Cuba vê oposição fragmentada após condenados por atos

Justiça da ilha mira até ativistas menores de idade e provoca denúncias de torturas por parte de ONGs

Por Sylvia Colombo | 26/04/2022

Em seu apartamento no distrito de Alamar, na capital cubana, Leonardo Otaño, 30, mantém nove plantas em latas antes usadas para comercializar tomates. “Cada uma delas corresponde a uma das vezes em que fui preso ou chamado a depor”, diz o professor e doutorando em história na Universidade de Havana.

“Para cada momento ruim da vida, a gente espera um momento bom, por isso esse pequeno ritual.”

Entre livros e um aquário, o ativista pede desculpas pela falta de arrumação na casa, que ostenta uma foto dele com o papa Francisco, em 2015, quando o pontífice visitou Cuba. Otaño, que integrou o grupo Archipiélago, organizador dos protestos de 11 de julho de 2021 em mais de 50 cidades e da tentativa de manifestação em 15 de novembro –duramente reprimida–, é religioso, mas professa uma “versão progressista, de esquerda, da Igreja Católica”, além de ser admirador da Teologia da Libertação.

“Nada mais distante do que ser de esquerda e progressista do que o regime totalitário que há hoje em Cuba. Sou de esquerda e não aceito que digam que os que estão hoje no poder também são.”

Desde o início da repressão pós-11J, e ainda mais após o fracasso do 15N, Otaño se concentra apenas em amparar as famílias dos presos políticos que vêm sendo condenados por participarem dos protestos.

Dos 1.395 detidos em 11 de julho, 728 continuam presos –e os julgamentos se dão a conta-gotas. Desde então, segundo dados oficiais, 128 pessoas foram condenadas a um total de 1.916 anos de prisão.

Nas últimas semanas, sete jovens, entre 16 e 18 anos, receberam ordens de 19 a 25 anos de internação. Dados compilados pelas ONGs Cubalex, Prisoners Defenders e Anistia Internacional mostram que mais de 40 menores já foram alvo de decisões do tipo, com penas superiores a 15 anos de reclusão. As ONGs também acusam a ocorrência de torturas, privação de luz e comida, além de choques elétricos.

Esperanza (nome fictício), que aceitou falar com a Folha de S.Paulo com a condição de que a reportagem caminhasse com ela pelo Malecón, principal via de Havana, para evitar a impressão de que estava sendo entrevistada, chora ao falar do filho, de 19 anos, condenado a 25 anos de prisão por “distúrbios à ordem pública”.

Ao mesmo tempo que destaca o esforço para obter uma anistia, ela afirma esperar que o rebento entenda o quão duro é para a família ser vigiada em idas ao mercado ou quando os irmãos vão à escola.

Assim que as condenações começaram a ser divulgadas, um grupo de 35 mães passou a atuar na coleta de assinaturas para a petição de anistia e no contato com tribunais e organismos internacionais.

As penas assustam os cubanos, principalmente os de bairros pobres da capital. Se nas ruas de Habana Vieja, o centro turístico, a presença de policiais e de militares é pequena, não é assim em Guanabacoa e Los Pocitos ou no interior do país, especialmente em Camagüey e Holguín, locais com tradição de rebeldia contra o sistema e que se manifestaram com intensidade no 11J.

O líder da ditadura cubana, Miguel Díaz-Canel, afirma não haver presos políticos na ilha e diz que as condenações são por crimes contra a segurança do Estado e por colaboração com forças estrangeiras.

Enquanto conversa com a reportagem, Otaño mostra o bairro em que vive e que resume a degradação do sonho da revolução socialista, em 1959. Alamar foi um projeto encabeçado por Fidel Castro (1926-2016) e reúne prédios de inspiração soviética, com apartamentos pequenos, mas com “tudo que o uma família precisa”. As unidades são praticamente idênticas, e há imagens dos próceres da revolução em cada esquina. “A ideia era construir um bairro onde viveria o ‘homem novo’, que não buscaria ter mais do que os outros”, diz.

A realidade atual, porém, exibe espaços insuficientes, esgoto a céu aberto e reclamações constantes devido a apagões de eletricidade. Moradores de bairros pobres de Havana dizem que a falta de luz chega a durar cinco por horas diárias –no interior, o relato é de dias inteiros sem energia.

De modo geral, a oposição está fragmentada. Há, por exemplo, ativistas que apostam em uma saída institucional, com uma anistia que viria por meio das vias legais. Muitos artistas, que com movimentos como o San Isidro e o espaço Aglutinador lutaram pela liberdade de expressão, deixaram o país.

Em seu ateliê, Sandra Ceballos, 61, oferece uma cadeira à reportagem avisando que não se trata de qualquer cadeira: “É uma das originais da mítica sorveteria Coppelia”, conta, com orgulho. A Coppelia ganhou projeção internacional com o filme “Morango e Chocolate” (1993), dos diretores Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío, uma das primeiras obras a tratar da questão LGBTQIA+ em Cuba.

A sorveteria foi também um esforço pessoal de Fidel, que, determinado a fazer com que os cubanos tivessem “o melhor sorvete do Caribe”, importou em 1966 o maquinário mais moderno na Europa. Hoje um ponto turístico, o local, no entanto, vem perdendo qualidade. O aumento dos preços dos ingredientes e a falta de leite faz com que o produto muitas vezes venha aguado ou com gosto de soja. A história explica por que Ceballos guardou uma cadeira original.

Ex-integrante do Archipiélago, ela não tem esperança de novas manifestações. “As condições existem, mas também temos a certeza de que depois virá outra onda de repressão terrível”, diz. “Agora, com esses meninos condenados a passar mais de 20 anos na prisão, com denúncias de tortura, não tem jeito. Sou pacifista, mas a única maneira de tirar o regime é como eles fizeram com Fulgêncio Batista, em 1959. Com armas, uma guerrilha organizada vinda do interior, e derrubando o poder à força.”

Aqui, a oposição se mostra fraturada outra vez. Otaño diz não querer a derrubada de um totalitarismo com “as armas usadas pelo que pode se tornar outro totalitarismo”. “Afinal, quem disse que se derrubamos o regime que temos agora não surja um Putin? Não queremos isso.”

