[Chile] Lançamento: “Louis Lingg. Já o devem saber pelos estrondos. Memória insurreta: Origens do 1º de Maio e a vida de um dos seus protagonistas”

Os eventos que ocorreram em 1886 e 1887 em Chicago, Estados Unidos, abalaram a ordem mundial. As grandes greves e manifestações desencadeadas pela batalha de uma jornada de trabalho de oito horas culminaram com os distúrbios em Haymarket, onde oito policiais morreram após o lançamento de um artefato explosivo.

O Estado responde processando oito anarquistas, condenando à morte vários deles que serão conhecidos mundialmente como “Os Mártires de Chicago”. Esses acontecimentos serão lembrados internacionalmente mediante as jornadas de primeiro de maio como “Dia Internacional dxs Trabalhadorxs”.

Neste livro, resgatamos a história de Louis Lingg, um dos anarquistas de ação mais esquecidos durante esse processo, que decidiu rejeitar a sentença de morte ao cometer suicídio com explosivos na prisão um dia antes de sua execução.

Repito que sou inimigo da “ordem” atual e repito também que, com todas as minhas forças e enquanto me restar um alento, vou combater (…) digo-lhes: Desprezo-os!; desprezo a sua ordem, as suas leis, a sua força, a sua autoridade! Enforquem-me!” – Louis Lingg

Louis Lingg. Ya lo sabrán por los esturendos. Memoria insurrecta: Origenes del 1 de mayo y la vida de uno de sus protagonistas

Preço: 4.000

Autor: Anônimo/Colecciones Memoria Negra

Páginas: 192

coleccionesmemorianegra.wordpress.com

agência de notícias anarquistas-ana

Quando a chuva pára
Por uma fresta nas nuvens
Surge a lua cheia.

Paulo Franchetti

[Portugal] “A liberdade não se concede, conquista-se. Que a conquistem os negros!”

A Mário Domingues devem-se, nos anos 20, os primeiros textos da imprensa portuguesa a defender abertamente a independência das colônias. Hoje são poucos os que conhecem a obra deste anarquista, que denunciou as brutalidades cometidas pelo império na África e que, com o Estado Novo, trocou os jornais pela ficção. Um breve ensaio volta agora a recuperar parte da sua história.

por Lucinda Canelas

O bilhete de identidade basta para que comecemos a falar de uma história singular – a de um rapaz que nasceu na ilha do Príncipe no final do século XIX, filho de um homem branco e de uma angolana que para lá tinha sido levada para trabalhar nas plantações de cacau da roça Infante D. Henrique. Quem lhe faz o registro, já em Portugal, onde chegou com apenas 18 meses para viver com a família paterna numa casa onde não faltava nada, não tem sequer a certeza do dia exato em que nasceu – Junho ou Julho de 1899 –, nem do nome da sua mãe – “Congala” ou “Manga” é o que consta no espaço que lhe é destinado, assim, sem quaisquer apelidos, ao passo que o pai tem direito a nome completo (António Alexandre José Domingues).

Isto era o que acontecia com os escravos, não se lhes conheciam apelidos”, diz José Luís Garcia, sociólogo que há mais de 20 anos reúne informação sobre o jornalista e escritor Mário Domingues (1899-1977), um dos primeiros que em Lisboa levantou a voz pela independência das colônias na África, na década de 1920, numa série de artigos que são verdadeiros manifestos de defesa dos direitos humanos sustentados pelas leituras que fazia do movimento de libertação dos negros norte-americanos e pelos ideais anarquistas e, ao mesmo tempo, notas de denúncia das barbaridades cometidas pelo império português, sobretudo em São Tomé e Príncipe e em Angola.

No artigo de 20 páginas que agora publica no volume Media and the Portuguese Empire(coord. de José Luís Garcia, Chandrika Kaul, Filipa Subtil e Alexandra Santos, Ed. Palgrave Macmillan, 2017), uma edição em inglês que reúne 17 ensaios que analisam as relações entre o poder e a informação e olham para o império português tomando os meios de comunicação como agentes das lutas sociais, políticas e culturais, José Luís Garcia concentra-se em alguns dos 30 artigos que Mário Domingues escreveu nos anos 1920 nas páginas do diário anarquista A Batalha.

Estes artigos, escreve o sociólogo, revelam três atitudes de base: uma oposição sistemática a todas as formas dissimuladas de escravatura, que continuava a existir nos territórios portugueses na África sob o rótulo de trabalho forçado; a denúncia do racismo que atravessava toda a política e administração coloniais, e a que as instituições eram também altamente permeáveis; e a consciência da importância da independência africana.

A Batalha é, a partir de 1919, um jornal que critica abertamente a estratégia republicana para os territórios africanos e apoia as reivindicações da população negra em Portugal continental e nas colônias.

É neste quadro, em que se “começa a consolidar uma consciência anticolonial em alguns setores”, que Mário Domingues escreve os seus artigos “absolutamente visionários inspirados pelas leituras que faz sobre o movimento identitário dos afro-americanos”, diz José Luís Garcia.

Vários jornalistas do Batalha começam a escrever sobre a corrupção entre os funcionários administrativos das colônias, sobre o tratamento privilegiado que é dado a muitas empresas que têm lá atividade, o racismo, a perseguição aos negros que reivindicam os seus direitos e que têm jornais próprios (O Angolense ou A Verdade) para o fazer e, sobretudo, sobre o trabalho escravo”, explica, expondo um regime de servidão que não é muito diferente daquele em que milhares viviam antes da abolição da escravatura em todo o território português, em 1869.

O regime republicano persegue todo aquele que ousa resistir às regras impostas ou manifestar-se contra as condições degradantes em que se vive, enquanto os altos-funcionários inescrupulosos vão abusando do seu poder e enriquecendo à boleia de negócios com as multinacionais e com as minas da antiga Rodésia (Zimbabwe) e da África do Sul, ex-colônias britânicas, para onde enviam grandes contingentes de trabalhadores negros. As prisões estão cheias de pessoas que ficam detidas durante longos períodos sem saberem sequer do que são acusadas – prisões onde os castigos físicos são severos e o jejum uma imposição recorrente.

Outros escrevem sobre estas situações degradantes, mas o Mário Domingues é o primeiro a defender claramente a independência das colônias portuguesas de forma coerente num jornal português de grande popularidade”, diz este sociólogo, que tem na cabeça uma exposição e na gaveta um livro sobre este jornalista que desde cedo mostrou ter uma inclinação para a escrita e uma apetência invulgar para as línguas (inglês, alemão e francês). “O fato de ler jornais e revistas internacionais e de estar a par das mais atuais reivindicações de direitos humanos que vinham dos Estados Unidos fazem dele um caso muito singular.” Domingues saúda a criação, em 1921, do Partido Nacional Africano (PNA), naturalmente anticolonial, que A Batalha apoia de imediato, e acompanha o pensamento de ativistas da justiça racial como o norte-americano W.E. Burghardt Du Bois e o jamaicano Marcus Garvey, uma das figuras mais importantes do movimento nacionalista negro.

Ele tira partido da sua diferença racial e politiza-a. Ele é um mulato que pega nas leituras que faz sobre a identidade e os direitos dos negros a que muitos não tinham acesso e adapta-as à realidade que conhece.” E fá-lo escrevendo e escrevendo na primeira pessoa ou inventando personagens para ilustrar pontos de vista.

Liberdade pela luta

Para melhor compreender os artigos de Domingues n’A Batalha importa olhar para o contexto em que são publicados, só brevemente enunciado no ensaio que Garcia assina no volume Media and the Portuguese Empire.

A República empenha-se em dar continuidade à política colonial da monarquia, que iniciara uma nova fase nas relações com África nas duas últimas décadas do século XIX, com a ocupação militar e administrativa dos territórios ultramarinos, escreve muito antes este investigador do Instituto de Ciências Sociais no artigo “A Batalha e a questão colonial”, que publica com o colega José Castro em 1995 na revista acadêmica Ler História.

É a República que cria o Ministério das Colônias, logo em 1911, e que nomeia para a sua administração figuras importantes dos seus quadros (Norton de Matos e Brito Camacho). É também com a República, nas décadas de 1910 e 1920, que os brancos se começam a estabelecer em força nas colônias portuguesas na África e que a presença militar se consolida, abrindo caminho a uma administração civil cada vez mais abrangente e incisiva, que beneficia da aprovação do “estatuto jurídico das populações indígenas”, lembram os autores.

Os vetores fundamentais desta construção ideológica são a ideia da vocação colonial civilizadora dos portugueses e o paternalismo humanitário em relação aos negros”, defendem Castro e Garcia, falando de uma “missão civilizadora” que não passa de um falso pretexto para pôr em prática um projeto político que tem sobretudo grandes motivações econômicas.

O que eles queriam de fato era garantir, tal como a monarquia já queria, que as colônias continuavam a dar matérias-primas baratas e a servir de destino aos produtos que se faziam em Portugal continental, e isto sem levantar problemas. Os militares e administração estavam lá para isso”, diz Garcia, lembrando que não se olhava a meios para atingir estes fins. “A escravatura já tinha sido abolida formalmente, mas ela continuava nas colônias, sob a forma de trabalho forçado [criado em 1890]. Ninguém tem dúvidas disso hoje ou ninguém devia ter. A forma como se trabalhava nas roças do cacau em São Tomé e Príncipe é típica de um quadro de escravatura.”

O aumento da população branca nos territórios africanos alimentou, naturalmente, o racismo. A República, lembram Castro e Garcia, dividia a população negra entre “crioulos ‘assimilados'” e “indígenas”, e recusava-se a que os primeiros servissem de mediadores entre os colonos e os segundos. Ora, isso fez crescer entre os “crioulos” o sentimento de pertença à raça negra e a necessidade de combater o racismo.

É neste quadro que Mário Domingues assina no jornal anarquista uma série de artigos denunciadores, alguns deles verdadeiros manifestos, ainda que apoiados em fatos, em que desmonta o sistema colonialista da República e o que o sustenta, defendendo a independência da África.

Escreve o primeiro desses artigos (“O ideal da independência”, 5 de Julho de 1922) depois de ler outro que o deixou indignado, assinado pelo seu colega Cristiano Lima (“Na Feira Mayer. Uma exibição cruel e aviltante”, 28 de Junho de 1922), e nele assegura que “o espírito separatista” existe em quase toda a África portuguesa, “revigorado a cada perseguição, robustecido pela própria tirania de alguns brancos sem escrúpulos”.

Cristiano Lima parte de uma barraca de feira em que um homem branco com o rosto pintado de preto serve de alvo aos que lhe atiram bolas de pano e serradura para ganhar um charuto – por cima desta “diversão” havia “um dístico chamariz” onde se podia ler “o preto que resiste a todos os portugueses” – para denunciar uma “brutal e inútil selvajaria” com que compactuam todos os que permanecem em silêncio perante tamanho ataque à dignidade humana que evoca “épocas longínquas de escravidão e despotismo”, mas sem nunca se referir às condições em que vivem os negros nas colônias.

O que escreve Mário Domingues logo no primeiro título da série, por seu turno, não deixa dúvidas sobre o que pensa do domínio colonial na África, garantindo ser missão de todos proclamar a verdade corajosamente: “(…) O separatismo alojou-se definitivamente no cérebro e no coração do negro escravizado e vexado por uma colonização iníqua. (…) Porque não houve ainda quem, público e raso, afirmasse desassombradamente que talvez não tardem dez, 15 ou 20 anos que Portugal corra o risco de ficar sem colônias para explorar, sem negros para tiranizar?” E continua: “Às infâmias praticadas pelo despotismo branco, na África, só um ideal de independência se pode opor com eficácia.” E insta os negros a lutarem pela sua liberdade, “unidos numa consciência rácica” e com a certeza de que as suas reivindicações são mais do que justas. “A liberdade não se concede, conquista-se. Que a conquistem os negros!” “Têm ou não os negros direito à independência? Têm. Como alcançá-la? Lutando.”

E termina, num artigo carregado de interrogações e exclamações que parece destinar-se mais a ser ouvido que lido, apelando a uma grande manifestação dos negros de Lisboa como forma de tornar pública a urgência da libertação das colônias. “Desejamos ardentemente a independência do povo negro, porque somos partidários da independência de todos os povos, porque queremos ver a humanidade livre, absolutamente livre, vivendo em paz e harmonia!”

Noutro texto, o último desta série a que deu o nome Para a história da colonização portuguesa, apela a que os “organismos negros” exijam de imediato o fim dos castigos corporais, a anistia para todos os presos políticos, a equiparação de salários entre brancos e negros e a liberdade de trabalho e imprensa, em consonância com outros movimentos revolucionários que vão surgindo no plano internacional. “É preciso que o negro português ingresse também nesse movimento colossal… que tem por objetivo a independência da África.”

