[França] Falece Martín Arnal Mur, libertário, coletivista e guerrilheiro antifascista aragonês

Martín Arnal seguia participando na difusão de suas ideias anarquistas e era um dos poucos testemunhos vivos dos tempos da guerra de 1936. No próximo 12 de novembro teria completado 100 anos. Faleceu esta quinta-feira (21/10) na França.

Nascido em Angües (comarca de A Plana de Uesca) em 12 de novembro de 1921 dentro de uma família de lavradores filiada à CNT de Aragão e com poucos recursos, Martín Arnal Mur foi o sexto de dez irmãos. Aos 12 anos começou a trabalhar como criado de uma família de Bespén. Aos 15 participou ativamente na coletividade agrária de Angües para recuperar as colheitas que se perdiam depois do golpe de estado do general Franco. Era irmão de dois militantes do grupo ‘Bakunin’ da FAI, José e Román, que foram fuzilados em Uesca no começo da guerra. Em março de 1938, com 16 anos, foi mobilizado pelo governo republicano à frente oscense, para participar na construção de fortificações e trincheiras em Monflorite.

Após o avanço das tropas franquistas fugiu para a França andando desde Angües passando por Balbastro, Graus e Benás. O governo francês o levou em trem ao campo de refugiados de Angoulème junto com outros antifascistas aragoneses e espanhóis. Saiu dali antes de ser deportado a Mauthausen, tal e como aconteceu aos que ali ficaram, apesar de que os alemães advertiram de suas intenções ao governo de Franco em reiteradas ocasiões. Regressou ao Estado espanhol por Cerbère em fevereiro de 1939. Mas em seguida teve que voltar a França após “a Retirada”.

Esteve em Perpinyà / Perpignan, em um campo custodiado pela cavalaria francesa e dali passou ao campo de concentração de Argelès-sur-Mer onde foi recrutado pelo exército francês. Trabalhou em um campo de tiro de Burge onde faziam provas com armamento, eles tinham que situar-se próximo de onde iriam explodir os obuses para comprovar que funcionavam bem. Ali esteve durante sete meses. Na França participou na Resistência, na reorganização clandestina da CNT e nas operações de penetração no Estado espanhol. Em princípios de 1944, Martín se encarregava de vigiar a fronteira e reconhecer o terreno para a passagem de guerrilheiros pela zona do Sobrarbe. Em novembro daquele ano teve que escapar de noite pelo assédio da Guarda Civil em Saravillo.

Ao terminar a Segunda Guerra Mundial foi desmobilizado do exército francês, em março de 1945, e ficou vivendo na França. Trabalhou cortando lenha, nos caminhos de ferro, na construção como pedreiro. Em Rebastens conheceu Ángela Salas González. Ela procedia de uma família que emigrou à França desde Almería por motivos econômicos depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e trabalhava no campo. Casaram-se em 1949 e a partir daí fez sua vida nesta localidade francesa trabalhando de pedreiro até sua aposentadoria aos 63 anos. Tiveram um filho e duas filhas. Após a morte do ditador Franco em 1975 regressou com Ángela a Angües para viver, enquanto que seus filhos ficaram residindo na França.

Em outubro de 2018, Martín Arnal viveu outro dos momentos mais emotivos e esperados de sua vida durante os trabalhos de exumação em uma fossa comum no cemitério de Las Mártires de Uesca. Estes trabalhos permitiram o achado dos restos de cinco pessoas assassinadas pelo fascismo, vários companheiros de Martín. Entre eles estava seu irmão Román, assassinado em 4 de janeiro de 1937. Román foi acusado de haver participado nas coletividades agrárias impulsionadas pela CNT em Angüés.

No verão de 2020, com sua força e alegria habitual, Martín participou em Boltaña na estreia no Festival Espiello de ‘En la misma tierra’. Um filme que narra sua impressionante e extraordinária vida, dirigida por Marco Potyomkin, e produzido por Rubén Barranco e Raúl Mateo.

Até seus últimos dias, Martín Arnal seguiu participando na difusão de suas ideias anarquistas e era um dos poucos testemunhos vivos dos tempos da guerra de 1936. No próximo 12 de novembro teria completado 100 anos. “Nos deixa sua história, sua luta incansável contra o fascismo. Que a terra te seja leve”, escreveu Mercedes Sánchez da Associação para a Recuperação da Memória Histórica de Aragão (ARMHA) nas redes sociais, uma das muitas mostras de carinho com o antifascista e guerrilheiro aragonês falecido esta quinta-feira na França.

Fonte: https://arainfo.org/fallece-martin-arnal-mur-libertario-colectivista-y-guerrillero-antifascista-aragones/?fbclid=IwAR2ab34OQdMO78qibREoVE5uFNdoqjais3L943BLfXC3v0vGdOCog5l8pt8

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

No meio do mato
Orquídea agarrada na árvore
Toda florida.

Ezequiel Teixeira dos Santos

[Espanha] Crônica da manifestação de 16 de outubro, da Caixa de pensões o que nos sobram são ladrões

Em 16 de outubro passado a CNT apoiou a manifestação em defesa das pensões que aconteceu em Madrid, convocada pela Coordenadora Estatal pela Defesa do Sistema Público de Pensões (COESPE)

25000-30000 manifestantes chegados de todos os rincões do estado espanhol iniciaram uma marcha desde o congresso dos deputados até a Puerta del Sol, mostrando seu desacordo com o Pacto de Toledo e a reforma das pensões que querem aprovar pela mão de José Luis Escrivá.

Com o lema: “Luta por umas pensões dignas” a comitiva cenetista dentro da mobilização formou bloco próprio na zona dos sindicatos, justo depois dos blocos por território, onde também participaram pessoas de diferentes partes do estado.

Em dita mobilização a CNT não quis deixar passar a preocupação pelos milhares e milhares de trabalhadores e trabalhadoras hoje na ativa que, após esta reforma somada às anteriores, põe em autêntico risco a manutenção de umas pensões dignas no futuro para estas pessoas.

A manifestação foi alegre e reivindicativa, servindo de ponto de encontro para uma multidão de pessoas vindas de diferentes territórios, organizações sociais e sindicais, sendo patente a ausência de dois agentes ativos contra o sistema publico de pensões dentro do pacto de Toledo, que são a CCOO [central sindical] e a UGT [central sindical].

