Em tempo de caos, respondemos com ações!

A Acracia Editora, projeto de difusão do ideário libertário, torna público que no dia ontem (24/03) deixou mil livretos de material anarquista nos terminais de ônibus do sul do Espírito Santo.

Em meio ao caos e as incertezas ocasionados pelo Coronavírus, gerado grandemente pelas privatizações, desmontes e cortes no setor da saúde, a difusão das ideias anarquistas se faz mais urgente do que nunca.

Está mais do que claro que o capitalismo, hoje em sua face e fase neoliberal, é o responsável pelo sofrimento enfrentado por todos. E é exatamente nesses momentos de crise que o Capital e o Estado orquestram suas respostas de cortes, arrochos e retirada de direitos dos explorados, tornando-os ainda mais explorados, precarizados e desesperados, onde uma legião de trabalhadoras e trabalhadores em estado de necessidade se tornam mais suscetíveis de aceitar qualquer trabalho em troca de migalhas para não morrerem de fome.

Acreditamos, por outro lado, que trabalhadoras e trabalhadores imbuídos dos ideais de autogestão, apoio mútuo, ação direta e federalismo – os pilares do anarquismo – podem enfrentar a pandemia do Capital, combatendo o mundo de exploração e morte que nos impuseram.

SOLIDARIEDADE PROLETÁRIA JÁ!

SAIAM DO VIRTUAL E ATUEM SOBRE O REAL!

VIDA LONGA AO ANARQUISMO!

Acracia Editora.

agência de notícias anarquistas-ana

É quase noite –
As cigarras cantam
Nas folhas escuras.

Paulo Franchetti

[Porto Alegre-RS] Desobedeça: Viva!

Diante das medidas de exceção, em Porto Alegre (RS), saímos para colar uns cartazes para que o medo não seja o único estímulo nas ruas. A “normalidade” que, nestes tempos de pandemia, defendem sairá triunfante com um controle próprio dum estado de guerra, que estão impondo pela saúde e segurança. Então, para nós, os anárquicos, é impossível defender essa normalidade. Não será essa vida de miséria que defenderemos. Porque sabemos que quando o poder diz se preocupar conosco… precisamos urgentemente desconfiar. Assimnão recuamos nem fomentamos plataformas alternativas, consumos alternativos, espiritualidade alternativa, leitura alternativa, submissão alternativa e passar online a quarentena.

Algumas urgentes lembranças sobre nossas decisões e ações anárquicas. Para quem se pergunte porque xs anarquistas não podemos aceitar acriticamente as ordens de segurança e prevenção pelo Covid-19, queremos lembrar que:

Os anarquistas, há um século decidimos não nos alimentar com a indústria da morte e consumismo, e aprendemos com nossos companheiros sobre o vegetarianismo, o naturismo, práticas que fomos reforçando logo com o veganismo e ainda mais com o rechaço e combate contra o veneno dos agrotóxicos e da comida industrial. Assim, a FLT (Frente de Libertação da Terra), a FLA (Frente de Libertação Animal) irromperam destruindo açougues, matadouros, granjas da morte, e os anárquicos atacaram supermercados, Mc Donalds, cientes de que isso não era alimento mas mercadoria, que nos envenenava e enfraquecia.

Também decidimos, há muito tempo atrás, rechaçar o controle que tenta impor o sistema de saúde do Estado sobre nossos corpos, uniformizando as formas de nascer, de se curar, de se limpar, de se alimentar; porque também nos negamos a aceitar indiferentes o sistema de “saúde mental” da psiquiatria, cientes de que essa uniformização apenas servia às indústrias farmacêuticas que controlam boa parte do mundo e aos desejos de ter uma massa trabalhadora, medicada e conformada com a vida que impõem. Assim, desde faixas e publicações até ataques contra farmacêuticas marcaram nossa procura de nos libertar da indústria da “saúde”.

Porque os anarquistas desde que começamos a nos chamar como tais cultivamos um senso crítico que no impede acreditar na mídia e nas vozes oficiais da dominação ou de seus falsos críticos, cientes de que essas mensagens não são de rechaço à autoridade, mas de obediência e normalidade, e assim aprendemos também a desconfiar das novas tecnologias, das redes “sociais” e da avalanche des-informativa. E em consequência,  atacamos suas antenas e canais de TV, e também os celulares que nos vigiam e  controlam nos isolando e abobando cotidianamente.

Nos negamos a obedecer porque não reconhecemos amos nem deuses, já que sabemos que o Deus ditador eterno unido aos que dominam é um dos motores da submissão, obediência e irreflexão. Assim, há séculos queimamos igrejas, para nos liberar com fogo desse domínio que adormece com esperança aos que são explorados.

Porque desejamos que a ordem imperante se acabe, e fizemos nossa parte desde o magnicídio, o regicídio, até a detonação de prédios. Porque ao fazer uma barricada, um dia qualquer, ao queimar as máquinas, os bancos ou uns carros de luxo, decidimos quebrar o fluxo do capital, esse fluxo que hoje os que amam o lucro e o controle defendem a sangue, e que sabemos garante o funcionamento da máquina. Uns querem que a máquina não pare, nos achamos que precisamos destruí-la porque é ela que nos mata e adoece.

Em resumo, porque nos decidimos a atacar à dominação e para isso não apenas afastamos nossos corpos de seus venenos, nossas mentes de suas manipulações e mentiras, mas, e, sobretudo, nos preparamos para resistir, como resistiram todos nossos companheiros aos regimes de isolamento, por anos, no F.I.E.S. (regime de isolamento nas penitenciárias da Espanha), nas prisões dos EUA e em todas as cadeias, nos preparamos para resistir às torturas como resistem nossos companheiros do caso “Rede” e Ilya Romanov na Rússia. Nos preparamos para resistir perseguições eternas como resistem Marco Camenish e Gabriel Pombo da Silva, para combater com toda nossa força a vida de miséria que nos querem impor, como combateram por mais de quatro meses os e as compas no Chile.

A paralisação e morte da ordem imperante foi algo que sonhamos provocar, que o medo não nos desconcentre. As migalhas do Estado, não deixam de ser migalhas com reformas em tempos de crise.

Por isso e, certamente por muitas, demasiadas razões de ódio contra os que dominam, os anarquistas pela anarquia, não apenas chamamos a desobedecer nos negando a recuar diante desta ou de outra crise globalizada. Se chamamos a desobediência é pela guerra social. E estamos chamando, desde diversas partes do mundo, sem coordenações nem chefias, à desobedecer e não ficar na prisão domiciliar, mas jamais para que regresse a normalidade, nem para defender instituição nenhuma do Estado, comércio ou igreja, mas  para viver a vida livre que decidimos viver, ou seja para estar onde sempre estivemos: na defesa da liberdade e contra toda autoridade.

Desobedeça! Viva!

Anarquistas pela anarquia.

agência de notícias anarquistas-ana

Porque não sabemos o nome
Tenho de exclamar apenas:
“Quantas flores amarelas!”

Paulo Franchetti

[Espanha] Barcelona: O Ateneu Llibertari de Gràcia ante a epidemia do “Coronavírus”

1. É evidente que a epidemia do “Coronavírus” é um fato (seja ou não mais mortífera que a influenza), e sua mortalidade vai aumentar com nossas pessoas idosas, com os grupos de risco e indiretamente com pessoas enfermas de outros males e dos trabalhadores da saúde. Política e eticamente parte da responsabilidade destas mortes é dos mesmos que gestionam os cortes e a privatização da saúde. Não estão preocupados por nossa saúde, só temem contagiar-se e estão se contagiando. Em si os vírus têm algo de nivelador!

2. Pensamos que detrás das medidas e alarmes sensacionalistas para mitigar os efeitos da epidemia está o projeto econômico neoliberal e o programa político autoritário que este necessita. A situação atual foi criada para servir aos diversos Poderes do Estado-Capital mediante a implantação de: primeiro um estado de terror psicológico para desmobilizar todo protesto, segundo um estado de exceção social que isole as pessoas de suas próprias redes de cuidados, e terceiro a anulação de direitos políticos e econômicos das classes populares.

3. Nos parece que esta epidemia está sendo utilizada como em seu momento utilizaram o terrorismo, mas neste caso parece que encontraram um “inimigo”, um “perigo” talvez mais eficaz e universal para o controle e a desmobilização social. Está claro que em muitos lugares, incluída nossa cidade, o medo ao terrorismo não aplacou o conflito social como exemplo temos as mobilizações selvagens da França, que apesar dos diversos alertas vermelhos antiterroristas continuam, ou os movimentos sociais que seguem crescendo em Barcelona apesar do atentado das Ramblas.

4. A epidemia nos põe em risco, inclusive de morte. Como também nos põem em risco os cortes sociais, a privatização da saúde e serviços, a perda de trabalhos, a impossibilidade de pagar as faturas, o ter as crianças em casa e não poder cuidá-las, a perda de liberdades, etc.

5. Também queremos denunciar a super exploração das cuidadoras e trabalhadoras da saúde (em sua maioria mulheres).

Ante a situação atual o Ateneu ajudará no que possa às diversas redes de apoio mútuo, sejam formais ou informais, tentando manter o local como ponto de referência aberto para que as mesmas o utilizem.

Vemos que nestes momentos a auto-organização se faz necessidade e é essencial colaborar com a mesma, apesar de nossas limitações.

O Ateneu, nesta situação, pode ser útil para o apoio mútuo, pois nos sentimos comprometidos em apoiar a nossa gente, seja a que fique enferma, seja a que perca alguém querido, seja confinada ou na perda dos meios de vida pelo capricho dos neoliberais que desmontaram a saúde que agora a população necessita. Portanto, sempre que possamos manteremos o Ateneu como eixo de referência para nossa gente, para nós mesmas, para reforçar as diversas redes de apoio mútuo.

Um abraço e cuidem-se pessoas do povo.

ateneullibertarigracia.wordpress.com

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Na soleira do sítio
a graúna canta
ao silêncio do sol.

Anibal Beça

[México] Chamado para a Segunda Feira Libertária Infantil “Construindo Anarquia”

Podcast Anarcopunk Amenaza Menor, Colectivo Internacional Impulsa e Escuela Comunitaria Corazón de Resistencias convocam gestores culturais, promotores de leitura, educadoras e educadores, coletivos, músicos, poetas e artistas em geral para participar da Segunda Feira Libertária Infantil “Construindo Anarquia”.

Proposta feita por um grupo de jovens organizados que se preocupam em melhorar a educação emocional infantil, promovem o desenvolvimento pleno e livre do ser humano através de atividades realizadas desde diferentes disciplinas e abordagens, que tem como objetivo criar e reforçar laços sociais positivos, promovendo valores elementares em diversas comunidades.

Esse grupo conseguiu identificar que a carência emocional na infância é um problema emergente na sociedade atual, pois traz consigo condições que podem obstruir o sentido da vida em volta de uma criança e afetar negativamente seu pleno desenvolvimento.

Esse é o objetivo dessa ação pedagógica; gerar espaços em que sejam encontrados e fortalecidos laços sociais que promovam empatia, respeito mútuo, assim como autonomia e autogestão da comunidade.