Ele não escreve sobre a libertação das colônias portuguesas na África como se fosse uma utopia distante e eternamente inalcançável. Nem o faz como se este movimento se pudesse isolar de outros que se opõem ao imperialismo europeu e ao seu sistema de dominação”, sublinha José Luís Garcia. “O Mário Domingues faz exigências muito concretas e quer ver resultados.”

O guarda-livros contrariado

Mário Domingues não seria o único na redação do A Batalha a defender estes ideais independentistas e a denunciar as atrocidades cometidas pelo colonialismo português, atrocidades que a República perpetuara, apesar de (algumas) boas intenções iniciais, mas é o primeiro a escrever abertamente sobre a total libertação dos territórios ultramarinos.

Tudo isto é publicado por um diário claramente vinculado aos ideais anarquistas e não está isento de contradições. São artigos que defendem os direitos humanos em geral e o direito dos negros a serem livres em particular, mas não podem ser isolados de um contexto em que as reivindicações do proletariado também estão muito presentes. “Mas o Mário Domingues fala muito mais de raça e da emancipação dos negros” do que os seus colegas Cristiano Lima e Ferreira de Castro, por exemplo. “Quase todo o seu trabalho jornalístico tinha que ver com o fato de ele ser um homem negro a trabalhar num meio dominado por homens brancos e a viver numa sociedade em que aos negros não eram reconhecidos os mesmos direitos que aos brancos”, acrescenta José Luís Garcia.

Domingues chegou a Lisboa com apenas 18 meses para viver com os seus avós paternos num ambiente de classe média. O pai queria que recebesse uma educação séria e a casa dos avós proporcionou-lhe um ambiente seguro.

Nunca mais viu a mãe e, durante anos, por causa da informação que lhe era transmitida pela família paterna, acreditou que morrera quando ele era ainda bebê.

Há uma passagem em O Menino entre Gigantes – romance autobiográfico que publica em 1960 numa edição cuja capa é assinada pelo seu filho, o pintor surrealista António Domingues – em que a avó do protagonista foge às perguntas que ele lhe faz sobre a mãe ao pegar numa camisa de bebê que estava guardada numa gaveta.

Havia nele uma tristeza que vinha da ausência da mãe e do fato de ter descoberto que as pessoas que lhe mentiram sobre ela foram das que mais amou na vida. Essa mágoa ficou. Falava muito da mãe, do fato de ela ser negra”, diz José Luís Garcia, que chegou a conversar com pessoas que o conheciam bem e a quem a nora do escritor, Adelina Domingues, confiou muitas das suas fotografias e documentos.

Em Lisboa acaba por fazer, contrariado, o Curso Comercial no antigo Colégio Francês, começando a trabalhar como ajudante de guarda-livros, mesmo tendo consciência da atração que sentia pela escrita desde sempre. Foi pela ficção, aliás, que chegou ao jornalismo, carreira que viveu intensamente durante quase 20 anos. Publicou o seu primeiro conto no diário A Batalha quando tinha apenas 19, tendo escrito e até ajudado a criar outros jornais e revistas (ABC, Ilustração, África Magazine, Imprensa Livre, Repórter X, Detective). Se o entusiasmo pela escrita não bastasse para abandonar a contabilidade, bastaria o salário – Alexandre Vieira, o então diretor do Batalha, prometeu pagar-lhe o dobro do que ganhava e cumpriu, contou Domingues num programa da RTP, em Agosto de 1970.

Sempre no meio

Até ao final de 1919, começos de 1920, Mário Domingues assinou sobretudo ficção e crítica de arte (era um entusiasta de modernistas como Amadeo de Souza-Cardoso e Almada Negreiros), escreve Garcia, embora defendendo que é natural que alguns dos artigos contra a política colonial que já antes disso A Batalha publicava sob anonimato fossem, na realidade, do jornalista. “É o estilo dele, a ironia com que escreve”, diz o sociólogo, fazendo referência a um em particular, em que o autor aborda o problema da escravatura nas roças de São Tomé, descrita como a mais próspera das colônias portuguesas, procurando desmontar o sistema falacioso de contratação dos chamados “serviçais”, completamente explorados e deixados à mercê das vontades dos proprietários das grandes fazendas de cacau, trabalhando das seis da manhã às seis da tarde e vendo os seus contratos renovados automaticamente, sem que fosse essa a sua intenção. Mas depois, e até ao começo dos anos 1930, assina a série da colonização portuguesa, transformada num apelo ao “belo ideal da independência africana”.

São 30 artigos em que denuncia mortes e violações, em que ataca as grandes companhias que usam a abusam da força para disciplinar os seus trabalhadores que tratam como escravos, em que contesta as limitações à liberdade de imprensa e em que expõe a falsidade da “missão civilizadora dos portugueses” na África. “Falar de brancos e negros implica falar da colonização, e a colonização, mesmo hoje, não pode ser definida senão numa palavra – crime”, escreve num dos textos desta série em que passa em revista 500 anos de império.

O primeiro artigo em que fala de uma África independente é de uma falta de cautela deliciosa e vai pagar o resto da vida por ela.” Porquê? “Porque fica eternamente no meio – vê-se inicialmente arredado pelo Estado Novo e pelo salazarismo e, depois, é menosprezado pelo anti-salazarismo e por aquela parte da elite portuguesa que se habituou a menorizar o jornalismo e a literatura de aventuras e de cordel, coisas muito importantes para a criação de imaginários.”

Domingues viveu sempre esta condição de quem está “no meio”, uma condição que começa na cor da sua pele: “Não podemos esquecer que ele fez tudo o que fez sendo um mulato, com tudo o que isso implicava no Portugal do seu tempo.” Por isso, e sobretudo pelo caráter visionário e pela qualidade da sua escrita, José Luís Garcia não podia deixar de o incluir no volume que a Palgrave Macmillan lançou em Dezembro (disponível em papel e em versão digital): “Eu não podia perder a oportunidade de o apresentar no plano internacional que ele merece, já que em Portugal está ainda muito longe de ser devidamente reconhecido.”

Um não-alinhado

Entre artigos de opinião e a reportagem, gênero a que dedica boa parte da sua energia em jornais como o Detective, chegando a disfarçar-se de mendigo, pedindo esmola e dormindo nas ruas para depois poder escrever, a partir de dentro, sobre o apoio aos mais pobres e sobre as condições de vida nas prisões, Mário Domingues continuou a ter tempo para a ficção, publicando o seu primeiro livro em 1923, Audácia de Um Tímido, a que se seguiram Anastácio José (1927), O Preto do Charleston (1930), Uma Luz na Escuridão (1937) ou já referido O Menino entre Gigantes (1960), romance que dedica à mãe e em que, dando voz a Zezinho, um menino mulato educado em Lisboa por uma família burguesa que não pode ser outro se não o próprio autor, escreve: “Eu ficara sucumbido como se me vibrassem uma bofetada à traição. Era a primeira vez que me faziam sentir, de maneira humilhante, a cor negra da minha pele. Talvez não acredites, Marisa adorada: eu nunca fizera até então reparo em que era muito diferente das pessoas que me cercavam.”

Percebi a dada altura que persistir na minha carreira jornalística era prejudicar a minha carreira nas letras”, diz na mesma entrevista à televisão pública, justificando o abandono dos jornais. Em momento algum do programa em que a RTP o acompanha pelas ruas e praias da Costa da Caparica, onde vivia, se lhe houve qualquer comentário às limitações à liberdade de imprensa impostas pelo Estado Novo, o que é natural, já que o programa passa quatro anos antes da revolução que depõe a ditadura.

Trocado o jornalismo pela ficção, Mário Domingues passa a dedicar-se aos romances policiais e de aventuras, sob pseudônimo – Os Mistérios da Índia, Segredos da Espionagem Oriental, Perdidos na África –, conseguindo viver da sua escrita, como queria desde a adolescência: “Durante dez, 15 anos escrevi uns 160 ou 170 livrinhos desses de cerca de 200 páginas, recheados de aventuras, cheios de imprevistos, com índios e cowboys, viagens extraordinárias por regiões do mundo que eu nunca tinha visto.”

A estes romances seguiram-se as biografias de grandes vultos da história de Portugal (D. Manuel I, Padre António Vieira, Nun’Álvares Pereira), figuras que serviam na perfeição a retórica do Estado Novo. E isto tendo ainda no “currículo” traduções de obras de Charles Dickens e George Eliot.

Mário Domingues era um escritor notável. Primeiro foi um jornalista incrível, repórter impressionante, e depois transformou-se no nosso Emilio Salgari [o escritor italiano que criou o corsário Sandokan]. Nunca parou de escrever, porque sempre quis viver da escrita”, diz Garcia.

Mas, se foi autor de uma obra tão vasta quanto diversificada, e sobretudo de uma série de textos absolutamente pioneiros no que toca à defesa da independência das colônias portuguesas, por que razão permanece Mário Domingues praticamente esquecido e, com raras exceções, confinado a publicações acadêmicas? Porque durante o Estado Novo troca os artigos revolucionários nos jornais por livros de cowboys e de aventuras? Porque a dada altura decide escrever sobre os “heróis” que tanto agradavam ao regime e acaba por ele condecorado?

Fica oculto, porque não alinha com o PCP. Termina a vida pouco crítico, mas sem deixar o anarquismo, nem a ideia de viver apenas da escrita, condição típica e desgraçada do intelectual do século XX. É um não-alinhado”, acrescenta este investigador que está habituado a estudar as relações entre os meios de comunicação e o poder político – Garcia coordenou, com Tânia Alves e Yves Léonard, a obra Salazar, o Estado Novo e os Meios de Comunicação, que saiu no ano passado com a chancela das Edições 70 –, e que gosta de tratar os jornais como “arquivos da realidade” e não como meras ferramentas instrumentalizáveis ao serviço de determinado programa que lhes é exterior. “Os meios de comunicação influenciam estilos de vida, comportamentos, opiniões, e são, nessa medida, atores de primeiríssimo plano da história, pelo menos a partir da segunda metade do século XX. (…) A política faz-se com ideias, linguagens, correntes de opinião, e isso coloca os meios de comunicação no coração do processo.”

Fonte: https://www.publico.pt/2018/03/31/culturaipsilon/noticia/a-liberdade-nao-se-concede-conquistase-que-a-conquistem-os-negros-1808212

agência de notícias anarquistas-ana

por uma só fresta
entra toda a vida
que o sol empresta

Alice Ruiz

[Espanha] A outra feira: a Feira do Livro Anarquista de Sevilha

Cada ano, editoras, livrarias, autores e leitores se encontram na Feira Anarquista de Sevilha, um lugar de encontro para a criação literária com visão libertária.

Não se trata só de letras. A oralidade, a música e o audiovisual jogam um papel fundamental no encontro que cada mês de março implica a alguns espaços autogestionados do centro mais subversivo de Sevilha: a Feira Anarquista do Livro de Sevilha (feriaanarquistasevilla.org).

Literatura e História com ótica libertária estão representadas nas obras que 15 livrarias e editoras independentes apresentam. São títulos difíceis de encontrar em outros âmbitos e são imprescindíveis para compreender, de forma crítica e necessária, o bairro e o mundo que habitamos. Assim, durante o fim de semana de 16 à 18 de março, os espaços de Tramallol, Lanónima e La Revo acolheram uma série de propostas e intervenções artísticas e culturais que complementam o papel insubstituível que tem os livros como “desaborregadores” de mentalidades.

O fato de que esta feira do livro também incluia o apelativo de ‘anarquista’ não é fruto só das temáticas e das perspectivas que se abordam nas centenas de livros e fanzines ou nas mesas de palestra e debate, como a que narrou o ativista curdo Ercan Ayboga sobre a nova sociedade que está sendo construída em Rojava (norte da Síria), com base na democracia direta, na luta contra o patriarcado, no ecologismo e no respeito intercultural e religioso.

De acordo com o espírito autogestionário, a feira funciona com “independência econômica e logística frente a qualquer instituição”, indica uma das dez pessoas que formam a assembleia que cada outubro começa a organizar a edição do ano seguinte. Neste ponto se começam a propor eixos temáticos para as palestras, oficinas, debates e demonstrações artísticas. Também a conceber a identidade da nova edição da feira ou as possíveis necessidades logísticas.

Mais à frente, segundo se vai aproximando a data, se vão somando pessoas e coletivos para colaborar, com um caráter cooperativo e ativo que é fundamental no ideário anarquista. Desde propor e contribuir com conteúdos intelectuais, culturais e artísticos que desenvolvem alguns dos eixos temáticos, até os turnos do comedor, do balcão ou da ludoteca.

