta de uma base organizacional coerente e pela falta de uma base coerente de apoio dentro da classe dominante. Os Mercers e Peter Thiel são assustadores, mas não está claro para mim se eles representam uma tendência orgânica maior dentro da comunidade empresarial ou se são apenas direitistas linha-dura que de repente se tornaram bilionários. É claro que existem setores de negócios que estão felizes que Trump está desmantelando as regulamentações industriais, mas que parte de sua agenda é apenas uma extensão das políticas neoliberais anteriores. Quais setores de negócios apoiam o nacionalismo dos EUA? Estou muito interessado em saber mais sobre isso.

Advertências periódicas de que Trump é fascista ou está se movendo em uma direção fascista parecem estar ganhando ímpeto novamente. Eu não concordo, embora eu concorde com alguns elementos do argumento. Muitas pessoas usam o termo “fascismo” vagamente, para cobrir toda e qualquer forma de autoritarismo ou repressão da direita. Para mim, o fascismo tem que implicar um impulso para transformar sistematicamente todas as áreas da sociedade de acordo com uma visão ideológica totalitária. Eu não vejo nenhuma evidência de que Trump tenha tal visão ou que ele tenha a intenção de implementar qualquer mudança sistemática, e ele certamente não tem o tipo de base organizacional independente que seria necessária para realizá-la.

O que eu acho que é verdade e é bastante sério é que Trump está tornando o sistema político dos Estados Unidos mais autoritário. Parte disso é continuar o processo de expansão gradual dos poderes e mecanismos repressivos do governo, um processo que vem ocorrendo há décadas sob presidentes republicanos e democratas. Mas Trump e seus partidários também estão mudando drasticamente o clima político, elevando o bode expiatório e demonização de oponentes políticos, incluso dos principais, em níveis que não temos visto desde o início dos anos 1950. Trump e os seus apoiantes têm insultado as notícias a ponto de o New York Times poder publicar uma grande exposição dos crimes fiscais de sua família e ele nem se incomodar em negar isso. Estes movimentos não têm nada a ver com o fascismo, mas significativamente enfraquecem o quadro liberal-pluralista (não é uma democracia, mas também não é uma ditadura) e facilitam significativamente o desenvolvimento e imposição de algum tipo de autoritarismo sistemático, organizado e ideológico. Eu não acho que Trump é parte disso, mas poderia chegar lá rapidamente.

Como você define o populismo? Por que você acha que houve um aumento no populismo em todo o mundo neste momento?

Eu vejo o populismo como um tipo de política que visa reunir “pessoas” em torno de alguma forma de antielitismo. É assim que Chip Berlet e eu definimos o populismo de direita nos Estados Unidos, e é baseado no trabalho da cientista política Margaret Canovan. O populismo pode ser amplamente dividido entre as variedades da esquerda e da direita. John Judis em A Explosão Populista dá uma boa e sucinta explicação da diferença. Ele diz que os populistas de esquerda definem a luta em termos dualistas – o povo contra a elite – enquanto os populistas de direita alegam que a elite está manipulando um ou mais grupos externos – como imigrantes, muçulmanos ou mães da assistência social – para que “o povo” possa ser espremido de cima e de baixo.

Existem sérios problemas com o populismo de esquerda e de direita, mas os problemas são diferentes. O populismo de esquerda pode ser uma estrutura para atacar a desigualdade real e impotência, e, nessa medida pode desempenhar um papel positivo, mas simplifica o conflito social, ao reduzi-lo a apenas o povo contra a elite. Por isso, tende a ignorar – e, portanto, reforçar – outras formas de opressão que não coincidem com aquela linha divisória simples.

O populismo de direita também ignora muitas coisas, mas o maior problema é que ele aborda diretamente os grupos oprimidos e marginalizados como bodes expiatórios e demonizadores, porque o seu conceito de “povo” tem muito a ver com a defesa de privilégios e também com o antielitismo. Além disso, a forma como o populismo de direita define a elite é baseado em uma espécie de bode expiatório, que se concentra em um subconjunto específico dentro da elite ou pessoas que não são de elite de todo. Assim, enquanto o populismo de direita se alimenta em parte da raiva das pessoas por serem golpeadas, se canalizada para ataques que fortalecem e intensificam a hierarquia, a opressão e a violência institucionalizada.