A manifestação terminou na Plaza del Sol onde companheiros e companheiras de COESPE, Conchita Rivera, Ciriaco e Ramón Franqueza, explicaram aos participantes como ficava a situação da luta pela manutenção de um sistema de pensões, a exigência de aumento das pensões mínimas e não contributivas, até alcançar os 1.084 euros que propõe a Carta Social Europeia, a melhora nas pensões de viuvez para romper a brecha de gênero, a denúncia que os gastos que não correspondem à caixa das pensões pode supor entre 200.000 e 600.000 milhões de euros, por isso pedem uma auditoria, etc. E também se comemorou a maior mobilização de pensionistas de todo o estado que se realizou em 16 de outubro de 2019.

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/cronica-de-la-manifestacion-del-16-de-octubre-de-la-caja-de-las-pensiones-lo-que-nos-sobran-son-ladrones/

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

Os lambaris
Estão brincando de pega-pega
Nas águas cristalinas.

Jhonathan Arruda Gouveia

[Grécia] As testemunhas do julgamento denunciam a orquestração do estado contra os anarquistas!

Estamos caminhando direto para um novo escândalo político na Grécia!

AS TESTEMUNHAS DO JULGAMENTO DENUNCIAM A ORQUESTRAÇÃO DO ESTADO CONTRA OS ANARQUISTAS!

O que aconteceu em Atenas é enorme! Este é um acontecimento para todos aqueles que ainda não compreenderam o que é o Estado e como ele trata os seus inimigos.

Esta manhã (13/10), dois ativistas do grupo anarquista Rouvikonas foram processados ​​por homicídio, num principio de processo absurdo e kafkiano. Giorgos Kalaitzidis e Nikos Mataragkas correm risco de prisão perpétua!

Há duas horas, a primeira testemunha de acusação era um morador do distrito de Kifissia que frequentava Exarchia “no campo dos narcotraficantes” (sic), não muito longe do traficante assassinado em 2016. Mas, golpe de teatro, em vez de acusar Giorgos e Nikos, desmascarou a polícia.

Ela revelou pela primeira vez que não estava em Exarchia no dia do assassinato e que o que ela tinha a dizer neste julgamento lhe tinha sido ditado. Ela disse que a polícia havia prometido ajudá-la em seus assuntos pessoais (processo por tráfico de drogas) se ela testemunhasse contra os dois acusados. Ela acrescentou que nunca tinha visto os dois anarquistas. A partir de então, o processo apareceu como ter sido fabricado do zero – o que estávamos dizendo a vocês há várias semanas.

Porque e como esse enredo foi organizado? Quem está por trás de tudo isso? Será a figura sinistra que, na cúpula do Estado, prometeu “por todos os meios” acabar com “os anarquistas de Exarchia”, citando, em primeiro lugar, o famoso grupo Rouvikonas? Mitsotakis está ele molhado neste negócio sujo? Esta é a pergunta que muitos tem feito nas últimas duas horas.

Após este testemunho contundente sobre como o complô foi organizado pela polícia grega, as outras duas testemunhas de acusação concordaram com o orador anterior, enfatizando a questão uma após a outra. Primeiro, uma enfermeira da EKAB (Samu grego) disse que não sabia absolutamente nada. Em seguida, a terceira testemunha disse que não reconheceu Giorgos nem Nikos, enquanto esteve no local do crime: a testemunha ocular principal!

Após esse primeiro passo desastroso, o julgamento foi adiado para sexta-feira, 29 de outubro, às 11h00. Até então, os debates serão abundantes sobre a origem desta trama e sobre a responsabilidade do governo, inimigo jurado de Rouvikonas e do poderoso movimento anarquista na Grécia.

Continuem a informar o que aconteceu hoje em Atenas e continuem assinando e pedindo e espalhando, para que o recurso seja assinado… é importante e crucial para Giorgos e Nikos:
support@rouvikfrancophone.net (nome e cargo)

Por favor, também, se puderem, ajudem Giorgos e Nikos e o seu grupo a enfrentar os enormes custos legais em seus muitos julgamentos:
https://fr.gofundme.com/f/soutien-giorgos-et-nikos-athnes

Continua…

Em solidariedade,

Maud e Yannis Youlountas po / o comitê de apoio internacional para Giorgos e Nikos

Fonte: http://blogyy.net/2021/10/13/les-temoins-devoilent-la-machination-de-letat/

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/10/12/grecia-apoio-a-giorgos-kalaitzidis-e-nikos-mataragkas-do-grupo-anarquista-rouvikonas/

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Não ando na rua.
Ando no mundo da lua,
falando às estrelas.

Helena Kolody

Carta Aberta da Tenda de Livros

(21/10/2021)

Olá, Como vai?

Muito obrigada por nos ler.

Há um ano você tem acompanhado as nossas reflexões sobre a essência do nosso trabalho: livros e publicações impressas. Temos pensado muito sobre o que nos move e porque estamos a fazer impressos. Como seria pensar produção, edição, pesquisa, e circulação de livros e publicações de uma forma não hierárquica? Seria simplesmente dividir tarefas ou dividir parágrafos em um grupo ou textos entre participantes e depois pedir para alguém ilustrar? Será que editar é apenas dar um espaço livre para que cada um escreva….

Fazer livro não é apenas fazer textos

O livro não é ingênuo, não é libertador sozinho; ele não é apenas o objeto com lombada que você põe na estante na intenção de decorar um espaço; também não é um produto que o autor chama “dele”; um livro sequer é a elaboração genial de um autor.

Para a Tenda de Livros, um livro é trabalho, e trabalho coletivo com todas suas questões processuais e seus conflitos. Logo, um trabalho coletivo não se faz apenas de textos reunidos e arranjados em páginas. O livro é um projeto, que tampouco sai de uma única cabeça.

Um livro é fruto de um processo e esse processo demanda muitas tarefas interligadas. Pensar sem hierarquia é entender o que implica cada momento e as limitações de um impresso. Citaremos alguns momentos.

Pesquisa e Projeto editorial

Para um livro existir é necessário uma etapa de concepção – em que ocorrem decisões metodológicas e o livro, enquanto um projeto, é elaborado. Depois da etapa de concepção, a pesquisa é construída. Diversas são as participantes nesta etapa: não produzimos conhecimento sozinhas, afinal. Partimos de pesquisas daquelas que vieram antes de nós; necessitamos do auxílio das trabalhadoras dos acervos, das bibliotecas; por vezes, uma conversa com familiares e pessoas conhecidas das personagens pesquisadas… Do trabalho de pesquisa, pode ser que o projeto elaborado se modifique – o livro é um projeto vivo, em movimento, e por isso é necessário sempre voltar e refazer o projeto editorial com o processo a se construir.