Ademais do anteriormente mencionado sobre a revolução de Rojava, os eixos temáticos desta nona edição foram Fronteiras, Anarquismos Periféricos (uma perspectiva libertária do processo independentista da Catalunha, abordado por dois coletivos catalães), Memória Histórica e Feminismos. Este último eixo foi o protagonista da sexta-feira inaugural, com a violência como elemento comum em ambas. Abria a feira a oficina As violências como filtro e contexto de nossos sentidos, que se apresentava com a missão de provocar a reflexão sobre como se estrutura o sentir a partir das violências. Após este — e a abertura de portas do espaço expositivo—, as Violências sexuais nos espaços comuns foi o tema que abordou a mesa redonda que contou com a participação de representantes do Movimento Feminista de Iruñea, o Coletivo de Prostitutas de Sevilha e o Grupo de Apoio e Resposta do COAF La Revo.

A mesa de Fronteiras pôs o foco sobre a repressão a ativistas pró Direitos Humanos na chamada Fronteira Sul, com a participação de pessoas às quais lhes tocou muito de perto, como é o caso de Ernesto G. Maleno, de Caminando Fronteras, Dorothea Lipper-Ringler, da Asociación Ceutí Elín, e José Palazón, da melillense Prodein.

Já no domingo, a Memória teve um alto componente emocional com uma visita pelo cemitério de San Fernando às fossas comuns do franquismo, guiada por Cecilio Gordillo. Integrante do Grupo de Trabalho Recuperando a Memória da História Social de Andaluzia da CGT, é uma das pessoas que dedicou mais empenho em manifestar o alcance da repressão durante a Guerra Civil e o pós-guerra na Andaluzia.

Mais componentes: a música pôs fim aos dois primeiros dias da Feira Anarquista. Na sexta-feira, a modo de festa de inauguração, a guitarra de Raúl Cantizano (colaborador habitual de artistas iconoclastas como Pony Bravo ou Niño de Elche) encontrou a harmonia com as peças visuais de Miranda VJ. No sábado, um concerto de punk e hardcore co-organizado com o coletivo Andalucía Über Alles, com um cartaz no qual encontramos os toledanos Sudor e as almerienses Partenogénesis.

E o encerramento. O ciclo se fechou, enquanto o eixo temático, já que o feminismo libertário reluzia entre as palavras declamadas no recital do jovem coletivo poético Herederas de Salem. Foi o “até a próxima!”, que já será a décima edição, da Feira Anarquista do Livro de Sevilha.

Fonte: https://www.elsaltodiario.com/literatura/la-otra-feria-la-feria-del-libro-anarquista-de-sevilla

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

o rio ondulando
a figueira frondosa
no espelho da água.

Alaor Chaves

[Porto Alegre-RS] Cartaz em Solidariedade com xs que resistem a Operação Érebo

Ainda no contexto em que colar um cartaz pode ser muito mais complicado do que antes, e com uma investigação que segue na procura dos tão desejadxs “culpadxs”, a indiferença é impossível diante das repressões. A solidariedade tem sido a melhor propaganda anarquista, e tem sido um impulso de ação ao longo dos vastos territórios em conflito. Às vezes ampla e diversa, às vezes em ato vindicador e ação individual.

É um impulso reagir diante dos golpes aos outrxs, ainda mais se chamamos esses outrxs de companheirxs ou afins. Não como espírito humanitário, mas como resposta agressiva, como grunhido que nos reafirme na nossa decisão de antagonismo contra a dominação. Como abalo de coragem que nos permita escrever nossa história de cabeça em alto.

Nem arrependidos ou amedrontados, onde sempre estivemos, contra toda autoridade e em defesa da liberdade. Em solidariedade com nossos companheirxs e mais convencidos do que nunca.

Enquanto um dxs nossxs estiver sendo incomodado, aparecerão os cantos de força e guerra que tem nos ensinado nossxs ancestrais não civilizados, indomáveis, bandidos, marginais e anárquicos: entoados forte e graduados.

A.

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/02/22/faixa-em-solidariedade-com-xs-perseguidxs-pela-operacao-erebo/

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serpenteando
no rio de verão
rubra corrente

Seishi Yamaguchi

[Grécia] Vídeo: Em solidariedade aos ocupantes da “ZAD”, anarquistas atacam embaixada francesa em Atenas

Integrantes do grupo anarquista grego Rouvikonas atiraram bombas de tinta contra a embaixada francesa em Atenas nesta terça-feira (24/04), em um protesto que, segundo eles, serviu para manifestar solidariedade aos ocupantes da “ZAD” [Zona A Defender] de Norte-Dame-des-Landes, no oeste da França, que recentemente foram alvos de uma vasta operação militar de expulsão.

> Veja o vídeo aqui: https://www.liveleak.com/view?t=aFTks_1524574172

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/04/11/franca-nantes-milhares-de-pessoas-exigem-a-libertacao-da-zad/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/04/10/franca-comunicado-os-desalojos-comecaram-a-zad-chama-a-mobilizacao/

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vou-me embora
e tu ficas:
dois outonos

Buson

Terrorismo e violência política em Portugal, no século XX

A imagem nacional e internacional que temos é que somos um país de grandes costumes, um povo muito gentil, acolhedor, a violência é mínima, tratando-se de gente tolerante, multicultural, as práticas bombistas, o assassinato político, o sequestro, são resquícios do passado, vivemos em grande amenidade, a despeito de algum frenesim de tabloides ou canal de televisão bombástico.

No entanto, o século XX português está pontuado por violência política e atos terroristas conforme é patente num livro altamente pedagógico, de escrita palpitante, elucidativamente ilustrado, de título Portugal à Lei da Bala, Terrorismo e violência política no século XX, por António Luís Marinho e Mário Carneiro, Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2018.

Quando as práticas anarquistas chegaram a Portugal e se tornaram notórias, já tinham feito o seu caminho de tal modo que no final do ano de 1998 se realizou em Roma a Conferência Internacional pela Defesa Social contra os Anarquistas. Em finais de 1901, Theodore Roosevelt, presidente dos EUA, declarava que “O anarquismo é um crime contra a espécie humana, e toda a humanidade se deverá unir contra os anarquistas. Os seus crimes devem ser estigmatizados como ofensas contra as leis das nações”.

Os autores recordam estes anarquistas e a Carbonária devem ser vistas como peças fundamentais no derrube da monarquia em Portugal. A Casa de Bragança começa a oscilar com uma contestação onde se cruzam o Ultimato inglês de 1890, uma crise financeira agudíssima, a ascensão dos ideais republicanos, os gastos na pacificação do Império africano, e a questão religiosa não era despicienda, dividia as próprias forças apoiantes do regime monárquico. As tensões avolumavam-se na capital, aqui se concentravam centenas de conspiradores, se organizavam sociedades secretas, conspirava-se nos cafés, há insubordinações militares, os republicanos ganham a Câmara de Lisboa e aparecem coligados na autarquia do Porto, a incapacidade de entendimento entre partidos monárquicos leva a que D. Carlos apoie o regime musculado de João Franco, assinou a sua sentença de morte. O livro dá-nos diferentes angulações do que foi o regicídio e quem eram os possíveis mandantes dos regicidas.

E assim chegamos à República, um tempo de greves, de bombas, de assassinatos, de governos precários, até de levantamentos monárquicos capitaneados por Paiva Couceiro, agravam-se as relações entre a Igreja e o Estado, aparece o terrorismo da Formiga Branca, tempo de complôs e de um país completamente dividido quando se perfila a necessidade de tomar posição face à I Grande Guerra, são anos de golpes, de governos que se pretendem autoritários, de Pimenta de Castro a Sidónio Pais, depois o terror da Legião Vermelha, a noite sangrenta em que se assassinou António Granjo e outros, a camioneta-fantasma ganhou foros de veículo terrorista, símbolo de massacre, assim se foi decompondo a I República, em total instabilidade e revoltas militares até que triunfou aquela que foi encabeçada por Gomes da Costa que partiu de Braga e chegou calmamente a Lisboa, em maio de 1926.

As revoltas não vão abrandar, como a da Marinha Grande, em 1934, a dos Marinheiros, em 1936, tenta-se liquidar Salazar à bomba em 1937, o Estado-Novo ergue-se fazendo vergar as oposições políticas e volatizando os adeptos do anarco-sindicalismo, a violência em grande escala regressa em 1961 com a tomada do Santa Maria e a tentativa do assalto do quartel de Beja. A LUAR – Liga de Unidade e Ação Revolucionária – entra em atividade em 1966, era liderada por Hermínio da Palma Inácio, torna-se uma dor de cabeça para o regime, assalta-se a agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz, desvia-se um avião, lançam-se panfletos sobre Lisboa. E com a guerra colonial os comunistas queriam o seu braço armado, a ARA – Ação Revolucionária Armada –, o seu nome está ligado a uma sabotagem ao navio Cunene, ataca-se a Escola Técnica da DGS e o Centro Cultural Norte-Americano, em março de 1971, a ARA destrói aeronaves em Tancos, 11 aviões e 17 helicópteros, era a maior parte da frota destinada à instrução dos pilotos que iriam combater na guerra de África, mas há muito mais ações ligadas às brigadas revolucionárias e à ARA, tudo aparece descrito em Portugal à Lei da Bala.

Depois de uma trégua, curta, a seguir ao 25 de abril de 1974, temos novos protagonistas: o ELP – A Armada Anticomunista, mas apresentada como o exército de libertação de Portugal, o seu nome tal como o MDLP, associado a Spínola e Alpoim Calvão fizeram história atacando sedes e centros de trabalho do PCP e do MDP/CDE bem como de partidos da extrema-esquerda, haverá nos Açores a FLA – Frente de Libertação dos Açores, que emergira do Movimento para a Autodeterminação do Povo Açoriano, haverá atividades e algumas bombas, na Madeira foi tudo mais brando, a FLAMA – Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira também lançou uma campanha bombista, mas mais modesta.

Na década de 1980 fizeram furor as FP – 25 de abril, que levaram uma das figuras míticas do 25 de abril, Otelo Saraiva de Carvalho, à prisão. Portugal não irá escapar a ajustes de contas de certos movimentos do terrorismo internacional, num congresso da Internacional Socialista, em abril de 1983, é morto um dirigente da OLP, e nesse mesmo ano um comando de 5 terroristas pertencentes ao Exército Revolucionário Armênio ataca a Embaixada da Turquia em Lisboa e faz reféns; Evo Fernandes, representante da RENAMO em Portugal, é executado perto de Cascais por agentes do Serviço Nacional de Segurança Popular, de Moçambique. E os GAL – Grupos Antiterroristas de Libertação, financiados com dinheiros do governo espanhol para combater a ETA, tinham uma ligação portuguesa.

Com este rol de práticas, é mesmo de questionar se somos um povo de brandos costumes…

Leitura a não perder.

Fonte: http://www.oribatejo.pt/2018/04/10/terrorismo-e-violencia-politica-em-portugal-no-seculo-xx/

agência de notícias anarquistas-ana

Rosa branca se diverte
Pétalas no vento
Imitam a neve.

Vinícius C. Rodrigues

[Canadá] Vem aí a 13ª edição do Festival Internacional de Teatro Anarquista de Montreal

O Festival Internacional de Teatro Anarquista de Montreal (FITAM) volta para sua 13ª edição, nos dias 22 e 23 de maio de 2018, às 19h30, na Sala Rossa.

O FITAM é o único festival no mundo consagrado ao teatro anarquista. Inserido no mês da Anarquia de Montreal, o FITAM oferece uma tribuna a trupes e artistas com objetivos radicais. Depois de ter recebido o Living Theatre (2009), Pol Pelletier (2011) e o Bread and Puppet (2014), nós temos este ano a honra de apresentar sete companhias provenientes da França, Estados Unidos e Montreal.

Ingressos antecipados disponíveis online no site da Sala Rossa (lasalarossa.com), 11$ cada noite ou 20$ pacote especial das duas noites. Ingressos no local: 13$. Para todos os públicos.

A 13ª edição do FITAM reúne peças originais com, entre outras, uma adaptação de “Esperando Godot”, que põe em cena duas mulheres negras nos papéis de Didi e Gogo; a história de uma pastora inspirada nas cartas de três prisioneiros dissidentes; Tought Experiment Productions vem mais um ano com uma peça com pedal Wah Wah, frequências de rádio e o poder do indivíduo nos canais de comunicação da grande mídia; uma peça com marionetes sobre a violenta gentrificação e seus efeitos sobre as populações marginalizadas; e a história inspiradora de seis mulheres anarquistas que resistiram ao fascismo entre 1920 e hoje.

