[EUA] Mensagem de Leonard Peltier no Dia de Ação de Graças, 2019: “caminhando sobre terra roubada”

Leonard Peltier é um preso político que passou mais de 40 anos na prisão nos Estados Unidos. Esteve ativo no Movimento Indígena Americano e na Nova Esquerda. Foi alvo do COINTELPRO do FBI e foi acusado falsamente pelo assassinato de dois agentes do FBI. Podes unir-te ao movimento internacional para liberar Leonard Peltier visitando o site de seu comitê de defesa. Também considera doar a seu comitê ou escrever-lhe uma carta. Niá: wen ki ‘wáhi!

 O ano de 2019 está chegando a seu fim e, com ele, chega o dia em que a maioria dos estadunidenses denomina como Dia de Ação de Graças. Enquanto deixo que minha mente divague mais além das barras de aço e os muros de concreto, trato de imaginar o que estão fazendo as pessoas que vivem fora das portas da prisão e em que estão pensando. Alguma vez pensam nos povos indígenas que foram obrigados a abandonar suas terras? Entendem que com cada passo que dão, sem importar a direção, caminham sobre terra roubada? Podem imaginar, inclusive por um minuto, como era ver o sofrimento das mulheres, das crianças e dos bebês e, sim, dos enfermos e dos anciãos, já que foram obrigados a seguir impelidos para o oeste em temperaturas geladas, com pouca ou nenhuma comida? Esta era minha gente e esta era nossa terra. Houve um tempo em que desfrutamos da liberdade e pudemos caçar búfalos e coletar os alimentos e as ervas sagradas. Pudemos pescar e desfrutamos da água limpa e clara. Minha gente era generosa, compartilhávamos tudo o que tínhamos, incluído o conhecimento de como sobreviver aos invernos longos e duros ou os verões calorosos e úmidos. Apreciamos os dons de nosso Criador e recordamos dar graças diariamente. Tivemos cerimônias e bailes especiais que foram uma celebração da vida.

Com a chegada de estrangeiros a nossas costas, a vida tal como a conhecíamos mudaria drasticamente. A propriedade individual era alheia a minha gente. Cercas? Inédito, naquela ocasião éramos um povo comunal e nos cuidamos uns os outros. Nossos avós não estavam isolados de nós! Eram os guardiões da sabedoria e os contadores de histórias e eram um vínculo importante em nossas famílias. Os bebês? Eram e são nosso futuro! Olhe aos jovens brilhantes que se põem em risco, lutando por manter nossa água e nosso meio ambiente limpos e seguros para as gerações futuras. Estão dispostos a confrontar as corporações multinacionais gigantes educando o público em geral sobre a devastação que se está causando. Sorrio com esperança quando penso neles. São valentes e estão prontos para dizer a verdade a todos os que estejam dispostos a escutar. Também recordamos a nossos irmãos e irmãs da Bolívia, que estão sublevados, em apoio do primeiro presidente indígena, Evo Morales. Seu compromisso com a gente, a terra, seus recursos e a proteção contra a corrupção é digno. Reconhecemos e identificamos muito bem essa luta.

Assim que hoje, agradeço a todas as pessoas que estão dispostas a ter uma mente aberta, aos que estão dispostos a aceitar a responsabilidade de planificar para as próximas sete gerações, aos que recordam os sacrifícios realizados por nossos antepassados para que possamos continuar falando por nossa própria língua, praticar nossa própria forma de agradecimento em nossa própria pele, e que sempre reconheçamos e respeitemos a linhagem indígena que levamos.

Para aqueles de vocês que estão agradecidos de ter suficiente comida para alimentar a suas famílias, deem aos que não são tão afortunados. Se te encontras aquecido e tens um refúgio cômodo para viver, por favor compartilhe com aqueles que estão com frio e sem lar; se vês a alguém ferido e necessita uma ou duas palavras amáveis, seja essa pessoa que se adianta e dá uma mão. E especialmente, quando vejas injustiça em qualquer parte, por favor, seja suficientemente valente para falar e enfrentá-la.

Quero agradecer a todos os que têm a amabilidade de ter presente a mim e a minha família em seus pensamentos e orações. Graças por seguir apoiando-me e crer em mim. Não passa nem um minuto nem um dia sem que espere que seja o dia em que me outorguem a liberdade. Anseio o dia em que possa sentir o ar fresco e limpo, quando possa sentir uma suave brisa em meu cabelo, seja testemunha das nuvens enquanto seu movimento oculta o sol e quando a lua ilumina a luz no caminho para o sagrado Inipi. Realmente seria um dia que poderia chamar um dia de Ação de Graças.

Agradeço por escutar a quem está expressando minhas palavras. Meu espírito está aí contigo.

Doksha

No espírito do Crazy Horse,

Leonard Peltier

Fonte: https://loveandragemedia.org/2019/11/28/leonard-peltiers-2019-thanksgiving-message-walking-on-stolen-land/

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/03/28/eua-transferencia-negada-de-leonard-peltier/

agência de notícias anarquistas-ana

Tarde de sol,
o armador da rede
range devagar.

Luiz Bacellar

[Chile] Comunicado do Sindicato de Ofícios Vários Santiago a mais de um mês de protestos na região chilena

O descontentamento no Chile era algo previsível há muitos anos. No entanto, o silêncio era o que primava na população. A contragosto as pessoas expressavam seu descontentamento, sempre sem gritar, sempre obediente, com o conhecimento de que o trabalho finalmente é o único que nos dava o sustento. E se atendemos à história, passada não faz muitos anos, gritar e levantar-se significava sangue, balas e morte. Foi esta mesma falta de justiça e impunidade, e a indignidade que nos fizeram tragar tantos anos, a que tomou as ruas de todo o país. As pessoas abriram seus olhos para ver um governo provedor da injustiça em cada frente e em cada aspecto de nossa vida. Foi isto o que terminou por gerar um levante social, todo o descontentamento se materializou e já não eram pequenos grupos isolados impulsionando demandas, era a população em seu conjunto, que parou e disse basta. Como epidemia, a opinião pública começou a mencionar todas as demandas e petições nunca escutadas. Os esquecidos tomaram a palavra, e o ocorrido na sexta-feira 18 de outubro foi um passo bem dado. É a marcha do povo que se estendeu por mais de um mês, e que sabemos não há de parar.

Contudo, vemos que a problemática social foi levada a uma assembleia constituinte, e alguns querem que toda a luta se concentre aí. Mas como sindicato temos plena clareza de que uma assembleia constituinte não soluciona nem alcança as profundidades de nossa luta, se quis mostrar como um fim, mas temos plena consciência de que não é. Sabemos que uma assembleia constituinte não vai mudar a realidade que vivemos como pobres, temos conhecimento de como opera a reforma na luta e no levante social, se propõe como algo que não é, porque sabemos que se faz com a ideia de gerar uma nova forma de administrar o capitalismo, e é por isso que nossa proposta não vai por aí, nem por favorecer alguma via estatal que se queira tomar para a revolução dos esquecidos.

Dentro das reformas se fala de muitas coisas, entre elas subir o salário, que se bem isto traz uma melhora, e de alguma forma dá mostras de melhorar nossa qualidade de vida, não o é. O governo dá benefícios econômicos, mas, ao mesmo tempo, sobe os impostos, e da mesma forma se termina pagando de nosso bolso estas “melhoras”, não é novidade que o poderio não queira perder nem pão nem pedaço, por isso somos críticos a todo “benefício” e pacto que se levante desde sua vereda.

Dentro do protesto, pudemos ver como se levantam distintas formas de resistência, e como as forças da mal ordem do Estado quiseram reprimi-las. Agora o trabalhador, a estudante, o morador e a profissional estão informados e em vias de organização, o governo está contra a parede, e nenhuma força repressiva poderá frear este avanço, por muito dura que se pretenda. Vimos cozinhas comunitárias, grupos de paramédicos espontaneamente formados e a disposição de nossa gente, grupos rotativos que não abandonam a resistência, marchas feministas gritando pelos direitos das mulheres, evidenciando o abuso por anos vivido, sem medo e com força. Esta é nossa alternativa, isto é o que verdadeiramente marcou um antes e depois, demonstra que organizadas e organizados: muito e tudo é possível, que se podemos atender a nossas necessidades desde a autonomia e a determinação, somos nós os e as principais atores deste movimento, isso não se pode perder, porque é território ganho, é o avanço dos que tomaram a palavra, das esquecidas, do povo.

Em todo protesto aparecem grupos de autodefesa que se enfrentam com a violência desmedida e aberrante das forças da mal ordem, apoiamos plenamente a todos e todas as que lutam, cremos que há que fortalecer nossas ideias por sobre todas as coisas, sabemos que isto é o que deve ficar do enfrentamento e o que lhe dá sentido. Nenhum avanço é lamentavelmente gratuito, há vítimas, há desaparecidos e assassinados, há um número importante de pessoas privadas de sua liberdade, a força repressiva da mal ordem encarcera aos pobres, encarcera aos lutadores sociais, e a quem não teve uma oportunidade real na vida. É por isso que dizemos: todos os presos são políticos, exigimos a liberdade de quem está preso por lutar, ou por nascer pobre.