Obrigado ao nosso cúmplice Jorge Enkis pelo desenho e todo o seu arre!

Indivíduos interessados em colaborar nessa ação direta são bem-vindos!

Info: LekzAmenaza@gmail.com 

FB: Amenaza Menor             

agência de notícias anarquistas-ana

Folhas a boiar
Na água que se vai
Chuva de outono.

Ana Karolina Trog – 10 anos

[Itália] A solidariedade não entra em quarentena

Nas últimas semanas, muitos e muitas de nós estamos imaginando como realizar atividades políticas e de união social nos contextos em que vivemos. Já nos encontramos tomando decisões difíceis, cancelando ou não iniciativas, manifestações, greves, encontros, assembleias e reuniões públicas, mesmo sob a ameaça de uma possível proibição por parte das autoridades. O que está acontecendo pode afetar significativamente a realidade em que vivemos, de mãos dadas com os riscos reais à saúde; o processo de emergência em andamento em torno da questão do coronavírus coloca questões muito importantes em termos políticos.

Desde as primeiras notícias sobre a disseminação do vírus na China, os principais representantes dos partidos no parlamento começaram a enfrentar a emergência, explorando a situação. Não é uma novidade. É a chamada “política de emergência”, a condensação do confronto político em torno de questões urgentes que dominam os jornais e dão origem às hashtags mais populares, com sensacionalismo, com linguagem violenta, propondo soluções totais e impossíveis. O debate público passa de emergência em emergência, há o do terremoto e o da segurança, há a emergência fria e a de resíduos, há a emergência de buracos na rua e, finalmente, a do coronavírus. Às vezes são problemas reais, outras são artificiais, mas isso não é importante, porque esses políticos certamente não querem realmente resolver os problemas das pessoas. Em vez disso, eles querem criar tópicos importantes para vencer seus oponentes e consolidar consenso. Mas tenha cuidado, não se trata de descaso, incapacidade, ignorância, é uma luta pelo poder.

Como a comunicação geralmente é apenas um campo de batalha, a emergência, especialmente quando não é apenas informada, mas também formalmente reconhecida pela lei, como no caso de inundações, terremotos, desastres e emergências de saúde, cria grandes “oportunidades”. Com comissariados extraordinários, contratos, consultoria, financiamento, racionalização de procedimentos, medidas fiscais, bônus, redes de segurança social, são criadas posições de poder muito atraentes no nível econômico e político. Cada estado de emergência requer uma maior concentração de poder, e para isso é acompanhado por uma intensificação da luta pelo poder e sua divisão.

Apenas nas últimas semanas, houve um conflito difícil entre o governo central e as regiões lideradas pela centro-direita que imediatamente aplicaram medidas drásticas. Uma queda de braço em termos de competências e disposições que também abordaram aspectos constitucionais. Conte fez saber que em 24 de fevereiro que estava pronto para retirar os poderes das regiões no campo da saúde, possíveis em casos extraordinários sob o artigo 120 da Constituição. No dia seguinte, as tensões quase explodiram entre a “sala de controle”, o governo e as regiões. Nesse contexto, enquanto os jornais falavam de um possível governo de unidade nacional Salvini-Renzi, Salvini subiu ao Quirinale em 27 de fevereiro para encontrar Mattarella e solicitar a intervenção do Presidente da República. Já no dia seguinte, Renzi negou essa possibilidade. Evidentemente, foi encontrado algum acordo político para lidar com essa primeira fase. Esse teatro, com declarações bombásticas, medidas draconianas, exige unidade, parece ser dirigido principalmente por necessidades políticas, em vez de ser ditado por necessidades de saúde.

A partir da semana seguinte, 4 de março, com o aumento real dos casos e a disseminação da infecção para fora das regiões do norte da Itália, foi emitido o primeiro de uma série de decretos da Presidência do Conselho de Ministros que dentro de alguns dias severamente apertou as restrições, obviamente também tocando a liberdade de manifestação e reunião. O Decreto do Primeiro Ministro, de 4 de março de 2020, prevê medidas restritivas válidas em todo o território nacional até 3 de abril e, entre outras coisas, suspende “as manifestações, eventos e espetáculos de qualquer natureza, incluindo cinema e espetáculos teatrais, realizados em qualquer lugar, públicos e privados, que envolvem aglomeração de pessoas, de modo a não permitir o cumprimento da distância interpessoal de segurança de pelo menos um metro”.

Esta disposição segue duas comunicações da Comissão de Garantia de Greve, que de fato suspendem o direito de greve pela emergência do coronavírus. A primeira comunicação de 24 de fevereiro é um convite geral para suspender as greves de 25 de fevereiro a 31 de março, que explodiu as esperadas greves escolares de 6 de março. A segunda, em 28 de fevereiro, pediu explicitamente que as greves gerais convocadas para 9 de março fossem suspensas para os dias globais da luta feminista em 8 e 9 de março. Esta é de fato uma proibição específica de greve para o dia 9 de março, que forçou a maioria dos sindicatos a desistir da chamada, apenas os Slai Cobas mantiveram a greve de pé com o risco de fortes sanções para a organização sindical e os grevistas.

Na noite entre 7 e 8 de março, o Decreto Ministerial de 8 de março de 2020 é emitido com efeito imediato, o que prevê medidas extremamente rigorosas. O Artigo 1 estende a chamada “Zona Vermelha”, também prevendo a proibição de entrada e saída e movimentação – exceto emergências e, obviamente, trabalho – dentro do território de toda a região da Lombardia e 14 províncias do Piemonte, Emilia Romagna, Veneto e Marche. O artigo 2 aumenta as medidas restritivas no território nacional, proibindo completamente as manifestações, até privadas”.

Finalmente, entre 9 e 10 de março, foi emitido um novo decreto, o Decreto Ministerial de 9 de março de 2020, que estendeu todas as restrições, incluindo restrições de viagem, a todo o território nacional, incluindo as ilhas, admitido apenas por razões válidas e comprovadas: trabalho, para emergências e necessidades de saúde. Além disso, “todas as formas de reunião de pessoas em locais públicos ou abertos ao público são proibidas em todo o país”.

Se, com o Decreto Primeiro-Ministro de 4 de março, estávamos literalmente a um metro da suspensão das liberdades de reunião e demonstração, com o poder discricionário de gestores e prefeitos de proibir qualquer iniciativa, com o mais recente Decreto Primeiro-Ministro de 9 de março, chegamos à proibição total de todas as formas até 3 de abril. Essa formulação ambígua, que usa “reunião” em vez de “manifestação”, deixa amplo espaço para interpretação às autoridades encarregadas da ordem pública. Além disso, após décadas de medidas anti-greve, chegamos à suspensão definitiva do direito de greve. Esses decretos tiveram um efeito devastador, já em 4 de março, há alguns dias das manifestações de 8 de março organizadas em muitas cidades pelas NonUnaDiMeno e outras realidades feministas que criaram extrema confusão. Em muitas cidades diante de uma situação já marcada pelo medo alimentado pela mídia em torno da emergência do coronavírus e por medos reais por riscos à saúde, o que dificultou a participação nas iniciativas, a medida do governo levou as assembleias locais a cancelar muitos manifestações e momentos na praça. Em muitos lugares, no entanto, mesmo que não fosse possível manter os desfiles, foram organizados momentos remodelados da praça, resistindo de alguma forma a medidas e medo.

Essas regras podem mudar já nas próximas horas, ser mais rigorosas ou ser acompanhadas de novas medidas; a situação ainda está bastante confusa; no entanto, até o dia 3 de abril, formas de demonstração e reunião são proibidas arbitrariamente, com a justificativa inestimável da saúde pública, e todos os movimentos considerados desnecessários são puníveis. O que acontecerá com as muitas lutas territoriais, disputas trabalhistas, protestos locais, mobilizações mais radicais, se essas medidas já tiverem um efeito tão forte nas manifestações de 8 de março, em um dia de mobilização internacional que nos últimos anos se sabia como afirmar sua própria legitimidade? Como é possível, nesse contexto, para quem precisa continuar trabalhando, para quem está preso nas prisões, para quem está além do coronavírus deve procurar tratamento médico, para quem não tem casa ou acesso a serviços de higiene, para quem mora em moradia insalubres ou precárias, para todos aqueles que sofrem bullying e invasão de especuladores e aproveitadores, organizam-se, reivindicam seus direitos, obtêm condições decentes, criam formas de solidariedade? Estamos em uma situação em que o estado de emergência confere ao governo maior poder, em que o presidente da república pede “disciplina” e “responsabilidade”, em que manifestações e reuniões podem ser proibidas de maneira quase arbitrária, na qual o direito de greve está suspenso. É uma situação muito perigosa.

Basta pensar na abordagem militar escolhida para lidar com a situação nas prisões, os tumultos que eclodiram em 27 penitenciárias em toda a Itália deixam claro que uma parte da população deste país, quase 61.000 pessoas, vive forçada a condições de higiene superlotadas e desastrosas. Por esse motivo, pedem uma coisa nessa situação, a liberdade, por meio de um indulto ou uma anistia. Por enquanto, o estado respondeu com os departamentos de choque, o notório GOM e o exército. Atualmente, existem 11 mortes entre prisioneiros entre Modena e Rieti, por motivos ainda a serem apurados, mas sobre os quais a responsabilidade do Estado e seus aparatos parece evidente. Fora das prisões também havia famílias de prisioneiros e realidades de solidariedade, essas simples presenças ante os decretos de emergência do governo podem ser consideradas ilegais.

Deve-se notar que, desde as primeiras semanas de emergência, começamos a falar sobre a recessão, a crise econômica. De fato, muitos setores de produção na Itália e no mundo são afetados pelas consequências da emergência do coronavírus, e agora alguns administradores locais estão propondo um desligamento temporário das atividades de produção. Mas sabemos o que o refrão da recessão significa para milhões de trabalhadores, tanto precários quanto “garantidos”, as demissões já começaram, muitos contratos de prazo fixo não serão renovados, aqueles que trabalham com desempenho ou na ilegalidade não recebem salário, sacrifícios são necessários, as férias são impostas e haverá dispensas. Mas isso não é tudo, existem aqueles que já estão esfregando as mãos e gostariam de aproveitar a oportunidade para intervir mais profundamente nas relações de trabalho, com “experimentos” destinados a restringir os direitos e liberdades daqueles que trabalham. Em um artigo da Repubblica de 24 de fevereiro, Mariano Corso, encarregado do Observatório de Trabalho Inteligente do Politecnico di Milano, declara: “além do coronavírus, também devemos erradicar um vírus que é nossa incapacidade de trabalhar de maneira eficiente, superando o pensamento de que apenas a presença no escritório é garantia de resultados”. Se, por um lado, greves e manifestações forem suspensas, as demissões não serão suspensas ou as reivindicações dos gerentes serão reduzidas. De fato, eles podem dizer que “Milão não para”, pedindo mais dinheiro público e deixando alguns milhares de trabalhadores precários em casa.