> Terça-feira, 22 de maio | 19h30

• Pisser dans l’herbe…, Théâtre du Sable (França)

• Chansons anarchistes, Gwenael Kivijer (França)

• Trashlaga Puppet Crew, Trashlaga Puppet Crew (Montreal)

• No way! No way! (parte I), Trees that Talk (Montreal)

> Quarta-feira, 23 de maio | 19h30

• Didi and Gogo, MC Theatre Troupe (EUA)

• Chansons anarchistes, Gwenael Kivijer (França)

• The Wah-Wah Pedal, Thought Experiment Productions (Montreal)

• Darwin avait raison, Dire, encore (Montreal)

• No way! No way! (parte II), Trees that Talk (Montreal)

> Mais infos: festivaltheatreanarchiste@yahoo.ca | www.anarchistetheatrefestival.com 

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/04/29/canada-11o-festival-de-teatro-anarquista-anual-de-montreal/

agência de notícias anarquistas-ana

Cresci com gorjeios
sobre a jabuticabeira
entre os sabiás.

Urhacy Faustino

[França] 1968 – 2018: Desde um Maio selvagem a outro – Uma chamada de convergência a Paris em 1º de Maio

Uma revolução efervescente

Hoje, certos jornalistas, intelectuais, artistas e políticos desejam comemorar o ano de 1968 e suas revoltas, apresentando-as como um impulso para a realização da democracia capitalista, do prazer individualista e liberal. Uma vez mais, este evento histórico está sendo utilizado para impulsionar vendas, audiências, revistinhas literárias e boletins de voto; efetivamente tentando neutralizar e distanciar o que antes foi uma das ofensivas mais subversivas e violentas dos anos do pós-guerra. Analisar a história para martelar o seu fim, evocar o entusiasmo e a revolta de uma geração para melhor confinar e pacificar a próxima.

Estudantes parisienses no mês de Maio começaram ocupando a Sorbonne, suas demandas singulares explodiram, e seu rechaço deste mundo se pintou por todas as paredes da cidade e se encarnou nas barricadas noturnas. Logo os trabalhadores se uniram aos estudantes, começando uma greve geral selvagem que paralisou o país inteiro. Em duas semanas o governo se dobrou e ofereceu aos grevistas concessões sociais históricas, que, por sua vez, os estudantes e os trabalhadores rechaçaram.

No México D.F., durante vários meses, centenas de milhares de manifestantes se reuniram em um movimento a favor da associação livre e contra a repressão política. Ocupando colégios e universidades, e eventualmente materializando-se em enfrentamentos nas ruas. Nessa ocasião, o Estado mexicano pôs fim ao movimento matando a mais de duzentas pessoas no que foi chamado o massacre de Tlatelolco.

Do outro lado da Cortina de Ferro, o novo governo da Checoslováquia, com o apoio da população, empreendeu um processo de liberalização política: liberdade de expressão e de assembleia, fim à censura, a abertura das fronteiras do oeste, e uma restrição das forças de segurança nacionais. Concluindo com a invasão soviética que pôs fim à Primavera de Praga.

Os Vietcongues empreenderam a ofensiva do Tet contra as grandes cidades do sul do Vietnam. Depois de várias semanas os assaltantes foram empurrados para fora das cidades, mas a ofensiva demostrou ao mundo o potencial do exército popular vietnamita, anunciando o início da derrota dos estadunidenses.

Na Itália, o movimento estudantil se encontrava em seu segundo ano. Nascido das críticas às funções autoritárias e capitalistas do sistema universitário, o movimento foi mais além deste marco, envolvendo-se na política internacional e doméstica, deixando os campus universitários e culminando em greves consecutivas nas cidades, inclusive saboreando enfrentamentos vitoriosos contra a polícia. O ano de 1968 foi o começo de um longo período vermelho na Itália, que em sua duração de doze anos viu experimentações políticas, conflitos, ocupações, greves, distúrbios, luta armada, estações piratas, expropriações, e mal estar social. Todos os aspectos da vida cotidiana estavam de cabeça pra baixo.

Também em outras partes do mundo, como no Japão, Estados Unidos, Alemanha e Senegal, movimentos sem precedentes a favor da emancipação se desencadearam na forma de liberação política e sexual, lutas contra todas as formas de autoridade, movimentos feministas e dissidência política; rechaço do trabalho, do mundo econômico e seus ditames; vidas em comunidade e ilegalidade; o nascimento da ecologia radical e o rechaço do sistema acadêmico, reapropriação do conhecimento; rebelião contra o imperialismo, as instituições militares e as guerras coloniais.

Os homens e mulheres que participaram nestas lutas pagaram um preço altíssimo com suas vidas: dezenas de milhares foram feridos, assassinados, encarcerados ou exilados. Mas também conheceram vitórias e descobriram novos poderes, experimentaram com novas formas de vida e de luta; forçando aberturas para que novos, selvagens e desconhecidos mundos surgissem. Em todo o mundo, alianças entre trabalhadores e estudantes, homens e mulheres, imigrantes e cidadãos nacionais forjaram a amplitude e a intensidade destes movimentos, a alteridade como um poder comum, uma forma de expulsar o adversário, de reinventar-se, de aprender a lutar e a ganhar.

Eles comemoram, a gente recomeça a luta

Apesar destas tentativas revolucionárias, o regime capitalista seguiu em frente, mediante mutações e apropriações, picos de crescimento e crises globais, criando um mundo que hoje em dia está mais doente que nunca.

Segundo cabe supor, os cidadãos europeus estão no topo da liberdade, suas vidas repletas de eleições apaixonantes. A opção de querer ou não querer algo, entre esta merda de mercadoria ou a próxima, entre este partido político ou o outro, ainda que ambos levarão às mesmas políticas, e claro, a eleição do tipo de câncer com o qual desejamos morrer. Uma abundância de trajetórias insensatas que nos fazem esquecer sua carência de destino, isso é o que o capitalismo tem para oferecer aos ‘privilegiados’ de nosso tempo. Enquanto o resto dos milhões de migrantes escapando da guerra, da pobreza ou dos desastres climáticos, estão condenados a deambular e morrer na porta da Europa, ou no caso de que consigam entrar, e terminar sendo parte da mão de obra explorada pelos empresários, ademais de carne de canhão para as técnicas repressivas das forças policiais do Ocidente.

Em termos de igualdade, algumas mulheres brancas e educadas podem hoje converter-se em gerentes como qualquer outro, e, inclusive, em executivas nas principais potências mundiais. No entanto, o número de violações e feminicídios não caíram, e as mulheres de ‘cor’ continuam exercendo sua posição como o cimento vergonhoso de nossa sociedade: elas são as que limpam, cuidam, educam e, sobretudo, permanecem invisíveis.

O trabalho, agora mais que nunca, se impõe como o valor fundamental de nossa sociedade. Os desempregados são perseguidos, desvalorizados e erradicados. Uber, Amazon e seus exércitos de gerentes ‘criativos’ encabeçaram a reinvenção do Fordismo e de uma existência na qual cada segundo se conta e monitoriza: o culto do presente, um presente perpétuo que não deixa lugar algum ao passado ou ao futuro.

Em termos globais, temos perdido a conta do número de espécies que se extinguiram ou estão em perigo de extinção, ademais do número de ecossistemas que foram destruídos ou o grau de poluição dos oceanos. Apesar de tudo isto, o mundo econômico continua impondo sua dominação do planeta e a destruição de todas as formas de vida.

Por sorte, uma forma de consciência, tentativas de subversão e confrontação emergiram deste mundo tão maravilhoso. A deserção deste tipo de vida está crescendo, e o capitalismo verde assumido pelos políticos profissionais só tem enganado a idiotas e pilantras. Se criaram alianças na forma de migrantes ocupando praças e edifícios, visibilizando sua existência e a de experiências antes invisíveis, e as mulheres estão se organizando para impor seus direitos, para que se ouçam suas vozes e se visibilizem suas vidas. Em uma escala ainda maior, reformas políticas e assassinatos policiais levaram a erupções políticas massivas e inesperadas. Projetos de infraestrutura deram a luz a comunas livres e transformações emergentes e reais em territórios inteiros, várias reuniões de líderes do mundo terminaram com milhares de policiais desbaratados e cidades hiper-seguras vandalizadas.

Como parte destas tentativas, os camaradas franceses emitiram uma chamada a Paris por um agitado mês de Maio, selvagem. Com este texto, queremos responder a sua chamada, e, ademais, retransmitir a mensagem a nossos cúmplices e amigos, presentes e futuros.

Iremos a Paris porque acreditamos que tanto o estado do mundo, como as palavras e a história merecem que se lute por eles. Não se trata de fetichizar nem idealizar coisas do passado, se trata de alimentar a memória, a história, as vidas e as lutas, assim como os desejos e objetivos dos que o atravessaram. Há cinquenta anos, milhares de nossos companheiros lançaram-se dispostos a assaltar os céus. Ainda que falharam em suas tentativas de destruir o capitalismo, sua tragédia não é relevante. O que realmente importa é o questionamento dos atos e impulsos que eles levaram adiante e como lhes podemos dar eco, e mais importante ainda, como os podemos reiterar agora. Como dizem nossos amigos Zapatistas, o futuro está em nosso passado.

Também marchamos a Paris para lutar pelo que está em jogo, apoiar a nossos camaradas franceses, e apresentar nossos melhores desejos a Macron. Depois de ter vencido as eleições ao apresentar-se como uma alternativa à classe política tradicional e posicionar-se como um candidato ‘apolítico’, Macron implementou políticas neoliberais a um ritmo frenético: destruindo os direitos dos trabalhadores, adotando o autoritarismo, e aumentando seu controle sobre o Estado. Seu primeiro erro será sua tentativa de reforma frontal do bacharelato, o acesso às universidades e do transporte ferroviário francês, enquanto deixa abundantemente clara sua intenção de destruir o setor público francês. Os trabalhadores ferroviários, conhecidos na França como os trabalhadores mais assertivos, iniciaram uma greve que afetará severamente o transporte a princípios de Abril. Muitos estudantes se uniram e bloquearam seus colégios e universidades. Os funcionários públicos também entenderam que seus baixos salários e a gestão agressiva de seus trabalhos e funções só vão piorar. Claro, o governo está unindo seus ataques políticos aos ataques da mídia contra os trabalhadores ferroviários e os funcionários públicos, ao mesmo tempo que os colégios e universidades ocupados enfrentam uma feroz repressão policial e administrativa.

Mas a greve e as manifestações de 22 de Março de 2018 mostraram um espírito de luta e uma determinação que não se tinha visto desde o movimento contra a reforma laboral de 2016, onde 180 manifestações em toda França, compostas por passeatas massivas e ofensivas, prejudicaram seriamente os sistemas de transporte aéreo e ferroviário. Ninguém pode predizer como evoluirá este movimento durante as próximas semanas, mas haverá uma certa aposta por criar pontes, multiplicar as reuniões e os mundos para compartilhar: invadindo estações de trem durante os protestos, inaugurando assembleias, ocupando lugares, e encontrando objetivos em comum… Tratemos de sentir e lutar juntos para que a próxima primavera vá mais além da história e, por fim, liberar um tempo do qual nos enamoremos.

Nada acabou, tudo acaba de começar.

lespaves.net

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Passa um cão
com neve nas costas –
onde a leva?

Stefan Theodoru

[Alemanha] “A morte de Stalin” ou: pode-se fazer piada de um ditador?

Censurada na Rússia, sátira sobre os últimos dias do líder russo e a subsequente disputa de sucessão chega às salas da Alemanha. E reaviva o debate: é admissível rir hoje do stalinismo ou do nazismo?

A magnífica sequência de abertura de A morte de Stalin já revela bem o terror da era stalinista: uma orquestra sinfônica dá um concerto de música clássica, Josef Stalin está concentrado, escutando com atenção, emocionado. Terminada a apresentação, ele chama o diretor da sala de concertos e quer uma gravação. Mas, oh não, ninguém lembrou de gravar o espetáculo em disco. E agora?

Às pressas, a direção da casa tenta convencer o público, que em parte já deixara o salão, a permanecer em seus lugares. O concerto tem que ser repetido, por completo, desde a primeira nota. E com a mesma acústica, o que só é possível se os assentos já vazios forem preenchidos com transeuntes. Maestro e pianista devem ser convencidos a executar um concerto sinfônico inteiro pela segunda vez – agora gravando.

Só assim está garantido que Stalin receberá um registro sonoro autêntico o mais rápido possível. Senão… sim, caso contrário, o que aconteceria?

Não se provoca um ditador

Estamos no ano de 1953. A ditadura Stalin faz vítimas diariamente. Quem não anda cem por cento na linha é preso, sequestrado, assassinado. Isso, ninguém quer arriscar, nem mesmo os perplexps espectadores e músicos na sala de concertos. Não se provoca um ditador.