Realizada a pesquisa e as novas considerações, o projeto editorial toma corpo. Ele é uma maquete conceitual, narrativa e sequencial. Ele responde a diversas perguntas e entre elas está: o que esse livro busca, a quem ele se dedica? Quais são as nossas intenções com esta publicação? Sim, um livro tem um público, uma forma e terá uma história.

Produção e preparação de texto

É a materialização e a organização – em palavras – do projeto inicial, das descobertas e elaborações da pesquisa, da vivência das autoras, dos diálogos feitos, de histórias ainda não (ou pouco) contadas… É o que justifica a feitura do livro. A justificativa também pode ser imagética, pois um livro de imagem é tão importante quanto de texto e misturar essas linguagens também é algo super importante. Mas vamos focar num livro textual.

O trabalho da escrita também não se faz sozinho. Não apenas pelas fontes consultadas ou saberes que à autora chegaram, vindos de outras mentes. O texto não se finaliza à primeira escrita, ou à primeira leitura. O texto não vai pronto para a sua etapa seguinte. É preciso que ele seja recebido com cuidado e atenção. Com um olhar que além de atento, esteja disposto a criticá-lo, que o remexa, o desconstrua e o desmonte, se necessário. A etapa da preparação de um texto é o momento em que uma leitora aliada à concepção da obra encara o texto interrogando-o: Esse texto tem coesão? É coerente com a escrita da autora? Se faz entendível para as não iniciadas no assunto? Os dados apresentados são válidos e se justificam? As informações estão corretas? E como parte de um livro, esse texto se conecta com os demais? Esse texto está alinhado à proposta geral do livro? E quanto ao gênero proposto – um prefácio, um editorial, uma introdução… – ele cumpre o seu papel? Não se trata de desconsiderar o trabalho da autora; mas de contribuir, com um olhar externo, preparado e ciente do projeto do qual ele faz parte.

O texto é um pedaço, afinal, de algo maior

E nem só de ideias se faz um texto. E então, da preparação, o texto vai para a revisão. É o olhar minucioso e técnico ao texto; não é apenas um olhar de limpeza, mas de refinamento, de lapidação.

E não acabou…

Projeto gráfico

Um livro é o seu conteúdo em forma e a sua forma em conteúdo. Não existe uma separação nisso. Pensar a forma e o conteúdo aliados não serve apenas para a compreensão do objeto, mas também sobre como se constroem as suas páginas e os seus cadernos. A etapa da diagramação materializa a concepção do livro, possibilitando o alinhamento entre forma e conteúdo. A artista gráfica dá vida ao que antes era um texto num fundo branco digitado em. letras padrões. Transforma palavras dispostas em desenho em página. Faz com que a paginação dê ritmo ao livro. É uma conjunção ética e estética em comunhão que dá ao livro sua natureza tátil. Um livro impresso é uma paginação múltipla de 4, mas para barateá-lo suas páginas devem ser múltiplas de 32, quando você quer imprimir em uma máquina off set. Logo, não existe uma liberdade absoluta ao fazer um livro. A liberdade do  texto, do projeto gráfico e editorial dependem das demais ações pertencentes ao próprio livro. Depende também da máquina e de onde ele será impresso.

O Livro para a Tenda…

O livro é impresso em uma máquina; entender a natureza da máquina é necessário, é ético, é político, é estético. O livro, como um impresso, ainda não está acabado. O livro é um contexto. Ele é o seu lugar poético, político, estilístico, social e histórico. No Brasil, a história dos livros é marcada por problemas econômicos. Nem todo mundo que faz livros quer estar no mercado. Nem todo mundo que faz livros acredita no mercado. Já existiam publicações antes do mercado e muitas seguem, como são as publicações anarquistas. Porém, não podemos deixar de dizer que estamos em um país complexo para se imprimir publicações. Aqui, o papel é monopólio de uma empresa. As gráficas de base têm defasagem tecnológica e o investimento tecnológico está na gráfica inacessível para quem é pequeno. Imprimir não é apertar um botão ou enviar um pdf. Há muito o que se discutir sobre essa etapa. Você já pensou nela?

Feita a impressão, o livro só se faz livro se alguém o recebe. Daí que a etapa da circulação se faz tão importante quanto qualquer etapa anterior. E essa distribuição – como nas etapas que a precedem – não se faz sozinha: a distribuição é feita por pessoas e por pessoas que estiveram nas etapas anteriores. Na Tenda de Livros, o trabalho artesanal da distribuição envolve empacotar, carimbar, enviar… Livro a livro, leitora a leitora. Você tem um envelope nosso em suas mãos ai? Dá uma olhada. Ele foi carimbado um a um.

O livro é fruto de múltiplos trabalhos, que, misturados, nos fazem entender que um pacote é tão importante quanto uma pesquisa ou uma diagramação.

Fazer livros é uma prática diária e sem nenhum glamour ou qualquer ostentação. Fazer livros não é hobby, é vida. Fazer livros é algo em que acreditamos mas não romantizamos, porque o livro só existe em nós e conosco. Vem conhecer a Tenda de Livros sem intermediários. Estamos dispostas e disponíveis a conversar com você. Escreva-nos.

Obrigada,

Todas as minas que fazem a Tenda de Livros

> Desenho em destaque de Caio Paraguassu

tendadelivros.org

agência de notícias anarquistas-ana

No céu azul
Em forma de animais
As nuvens passeiam.

Janaína Alves de Oliveira

[Itália] Um porto, uma anomalia, uma faísca

Esperamos sinceramente que o despejo policial da greve da guarnição no porto de Trieste (uma experiência anômala que no seu auge envolveu oitocentos estivadores e cerca de dez mil apoiadores) seja a centelha que fará com que a oposição ao “sanitário” passe ser ainda mais difundida, determinada e ingovernável, e que um movimento mais geral contra o governo e os patrões se desenvolva em torno do objetivo – certo e indispensável para nós – de fazer recuar este odioso instrumento de chantagem, discriminação e controle. A continuação do bloqueio do porto de Gênova, o bloqueio do porto de Ancona, a greve de piquete dos trabalhadores da manutenção de estradas em Nápoles, as greves e manifestações que desde 15 de outubro vêm se multiplicando nos locais de trabalho de várias cidades e as primeiras respostas solidárias à repressão policial já são sinais importantes.