Como anarquistas, não temos a ambição de demonstrar absolutamente nada, estamos trabalhando ombro a ombro com as pessoas, nossas ideias sempre foram pela justiça e o amor à humanidade, contra a autoridade, o capitalismo e o patriarcado, é por isso que a aplicamos em cada frente na qual trabalhamos. A imprensa burguesa quis por anos criminalizar nossas ideias, nosso movimento, e com este protesto, se demonstrou quem são os verdadeiros terroristas dos quais tanto enchem a boca o jornalismo burguês, eles demostraram que operam sob os interesses dos poderosos, em defesa da propriedade privada, onde uma infraestrutura vale mais que a vida, e onde o corpo da mulher não é mais que um bem de consumo para qualquer um. Não estão nem pela justa autodefesa, nem pelas pessoas, tampouco por nossas demandas. Ou fazem mofa ou infantilizam o que nos aflige e o que nos levanta, mas nos alegra ver que a grande maioria da população já tem conhecimento disto.

Nos é necessário mencionar por sua vez, que somos críticos à democracia representativa, já que permite que detratores de nossas demandas façam política contra, e em desfavor de nossa luta. Desde o ano de 2006 os estudantes começaram a fazer política, rompendo com a forma imposta de fazê-la, na qual os atores sociais não tinham lugar. Naquele cenário a jogada do Estado foi apelar ao democrático, ou seja, se os estudantes tinham opinião válida, não tinham a autoridade para resolver os problemas sociais, já que se fizessem o que os estudantes exigiam se estaria impondo sua posição, e a democracia não se compõe só de estudantes.

Assim transcorreram treze anos, onde se impulsionaram diversas demandas, já não só de educação, também de NO+AFP, de moradia, de saúde, contra o patriarcado e o extrativismo. Nenhuma teve solução, mas todas foram entendidas e sentidas pelo povo, passaram pelo filtro democrático que busca a conciliação entre os que sofrem injustiças sociais e os que fazem negócios delas. Conciliação que sempre é favorável para os poderosos.

A luta que se está gestando tem relação com cinco demandas: saúde, educação, trabalho, moradia e na visibilização da opressão que vive a mulher. Como Sindicato de Ofícios Vários pensamos que saúde e educação não só devem ser gratuitas e de qualidade, também pensamos que devem mudar os sistemas, devem se buscar outras formas de educação, modelos nos quais aprendamos a pensar, não estamos por uma educação pública que seja semelhante a um laboratório para a máquina produtiva. Com isto queremos dizer que cada demanda deve ser trabalhada profundamente, não é só o acesso, é o conteúdo, somos contrários ao modelo econômico instaurado, sabemos que o problema é o capitalismo, sabemos que o problema ao mesmo tempo, é o patriarcado, temos fé cega nas bases em que podemos criar outra forma de viver, em harmonia com nossa comunidade e sobretudo com dignidade, para todas e cada um. O poderio que impulsiona este modelo aderiu a autoridade e o mal viver, a custa de abuso e desgaste, em completa coordenação com a defesa da propriedade privada, sabemos isto, esse é nosso claro inimigo: a forma nas quais nos obrigam a viver, é por isso que todos os setores estão lutando, e ainda que a classe dominante não queira assumir esta verdade, seguiremos na luta até que se faça realidade a vida digna, onde as pessoas tenham sua casa, onde a terceira idade receba uma pensão suficiente, onde a escola seja um lugar de desenvolvimento e incentivo da cultura, onde a saúde se aborde de forma integral, e não para lucrar com nossas enfermidades, onde o empresariado não abuse de nossos recursos naturais, onde cada mulher e companheira tenha a livre e justa decisão sobre seu próprio corpo, onde se respeite o direito que tem de sair e voltar sã e salva a seu lar, um mundo onde possa por fim liberar-se de ser sempre um objeto de conquista, com um traço demarcado desde o berço, que a determina e delimita, só pelo fato de sua condição de gênero. Nossa luta é por tudo, e não se baixarão os braços até cumprir com este sonho.

Devido a isto, todos os que estamos na luta sabemos que é importante a organização, que de todas as partes se levantem assembleias. Nós aplaudimos todo esforço que se impulsione desde as bases. Ainda assim, não compartilhamos certas lógicas de alguns setores de esquerda que tentam e pretendem ser o porta-voz do povo, quando o único porta-voz do povo é o povo organizado de maneira horizontal, sob os princípios do federalismo. Ainda falta para que o povo se organize de verdade, mas é possível e esse dia está muito próximo.

Nós não pensamos que o povo é um ente fantasma em disputa, que não pensa e que se deve manipular, nós cremos que o povo existe e que é fundamental sua organização desde suas bases, seja nos territórios, no estudantil ou no trabalho.

Em consequência, como Sindicato de Ofícios Vários: somos anarquistas, mas não somos o porta-voz do anarquismo, somos trabalhadores, mas não somos os representantes dos trabalhadores.

Há muito por fazer no campo organizativo e pensamos que a única forma de conseguir avançar é deixando de lado as pretensões que não colaboram com este processo. O que não significa baixar as bandeiras e esconder os discursos, é simplesmente assumir o que realmente somos, sem falsidades, sem manipulações, e desde aí entender-nos com outros.

Fazemos um chamado a continuar a luta, à união das organizações e a reger-se sob princípios libertários, em apoio mútuo e solidariedade.

Ainda que a anarquia não chegue hoje nem amanhã, nos põe sempre do lado dos oprimidos e contra as injustiças que imperam.

Somos resistência, proposta e rebeldia.

Desde o mar à cordilheira se escuta o poderoso canto da terra que vai forjando outros mundos e um deles é a anarquia.

Por um mundo novo, que garanta o bem-estar e a felicidade de todos e todas, onde ninguém explore a outro e onde todos vivamos em harmonia com a natureza.

Sindicato de Ofícios Vários Santiago

Quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Santiago, região chilena

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/10/21/chile-santiago-concentracao-apoio-mutuo-e-solidariedade-rumo-a-greve-geral/

agência de notícias anarquistas-ana

flores a volta
chega a primavera
a me colorir

Ivanilton Tristão

[Espanha] ‘Gráfica anarquista’: uma exposição mostra as fotografias da revolução de 36

Arxiu Fotogràfico de Barcelona apresenta uma exposição, organizada com o Observatori da Vida Quotidiana, sobre o aparato de propaganda da CNT durante a guerra civil. Gráfica anarquista. Fotografia e revolução social, 1936-1939 se poderá ver no convento de Sant Agustí a partir desta quarta-feira e até 16 de maio de 2020. Com esta mostra se faz evidente o aspecto revolucionário que teve a guerra civil e, ao mesmo tempo, divulgam imagens extraordinárias, geralmente pouco vistas. Este projeto, produzido inicialmente por La Virreina Centre da Imatge, e que contou com a colaboração do Ateneu Enciclopèdic Popular e a Fundación Anselmo Lorenzo, dispõe de um espaço web, graficaanarquista.com, onde se pode ver boa parte da pesquisa. Quem não puder aproximar-se ao Arxiu Fotogràfic de Barcelona, sempre tem a possibilidade de consultar a web, mas se perderá as magníficas reproduções das fotografias de Campañà, Pérez de Rozas ou Kati Horna que se pode contemplar na exposição.

 O aparato de propaganda anarquista

 A exposição se centra na tarefa do Escritório de Informação e Propaganda da CNT-FAI, que se situou na sede expropriada do Foment del Treball. Ali, os propagandistas anarquistas trataram de combater a imagem estigmatizadora que haviam dado deles, tanto o Estado como boa parte dos meios de comunicação. Para fazê-lo, geralmente recorreram à fotografia e à ilustração. Compraram fotos dos melhores fotojornalistas catalães, como Pérez de Rozas ou Antoni Campañà (ainda que alguns deles estavam ideologicamente nas antípodas da FAI). Também recrutaram a fotógrafa anarquista húngara Kati Horna. E contaram com a colaboração desinteressada de fotógrafos voluntários que enviavam seus materiais. Com tudo isso, a CNT-FAI conseguiu criar sua própria iconografia que difundiu através de postais, publicações, filmes e revistas. Inclusive dispuseram da melhor revista gráfica do período: Umbral.

 A criação de um estilo próprio

A luta que se levava na frente bélica também chegou à frente jornalística. Os organismos de propaganda lutavam para ganhar a opinião pública para os diferentes setores em conflito. Os anarquistas criaram um estilo propagandístico próprio, ao qual se adaptaram muito bem os fotógrafos que trabalhavam para eles. As fotografias anarquistas nos apresentam vitoriosamente as expropriações: é muito reveladora a série de reportagens de Pérez de Rozas sobre as coletivizações agrícolas, que sempre apresenta alguma fotografia dos camponeses nas mesas de trabalho dos escritórios. Na exposição também se pode contemplar uma série magnífica de fotos sobre as apreensões das empresas leiteiras, e também cervejeiras (se vê o leite engarrafado com o logo da CNT, e também as fábricas coletivizadas de Damm e Moritz). A CNT, propagandisticamente, tentou inverter as relações de gênero. As fotografias de milicianas (por exemplo, as de Antoni Campañà), se converterão em todo um ícone da revolução (tanto para seus defensores como para seus detratores). Inclusive a derrubada de monumentos, como o de Antonio López, ou as destruições de templos católicos, terão a sua própria mítica, na propaganda anarquista.