A morte de Stalin é uma maldosa sátira política sobre um dos mais brutais reinos de terror do século 20. Um filme baseado em fatos historicamente comprovados, que os apresenta de forma apenas levemente alterada, entrelaçando, assim, de maneira genial, história e comédia, documentário e grotesco.

Por trás do filme, além de autores, produtores e um elenco fantástico, está o cineasta escocês Armando Iannucci. “Quanto mais se descobre sobre esses acontecimentos reais, mais eles se parecem uma farsa”, comenta o especialista em sátiras políticas, responsável, entre outras, pela série Veep, premiada com vários Emmys, que retrata o dia a dia de um vice-presidente dos Estados Unidos.

Quanto mais real, mais engraçado

Como conta o próprio diretor, ele visou mais do que uma comédia-pastelão com piadas inconsequentes. “Acho que em comédia vale a regra: quanto mais acontecimentos autênticos e detalhes você insere, mais cômico é.” E mais ainda o público vai se perguntar se a coisa realmente aconteceu, e concluir que a resposta é: “Sim, isso pode realmente ter acontecido. Dessa forma, os espectadores ganham acesso à história.”

Após a sequência introdutória, A morte de Stalin enfoca, sobretudo, as horas e dias seguintes ao derrame de Stalin, no início de março de 1953. Quem assumirá o poder após sua morte? Como lidar com o legado stalinista? O Kremlin será dominado pelos belicistas ou pelos pacifistas – e o que acontecerá então com quem ficar na oposição?

Iannucci, que baseou seu filme em uma HQ francesa, reúne na telona o círculo interno de poder do Kremlin: Nikita Kruchov, que no final vencerá a disputa; Lavrenti Beria, temido chefe de inteligência; Georgi Malenkov, secretário do Comitê Central; Viatcheslav Molotov, confidente íntimo do ditador e posterior ministro do Exterior.

E, por fim, o general Georgi Jukov, que em 1945 aceitara a rendição incondicional da Alemanha nazista, mas foi rebaixado pouco antes da morte de Stalin. Além disso, há a filha do ditador e o filho dela. Todos lutam pela melhor posição após o aguardado falecimento.

Entre comédia e tragédia

Apesar de todo o cenário grotesco e da comicidade absurda, A morte de Stalin não omite o que realmente estava em jogo quando Stalin estava morrendo. “Eu queria que o público fosse lembrado que as ações e decisões dessas personagens tiveram efeitos devastadores para o povo”, diz o diretor.

Iannucci sabia que ele e sua equipe tinham que ser muito respeitosos com os fatos: O fato de que “milhões de pessoas foram mortas ou desapareceram” não podia ser contornado, “nem comunicado em forma de piada”: “O espectador tem que estar ciente desse fato a cada momento do filme.”

E o que este nos conta hoje sobre esses eventos de décadas atrás? “A morte de Stalin pode se passar há mais de 60 anos, mas oferece algumas lições esclarecedoras sobre o panorama político atual”, assegura Armando Iannucci.

Ele teve as primeiras conversas sobre o projeto três anos atrás, “quando ninguém esperava o Brexit ou Trump”. Na época, ele buscava especificamente um tema “que tivesse a ver com ditadura, autoritarismo e como um país pode ser aterrorizado por uma pessoa, mesmo que não seja sequer carismática, simplesmente porque ela sabe explorar conceitos como pensamento grupal”.

O que a proibição diz sobre a Rússia de hoje?

Teria sido também essa a razão por que A morte de Stalin foi proibida na Rússia em janeiro, pouco antes do lançamento nas salas de exibição? No site do Ministério da Cultura russo, o filme foi acusado de ser um escárnio e uma abominação, uma conspiração do Ocidente para desestabilizar a Rússia. Antes disso, vários membros da Duma já haviam tachado a produção de inadmissível, exigindo sua proibição.

Um ditador que tem as vidas de milhões de pessoas na consciência, é responsável por milhões de deportações e construiu toda uma rede de gulags pelo país, não pode ser ridicularizado? O que isso diz sobre os censores da Rússia de hoje?

Fazer piada com ditadores, sobretudo com meios cinematográficos, pode se provar um empreendimento artístico espinhoso, por diversas razões. Não há muito por que crer que a atual proibição de A morte de Stalin na Rússia se deva ao respeito pelas vítimas. Pelo menos não foi essa a explicação que se ouviu de Moscou.

Mas o público alemão deve lembrar que, não faz muito tempo, tampouco se podia fazer no país um filme simplesmente cômico e boboca sobre Adolf Hitler, Joseph Goebbels e companhia, por várias razões. Rir de Hitler certamente foi (e é) algo sobre que se pode discutir muito.

Produções como Minha quase verdadeira história, de Dani Levy (2007), ou Ele está de volta, de David Wnendt (2015), são ainda bem recentes. Atualmente a Alemanha já se mostra disposta a permitir tais ousadias cinematográficas e humorísticas e a analisá-las. A Rússia, ao que parece, ainda não está pronta. Os argumentos pró e contra tais filmes podem ser variados, mas também faria bem ao público alemão manter um pouco a humildade nesse debate.

Fonte: http://www.dw.com/pt-br/a-morte-de-stalin-ou-pode-se-fazer-piada-de-um-ditador/a-43189228

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agência de notícias anarquistas-ana

primeira manhã gelada –
na luz do sol, o hálito
do gato que mia

David Cobb

[Alemanha] Centenas de neonazistas realizam festival de rock na cidade de Ostritz no dia do aniversário de Hitler

Mais de mil neonazistas se reuniram no Leste da Alemanha para um festival de rock de extrema-direita iniciado na última sexta-feira (20/04). A data marca o aniversário de Adolf Hitler. Em contrapartida ao ato, antifascistas organizaram contramanifestações e vários moradores participaram de um festival paralelo pela paz.

O festival “Escudo e Espada” foi realizado na pequena e pacata cidade de Ostritz, que faz fronteira com a Polônia, entre a sexta-feira e este sábado. Hitler nasceu na Áustria, em 20 de Abril de 1889.

Produtos de extrema-direita, como tanques de brinquedo, eram vendidos no evento. Uma placa dizia “Irmandade Ariana” e um pôster do Partido Nacional Democrático, de extrema-direita, protestava contra a chegada de mais de um milhão de imigrantes à Alemanha desde 2015, com o slogan “Creches em vez de campos de refugiados”.

Discursos políticos, shows de música de extrema-direita, combates de MMA, uma convenção de tatuagens e bancas com diversos produtos de extrema-direita foram as atrações do evento neonazista.
 
Fonte: agências de notícias

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agência de notícias anarquistas-ana

tocar sobre teu corpo
ao silêncio das estrelas
um acorde de guitarra

Lisa Carducci

[Peru] Pronunciamento anarquista sobre os bombardeios das potências mundiais sobre a Síria

Como é do conhecimento público, na semana passada o governo dos EUA, liderado pelo ultradireitista Donald Trump, bombardeou áreas urbanas em Damasco e Homs, com a aprovação dos governos ocidentais como os da França, Reino Unido e Canadá, sob o pretexto da existência de armas químicas pelo governo sírio de Bashar Al Assad, cuja família está no poder há várias décadas. Esse bombardeio gerou o repúdio de grande parte da opinião pública mundial, dado o histórico da política internacional dos Estados Unidos, especialmente no Oriente Médio, caracterizado pelo intervencionismo e a ganância por recursos naturais, como o petróleo sírio.

O que não despertou semelhante indignação, muito menos na esquerda local e latino-americana, é o constante intervencionismo da Rússia na guerra interna que a Síria está vivenciando. O governo sírio, em sua guerra contra os terroristas fundamentalistas do Estado islâmico, financiados e armados pelo Ocidente, pela Arábia Saudita e Israel, bombardeou o povo sírio, apoiados pelas bombas da aviação russa, para sufocar qualquer foco de dissidência.

O desejo de Al Assad é eliminar qualquer oposição existente na Síria, para ser mostrado como a única opção viável contra o terror do Estado Islâmico. É difícil de esquecer o massacre da cidade de Hama em 1982, quando o pai do atual presidente Bashar, Hafez Al Assad, enviou o seu exército para matar dezenas de milhares de civis islâmicos que se rebelaram contra seu regime autocrático. É também conhecida a opressão histórica que sofreu o povo curdo pelo governo de Damasco, que tenta destruir suas relíquias culturais para arabizá-los forçosamente, restringindo o uso de sua língua e até mesmo retirando a cidadania síria de grandes áreas de localidades dissidentes.

Hoje, enquanto bombas russas caem sobre o povo rebelde sírio, a entrada de jornalistas internacionais para as zonas de guerra é impossível pelas restrições do governo, então todas as informações noticiosas vindas da Síria são tendenciosas tanto do bando pró-americano como do bando pró-russo. Há muito poucos jornalistas sírios que podem informar o verdadeiro sentimento de medo do povo, que se bate entre ambos bombardeios, dos militares sírios e russos e dos terroristas do Estado Islâmico. Um cenário muito semelhante ao vivido nos anos 80 nas serras peruanas com a guerra do Sendero Luminoso.

A máquina de desinformação, tanto estadunidense quanto russa, não para. Embora já se conheça a agenda midiática dos ocidentais, que marcam como terroristas qualquer governo e/ou pessoas que não sejam do seu agrado, especialmente se o Oriente Médio, a mídia russa, com RT e Sputnik News dirigindo, apontam para qualquer opositor de Al Assad, chamando-o também de terrorista islâmico e/ou mercenário dos estadunidenses. Com pataquadas opiniões de “especialistas”, que muitas vezes são analistas e opinólogos que raramente pisam na zona de guerra, como a britânica Vanessa Beeley, assim como entrevistas com os próprios militares do Kremlin, a mídia russa e seus afins tentam desqualificar qualquer acusação de bombardear a população síria, chamando-a de “montagem”, “notícias falsas” ou fake news, enquanto o número de mortos continua a aumentar. Desde o último e certamente condenável bombardeio americano, qualquer evidência e/ou testemunho de ataques químicos sobre a cidade de Duma, é visto como colaboracionismo com os estadunidenses, ao cúmulo que muitos médicos naquela cidade já foram ameaçados pelo governo sírio.

De longe, a maior campanha midiática da RT e da mídia russa é a usada contra os Capacetes Brancos. Organização civil que surgiu há alguns anos em cidades como Aleppo e outras que eram os alvos preferenciais das bombas russas, estava integrada por civis sírios opositores do regime de Al Assad, que se organizaram para ser socorristas de vítimas dos bombardeios. Desde que o seu trabalho colocava em evidência os ataques russos e sírios, os países ocidentais e a Turquia se aproveitaram de sua aparição para começar a enviar-lhes assessoria, treinamento médico e financiamento, com o óbvio interesse de desacreditar o bando de Putin e Al Assad. Esta colaboração que receberam é o principal questionamento que tem sido feito contra eles, mas colocando no contexto, é lógico que um grupo cuja prioridade é salvar vidas de cidadãos bombardeados, aceitem a ajuda fornecida para continuar o seu trabalho humanitário, sem que isso deslegitime seu trabalho. Não é a primeira vez que organizações de direitos humanos que trabalham em países com governos antiestadunidenses recebem ajuda ocidental, o que não significa que as violações de direitos humanos por esses governos não deixem de ser repudiáveis.

No entanto, os trolls de internet russos e as notícias diárias da RT começaram a acusar os Capacetes Brancos de terroristas, com um espírito criminalizador que lembra o regime Fujimorista ou também o governo israelense que chama de terroristas os ativistas de direitos humanos na Palestina. Vídeos totalmente retirados do contexto e memes absurdos são viralizados nas redes sociais, como o famoso vídeo do Mannequin Challenge feito pelos Capacetes Brancos para aumentar a conscientização, que tem sido usado pela imprensa russa como suposta “prova irrefutável” de que os ataques russos sobre as cidades sírias são supostamente montagens. É difícil encontrar publicações jornalísticas que critiquem e/ou difamem esse grupo de resgatistas, cuja fonte original não seja a RT. Fazendo uma busca rápida nas redes sociais como o twitter, é detectado que aqueles que mais falam sobre os Capacetes Brancos são os trolls.

O mais lamentável é que muitas organizações políticas e ativistas de esquerda na América Latina e no Peru fazem eco da desinformação da RT. Fanpages peruanas de ativismo político e social como Colectivo Dignidad e muitas outras, replicam as pataquadas desinformativas da RT, sem nenhum interesse em realmente buscar as opiniões dos sírios que recebem as balas e bombas de ambos os bandos, que longe de expressar solidariedade com o povo desse país, simplesmente denota alinhamentos ideológicos. Que setores da esquerda peruana e/ou latino-americana sejam adeptos a Putin e Al-Assad resulta ofensivo para a inteligência, já que nenhum destes dois governantes é esquerdista nem marxista, mas sim, tem os comunistas russos e sírios como adversários em seus respectivos países.