Foi com o mesmo refrão da recessão que, há menos de dez anos, o governo liderado por Monti decidiu um dos mais pesados cortes no financiamento da saúde pública nas últimas décadas, e em 10 anos foi roubado do Serviço Nacional de Saúde 37 bilhões de euros. Existe um risco real de que a crise econômica ligada à emergência do coronavírus leve a uma nova temporada de “sacrifícios”.

Quando eles nos pedem para sermos responsáveis, para dar um passo atrás em nome da responsabilidade coletiva, eles apenas zombam de nós. Quem é responsável pelo desmantelamento da saúde pública que, além de eliminar muitas das estruturas encarregadas da prevenção, reduziu drasticamente os leitos hospitalares e até levou ao fechamento de distritos de saúde e instalações hospitalares? Quem é responsável pela propagação de doenças respiratórias causadas por poluição atmosférica grave, produção prejudicial e condições insalubres de vida e trabalho? Quem é responsável pelo fato de muitas pessoas consideradas em risco pelo coronavírus ainda serem forçadas a trabalhar e não poderem se aposentar?

Foram as instituições, os partidos e os industriais que destruíram nosso serviço de saúde, que causaram o aumento de doenças respiratórias crônicas, que nos mantêm desempregados ou pregados ao trabalho até a velhice. Eles agora estão nos pedindo para sermos responsáveis, fazer outros sacrifícios e não protestar.

Outro aspecto a considerar nesta emergência é o caminho que ela deixará na sociedade. De repente, um país como a Itália se viu imerso em uma atmosfera de “guerra”. Não apenas e não tanto pela militarização das áreas em quarentena, mas pela comunicação política e da mídia que se mantém desde os primeiros dias e que polarizou a atenção em todo o país. Os boletins diários que apresentavam a contagem de mortos, infectados e curados do dia à noite rapidamente se tornaram uma rotina, acompanhados de notícias sobre medidas governamentais e apelos à disciplina, cumprimento das recomendações de higiene, responsabilidade, número de telefone através do qual relatar possíveis casos. Se algumas implicações desse período serão vistas apenas mais tarde, outras já serão evidentes. Nesse contexto, o Estado parece ser o único garante da saúde pública, contra o contágio, a morte e o caos. Essa imagem é ainda mais enfatizada por quem exalta o modelo chinês, ou até tira o pó de Hobbes para recordar a necessidade, se não de uma ditadura, pelo menos de um estado forte, como a única solução. Na realidade, o Estado presidiu o desmantelamento da estrutura de saúde pública e, por sua natureza, está mais preocupado em satisfazer as demandas de industriais e grandes proprietários do que em proteger a saúde dos cidadãos. Além disso, além da questão da eficácia efetiva das medidas restritivas destinadas a limitar a infecção, sobre a qual não tenho competência para me expressar, a abordagem autoritária conduzida com medidas drásticas aplicadas às cegas e acriticamente pode ser desastrosa no caso de erros de avaliação. Ao mesmo tempo, o refrão “fique trancado na casa da qual cuidamos” ativa um processo muito perigoso de desresponsabilidade e infantilização na sociedade. A sensação de desamparo e a impossibilidade de causar um impacto diante da emergência nos faz negligenciar a importância das escolhas e iniciativas individuais e coletivas a partir de baixo. Essas medidas podem contribuir para desintegrar ainda mais o tecido social, demolindo todas as formas de autodefesa individual e coletiva, fazendo-nos perder toda a fé na capacidade de reagir em nível social. O autoritarismo não pode substituir solidariedade, conscientização, responsabilidade individual, confronto coletivo que nessas situações pode representar formas indispensáveis de prevenção. Basta pensar no fato de que as formas de auto-organização que estão surgindo em muitas cidades também podem ser consideradas ilegais, como formas de solidariedade pela entrega de alimentos, apoio a quem perde o emprego ou não recebe salário ou outras atividades simples, mas importante para a sobrevivência.

A responsabilidade que pressiona neste momento não é esperar, disciplinadamente, que nos fechemos para que o governo resolva tudo, talvez funcione de qualquer maneira, porque a recessão está chegando. Mas é manter vivo e fortalecer as redes de solidariedade, para que possam ser ferramentas para todos os explorados e oprimidos nesse contexto, nos níveis de saúde, social e político.

Portanto, é bom discutir e refletir sobre a situação, tanto para poder enfrentar coletivamente, conscientemente e conjuntamente o risco à saúde, como para evitar que a vantagem da emergência modele verdadeiramente qualquer forma de oposição nas ruas e qualquer forma de atividade sindical. Em uma fase como essa, é importante reafirmar a liberdade de greve, demonstração e reunião contra as medidas repressivas do governo. Porque é importante, sem descurar os riscos à saúde, manter espaços de liberdade e viabilidade política e fortalecer as redes existentes de solidariedade e apoio mútuo. Também para evitar que, quando tudo isso acabar, não esperemos uma realidade pior que o próprio vírus.

Dario Antonelli

Fonte: https://www.umanitanova.org/?p=11724

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

no muro o caracol
se derrete nos rabiscos
da assinatura prateada

Dalton Trevisan

[Chile] Miséria, repressão, morte, doença, isolamento e terror: é a única coisa que recebemos dos estados e do capitalismo

É com muita tristeza e extrema urgência que apresentamos essa nova propaganda neste contexto de crise mundial da saúde.

A ameaça do coronavírus afeta os povos do mundo, já existem milhares de mortes e a expansão continua em ritmo acelerado, e nosso país não é exceção.

Somos o povo pobre que finalmente sofre, como sempre, as consequências de um sistema que trabalha em prol dos poderosos e que apenas nos vê como mercadoria e dinheiro, forçando-nos a trabalhar sob o risco de contágio, que se recusa a interromper a normalidade consumista, porque não lhes importa nossa saúde, e o capital espalha seus tentáculos de miséria, morte, repressão, isolamento, doenças e terror em todos os cantos.

Nessa situação, o chamado que podemos fazer é estar alerta para cuidar de nós mesmos e tentar não cair na histeria irracional que leva ao egoísmo e ao individualismo extremos, apenas a luta, a solidariedade, o apoio mútuo e a auto-organização nos permitirão superar de uma maneira positiva essa crise causada pela mãe de todas as pragas, o CAPITALISMO.

O estado $hileno, com medidas desastrosas e absurdas, coloca a população (pobre) em risco mais uma vez, mas o colapso é evidente e uma nova tempestade social está chegando.

Vamos ficar o maior tempo possível em nossas casas, vamos conversar, debater, enfatizar sobre esse problema, essa certamente não será a última pandemia, porque enquanto essa ordem atual de desigualdades e miséria continuar a existir, continuaremos a ser afetados por pestes.

Incentivo, força, resistência, responsabilidade e carinho por todos os pobres do mundo.

A PANDEMIA SÃO OS ESTADOS E O CAPITALISMO.

Grupo Revolucionário de Propaganda

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Sobre a folha seca
as formigas atravessam
uma poça d’água

Eunice Arruda

[EUA] Contra o Coronavírus e o Oportunismo do Estado

Anarquistas na Itália Relatam a Disseminação do Vírus e da Quarentena

De um lado, nossas vidas são ameaçadas por um novo vírus; do outro, nossa liberdade é ameaçada por nacionalistas e autoritários que pretendem usar essa oportunidade para estabelecer novos precedentes para a intervenção e controle do Estado. Se aceitarmos essa dicotomia — entre vida e liberdade — continuaremos pagando o preço ainda por muito tempo depois que essa pandemia em específico tiver passado. De fato, uma está ligada à outra, é dependente da outra. No relatório a seguir, nossos camaradas na Itália descrevem as condições prevalecentes lá, as causas da crise crescente e como o governo italiano aproveitou a situação para consolidar o poder de uma forma que só irá agravar as futuras crises.

Nesse momento, a estratégia das autoridades não visa proteger as pessoas do vírus, mas controlar o ritmo em que ele se espalha para não sobrecarregar a infraestrutura estatal. O gerenciamento de crises está na ordem do dia, como em muitos outros aspectos de nossas vidas. Nossos governantes não pretendem preservar a vida de todas as pessoas — eles já descartaram a preocupação com as mais necessitadas muito antes da crise começar. Pelo contrário, eles estão determinados a preservar a estrutura atual da sociedade e sua sensação de legitimidade.

Neste contexto, devemos ser capazes de distinguir entre dois desastres diferentes: o desastre do próprio vírus e o desastre causado pelas formas pelas quais a ordem existente responde — e não responde — à pandemia. Será um erro grave nos lançarmos à mercê das estruturas de poder existentes, confiando cegamente que elas existem para nos salvar. Pelo contrário, quando governantes dizem “saúde”, se referem muito mais à saúde da economia do que à saúde de nossos corpos. Caso em questão: a Reserva Federal dos EUA prometeu injetar US$ 1,5 trilhão para estabilizar o mercado de ações — US$ 500 bilhões para os bancos — mas a maioria dos cidadãos dos EUA ainda não pode fazer o teste de coronavírus.

Para ficar claro: embora Trump e outros nacionalistas em todo o mundo pretendam aproveitar essa oportunidade para impor novos controles a nossos movimentos, essa pandemia não é uma consequência da globalização. As pandemias sempre foram globais. A peste bubônica se espalhou pelo mundo centenas de anos atrás. Ao introduzir uma proibição de viajar vindo da Europa, enquanto continuam tentando preservar a saúde da economia dos Estados Unidos — em vez de direcionar recursos para a preservação da saúde dos seres humanos nos EUA — Trump está nos dando uma lição explícita sobre como o capitalismo é fundamentalmente perigoso para a nossa saúde.

Vírus não respeitam as fronteiras inventadas do Estado. Esse já está dentro dos EUA, onde o serviço de saúde é muito menos abrangente e uniformemente distribuído que na maior parte da Europa. Todo esse tempo, enquanto o vírus se espalhava, pessoas que trabalham no setor de serviços foram forçadas a continuar colocando a si mesmas em risco a fim de pagar suas contas. Para eliminar as pressões que coagem pessoas a tomar essas decisões difíceis, primeiro teríamos que acabar com o sistema que cria uma desigualdade tão drástica. Pobres, sem teto, e outras pessoas que vivem em condições insalubres ou sem acesso a um sistema de saúde decente são sempre as mais atingidas por qualquer crise – e o impacto nelas coloca todo mundo em um risco maior, espalhando ainda mais o contágio, e com maior velocidade. Nem os mais ricos entre os ricos podem se isolar completamente de um vírus desse tipo, como demonstra a circulação do vírus no escalões mais altos do Partido Republicano. Resumindo: a ordem vigente não é benéfica pra ninguém, nem para quem mais se beneficia dela.

Esse é o problema com o que Michel Foucault chamou de biopoder, onde as mesmas estruturas que sustentam nossas vidas também as restringem. Quando esses sistemas param de nos sustentar, nos vemos em uma armadilha, dependentes da mesma coisa que está nos ameaçando. Numa escala global, a mudança climática produzida industrialmente já tornou essa situação bem familiar. Algumas pessoas até sugeriram que, ao reduzir a poluição e acidentes em locais de trabalho, a desaceleração industrial que o vírus causou na China está salvando vidas, ao mesmo tempo que as está tirando.