Como você diz, ultimamente tem havido um aumento do populismo em muitas partes do mundo, e isso inclui tanto as versões de esquerda e de direita. Em termos muito gerais, vejo dois grandes fatores contribuintes. Um deles é uma crise do sistema capitalista mundial – com destaque para a crise financeira de 2008, mas vai muito além – e um reconhecimento generalizado de que as políticas convencionais que têm dominado a maioria dos governos durante décadas, na verdade, só servem para uma pequena minoria. O outro fator importante é a fraqueza da esquerda radical – provocada por uma combinação de repressão externa e seus próprios defeitos internos – e sua incapacidade de reunir grandes segmentos da população na maioria dos países. Portanto, muitas pessoas estão com fome de alternativas, com fome de uma saída, e muitas vezes o populismo parece ser a melhor opção.

Existe algum exemplo de resistência organizada que está acontecendo atualmente e que você acha que é um bom modelo para combater a extrema direita?

Não sei se há um exemplo em que eu diria: “aqui está o modelo de resistência que devemos seguir”, mas acho que houve uma série de eventos muito positivos. Eu acho que o princípio da “diversidade de táticas” é muito importante, isto é, ações organizadas de modo que há espaço para as pessoas adotarem uma variedade de abordagens militantes e não militantes, e que entende que complementam e apoiar uns aos outros, em vez de competir ou estar em conflito. Eu sei que as pessoas na Bay Area e em Portland, por exemplo, trabalharam duro durante o último ano ou mais para construir coalizões baseadas nessa abordagem, e tiveram alguns sucessos importantes como resultado.

Eu também gosto muito do princípio da “autodefesa comunitária”, como defende a Comissão de Defesa Geral de Cidades Gêmeas, o IWW e outros, o que significa que o antifascista não deve olhar para o Estado para nos proteger, porque o Estado realmente não está do nosso lado, mas deve tentar construir conexões com as comunidades da classe trabalhadora e se basear nelas. Outro exemplo positivo que vou mencionar é a rede Solidariedade e Defesa de Michigan, que é um dos grupos que ajudaram a parar a campanha de mobilização da extrema direita em 2017-2018, e enfatizou as ligações entre resistência à extrema direita e a luta contra a opressão institucionalizada na forma de despejos de casas, violência policial, deportações de imigrantes e refugiados, etc.

Eu também particularmente aprecio quando as pessoas se aproximam do ativismo antifascista com um espírito de humildade e disposição para aprender com os erros. Acho que um exemplo disso foi o artigo “Tigertown derrota os nazistas“, que é uma reflexão autocrítica sobre o maciço protesto de abril de 2017 contra Richard Spencer em Auburn, Alabama. Eu não posso falar sobre os eventos específicos que aconteceram lá, mas achei que o espírito do artigo era realmente construtivo e positivo.

Como o movimento anti-imperialista pode isolar a extrema direita?

Primeiro, os anti-imperialistas de esquerda e liberais devem ter uma política rígida de não colaboração com os da extrema direita. Isso significa não participar de eventos políticos e não permitir que participem de nossos eventos. Significa não lhes dar uma plataforma em nossa mídia para transmitir seus pontos de vista e não legitimar sua mídia aceitando convites para publicar nossos artigos ou ser entrevistados.

Em segundo lugar, vamos reconhecer e lutar contra a dinâmica opressiva dentro da esquerda que ressoa com a política da extrema direita – dinâmicas como o autoritarismo e a transfobia e a violência sexual. E mais especificamente, lutar contra os elementos da ideologia da extrema direita que influenciaram setores da esquerda. Na década de 1980, o Christic Institute tomou emprestado as teorias da conspiração “anti-establishment” da rede de Lyndon LaRouche e outras fontes de extrema direita e as reembalou para o público progressista. Hoje, grupos como o Centro de Pesquisa em Globalização desempenham um papel semelhante. Vamos desenvolver fortes análises radicais de sistemas de poder institucionalizados e rejeitar teorias de conspiração falsas e radicais, muitas das quais estão enraizadas no antissemitismo.

