
Por Gabriel Fonten – Freedom
Em agosto do ano passado, uma revolta na Indonésia resultou em confrontos generalizados com a polícia e uma forte repressão, seguida por uma onda de prisões. Esses acontecimentos fizeram parte de uma série de protestos, frequentemente chamados de protestos da Geração Z, que começaram em Bangladesh e se espalharam para Nepal, Madagascar e Quênia. Para entender a situação atual, enviamos algumas perguntas a um integrante do Dago Melawan.
Como os protestos foram organizados na Indonésia e como se intensificaram tão rapidamente? Você considera que os protestos foram uma vitória?
Observo um padrão organizado; isso difere de 2020, quando os protestos em massa contra a Lei Omnibus foram impulsionados por movimentos trabalhistas e ONGs. Os protestos de agosto surgiram a partir de transmissões ao vivo no TikTok, organizadas e disseminadas para diversos locais. O tráfego dessas transmissões aumentou rapidamente, possivelmente devido ao uso de bots para ampliar a audiência. De fato, muitas iniciativas foram espontâneas, às quais se somaram ações promovidas por organizações estruturadas. Por outro lado, a grande adesão ocorreu depois que o slogan/campanha “Dark Indonesia” foi amplificado pela enorme base de usuários da plataforma X.
Mas, nas ruas, quando os distúrbios explodiram em várias localidades e começaram as mobilizações em larga escala, duas facções da elite política passaram a disputar entre si, especialmente dentro da polícia e do Exército, tentando tirar proveito da mobilização popular. Por quê? Porque as medidas de segurança para as manifestações foram menos rigorosas do que o habitual; polícia e Exército adotaram uma postura defensiva. Isso acabou se tornando uma forma de aumentar seu poder de barganha diante do novo presidente da Indonésia, mais próximo dos militares.
Essa situação, porém, durou pouco: as elites chegaram a um acordo e se reunificaram. A brutalidade voltou a se manifestar, especialmente quando um mototaxista (o falecido Affan) foi atropelado por um veículo blindado e morreu. A indignação explodiu: houve protestos, incêndios provocados e tumultos em toda parte. Infelizmente, devido à falta de uma rede de coordenação eficiente para compartilhar rapidamente informações sobre a situação nas ruas, os riscos não foram devidamente avaliados.
No fim, aconteceu o que temíamos: começaram as prisões. Primeiro atingiram a ala anarquista, depois a rede de esquerda, e muitos cidadãos comuns foram usados como uma espécie de “terapia de choque” para intimidar o restante da população.
Hoje, o movimento na Indonésia voltou a atuar de forma clandestina e, até agora, nossos companheiros continuam concentrados em apoiar os presos políticos que ainda não foram libertados.
Por outro lado, temos consciência de que é necessária uma estrutura de coordenação mais eficaz, independentemente das diferenças ideológicas, estratégicas e táticas. Mas esse passo precisa ser dado com rigor; todos devem concordar com a necessidade de reforçar a segurança física e digital. Muitos ainda agem de forma negligente nesse aspecto.
Falamos de vitória? Para mim, sim. A vitória inspirou e preparou a Geração Z para compreender como funciona a democracia liberal e perceber que o sistema eleitoral não faz sentido. Acredito que, em uma ou duas décadas, surgirá uma geração revolucionária mais bem organizada que a nossa; os sinais disso já são visíveis.
Em 2019 ocorreram grandes protestos do Bloco Negro na Indonésia, que provavelmente representaram o primeiro contato de muitas pessoas no Ocidente com o anarquismo do país. Você poderia descrever aquele momento e a evolução do anarquismo na Indonésia desde então?
Em Jacarta, desde a perseguição aos anarquistas em 2019, os ocidentais começaram a reconhecer a tradição do Bloco Negro. Mas uma coisa é certa: o anarquismo está crescendo aqui, impulsionado pela incapacidade dos sindicatos de atualizar suas bases teóricas. Presos à lógica estatista das lutas salariais, eles não conseguiram se renovar nem mesmo em termos de linguagem visual, já que a maioria ainda atua no setor industrial, e não no setor criativo. Além disso, a literatura anarquista é mais fácil de encontrar e mais acessível para os jovens, especialmente por meio das cenas anarco-punk e hip-hop.