Quem, no “movimento antagonista” ou no sindicalismo de base, diz ser contra o “passe verde” (ou passaporte sanitário), agora o mostra em ações e não apenas em palavras? Você considera a retirada de tal passe um objetivo limitado? Ninguém está impedindo que você acrescente o que quiser, mas deixar a resistência de Trieste em paz seria um assunto sério neste momento. Sobre como e com quem recusar a solidariedade, não há receitas unívocas, dadas as muitas diferenças entre território e território. Mas se você quiser, pode encontrar seus próprios caminhos. Caso contrário, pelo menos fique quieto. Porque enfatizar a natureza limitada desse “passe verde” sem nenhum convite à solidariedade concreta nos parece realmente mesquinho. Enquanto continua a jogar lama e descrédito sobre os estivadores de Trieste – com o despejo desejado pelo governo e empregadores, mas na verdade solicitado pela CGIL, CISL e UIL, com os canhões de água da polícia ainda em ação e o ar entupido com gás lacrimogêneo – é simplesmente vergonhoso.

No que nos diz respeito, algumas palavras. Escrevemo-lo antes de 15 de outubro e repetimos agora: ao bloqueio, à ação direta, à luta!

Fonte: https://ilrovescio.info/2021/10/19/un-porto-unanomalia-una-scintilla/

Tradução > Liberto

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Tarde no jardim –
Desprende-se do galho
uma borboleta

Alvaro Posselt

[Itália] 200 mil vão às ruas de Roma contra a extrema direita

Ato em Roma é uma resposta aos protestos violentos contra o passaporte sanitário do último fim de semana no país

Dezenas de milhares de pessoas exigiram, neste sábado (16/10), a proibição de um grupo de extrema direita durante uma manifestação em Roma depois dos protestos violentos contra o passaporte sanitário do último fim de semana, atribuídos aos neofascistas.

Com cartazes que diziam “Fascismo, nunca mais”, os manifestantes pediram na praça San Giovanni, um lugar associado historicamente à esquerda, a proibição do grupo neofascista Força Nova (FN). A manifestação reuniu pelo menos 200 mil pessoas, segundo os organizadores.

Líderes da FN estão entre os detidos após o ataque à sede do sindicato CGIL (de esquerda), a principal confederação sindical do país, durante a manifestação de 9 de outubro contra o passaporte sanitário.

“Isso não é só uma resposta ao ‘esquadrão’ fascista”, declarou o secretário-geral do CGIL, Maurizio Landini, usando o termo para designar as forças paramilitares que, após a Primeira Guerra Mundial, se tornaram um braço armado do fascismo italiano.

“Esta praça também simboliza todos aqueles que querem mudar o país, que querem fechar a porta para a violência política”, acrescentou.

Fonte: agências de notícias

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No vaso da sala
os girassóis sobrevivem.
Que dia nublado!

Zuleika dos Reis

 

[Chile] O livro sobre Juan Demarchi, o anarquista que inspirou Allende

Por Marco Fajardo

O historiador Manuel Lagos Mieres (1979), apresentou em Valparaíso seu livro “Juan Demarchi (1866-1943) – A tempestuosa vida de um anarquista”, um personagem histórico do anarquismo que inspirou o presidente socialista Salvador Allende, quando este era um adolescente.

A apresentação ocorreu na livraria Flora, no bairro Porto.

Demarchi foi um carpinteiro anarquista italiano que emigrou de Turim, primeiro à Argentina, e logo ao Chile. Dedicou sua vida à defesa dos direitos das pessoas trabalhadoras.

Memória histórica

Lagos é Mestre em História pela Universidade de Santiago, especialista em história social e cultural do anarquismo e comunismo no Chile.

Antes, ele escreveu “Feminismo Obrero en Chile. Orígenes, experiencias y dificultades (1890-1930)”, (Fondo del Libro y la Lectura, 2019) [Feminismo Operário no Chile. Origens, experiências e dificuldades (1890-1930)]; Los comunistas en tierras australes. experiencias de lucha, discursividades y relaciones con la resistencia huilliche, 1917-1927″ (Talleres Sartaña, 2020) [Os comunistas em terras autrais. Experiências de luta, discursividades e relações com a resistência Huilliche, 1917-1927]; “Experiencias educativas y prácticas culturales anarquistas en Chile, 1890-1927” (2013) [Experiências educativas e práticas culturais anarquistas no Chile, 1890-1927]; “Los Subversivos. Las maquinaciones del poder “república” de Chile, 1920″ (Quimantú, 2012) [Os Subversivos. As maquinações do poder “república” do Chile, 1920], entre outras várias publicações.

Perguntado sobre a origem do livro, Lagos contou que “se trata de uma inquietude que vem de anos, quando um grupo de amigos historiadores reunidos em torno do periódico El Surco, começamos a cruzada pelo resgate da memória histórica do anarquismo no Chile”.

“Nesta ocasião, Demarchi aparecia como um candidato proeminente, pois em praticamente todas as biografias de Allende, aparecia nomeado como um personagem relevante em sua formação política, mas nunca havia surgido o interesse por saber quem era realmente este personagem”, explicou.

“Quem foi Juan Demarchi? Um anarquista, daqueles que a imprensa oficial e as autoridades da época qualificaram sob a denominação de ‘agitador social’, portanto, um homem permanentemente perseguido pelas autoridades em praticamente todos os países por onde passou na América do Sul: Brasil, Argentina, Chile, sem citar suas atividades na Itália, França, Marrocos, Portugal e Espanha. Um homem que assumiu suas ideias como uma grande revelação e que, como apóstolo peregrino, quis que o mundo conhecesse. Nesse transe, seus passos o levaram para o Chile”.

Nesse sentido, “esta visão se afasta então das especulações e caricaturas sobre Demarchi, como um aventureiro, um personagem romântico, fugitivo. Se trata, antes de tudo, de um lutador social que fez de sua vida uma entrega total às ideias que propagava. Este livro, nesse sentido, constitui uma primeira aproximação ao que logo será uma publicação definitiva que liquide a dívida histórica que se tem com este lutador”.

Lagos destacou que “nesta pesquisa, várias pessoas contribuíram, e de formas distintas. Não quero falar de ‘achados’, pois a presente obra é também uma história viva, que pode ser construída no calor dos acontecimentos. Nesse sentido, talvez o acontecimento mais importante foi o encontro, tal qual o de Allende e Demarchi nos anos 1920 e 1930 em Valparaíso, foi um encontro mágico, cheio de êxitos, no qual muitas das peças de um quebra-cabeças conseguiram se encontrar novamente, complementando com a memória passada de geração a geração os conhecimentos que eu tinha”.

Relação com Allende

Quanto à relação com Allende, Lagos contou que Demarchi, como militante da seção portenha do sindicato Industrial Workers of the World (IWW), era um dos diretores nessa época (ano 1922-23) do Ateneu Operário da Federação de Carpinteiros, localizado em San Ignacio 109, em Valparaíso.