Redescobrir todo um mundo

Andrés Antebi, Pablo González, Teresa Ferré e Roger Adán, que trabalharam conjuntamente como curadores da obra explicam que foram muito surpreendidos pela quantidade e a qualidade da fotografia e a propaganda anarquista. Uma parte dos materiais do Escritório acabaram por ser depositados no Arxiu Fotogràfic de Barcelona, muitos outros acompanharam os cenetistas ao exílio, e depois de passar por Paris e Londres, e sofrer importantes perdas, acabaram em Amsterdam, onde estão depositados no International Institute of Social History. E ali foram pouco estudados. Justamente, o que surpreendeu aos curadores é a falta de estudos sobre o tema. Se fala muito, ultimamente, da guerra civil, mas muito pouco da revolução social à qual esteve associada a Catalunha; “isso é porque agora não interessa a ninguém este discurso”, explica Antebi. Apesar de que, não há que esquecê-lo, Barcelona foi a cidade onde aconteceu a maior revolução anarquista do século XX.

Novos rostos da revolução

Na exposição se podem ver fotografias emblemáticas de grandes fotojornalistas, como Pérez de Rozas, Campañà ou Horna. Mas esta não é, fundamentalmente, uma exposição sobre o valor estético de uns poucos fotógrafos, mas sobre a articulação de um aparato de propaganda anarquista. E, neste sentido, é tão revelador ver as grandes fotografias de Campañà, como contemplar as publicações ilustradas anarquistas e analisar como funcionava o aparato de propaganda, com sua própria rádio, com a revista Campo, com Umbral, com a distribuição de cartazes e bandeirolas… A exposição deixa com vontade de saber mais. Por isso, será interessante ver o livro sobre Gráfica anarquista que se derivará desta exposição e que está previsto que se publique em fevereiro de 2020. E também se prevê, um ano mais tarde, a edição de um livro sobre a ilustração anarquista na guerra civil. Dois materiais que, sem dúvida, ajudarão a visualizar o papel da CNT no conflito.

Fonte: https://www.elnacional.cat/es/cultura/grafica-anarquista-exposicion-fotografia-cnt-ait_

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Os grilos cantam
Na chegada da noite
Muito felizes.

Erica Kozlowski, 08 anos

Como se venceu o fascismo na Grécia

A Aurora Dourada, um partido grego de extrema direita, está vendendo suas sedes e nem mesmo seu site está em funcionamento.

Por Hibai Arbide Aza | 18/09/2019

O movimento antifascista derrotou a Aurora Dourada. Raramente se pode afirmar isto com tanta contundência, mas a Aurora Dourada já é história. Seu site oficial parou de funcionar semanas atrás. Os escritórios do que até recentemente era sua sede estão à venda. Entre eles, sua sede na Avenida Mesogeion e a sede do Pireu, a partir da qual os ataques foram coordenados por anos, incluindo o que terminou com o assassinato do cantor antifa Pavlos Fyssas, conhecido como ‘Killah P.’.

A Aurora Dourada deixou de ser a terceira força parlamentar e não teve representação na câmara. As recentes eleições – europeias, municipais e legislativas – foram desastrosas, obtiveram apenas um deputado, Yanis Lagos, que deixou a organização com a intenção de fundar outro partido sem muito sucesso – sua apresentação foi cancelada porque algumas das pessoas anunciadas para o ato se recusaram a participar. Lagos foi quem deu a ordem para matar Fyssas, de acordo com as evidências fornecidas pela família no julgamento. Está, como toda a cúpula neonazista, pendente de uma possível sentença que pode significar muitos anos de prisão.

A derrota da Aurora Dourada vai muito além de um simples golpe eleitoral. A Aurora Dourada não é – não era – um partido político. Era uma organização paramilitar neonazista criada à imagem da SA de Hitler. As consequências do seu desaparecimento vão muito além do Parlamento. Refugiados, pessoas trans, esquerdistas, migrantes, pessoas de cor… Há milhões de pessoas que agora andam mais pacificamente pelas ruas da Grécia. Este é um detalhe que muitas vezes esquece quem compara a Aurora Dourada com o Vox [partido de extrema-direita espanhol] ou qualquer outro partido ultraconservador. A Aurora Dourada não era isso, era uma estrutura paramilitar que realizava ataques organizados e sistemáticos porque fazia uso sistemático e instrumental da violência.

Assim como suas consequências transcendem o Parlamento, as razões de sua derrota devem ser buscadas além da lógica eleitoral. É verdade que a falta de recursos derivados de seu fracasso eleitoral foi a gota que encheu o copo, mas o copo estava transbordando graças ao incansável movimento antifascista que assolou a Aurora Dourada por terra, mar e ar.

AS ESTRATÉGIAS ANTIFASCISTAS

No capítulo dedicado a Aurora Dourada do livro Epidemia Ultra: A onda reacionária que infecta a Europa (autoeditado em 2019), além de uma revisão histórica mais profunda dessa organização neonazista, descreve as quatro linhas estratégicas com as quais o antifascismo helênico agiu: mobilizações em massa, amplas plataformas, perseguição judicial e confronto nas ruas. A classificação visa apenas facilitar a explicação e, é claro, não se trata de escolher entre elas. Elas funcionaram porque foram todas feitas de uma só vez.

Mobilizações em massa têm sido comuns nos últimos cinco anos. As ruas de Atenas, Tessalônica e outras cidades foram preenchidas com milhares de pessoas muitas vezes para lutar contra o fascismo, contra o racismo, a favor de refugiados e migrantes. A data mais óbvia do calendário antifa é 18 de setembro, o aniversário do assassinato de Pavlos Fyssas. Mas não é, de longe, o único dia em que houve manifestações em massa.

Existem várias coordenações antifascistas. Elas são organizadas por bairros e seu objetivo é que, dia após dia, além dos encontros vários, os fascistas sintam que não têm espaço. Eles acreditam que a força do movimento reside não apenas em ações maciças e espetaculares, mas em se tornar um tormento contra a Aurora Dourada. Em todos os momentos, em cada bairro. Somente em 2017 e 2018, essa pressão constante conseguiu forçar o fechamento de 32 sedes deste partido na área metropolitana de Atenas. Eles convocavam manifestações quase todas as semanas e pessoas de todas as idades participavam. Costumavam ser manifestações tranquilas que não terminavam em tumultos. Eles organizaram conversas, colagem de cartazes, atos pequenos e a criação de comitês locais. É a parte maior e mais distribuída do movimento. A mais transversal.

Por outro lado, há equipes de advogados que se dedicam a costurar as querelas dos líderes e bandidos nazistas. Advogados que, posteriormente, promoveram acusações em processos criminais contra a Aurora Dourada. Especialmente no macro-julgamento que quer mostrar que eles não são um partido político, mas uma organização paramilitar. Um julgamento que já completou quatro anos de audiência, com a complexidade que isso implica: centenas de testemunhas, centenas de horas de gravações, milhares de páginas como prova testemunhal, advogados dedicados quase exclusivamente a esse julgamento, organizações que tomam nota de cada uma das sessões, coletivos que relatam prontamente como as sessões acontecem etc. Mas não foi apenas o macro-julgamento, a intenção foi persegui-los por todos e cada um dos ataques que eles praticaram.

Além disso, o antifascismo grego é uma força de choque nas ruas. Uma parte substancial do movimento decidiu não delegar a defesa de espaços ou bairros antifascistas a uma força policial que demonstrou muitas vezes que simpatizava ou colaborava com os neonazistas. A imagem dos cordões de segurança formados por centenas de militantes com capacetes e bastões prontos para enfrentar os nazistas tornou-se habitual. Um exemplo disso é o centro social Distomo, localizado em Agios Panteleimonas, a praça que já foi o bastião da Aurora Dourada. É aqui que os nazistas faziam sua distribuição de alimentos “apenas para gregos”, “doações de sangue de helena” ou o fechamento dos espaços para impedir que as crianças gregas se misturassem com os filhos de migrantes. A abertura de um centro social antifascista ali foi literalmente alcançada à forças. Houve brigas, confrontos contra fascistas e policiais, antifascistas torturados por policiais que, na delegacia, se identificaram como membros da Aurora Dourada. A expressão “sangue, suor e lágrimas” é frequentemente usada como metáfora. Aqui não.

Há outro fato que, sem dúvida, influenciou o fato da Aurora Dourada ter menos presença na rua. Mas é algo que os antifascistas geralmente não falam em público, devido às implicações legais e éticas que isso representa. Em 1º de novembro de 2013, um mês e meio após o assassinato de Pavlos Fyssas, uma motocicleta parou ao lado da sede da Aurora Dourada em Neo Iraklio, nos arredores de Atenas. Duas pessoas com capacetes saíram e atiraram em quatro neonazistas que estavam na porta da sede. Alexandros Gerontas foi baleado, mas conseguiu escapar. Um dos quatro conseguiu entrar na sede e salvar sua vida. Yorgos Fountoulis, 27, e Manolis Kapelonis, 22, morreram instantaneamente. Os agressores dispararam treze balas. Foi uma execução completamente aleatória para esclarecer a mensagem: qualquer membro da Aurora Dourada seria um alvo potencial a partir de então, não apenas aqueles que ocupavam cargos de responsabilidade. Os autores nunca foram identificados. Desde então, a sede da Aurora Dourada se converteram em fortalezas nas quais seus membros entraram, mas não os lugares que congregavam seus partidários.