Ceballos também faz críticas à abertura de espaços culturais com permissão do regime, como a Fábrica de Arte, local de shows e exposições que é a sensação entre jovens. No dia 15, com a casa abarrotada, a Folha de S.Paulo assistiu à apresentação da Interactivo, conjunto de jazz e gêneros caribenhos que vem causando furor. Liderado pelo pianista Roberto Carcassés, o grupo de mais de 30 músicos toca de tudo, mas não fala uma palavra de política.

“Com a situação que vivemos, com artistas presos e exilados, existir um espaço cultural como esse é um absurdo. Também é um horror que artistas façam shows lá sem se manifestar sobre a repressão. Deveria haver uma greve de tudo nesse país –e também da cultura”, diz Ceballos.

Enquanto as condenações calam a oposição, a situação econômica vem se deteriorando. Devido à pandemia de Covid, o PIB de Cuba sofreu uma redução de 11% em 2020, e a inflação chegou a 300%. Apesar da reabertura ao turismo, vem sendo difícil chegar aos níveis anteriores.

A Guerra da Ucrânia também piorou a situação, já que russos chegavam a compor 20% do turismo durante a alta temporada. Neste ano, por exemplo, houve 30 mil cancelamentos de reservas após as restrições impostas a voos de Moscou. Há, ainda, turistas russos sem saber como voltarão para casa.

Para fazer com que o envio de remessas do exterior retome o ritmo, o regime abriu canais para facilitar a saída de cubanos. Firmou com a Nicarágua, por exemplo, um acordo de não exigência de visto ou permissão para viajar, e, assim, desde outubro de 2021, mais de 200 mil cubanos emigraram para o país controlado por Daniel Ortega com a intenção de cruzar legal ou ilegalmente a fronteira com os EUA.

O caminho, porém, com poucos voos diretos para Manágua, custa só com passagens cerca de US$ 2.000 (R$ 9.830) por pessoa. E os coiotes cobram até US$ 10 mil (R$ 48,8 mil) para a jornada. Oficialmente, os EUA afirmam ter recebido no ano passado 32 mil cubanos que hoje estão sob custódia do Estado.

Segundo o Código Penal cubano, que terá uma nova versão neste ano, deixar a ilha de modo ilegal é crime passível a até 30 anos de prisão. O regime, porém, tem feito vista grossa, já que a economia precisa de divisas enviadas do exterior.

O número de “balseros”, que tentam chegar à Flórida por mar, aumentou sete vezes desde o ano passado. Os barcos de patrulha dos EUA vêm circulando com a placa “não se lancem ao mar” e têm devolvido muitos migrantes. O governo Joe Biden diz preferir que a entrada seja feita por terra, mesmo que a definição desses casos seja complicada, do que enfrentando os perigos da travessia marítima.

A ideia de deixar o país tampouco é a mais popular. Yulier (nome fictício), de Los Pocitos, lembra-se da “imensa família” que tem em Cuba e da mãe, que está doente. “Por que tenho de sair?”

Otaño, que viaja com frequência devido à atividade acadêmica, afirma ser errado pensar que o cubano só quer saber de ir embora. “Na verdade, quando viajo, o que mais temo é que me impeçam de voltar.” Ou, como disse o escritor Leonardo Padura, na Europa para promover seu novo livro, “Como Polvo en el Viento”: “Por que eu tenho que sair? Eu cheguei antes”.

Fonte: Folha de S.Paulo

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agência de notícias anarquistas-ana

O vento leva
as folhas e a poeira…
voam as lágrimas

Karen Aniz

Memória | Anarquismo e luta de classes

Por Marcolino Jeremias

Antes os trabalhadores não tinham direitos que hoje consideramos básicos, por exemplo: horário de trabalho limitado (certas categorias trabalhavam até 16 horas ou mais); direito à descanso semanal; higiene de nenhuma espécie nas fábricas e oficinas onde trabalhavam; nenhum tipo de assistência social no caso de sofrerem algum acidente de trabalho e não conseguirem voltar as suas funções (nesse caso a única saída para o trabalhador era pedir esmolas); garantia por tempo de serviço: aposentadoria, férias.

Ninguém na história concedeu esses direitos espontaneamente para os trabalhadores. Cada uma dessas conquistas — que hoje os governos, dos diversos matizes ideológicos, tentam flexibilizar, numa tentativa permanente de suprimir — somente foram alcançadas através do custo de inúmeras mobilizações, greves, trabalhadores sendo presos, torturados e até mortos na luta social. Os anarquistas, homens e mulheres, foram protagonistas em inúmeros episódios da luta de classes no Brasil.

Nessa matéria (imagem em destaque) vemos o conflito do movimento operário com as forças de repressão durante a greve de 1917, no Rio de Janeiro. O jornal afirmava que as autoridades queriam afogar a reação popular, gerada pela fome e pela miséria, através da violência policial. Informava ainda que a Federação Operária do Rio de Janeiro e o Centro Cosmopolita, associações autênticas dos anseios dos trabalhadores, haviam sido arbitrariamente fechadas.

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árvore seca
a lua é a mosca
em sua teia

Aclyse de Mattos

Eleições 2022: A Escolha Entre Um Admirador de Um Militar Torturador ou Um Admirador de Um Ditador Genocida

Em tempos de eleições, onde um dos candidatos favoritos é admirador declarado de um militar sabidamente torturador durante o período da última ditadura, e o outro é admirador declarado de um antigo presidente que foi ditador, vale a pena resgatar a história revelada neste documentário (https://www.youtube.com/watch?v=lS_4RmFL88M), pois a história do militar torturador ainda é lembrada pelos seus opositores, mas a verdadeira história do antigo presidente ditador é ocultada por todos os lados em disputa pelo poder e por todos os livros de História.

O documentário “As Almas Santas da Barragem” (produzido por alunos e professores do Instituto Federal de Educação Tecnológica do Ceará – IFCE) resgata a história do escandaloso crime contra a humanidade cometido contra dezenas de milhares de sertanejos nordestinos pobres em um campo de concentração no Ceará (isto mesmo, bem antes dos campos nazistas, inclusive), sob a responsabilidade do então presidente Getúlio Vargas.

A obra da Barragem do Rio Patu, projeto do que deveria ser a maior barragem do sertão nordestino, atraiu sertanejos pobres (homens, mulheres e crianças) pela propaganda que prometia trabalho, alimento, água e assistência médica para os trabalhadores, porém, em chegando ao local praticamente isolado da construção, o que encontraram foi o confinamento, o trabalho em condições sub humanas, a ausência de condições mínimas de acesso à higiene, alimentação e água, e a morte por epidemias.