E precisamos de um radicalismo consistente especificamente com relação a Israel. Eu sou um judeu antissionista: rejeito o apartheid israelense contra os palestinos e a apropriação sionista da identidade judaica com fins racistas e imperialistas, e rechaço as campanhas de difamação que igualam a crítica a Israel com o antissemitismo. Mas é perturbador e perigoso quando vemos esquerdistas autointitulados apresentando os sionistas como uma espécie de força superpoderosa que controla a política externa dos EUA ou o capitalismo global, ou descartando quaisquer preocupações sobre o antissemitismo na esquerda como propaganda sionista.

Em terceiro lugar, acredito que devemos rejeitar a análise de esquerda simplista celebrando qualquer oposição percebida em relação ao poder internacional dos Estados Unidos como “anti-imperialista” – e automaticamente equiparar o anti-imperialismo com o “progressista”. O governo de Assad tem implementado políticas econômicas neoliberais, colaborado com o programa de entrega da CIA e matou milhares de palestinos, mas de alguma forma agora se supõe ser anti-imperialista. E se todo o anti-imperialismo é automaticamente progressista, devemos celebrar os ataques de 11 de setembro contra o World Trade Center e o Pentágono? Estes ataques atingiram os centros do poder imperialista mais fortemente do que qualquer coisa que Assad e seus aliados fizeram, mas também mataram 3.000 pessoas e foram levados a cabo em nome de uma ideologia profundamente reacionária. E se todo o anti-imperialismo é automaticamente progressista, devemos unir forças com os neonazistas que realmente celebraram os ataques de 11 de setembro como golpes heroicos contra as elites judaicas globalistas? O que é necessário aqui, novamente, é o reconhecimento de que há mais de dois polos políticos no mundo, e – como vêm dizendo há anos os antifascistas radicais – o inimigo do meu inimigo não é necessariamente meu amigo.

Fonte: https://antifascistnews.net/2018/10/22/insurgent-supremacist-an-interview-with-matthew-n-lyons-on-antifascism-anti-imperialism-and-the-future-of-organizing/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

se andava no jardim
que cheiro de jasmim
tão branca do luar

Camilo Pessanha

[Espanha] Lançamento: “A prostituição | Perspectiva e propostas libertárias”, de Elena Villarreal

A prostituição é um fenômeno que, em determinados momentos históricos, provocou acirrados debates. Estamos vivendo um desses momentos. Poderíamos dizer que há três fatores que influem profundamente, a extensão e virulência deste debate. O primeiro fator estaria relacionado com como a Espanha, segundo todos os informes, triplica atualmente em consumo de prostituição os países de seu entorno geográfico e cultural. Outro aspecto seria o impulso, nos últimos anos, do movimento feminista na Espanha que conseguiu forçar a introdução de certas problemáticas no centro do debate político. Por último, a natureza do debate é tal, que mais parece um campo de batalha, que um debate em si, pelo que se tem multiplicado todo tipo de publicações, debates especializados, tertúlias televisivas, etc., para posicionar-se nesta batalha política.

O debate é duro e, frequentemente, profundo e complexo. A complexidade é tal que argumentos enfrentados são constantemente usados por feministas de parecidas ou idênticas sensibilidades políticas.

O movimento anarquista, desde suas origens, considerou a prostituição um problema de primeira ordem. Não obstante, as profundas mudanças sociais e culturais do último século mostram novos matizes e mudanças sensíveis no debate sobre o mundo da prostituição. Elena Villarreal entra de cheio neste debate para desvendar as relações de poder que o atravessam.

La prostitución

Perspectiva e propuestas libertarias

Elena Villarreal

La Neurosis o Las Barricadas Ed., Coleccion Lmentales, 11. Serie Contemporánea. Madrid 2018

106 págs. Rústica 15×12,5 cm

5.00€

laneurosis.net

agência de notícias anarquistas-ana

Aberta a janela,
Um colorido entre as folhas —
Primeiras azaleias!

Marly Barduco Palma