“Ali se reunia operários de distintos grêmios, artistas operários, certa vanguarda cultural. Allende saía do Liceu Eduardo de la Barra, e caminhava umas quadras desse local, que sempre estava aberto com gente que saía e entrava. Ali mesmo, Juan Demarchi tinha sua oficina de carpintaria, e ao lado estava a oficina de sapataria de Pedro Ortúzar (outro ícone do anarquismo portenho de Valparaíso)”, relata.

“Aqui começou a se forjar esse encontro mágico, como definiu Jorge Arrate. É aqui onde além de jogar xadrez – Allende disse que Demarchi o ensinou a jogar xadrez – se produziu o intercâmbio natural de ideias, leituras, inquietudes e sonhos, que dividia com a plêiade de operários ilustrados que atuavam neste espaço”.

Já em 1926, enquanto Allende vai ao serviço militar, logo estudar medicina na Universidade do Chile, Demarchi, comprometido com a luta social no porto, vai ao exílio. Voltariam a se encontrar nos anos 1930, esta vez com um Allende já militante socialista. Allende editou um Boletim dos Trabalhadores Médicos, e Demarchi colaborou nesse boletim, comentou o historiador.

A atualidade de Demarchi

Quanto à atualidade de Demarchi no Chile após o estallido [revoltas iniciadas em de 18 de Outubro de 2019] e no processo Constituinte, Lagos destacou que “Demarchi e sua geração fundaram no Chile uma forma de fazer política. Essa forma se baseava no respeito absoluto à assembleia: toda decisão coletiva passava por ela”.

“Se autoformavam no calor de inumeráveis atividades culturais, se constituindo como um verdadeiro sinal identitário ao autodidatismo. Aqueles operários foram cultivando estas formas no calor de seus focos de sociabilidade e cultura, para logo expor e colocar à sociedade inteira”, expõe sobre a obra, que a partir da próxima semana esteve na livraria Projeção (San Francisco, 51) de Santiago.

“Começaram a fazer isso já nos anos 1920 e foram acusados de subversão por uma grosseira montagem contra a IWW, e aí se iniciou o chamado ‘Processo aos Subversivos’. Por um lado, a construção política pelas bases, de forma federalista, baseada na ação direta – entendida amplamente, e não só como propaganda pelo fato -, a construção autônoma, o autodidatismo, e por outra, a reação do poder, que não tolerou um tipo de construção que transbordasse os canais institucionais. Ambas formas prevalecem até nossos dias”, concluiu.

Fonte: https://www.elmostrador.cl/dia/2021/09/16/el-libro-sobre-juan-demarchi-el-anarquista-que-inspiro-a-allende/

Tradução > Caninana

agência de notícias anarquistas-ana

Tranqüilidade —
O monge da montanha
Espia através da cerca.

 Issa

[Itália] Milão: Sede do Partido Democrático é atacada

Na noite de 7 e 8 de outubro, as janelas da sede do Partito Democrático (Partido Democrata) no distrito de Ortica foram quebradas.

 Como todos os outros partidos, a linha de governo do partido (nos últimos oito anos foi o partido que mais governou) tende a favorecer a elite e piorar as condições de vida dos menos favorecidos, e é um dos principais proponentes das restrições atuais e do passe verde (ou passe sanitário), um instrumento de chantagem e discriminação que impõe a segregação social àqueles que a recusam.

Esta ação quer enviar uma mensagem clara: empreender e apoiar uma luta centrada na proliferação de ações diretas contra as instituições e aqueles que detêm as rédeas.

Solidariedade ativa com os prisioneiros anarquistas espalhados pelo mundo.

Aos que não se rendem, aos que continuam a acreditar na revolta anarquista e na guerra de guerrilha.

Fonte: https://roundrobin.info/2021/10/milano-attaccata-sede-pd/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

É anônimo o autor
Deste esplêndido poema
Sobre a primavera.

Shiki

[Chile] “Editorial autodidacta”, é uma editora anarquista e autogestionada

“Editorial autodidacta”, é uma editora anarquista e autogestionada, nosso principal objetivo é a difusão de nosso belo ideal, pois incentivamos nossos compas a ter livre acesso a nossos livros em PDF, bem como nossos serviços de design, desde cartazes, fanzines, logotipos, revistas, etc. Desde qualquer parte do mundo. Sempre que estejam de acordo com nossos ideais ou façam parte de um coletivo ou organização.

Precisamos de seu apoio e colaboração para que nossos projetos tenham continuidade, para isso você pode adquirir nossos livros impressos a um preço econômico. A “Autodidacta” é feita pela mão de obra artesanal de desenhistas e artistas autônomos.

Colabore, apoie e divulgue.

Editorial Autodidacta.

editorialautodidacta.org

agência de notícias anarquistas-ana

Céu de primavera
no jardim dorme a menina.
Qual a flor do sonho?

Anibal Beça

[Espanha] Lançamento: “El último resistente de Madrid. Mauro Bajatierra. Vida y obra de un anarquista de acción”, de Julián Vadillo Muñoz

Mauro Bajatierra Morán (Madrid, 1884-1939) foi uma figura-chave na compreensão do estabelecimento e desenvolvimento do movimento operário e libertário em Madrid no primeiro terço do século XX. Padeiro de profissão, sua habilidade e autoeducação o levaram a conhecer muitos idiomas e a colaborar desde cedo na imprensa, o que fez de Bajatierra um jornalista a serviço dos trabalhadores. Algumas delas estão incluídas nesta antologia.

Apesar de pertencer às sociedades de panificação da UGT, Bajatierra promoveu a criação do Ateneu Sindicalista de Madrid e do Centro de Estudos Sociais da capital da Espanha. Sua participação e seu testemunho são fundamentais para compreender o movimento operário na crise da Restauração. Militante da Maçonaria, Bajatierra foi acusado sem provas de ter participado da tentativa de assassinato contra o presidente do governo Eduardo Dato, mas foi absolvido dessas acusações. Ele escreveu a obra “Quem matou Dato?”, incluída neste livro.

Durante a ditadura de Primo de Rivera, seu trabalho foi fundamental nos contatos que a oposição republicana teve com o movimento anarquista, sendo um dos fundadores da FAI, a Federação Anarquista Ibérica, em 1927. Crítico das medidas do governo republicano-socialista desenvolvidas a partir de 1931, o anarquista madrilenho sempre foi a favor da aliança revolucionária entre a CNT e a UGT, participando também com sua caneta em numerosos jornais da época.

A Guerra Civil foi o epítome de sua carreira. Correspondente de guerra do jornal CNT, suas crônicas estavam entre as mais famosas da época.