Sabendo-se que Lula é admirador declarado do antigo ditador Getúlio Vargas, pode-se pensar que talvez não seja por acaso que as histórias da obra da Barragem do Rio Patu e a da construção da mega hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, guardem surpreendentes paralelos entre si: assim como no caso da barragem do Patu, também em Belo Monte o maior contingente de trabalhadores atraídos para a obra pela propaganda governamental provinha de populações de sertanejos nordestinos pobres, seduzidos pela promessa de trabalho, comida, água e assistência médica e, também do mesmo modo que ocorreu durante a obra do governo Vargas, durante a obra recente do governo petista os trabalhadores que ali chegavam eram colocados em condições de trabalho “infra legais”, de modo que lhes era exigido regimes de trabalho altamente extenuantes e lhes era negado o direito a folgas e a férias, e isto se agravou a tal ponto que os trabalhadores super explorados ali desencadearam no ano de 2013 uma grande paralisação em dois dos principais canteiros de obras da mega construção, e o governo federal petista então enviou para lá tropas da Força Nacional que reprimiram cruelmente o movimento dos trabalhadores (chegando, inclusive, a perpetrarem o sequestro e “desaparecimento” de um trabalhador), levando-os à base da força a retornarem a se submeter ao trabalho em condições infra legais, conforme atestam várias reportagens jornalísticas publicadas à época, tal como esta:

https://terradedireitos.org.br/noticias/noticias/agencia-publica-trabalhadores-refens-em-obras-bilionarias-da-amazonia/12172

Será “mera coincidência” que tanto a história da Barragem do Patu quanto a de Belo Monte sejam omitidas dos livros escolares?

Não é irônico (ou sórdido) que Vargas tenha recebido a alcunha de “Pai dos Trabalhadores”, e Lula a de “Pai dos Pobres”?

É como eu tenho dito: eleições, vença quem vencer, as ganhadoras serão as mesmas – as de cima.

V.C.C.O.

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Menino amuado
quem te deu tamanho bico
foi o tico-tico?

Anibal Beça

[Grécia] Informações sobre a 2ª passeata em solidariedade com o anarquista em greve de fome Yinnis Michalidis (Atenas, 30/06)

Na quinta-feira, 30 de junho, a Assembleia de solidariedade com o anarquista em greve de fome Yinnis Michalidis convocou o “3º Dia Pan-helênico de Ação e Solidariedade para Yinnis Michalidis“. Em Atenas aconteceu a segunda passeata central, que começou a partir do Propylaea, passou por Omonia, chegou à Syntagma e terminou novamente em Propylaea. O número era de aproximadamente 600 pessoas, e foi apoiado por várias organizações e coletivos. A presença policial foi mais uma vez descomunal, com a polícia de choque caminhando do lado esquerdo e direito até o fim do protesto. Sua atitude nesta passeata em particular foi mais provocadora e abusiva. No entanto, a passeata foi concluída normalmente.

O companheiro Yinnis Michalidis, no dia da passeata, estava em seu 39º dia de greve de fome, enfrentando métodos estatais e judiciais repressivos e vingativos, que colocam sua saúde em maior risco de falhas de múltiplos órgãos e danos irreparáveis a cada dia. Lembramos que nosso companheiro já perdeu 21% de seu peso corporal original, e sua saúde já está bastante comprometida. O movimento de solidariedade mais uma vez esteve ativamente ao seu lado, mostrando que a tentativa de exterminá-lo não passará em branco.

A justiça burguesa está mostrando sua verdadeira face. Ao mesmo tempo em que o Tribunal de Apelação de Lamia rejeita o pedido de libertação de Yinnis, o mesmo Tribunal de Apelação decide libertar o assassino impenitente Korkoneas [policial que matou Alexandros Grigoropoulos, de 15 anos, em 6 de dezembro de 2008]. O Estado e o judiciário estão jogando seus “filhos” para os lobos, dando-lhes clemência, piscando-lhes o olho para continuarem seus ataques. Korkoneas teve uma “vida legal anterior”. Yinnis é considerado perigoso por que vai “cometer novos delitos”. Este contraste, especialmente no contexto atual, revela sem margem para dúvidas a real utilidade e essência da justiça civil: Para encobrir a violência repressiva do Estado, para punir e exterminar toda resistência e todo militante.

Apoiamos e continuaremos a apoiar de todo o coração e dinamicamente a luta de nosso companheiro, sem recuar um milímetro, mostrando que a solidariedade prática é nossa arma na luta por sua reivindicação. Permanecer como uma barricada à arbitrariedade estatal e lembrar a todos os lados que Yinnis não está sozinho.

LIBERTAÇÃO IMEDIATA DO ANARQUISTA GREVISTA DE FOME YINNIS MICHALIDIS

Assembleia de solidariedade com o anarquista em greve de fome Yinnis Michalidis

agência de notícias anarquistas-ana

À beira do lago
aliso o brilho da lua
com as mãos molhadas

Eunice Arruda

 

[Grécia] Informe médico do anarquista em greve de fome Yinnis Michalidis

Em 24 de junho de 2022, examinei como seu médico pessoal o detido em greve de fome Sr. Michalidis no hospital de Lamia, que está hospitalizado na clínica de patologia sob guarda.

Do exame clínico, assim como de seus exames de laboratório e paraclínicos, surgem os seguintes resultados: O Sr. Michalidis, em greve de fome há 34 dias, perdeu mais de 21% de seu peso corporal e começou a mostrar graves problemas de saúde.

Mais concretamente, tenho que assinalar que órgãos vitais como o fígado, o coração e o baço já começaram a funcionar mal. O grevista de fome Yinnis Michalidis já tem anemia, trombocitopenia, hipercolesterolemia e hipoalbuminemia.

Tem taquicardia e instabilidade hemodinâmica, transtornos gastrointestinais graves e transtornos da coagulação sanguínea.

Minha avaliação médica é que em muito pouco tempo pode desenvolver uma falha severa das funções de múltiplos órgãos (circulatório, gastrointestinal, respiratório) e uma falha severa e irreversível de órgãos vitais (hepático, renal, insuficiência cardíaca, hemorragia cerebral) que pode conduzir a uma “falha multiorgânica”, uma condição que põe em perigo a vida da pessoa em greve de fome, ou a criação de um dano permanente que dará lugar a importantes incapacidades permanentes.