Chama a atenção que, além da imprensa pró-russa, as críticas aos Capacetes Brancos também sejam compartilhadas pela mídia estadunidense de extrema-direita, como a Infowars. Recorde-se que a mesma rede de desinformação de trolls russos que agora tenta encobrir o belicismo da aviação de Putin na Rússia, foi a mesma que favoreceu com publicidade nas redes sociais Donald Trump nas últimas eleições presidenciais americanas, onde derrotou Hillary Clinton.

Com a guerra contra os terroristas do Estado Islâmico, sendo vencida pelas tropas de Al Assad e da Rússia, o último ataque dos Estados Unidos é uma demonstração de desespero estadunidense para participar da iminente divisão do bolo do petróleo sírio, uma festa para a qual os civis sírios não serão convidados. Forçar a opinião pública a se alinhar com o bando pró-russo, como pretendem alguns que se pintam de esquerdistas, com um critério mais geopolítico que de solidariedade internacionalista, não é senão uma negação da realidade social e política da Síria, ou seja, é como se em um país onde há uma ditadura hereditária desde os anos setenta, nunca tivesse havido protestos, dissidências ou repressões brutais.

O anarquismo, alheio a lealdades a governos de qualquer signo e polarização política entre esquerda e direita e/ou antagonismos similares entre facções militaristas que buscam apenas o poder, só pode expressar a sua total solidariedade ao povo sírio, ao povo rebelde que é vítima e também é guerreiro, que é bombardeado por todos os países poderosos e é silenciado pelo poder midiático dos governos ocidentais e russo. A normalização da opressão da família Al Assad não é garantia de paz para o povo sírio, mas será apenas com sua própria organização que se livrará do ditador, do fundamentalismo religioso dos terroristas do Estado Islâmico, e do intervencionismo estrangeiro.

Solidariedade com o povo sírio. Fora imperialistas da Síria.

Anônimo, 18 de abril de 2018

Fonte: https://perulibertario.wordpress.com/2018/04/18/pronunciamiento-anarquista-sobre-los-bombardeos-de-las-potencias-sobre-siria/

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agência de notícias anarquistas-ana

Boneca se aquece
com o meu chapéu de lã.
Eu visto saudades.

Teruko Oda

[EUA] Nova York retira estátua de médico que operava escravas sem anestesia

Estátua de J. Marion Sims, considerado o ‘pai da ginecologia moderna’ foi retirada do Central Park após protestos

Pela primeira vez, a cidade de Nova York retirou um monumento de uma figura histórica ligada a práticas de racismo. Na terça-feira retrasada (17/04) a estátua do médico J. Marion Sims, considerado o pai da ginecologia moderna, foi removida de uma base de granito no Central Park, onde ela permaneceu nos últimos 84 anos.

A retirada foi aprovada na segunda-feira por um comitê que está revisando os monumentos da cidade a pedido do prefeito Bill de Blasio, após o protesto de supremacistas brancos em Charlottesville, em agosto do ano passado, e faz parte de um movimento que tem mirado estátuas em todos os Estados Unidos.

A estátua de Sims foi retirada porque, na década passada, foi descoberto que ele testava técnicas cirúrgicas em escravas negras à força e sem o uso de anestesia.

Depois da violência em Charlottesville, o monumento, que ficava diante da Academia de Medicina de Nova York, foi vandalizado algumas vezes. Agora, ele será transferido para um cemitério no Brooklyn, onde o corpo do médico está enterrado.

Fonte: agências de notícias

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agência de notícias anarquistas-ana

folhinhas
linhas
zibelinas sozinhas

V. Maiakovski

[Espanha] 1° de Maio: Tomar as ruas

Há dez anos que vivemos nesta crise do sistema capitalista, uma crise que nada mais é que outra ferramenta da grande patronal, das multinacionais e dos banqueiros, com a cumplicidade de um sistema político corrupto, para aumentar seus enormes lucros sempre a custa dos direitos dos cidadãos e, especialmente, da classe trabalhadora. Esta crise é na realidade uma grande fraude.

Estamos há 10 anos em uma situação de emergência social, onde não só as pessoas sem trabalho estão abaixo da linha da pobreza, senão que mais de 14% das pessoas com trabalho são pobres como consequência da precariedade dos novos contratos de trabalho, com contratos parciais e salários de sobrevivência, que constitui a nova realidade laboral de indignação. A isso se soma o retrocesso no poder aquisitivo que sofreram as aposentadorias, ocasionando que um de cada três aposentados está abaixo dessa linha de pobreza, ao mesmo tempo que tem aumentado a brecha salarial de gênero, tanto nos salários como nas aposentadorias.

Enfrentamos um ataque ideológico e estratégico que pretende que o que até pouco tempo eram direitos sejam agora negócio: a educação, a saúde, as aposentadorias, etc. Em suma, tudo aquilo que é nosso, de todos e todas, está se convertendo em dividendos para as grandes corporações empresariais. Em troca, somos forçados a resgatar bancos e estradas, pagando uma dívida que não é nossa, que é ilegítima, e que em grande parte procede da corrupção. Eles estão nos fraudando.

Desde a CGT (Confederação Geral do Trabalho) dizemos que não vamos nos resignar a que os bancos sejam mais importantes que as pessoas; desde a CGT recusamos a crescente privatização e precarização dos serviços públicos; desde a CGT não vamos permitir o desmantelamento do sistema público de aposentadorias; na CGT não aceitamos que a classe trabalhadora tenha reduzido seus direitos todos os dias com novas reformas trabalhistas.

É o momento de fazer uma divisão do trabalho reduzindo a jornada de trabalho, acabando com as horas extras e adiantando a idade de aposentaria para que todos e todas possamos ter trabalho. Há que se recuperar os serviços públicos que foram privatizados, onde a maior importância seja a eficiência dos mesmos para poder ter uma proteção social que seja pública e universal. É imprescindível distribuir a riqueza através de uma reforma fiscal que faça com que as grandes fortunas e corporações suportem a maior parte dos gastos, já que são elas que se beneficiaram com esta crise-fraude. Temos que acabar com a fraude e os paraísos fiscais.

Para a CGT a resignação não é uma opção, é o momento de ocupar novamente as ruas, é mais necessário que nunca que a CGT esteja presente ali onde realizam-se situações de injustiça social, é necessária uma mobilização permanente da CGT contra esse sistema corrupto, convocando e participando de todas as mobilizações que seja possível para conseguir uma sociedade autogestionada, antipatriarcal, ecologista, não racista nem xenófoba… libertária.

A FRAUDE CONTINUA

SEGUIMOS NAS RUAS

Viva o 1º de Maio

Fonte: http://cgt.org.es/1%C2%BA-de-mayo-hay-que-tomar-las-calles

Tradução > César Antonio Cázarez Vázquez

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Salpicados de sons
Silêncio em suspenso:
Grilos e estrelas.

Marcos Masao Hoshino

[França] Lançamento: “Um maio livre e solidário. A travessia de 68 por um jovem Argelino”, de Kadour Naimi

Uma noite, uma camarada, Édith, e eu estudávamos o pequeno livro vermelho de Mao. Subitamente, Édith me perguntou, no tom mais suave, com um sorriso terno:

– E se nós fizéssemos amor?

Eu a olhei fixamente, surpreso. De fato, nossos encontros tinham criado em nós um sentimento afetuoso. Essa camarada era bela, seu corpo delgado me agradava, seu rosto de linhas perfeitas e seus olhos marrom claro me encantavam. O tom doce de sua voz me balançava. Logo, tudo nela me encantava. Acrescente-se o que nos ligava muito forte psiquicamente: nossas ideias em comum, nossos sentimentos compartilhados.

Eu respondi ao sorriso de minha camarada com prazer, e depois declarei:

– Não temos tempo. Aquilo a que nos dispusemos deve nos servir para aprender e fazer a revolução.

Em 1968, Kadour Naimi era estudante de artes dramáticas em Estrasburgo. De volta à Argélia, ele fundou o Teatro do Mar, companhia autogerida; em 1973 ele retomou os estudos em sociologia na Bélgica; desde 1982 reside na Itália, onde se ocupa, entre outras coisas, de realizações cinematográficas e teatrais.

Un mai libre et solidaire. La traversée de 68 par un jeune Algérien

Kadour Naïmi

120 páginas

12,00 EUR

atelierdecreationlibertaire.com

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o pouso silente
da borboleta de seda
celebra a manhã

Zemaria Pinto

‘Prisioneira do nome’: quem foi Svetlana Alliluyeva, a filha de Stálin que fugiu aos EUA

por Analía Llorente

Quando morreu, ela se chamava Lana Peters. Mas, antes disso, foi Svetlana Alliuyeva. E, antes ainda, chamou-se Svetlana Iosifovna Stálin.

Svetlana foi a única filha de Josef Stálin, que governou a União Soviética de meados dos anos 1920 até sua morte em 1953. Stálin também teve dois filhos homens, mas Svetlana era a preferida do pai.

A vida de Svetlana oscilou entre a obediência e a rebeldia, o que a obrigou a enfrentar várias dificuldades.

Destacou-se por desertar aos EUA e sofreu muitas críticas por supostamente violar a memória de Stálin.

“Ela esteve à sombra do nome do pai por toda a vida”, diz Rosemary Sullivan, autora da biografia “A filha de Stálin: a extraordinária e tumultuada vida de Svetlana Alliuyeva” (em tradução livre). A obra recebeu o prêmio Plutarch de Biografia de 2016.

De acordo com Sullivan, que pesquisou sobre a vida de Svetlana durante quatro anos em vários países e entrevistou dezenas de familiares, amigos e conhecidos, a filha de Stálin era, apesar de tudo, uma lutadora.

“Era uma mulher com imaginação, apaixonada pela escrita, frustrada e prisioneira da proteção que era dada ao nome de seu pai. Mas nunca deixou de se rebelar contra isso. Sua determinação era impressionante”, contou Sullivan à BBC Mundo, o serviço em língua espanhola da BBC.

“Pequena mariposa”

Svetlana nasceu em 26 de fevereiro de 1926. Foi a filha caçula de Stálin. Herdou o cabelo ruivo e os olhos azuis de sua avó materna, Olga.

Era considerada a princesa do Kremlin, apesar de dizer que sua vida ali foi bastante modesta. Demonstrações de afeto eram raras na família, e a felicidade não reinava na casa.

Mas Stálin tinha um afeto especial por sua filha, a quem chamava de “pequeno pardal” ou “pequena mariposa”. “A única pessoa que conseguia amolecer Stálin era Svetlana”, contou uma amiga da mãe da menina, Nadya, de acordo com Sullivan.

Svetlana tinha apenas seis anos e meio quando sua mãe se suicidou – marcando um antes e um depois na vida da menina. Adulta, Svetlana chegou à conclusão de que o suicídio derivou da sensação da mãe de não ter como escapar da crueldade de seu pai.

O jogo do poder

Stálin pareceu ter entendido o impacto psicólogico sofrido por sua filha depois da morte de Nadya.

Além de chamá-la com apelidos no diminutivo, o que o líder soviético entendia ser um sinal de afeto, Stálin criou um jogo entre eles, que perdurou até que Svetlana chegasse aos 16 anos de idade.

Quando ela pedia algo ao pai, ele respondia: “por que você está pedindo? Dê uma ordem, e eu farei imediatamente”. Ela estava no comando, e ele era seu secretário.

Svetlana lhe deixava bilhetes com suas ordens pregadas na parede perto do telefone, e no escritório do líder. Outros “secretários” de menor hierarquia do Kremlin também participavam do jogo, como os ministros Lazar Kaganovich e Vyacheslav Molotov. Na verdade, eles não tinham outra opção a não ser jogar.

Os anos escolares de Svetlana coincidiram com o período do culto à personalidade de Stálin na União Soviética. Sua imagem estava por toda parte. “Lênin era nosso ídolo, e Marx e Engels nossos apóstolos”. Stálin, por sua vez, sempre tinha razão em tudo, “sem exceção”, contou Svetlana, segundo narra a biografia.

Antes de morrer em 2011, Svetlana criticou o atual presidente russo Vladimir Putin por estar, segundo ela, revivendo a prática do culto de personalidade adotada por seu pai.

Desaparição de pessoas

Svetlana lembra-se de que em sua infância não podia entender como as pessoas “simplesmente desapareciam”, sem deixar explicações.

Em 1939, o Comissariado do Povo para Assuntos Internos (NKVD) desapareceu com a babá de Svetlana, Alexandra Andreevna, por considerá-la “pouco confiável”.