O aspecto singular do Bloco Negro é que ele não é composto apenas por anarquistas ou antiautoritários no sentido estrito. Algumas pessoas simplesmente odeiam o regime, o Exército e a polícia, mas não são antiestatistas; participam porque desejam canalizar seu desejo de se reunir livremente — algo difícil dentro dos grupos de esquerda — e lutar juntos nas ruas. Isso é o que nos torna únicos, já que nossa base está em organizações estudantis, vendedores de café, serigrafistas, desempregados, artistas e outros setores. Em 2019, o número de participantes em Jacarta dobrou ou triplicou; em Bandung, pode ter triplicado ou até quintuplicado. Crescimentos semelhantes foram observados em cidades como Malang, Yogyakarta e Surabaya, um aumento significativo em comparação com 2017 e 2018.
Mas 2019 também marcou o fim do auge do movimento anarquista, ou mais precisamente dos anarquistas como grupo que adotava táticas anarquistas de forma relativamente organizada por meio de redes informais ou associações livres. No entanto, o fim desses laços organizativos não ocorreu por causa da repressão estatal, mas porque percebemos que nossas batalhas políticas cotidianas estavam longe de ser suficientes. A pandemia de COVID-19 aprofundou essa reflexão.
Antes da pandemia, houve confrontos de rua contra a Lei Omnibus, que ameaçava as condições de trabalho dos trabalhadores. Alguns tomaram a iniciativa de criar equipes de paramédicos de rua e unidades de autodefesa contra gás lacrimogêneo, que se espalharam por quase todos os focos de protesto. Mas, novamente, eram iniciativas pouco organizadas e fragmentadas, atuando apenas como grupos táticos que respondiam quando a indignação aumentava.
Em 2021, decidimos aprofundar o debate e começar a construir uma estrutura organizativa mais específica por meio da adoção do municipalismo e da organização dual. Como mencionei antes, o estancamento teórico começou a ser sintetizado e recontextualizado para nossa realidade. Outros preferiram entrar no mercado de trabalho e desaparecer. Antes de lutar contra o sistema, descobrimos que lutar contra a modernidade capitalista era ainda mais difícil. Essa foi uma das principais lições que aprendi: por que estamos sempre começando do zero?
De onde surgiu o seu grupo? Qual é o seu objetivo e como vocês estão organizados?
Historicamente, nossas raízes estão em grupos juvenis de diferentes origens, conectados em várias cidades por meio de movimentos de alfabetização e bibliotecas de rua. Porém, no final de 2015 (embora o processo tenha começado muito antes, por volta de 2010), nos aproximamos devido ao fechamento de uma de nossas bibliotecas pelas autoridades estatais e ao aumento da censura a livros de esquerda.
Durante nossos encontros, começamos a compartilhar histórias sobre o lema “os trabalhadores são um só”, mas percebemos que as diferenças entre as facções nunca haviam sido realmente resolvidas. A partir daí, passamos a construir uma estrutura flexível de coordenação interurbana e um espaço de aprendizagem para reunir conhecimentos compartilhados por pessoas comprometidas com valores antifascistas e antiautoritários. Essa foi uma espécie de nova onda, surgida de uma pequena geração millennial reflexiva e autocrítica.
No meu contexto, em Jacarta, desde 2018 começamos a enfrentar debates históricos que nunca vivemos diretamente: a ruptura entre Bakunin e Marx e a traição da União Soviética. Em vez de permanecer em debates teóricos intermináveis, passamos a estudar coletivamente as críticas organizacionais à tomada de decisões, as críticas aos partidos de vanguarda, ao vanguardismo cego, às disputas de poder e às formas de compreender o Estado quando a infraestrutura social ainda não está construída. Também discutimos o estilo de vida anarquista, frequentemente marcado pela indisciplina e pela transformação da política em mera identidade cultural, algo semelhante às críticas feitas por Bookchin.
Hoje estamos inseridos em contextos organizativos formais e vinculados a sindicatos, buscando atualizar constantemente teoria e prática. No entanto, nossas identidades costumam ser duplas. Dedico mais tempo à organização da Paguyuban Lintas Kampung (Comunidade Interurbana), composta por células municipais de comunidades urbanas diversas: grupos de Vespas, gangues de bairro, ciclistas, torcidas, grupos de estudos islâmicos e outros. Trata-se de uma federação de associações juvenis, ainda pequena (entre 100 e 200 pessoas quando reunidas), focada na reconstrução das relações sociais degradadas pela modernidade capitalista.
Essa federação foi fundada em 2021 e este ano completará cinco anos de existência.