A resposta de progressistas e esquerdistas é criticar as falhas do governo Trump, efetivamente pedindo mais intervenção governamental e controle centralizado — o qual Trump, ou seus sucessores, com certeza irão exercer em benefício próprio, não apenas como resposta a pandemias, mas também como resposta a qualquer coisa que percebam como ameaça.

Fundamentalmente, o problema é que não temos um discurso sobre saúde que não parta da premissa do controle centralizado. Ao longo do espectro político, toda metáfora que temos para segurança e saúde é baseada mais na exclusão da diferença (por exemplo: fronteiras, segregação, isolamento, proteção) do que na busca por desenvolver uma relação positiva com a diferença (por exemplo: ampliar os recursos do sistema de saúde para todas, incluindo aquelas fora das fronteiras dos EUA).

Precisamos de uma forma de conceber o bem-estar que compreenda a saúde física, os laços sociais, a dignidade humana e a liberdade como estando todas conectadas. Precisamos de uma forma de responder a crises baseada em apoio mútuo – que não conceda mais poder e legitimidade para tiranos.

Ao invés de colocar fé cega no Estado, precisamos focar no que podemos fazer com nossa própria agência, olhando para os precedentes anteriores para nos orientar. Não vamos deixar ninguém atacar a forma de organização anarquista como não sendo “disciplinada” ou “coordenada” o suficiente para tratar de um assunto como este. Já vimos diversas vezes que as estruturas capitalistas e estatais são, na melhor das hipóteses, “disciplinadas” e “coordenadas” exatamente de formas que impõem crises desnecessárias sobre nós — pobreza, mudanças climáticas, o complexo industrial prisional. Anarquismo, como o vemos, não é um projeto hipotético para um mundo alternativo, mas a necessidade imediata de agir fora e contra os ditames do lucro e da autoridade de forma a reagir às suas consequências. Enquanto os modelos atuais de se “gerenciar a pandemia” que os Estados estão pondo em prática são baseados no controle vertical que sempre falha em proteger as pessoas mais vulneráveis, uma abordagem anarquista se focaria principalmente em direcionar os recursos, como cuidados médicos, para todas as pessoas que precisam deles, ao mesmo tempo em que empodera indivíduos e comunidades a serem capazes de limitar a quantidade de risco a que escolhem se expor sem enormes consequências negativas.

Existem precedentes pra isso. Lembramos de Malatesta voltando a Nápoles em 1884, apesar de uma condenação a três anos de prisão pendendo sobre ele, para tratar de uma epidemia de cólera em sua cidade natal. Com certeza nossos antepassados teorizaram sobre isso e realizaram ações com as quais poderíamos aprender hoje. Apenas alguns anos atrás, algumas anarquistas encararam o desafio de analisar como responder a um surto de ebola de uma perspectiva anarquista. Pedimos que vocês pensem, escreva e conversem sobre como criar um discurso sobre saúde que se distinga do controle estatal — e que tipos de ações podemos realizar juntas para ajudarmos umas às outras a sobreviver a esta situação de forma que preserve nossa autonomia.

Enquanto isso, apresentamos este relato de nossas camaradas do norte da Itália, que estão lidando com esta crise por algumas semanas a mais que nós.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://pt.crimethinc.com/2020/03/16/contra-o-coronavirus-e-o-oportunismo-do-estado-anarquistas-na-italia-relatam-a-disseminacao-do-virus-e-da-quarentena

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agência de notícias anarquistas-ana

Parou de chover:
No ar lavado, as árvores
Parecem mais verdes.

Paulo Franchetti

[França] Covid-19, um Covid-20 (acratovírus)?

De acordo com as últimas notícias, já existem vários epidemiologistas e infectologistas (entre eles, alguns dos mais renomados do mundo) que, diante da catástrofe espetacular e, no momento, imparável dos políticos infectados pelo coranovírus, começaram a se perguntar angustiados sobre a possibilidade de que o Covid-19 (seu nome real, de acordo com a Organização Mundial de Saúde) é na verdade um Covid-20, um acratovírus¹…

Essa angústia não é o produto de conspiração-nóia ou hipóteses decorrentes de mentes febris ou antissistema; porque, efetivamente, diante de tal catástrofe, que está começando a colocar e manter em quarentena a muitos governos no mundo, a preocupação desses especialistas em virologia e imunologia é totalmente justificada. Não apenas porque a governança mundial está em perigo hoje, mas também porque o está o sistema de controle e dominação dos povos. Esse sistema que tantos sacrifícios e mortes custaram para construir e impor!

Portanto, é de grande urgência identificar o que realmente é o Covid-19, pois, se for finalmente um Covid-20, um acratovírus, os estragos entre a classe dominante serão de tal magnitude que – antes de derrotá-lo – os povos serão forçados a funcionar por si mesmos, se autogovernar e deixar para trás para sempre os políticos e líderes de todos os tipos e linhagens… Aquela espécie que, desde sempre, não parou de se sacrificar – junto com outras espécies, o capitalista – para construir para nós, o resto da humanidade – a maravilhosa sociedade de consumo infinito… Embora, felizmente, não seja para todos o mesmo, e sem se importar em deixar em ruínas a biodiversidade e grandes áreas do planeta.

Portanto, não sejamos ingratos e, nesses momentos, de ansiedade e incerteza sobre essa pandemia inesperada – embora previsível -, disciplinemos e obedeçamos cegamente aos slogans daqueles que governam pensando – sempre – em nós mesmos e do nosso bem… Evitemos, então, apertar as mãos, vamos parar de beijar, não vamos mais a lugares assombrados, vamos manter a distância de segurança (dois metros e, se pudermos, quatro ou mais…) para evitar o contágio. Mas, acima de tudo, vamos lavar as mãos escrupulosamente com água (quente, se possível e, se não for, morna…) e com sabão (se possível de boa marca) várias vezes ao dia e sempre que tocamos no que os outros têm tocado.

Não esqueçamos, tudo isso é necessário para proteger a nós mesmos e aos outros, além de também ser necessário para salvar o sistema que nos colocou nessa terrível e absurda situação de risco e desamparo… Sejamos solidários, pratiquemos apoio mútuo. Vamos tirar proveito desse descanso obrigatório para realmente descansar e refletir sobre como nos libertar de tudo o que nos é imposto contra a nossa vontade. Então, vamos ser responsáveis!

Especialmente agora, já que eles (aqueles que nos governam) não param de nos incitar a ser. Comecemos, portanto, a pensar e organizar iniciativas de responsabilidade autônoma e solidária para autogerir a sociedade e, finalmente, dar prioridade às coisas essenciais para nossas vidas e à preservação de nosso habitat: a natureza.

Vamos, portanto, assumir essa responsabilidade completamente. Vamos prestar atenção às chamadas deles, o que eles nos dizem, o que eles nos mandam, e cumprimos à risca, e sem nos arrependermos de ter esperado tanto tempo (anos, séculos…) para sermos responsáveis, estarmos cientes de que nossa capacidade de se auto-organizar e dar à vida outro significado que não o imposto a nós: o da acumulação de coisas.

Não devemos esquecer que eles fizeram isso pensando no nosso bem (e, é claro, também no deles) e com o nosso consentimento (muitas vezes – é verdade – forçado), como é o caso agora, diante dessa catástrofe que é surpreendente e questiona tudo: sua globalização, suas políticas econômicas neoliberais e sua sociedade de mercado, que transforma os humanos em meras mercadorias.

Um questionamento e surpresa que já provocaram anúncios grandes e significativos de medidas para o “bem comum” de empregadores, trabalhadores, proprietários e inquilinos… Inclusive para os sem-teto. Além da moratória sobre hipotecas e contas de fornecimento de eletricidade, gás e água para pessoas sem renda ou sem trabalho. Embora, é claro, cada um de acordo com seu status e, acima de tudo, com seu papel na economia nacional e mundial (capitalista).

Portanto, entre essas medidas, as mais justas e encorajadoras – segundo sua lógica (capitalista) – são a decisão do Federal Reserve dos Estados Unidos, o FED, de comprar ativos por US $ 700 bilhões e o Pacote de estímulo de US $ 850 bilhões, promovido por Trump, para dar liquidez ao mercado e salvar as fortunas dos mais ricos.

Como, então, duvidar das boas e louváveis intenções dos políticos e não reconhecer sua sensibilidade social, inteligência e pragmatismo para se adaptar às circunstâncias e tentar aproveitar ao máximo seus interesses e os da classe a que servem?

Portanto, não vamos perder a oportunidade de reconhecer seu sacrifício por nós (o povo) e se despedir solenemente (“Que se vão!”). Com aplausos, como aqueles que foram (merecidamente) atribuídos em muitos lugares ao pessoal de saúde, que são os que estão combatendo o vírus ao vivo… E isso, apesar de ter que enfrentar uma escassez criminal de material e equipamentos de proteção devido à improvisação e às políticas de ajuste orçamentário das autoridades.

Não esqueçamos, assim como o que aconteceu nas crises anteriores, em que os mais ricos não tiveram escrúpulos em aumentar – com a cumplicidade dos políticos – suas fortunas, enquanto os trabalhadores enfrentavam os ajustes…

Não, não vamos esquecer; mas também não devemos esquecer que, se o Covid-19 é realmente um Covid-20, um acratovírus, é também a ele que devemos dedicar nossos aplausos… Não apenas porque é indiscutível que não é um vírus racista ou de classe, mas também porque é um vírus a quem se deve a atual consciência social…

Embora, para esclarecer, o que essa conscientização dê depois dependerá fundamentalmente daquilo que nós, os que estão abaixo, decidimos e fazemos. Tanto no campo social quanto na saúde. Bem, como é reconhecido pela maioria dos epidemiologistas e doenças infecciosas, embora seja difícil saber quando ocorrerá uma pandemia, a preparação para enfrentá-la está bem estabelecida, mas é cara e, quando o tempo passa, os governos retornam – se permitirmos – a economizar nessas coisas, como fizeram até agora…

Cabe a nós, portanto, que essa consciência – para dar primazia à vida sobre a acumulação – seja mantida e ampliada; pois somente assim os governos podem ser obrigados a adotar, via de regra, as medidas que ontem decretaram impossíveis e que hoje adotaram sob pressão das circunstâncias: priorizar o que é necessário para a sobrevivência coletiva do que é supérfluo e prejudicial para a coexistência fraterna e solidária da humanidade.

Perpignan, 20 de março de 2020

Octavio Alberola

[1] De acordo com esses mesmos virologistas, os vírus podem ser, como seres humanos e outras espécies vivas, individualistas ou coletivistas, crentes, agnósticos ou ateus, monarquistas ou republicanos, liberais, socialistas, comunistas ou anarquistas. É o caso do Covid-20, que é anarquista.

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

dou de comer ao gato:
o ronrom
estridula sem cessar

Ross Clark

[Espanha] Um mural na Kasa de la Muntanya presta homenagem aos milicianos

O grafiteiro Roc Blackblock se inspirou em uma foto de 28 de agosto de 1936, de Antoni Campanyà, uma miliciana anarquista da CNT.