E AGORA O QUÊ?

A dissolução da Aurora Dourada não significa o desaparecimento da extrema direita na Grécia. Um dos partidos históricos ultraconservadores, o LAOS, foi integrado à Nova Democracia e vários de seus líderes são ministros no novo governo.

O ministro da Agricultura, Makis Voridis, era o secretário geral da juventude do EPEN, partido fascista fundado pelo coronel Yorgos Papadópoulos após a ditadura militar. Voridis coincidiu lá com Nikos Mijaliliakos, líder da Aurora Dourada. Na foto mais conhecida de Voridis quando jovem, de 1985, ele carrega um machado durante um ataque de um esquadrão fascista contra estudantes de esquerda.

Adonis Yeoryiadis é outro dos ministros provenientes do LAOS. Em sua etapa anterior como ministro, durante os anos mais difíceis da crise, ele eliminou a universalidade da saúde pública e privou da mesma os 25% mais pobres da população.

Kyriakos Velopoulos também era um líder do LAOS. Em vez de ingressar na Nova Democracia, ele fundou o partido da Solução Grega. Ele é nacionalista, eurocético, pró-russo e próximo da Igreja Ortodoxa. Uma combinação extravagante, uma espécie de Salvini, se não fosse porque Salvini é um herege católico para os ortodoxos. Nas eleições parlamentares de 2019, a Solução Grega entrou no Conselho dos Helenos pela primeira vez com 3,7% dos votos e dez deputados.

Diante desse cenário, de elementos ultraconservadores no governo e do surgimento de um novo partido de fachada, há quem afirme que o desaparecimento de Aurora Dourada é uma simples transferência de votos, mas a extrema direita continua sendo o mesmo problema. É uma análise completamente errônea. Como repetimos, a Aurora Dourada não era um partido político ultraconservador, era uma organização paramilitar neonazista. Nesse sentido, nada tem a ver com a Solução Grega ou, por exemplo, com o Vox. Compreender as nuances e diferenças internas da extrema direita é fundamental. Sem uma análise rigorosa do neofascismo, qualquer estratégia antifascista será inútil.

O espaço ocupado pela Aurora Dourada está órfão. Hoje, não existe uma organização tão estruturada, tão extremista e tão conectada com o “Estado Profundo” como estava a Aurora Dourada. No curto prazo, no máximo, serão reforçados alguns dos grupelhos neofascistas cuja capacidade de atuação é limitada à realização de ataques menores ou ataques isolados.

Vitórias não caem do céu. Isso custou um esforço terrível e um preço brutal foi pago em termos de mortos, feridos e indiciados por enfrentar os nazistas. Devemos celebrá-lo como merece, porque um movimento que não reconhece ou celebra vitórias está destinado a derrota. Eles não passaram; não passarão.

[ATUALIZAÇÃO] Depois de ficar inativo por mais de um mês, o site oficial do AD ficou visível novamente desde a manhã de 18 de setembro de 2019.

Fonte: https://www.elsaltodiario.com/grecia/como-vencido-fascismo-grecia-amanecer-dorado-desaparece?fbclid=IwAR1rGcKzx-w8TwxtumBxrdbAZ8VbRi_cg6e4vOpU0KsvApaEseOACknrXMU

Tradução > Liberto

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/04/01/grecia-video-antifascistas-atacam-sede-do-partido-neonazista-aurora-dourada/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/11/06/grecia-video-anarquistas-visitam-sede-do-partido-neonazista-aurora-dourada-em-aspropyrgos/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/08/11/grecia-incendiada-a-moto-do-neonazi-que-tratou-de-ultrajar-a-memoria-de-pavlos-fyssas-no-julgamento-do-aurora-dourada/

agência de notícias anarquistas-ana

O coração da aranha
se desfaz em geometria
de seda e mandala.

Yeda Prates Bernis

Chamada Internacional: Venha para a Finlândia para se opor as Marchas Nazistas em 6 de dezembro de 2019

Desde 2014, a extrema-direita organiza uma manifestação em 6 de dezembro, o Dia da Independência da Finlândia. Esse ano os nazistas do Movimento de Resistência Nórdica (MRN) estão novamente planejando organizar uma manifestação nacional socialista em Helsinque, como eles fizeram nos últimos três anos. Mais tarde, no mesmo dia, a manifestação do 6/12 reúne todos da extrema-direita finlandesa, com os nazistas do MRN marchando lado a lado com membros do Partido Finlandês. Estamos chamando todos antifascistas para virem à Finlândia para se opor a essas manifestações da extrema-direita.

O Movimento de Resistência Nórdica é ativo em todos os países nórdicos, e embora a organização tenha sido temporariamente banida na Finlândia, a polícia não tomou nenhuma ação para impedi-los de se organizar desde quando o banimento entrou em vigor em março deste ano. Não podemos depender ou esperar que as autoridades tomem uma ação, temos que fazer isso nós mesmos, juntos. Os nazistas finlandeses têm por anos trabalhado juntos com outros atores da extrema-direita, especialmente outros nazistas nos países nórdicos. Nós, também temos que avançar e agir além das fronteiras para nos opor aos nazistas que tentam marchar em qualquer país.

A ascensão global da extrema-direita não está limitada às marchas nazistas nas ruas. Nas eleições parlamentares finlandesas em 2019, o Partido Finlandês obteve a segunda maior quantidade de votos. O partido se radicalizou durante a década passada, avançando da ala do populismo de direita para o radicalismo de direita ou até o fascismo escancarado. Isso pode ser visto nos discursos racistas realizados no Parlamento finlandês, nas lideranças referenciando teorias fascistas de conspiração como a do “Grande Substituto” (“the Great Replacment”) e a organização cooperativa de acampamentos de verão e manifestações de parlamentares e membros do partido junto aos nazistas da MRN. Além disso, a organização da juventude do Partido Finlandês foi assumida por uma ala “etnonacionalista” radical. Suas declarações francamente racistas fizeram a organização juvenil perder o apoio financeiro governamental.

Depois de cinco anos, a participação nas marchas fascistas no Dia da Independência tem diminuído, assim como outras atividades de rua da extrema-direita finlandesa. Juntos nós podemos levar esse declínio à sua conclusão final. Nós não iremos descansar até a extrema-direita ter cessado toda atividade política na Finlândia e em qualquer outro lugar. Nós esperamos que assim muitos camaradas de outros países possam atender e participar da marcha antifascista em Helsinque e resistir a tentativa da extrema-direita de marchar aqui de várias maneiras. Vejo você nas ruas de Helsinque no dia 6 de dezembro!

Rede Antifacista Varis (Antifascist Network Varis)

varisverkosto.com

Tradução > Brulego

agência de notícias anarquistas-ana

No perfume das flores de ameixa,
O sol de súbito surge –
Ah, o caminho da montanha!

Matsuo Bashô

[Espanha] Ante a cúpula climática de Madrid 2019

[Superar o capitalismo para salvar o planeta]

 No passado 1º de novembro, a Mesa de Governo da Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança Climática decidiu que a próxima cúpula do clima de 2019 (COP25) se celebrasse na cidade de Madrid, sob a presidência do Chile e o apoio do governo espanhol.

Nenhuma destas cúpulas serviu para frear a crise climática. Os compromissos aos quais chegam os países não se cumprem e outros tantos continuam desenvolvendo políticas que atentam contra o planeta. Mas não se trata só de analisar que políticas praticam que países com mais ou menos hegemonia na geopolítica internacional. Há um problema central que é a raiz que causa a crise climática, e que os estados não vão colocar: o sistema econômico capitalista.

Um terço das emissões de carbono são emitidas pelas grandes empresas de combustíveis  fósseis como o petróleo, o gás natural ou o carvão. Empresas como Saudi Aramco, Chevron, Gazprom, Exxon Mobil, National Iranian Oil Co, BP etc.[1] A contaminação através deste tipo de energia está intrinsecamente relacionada tanto com a extração e o processamento do produto como com seu uso na indústria e no transporte e na emissão final dos diversos tipos de gases contaminantes na atmosfera. Estas empresas estão distribuídas por todo o globo, pelo que não é um problema local de uma zona concreta do planeta. É um problema a nível internacional nos cinco continentes. E muitas destas empresas estão radicadas precisamente em países que não acatam as decisões que se tomam nas cúpulas. Ademais, estes tipos de empresas formam lobbies e grupos de pressão para forçar os governos a que desenvolvam políticas que as beneficiem economicamente.