O Diretor Médico da N.S.S.

Virgopoulou Pantelia

Fonte: https://athens.indymedia.org/post/1619538/

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agência de notícias anarquistas-ana

A neve cai mais forte
quando me detenho
de noite na estrada.

Kito

[Grécia] Tessalônica: assumindo responsabilidades

O Estado, esgotando sua capacidade reivindicativa, empurra o grevista de fome a uma luta de vida ou morte, uma luta pela liberdade ou a submissão. Os jogos do Ministério de Propaganda e do Conselho Judicial de Amfissa, que pela enésima vez rechaçaram a petição de liberdade provisória do companheiro, demonstram claramente que sua “correção” contra os inimigos declarados do Estado e do capital é o extermínio e a tortura.

Nós, por nossa parte, estamos do lado da dignidade e da liberdade frente ao mundo da opressão, do encarceramento e do poder. Assumimos a responsabilidade como uma mínima mostra de solidariedade com a luta de nosso companheiro e no contexto do dia internacional de ação pelo incêndio de um caixa eletrônico do Eurobank em Agios Pavlos, Tessalônica, na madrugada de sexta feira 24/6.

LIBERTAÇÃO PARA O ANARQUISTA EM GREVE DE FOME YINNIS MICHALIDIS

NINGUÉM SÓ NAS MÃOS DO ESTADO

Anarquistas

Fonte: https://athens.indymedia.org/post/1619491/

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agência de notícias anarquistas-ana

O espantalho –
na minha infância
primeiro amigo

Stefan Theodoru

[Espanha] Concentração em Jerez: Não mais mortes na Fronteira, a de Melilla foi um crime

Os trágicos acontecimentos de 24 de junho de 2022 na fronteira entre Nador e Melilla, nos quais morreram 27 pessoas, nos recordam de maneira traumática o fracasso total das políticas migratórias de Marrocos, Espanha e da União Europeia. A externalização das fronteiras e o gasto desmesurado em segurança e militarização NÃO FUNCIONAM.

A violenta atuação policial de um lado e de outro da cerca provocou, até o momento, 27 vítimas mortais confirmadas e centenas de feridos. Sem dúvida, a tentativa de entrada mais sangrenta dos últimos anos, com uma implementação inusitada de violência policial (tanto da Gendarmeria marroquina como da Guarda Civil espanhola) que nos faz pensar em um autêntico massacre ou matança, que se confirmará se uma investigação independente consegue avançar.

Ontem, sábado (25/06), nos unimos desde a CNT Jerez à convocatória da Rede de Apoio a Imigrantes “Dimbali” com o lema “Não mais mortes na Fronteira Sul”, com a intenção de recordar as vítimas deste massacre e de exigir responsabilidades ao Governo espanhol, Reino de Marrocos e UE, além do cumprimento dos direitos humanos.

Fazemos um chamado ao resto dos sindicatos da CNT a mobilizar-se pelos direitos de nossos irmãos migrantes e a denunciar este flagrante caso de violência policial contra nossos irmãos da África que só tentam buscar a vida.

Migrar é um direito!

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/concentracion-en-jerez-no-mas-muertes-en-la-frontera-lo-de-melilla-ha-sido-un-crimen/

Tradução > Sol de Abril

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Sobre o monte liso
contra o céu uma só árvore.
Gesto de vitória!

Alexei Bueno

[Espanha] Consequências do militarismo e da guerra

O militarismo e a guerra levam à tortura sistemática e ao assassinato de milhares de civis, à fuga de milhares de pessoas, ao desenraizamento social, ao racismo, à repressão e ao repúdio por parte da população do país que recebe os refugiados. Significa a destruição sistemática do patrimônio histórico e artístico e a destruição dos ambientes naturais, da flora e da fauna. Envolve a morte de centenas de milhares de combatentes do lado beligerante, em sua maioria filhos de trabalhadores e pessoas pobres com poucos recursos, cuja entrada no exército lhes permite escapar da miséria e transformá-los em bucha de canhão.

Militarismo e guerra significam que a indústria de armamento lucra com o armamento dos lados beligerantes. Eles significam que as empresas, empresários e outros gerentes dos quais dependem ganham bilhões de euros fornecendo material de guerra tanto para estados beligerantes quanto para outros estados e alianças militares. Eles envolvem os lobbies da indústria de armas gastando dinheiro para conseguir poder político para legislar em seu benefício.

Militarismo e guerra significam priorizar o financiamento para pesquisa e desenvolvimento de tecnologia aplicada à guerra e à morte, em detrimento de outras pesquisas científicas que possam ter como objetivo a erradicação de doenças, autogestão energética, compreensão e proteção dos ecossistemas do planeta, ou pesquisa social para o benefício material da sociedade como um todo, etc.

O militarismo e a guerra significam que os Estados aumentam os gastos com armamentos em detrimento dos gastos com bem-estar social, saúde e educação. Eles são um ataque frontal à sua ideia do “estado social”, levam ao aumento da precariedade e à incapacidade do estado de atender às necessidades das pessoas. Eles implicam na privatização e elitização de serviços básicos em benefício dos lobbies privados na saúde e educação, e o consequente aumento da agitação social. Eles envolvem a restrição de direitos e liberdades, a afiação do autoritarismo pelos mecanismos coercitivos do Estado (exército e polícia) e o exercício do medo e da repressão.

Militarismo e guerra significam preços mais altos para commodities e energia e, portanto, custos de vida mais altos. Eles significam que somos nós trabalhadores que teremos que pagar mais por menos, que o poder econômico nos espremerá ainda mais para que não sejam afetados, e que a desigualdade aumentará e se aprofundará. Eles significam alimentar o medo do poço sem fundo da exclusão social, a fim de manter os trabalhadores submissos e silenciosos.

Militarismo e guerra significam a destruição sistemática de comunidades e sociedades, e de sua riqueza cultural e social. Significam estender a hegemonia globalizante do capitalismo, roubando e comercializando as terras e os recursos naturais dessas comunidades, forçando-as a permanecer desenraizadas, a fazer parte das engrenagens do capitalismo, tanto como mão-de-obra barata quanto como carne de canhão nas guerras e conflitos armados.