Em 1936, o “Escritório de Informação e Propaganda da CNT-FAI” encomendou vários fotógrafos para coletar o que estava acontecendo nas ruas. Este mural é inspirado em uma dessas fotografias. O original, obra de Antoni Campanyà, é de 28 de agosto de 1936, um mês após o golpe. Pertence a uma série de retratos dos milicianos quando eles pegaram o “Barrack del Bruc” (que foi renomeado “Barracks Bakunin”). A importância desta série é que as fotografias se tornem a certificação da vitória da Revolução Social, pois retratam a vitória e levam um símbolo como o quartel, a última defesa nacional da região. Presumivelmente, os milicianos que tomaram o quartel eram uma coluna de L ‘Hospitalet e Baix Llobregat.

Não apenas o golpe de estado parou nesta parte do país, mas a Revolução Social começou. Fábricas e terras foram coletivizadas, riqueza e recursos foram redistribuídos, espaços e símbolos de poder e opressão, instituições, quartéis, igrejas foram apreendidas e também queimadas…

Pintar uma imagem com uma história como esta ganhou um significado especial ao fazê-la na Kasa de la Muntanya, um antigo quartel da Guarda Civil que foi okupado em 1989 e liberado por 30 anos. Apesar das traições, da derrota, dos 40 anos de ditadura… O espírito permanece intacto, o melhor tributo é continuar lutando.

Foi um projeto exaustivo, que surgiu há muito tempo, complexo em muitos aspectos, mas que funcionou muito bem graças ao apoio que tive. Tudo isso não teria sido possível sem:

O E. que facilitou o que parecia tecnicamente louco para mim e o fez com eficiência absoluta. Este “lado a lado” tem sido um prazer.

Max Ira por abrir espaço na sua agenda e documentar o processo.

Everyday Life Observatory por compartilhar parte de seus conhecimentos sobre o assunto e me ajudar a contextualizar e documentar o trabalho. Se você quiser se aprofundar nesse momento histórico, não perca a exposição “Gráficos Anarquistas” que eles selecionaram no Arquivo Fotográfico de Montana Colors que apoiou a intervenção.

A Kasa de la Muntanya, é claro, para o muro, mas também para as instalações, cumplicidades e hospitalidade.

Roc Blackblock

Tradução > Liberto

agência de noticias anarquistas-ana

a borboleta
pousa sobre o sino do templo
adormecido

Buson

[EUA] 72 horas de agonia: Henry Brown, o escravo que conseguiu alforria ao ser enviado dentro de uma caixa

Brown só tinha um buraco para respirar durante o caótico trajeto até Filadélfia, nos Estados Unidos. Sua atitude inspiraria milhares

Por Vanessa Centamori | 22/03/2020

Henry Box Brown já nasceu escravo, em uma plantação no estado-norte americano da Virgínia, em uma data não precisa, na década de 1810. Ele passou o começo da vida sendo explorado de baixo de chuva e sol, até que o fazendeiro, dono das terras onde ele era escravizado, morreu. A partir daí, mais do que o destino – mas principalmente o desespero – levaria Brown a se colocar dentro de uma caixa para escapar da escravidão.

Com a morte de seu proprietário, o escravo foi separado dos pais e irmãos, ainda adolescente. Sua família inteira foi vendida, e sem escolha, ele foi direcionado para trabalhar em uma fábrica de tabaco.

Uma vez por lá, Brown conheceu o amor da vida dele, uma moça chamada Nancy, com quem ele selou seus laços oficialmente, se casando com ela em 1836. O casal teve então três crianças, até que Nancy engravidou de um quarto filho, em 1840.

Um dia, o escravo recebeu uma notícia desesperadora: a esposa e os seus filhos pequenos foram vendidos para um padre metodista, na Carolina do Norte. O marido se viu sozinho, e aflito para reencontrar os familiares. Não enxergou outra escolha além de tentar fugir.

Assim, procurou então a ajuda do seu colega de igreja, o paroquiano James Caesar Anthony Smith, assim como o auxílio de outro homem, chamado Samuel Smith. O plano do escravo em fuga era ser enviado de navio até Richmond, na Filadélfia, onde a escravidão já havia sido abolida.

Mas a parte mais insana era que Brown não usaria um meio de transporte convencional para viajar até o norte. Sammuel Smith o enviou dentro de uma caixa, pelo correio da Adams Express Company.

O rapaz foi colocado dentro de um baú de madeira, que dizia “comida seca”. O recipiente foi forrado com tecido e tinha apenas um buraco, para garantir que Brown não morresse asfixiado. Ele teve que aguentar um total de 27 horas enclausurado até chegar nas portas da Sociedade Antiescravidão da Filadélfia.

Como o fugitivo acreditava em Deus, assim que chegou, cantou um salmo bíblico como forma de gratidão. E aquele sucesso gerou um otimismo muito grande nele, o suficiente para que resolvesse também ajudar outros escravos, que também foram enviados dentros de caixas transportadas em navios até a Filadélfia, em 8 de maio de 1849.

Em homenagem ao seu plano bem executado,o ex-escravo passou a usar como nome do meio, Box ( caixa, em inglês). Ele também tentou passar a sua história em diante, publicando livros, fazendo palestras, números de mágica e viajando para a Inglaterra.

Mas, infelizmente, o plano de Brown foi descoberto e ele foi preso, junto de James Caesar Anthony Smith, embora o último não tenha auxiliado a operação para libertar vários escravos, mas apenas na fuga do próprio Henry Box Brown.

Após sair da cadeia, ele jamais reencontrou sua esposa Nancy e seus filhos, guardando essa dor para sempre. Rastreá-los era praticamente impossível após a emancipação da família, pois seus sobrenomes teriam sido trocados.

Mas a história teve um recomeço: Brown casou novamente e teve como segunda esposa Jane Floyd. Ele finalmente pôde percorrer as ruas livre com as três crianças que teve com a mulher. Morreria em 1897, na cidade de Toronto, no Canadá.

Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/72-horas-de-agonia-henry-brown-o-escravo-que-conseguiu-alforria-ao-ser-enviado-dentro-de-uma-caixa.phtml

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sol poente
numa ruela
menino corre das sombras

Rod Willmot

[Chile] A rebelião em quarentena – Um guia anarquista de ação em tempos de pandemia.

Um guia prático de sobrevivência, ações de segurança e prevenção social em objeção a uma pandemia como o coronavírus Covid-19 e como combater suas desastrosas conseqüências em uma ordem social que nunca foi projetada para preservar nosso bem-estar.

>> Você pode baixar e compartilhar o livreto no seguinte link:

https://drive.google.com/file/d/1JY4JlTM7eCuW1usnCaCKqavyyjzDhxkW/view?usp=sharing

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Não esqueças nunca
o gosto solitário
do orvalho

Matsuo Bashô

Corpo da Mensagem Posicionamento da CAB – Conjuntura Março 2020

Frente a pandemia do Coronavírus, em um cenário de intensos ataques as e aos de baixo, nós da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) apontamos oito medidas urgentes pelas quais devemos lutar nesse momento.

1- QUE OS CAPITALISTAS PAGUEM PELA PANDEMIA

Nenhuma demissão por infecção de coronavírus! Contra as medidas do capital como demissões, cortes de salário etc, usando o vírus como desculpa. Punição aos capitalistas que expuserem trabalhadores ao risco do corona ou demitirem trabalhadores durante a pandemia. Liberação total do trabalho fora de casa e em casa, e abono das faltas para pais e mães com filhos com suspeitas de vírus. Abono de faltas para todos os trabalhadores formais durante a pandemia (do serviço público ou empresas privadas) que não sejam da área de saúde ou de serviços essenciais.

2- SOLIDARIEDADE E APOIO AOS TRABALHADORES INFORMAIS

O governo orientou a população a ficar confinada em casa como uma forma de evitar que a disseminação do vírus se dê de forma acentuada. Contudo, os trabalhadores precarizados (terceirizados, diaristas; informais, autônomos, caminhoneiros, camelôs etc.) não tem condições de se manter em confinamento, porque dependem dos resultados diários do seu trabalho para subsistir. Suspensão do pagamento de contas (inclusive aluguéis) – proibição do corte de água, luz e qualquer outro serviço mensal – fornecimento de alimentação para qualquer pessoa que precise – interrupção da cobrança de dívidas de quem não tiver condição de trabalhar por conta própria. Garantia de renda mínima para trabalhadores precarizados e fora do trabalho formal. Distribuição de cestas básicas aos trabalhadores que perderam sua renda durante a epidemia. Responsabilização das empresas de aplicativo pelo bem estar de seus trabalhadores. As empresas devem oferecer suporte econômico e de saúde.

3- CONTRA A AGIOTAGEM DOS CAPITALISTAS E BANQUEIROS

Congelamento dos preços de produtos de cesta básica apesar da crise econômica. Anulação da EC95 – Teto dos gastos, e não à qualquer corte de direitos dos trabalhadores, que os ricos paguem pela pandemia. Serviço público de qualidade é economia para o povo.

4- SEGURANÇA E SAÚDE PARA O POVO

Distribuição de álcool gel, kits de higiene pessoal e garantia de distribuição de Equipamentos de Proteção Individual para os trabalhadores de serviços essenciais.

5- DEFESA DO SUS E PUNIÇÃO DOS CAPITALISTAS QUE ATENTAREM CONTRA A SAÚDE PÚBLICA

Responsabilização das políticas neoliberais dos últimos governos, do congresso nacional e do governo Jair Bolsonaro/Paulo Guedes pelos cortes na área de saúde. Defesa geral da saúde pública (contratações, emergências e aumentos dos leitos): contra o sucateamento que vem sendo promovido e a adoção dessas medidas para a ampliação da capacidade do sistema de saúde; Abertura dos hospitais privados e sua anexação temporária ao SUS ao uso da população durante a pandemia. Contratações emergenciais de médicos, enfermeiras e técnicos.

6- AÇÕES MÉDICAS NA POPULAÇÃO CARCERÁRIA E LIBERTAÇÃO DOS PRESOS SEM JULGAMENTO

Adoção de medidas de prevenção e de cuidados médicos maiores em presídios e para a população carcerária. Nenhuma suspensão de direitos da população carcerária.

7- SOLIDARIEDADE COM A POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA E SEM-TETO

Abertura dos hotéis e motéis para população de rua e sem teto, como forma de contribuir para o controle do vírus, e garantir a higiene e acesso a saneamento básico a essas pessoas.

8- AÇÃO DIRETA DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS EM DEFESA DA NOSSA SAÚDE

Pela paralisação dos locais de trabalho e parada da produção (em todos os setores que não sejam essenciais). Que os/as trabalhadores defendam sua saúde coletiva contra a ganância dos capitalistas! Desobediência civil contra a obrigação de ir trabalhar e gerar lucro aos capitalistas. Estimular a  criação de fundos de solidariedade para as redes de convívio, sindicatos, organizações, movimentos, bairros, etc. Rodear de solidariedade os/as de baixo, contra o descaso do governo e dos capitalistas.

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as pálpebras da noite
fecham-se
sem ruído

Rogério Martins

[França] Atualidade do anarquismo

O anarquismo ainda é uma corrente não reconhecida e caricaturizada. Entretanto, durante momentos de luta social, despontam práticas libertárias. Longe de reduzir-se a uma simples recusa, o anarquismo dispõe de um legítimo projeto de sociedade.