E não são só as clássicas empresas de hidrocarbonetos e combustíveis fósseis as que contaminam. O uso das novas tecnologias e a adaptação do trabalho, a produção e o consumo da nova era digital trarão consigo a necessidade da exploração, processamento e comercialização de minerais como o lítio, vanádio, berilio, germânio, nióbio e outros minerais raros[2]. As novas tecnologias são um setor estratégico na geopolítica internacional, dado que as economias das sociedades desenvolvidas vão depender dos produtos derivados destes minerais. E mais, muitas das energias limpas que podem se desenvolver em um futuro vão depender integralmente destes minerais. Para extrair e explorar este tipo de minerais, se devastam centenas de milhares de quilômetros de terreno, arrasando ecossistemas inteiros e deslocando sociedades, destruindo suas formas de vida. A consequente dependência econômica dos países desenvolvidos deste tipo de minerais vai requerer acelerar a devastação que já se dá em continentes como África, América ou Ásia.

O processo de degradação climática não se deve a causas naturais, está ligado intrinsecamente com o sistema econômico capitalista. O processo de industrialização do século XIX, a exploração do combustível fóssil, a exploração da mineração em grande escala, assim como as grandes empresas e governos que se beneficiaram explorando o planeta até superar sua capacidade de regeneração, são os culpados diretos da degradação ambiental atual.

E na península ibérica já se notam consequências[3] como:

• Diminuição das chuvas de forma consecutiva.

• Aumento da temperatura: mais frequência de dias com temperaturas máximas e extremas.

• Diminuição da bacia hidrográfica, que tem como consequência direta a diminuição de recursos hídricos.

• Mais facilidade de adaptação de espécies invasoras tropicais.

• Desertificação da península com a consequência da perda de solo fértil.

• Aumento dos incêndios.

• Aumento da temperatura do oceano com a consequência direta da acidificação e a modificação da distribuição das espécies marinhas.

O planeta tem um problema grave, e este é o capitalismo. Os compromissos e certas políticas que se possam adotar nesta e posteriores cúpulas climáticas não vão acabar com o problema. Os estados seguirão beneficiando as grandes companhias antes citadas e as grandes indústrias elétricas, como aconteceu na Espanha com o polêmico “imposto do sol”. A COP25 dá por fato que a mudança do clima é inevitável, pelo que é só uma engrenagem do sistema capitalista para garantir que este continue se desenvolvendo e se adaptando a novas exigências pela mudança das condições climáticas.

O planeta só pode salvar-se mudando o modelo produtivo e de consumo por um modelo socialista que esteja focado nas pessoas e no planeta, e não nos interesses geopolíticos dos estados ou das grandes corporações empresariais. Um modelo econômico que:

• Respeite a natureza e a biodiversidade.

• Que socialize os meios de produção com o fim de superar o sistema capitalista.

• Que o gestionem os trabalhadores por si mesmos através de federações de produção e consumo.

• Baseado na cooperação entre pessoas e sociedades, nunca na competição.

• Com um modelo científico a serviço das pessoas e da biodiversidade do planeta.

Pela anarquia.

[1] https://www.theguardian.com/environment/2019/oct/09/revealed-20-firms-third-carbon-emissions

[2] https://www.elmundo.es/papel/historias/2019/09/26/5d8b7ca121efa0c7778b4614.html

[3] https://www.nationalgeographic.es/medio-ambiente/2017/10/el-cambio-climatico-en-espana-impacto-y-consecuencias

Grupo Anarquista Tierra

Federación Anarquista Ibérica (FAI)

federacionanarquistaiberica.wordpress.com

Tradução > Sol de Abril

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/11/29/espanha-cop25-nem-no-chile-nem-em-madrid-nem-em-lado-algum/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/11/15/espanha-todas-as-balas-serao-devolvidas-cop25-nao/

agência de notícias anarquistas-ana

Quietude –
O barulho do pássaro
Pisando as folhas secas.

Ryushi

[Chile] Relato do Encontro Anarcofeminista

[Seguir criando e construindo feminismo anarquista]

No sábado, dia 28 de setembro, se realizou a jornada do Encontro Anarcofeminista, no espaço da Cooperativa Guasasapo, bairro Matta Sur, Santiago, a qual contou com a participação de mais de 60 pessoas. Começou por volta das 12 horas do dia com a apresentação do encontro acompanhado com música de fundo, enquanto começavam a chegar os participantes de forma paulatina.

A primeira oficina chamada “Anarcofeminismo: expresiones no Abya Yala” iniciou por volta das 13 horas, com uma exposição sobre história do Anarcofeminismo na América Latina, seus principais expoentes e várias noções sobre a importância de situar-se geograficamente para revelar aquilo que nos convoca neste território, a importância de construir um feminismo anarquista desde as necessidades, demandas e lutas que se desdobraram em nossa América Latina (Abya Yala), com o fim de seguir fortalecendo a criação autônoma de diversos espaços que nos abram caminhos para a emancipação social, política, intelectual, teórica e cultural. Surgiram várias palavras de companheires sobre as diversas formas que toma o capitalismo extrativista no território Latino Americano e como incide em nossas vidas e em nossos próprios corpos. Também, surgiram diversas visões sobre o Anarcofeminismo na Bolívia e a experiência de “Mujeres Creando” como uma das mais conhecidas manifestações de uma organização de mulheres desde o território e do anarquismo.

Desfrutamos de um cálido e compartilhado espaço para almoçar, para depois iniciar a segunda palestra intitulada “El Pensamiento Libertario de Silvia Federici”. A companheira que expôs, fez uma revisão das principais colaborações teóricas que apresenta esta defensora do feminismo autônomo. Abordamos o questionamento que faz à noção de mais valia de Marx, uma categoria que desde o ponto de vista marxista não considera que a reprodução da vida e os cuidados relegados às mulheres também geram um lucro ao patrão e portanto fazem parte da acumulação capitalista. Também pudemos dialogar em torno da noção de patriarcado salarial e as divisões que se colocam entre as mulheres no âmbito da nova divisão internacional do trabalho e no marco do capitalismo global, podendo identificar os grandes objetivos que se nos propõem ante o contexto político e econômico que nos envolve. Estas notas deram passagem à conversa entre os participantes, que em sua maioria deram ênfase na importância de aprofundar um enfoque classista e anticapitalista ao movimento feminista. “Devemos infectar todos os espaços onde estejamos”, foi o lema compartilhado por uma das mulheres moradoras que nos acompanhou neste nutritivo espaço de autoformação.

Logo se realizou a atividade “Reflexionando el aborto”, já que, desde um princípio se pensou fazer o encontro este dia 28 de setembro, com o objetivo de comemorar o Dia pela Descriminalização do Aborto na América Latina e no Caribe. Esta atividade se realizou de uma forma mais lúdica, para que assim todes participantes fossemos formando-a. Nos dividimos em grupos e a cada um se propôs um objeto para refletir em torno dele e seu vínculo ou ideário sobre o aborto; logo cada grupo expôs suas considerações frente ao resto. Se formou uma interessante série de reflexões que deram conta da importância da descriminalização do aborto, para que não tenhamos que lamentar mais mulheres presas nem mortas por abortar e sobre o controle que pretende ter o estado sobre nossos corpos e nossas decisões, apropriando-se da vontade individual sobre a maternidade.

Ainda que mais além da legalidade ou não do aborto, uma das conclusões que pudemos resgatar foi sobre a autogestão de nossa saúde, nossas decisões e de nossas próprias vidas, levando-as a cabo em solidariedade e apoio mútuo entre nós, por meio de compartilhar e resgatar velhos saberes e com isso criar novos e compartilhá-los. Devemos, reconquistar o conhecimento de nossos corpos, seguir explorando, formando redes e comunidade, para criar alternativas, com o fim de recuperar nossas vidas.

Ademais, uma das interrogantes que ficou à deriva: considerando o estado atual da saúde pública no Chile, onde seguem morrendo pessoas nos corredores dos hospitais, as intermináveis listas de espera e um sem fim mais de situações contraditórias, como a “objeção de consciência” que gerou o Estado para excetuar axs médicxs conservadores de realizar abortos, é:

Se hoje o aborto fosse legal, o farias em um hospital?

Finalmente, terminamos a jornada com um espaço musical que contou com uma banda de punk e um grupo de dança cigana, cabe destacar que todas estas agrupações são compostas por mulheres.

Ademais, durante toda a jornada se manteve uma exposição chamada “Enemigas públicas del estado” que se realizou com o objetivo de destacar mulheres que levaram a cabo ações e experiências, para fazer frente ao estado e ao capital em suas diferentes formas nas quais se impõe, em distintos territórios no transcurso da história.

Assim, agradecemos as companheiras da cooperativa Guassasapo, as companheiras da banda Ahorkate, as dançarinas de Kali Subversiva e a todes participantes, já que, em conjunto conseguimos desenvolver este primeiro encontro de Anarcofeminismo, o qual, se perfilou como um espaço de criação e reflexão coletiva.

Esperamos ver-nos em um próximo encontro para seguir criando e construindo feminismo anarquista.

Saúde!

Ni Amas Ni Esclavas

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/09/24/chile-santiago-1o-encontro-anarcofeminista-28-setembro/

agência de notícias anarquistas-ana

De longe, de perto
Alto ipê-amarelo
guia o caminho

Nicole Plens Santana

[Chile] Santiago: 42º dia de Revolta Social

29 de novembro de 2019

VIVA OS IRREDUTÍVEIS INIMIGOS DO PODER!