É por isso que os anarquistas defendem a desmilitarização e a dissolução dos exércitos. Acreditamos na prática da solidariedade e o apoio mútuo com todos aqueles que são explorados e despossuídos, e em uma sociedade horizontal de livre federação de produtores e consumidores baseada no trabalho associado e cooperativo. É por isso que denunciamos as barbaridades causadas pelas fronteiras, os Estados, os poderes econômicos e políticos, e as guerras que tanto os beneficiam.

Nem OTAN, nem imperialismo estadunidense ou russo

Contra a indústria da guerra e da morte

Contra a paz social, pela solidariedade e apoio mútuo entre todos os trabalhadores.

Grupo Tierra

Fonte: https://federacionanarquistaiberica.wordpress.com/2022/06/20/consecuencias-del-militarismo-y-la-guerra/

Tradução > Liberto

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cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença

Paulo Leminski

Coleção Charlas y Luchas | Três livros, três mulheres: todas latino-americanas e revolucionárias.

coleção Charlas y Luchas faz sua campanha na Praça e você tem 21 dias para apoiar o projeto. A intenção é imprimir dois livros e fazer circular todos os três da coleção (o primeiro foi lançado ano passado). Vou te contar um pouco sobre a coleção e suas publicações.

O anseio principal da coleção Charlas y Luchas é falar de mulheres anarquistas latino-americanas e sua vontade de ação. Maria A. Soares, Juana Rouco Buela e Margarita Ortega Valdés são as três personagens. Maria A Soares, brasileira, não deixou um livro pronto, mas deixou textos em diversos periódicos entre 1912 e 1922. A equipe da coleção transcreveu seus escritos e os transformou em uma publicação. Já Juana Rouco Buela, que migrou criança para a Argentina, escreveu uma autobigrafia no final da sua vida, onde conta suas ações em diversos países e fala do ideal anarquista que viveu e nunca abandonou. Margarita Ortega Valdés deixou um único texto, mas sua história foi relatada por Ricardo Flores Magón e ela é considerada infatigável e essencial para a Revolução Mexicana. Para cada livro foi proposta uma metodologia de edição cuja unidade é dada pelo projeto editorial. Conheça cada um deles:

Unidas nos lancemos na luta: o legado anarquista de Maria A. Soares

O livro tem 224 páginas e resgata 48 textos publicados em jornais ou endereçados por cartas. Os textos apresentam assinaturas diferentes: Maria A. Soares, Maria Antônia Soares, Maria A. Suárez, Angelina Soares, e de elaboração coletiva pelo Centro Feminino Jovens Idealistas ou o Centro Feminino de Educação, que elucidam a atuação das mulheres no anarquismo naquele período. A publicação conta também com uma breve biografia de Maria Antônia Soares. Participam do livro: Ananita Rebouças (neta de Angelina Soares), Beatriz Silvério, Dandara Luigi, Fernanda Grigolin e Samanta Colhado Mendes.  A edição é de Aline Ludmila.

História de um ideal vivido por uma mulher e textos escolhidos de Juana Rouco Buela

Em 224 páginas, o livro reúne a tradução inédita em português de História de um ideal vivo por uma mulher. Há também textos escolhidos da publicação Mis Proclamas e dos editais de Nuestra Tribuna. Juana Rouco Buela foi uma anarquista publicadora. Escreveu, editou e produziu Nuestra Tribuna, além de ter trabalhado em vários ofícios como passadeira e jornalista, por exemplo. Subiu e desceu rampas de navios. Esteve clandestina e sozinha em um deles. Juana percorreu vários pontos do Atlântico e em todos esteve junto ao movimento anarquista. Viveu no Brasil, mas foi na Argentina e nas terras rioplatenses que construiu seus afetos mais profundos. O livro conta com textos de Ingrid Ladeira, Angela Roberti, Laura Fernandez Cordeiro e Rut Akselman-Cardella (neta de Juana). A tradução para o português é de Fernanda Grigolin. Os desenhos são de Dandara Luigi. A edição é de Aline Ludmila e a produção editorial é de Beatriz Silvério.

Infatigável guerrilheira: Margarita Ortega Valdés na Revolução Mexicana

Margarita Ortega Valdés esteve ao lado de seus companheiros magonistas durante as ações fronteiriças entre México e Estados Unidos. Ela era infatigável. O deserto foi sua memória, seu pensamento e sua ação. Enfrentou as zonas de calor como ninguém: carregou armas e cuidou dos feridos. Também enterrou sua filha e foi lá que partiu. Quem já pisou ali, naquela fronteira, sabe que há momentos que a temperatura explode, vai a 50 graus e essa mulher percorria esse território por horas. Lembrar de Margarita é falar de América Latina. Pessoas do Brasil e do México se uniram para produzir o livro sobre ela. A publicação de 96 páginas traz artigos, biografia, trabalhos de artistas. Dandara Luigi, Fernanda Grigolin, Karen Márquez e Pepe Rojo realizaram uma criação artística em conjunto. Nayeli Morquecho Estrada fez uma biografia de Margarita em duas vozes. Cassio Brancaleone contou um pouco das relações entre magonismo e zapatismo.

Campanha e recompensas:

As campanhas de financiamento são muito importantes para editoras pequenas. O preço de impressão de livros aumentou 30% no último ano, sem contar os custos de distribuição. A conta não fecha e apoiar agora é primordial para a coleção existir.

Você pode apoiar a campanha comprando livros de forma unitária (valor de R$45,00 + frete) ou comprando a coleção completa (R$127,90 + frete). Caso tenha o primeiro livro (Unidas nos lancemos na luta), você pode comprar apenas os outros dois (R$ 85+frete).

Para as pessoas residentes na cidade de São Paulo, há a opção de retirada (no bairro do Ipiranga, perto do metrô Sacoman). As entregas na cidade de São Paulo serão realizadas pela Ciclo Entregas VRAU e pelos Entregadores Antifacistas. Para as demais localidades usaremos os Correios.

Além dos livros, há recompensas com cartazes, livros da Tenda de Livros, cursos e mentoria. Pretendemos realizar uma comemoração com os livros em mãos entre os meses de agosto e setembro. Apoie. Divulgue. Venha pro Charlas y Luchas na Praça.

>> Mais infos clique aqui:

https://apraca.com.br/item/colecao-charlas-y-luchas/?mc_cid=8a7d9c1dfd&mc_eid=8caea939b8

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Neblina sobre o rio,
poeira de água
sobre água.

