Lima Barreto é bom remédio para nossa enxaqueca republicana e democrática, diz Lilia Schwarcz

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Por Néli Pereira

Se estivesse vivo, o escritor Lima Barreto (1881-1922) talvez fizesse piada com o 7 x 1 da Alemanha sobre o Brasil ou destilando sarcasmo ao comentar a crise política nacional. Sua picardia, a qualidade de sua prosa, suas críticas aos estrangeirismos e à qualidade do funcionalismo público e sua literatura de temática racial não poderiam estar mais atuais, defende a historiadora Lilia Moritz Schwarcz.

Autora de uma recém-lançada biografia do autor, Lima Barreto – Triste Visionário, publicada pela Companhia das Letras, ela navega pela história do personagem para desaguar em um tratado sobre uma “certa história do Brasil”.

Vítima de um grave alcoolismo, que o levou a duas internações manicomiais, Lima Barreto teve sua obra silenciada por muito tempo, já que conseguiu desagradar a toda elite cultural e econômica nacional no início do século passado.

Revisitado política e literariamente, ele é o tema da Flip (Feira Literária de Paraty) deste ano, que acontece entre esta quarta-feira e o domingo. “Essa é a Flip da crise. Tinha que ser o Lima Barreto para ser uma edição mais marginal, que vai ser menor, não vai ter tenda, tem que ser na Igreja, enfim. Parece que o Lima desestabiliza até na Flip, quando chega a vez dele é diferente”, disse Schwarcz à BBC Brasil.

Veja a seguir os principais trechos da conversa com a historiadora.

BBC Brasil – A biografia do Lima Barreto sucede seu livro Brasil: Uma Biografia. As duas obras têm algo em comum?

Lilia Schwarcz – Sim. O Lima Barreto teve uma biografia fundamental, do Francisco de Assis Barbosa, de 1951. Mas eu queria outro Lima – que era vítima sim, mas que tinha protagonismo. E eu queria inquerir o tema racial e a questão de gênero – essas são questões da nossa geração, e não podia cobrar isso do Francisco de Assis. Minha geração é que tem convivido com as questões dos direitos civis, das diferenças.

Eu lia Lima Barreto havia muito tempo, já identificava isso e é uma história do Brasil, é uma certa história do Brasil. Quando eu fiz o Brasil: Uma Biografia, muito influenciada pela minha pesquisa, a gente dizia que um dos pilares da história do Brasil é a questão racial, que ainda é uma grande invisibilidade hoje no Brasil.

Para você ter uma ideia, quando eu lancei Brasil: Uma Biografia, não poucos jornalistas me falavam “poxa vida, nunca tinha pensado na história do Brasil sobre esse ângulo”. E foi o último país a abolir a escravidão, recebemos 45% dos africanos que foram forçados a sair do seu território, então é um espanto. Eu quero contar a história do Brasil a partir da janela do Lima Barreto.

BBC Brasil – Além de ser atual pela questão do gênero, de raça, há na obra dele uma decepção com os políticos, presente atualmente também. Como aborda isso?

Schwarcz – Eu começo o livro com uma citação que diz que “O Brasil é uma grande comilança – comem os políticos, os jornalistas, comem os juristas”. Você lê aquilo e a sensação que te dá é um dèjá vu. Ela cobre a corrupção da República, cobre o mau uso da res pública a partir de interesses privados. E faz uma crítica feroz aos políticos, chega a dizer “à República do Brasil falta dignidade”.

Então ele cobra um Brasil mais inclusivo, mais justo, mais igualitário – problemas que estamos vivendo até hoje. São temas que ele viveu no pós-abolição e que vivemos ainda nessa mesma República falhada que padece com os problemas de corrupção, mas não só disso: de racismo, homofobia. São questões que estão na pauta de Lima Barreto, e que estão na nossa agenda.

BBC Brasil – E ele faz isso com um humor ácido…

Schwarcz – A gente tem esse jeito tão brasileiro de rir da desgraça. Me lembro do 7 x 1 contra a Alemanha, que assim que o jogo terminou comecei a receber mensagens tirando sarro disso, e o Lima tem um pouco disso – muito crítico, muito mordaz, mas ao mesmo tempo muito bem humorado.

As histórias dele sobre o funcionalismo público são de matar de dar risada – ele diz que “você mede a qualidade de um bom funcionário público pela quantidade de vezes que ele abre as gavetas, ou que ele aponta o lápis”. E ele tá lá, é funcionário público.

É uma blague que tem a ver com esse modernismo carioca, que durante muito tempo ficou fora da agenda, fora do compasso dos modernismos, e que era um modernismo boêmio e bem humorado.

Era crítico de idealizações do país, era uma literatura crítica, de contestação. E ele faz uma crítica aos estrangeirismos. E teve uma recepção desastrosa na época, como você pode imaginar.

BBC Brasil – Desastrosa porque era crítica às elites ou porque já era racialmente engajada?