A corrente anarquista permanece ainda sem reconhecimento. A imagem midiática dos black blocs contribui para a sua popularidade nos movimentos sociais atuais. Mas o anarquismo propõe, sobretudo, uma crítica precisa ao capitalismo e ao Estado, para desenvolver um projeto alternativo de sociedade. É igualmente importante atualizar o pensamento anarquista para levar em consideração novas questões.

Guillaume Davranche, profundo conhecedor do movimento operário e anarquista, propõe um pequeno livro de introdução. Militante da Union Communiste Libertaire (UCL), ele aposta em uma síntese aberta e apartidária. O anarquismo abrange diferentes correntes e está permeado por inúmeros debates. Guillaume Davranche fixa-se em apresentar seus fundamentos ideológicos em suas “Dez questões sobre o anarquismo”.

Doutrina anarquista

O anarquismo estrutura-se entre 1876 e 1880. Na época, é considerado uma corrente do movimento operário. A Primeira Internacional é criada em 1865. Com Karl Marx e Mikhail Bakunin, ela propôs a propriedade coletiva dos meios de produção. O anarquista Bakunin firma-se na ação clandestina e na insurreição. Mas ele defende progressivamente a construção de organizações amplas de luta operária.

Os bakuninistas opõem-se aos marxistas. Eles criticam o Estado e as eleições. Uma cisão irrompe em 1872. A Federação do Jura e, depois, Piotr Kropotkin elaboram a teoria anarquista. O coletivismo, e depois o comunismo, opõe-se à propriedade privada. A federação dos grupos de produtores substitui o governo.

Após o insucesso das revoltas e dos atentados, os anarquistas franceses voltam-se para o sindicalismo revolucionário. A transformação da sociedade passa agora pela greve geral. Os anarquistas dominam a CGT de 1901 a 1913.

O anarquismo opõe-se ao capitalismo. Ele propõe uma socialização da economia. As infraestruturas de produção e de comércio são controladas pelo conjunto da sociedade. A autogestão propõe uma organização diferente do trabalho. A especialização e a hierarquia entre trabalhadores intelectuais e manuais são abolidas. As escolhas de organização da sociedade são debatidas de maneira democrática. O comunismo libertário substitui o coletivismo. Não é mais a quantificação do trabalho, mas a satisfação das necessidades que predomina. Hoje, porém, as questões ecológicas impõem uma regulação dessas necessidades.

Os anarquistas propõem a destruição do Estado, substituído por um autogoverno federal. A organização firma-se na camada local, que não é controlada por uma camada superior. As comunidades de base confederam-se para organizar a sociedade de baixo para cima. Os eleitos e os nomeados são controlados por um mandato imperativo limitado no tempo e revogável.

O anarquismo incorpora o combate feminista. Bakunin opõe-se à misoginia de Proudhon. Os anarquistas reivindicam a igualdade de direitos entre mulheres e homens. Emma Goldman e Voltairine de Cleyre desenvolvem um anarquismo claramente feminista. A liberdade sexual, a contracepção e a união livre são defendidas pelos sindicalistas revolucionários da CGT. A dependência econômica da mulher é igualmente colocada em pauta. No ano de 1968, a livre disposição do corpo torna-se o combate central. O anarquismo propõe igualmente a destruição do patriarcado.

Práticas de luta

Os anarquistas não compartilham as mesmas estratégias de ação para mudar a sociedade. O historiador Gaetano Manfredonia propõe uma classificação que conecta os discursos e as práticas. O insurrecionalismo é a manifestação mais visível do anarquismo. Durante os grandes momentos revolucionários, eles conduzem as revoltas. No período atual, os black blocs que atacam símbolos do capitalismo, como os bancos, encarnam essa estratégia. No entanto, essa prática de luta deve estar inscrita em um contexto de conflitualidade social para não se marginalizar.

A estratégia sindicalista deve permitir mobilizar os explorados, quaisquer que sejam suas ideias políticas, por meio de reivindicações imediatas. Uma greve geral insurrecional deve permitir a apropriação coletiva dos meios de produção. A auto-organização pode igualmente emergir das assembleias autônomas em relação aos sindicatos. Os anarquistas devem intervir para denunciar a delegação de poder e apresentar uma perspectiva de ruptura para com o capitalismo. Essa estratégia sindicalista depende da intensidade da luta de classes. Os anarquistas correm o risco de deixarem-se absorver por um aparelho sindical legalista e repetitivo.

A estratégia do tipo educacionista-realizador insiste na mudança das mentalidades. Os anarquistas defendem a educação popular, mas também a ação direta. As cooperativas, as pedagogias libertárias, as zonas a defender (ZAD) e os modos de vida comunitários visam a experimentar um novo modo de vida. Hoje, as alternativas estão inscritas em uma estratégia de transição ecológica. Mas essas experiências podem desmembrar-se dos movimentos sociais. Elas mergulham então na marginalidade sectária. As alternativas podem também fundir com a lógica mercantil, à imagem das cooperativas.

Os anarquistas podem organizar-se de maneira diferente. A organização informal estrutura-se unicamente durante os momentos de luta. A ação direta antepõe-se ao formalismo organizacional. A rede pode igualmente permitir a troca de informações e conduzir ações comuns. No entanto, a ausência de estruturas pode também mascarar hierarquias informais.

O anarcossindicalismo apoia-se em uma organização sindical que carrega uma ideologia anarquista. Essa forma permite afirmar um caráter de classe. No entanto, embora o sindicato não somente busque recrutar anarquistas, seus efetivos são limitados. Ao contrário, o desenvolvimento da organização pode distanciar-se das práticas libertárias. A CNT espanhola é o modelo do anarcossindicalismo.

O plataformismo insiste no envolvimento nos movimentos sociais. A organização apoia-se em uma orientação política claramente definida. No entanto, o plataformismo corre o risco de levar a organizações rígidas e até mesmo autoritárias. O especifismo retoma o mesmo esforço, mas divide-se em frentes de luta; o que provoca uma fragmentação dos movimentos sociais e impede uma perspectiva global. O sintetismo propõe a comunhão entre individualistas e comunistas libertários. Mas a organização apoia-se em acordos tácitos e foge do debate para manter uma unidade de fachada.

A ação dos anarquistas durante as revoltas históricas não é realmente triunfante. Na Espanha de 1936, um levante espontâneo permite uma auto-organização de base. Mas os anarquistas da CNT juntam-se ao governo. Sobretudo, eles dão confiança aos stalinistas, que acabam por massacrar as comunidades libertárias. Durante a Revolução Russa de 1917, os anarquistas defendem os sovietes nas fábricas para permitir uma reorganização da economia. Mas eles agem com os bolcheviques, que acabam por massacrá-los após tomarem o controle dos sovietes. Os anarquistas participam da Revolução Mexicana de 1910, encarnados por Ricardo Flores Magon. Mas são derrotados antes de poderem realizar seu projeto de coletivização das terras.

Limites do anarquismo

Guillaume Davranche propõe uma introdução preciosa da corrente anarquista. Esse livro pode tornar-se uma ferramenta central para abrir debates nos movimentos sociais. Em um contexto de desgosto pela velha esquerda institucional, o anarquismo abre uma outra via. Essa corrente é, aliás, o objeto de ataques virulentos por parte dos intelectuais orgânicos da velha esquerda reformista e autoritária. Frédéric Lordon esforça-se para descredibilizar o anarquismo para o qual ele propõe uma visão caricatural. O livro de Guillaume Davranche pode trazer algumas elucidações indispensáveis sobre essa corrente política. Essa introdução curta e acessível não mascara os debates e as ramificações que permeiam o movimento libertário. Mas o anarquismo de Guillaume Davranche carrega igualmente alguns limites.

A parte doutrinal é importante. O anarquismo não se reduz a uma recusa e a um desejo de destruição. É sobretudo um legítimo projeto alternativo de sociedade. Guillaume Davranche esboça as principais linhas da utopia libertária. Esse esforço permite apresentar esclarecimentos indispensáveis diante das caricaturas vendidas pela esquerda e pela mídia. Sobretudo, Guillaume Davranche assume a perspectiva de uma reorganização da sociedade pela base. Enquanto comunizadores e apelistas avaliam que o comunismo deve surgir de maneira mágica, Guillaume Davranche insiste na necessidade de munir-se de algumas perspectivas.

No entanto, esse projeto anarquista é limitado. Ele pode parecer ao mesmo tempo bastante preciso e rígido, mas carrega igualmente aspectos um pouco obscuros. Guillaume Davranche propõe um projeto claro e leniente. Mas é importante levar em consideração as vicissitudes da história. O projeto de sociedade libertária será antes de tudo o que os explorados em luta decidirão construir. É importante afirmar uma parte de experimentação e de espontaneidade para não se mergulhar na rigidez doutrinal.

Mas Guillaume Davranche é igualmente obscuro. A democracia direta e a autogestão são conceitos vagos. São formas vazias sem verdadeiro conteúdo político. Um projeto revolucionário deve, antes de tudo, exprimir recusa. O trabalho, a mercadoria, o valor devem ser claramente abolidos. Senão, o anarquismo corre o risco de mergulhar em uma autogestão do capital e em autoexploração. A livre associação de produtores livres deve, ao contrário, apoiar-se no prazer e na liberdade mais que na coerção e na contabilidade.

Guillaume Davranche apresenta igualmente diversas estratégias de luta e formas de organização. Ele mostra bem as contribuições e os limites de cada iniciativa. Mas seu anarquismo está impregnado de um velho plano de fundo vanguardista. Guillaume Davranche parece considerar que são os anarquistas que vão mudar a sociedade e fazer a revolução. No entanto, essa simpática corrente está condenada à marginalidade. Grupos minoritários não são capazes de despertar um levante popular. E felizmente.

Guillaume Davranche tem razão em insistir nos debates estratégicos. É importante refletir sobre a maneira de mudar o mundo e de propor perspectivas de luta. No entanto, esse debate estratégico não deve concernir unicamente aos anarquistas. As controvérsias no âmbito das seitas e dos grupelhos pouco importam, para além do prazer da disputa doutrinal. O debate estratégico deve estar situado na conjuntura das lutas que concernem ao conjunto dos explorados.

Ao contrário, o esforço da autonomia operária visa a agir a partir das lutas existentes e não de uma ideologia. É unicamente das revoltas sociais que pode surgir uma sociedade comunista libertária. Portanto, é necessário apoiar-se unicamente nas lutas sociais. Esses movimentos devem organizar-se por si sós, fora dos partidos e dos sindicatos, para debaterem suas perspectivas. É somente esse esforço que pode levar a uma ruptura com o Estado e com o capitalismo. As estruturas de auto-organização criadas pelas revoltas massivas devem tornar-se as bases para reorganizar a sociedade.

Fonte: http://www.zones-subversives.com/2020/01/actualite-de-l-anarchisme.html

Tradução > Dienah Gurhühor

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/03/05/franca-lancamento-dez-questoes-sobre-o-anarquismo-de-guillaume-davranche/

agência de notícias anarquistas-ana

Quietos, no jardim,
mãos serenadas. Na tarde,
o som das cigarras.