As atividades de Bajatierra também estavam centradas na literatura, sendo autor de numerosos romances curtos, contos infantis e peças de teatro, alguns dos quais alcançaram grande fama na época.

Seu assassinato em 28 de março de 1939 em Madri, às portas de sua casa, fez de Bajatierra uma das primeiras vítimas do fascismo na capital da Espanha. E como Lucía Sánchez Saornil o apelidou de: “El ultimo resistente de Madrid”.

El último resistente de Madrid. Mauro Bajatierra. Vida y obra de un anarquista de acción.

Julián Vadillo Muñoz

LaMalatesta Editorial, Madrid 2021

460 págs. Rústica 20×13 cm

ISBN 9788494785634

15,00 €

lamalatesta.net

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Pé de ipê!
Dá dó de varrer
o tapete lilás.

Cumbuka

Mulheres Anarquistas | Emilienne Leontine Morin (1901–1991) conhecida como Mimi ou Mimi-FAI

Emilienne Morin nasceu em Angers, na França, em 28 de outubro de 1901. Ela era filha do militante anarquista Etienne Morin. Ele era um trabalhador de construção militante que havia abrigado vários “trapaceiros” e desertores durante a Primeira Guerra Mundial. Ele parece ter se mudado para Paris na década de 1910 com sua família e foi ativo em um grupo da Federation Communiste Anarchiste.

Emilienne estava ativa desde cedo em círculos revolucionários. Em 1916 foi Secretária do jornal anti-guerra Ce Quil Il Faut Dire (Editado pelos anarquistas Sebastien Faure e Mauricius). Ela também atuou no grupo de jovens sindicalistas do 15º arrondissement e, a partir de 1923, atuou como membra de sua secretaria. Em 1924, ela se casou com o militante anarquista italiano Mario Cascari (também conhecido como Cesario Tafani ou Oscar Barodi). Eles se divorciaram três anos depois.

Emilienne foi ativista pela Liberdade de Sacco e Vanzetti dirigida pela União Anarquista Comunista (UAC) e depois pela Comissão de Apoio Durruti-Ascaso-Jover também organizada pela UAC, para defender os três anarquistas espanhóis presos pelo Estado francês.

Em 14 de julho de 1927 ela conheceu o anarquista espanhol Buenaventura Durruti na Livraria Internacional Anarquista em 72 ,Rue Des Prairies ,no 20º , arrondissement de Paris. Sua amiga e camarada Berthe Fabert (muitas vezes erroneamente nomeada como Faber ou Favert) dirigia a livraria com sua então parceira Severin Ferandel e ela conheceu o colaborador próximo de Durruti, Francisco Ascaso no mesmo dia.

Como Emilienne deveria relembrar: “Durruti e eu nunca nos casamos, é claro, o que você acha? Anarquistas não vão ao registro civil, nós nos encontramos em Paris, ele tinha acabado de sair da prisão… Durruti saiu naquela mesma tarde, visitou alguns amigos, eu estava lá, nos vimos, nós interessamos e continuamos”.

Quando Durruti foi expulso da França em julho de 1927, Emilienne desistiu de seu emprego como datilógrafa e se juntou a ele em Bruxelas. Lá, muitos anarquistas espanhóis viviam em semi-clandestinidade. Uma delas, Lola Iturbe, iria relembrar que: “Emilienne era então uma jovem muito simpática, de pele clara e olhos azuis, cabelos cortados em estilo moleque. Seu caráter enérgico, suas convicções ideológicas e seus dotes oratórios foram mostrados nos debates públicos — especialmente com os comunistas — que ocorreram na Maison Du Peuple em Bruxelas.”

A vida foi difícil para o casal em Bruxelas. Em 1931 eles se mudaram para a Espanha. Emilienne continuou com sua atividade militante e foi ativa escrevendo para a imprensa da CNT e participando de reuniões e demonstrações. No dia 4 de dezembro ela deu à luz uma filha, Colette, em Barcelona. Ela teve que criar sua filha quase sozinha, pois Durruti estava quase sempre escondido ou preso neste período. Os camaradas conseguiram um emprego para ela, trabalhando no teatro de Goya enquanto a anarquista de Barcelona, Teresa Margalef, cuidava de Colette.

Com a eclosão da Revolução Espanhola e da Guerra Civil, Emilienne se juntou à Coluna Durruti na Frente de Aragão e trabalhou como secretária em seu QG, onde estava encarestava no A Coluna. Quando A Coluna se mudou para Madri, ela retornou a Barcelona para cuidar de sua filha.

Após a morte de Durruti, ela trabalhou por um tempo com o Conselho de Defesa e depois retornou à França para participar de campanhas solidárias para os anarquistas espanhóis, escrevendo artigos e dirigindo reuniões. Foi uma das palestrantes do encontro em apoio aos anarquistas espanhóis assistidos por 4.000 pessoas e convocada pela União Anarquista (UA) no dia 27 de maio de 1937 em Paris.

Ela tornou-se ativa no Solidarité Internationale Antifasciste (SIA) criado pelos anarquistas Nicolas Faucier e Louis Lecoin, que fez campanha em apoio ao anarquismo espanhol. Ela também escreveu para Le Libertaire, o jornal da UA, contribuindo com artigos sobre a situação espanhola, incluindo sua descrição da vida na Coluna Durruti. Em 22 de novembro de 1938, ela falou na reunião em massa em Paris organizada pela UA para relembrar e celebrar Durruti.

Com a Ocupação, ela teve que viver na clandestinidade, ainda envolvida em solidariedade com os anarquistas espanhóis em circunstâncias difíceis. Ela continuou esta atividade após a guerra e até sua morte em 14 de fevereiro de 1991 em Quimper, na Gran Bretanha.

Enszensberger, Hans Magnus. Le bref été de l’anarchie. (1980)
Paz, Abel. Durruti In The Spanish Revolution (2006)
http://guerraenmadrid.blogspot.com/2013/11/emilienne-morin-la-francesa-que-amo.html
https://militants-anarchistes.info/spip.php?article4086

Fonte: https://medium.com/@anarcofeminismodidatico/mulheresanarquistas-emilienne-leontine-morin-1901-1991-conhecida-como-mimi-ou-mimi-fai-4e3238502dfc

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Azul, céu, veludo
A pipa, a cor se dissipa
e transforma tudo

Alvaro Posselt

[Chile] 18 de outubro: segue o caminho da luta

Há dois anos, as pessoas que vivem no território controlado pelo Estado do Chile eclodiram no que foi denominado estallido. A tradução para a língua portuguesa brasileira ainda não tem um consenso, mas o estallido, esse “estalar” foi uma grande mobilização popular pelo basta às políticas capitalistas, genocidas, etnocidas e patriarcais que foram levadas adiante nos muitos séculos de dominação colonial e, em seguida, militar e neoliberal que levou a maioria da população que lá vive a sentir, na pele, as muitas opressões do Estado sobre a vida das pessoas, dos animais não humanos, e da natureza.