“Estamos diante de um inimigo poderoso e implacável, que não respeita nada ou ninguém. Que não respeita a vida dos seres humanos, que não respeita nossos heróis”. A frase é repetida várias vezes pelo Presidente da República, desta vez em uma ação prévia da polícia.

O MEDO é uma das armas mais poderosas do poder, por isso eles continuam promovendo um clima de paranoia para desmobilizar e dividir os oprimidos.

O Estado redobrou seus esforços para aprovar sua “lei anti-encapuzados”. Piñera aponta para os anarquistas, os Barras Bravas e os traficantes de drogas como uma tríade coordenada para desencadear a violência, tentando misturar água e óleo, mas isso é quimicamente impossível.

O plano de comunicação é exceder os saques de pequenas lojas, oferecendo uma grande cobertura jornalística. Eles batem na tecla das lágrimas dos proprietários ao ponto de exaustão para aumentar o drama, ou seja, a imprensa do capital lança uma poderosa carga emocional para deslegitimar a Revolta Social.

Existe uma cumplicidade óbvia (por ação ou omissão) entre a polícia, “domésticos” e traficantes, indivíduos sem códigos que não estão interessados naqueles que prejudicam suas ações.

Sem dúvida, a propriedade privada faz parte do que desejamos destruir, mas hoje nossos objetivos estão cheios de simbolismo estratégico. Se o ataque a qualquer local precisa de explicação, não é simbólico o suficiente.

Uma solução provisória seria “comitês de autodefesa”, mas nossa inexperiência e ineficácia nessas práticas deixam o caminho pronto para os “coletes amarelos” que começam a se armar com um inegável hálito fascistoide. “Que os milicos voltem às ruas!” é o discurso repetido pelos amantes do sistema neoliberal, embora nos seus bolsos o dinheiro sempre tenha brilhado por sua ausência.

A triste realidade é que o capitalismo é tão internalizado em uma porcentagem de oprimidos e explorados que a mercadoria e seus locais de abastecimento são mais importantes que a vida de outros seres. O trabalho, o dinheiro e o consumo são um bem superior, bem mais que cem pessoas com olhos mutilados.

Mas outra parte da população já se deu conta do plano do Estado e o denuncia cada vez que tem a oportunidade na televisão, incomodando cada soberano ao vivo.

Pessoalmente, não me lembro quantas vezes chorei assistindo a vídeos de adolescentes baleados ou sem olhos. Não me lembro de um dia sem a angustiante sensação de saber que em algum momento no Chile alguém sofre de brutalidade policial ou que, dentro de uma delegacia, eles estão torturando e estuprando.

Na sétima sexta-feira de Revolta, e após dois dias com baixa adesão, a “Praça da Dignidade” voltou a encher e a performance feminista “Um estuprador no seu caminho” foi realizada de maneira massiva na zona zero. A performance se expande nacionalmente, globalmente e se torna viral nas redes sociais. Tanto que consegue ofuscar o discurso governamental do medo. Uma faixa gigante é aberta pedindo a renúncia de Piñera e da ministra da Mulher e Igualdade de Gênero Isabel Plá.

Desconhecidos incendeiam a estátua do “Negro Matapacos”, ícone da Revolta. Nas suas fundações, manifestantes constroem outra com flores.

Os confrontos entre lacaios e encapuzados continuam com muitos fogos de artifício. Em Concepción, a polícia usa bombas de efeito moral que desorientam por causa dos flashes de luz que emitem quando ativadas, e o barulho alto da explosão afeta temporariamente a audição. Na mesma região, a etapa do Mundial de Rali é cancelada.

O sindicato dos trabalhadores do Scotiabank e os clientes pressionam o banco e demitem o gerente Antonio Benvenuto, que agrediu manifestantes no shopping La Dehesa.

O ministro da Saúde é achincalhado e seu carro arranhado em um hospital, ele teve que ser protegido pela polícia. A ministra Plá também foi vaiada por manifestantes.

Um manifestante é detido em Vina del Mar por carregar e lançar bombas molotov, ele é investigado por posse de material explosivo. Ontem houve uma concentração em solidariedade com os presos e presas da guerra social nos arredores do centro de (in)justiça. Policiais protegeram e fecharam o local.

Se sente o cansaço, mas não desistimos.

Que a propaganda insurrecional permaneça presente em cada barricada!

ICEM A BANDEIRA REVOLUCIONÁRIA!

N.T.

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/11/29/chile-santiago-40o-dia-de-revolta-social/

agência de notícias anarquistas-ana

A sensação de tocar com os dedos
O que não tem realidade –
Uma pequena borboleta.

Buson

[Chile] Senado chileno aprova lei anti-encapuzados

Na noite desta quarta-feira (27/11), com 22 votos a favor, 11 contra e 2 abstenções, o Senado chileno aprovou em geral – durante uma sessão especial – a lei anti-encapuzados após as pressões do presidente Sebastián Piñera para que os legisladores a discutissem de maneira imediata.

Após isto, a iniciativa regressou à Comissão de Segurança onde deverá atravessar seu próximo trâmite: a votação em particular.

O projeto ingressou no começo de setembro pelos senadores Felipe Kast, Andrés Allamand, Felipe Harboe, Víctor Pérez e José Miguel Insulza e busca modificar o Código Penal.

Com isso, se espera aumentar as sanções contra os que cometam “delitos durante atos públicos ou contra pessoas que atuem nestas instâncias ocultando sua identidade”.

De acordo ao texto, se propõem penas que partem em 541 dias e que chegam a 3 anos e 1 dia de prisão.

Ou seja, esta medida, que agora conta com patrocínio do Governo, aponta diretamente aos conhecidos encapuzados, daí seu nome.

Apesar do avanço deste projeto especificamente, não é a primeira vez que o Congresso Nacional chileno debate uma iniciativa desta natureza, já que durante o primeiro mandato de Piñera se impulsionou a denominada “lei Hinzpeter”.

Entre outras matérias, buscava combater o uso de capuz nas manifestações. Não obstante, a ideia não prosperou.

agência de notícias anarquistas-ana

Gatos no quintal
Disputam gata no cio
– Rato vai… e vem.

Mary Leiko Fukai Terada

Greve Geral e rebelião: a nova via chilena

Mais de um mês de rebelião no Chile. Uma legítima insurreição popular, onde a ação direta, as barricadas, a Greve Geral e a luta combativa nas ruas são os principais elementos. O incansável povo chileno rejeita a tutela, a conciliação e a traição da esquerda institucional e enfrenta de forma heroica a repressão brutal do governo assassino e neoliberal de Sebastián Piñera. Centenas de pessoas cegas, um incontável número de presos políticos, estupros, torturas e dezenas de desaparecidos e mártires assassinados por carabineiros. Cortes de estradas por todo o país, barricadas e enfrentamentos heroicos, a beleza da música rebelde como elemento da memória histórica contra a ditadura, as expressões visuais da rebelião pintadas e coladas em todos os lugares, escudos, molotovs, muitos molotovs, lasers contra blindados e cachorros militantes enfrentando a polícia.

É uma situação pré-revolucionária, com um governo reacionário e pró-imperialista derrotado e acuado que aumenta a brutalidade da repressão e tem como resposta o crescimento da radicalização e da resistência do povo rebelado nas ruas. A classe trabalhadora chilena e a juventude combatente, com uma decisiva participação das mulheres do povo, além da agenda contra o neoliberalismo, tomou para si a pauta anticolonial, atacando os símbolos do colonialismo e o povo Mapuche avança para um autogoverno autônomo. A dualidade de poder também se expressa nas assembleias populares autoconvocadas, baseadas na auto-organização territorial do povo trabalhador. Parlamentares da esquerda institucional são expulsos das praças por manifestantes, após tentarem salvar o governo com um acordo para uma Constituinte tutelada pelo regime reacionário.

O povo chileno faz sua própria história, após viver anos de uma brutal ditadura e de farsa democrática. A coragem e a incansável resistência popular foi precedida de anos de organização de base e trabalho militante de diversos movimentos populares combativos e organizações revolucionárias. A unidade popular que envolve mais de 140 organizações do povo garante a rejeição aos acordos entre as frações de poder para salvar o regime e a convocação unitária de uma sequência de paralisações da Greve Geral é outra chave do processo insurgente.

A rebelião também devolveu ao povo chileno a vontade de viver, a esperança na luta coletiva zerou os suicídios e são diversos os relatos de pessoas que superaram quadros de depressão participando das mobilizações, num país privatizado e vendido como modelo neoliberal na América Latina. A crise capitalista se aprofunda no mundo, a rebelião que sacudiu o Equador, prossegue com o heroico povo haitiano e agora vai tomando forma na Greve Geral da Colômbia e se iniciando no Panamá, tendo no Chile o seu maior bastião. A América Latina será a tumba do capitalismo. O povo é e sempre será o segredo da vitória.

ABAIXO A REPRESSÃO E O GOVERNO PIÑERA!
VIVA A INSURGÊNCIA DO POVO CHILENO E A REBELIÃO NA AMÉRICA LATINA!
TODO PODER AO POVO! PELO SOCIALISMO E AUTOGOVERNO POPULAR!