Svetlana rogou ao pai que não a levassem. “Meu pai não suportava me ver chorando”, disse Svetlana em um de seus livros. “Talvez fosse a única coisa que ele não aguentasse”, analisa Sullivan.

“A vida uma pessoa podia depender inteiramente de uma palavra do meu pai”, escreveu Svetlana. De fato, durante o período stalinista, estima-se que expurgos políticos e sucessivas fomes causadas por mudanças no regime agrícola tentam resultado na morte de até 10 milhões de pessoas.

De ídolo a vilão

Stálin tinha orgulho de sua filha quando pequena. Ela se tornou uma “guerreira do comunismo”.

Já adulta, Svetlana refletiu que o comunismo soviético “exigia a censura de qualquer pensamento privado por meio da hipnose de massas”. Ela chamava a ideologia de seu pai de “mentalidade dos escravos”.

Na adolescência, Svetlana se tornou mal-humorada, ingênua e mimada, segundo a biografia.

A ingenuidade, porém, duraria pouco: aos 16 anos ela descobriu como se deu a morte da mãe. Isso a fez criar um asco profundo do pai, a quem reverenciava até então.

Quase paralelamente, Svetlana se apaixonou por Aleksei Kapler, um escritor judeu muito popular à época, e bem mais velho que ela. Pouco tempo depois, ele acabou preso.

Foi nesse momento que ela “entendeu que só seu pai poderia ter feito isso, e começou a se dar conta de quem era Stálin”, conta Sullivan à BBC.

Esses acontecimentos “estouraram a bolha” das ilusões da filha sobre Stálin. “Meus olhos se abriram e não pude voltar à cegueira”, escreveu Svetlana em 1981, de acordo com Sullivan.

A vida de casada

Depois de deixar o Kremlin, Svetlana começou a ter alguma independência.

Enquanto estudava História na Universidade de Moscou, ela conheceu Grigori Morozov, com quem se casou. Aos 19 anos, ela teve um filho, Josef.

Segundo os familiares, “Svetlana não era uma mãe carinhosa”. Os parentes também costumavam dizer que ela “nunca aprendeu o que era uma mãe”.

Svetlana e Grigori se separaram em 1947. Esse seria o primeiro de quatro divórcios e de diversos relacionamentos amorosos em sua vida.

Solidão

Depois do divórcio, Svetlana voltou a viver sob as asas de seu pai, apesar de não se relacionarem muito e não se encontrarem quase nunca. Na verdade, Stálin só conheceu o neto quanto este já tinha quatro anos de idade.

Apesar da rejeição de Svetlana ao pai, ela sempre acreditou que, de alguma forma, ele a amava, conta Sullivan.

Em 1949, Stálin pediu a ela que se casasse com Yuri Zhdanov, filho de um colaborador muito próximo do líder soviético Andrei Zhdanov, que havia morrido. Cansada de resistir aos pedidos, ela aceitou. Um ano depois nasceu a segunda filha, Katya, mas o casamento durou pouco mais que isso.

Pai mau, filha má

A vida pessoal de Stálin sempre esteve envolta em um manto de mistério e intrigas, inclusive sua lenta agonia e morte no mês de março de 1953.

Quando o pai morreu, Svetlana sentiu uma mistura contraditória de dor e alívio, e chorou em frente aos servidores de Stálin. “Eles sabiam que eu fui uma filha má e que meu pai foi um mau pai. Mas ele me amou de todas as formas, do mesmo jeito que eu o amei”, escreveu Svetlana, segundo disse Sullivan.

A solução de Svetlana para manter-se junto de seus filhos e ficar a salvo do regime soviético foi rejeitar a política e passar a viver no anonimato. O governo soviético a proibiu de falar em público sobre seu pai. Tudo que se relacionava a Stálin era propriedade do Estado, inclusive Svetlana.

Em setembro de 1957, Svetlana decidiu adotar o nome da mãe, Alliluyeva. Dizia que o som metálico de “Stálin” a entristecia.

Salva pelo amor

Apesar do anonimato, a vida amorosa de Svetlana continuava agitada. Ela via o casamento como uma espécie de escape de sua vida anterior.

Depois da morte do pai, Svetlana começou a escrever suas memórias, que ela mandaria para fora do país como forma de protegê-las do Estado soviético.

Em 1963, ela conheceu o político indiano Brajesh Singh, em Moscou. Mais uma vez, se apegou à ideia do casamento. Mas o governo não a permitiu que registrasse a união.

Singh morreria no mesmo ano. Svetlana, então, recebeu uma permissão extraordinária para levar as cinzas de seu falecido amante à Índia.

Ela veria seus filhos pela última vez em 1966. Josef tinnha então 18 anos, e Katya, 16.

O sonho americano

Uma vez na Índia, Svetlana acabou se apaixonando pelo país. O filho de Singh, que então trabalhava na cidade americana de Seattle, sugeriu a ela que viajasse para os Estados Unidos, com a finalidade de obter a cidadania americana e poder, assim, voltar à Índia mais tarde.

Silenciosamente, Svetlana começou a sonhar com essa possibilidade.

Em um impulso, ela entrou na embaixada americana em Nova Déli e anunciou que tinha a intenção de desertar da União Soviética. Isso ocorreu no dia 6 de março de 1967.

Naquele momento, o governo dos Estados Unidos sequer sabia que Stálin tinha uma filha.

O momento da chegada de Svetlana não poderia ser pior. Em outros períodos da Guerra Fria, ela poderia ter se tornado uma ferramenta de propaganda valiosa para os Estados Unidos. Mas em 1967, os dois países estavam num momento de distensão: negociavam até a construção de embaixadas.

Foram horas decisivas, nas quais decisões precisavam ser tomadas rapidamente para não levantar suspeitas sobre a ausência de Svetlana.

Um oficial da CIA, a agência de inteligência dos EUA, foi encarregado de levar Svetlana aos EUA. O agente, Roberto Rayle, se tornaria um grande amigo da filha de Stálin até o fim da vida dela.

A deserção de Svetlana em companhia de um agente da CIA foi notícia em todo o mundo.

Para os soviéticos, Svetlana foi a desertora mais significativa do regime.

Se Stálin estivesse vivo, teria sido executado como castigo. Mas naquele momento o pai de Svetlana já estava morto há 14 anos, frisa Sullivan.

Vida nova

Svetlana chegou aos Estados Unidos no dia 21 de abril de 1967 e se tornou escritora.

Em pouco tempo, os ganhos com a publicação de seu primeiro livro, Vinte cartas, a tornaram milionária. Ela doou grande parte de sua fortuna a organizações de caridade, inclusive um hospital na Índia com o nome de Brajesh Singh.

Enriquecer foi talvez o pior destino, analisa Sullivan, pois várias pessoas se aproximaram dela nos EUA atrás do dinheiro.

Além disso, o governo soviético tentava vender a ideia de que Svetlana tinha sido sequestrada. Não podia aceitar que ela havia fugido livremente, diz a escritora.

“Não podem crer que um indivíduo, uma pessoa, um ser humano, possa tomar uma decisão por si mesmo… Quando veem que todo o trabalho que tiveram durante 50 anos foi em vão e que as pessoas ainda têm vontade própria, se enfurecem muito”, disse ela em entrevista a jornalistas nos Estados Unidos, em 1967.

Nem tudo que reluz é ouro

Svetlana passou do silêncio total da União Soviética a um país onde existia imprensa livre – na qual sua vida era discutida.

“As pessoas acreditam mais nas mentiras ditas sobre mim do que no que eu escrevo ou digo. O nome do meu pai é muito odiado, e eu vivo embaixo de sua sombra”, disse Svetlana, segundo a biografia.

Nos EUA, Svetlana criticava o governo soviético, as decisões de seu pai e as ideias do líder soviético Vladimir Lênin.

“Lênin foi o fundador de um sistema baseado num partido, no terror e na supressão dos desertores… todos os esforços para melhorar a imagem de Lênin e transformá-lo num santo são inúteis”, disse ela.

Esse tipo de declaração irritou o governo da URSS, que em 1969 retirou dela a cidadania soviética e a condenou por “má conduta e por difamar a cidadania”, algo que seu próprio pai havia tornado crime em 1938.

Mudança constante

A busca de Svetlana por amor não morreu quando ela deixou a União Soviética.

Em abril de 1970, ela se casou novamente, dessa vez com o prestigiado arquiteto americano Wesley Peters. A união ocorreu três semanas depois de eles se conhecerem. Svetlana mudou de nome novamente para Lana Peters, e os dois tiveram uma filha, Olga, em 1971.

“Sem Olga, Svetlana provavelmente não teria sobrevivido”, disse Sullivan à BBC Mundo.

Svetlana matriculou Olga em uma escola privada. Não queria ter contato com a educação pública nem com nada que tivesse a ver com o Estado.

Essa era também a desculpa dela para mudar de cidade frequentemente. Na realidade, porém, ela tinha medo de estar sendo seguida.

“Em qualquer lugar que eu vá, seja a Austrália ou alguma pequena ilha, sempre serei uma prisioneira política do nome do meu pai”, escreveu Svetlana a uma amiga em 2009, segundo destacou Sullivan no livro.

Em 1978 a filha de Stálin conseguiu a cidadania americana. Já divorciada de Peters, mudou-se com a filha Olga para a cidade de Princeton, em Nova Jersey.

Mesmo assim, Svetlana começou a notar que havia um forte sentimento anti-soviético nos EUA, e que as colegas de sua filha nunca a convidavam para qualquer evento. “Será que Olga também viverá debaixo da sombra do avô?”, perguntava-se ela.

Em busca de oportunidades para sua carreira de escritora, e pensando na educação de Olga, Svetlana mudou-se com a filha para a Inglaterra, em 1981.

Uma ligação inesperada

Já no Reino Unido, Svetlana recebeu uma ligação de seu filho Josef, que estava doente e queria vê-la.

Ela decidiu então voltar à União Soviética, sem se preocupar com o fato de que a visita poderia criar um novo incidente diplomático.

Por meio de um decreto, a Corte Suprema soviética (o tribunal de última instância do país) lhe devolveu a cidadania. O regime também confiscou os passaportes americanos dela e de sua filha Olga.

Quando pisou em solo soviético em 1984, Svetlana disse apenas que chegara “para reunir-me com meus filhos”.

Para o governo soviético, o retorno da filha errante de Stálin representava uma peça de propaganda. A imprensa do mundo todo a questionou sobre a decisão. Mas, mais uma vez, nada saiu como ela esperava.

O encontro com Josef foi marcado pela frieza, e ela nunca voltaria a ver Katya. Sentiu-se perdida mais uma vez.

Além disso, Olga nunca seria bem aceita na União Soviética, e a própria Svetlana se transformaria numa espécie de troféu da propaganda do regime ou em uma pária, analisa Sullivan.

Svetlana começou a acreditar que o regresso tinha sido um erro terrível.

“Ela é a filha de Stálin. E, na verdade, já está morta. Não pode viver sua própria vida. Não pode viver qualquer vida. Só existe em referência a um nome”, disse sobre si própria Svetlana em uma entrevista recuperada por Sullivan.

Nova fuga

Em dezembro de 1984, depois de uma breve passagem pela Geórgia e uma internação por um problema de saúde, Svetlana e Olga conseguiram sair novamente da URSS. Svetlana, que já tinha 60 anos, voltou aos EUA. Olga foi para a Inglaterra.

Nessa época, as dificuldades financeiras da família aumentaram. Por algum tempo, Svetlana recebeu dinheiro cuja origem desconhecia, mas suspeitava que era da CIA. “Nunca fui espiã de ninguém e não posso viver da caridade da CIA”, disse ela em uma entrevista.

Sem oportunidades nos EUA, ela decidiu tentar a sorte no mercado editorial da França, também sem sucesso. Acabou voltando para a Inglaterra, onde morou em vários albergues.

Em 1991, Svetlana tentou suicídio, mas falhou.

A última mudança

Aos 71 anos, Svetlana decidiu voltar a morar nos EUA, em Wisconsin.

Temia ser deportada ou que, depois de sua morte, seu corpo fosse levado à Rússia. Contratou inclusive um advogado para garantir que seu filho Josef não tivesse acesso aos seus restos mortais.

Em 2011, foi diagnosticada com câncer terminal. Morreu em em 22 de novembro de 2011, aos 85 anos. Sua filha Olga, que mudou de nome para Chrese Evans, jogou as cinzas no oceano Pacífico.

“Vivi minha vida como pude (…) mas houve uma fatalidade. Você não deve reclamar do próprio destino, mas lamento que a minha mãe não tenha se casado com um carpinteiro”, disse ela a um jornal britânico em 1990.

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/internacional-42912781

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um gatinho
um pulo
a borboleta!