Passados dois anos, e com uma nova Constituição em processo, a luta não parou, assim como as diferentes formas de organização não tiveram início no 18 de outubro de 2019. Diferentes iniciativas, sociais e anti-sociais, estão sendo realizadas para fazer valer as palavras pelas ações: desde a sabotagem, com destruição de caminhões e maquinários de grandes empresários ecocidas que agridem os territórios originários¹ até o lançamento de explosivos para atingir centrais de estudos para investigar e criminalizar iniciativas políticas² são amostras de que a combatividade segue viva, mesmo no declarado Estado de Exceção, que está em vigência em todo o país.

A nova Constituição, sim, é uma conquista dessas jornadas que tiveram o início no estallido³Porém, a presença de pessoas presas políticas nas prisões-empresas – por lá, as prisões são privatizadas – ainda mostra que o Estado concede apenas migalhas do que foi e é exigido pelas muitas frentes de luta que acontecem por lá.

Neste 18 de Outubro de 2021, relembramos as mobilizações das multidões naquela primavera de dois anos atrás. Relembramos as pessoas que ainda estão sequestradas pelo Estado Chileno em suas prisões. Relembramos os ataques aos povos originários nas diferentes regiões de Wallmapu. Relembramos a xenofobia que o Estado e alguns setores da sociedade lançam contra as pessoas imigrantes. Relembramos a violência dos carabineros, a polícia que agride constantemente as pessoas que vivem nas comunidades que não se beneficiam do neoliberalismo. Relembramos as ofensivas que buscam dignidade em um país onde a Ditadura Civil-Militar destruiu os serviços públicos básicos, como saúde e educação, e impôs um regime de previdência privada no qual as pessoas trabalham até morrer.

Esse modelo militarista e neoliberal, combatido no então denominado Chile, está sendo imposto pelo governo que domina o Estado denominado pela colonização como Brasil. Cabe, a quem aqui vive, olhar e agir, relembrando, inspirando e conspirando, tal como as pessoas companheiras que estão do outro lado da Cordilheira dos Andes.

Relembramos e não esquecemos! Só a luta muda a vida! Viva a Anarquia!

Caninana.

Pindorama [São Paulo], 18 de outubro de 2021.

[1] https://www.biobiochile.cl/noticias/nacional/region-de-la-araucania/2021/10/18/al-menos-ocho-camiones-destruidos-y-un-lesionado-dejan-dos-ataques-incendiarios-en-la-araucania.shtml

[2] https://www.biobiochile.cl/noticias/nacional/region-metropolitana/2021/10/18/bomba-que-detono-anoche-en-anepe-no-seria-de-ruido-pericias-buscan-establecer-que-explosivo-se-uso.shtml

[3] https://rebelion.org/un-chile-posneoliberal-feminista-y-plurinacional/

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Da estátua de areia
nada restará,
depois da maré cheia.

Helena Kolody

[EUA] Lançamento: “A Country of Ghosts”, de Margaret Killjoy

Já disponível para pedidos antecipados com desconto de 25% no preço de catálogo! Peça agora sua cópia e te enviaremos assim que o livro for lançado.

“Uma fantasia política e épica na tradição de Tepper e Le Guin. Não há ninguém hoje em dia produzindo um trabalho igual ao de Margaret Killjoy. Um livro forte, que não deve desculpas a ninguém, ferozmente original.” – Laurie Penny, autora de Everything Belongs to The Future

“Este romance corajoso e evocativo explora a questão do que uma comunidade anarquista poderia fazer para resistir aos ataques que certamente viriam se alguma experiência deste tipo virasse realidade.” – Kim Stanley Robinson, autor da trilogia Mars

A Country of Ghosts é divertido, politicamente intrigante e seu cenário é um lugar do qual eu senti saudade imediatamente após virar a última página.” – Nick Mamatas, autor de I am Providence Bullettime

Dimos Horacki é um jornalista boroliano e patriota cínico cujo passado é de sujeiras. Mas quando seu jornal faz com que ele vá parar no front, ele é incorporado pelo exército imperial e a realidade da expansão colonial se dá diante dele. Suas aventuras o levam das pequenas vilas para o grande refúgio na cidade de Hronople, feita de vidro, aço e pedras. Tudo isso se dá enquanto a guerra se espalha ao seu redor. O império luta por carvão e ferro, enquanto os anarquistas de Hron lutam pelos seus meios de vida. O livro é um romance de utopia sitiada que desafia qualquer premissa da sociedade contemporânea.

Esse é o segundo título na série Back Dawn de ficção especulativa da editora AK Press

Margareth Killjoy é a autora trans de The Lamb Will Slaughter The Lion and The Barrow Will send What it May.

A Country of Ghosts

Margaret Killjoy

Editora: AK Press

Formato: Book

Encadernação: pb

Páginas: 200

Data de Lançamento: 23 de novembro de 2021

ISBN-13: 9781849354486

akpress.org

Tradução > Calinhs

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Morcego em surdina
morde e sopra o velho gato.
Não contava o pulo…

Anibal Beça

Papo de Punk | “Rupturas e continuidades no punk de São Paulo”

Dia 23 de Outubro, às 19 horas, temos mais um encontro marcado com o Papo de Punk. Dessa vez receberemos a Tatiana Sanson (Cientista Social, baixista no Avante!, e que já atuou em bandas como TPM, Infect e No Violence) e o Ruy Fernando (Apresentador do Programa de rádio on-line xruydox, Ex-No Violence, Parental Advisory, Bandanos e Static Control, e ex- membro dos coletivos Juventude Libertária, SELF, Alimento & Ação e Verdurada). O bate-papo será mediado pelo João Bittencourt (PSN Brasil) com transmissão pelo canal da Punk Scholars Network Brasil, no YouTube Esperamos vocês!

Arte: @rafaeleffe

>> Acesse o link e se inscreva em nosso canal:

https://youtube.com/channel/UCZDgFbQp1tW0MVPOQpJAyJw

Punk Scholars Network Brasil (PSN-BR)

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/09/23/papo-de-punk-selos-e-distribuidoras-diy-a-experiencia-da-no-gods-no-masters/

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O sol já se foi –
Nuvens negras sobre o céu
e o brilho do ipê.