Casa da Resistência – FOB

agência de notícias anarquistas-ana

manhã de sol
sombra do pardal no poste
primeira visita do dia

Alonso Alvarez

[Internacional] Comunicado de solidariedade com a Manifestação convocada na Grécia pelos sindicatos de base em 30 de novembro de 2019

A Confederação Internacional do Trabalho (CIT) e suas seções aderem e apoiam a convocação para manifestação que será realizada em 30 de novembro de 2019 em Atenas por nossa seção grega, ESE, juntamente com um grande número de sindicatos de base.

Portanto, subscrevemos integralmente seu manifesto de chamada:

Lutamos pelos interesses e direitos das pessoas trabalhadoras, por nossas necessidades básicas, nossa vida e nossa dignidade. Pela solidariedade entre nossos companheiros e nossas companheiras e dentro de nossa classe, com organização de baixo para cima, resistência coletiva no local de trabalho e com a ação horizontal e coordenada de nossos sindicatos.

Rumo a uma greve intersetorial em 19 de março de 2020.

Uma demonstração de raiva dos trabalhadores, dignidade e defesa dos nossos direitos.

30 de novembro de 2019

• Pelo aumento de salários e benefícios

• Pela negociação de convênios coletivos

• Para atender às nossas necessidades básicas

• Contra demissões e reduções de pessoal

• Contra o terrorismo do Estado e da patronal

• Exigir medidas de saúde e higiene no local de trabalho

• Contra o emprego informal ou com contratação inadequada

• Não intensificação das contratações parciais

• Pela redução do horário de trabalho

• Pela segurança no trabalho

• Não à flexibilidade da jornada laboral

• Não a contratos temporários

Confederação Internacional do Trabalho (CIT)

CNT – Estado espanhol

ESE – Grécia

FAU – Alemanha

FORA – Argentina

IP – Polônia

IWW – NARA – EUA e Canadá

USI – Itália

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

A vida tacanha
dorme lá fora
enquanto a gente se banha!

Reinaldo Cozer

[Chile] Santiago: 40º dia de Revolta Social

27 de novembro de 2019

QUE A MONOTONIA NÃO APAGUE A REVOLTA!

Já se passaram 40 dias, e nada de “agenda social”!

O presidente, que, segundo pesquisas apenas 9% da população o aprova, não avança um centímetro em soluções concretas para as demandas das ruas.

A comissão de parlamentares rechaça a acusação constitucional contra o ex-ministro do interior Andrés Chadwick, um dos principais responsáveis políticos pelas violações aos direitos humanos durante a Revolta Social.

A adesão à convocação para a GREVE GERAL foi massiva, mas não tanto quanto a de 12 de novembro. Desde o início, cem mil pessoas se reuniram na Praça da Dignidade e marcharam pela Alameda até Los Héroes, exigindo melhorias na aposentadoria, salários, saúde e educação.

Uma cena surreal ocorreu quando uma caravana fúnebre cruzou a “zona zero”, seus carros tiveram os vidros pichados com várias mensagens.

À tarde, caiu o número de manifestantes nos protestos; vários fatores podem explicar isso; o esgotamento, falta de locomoção para voltar para casa ou a monotonia das dinâmicas de resistência. Dá para se aprofundar neste assunto, mas este é apenas um pequeno “diário de bordo”.

Keny Arkana e Molotov são ouvidos em alto-falantes, enquanto panfletos anarquistas voam e a “linha de frente” enfrenta os lacaios. Eles prendem quatro encapuzados por carregar e atirar bombas incendiárias, drones e policiais civis infiltrados os seguiram e os prenderam a poucas quadras dos fatos.

Em plena Alameda, policiais pegam suas armas de serviço e ameaçam os manifestantes com tiros a alguns metros de distância.

No final do dia do protesto, uma multidão chuta um agente que ficou caído e estropiado no meio da Praça da Dignidade.

Pela segunda vez, a polícia tenta entrar no Posto Central de Urgência para prender os feridos.

Em San Bernardo, uma mulher chamada Fabiola está em coma induzido pelo impacto de uma bomba de gás lacrimogêneo que recebeu no rosto, de acordo com o Instituto Nacional de Direitos Humanos (NHRI) e a rádio Bio Bio. Ela perdeu a visão dos dois olhos, o nariz está quebrado e ela tem lascas metálicas no cérebro.

Em San Ramón, carabineiros disparam gás lacrimogêneo em um colégio e as crianças precisam fugir correndo. Na mesma comuna, desconhecidos incendeiam um ônibus e um supermercado Walmart.

Em Concepción e Iquique, os portuários bloqueiam os portos. Em Bio Bio manifestantes interceptam um caminhão e forçam o motorista a despejar sua carga na estrada com 20 toneladas de sardinha! Uma barricada é erguida.

A delegacia de Peñaflor é atacada com bombas incendiárias. Tropas da PDI (Polícia de Investigações do Chile) disparam contra manifestantes do lado de fora do shopping Portal Belloto, em Quilpue. O centro comercial foi alvo de expropriações coletivas.

Fogo em uma igreja ilumina a cidade de Curico. Manifestantes atacam o hotel e a Seremi (secretária de educação) em La Serena. Em San Antonio, manifestantes incendeiam a sede do jornal “El Lider” e uma agência AFP (sistema de aposentadorias do Chile). Ataque incendiário contra uma arena de maus-tratos a animais em Alto Hospicio.

Em Santiago, os motoristas do “NO + TAG” (contra pedágios) bloqueiam estradas interurbanas e estacionam na Avenida Kennedy, em frente ao shopping Parque Arauco. Uma marcha de estudantes no mesmo shopping localizado em Las Condes causa algumas brigas entre clientes e encapuzados. Estes últimos usam extintores de incêndio e comerciantes fecham suas lojas. Os ricos e os privilegiados estão sendo “perturbados por preguiçosos e tristes”.

Em várias partes, protestos simbólicos são praticados por estudantes do 4º ano do ensino médio, eles dão as costas para a bandeira enquanto o hino chileno é cantado.

O sindicato de jogadores de futebol decide entrar em greve e não cumprir a ordem da Associação Nacional de Futebol Profissional (ANFP) para jogar. O presidente da AzulAzul reitera as ligações entre a torcida “Los de Abajo” e os anarquistas.

Seguimos nas ruas…

Procurar novas estratégias de ataque e resistência!

REINVENTAR NOSSA DINÂMICA DE AÇÃO DIRETA DENTRO DA REVOLTA SOCIAL!

Fabiola Campillay, Gustavo Gatica e Dilan Cruz (Colômbia), isso também vai para vocês…

N.T.

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/11/27/chile-santiago-38o-dia-de-revolta-social/

agência de notícias anarquistas-ana

Ruídos dos carros,
os escuto pela mesma orelha
que os pássaros.

Robert Melançon

[Chile] Uma jornada sem retorno à nossa completa liberdade e dignidade

O surto social iniciado em 18 de outubro e a repressão desencadeada pelo Estado demonstraram o fracasso do modelo político chileno e de seu modelo econômico.

A origem de tudo isso vai além do governo contra o qual lutamos hoje, e a revolta que se espalhou após as evasões em massa realizadas por estudantes em dificuldades tem sua origem na fúria dos abusos apoiados e permitidos por décadas. Nada de bom pode surgir como resultado de dar ao Estado, políticos e autoridades a capacidade de decidir sobre nossas vidas enquanto tentamos sobreviver em um sistema que transforma nossas necessidades em negócios e nosso tempo no dinheiro que nos impuseram como a única maneira de conseguir o que precisamos.

Ao explodir as ruas e as consciências, muitas pessoas sentiram que, com a explosão de raiva, embarcamos em uma jornada sem volta à recuperação de nossa completa dignidade e liberdade. E no meio de tudo o que estamos experimentando pessoal e coletivamente, sabemos que há pessoas que, antes de 18 de outubro, já percorreram os caminhos da luta ancestral por uma vida livre sem um Estado ou autoridade.

Nessa caminhada, aprendemos que a medida do Estado de emergência com militares nas ruas e o toque de recolher decretado pelo governo de direita de Piñera é apenas parte do arsenal repressivo que todos os governos colocaram em prática de várias formas ao longo da história.

Rompendo com uma normalidade imposta por séculos

No Chile e no mundo, tortura, engano, assassinato, injustiça e reformas que não mudam nada estrutural fizeram parte da existência histórica do Estado como ferramenta de opressão em benefício de uma elite.

Antes, e também agora, no Chile, houve pessoas mortas, assassinadas, torturadas, aprisionadas, espancadas ou desaparecidas por causa da luta contra a ordem imposta ou apenas por causa de sua condição econômica, sexual ou étnica.

Uma sangrenta história de intervenção militar e policial circula em nossas veias para aniquilar revoltas e lutas sociais por uma vida digna e livre de opressão: o extermínio do povo mapuche, a Matança de Santa Maria de Iquique, a ditadura de Pinochet, o estado policial da democracia e agora também a repressão aguda contra a qual enfrentamos.

No entanto, nas últimas semanas, muito mais pessoas sentiram em si mesmas o papel opressivo do estado policial militarizado que já era evidente perseguindo há anos lugares como o Wallmapu, casas de okupas, populações combativas e escolas secundárias em luta contra quem o Estado declarou guerra há muito tempo.