Rogério Martins

O ‘anti-imperialismo’ dos idiotas

por Leila Al Shami | 14 de abril de 2018

Uma vez mais, o movimento “antiguerra” ocidental se despertou para mobilizar-se em torno da Síria. Esta é a terceira vez desde 2011. A primeira foi quando Obama contemplou atacar a capacidade militar do regime sírio (mas não o fez) após os ataques químicos em Ghuta em 2013, considerados uma ‘línha vermelha’. A segunda vez foi quando Donald Trump ordenou um ataque que atingiu uma base militar vazia em resposta aos ataques químicos contra Khan Sheikhun em 2017. E hoje, quando os Estados Unidos, o Reino Unido e a França tomam medidas militares limitadas (ataques seletivos contra os ativos militares do regime e instalações de armas químicas) depois de um ataque com armas químicas em Duma que matou ao menos 34 pessoas, incluídos muitos menores que se refugiavam dos bombardeios nos porões.

O primeiro que devemos ressaltar das três principais mobilizações da esquerda “antiguerra” ocidental é que tem pouco que ver com que se acabe a guerra. Mais de meio milhão de sírios foram assassinados desde 2011. A grande maioria das mortes de civis se produziram mediante o uso de armas convencionais e 94% destas vítimas foram assassinadas pela aliança sírio-russa-iraniana. Não há indignação nem se finge preocupação por esta guerra, que seguiu à brutal repressão do regime contra manifestantes pacíficos e em favor da democracia. Não há indignação quando se lançam bombas de barril, armas químicas e napalm em comunidades democraticamente auto-organizadas ou em hospitais e trabalhadores de resgate. Os civis são prescindíveis; as capacidades militares de um regime genocida e fascista não o são. De fato, o lema “Mãos fora da Síria” realmente significa “Não tocar Assad” e geralmente se brinda apoio para a intervenção militar da Rússia. Isto foi evidente ontem em uma manifestação organizada por Stop the War UK, onde se exibiram vergonhosamente várias bandeiras do regime e russas.

Esta esquerda mostra tendências profundamente autoritárias, aquela que coloca aos próprios estados no centro da análise política. Portanto, a solidariedade se estende aos estados (vistos como o ator principal na luta pela liberação) em lugar de grupos oprimidos ou desfavorecidos em qualquer sociedade, sem importar a tirania desse estado. Cegos à guerra social que ocorre dentro da Síria, os sírios (ali onde existam) são vistos como simples peões em um jogo de xadrez geopolítico. Repetem o mantra ‘Assad é o governante legítimo de um país soberano’. Assad, que herdou uma ditadura de seu pai e nunca realizou, e muito menos ganhou, uma eleição livre e justa. Assad, cujo “exército árabe sírio” só pôde recuperar o território que perdeu graças ao respaldo de uma miscelânea de mercenários estrangeiros e com o apoio de bombas estrangeiras, e que estão lutando, em geral, contra rebeldes e civis nascidos na Síria. Quantos considerariam legítimo a seu próprio governo eleito se começassem a realizar campanhas de violação em massa contra os dissidentes? Tal posição só é possível pela desumanização completa dos sírios. É um racismo que vê aos sírios como incapazes de conseguir, e muito menos de merecer, algo melhor que uma das ditaduras mais brutais de nosso tempo.

Para esta esquerda autoritária, o apoio se estende ao regime de Assad em nome do “anti-imperialismo”. Assad é visto como parte do “eixo de resistência” tanto contra o império estadunidense como contra o sionismo. Pouco importa que o próprio regime de Assad tenha apoiado a primeira guerra do Golfo, ou tenha participado no programa de entregas ilegais dos Estados Unidos onde os supostos terroristas foram torturados na Síria em nome da CIA. O fato de que este regime provavelmente tenha a duvidosa distinção de massacrar a mais palestinos que o estado israelense é constantemente ignorado, como o é o fato de que está mais decidido a utilizar suas forças armadas para reprimir a dissidência interna que a liberar o Golã ocupado por Israel.

Este ‘anti-imperialismo’ de idiotas é um que equipara o imperialismo somente com as ações dos Estados Unidos. Parecem ignorar que os Estados Unidos bombardeou a Síria desde 2014. Em sua campanha para liberar Raqqa do Daesh, abandonaram todas as normas internacionais de guerra e considerações de proporcionalidade. Mais de 1.000 civis foram assassinados e a ONU estima que 80 por cento da cidade é agora inabitável. Não houve protestos contra esta intervenção de parte das organizações que dirigem o movimento contra a guerra, nem chamadas para assegurar a proteção dos civis ou da infraestrutura civil. Ao invés disso, adotaram o discurso da “Guerra contra o Terrorismo”, outrora domínio dos neoconservadores e agora promulgada pelo regime, de que toda oposição a Assad é terrorismo jihadista. Fizeram vista grossa quando Assad enchia seu gulag com milhares de manifestantes seculares, pacíficos e pró-democracia para matá-los por tortura, enquanto liberava militantes islamistas do cárcere. Do mesmo modo, ignoraram os contínuos protestos em áreas opositoras liberadas contra grupos extremistas e autoritários como Daesh, Nusra e Ahrar Al Sham. Não se considera que os sírios possuam a sofisticação necessária para ter uma ampla gama de opiniões. Os ativistas da sociedade civil (incluídas muitas mulheres surpreendentes), os jornalistas cidadãos e os trabalhadores humanitários são irrelevantes. Toda a oposição se reduz a seus elementos mais autoritários ou é vista como um mero correio de transmissão de interesses estrangeiros.

Esta esquerda pró-fascista parece cega a qualquer forma de imperialismo que não seja de origem ocidental. Combina a política identitária com o egoísmo. Tudo o que acontece se vê através do prisma do que significa para os ocidentais: só os homens brancos têm o poder de fazer história. Segundo o Pentágono, atualmente há ao redor de 2.000 tropas estadunidenses na Síria. Pela primeira vez na história da Síria, os Estados Unidos estabeleceu uma série de bases militares no norte controlado pelos curdos. Isto deveria preocupar a quem quer que apoie a autodeterminação síria, ainda que seja pouco em comparação com dezenas de milhares de tropas iranianas e milícias xiitas respaldadas pelo Irã que agora ocupam grande parte do país, ou os criminosos bombardeios realizados pela força aérea russa em apoio à ditadura fascista. Agora, a Rússia estabeleceu bases militares permanentes no país e lhes outorgaram direitos exclusivos sobre o petróleo e o gás da Síria como recompensa por seu apoio. Noam Chomsky uma vez sustentou que a intervenção da Rússia não podia ser considerada imperialismo porque foi convidada a bombardear o país pelo regime sírio. Segundo essa análise, a intervenção dos Estados Unidos no Vietnã tampouco foi imperialista, convidada como o foi pelo governo sul vietnamita.

Várias organizações pacifistas justificaram seu silêncio sobre as intervenções russas e iranianas argumentando que “o inimigo principal está em casa”. Isto os desculpa de empreender qualquer análise de poder séria para determinar quem são realmente os principais atores que impulsionam a guerra. Para os sírios, o principal inimigo está realmente em casa: é Assad o que comete o que a ONU chamou ‘crime de extermínio’. Sem ser conscientes de suas próprias contradições, muitas das mesmas vozes se proclamaram opostas (e com razão) ao ataque atual de Israel contra manifestantes pacíficos em Gaza. Claro, uma das principais formas em que funciona o imperialismo é negar as vozes autóctones. E assim, as principais organizações ocidentais contra a guerra fazem conferências na Síria sem convidar a nenhum palestrante sírio.

A outra tendência política mais importante por ter apoiado o regime de Assad e organizar-se contra os ataques dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França contra a Síria é a extrema-direita. Hoje, o discurso dos fascistas e estes “esquerdistas anti-imperialistas” é praticamente indistinguível. Nos Estados Unidos, o supremacista branco Richard Spencer, o produtor de podcasts da direita alternativa (alt-right) Mike Enoch, e a ativista anti-imigração, Ann Coulter, se opõem aos ataques norte-americanos. No Reino Unido, o ex-líder do BNP (Partido Nacional Britânico), Nick Griffin, e a islamófoba Katie Hopkins se unem ao clamor. O lugar onde convergem com frequência o alt-right e o alt-left (esquerda alternativa) é em torno à promoção de várias teorias de conspiração para absolver o regime de seus crimes. Afirmam que as matanças químicas são bandeiras falsas ou que os trabalhadores de proteção civil são Al Qaeda e, portanto, objetivos legítimos de ataques. Aqueles que difundem tais informes não estão no terreno na Síria e não podem verificar independentemente o que reclamam. Geralmente dependem dos meios estatais de propaganda russos ou de Assad porque “não confiam na mídia” ou nos sírios diretamente afetados. As vezes, a convergência destas duas correntes aparentemente opostas do espetro político se converte em uma colaboração aberta. É o caso da coalizão ANSWER, que está organizando muitas das manifestações nos Estados Unidos contra um ataque a Assad. Com frequência, ambas as linhas promovem narrativas islamofóbicas e antissemitas. Ambos compartilham os mesmos argumentos e os mesmos memes.

Existem muitas razões válidas para opor-se à intervenção militar externa na Síria, seja por parte dos Estados Unidos, da Rússia, do Irã ou da Turquia. Nenhum destes estados está atuando no interesse do povo sírio, da democracia ou dos direitos humanos. Atuam unicamente por seus próprios interesses. Hoje, a intervenção dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França não pretendem tanto proteger os sírios das atrocidades massivas mas sim fazer cumprir uma norma internacional de que o uso de armas químicas é inaceitável, por temor a que algum dia se utilizem contra os próprios ocidentais. Mas bombas estrangeiras não trarão paz nem estabilidade. Há pouca intenção de expulsar Assad do poder, o que contribuiria para terminar com a pior das atrocidades. No entanto, ao opor-se à intervenção estrangeira, alguém tem que encontrar uma alternativa para proteger os sírios da matança. É no mínimo moralmente repreensível, esperar que os sírios calem e morram para proteger o princípio superior do “anti-imperialismo”. Os sírios propuseram muitas vezes alternativas à intervenção militar estrangeira, que foram ignoradas. E então fica a pergunta, quando as opções diplomáticas falharam, quando um regime genocida está protegido da censura por poderosos apoios internacionais, quando não se consegue deter os bombardeios diários, pôr fim aos cercos por inanição ou liberar os prisioneiros torturados em escala industrial, o que se pode fazer?

Não tenho respostas. Sempre me opus a toda intervenção militar estrangeira na Síria, apoiei o processo liderado pela Síria para livrar seu país de um tirano e respaldei procedimentos internacionais baseados em esforços para proteger os civis e os direitos humanos e garantir a prestação de contas de todos os atores responsáveis de crimes de guerra. Um acordo negociado é a única maneira de terminar esta guerra e isso ainda parece tão distante como sempre. Assad (e seus protetores) estão decididos a frustrar qualquer processo, buscar uma vitória militar total e esmagar qualquer alternativa democrática que sobreviva. Centenas de sírios estão sendo assassinados todas as semanas da maneira mais bárbara imaginável. Os grupos extremistas e as ideologias estão prosperando no caos criado pelo Estado. Os civis continuam fugindo de milhares a medidas que se implementam como mecanismos legais. Como a Lei Nº 10, para garantir que nunca regressarão a seus lares. O sistema internacional em si mesmo está em colapso sob o peso de sua própria impotência. As palavras ‘Nunca mais’ soam ocas. Não há um movimento popular importante que se solidarize com as vítimas. Ao contrário, são caluniados, seu sofrimento é negado ou objeto de burla, e suas vozes, ausentes dos debates ou postas em dúvida por pessoas que estão longe, que não sabem nada da Síria, da revolução ou da guerra, e que arrogantemente creem que sabem o que é melhor. É esta situação desesperada a que faz com que muitos sírios deem as boas-vindas à ação dos Estados Unidos, Reino Unido e França, e que agora veem a intervenção estrangeira como sua única esperança, apesar dos riscos que sabem que isso implica.

Uma coisa é certa: não vou perder o sono pelos ataques dirigidos contra as bases militares do regime e as fábricas de armas químicas que podem proporcionar aos sírios um breve respiro da matança diária. E nunca serei uma aliada daqueles que põem os discursos rimbombantes acima das realidades vividas, que apoiem regimes brutais em países longínquos, ou que promovam o racismo, as teorias da conspiração e a negação das atrocidades.

> Leila Al Shami é uma ativista síria britânica que luta pelos direitos humanos e justiça social na Síria e no Oriente Médio desde 2000. Ela foi membro fundadora da rede Tahrir-ICN, ligada às lutas antiautoritárias em todo Oriente Médio, Norte da África e Europa.

Fonte: https://leilashami.wordpress.com/2018/04/14/the-anti-imperialism-of-idiots/

Tradução > Sol de Abril

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