Yeda Prates Bernis

Equador: Paro Nacional, Parte Dois | Dois Anos e Meio Depois, Outro Levante Abala o País

Em outubro de 2019 houve uma extraordinária revolta indígena e popular no Equador que, após 12 dias e com saldo de 11 mortos, conseguiu cancelar um pacote de medidas neoliberais impostas pelo FMI, entre as quais o cancelamento de subsídio aos preços dos combustíveis. Em junho de 2022, a greve geral e os protestos de rua no Equador entra em sua terceira semana, com mais de 20 dias do chamado Paro Nacional, novamente liderado pelos movimentos indígenas, novamente contra as políticas do FMI e o aumento dos preços dos combustíveis. Em ocasião do levante de 2019, entrevistamos um camarada que na Primera Linea (Linhas de Frente) em Quito que relatou sobre as dinâmicas da revolta na capital equatoriana e as práticas de autogestão e poder popular da “Comuna de Quito”. Hoje, entrevistamos novamente o mesmo camarada que está ativamente participando das mobilizações populares encabeçadas por movimentos indígenas que enfrentam a políticas do FMI e o aumento dos preços dos combustíveis, para nos contar sobre a dinâmica da revolta na capital equatoriana num dos maiores levantes em curso na América Latina.

O que significa que as pessoas no Equador tenham que lutar toda essa batalha novamente tão logo após uma vitória histórica? Essa força se espalhará pela América Latina novamente? Leia mais a seguir.

O que aconteceu nos últimos 2 anos e meio no Equador para que, após uma pandemia e eleições parlamentares e presidenciais, voltasse ao ponto de partida?

Após a insurreição popular de 2019, [o então presidente] Lenin Moreno começou a aumentar o preço do combustível gradativamente, ou seja, a vitória parcial de 2019 foi anulada e voltamos ao ponto de partida. Enquanto isso, o atual presidente, Guillermo Lasso, intensificou esse mecanismo, levando o preço dos combustíveis as alturas, provocando de fato um aumento nos preços dos produtos de primeira necessidade.

Moreno conseguiu terminar seu governo, assim como seus ministros. Estes, juntamente com o alto comando da Polícia e do Exército, permaneceram impunes pelos crimes cometidos durante as jornadas de outubro.

Em 2021 houve eleições. O candidato do movimento indígena foi Yaku Pérez, que conseguiu capitalizar o descontentamento de outubro, mas não foi suficiente para chegar ao segundo turno das eleições e ameaçar a vitória de Andrés Arauz, candidato do Correismo [Levado ao poder pela “maré rosa” que estabeleceu governos em toda a América Latina, Rafael Correa foi presidente do Equador de 2007 a 2017; hoje, acusado de corrupção, vive na Bélgica]. Guillermo Lasso, banqueiro responsável pelo Feriado Bancário de 1999 [episódio de congelamento da contas de banco de cidadão equatorianos], chegou ao segundo turno e venceu as eleições. [Em março de 1999, temendo a hiperinflação, o governo equatoriano declarou um feriado nacional, que acabou durando uma semana inteira; na época, Guillermo Lasso era CEO do Banco Guayaquil.]

Na CONAIE [Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador] também houve eleições e o vencedor foi Leónidas Iza, líder do MIC (Movimento Indígena de Cotopaxi) e um dos líderes da revolta de outubro.

Em 2019, a revolta no Equador ajudou a desencadear revoltas subsequentes no Chile e em outros lugares. Os movimentos na Colômbia, Chile e em outros lugares da América Latina influenciaram os movimentos no Equador desde então?

Após outubro de 2019, em vários países da América Latina, a população se levantou contra seus governos. No entanto, os acontecimentos atuais no país, embora reflitam uma crise geral em todo o continente e tenham sido decisivos no imaginário coletivo, têm uma conotação clara que responde ao contexto conjuntural equatoriano. É como se algo tivesse ficado pendente da revolta de três anos atrás.

>> Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui:

https://es.crimethinc.com/2022/06/29/equador-paro-nacional-parte-dois-dois-anos-e-meio-depois-outro-levante-abala-o-pais

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A nuvem atenua
O cansaço das pessoas
Olharem a lua.

Matsuo Bashô

 

[Espanha] Javier Alcade: “Anarquistas e esperantistas compartilham ideais”

O cientista político Javier Alcalde disseca a relação entre o movimento libertário e a busca de uma linguagem universal no livro ‘Esperanto i anarquisme: els orígens (1887-1907)‘.

Por Jordi de Miguel | 22/05/2022

Quando, como e por quê o anarquismo adotou o esperanto como signo de identidade? Qual foi o papel dessa linguagem universal durante a Guerra Civil? Como é possível que os historiadores não tenham parado para analisar a estreita relação entre os dois movimentos? Por meio de pesquisas pioneiras, o cientista político Javier Alcalde (Barcelona,​​1978) responde a algumas dessas questões em Esperanto i anarquisme: els orígens (1887-1907) (Edicions Malcriàs d’Agràcia, 2022). As outras questões são abordadas nesta conversa.

Em 1910, em seu congresso de fundação, a CNT incentivou seus membros a aprender o esperanto. Por quê?

Os anarquistas precisavam fazer contatos em todos os lugares, porque sua revolução era internacional, e o fato de haver um ou dois poliglotas, que normalmente não eram trabalhadores e acabavam impondo sua agenda, não os convenceu. Eles não acreditavam na vanguarda do proletariado, acreditavam que qualquer pessoa deveria poder interagir com qualquer outra sem intermediários. Agora pode parecer um pouco ingênuo falar de fraternidade global e uma linguagem universal, mas então havia dezenas de grupos esperantistas libertários ao redor do mundo, não era uma utopia. Ambos os movimentos compartilham ideais.

O inventor do esperanto, Ludwik Zamenhof, não era um libertário.

Ele era um médico judeu da pequena burguesia que, ao criar os fundamentos da língua em 1887, não pensava nos trabalhadores, mas nos problemas em torno das línguas que os judeus viviam na Europa. Mas numa carta desse mesmo em 1910 diz estar convencido de que o futuro do esperanto está ligado ao do movimento operário, porque foi aquele que melhor pôde compreender a utilidade e a ideologia por trás dele.

No livro ele explica que, antes do surgimento do esperanto, o movimento operário já tinha em pauta o debate sobre a necessidade de compartilhar uma língua universal.