Schwarcz – Quando eu digo que o Lima Barreto merece mais do que (ser) a vítima, é porque ele tinha um projeto literário, de inserção. E fazer uma literatura negra, afrodescendente, era grave nessa época. Porque era um tema entre muitas aspas, as pessoas achavam desagradável, era melhor não falar disso.

E a gente sabe que naquela época, quem fazia sucesso, virava branco. Tanto nas fotos como na cor. Temos cor social.

No próprio manicômio, ele foi internado como branco e depois, como pardo. Essa é a régua da cor no Brasil. Eu tentei provar no livro que ele trazia esse tema, ele descreve a cor dos personagens de uma forma minuciosa, ele próprio se chamava de azeitona escura.

Para você ter um autor que diz que negro é a cor mais cortante no Brasil – não tem ingenuidade nisso. Ninguém queria falar desse tema.

BBC Brasil – Lima ajudou a impulsionar uma literatura afrodescendente?

Schwarcz – Ele morreu em 1922, aos 41 anos e com a obra muito silenciada. Depois da Nigéria, o Brasil é o maior país de população negra e africana e somente agora começam a aparecer expoentes da literatura negra, afrodescendente.

E eu não chamo de literatura negra quem nasceu negro, não é uma questão de origem, é uma opção – no Lima Barreto é um projeto literário.

E agora sim, para esse tipo de literatura, o Lima Barreto é sempre lembrado e vai continuar a ser lembrado. E ele nunca esteve tão atual.

BBC Brasil – E pode ser inspirador para esse momento de apatia?

Schwarcz – Lima Barreto é um bom autor para a gente pensar as nossas falácias da democracia e da República. Ele vivia acusando as nossas instituições – a gente anda dizendo que as nossas instituições estão fortes, eu não vejo como. É só um ritual vazio que anda forte, e não as instituições.

E ele falava mal do presidente, do deputado, ele é crítico dos discursos vazios. Ele é um bom remédio para nos curar da nossa enxaqueca republicana e democrática. É um autor que provoca, que não estabiliza.

Exatamente, depois das manifestações, dos panelaços, a gente entrou em um período de apatia. E o período pede de nós – como diria o poeta – vigilância. E não apatia. E o Lima Barreto era muito vigilante, e incômodo na sua vigilância. Ele é bom para nós neste momento.

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-40514293

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Manchas de tarde
na água. E um vôo branco
transborda a paisagem.

Yeda Prates Bernis

Protestos no Canadá marcam aniversário da perseguição ao Falun Gong

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Os praticantes da disciplina espiritual exigem a libertação de cidadã canadense na China

Esta semana também no Canadá e em todo o mundo, milhares de pessoas estão se reunindo em frente às embaixadas e consulados chineses para marcar os 18 anos desde que o Partido Comunista Chinês lançou uma campanha de violência e ódio para “erradicar” a disciplina espiritual Falun Gong, também chamada Falun Dafa.

“A perseguição do Partido Comunista Chinês ao Falun Gong ainda está em andamento. Atualmente, há 12 praticantes do Falun Gong com laços canadenses que estão sendo ilegalmente mantidos na China”, disse a porta-voz da Associação do Falun Dafa de Vancouver, Sue Zhang, em uma manifestação fora da Vancouver Art Gallery em 16 de julho.

Além de discursarem e organizarem marchas e vigílias a luz de velas exigindo o fim da perseguição, os adeptos do Falun Gong estão buscando ajuda do governo canadense para libertar da prisão na China seus colegas praticantes. Entre eles, uma cidadã canadense, Sun Qian, que está detida em Pequim desde fevereiro.

Prisioneira de consciência canadense abusada na China

Sun, uma empresária chinesa-canadense de 51 anos e residente em Vancouver, está atualmente no I Centro de Detenção de Pequim, onde foi encarcerada, algemada a uma cadeira de aço, é diariamente alvejada por spray de pimenta com salmoura no rosto e agora pode ser indiciada por sua fé.

Apesar dos apelos por sua libertação terem sido feitos por vários funcionários canadenses de alto nível, incluindo os deputados conservadores do Parlamento, Peter Kent e Michael Cooper, o ex-ministro da Justiça liberal, Irwin Cotler, e Elizabeth May, líder do Partido Verde, ela continua presa.

Os praticantes canadenses do Falun Gong continuam a nutrir a esperança de que Sun seja liberada como resultado de uma voz forte das autoridades eleitas.

Quando o ex-líder chinês Jiang Zemin iniciou a perseguição em 20 de julho de 1999, o Canadá era, de fato, o primeiro país a condenar publicamente a perseguição. “O Canadá apresentou um requerimento oficial ao Ministério das Relações Exteriores da China depois de 30.000 adeptos do Falun Gong terem sido detidos em 30 cidades da China, disseram fontes”, informou The Globe and Mail em 26 de julho de 1999.

Xun Li, presidente da Associação do Falun Dafa do Canadá, com sede em Ottawa, também lembrou que foi a voz forte das autoridades eleitas, juntamente com a contínua cobertura da mídia, que ajudou a garantir a libertação de Zhang Kunlun, que acredita-se haver sido o primeiro canadense preso na China por praticar Falun Gong.