Yberê Líbera

[EUA] Prisioneiro anarquista, Michael Kimble, transferido; Solicita apoio jurídico adicional

Chamada para apoio ao prisioneiro anarquista Michael Kimble, o qual foi recentemente transferido e está arrecadando dinheiro para despesas legais.

Apoiadores recentemente souberam que Michael Kimble foi transferido da penitenciária Holman para a Easterling. Ele pode receber cartas em:

Michael Kimble 138017/G1-24A

Easterling Corr. Facility

200 Wallace Drive

Clio, AL 36017

Ainda estamos arrecadando fundos para o seu novo apelo legal com a intenção de conseguir uma redução na sentença e uma possível soltura. Michael escreveu a seguinte biografia e o histórico do caso para que as pessoas possam saber mais.

Uma breve história e histórico do caso

Meu nome é Michael Kimble, sou um anarquista de 54 anos, negro e gay, que foi preso e acusado de assassinato de um branco, racista e homofóbico em novembro de 1986, enquanto caminhava com um amigo tarde da noite. Eu defendi a mim mesmo e o meu amigo do ataque, depois de sermos chamados por vários nomes racistas e homofóbicos, eu atirei e matei o meu agressor.

Em 1987, eu fui considerado culpado de homicídio e sentenciado à prisão perpétua após um julgamento fraudulento. Meu advogado designado pelo tribunal negligenciou a apresentação de uma defesa contundente, e o meu amigo, que esteve comigo durante o ataque, testemunhou pela acusação depois de ter sido preso por outro crime e ter recebido imunidade em troca de testemunhar pelo Estado.

Tenho sido mantido em cativeiro por 34 anos – estou na prisão desde que tinha 21 anos e agora tenho 54 anos. Já estive na comissão de liberdade condicional inúmeras vezes e em todas as vezes me foi negada. A justificativa que sempre me é dada: “Devido à natureza da acusação”. A acusação nunca vai mudar e é claramente evidente que a comissão de liberdade condicional se recusa a conceder-me liberdade condicional. A minha última negação da liberdade condicional foi em 2016 e foi remarcada para fevereiro de 2021.

Portanto, decidi contratar um advogado para me representar na moção para redução da sentença. O objetivo é minha imediata liberdade.

Desde que meu encarceramento começou eu completei inúmeros programas (uma série de palestras da Universidade do Alabama em Birmingham, Narcóticos Anônimos, Alcoólicos Anônimos, Dependentes de Amor e Sexo Anônimos, Desenvolvimento Pessoal, Gestão Financeira, Fabricação de Sapato, Análise Transacional, Pensamento Criminal, Gestão da Raiva, Gestão do Estresse). Tenho sido fundamental em organizar uma série de coletivos e ações, incluindo o Comitê de Ação dos Prisioneiros, AJAMU, Exército de Libertação Negra, O Movimento 7 de Agosto, O Movimento Revolucionário Liberdade e Independência e INACELL. Eu publiquei e distribui a INACELL, uma revista de revolução, hip-hop e história negra. Como parte da INACELL, eu era a força por trás da primeira celebração do Agosto Negro em Birmingham, Alabama (minha cidade natal) em agosto de 2000. Também organizei inúmeras greves trabalhistas já em 1987 e, mais recentemente, com o Movimento Alabama Livre. Também movi uma série de ações judiciais que tratam das condições em cativeiro.

No final de 2000, fui acusado de posse de explosivos na prisão Limestone, mas as acusações foram posteriormente retiradas. Em setembro de 2001 fui acusado de agressão a vários guardas e condenado a mais 3 anos de prisão.

Mais recentemente, em 2 de dezembro de 2019, fui jogado na solitária por ter ajudado outro prisioneiro que estava sendo agredido por um guarda, mas devido a todo o apoio externo de vocês em apelar e exigir que eu fosse libertado da solitária, estou agora de volta à população geral.

Desde a minha prisão original tenho sido espancado, agredido e negado à liberdade condicional, mas continuo a manter a cabeça erguida e a manter o bom humor e a determinação, e continuo dedicado a lutar por um mundo livre de dominação e opressão em todas as suas manifestações.

É hora de trazer o Michael para casa! Convidamos você para se juntar à campanha:

1. Poste informações sobre Michael nas redes sociais.

2. Doe para a defesa legal de Michael:

https://actionnetwork.org/fundraising/support-michael-kimble/

3. Informe sua família, amigos e colegas sobre o Michael e sua campanha por liberdade.

Para ler os textos de Michael, confira seu blog em anarchylive.noblogs.org e Free Michael Kimble no Facebook.

Fonte: https://itsgoingdown.org/anarchist-prisoner-michael-kimble-transferred-asking-for-additional-legal-support/

Tradução > A Alquimista

agência de notícias anarquistas-ana

Na noite trevosa
eis, quando menos se espera,
teu semblante, lua!

Alexei Bueno

[Argentina] Chuang | Contágio social. Guerra de classe microbiológica na China

Esse momento, embora cheio de medo, fez com que todos fizessem simultaneamente perguntas profundas: o que acontecerá comigo? Com meus filhos, minha família e meus amigos? Teremos comida suficiente? Vão me pagar? Pagarei o aluguel? Quem é responsável por tudo isso? De uma maneira estranha, a experiência subjetiva é semelhante à de uma greve em massa, mas que, em seu caráter não espontâneo, de cima para baixo e, especialmente em sua hiper-atomização involuntária, ilustra os enigmas básicos de nosso presente estrangulado político tão claramente quanto as greves de massa reais do século anterior elucidaram as contradições de seu tempo. A quarentena, então, é como uma greve esvaziada de suas características comunais, mas que é, no entanto, capaz de causar um choque profundo tanto à psique quanto à economia. Somente esse fato o torna digno de reflexão.

>> Site da Chuang (revista e blog em inglês e chinês):

http://chuangcn.org/

>> Leia e / ou baixe o livro Contagio social. Guerra de classe microbiológica na China:

https://www.mediafire.com/file/g6m0tuu72zauwg3/Contagio_Social_-_Lazo_Ediciones.pdf/file

Chuang | Contagio social. Guerra de clases microbiológica en China
Março de 2020. Rosário
loopeditions.blogspot.com

agência de notícias anarquistas-ana

nos dias de outono
as folhas largam no ar
um cheiro de sono

Cristina Saba

[Itália] Epidemia? Massacre de Estado!

Os carros funerários estão alinhados em frente ao cemitério de Bergamo. Esta imagem, mais do que muitas outras, mostra-nos a realidade em toda a sua crueldade. Nem sequer se lhes pode colocar uma flor. Nem sequer puderam acompanhá-los até o último adeus. Morreram sozinhos, lúcidos, sufocando lentamente.

Das janelas, a horas marcadas, as pessoas cantam, gritam, batem panelas e reúnem-se num espírito nacionalista enaltecido pelos políticos e pelos meios de comunicação. “Tudo vai ficar bem. Conseguiremos”.

O governo com decretos publicados a um ritmo frenético suspendeu o debate, incluso a frágil confrontação democrática e os rituais esgotados da democracia representativa e alistou-nos a todos. Quem não obedece é um infectador, um criminoso, um louco.

Entendamo-nos. Cada um de nós é responsável pelos seus próprios atos. Os anarquistas sabemo-lo bem: para nós a responsabilidade individual pelas próprias ações é o eixo de uma sociedade de homens e mulheres livres e iguais.

Cuidar dos mais frágeis, dos idosos, daqueles que, mais do que os outros, arriscam a vida é um dever que sentimos com grande força. Sempre. Hoje mais do que nunca.

Um dever igualmente forte é dizer a verdade, essa verdade que, quando estamos fechados em casa em frente ao televisor, nunca é objeto de verificação. Contudo, é, em grande parte, visível para todos.

Os que procuram uma verdade oculta, uma conspiração obscura levada a cabo pelo seu vilão favorito, fecham os olhos à realidade, enquanto que aqueles que os mantêm abertos lutam por mudar a ordem de um mundo injusto, violento, liberticida e assassino.

Todos os dias, incluindo agora, enquanto as pessoas adoecem e morrem, o governo italiano está a desperdiçar 70 milhões de euros em gastos militares. Com os 70 milhões num só dos 366 dias deste ano bissexto, podiam-se construir e equipar seis novos hospitais e ainda sobrava dinheiro para as máscaras, os laboratórios de análise e os kits para que se pudesse fazer um teste completo. Um ventilador custa 4 mil euros: por isso podiam-se comprar 17.500 ventiladores por dia, muitos mais do que são necessários agora.

Nos últimos anos, todos os governos reduziram constantemente os gastos em saúde, em prevenção e na vida de todos nós. O ano passado, segundo as estatísticas, a esperança de vida caiu pela primeira vez. Muitos não têm dinheiro para pagar medicamentos, consultas e serviços especializados, porque têm que pagar o aluguel da casa, a alimentação e os transportes.

Fecharam os pequenos hospitais, reduziram o número de médicos e enfermeiros, cortaram as camas, obrigaram os trabalhadores da saúde a trabalhar horas extraordinárias para compensar os inúmeros buracos.

Hoje, com a epidemia, já não há filas nos guichês, já não há listas de espera de meses e anos para diagnóstico: cancelaram as consultas e os exames. Serão feitos quando acabar a epidemia, dizem. Quantas pessoas vão adoecer e morrer de tumores diagnosticáveis e curáveis, quantas pessoas vão ver piorar as suas patologias, porque o que colocaram em quarentena foi o que restava da saúde pública? Entretanto, as clínicas privadas continuam a fazer publicidade e multiplicam os negócios, porque os ricos nunca ficam sem tratamento.

É por isso que o governo nos quer nas varandas cantando “Estamos prontos para a morte. Itália chamou-nos” (hino italiano). Querem-nos calados e obedientes como bons soldados, carne para canhão, sacrificáveis. Depois, quem se salvar, será imune e mais forte. Até a próxima pandemia.

Por esta razão, desde as nossas varandas, nos muros das cidades, nas filas para as compras, dizemos em voz alta, apesar das máscaras, que estamos perante um massacre de Estado. Quantos mortos se poderiam ter evitado se os governos tivessem nos últimos anos tomado decisões para protegerem a nossa saúde?

Não foi um erro, mas sim uma escolha criminosa.

Ao longo dos anos os investigadores de doenças infecciosas alertaram para o risco que estávamos a correr, de que era possível uma pandemia grave. Vozes no deserto.

A lógica do lucro não permite fraquezas. Quando tudo terminar, as indústrias farmacêuticas, que não investiram em prevenção, farão negócios. Ganharão dinheiro com os medicamentos descobertos por muitos investigadores que trabalham para a comunidade e não para enriquecerem os que já são ricos.

Tinham-se acostumado a que acreditássemos que somos imunes às doenças que afligem os pobres, aos que não têm meios para se defenderem, aos que nem sequer têm acesso à água potável. A dengue, o ebola, a malária, a tuberculose eram as doenças dos pobres, das populações “atrasadas” e “subdesenvolvidas”.