Você tem que pensar que ao longo da história houve centenas de tentativas de criar uma linguagem universal. Nos séculos XVIII e XIX, muitos matemáticos e filósofos viram isso como evidente. No início do século 20, se você queria ser um cientista e se manter atualizado com o que estava sendo feito em todos os lugares, você tinha que saber inglês, alemão, francês, russo… socialistas utópicos que queriam construir um mundo mais justo, pacífico e sem fronteiras: como as pessoas se entenderiam? Os anarquistas são continuadores dessa tradição. A questão também é discutida nos congressos da Primeira e da Segunda Internacionais. A língua mais utilizada nesse tipo de reunião era o francês, mas é uma língua muito irregular. Por isso, foi solicitada a simplificação de sua ortografia enquanto o processo rumo a uma linguagem universal não estava consolidado.

Ele também menciona que, de fato, outra língua universal circulava naqueles anos, o volapük. Porque não funcionou?

Era o projeto de linguagem mais desenvolvido até então, mas não era muito intuitivo, era baseado em alemão e inglês e o padre que o criou em 1879 não estava aberto a modificações. O esperanto era mais regular, intuitivo e fácil de aprender, mas mesmo depois apareceria outra língua, o Ido, que é um esperanto reformado: estima-se que na França e na Espanha, 25% dos líderes anarquistas o preferiram.

Por quê?

O movimento esperantista era plural e transversal. Em um primeiro estágio, antes de ser defendido pelo movimento operário, há muitos burgueses militares, religiosos e progressistas que o fazem seu. Pi i Margall é um deles. Alguns líderes anarquistas dizem que se o esperanto for ensinado nas Câmaras de Comércio, se beneficiar o dono da fábrica, não será mais benéfico para eles. De qualquer forma, quando o Ido apareceu em 1907, o esperanto já era muito difundido.

Como o esperanto entra na Catalunha? Onde e como você estuda?

A primeira associação foi criada em 1904 em Ceret, na Catalunha Nord. Então se espalha, sobretudo, onde o movimento operário tem mais presença: Sabadell (a primeira cidade do mundo a dar o nome de rua a Zamenhof), Terrassa, Barcelona… iam ao Ateneu, à seção sindical ou ao centro operário e estudavam esperanto em grupo. Imediatamente começaram a se corresponder com trabalhadores de outros países e a correspondência também foi lida em grupo. Era algo completamente normal e habitual.

Qual o papel do Esperanto durante a guerra civil?

O período entre as guerras foi a idade de ouro do esperanto. Seu uso foi até mesmo levantado na Liga das Nações. Na Catalunha, durante a Revolução e a Guerra, todos os atores relevantes do campo republicano usaram o esperanto para explicar o que estava acontecendo no exterior. A rádio CNT-FAI tinha programação constante em catalão, espanhol e esperanto. Para a Generalitat, o esperanto está abaixo do francês e do inglês, mas acima de outras línguas. O POUM publicará seu boletim internacional em francês, italiano, alemão, holandês e esperanto. O PSUC também o usará. Centenas de esperantistas de todo o mundo vieram lutar na Catalunha, o esperanto também desempenhou seu papel nesse sentido.

E por quê os historiadores não falam sobre ele?

Francamente, não sei. Uma hipótese é que eles não têm informações suficientes ou não sabem como interpretá-las. Mas a hipótese que considero mais sólida é a do “presentismo histórico”: alguns historiadores olham o passado com os olhos do presente. Como hoje há uma percepção, discutível, mas talvez correta, de que o esperanto é um assunto marginal, eles consideram que sempre foi.

Que relação existe hoje entre os dois movimentos?

Há mais conexão do que parece. Há simpatia do mundo libertário pelo esperanto, sem conhecer muito bem a história que os une. Nem os esperantistas conhecem sua história, realmente. Mas tanto um quanto o outro ainda existem e estabelecem redes de solidariedade.

Fonte: https://www.publico.es/culturas/javier-alcalde-anarquistas-esperantistas-comparten-ideales.html

Tradução > GTR@Leibowitz__

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vaga tristeza
vaga lume
vaga só

Alonso Alvarez

[Espanha] Ricardo Flores Magón, semeador de insurreições

Este ano celebramos o centenário da morte em estranhas circunstâncias de Ricardo Flores Magón (Eloxochitlán Oaxaca 1873 – Leavenworth Kansas 1922). Para isso, desde o grupo anarquista Higinio Carrocera programamos palestras em Astúrias e fora de nosso território. Estivemos em 26 de abril passado em La Coruña, convidados pelo Ateneu Xosé Tarrío, em seu local, onde já estivemos convidados em outras ocasiões. Depois do verão temos a intenção de seguir com as palestras do anarquista mexicano em Oviedo e muito provavelmente em León e em Barcelona.

Com estudos de jurisprudência e um trabalho esforçado e contínuo no jornalismo, na imprensa de combate, durante quase vinte anos, Ricardo Flores Magón dedicou suas forças, seu tempo e seu talento ao que, diríamos, foi o único propósito que para ele valia a pena: trabalhar por uma sociedade livre, justa e autônoma.

O Partido Liberal Mexicano (PLM) e Regeneración – jornal independente de combate – foram o dispositivo com o qual este “lutador alto, reto e firme como a rocha em meio ao mar revolto” junto com outras e outros camaradas, combateu a tirania política e mental que mantêm a opressão de muitos por poucos. Com a convicção de que “A liberdade é a maior conquista que pode apetecer um peito digno”, e a bandeira: Viva Terra e Liberdade! Se empenhou em semear e alentar a luta contra o Capital, a Autoridade e o Clero.

Ricardo Flores Magón, perseguido e maltratado desde sua juventude, foi encarcerado várias vezes em prisões mexicanas e estadunidenses, em uma das quais: prisão de Leavenworth Kansas, morreu em 21 de novembro de 1922. Completam agora cem anos da morte/assassinato deste homem rebelde, ideólogo e semeador da dignidade insurreta.

Fonte: https://higiniocarrocera.home.blog/2022/06/12/ricardo-flores-magon-sembrador-de-insurrecciones/

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/06/13/espanha-antologia-literaria-de-ricardo-flores-magon-o-novo-livro-da-aurora-negra/

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Parada do trem –
Com o vendedor de flores
Vêm as borboletas.

Sôshi Nakajima

[Itália] Atualizações sobre o julgamento pelos fatos de Brennero

A audiência de apelação do julgamento Brennero¹ (aquele com as acusações mais graves, tais como resistência, devastação e saque…) está prevista para a sexta-feira, 16 de setembro, às 9 horas, no tribunal de Bolzano.