Zhang é um ex-professor visitante da Universidade McGill de Montreal. Ele foi preso em 2000 e enviado a um campo de trabalho forçado por três anos, mas foi liberado em janeiro de 2001, pouco antes da missão comercial do primeiro ministro Jean Chrétien na China.

Enquanto estava sob custódia na China, o professor foi submetido a abusos, incluindo tortura com bastões elétricos. Ele também foi forçado a assistir a transmissões de propaganda de ódio vilipendiando o Falun Gong.

“A China temia ser exposta [por suas violações dos direitos humanos], porque o professor Zhang é cidadão canadense”, disse Li.

Matança em larga escala por órgãos dos prisioneiros

Falun Gong é uma prática de meditação e exercícios herdada da antiga China que inclui ensinamentos baseados nos princípios universais de verdade, compaixão e tolerância. Em julho de 1999, o regime comunista chinês ordenou uma perseguição e uma extensa campanha de propaganda de ódio contra o Falun Gong devido à popularidade da prática, que não estava sob o controle do Estado.

“[O Partido Comunista iniciou] o pior caso de perseguição religiosa desde a Revolução Cultural, com a repressão contra o Falun Gong”, escreveu o professor André Laliberté, da Universidade de Ottawa, um destacado estudioso sobre religião na China, em um artigo em 2015.

A perseguição obteve a condenação de grupos de direitos humanos, Nações Unidas e vários governos em todo o mundo.

Sue Zhang citou um relatório da Freedom House de fevereiro de 2017 que detalha como os adeptos do Falun Gong continuam sujeitos a severas violações de direitos humanos. E o relatório mais recente da Comissão Executiva do Congresso dos Estados Unidos de 2016 indica como o abuso físico e psicológico extremo perdura contra o Falun Gong.

Também há relatórios de investigadores, incluindo dois pesquisadores canadenses, que estimam que 60.000 a 100.000 transplantes por ano são realizados na China ─ em oposição aos dados oficiais de 10.000 por ano. Os documentos constaram ainda serem a fonte primária os detentos do Falun Gong, com seus órgãos removidos à força e sendo mortos no processo, para abastecer a extremamente lucrativa indústria de transplantes da China.

Freedom House observou que havia analisado as evidências disponíveis compiladas por esses pesquisadores e “encontrou evidências credíveis sugerindo que, no início dos anos 2000, os detentos do Falun Gong foram mortos por seus órgãos em larga escala”. “Há razões para acreditar que tais abusos continuam”, afirmou o relatório.

Princípios morais

Na reunião de Vancouver, Li Jianfeng, ex-juiz na China continental, elogiou os princípios ensinados por Falun Gong e pediu maior apoio à prática espiritual no Canadá.

“Eu telefono para todos os vancouvenhos para apoiar o Falun Gong”, disse Li. “O que se espalha é ‘verdade, compaixão e tolerância’. Estes princípios morais de alto nível, se puderem florescer no Canadá, nos trarão bênçãos e um bom futuro.”

Após a atividade em 16 de julho, os praticantes e simpatizantes de Vancouver realizaram em 19 de julho uma marcha no centro da cidade uma vigília à luz de velas em frente ao consulado chinês. Eventos são planejados em outras cidades canadenses no final desta semana, inclusive em Ottawa e Montreal e em Toronto, no dia 21 de julho.

Fonte: https://www.epochtimes.com.br/protestos-canada-marcam-aniversario-perseguicao-falun-gong/#.WXaDxITyu1t

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/03/17/a-historia-das-viagens-de-genocidas-chineses-a-cuba/

agência de notícias anarquistas-ana

Infância no campo
brincava nas plantações.
Bonecas de milho.

Leila Míccolis

A horripilante galeria fotográfica da vida cotidiana dos neonazis europeus

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Um fotógrafo italiano retratou durante cinco anos os encontros de grupos de extrema-direita em cinco países

O fotógrafo italiano Paolo Marchetti documentou durante cinco anos a vida cotidiana e as atividades sociais dos grupos neonazis que crescem em cinco países europeus: Itália, Alemanha, Espanha, Hungria e Finlândia.

Batizou sua reportagem fotográfica como “Febre”, e assim o explicou: “São países bem diferentes mas em todos encontrei os mesmos sentimentos: ira e o medo que atua como um germe que vai contagiando a todos a seu redor. Como a febre”.

“Devemos recordar que o medo é um instrumento político. O medo camuflado em valores como o salvamento, ou o medo de ser invadido e a necessidade de nos defendermos, o medo como uma pré condição para a manipulação política. Estas são as considerações que devemos levar em conta antes de sermos infectados por esta febre”.

Mais fotos: http://www.infobae.com/america/fotos/2017/03/06/la-escalofriante-galeria-fotografica-de-la-vida-cotidiana-de-los-neonazis-europeos/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Cresce a erva do tempo, devagar,
brota do chão
e me devora.

Thiago de Mello