Hoje, as autoridades mais uma vez protegem a ordem social, política e econômica que construíram para seu benefício e o fazem reprimindo nas ruas, enganando a imprensa e falando sobre um suposto inimigo que busca afetar a vida das pessoas.

Esse inimigo que eles mencionam é toda pessoa que luta e todo ato rebelde que se multiplica, buscando abrir caminho para maneiras de se relacionar, organizar e viver oposto àquelas que nos impuseram há anos.

Por essa razão, políticos, empresários e forças repressivas tentam nos convencer de que devemos ter medo da desobediência e revolta. Eles tentam nos fazer cair na armadilha de pensar que seus interesses e os nossos são os mesmos. Mas, ao contrário de outros momentos da história recente, hoje muitas pessoas não acreditam neles e continuam na luta.

É por isso que não esquecemos cada golpe, todo tiro contra nosso corpo e o de nosso povo próximo, toda mentira ou todo cúmplice que se posicionou a favor dos poderosos e de sua repressão.

Nem esqueceremos todo ato de rebelião, todo abraço e todo gesto de apoio entre companheiros, amigos e vizinhos. Essa memória e esses gestos de raiva, amor e rebelião fazem parte do cenário da vida e da luta que estamos construindo todos os dias.

A solução está em nossas mãos

No Chile, algo começou a mudar. Alguns acordaram antes, outros depois, mas a verdade é que, apesar da repressão, continuamos a seguir o caminho da vida com o qual decidimos romper.

Hoje somos mais que não queremos dar a ninguém, a não ser a nós mesmos, o poder de direcionar eventos e processos em direção a um horizonte de liberdade e dignidade. É por isso que sabemos que o que construirmos daqui em diante dependerá de nós e não estamos dispostos a dar aos outros a capacidade de decidir sobre nossas vidas.

Nem a esquerda oportunista nem a direita ditatorial. Nem a Frente Ampla nem qualquer partido político. Nem a renúncia de Piñera, nem novas eleições, nem uma nova Constituição. Nada do que vem da ordem estabelecida com a qual estamos rompendo pode nos dar uma solução.

Sabemos que muitas perguntas e preocupações sobre como continuar inundam muita gente agora. De nossa identidade anárquica de luta contra toda autoridade e do que experimentamos em contato com outras vontades no meio da revolta, descobrimos as respostas e ferramentas na experiência e aprendemos a tomar posições de combate no aprimoramento do conflito contra a ordem social que lutamos. Essas ferramentas e essas respostas são encontradas na multiplicação dos atos nos quais se expressam desobediência, apoio mútuo e ação direta.

Lutar juntos e nos apoiar diante dos efeitos da repressão e do medo da escassez causados pelo Estado, deixando nosso mundo pessoal e unindo forças com outras pessoas, contribuindo cada um de acordo com sua capacidade de agir e pensar em conjunto possibilidades de vida diferentes daquelas são respostas que temos forjado a partir da autonomia de não depender de ninguém, mais que de nossa vontade em ação.

Tudo isso foi experimentado por milhares de pessoas nas últimas semanas. Tudo isso e muito mais se desenvolveu sem líderes ou dirigentes.

A partir de agora, o que cada um de nós contribui influenciará o curso do que pode ou não acontecer.

Aconteça o que acontecer, continuaremos a lutar e conhecer todas as pessoas que continuam a experimentar e expandir a liberdade em todos os atos de revolta contra a ordem do dinheiro e da autoridade.

Não vamos desistir, não vamos recuar. Continuaremos a construir um novo mundo nas ruínas do sistema que estamos destruindo.

MULTIPLICAR DESOBEDIÊNCIA, APOIO MÚTUO E AÇÃO DIRETA!

VIVA A REVOLTA CONTRA TODAS AS FORMAS DE OPRESSÃO E AUTORIDADE!

Publicado originalmente em Confronto. Edição especial, outubro-novembro, região chilena, 2019

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Rosto no vidro
uma criança eterna
olha o vazio

Alphonse Piché

[Espanha] COP25? Nem no Chile, nem em Madrid, nem em lado algum!

Como muitos já devem saber, a cúpula do clima prevista para o próximo mês de dezembro no território sob o controle do Estado chileno foi cancelada devido às revoltas que, desde mais de duas semanas, continuam a demolir a “paz” social do país. Perante tal imprevisto, os chefes de turno não podiam ficar sem o seu espetáculo burocrático, necessário não só para se passearem uma vez mais com o seu ar de importância, como também para legitimar – internacionalmente frente à chamada “opinião pública” e às consciências do humanismo bem pensante – a sua geopolítica assassina, dotando-a de uma série de mecanismos e instrumentos que a farão, supostamente, “mais humanitária”, “mais limpa”, “mais verde”, “mais respeitosa”. Por isso e no que, aos nossos olhos, representa uma provocação – tanto pela proximidade das eleições de novembro como, sobretudo pela instabilidade criada em parte do país devido às manifestações e distúrbios na Catalunha, que fizeram crescer a raiva de muites e deixado um enorme saldo repressivo -, o presidente em funções, Pedro Sánchez, ofereceu-se para ser o anfitrião da COP25, convertendo Madrid na sua sede.

Chefes anteriores viram manifestações que tentaram sabotar as suas mentiras. Desde Copenhague há 10 anos, até ao vivido em Paris em 2015, onde coincidindo com o estado de emergência declarado pelos atentados jihadistas, as atividades que se atreveram a ir contra a proibição de qualquer tipo de manifestações de rua, receberam uma repressão assustadora, vemos o rastro de descontentamento que pensamos que é importante continuar a mostrar, levando às portas dos seus palácios sujos.

Tendo em conta a cúpula que se encontra programada para os dias 2 a 13 de dezembro, a apenas um mês de que o evento comece, pode parecer que há pouca margem de tempo para manobrar algum tipo e resposta.

De todas as formas, assistimos nos meses anteriores a greves estudantis e diferentes movimentos internacionais contra as alterações climáticas que em si se caracterizaram por serem mornas, pelo seu caráter democrático, liberal e reformista e pelo seu apelo a figuras de autoridade em instituições do governo, ou dos mercados esperando que as elites financeiras e políticas atuais, voluntariamente, renunciem aos seus privilégios para salvar o planeta da mesma catástrofe que a sua sede insaciável de benefícios vem provocando desde mais de dois séculos (alguns ainda pensam que o problema ambiental que enfrentamos é uma incidência recente!), acreditamos que também motivaram e expandiram os debates e reações sobre este tema por parte de um grande setor da juventude. Há que ver agora se esta mesma gente se mobiliza, por muito pouco que seja o tempo que temos, para demonstrar aos miseráveis que nos governam que, converter o planeta num imenso deserto enquanto eles vivem em mansões rodeadas de comodidades e privilégios manchados de sangue não lhes vais sair grátis.

Pela liberação animal e humana, pela defesa da vida selvagem, pela terra e pelas que lutam para defendê-la em todas as partes.

COP25, nem no Chile, nem em Madrid, nem em lado algum!

Anarquistas

Tradução > Ophelia

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/11/15/espanha-todas-as-balas-serao-devolvidas-cop25-nao/

agência de notícias anarquistas-ana

quarto escuro
silhuetas se amam
pecado puro

Carlos Seabra

[Turquia] Istambul: Mulheres anarquistas protestam em frente à prisão feminina de Bakırköy

Em 22 de novembro, a organização Anarşist Kadınlar (Mulheres Anarquistas) realizou um protesto do lado de fora da prisão feminina de Bakırköy. Elas declararam que todas as instituições que protegem a masculinidade devem ser fechadas e que as prisões devem estar fechadas, não as mulheres.

As mulheres anarquistas cantaram palavras de ordem na frente da prisão e soltaram balões pretos e roxos sobre o muro da prisão para anunciar sua presença e demonstrar apoio às mulheres mantidas como refém pelo Estado patriarcal do outro lado do muro.

As mulheres anarquistas declararam que até na prisão, o mais concreto dos lugares onde o sistema de dominação masculina mantém mulheres aprisionadas, as mulheres não podem ser silenciadas. A ação acabou após uma declaração ser lida em voz alta.

Tradução > Brulego

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/03/06/turquia-somos-as-mulheres-de-anatolia-e-mesopotamia/

agência de notícias anarquistas-ana

luar na relva
vento insone
tira o sono das flores

Alonso Alvarez

[Santos-SP] Resistência negra no Brasil: de Zumbi aos dias atuais

Dia 30 de novembro de 2019, sábado, às 15 horas, na Biblioteca Municipal de Santos Alberto Sousa, na Praça José Bonifácio, Número 58, Centro, Santos (SP).

O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão. As consequências deste fato marcarão profundamente a nossa sociedade com características autoritárias, racistas e patriarcais.

Vamos debater essas consequências e a resistência da população negra no Brasil no passado e na atualidade com as participações do professor, músico e ativista negro Mauro Mariano e do professor e militante anarquista Sérgio Norte, membro do NELCA (Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri).

agência de notícias anarquistas-ana

Na tarde sem sol
folhas secas projetando
sombras em minh’alma.

Teruko Oda