Lamentavelmente, o advogado Giampiero Mattei faleceu. Todos aqueles que o haviam designado como defensor de confiança devem proceder a nova designação.

Para mais informação: torniamoalbrennero@anche.no

Fonte: https://ilrovescio.info/2022/05/20/aggiornamenti-sul-processo-per-i-fatti-del-brennero/

Nota

[1] Em 7 maio de 2016, na fronteira entre Áustria e Itália, na passagem do Brennero, aconteceu um protesto contra as fronteiras, as contínuas perseguições às pessoas dentro dos trens que passam essa fronteira, os assassinatos de pessoas nas fronteiras e contra a política migratória da Europa e mais concretamente da Itália e da Áustria. Essas foram essencialmente as ideias que motivaram a jornada de protesto. A tentativa de meter grãos de areia na engrenagem da máquina das expulsões dos migrantes, botar em prática a ideia anarquista de não reconhecer nem os Estados nem suas fronteiras foi o que também motivou as milhares de pessoas a participar no protesto.

Enquanto todos os anos dezenas de pessoas morrem nas fronteiras, o Estado decide julgar os companheiros que participaram nesse protesto e esconder assim sua responsabilidade sobre essas mortes acusando os companheiros de vandalismo, etc. Quando o que aconteceu na realidade foi que a manifestação foi reprimida pelas várias policias ali presentes pouco depois de começa-la. Através do artigo 419 do código fascista “Rocco”, o Estado italiano agora tenta enterrar sob mais de 300 anos de cárcere 63 companheiros e companheiras, que nesse dia participaram na manifestação do Brennero.

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/02/18/italia-repressao-300-anos-de-reclusao-para-63-anarquistas/

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Ameixeiras brancas —
Assim a alva rompe as trevas
deste dia em diante.

Buson

[Espanha] “Poder é ditadura”

“A burguesia, com a Constituição, se apoderou do poder dos reis. Os socialistas, com a Democracia, pensam apoderar-se do poder da burguesia. A ditadura que preconizam os comunistas de Estado não é mais que uma forma de chamar as coisas por seu nome.

Na realidade, o Poder sempre é uma ditadura, tanto quando o representavam os reis por si sós, como quando o representa a burguesia com a ajuda dos trabalhadores, o mesmo que quando o representarão os socialistas e os comunistas. O Poder é sempre ditadura do menor número armado, contra o número maior sem armas.

Por isto os poderes não querem mais homens armados que os que estão a seu serviço para defendê-los, seja o governo monárquico, seja republicano, seja socialista ou comunista. O Poder é ditadura, e ditadura contra os que não estão representados nele”.

Isaac Puente (03/06/1896 – 01/09/1936)

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pinta no nariz –
era uma pulga que
fugiu por um triz

Carlos Seabra

 

[México] “La Cizaña Trashumante”: Projeto de Difusão Anarquista

La Cizaña Trashumante
Projeto de Difusão Anarquista
Distribuidora. Edições. Informação. Rádio.

La Cizaña Trashumante é um projeto de difusão anarquista que nasce na Cidade Juárez, México, em 1º de maio de 2022 com a intenção de difundir e aprofundar o debate teórico e a prática anarquista. Neste sentido, o material que distribuímos e difundimos tem a intenção de, por um lado, recuperar textos clássicos que, por diversas razões, esquecimento ou ocultamentos deliberados, não se encontram ao alcance do público na fronteira e, por outro, incorporar novas vozes e investigações dentro do amplo espaço ácrata. Também difundimos material audiovisual e serigrafia de conteúdo afim aos ideais de solidariedade, apoio mútuo, defesa da vida, antimilitarismo, feminismo não autoritário, entre outros tópicos, que alimentam o horizonte de esse outro mundo que levamos em nossos corações.

Convidamos a visitar nosso espaço e a falar sobre os ideais ácratas e os debates teóricos entre as diversas vertentes do anarquismo, assim como aprofundar em sua projetualidade contemporânea. Benvindos todos os domingos das 10 da manhã até as 14 horas no Bazar Cultural del Monu, em Av. Guerrero esquina com constitución na Cidade Juárez, México.

Do mesmo modo, a todos os coletivos, organizações e individualidades afins, os convidamos a estabelecer comunicação e a enviar-nos seu material e informação para sua distribuição em nosso espaço, seja como troca, consignação, ou doação, ou também, a enviar-nos seus pdf para sua impressão, com o propósito de intercambiar material e difundir os esforços anarquistas de outros lugares do mundo neste espaço na fronteira do México.

O correio para contato é: la_cizana_trashumante@riseup.net

Fogo e Anarquia

La Cizaña Trashumante

Tradução > Sol de Abril

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abelha na flor
a brisa nas árvores
eu com teu sabor

Carlos Seabra

[Espanha] Escola Libertária de Verão 2022: Antimilitarismo

De 30 de junho a 3 de julho de 2022

Um ano mais a CGT abre sua Escola Libertária de Verão, um espaço de encontro e discussão, de aprendizagem e diversão, no qual todas as pessoas possam contribuir com nossas experiências e saberes para nos enriquecermos mutuamente.

Este ano, de 30 de junho a 3 de julho, nos encontraremos em Ruesta sob o lema:

Antimilitarismo

Este ano a Escola Libertária debaterá sobre a sociedade atual na qual convivemos com uma tolerância alta ao investimento na fabricação de armas como em gastos militares.

Conheceremos a luta levada a cabo pelo movimento de Insubmissão que levou ao cárcere a dezenas de jovens quando era obrigatório o serviço militar. Nos explicarão como o investimento em gastos militares afeta na redução dos gastos sociais.

Também conheceremos a situação a que tem que enfrentar as pessoas trans quando há uma obrigação de prestar o serviço militar. Analisaremos a situação na qual se encontram naqueles países em que segue sendo obrigatório.

A CGT está comprometida com o antimilitarismo, não obstante, temos filiação em empresas que fabricam aviões ou barcos militares, etc. Nos explicarão qual é sua luta ante a situação em que se encontram necessitando defender seu trabalho, mas saber a utilização que se faz do produto que fabricam.

>> A programação completa do evento está aqui: https://ruesta.com/

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Ainda que morrendo
o canto das cigarras
nada revela!

Matsuo Bashô