Só que um dia o vírus embarcou em classe executiva e chegou ao coração econômico da Itália. E nada foi como dantes. Ainda que não de forma instantânea.

Os meios de comunicação, os especialistas e o governo disseram-nos que esta doença só mata os idosos, os doentes, aqueles que também têm outras patologias. Nada de novo. É um fato normal: não é preciso ser-se licenciado em medicina para sabê-lo.

Daí que muitos pensaram que, no pior dos casos, teriam uma gripe extra. Esta informação criminosa encheu as praças, os barzinhos, as festas. Também aqui falhou a responsabilidade individual, que passa pela capacidade de cada um se informar e raciocinar, mas também retira um pouco dessa aura de santidade que o governo está a querer usar para tentar sair ileso da crise. E quem sabe? Talvez saia, mesmo, mais forte.

Dizem-nos que a nossa casa é o único lugar seguro. Não é verdade. Os trabalhadores que têm que sair todos os dias para irem para as fábricas, sem nenhuma proteção real, apesar das pequenas migalhas que a Cofindustria (confederação da indústria) oferece aos sindicatos estatais, regressam às suas casas todos os dias. Lá estão os pais já velhos, as crianças, pessoas débeis.

Só uma pequena parte dos que saem às compras ou para respirarem ar fresco têm proteções: as máscaras, luvas, desinfetantes, não estão disponíveis nem sequer nos hospitais.

O governo afirma que a proteção não é necessária se estiveres saudável: é uma mentira. O que sabemos sobre a propagação do vírus nega-o de forma clara. A verdade é outra: dois meses depois do começo da epidemia na Itália, o governo ainda não comprou nem distribuiu as proteções adequadas para impedir a propagação da doença. Custam demasiado.

Na região de Piemonte, os médicos generalistas falam por telefone com pessoas que têm febre, tosse, dor de garganta, e lhes dizem para tomarem antipiréticos e ficarem em casa durante cinco dias. Se piorarem, vão para o hospital. A nenhum se faz o teste. Quem vive com estes doentes está num dilema: não podem deixar sós os que sofrem e necessitam de assistência, mas correm o risco de se infectarem se a doença respiratória se dever ao coronavírus. Quantos se infectaram sem o saberem e logo transmitiram a doença a outros, saindo sem proteção?

O confinamento domiciliar não nos salvará da epidemia. Pode ajudar a atrasar a propagação do vírus, não a detê-lo.

A epidemia converte-se numa oportunidade para impor condições de trabalho que permitem às empresas gastar menos e ganhar mais. Os decretos de Conte (primeiro-ministro) prevêem o teletrabalho onde for possível. As empresas aproveitam isto para impô-lo aos empregados. Ficas em casa e trabalhas na internet. O teletrabalho está regulado por uma lei de 2017 que estabelece que as empresas podem propô-lo, mas não impô-lo, aos empregados. Por isso, deve estar sujeito a um acordo que dê aos trabalhadores garantias sobre as horas de trabalho, as formas de controle, o direito a cobrir os custos da ligação e a cobertura em caso de acidente. Hoje, depois do decreto do governo de Conte para enfrentar a epidemia do Covid-19, as empresas podem obrigar o teletrabalho sem acordo ou garantias para os trabalhadores que, ainda por cima, devem estar agradecidos pela possibilidade de ficarem em casa. A epidemia, portanto, converte-se num pretexto para a imposição sem resistência de novas formas de exploração.

Para os trabalhadores com contrato existem seguros de desemprego e fundos suplementares, para os trabalhadores temporários e para os trabalhadores a recibo verde não haverá apoios, à exceção de algumas migalhas. Quem não trabalha não tem apoios.

Os que se atrevem a criticar, os que se atrevem a dizer verdades incômodas, são ameaçados, reprimidos, silenciados.

Nenhum meio de comunicação difundiu a queixa dos advogados da associação de enfermeiros, uma instituição que não tem nada de subversivo. Os enfermeiros e as enfermeiras são descritos como heróis, desde que adoeçam e morram em silêncio, sem contarem o que se passa nos hospitais. Os enfermeiros que contam a verdade são ameaçados com demissão. O acidente profissional não é reconhecido para os que são infectados e o hospital não está, assim, obrigado a pagar indenizações a quem está a trabalhar todos os dias sem proteção ou com proteção completamente insuficiente.

A autonomia das mulheres está a ser atacada pela gestão governamental do surto de Covid-19

O apoio aos filhos que ficam em casa porque as escolas estão fechadas, dos idosos em risco, dos incapacitados, cai sobre os ombros das mulheres que já estão fortemente sujeitas à insegurança laboral.

Entretanto, em silêncio, nas casas transformadas em residências forçadas, multiplicam-se os femicídios.

No ruidoso silêncio da maioria da mídia, 15 reclusos morreram durante os distúrbios nas prisões. Nada passou para a opinião pública sobre a sua morte, para além das versões policiais. Alguns dos presos, em estado grave, não foram levados para o hospital, mas sim carregados nas camionetas da polícia e levados para morrerem em prisões a centenas de quilômetros de distância. Um massacre, um massacre do Estado.

Os outros foram deportados para outros lugares. As prisões explodem, os reclusos não têm garantidas a sua saúde e dignidade, mesmo em condições “normais”, mesmo quando se ache que é normal trancar as pessoas atrás de grades. Para os proteger, o governo não encontrou nada melhor do que suspender as visitas das famílias, enquanto que os guardas podem ir e vir. A revolta dos reclusos explodiu face ao risco concreto da propagação da infecção em lugares onde a sobrelotação é a norma. Os que apoiaram a luta dos presos foram atacados e denunciados. A repressão, com a cumplicidade das medidas contidas nos decretos do governo, foi extremamente dura. Em Turim, impediram mesmo um simples protesto de familiares e de solidários à entrada da prisão, colocando a tropa em todos os acessos às ruas que rodeiam a prisão de Le Vallette.

Os trabalhadores que fizeram greves espontâneas contra o risco de contágio foram, por sua vez, denunciados por violar os decretos do governo, por se terem manifestado na rua pela sua saúde.

Nada deve parar a produção, inclusive se se trata de produções que poderiam parar sem nenhuma consequência para a vida de todos nós. A lógica do lucro, da produção, está sempre em primeiro.

O governo teme que outras frentes de luta social se possam abrir depois da revolta das prisões. Daí o obsessivo controle policial, a utilização do exército, ao qual, pela primeira vez, se atribuem funções de ordem pública, e não um mero apoio às diversas forças policiais. O exército converte-se em polícia: o processo de osmose que começou há umas décadas cumpre-se agora. A guerra não pára. Missões militares, exercícios e polígonos de tiro estão em pleno apogeu. É a guerra contra os pobres em tempo de Covid-19.

O governo proibiu todas as formas de manifestações públicas e reuniões políticas.

Arriscar a vida para o patrão é um dever social, enquanto que a cultura e a ação política são consideradas atividades criminosas.

Esta é, pois, uma tentativa, não demasiado velada, de evitar qualquer forma de confronto, discussão, luta, construção de redes de solidariedade que realmente permitam dar apoio a quem está em maiores dificuldades.

A democracia tem pés de barro. A ilusão democrática derreteu-se como a neve ao sol face à epidemia. Aceitam-se com entusiasmo as medidas ditatoriais do primeiro-ministro: nenhum debate, nenhuma passagem pelo templo da democracia representativa, mas sim um simples decreto. Quem o não respeitar é um infectador, um assassino, um criminoso e não merece piedade.

Deste modo, os verdadeiros responsáveis, os que cortam na saúde e multiplicam os gastos militares, os que não garantem máscaras nem sequer aos enfermeiros, os que militarizam tudo, mas que não fazem testes porque “custam 100 euros”, garantem a absolvição com o aplauso dos prisioneiros do medo.

O medo é humano. Não nos devemos envergonhar de ter medo, mas não devemos permitir que os empresários políticos do medo o usem para conseguirem unanimidade em torno das suas políticas criminosas.

Lutamos para evitar que fechem os pequenos hospitais, que aniquilassem preciosas instalações de saúde para todos. Estivemos na rua com os trabalhadores do Valdese, do Oftalmico, da Maria Adelaide, do hospital de Susa e de muitos outros cantos da nossa província.

Em novembro estivemos nas ruas para repudiar a exposição da indústria aeroespacial de guerra. Lutamos todos os dias contra o militarismo e as despesas militares. Estamos no caminho da luta contra o TAV (Trem de Alta Velocidade), porque com um metro de TAV se pagam 1000 horas de cuidados intensivos.

Hoje estamos ao lado de quem não quer morrer na prisão, dos trabalhadores atacados e denunciados, porque protestam contra a falta de proteção à propagação do vírus, com os enfermeiros e enfermeiras que trabalham sem proteção e arriscam o seu posto de trabalho porque revelam o que acontece nos hospitais.

Hoje uma grande parte dos movimentos da oposição política e social estão em silêncio, incapazes de reagirem, esmagados pela pressão moral, que criminaliza aqueles que não aceitam, sem discutir, a situação de perigo crescente provocada pelas escolhas governamentais de ontem e de hoje.

Restringir os movimentos e os contatos é razoável, mas é ainda mais razoável lutar para o fazer de maneira segura. Devemos encontrar os lugares e as formas de combater a violência dos que nos aprisionam porque não sabem e não querem proteger-nos.

Como anarquistas sabemos que a liberdade, a solidariedade, a igualdade nas nossas mil diferenças obtém-se através da luta, não se delegam em ninguém, e muito menos a um governo, cuja única ética é manter as cadeiras que ocupa.

Não. Não estamos “prontos para morrer”. Não queremos morrer e não queremos que ninguém adoeça e morra. Não nos alistamos na infantaria destinada ao massacre silencioso. Somos desertores, rebeldes, resistentes.

Exigimos que se esvaziem as cadeias, que os que não têm casa tenham uma, que se cancelem as despesas militares, que a todos se garantam os exames clínicos, que cada um tenha os meios para se proteger a si mesmo e aos outros nesta epidemia.

Não queremos que só os mais fortes sobrevivam, queremos que mesmo aqueles que já viveram muito tempo continuem a fazê-lo.

Queremos que quem esteja doente possa ter ao pé alguém que o ame e console: com menos dois bombardeiros de combate F35 poderíamos ter equipamentos e toda a proteção necessária para que ninguém morra sozinho.

Tudo ficará bem? Vamos consegui-lo?

Depende de cada um de nós.

Os companheiros e companheiras da Federação Anarquista de Turim, reunidos em assembleia em 15 de março de 2020

(Dedicamos este texto à memória de Ennio Carbone, um anarquista, um médico que dedicou toda a sua vida à investigação científica, tentando tirá-la das mãos vorazes da indústria que só financia o que lhe der lucro. Ele, que em tempos insuspeitos, nos falou sobre o risco de uma pandemia como a que hoje estamos a viver. Temos falta da sua voz, da sua experiência, nestes dias difíceis.)

Fonte: https://umanitanova.org/?p=11750

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agência de notícias anarquistas-ana

Ah, lua de outono —
Andando em volta do lago
Passei toda a noite.

Bashô