Benedita Azevedo

Justiça condena União, Funai e MG por campo de concentração indígena durante ditadura militar

O povo Krenak foi expulso de suas terras e obrigado a viver confinado em uma fazenda. O governo ainda criou uma prisão indígena e formou uma guarda composta por pessoas de várias etnias para causar desagregação da cultura.

A 14ª Vara Federal de Minas Gerais condenou a União, a Fundação Nacional do Índio (Funai) e o governo do estado por violações dos direitos humanos e civis do povo indígena Krenak – que vive na Região do Vale do Rio Doce – durante a ditadura militar.

Em 1972, homens, mulheres e crianças foram expulsos de suas terras pelo governo e obrigados a viver confinados na Fazenda Guarani, pertencente à Polícia Militar (PM), em Carmésia, a mais de 300 quilômetros de distância de suas terras. A medida foi tomada para facilitar a ação de posseiros vizinhos que tomaram os mais de 4 mil hectares dos indígenas.

Em 1969, o governo militar já havia criado o Reformatório Agrícola Indígena Krenak, um presídio que chegou a abrigar 94 pessoas de 15 etnias, vindas de 11 estados brasileiros.

Guarda e tortura

Outra violação foi a criação da Guarda Rural Indígena, composta por pessoas das aldeias que vigiavam e puniam os presos. A primeira turma foi treinada pela Polícia Militar de Minas Gerais e era composta por 84 indígenas de diferentes etnias e regiões do país, entre elas Craós (Maranhão), Xerente (Goiás), Carajás (Pará), Maxacali (Minas Gerais) e Gaviões (Tocantins).

A medida causou desagregação dentro do grupo, ferindo a cultura e o espírito de irmandade entre os povos.

A única foto que documenta uma cena de tortura durante a ditadura militar é de um indígena em um pau-de-arara sendo “exibido” em Belo Horizonte, na presença de autoridades como secretários de estado. O evento era a formatura da 1ª turma da Guarda Rural Indígena.

O que determina a Justiça

Segundo a decisão da juíza federal Anna Cristina Rocha Gonçalves, a União, a Fundação Nacional do Índio (Funai) e o governo do estado terão que realizar, em um prazo de seis meses, “após consulta prévia às lideranças indígenas Krenak, cerimônia pública, com a presença de representantes das entidades rés, em nível federal e estadual, na qual serão reconhecidas as graves violações de direitos dos povos indígenas, seguida de pedido público de desculpas ao Povo Krenak”.

A Funai também terá que concluir o processo administrativo de delimitação da terra de Sete Salões, considerada sagrada para os indígenas. Só em 1993 que os Krenak conseguiram parte dos 4 mil hectares originais de volta. Porém, esta área ficou de fora.

A Justiça também determinou que a Funai e o Estado de Minas Gerais implementem “ações e iniciativas voltadas ao registro, transmissão e ensino da língua Krenak, de forma a resgatar e preservar a memória e cultura do referido povo indígena, com a implantação e ampliação do Programa de Educação Escolar Indígena”.

A União deverá reunir toda a documentação relativa às graves violações, disponibilizando-a na internet, no prazo de seis meses.

Violência sexual

Na ação, o Ministério Público Federal (MPF) ainda pede a punição do capitão Manoel dos Santos Pinheiro, responsável pelo reformatório na época de sua criação. O órgão reivindicou a perda da patente e da aposentadoria de militar.

Indígenas ouvidos pela Comissão da Verdade nos últimos anos relataram abusos cometidos pelo capitão:

“Não tinha juiz, não tinha advogado, não tinha Justiça, não tinha nada. O capitão Pinheiro era quem decidia quem ia para a cadeia e quanto tempo ficava”, disse a indígena Maria Júlia, em depoimento.

“Se um militar queria uma índia, ela tinha que dormir com ele e o marido ficava preso. E isso aconteceu muitas vezes. O próprio capitão Pinheiro vinha de vez em quando na aldeia Krenak e praticava estes atos de violência sexual contra as mulheres”, contou Douglas Krenak, também em depoimento.

A defesa do militar reformado nega as acusações. A juíza entendeu que o pedido de punição do MPF deve ser analisado pela Justiça Militar, mas determinou que ele também é responsável pelas violações dos direitos dos indígenas.

O que dizem os condenados

A União e a Funai — ambas representadas pela Advocacia-Geral da União (AGU) — disseram que não receberam intimação até a manhã desta quinta-feira (16).

A Advocacia-Geral do Estado informou que ainda não foi notificada da decisão.

Fonte: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2021/09/15/justica-condena-uniao-funai-e-governo-de-mg-por-campo-de-concentracao-indigena-durante-ditadura-militar.ghtml

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Uma flor que cai –
Ao vê-la tornar ao galho,
Uma borboleta!

Arakida Moritake

 

“O Inimigo do Rei”

Neste mês de outubro, em 1977, seria impresso o primeiro número do periódico “O Inimigo do Rei”, na Bahia, na cidade de Salvador. Ele foi um dos principais organismos libertários e anarquistas no período da Ditadura Militar. Para diversos especialistas, o periódico se sobressaiu por adiantar muitos dos temas da contracultura e do ressurgimento do anarquismo no país, pois além de certa inserção no movimento estudantil da Bahia, foi distribuído em São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Abordava diversos temas como a defesa de um movimento estudantil combativo, o apoio à radicalização dos sindicatos, a tentativa de reconstrução do anarcossindicalismo, a luta contra a homofobia e denúncias de governos de direita e esquerda homofóbicos, descriminalização do aborto, antirracismo, anti-imperialismo e outros.

>> Para mais infos, acesse:

INIMIGO DO REI. A MÍDIA ALTERNATIVA ANARQUISTA: ESTUDOS DE CASOS. BRASIL. (1977 – 1988)

http://www.uel.br/cch/cdph/portal/pages/arquivos/Instrumentos-Pesquisa/TRAB-ACADEMICOS_DIGITALIZADOS/HISTORIA/INIMIGO%20DO%20REI.%20A%20MIDIA%20ALTERNATIVA%20ANARQUISTA%20ESTUDOS%20DE%20CASOS.%20BRASIL.%20%20(1977%20-%201988).pdf?fbclid=IwAR2s5E43QcQro7QmTYUCzaAS_0Egm_Wc7LlNzxcOpaBV5ShMl7tGObUwyZI

Fonte: História da Classe Trabalhadora

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Tarde no jardim –
Desprende-se do galho
uma borboleta

Alvaro Posselt