Nosso objetivo coletivo se baseia em três pilares principais:
- Reabilitação sociocultural — democratizar a reprodução social cotidiana e redescobrir a identidade local e cultural.
- Economia — estimular o senso de comunidade dentro das famílias, incentivar o apoio mútuo e promover iniciativas econômicas autônomas.
- Política — construir organizações que funcionem como ferramentas de educação popular emancipadora e de luta permanente.
Nos últimos anos, também temos construído outra assembleia popular formada por diversas comunidades urbanas pobres e um movimento contra a gentrificação no norte de Jacarta. Assumimos principalmente um papel de educação popular e trabalhamos na construção de cooperativas populares sob controle dos trabalhadores. Enquanto isso, nossos companheiros da organização vermelha (FPPI — Frente de Luta da Juventude Indonésia) atuam na esfera jurídica, defendendo direitos e apoiando disputas legais.
Em relação à repressão, como vocês se organizaram diante da vigilância e do encarceramento de anarquistas pelo Estado? Como isso afetou o movimento?
Após as ondas de prisões de 2019 (Primeiro de Maio) e 2020 (Lei de Criação de Empregos), nós, especialmente em Jacarta, começamos uma profunda reflexão crítica e autocrítica sobre nossos métodos de mobilização e sobre o uso de rótulos e táticas — como o Bloco Negro e a ação direta — como fins em si mesmos.
Passamos gradualmente a abandonar a identidade simbólica do “A circulado” e do sindicalismo, sobretudo ao trabalhar com pessoas fora dos ambientes estudantis. Também deixamos de focar exclusivamente em intelectuais e estudantes, direcionando nossos esforços para a juventude, os pobres urbanos, os movimentos ecológicos e os sindicatos.
Fizemos isso para reduzir o uso indiscriminado do rótulo “anarquista” pelas autoridades como forma de reprimir movimentos populares. Essa estratégia acabou sendo mais eficaz e nos permitiu atuar com mais liberdade. No entanto, ela também gerou debates internos: será que isso despolitiza as pessoas em relação aos símbolos revolucionários?
Entre nós existe uma espécie de lema: devemos usar símbolos e encurtar nossa existência política? Ou priorizar valores e práticas em vez da validação simbólica?
Desde 2021, as organizações populares que se aproximaram de nós passaram a criar seus próprios símbolos, relacionados às suas origens e experiências. Ninguém é obrigado a portar bandeiras negras ou vermelho-negras para afirmar uma identidade ideológica. Sua identidade é a da organização popular; seu paradigma é aquele que elas próprias desenvolveram como instrumento de análise e resistência.
Não devemos combater apenas a alienação no trabalho, mas também na sociedade capitalista como um todo. Por que fomos identificados tão facilmente? Porque não conseguimos nos identificar com o povo. Acabamos nos tornando uma classe à parte.
O anarquismo está presente em toda a Indonésia ou concentrado em determinadas regiões? Em quais áreas de luta ele tem maior presença?
Os anarquistas estão espalhados praticamente por toda a Indonésia, tanto em pequenas quanto em grandes cidades. No entanto, os movimentos mais influentes e inovadores ainda estão concentrados na ilha de Java. Bandung, por exemplo, tornou-se um dos principais centros da repressão e do encarceramento de presos políticos acusados de anarquismo após os protestos de agosto.
Atualmente, o movimento anarquista concentra-se mais nos pobres urbanos. Isso ocorre porque se trata de uma luta de longo prazo; as associações comunitárias tendem a durar mais e, quando o planejamento territorial é bem-sucedido, podem se transformar em zonas autônomas, capazes de proteger os moradores contra o deslocamento causado pela gentrificação e servir como espaços seguros para organizações anarquistas e outras.
A ideologia anarquista continua sendo muito popular entre a juventude da Indonésia. No entanto, poucas organizações se definem explicitamente como anarquistas, já que os valores anarquistas não constituem a única base de suas lutas.
No passado, concentrávamos nossos esforços nos movimentos estudantis e criávamos muitos espaços de encontro e formação. Hoje, porém, é difícil esperar uma revitalização desses movimentos. Tornou-se cada vez mais complicado encontrar ativistas nas universidades, uma realidade muito diferente daquela de dez anos atrás.
Isso acontece porque os estudantes atuais enfrentam mensalidades cada vez mais altas, o agravamento das condições econômicas familiares e uma carga de tarefas acadêmicas que se assemelha cada vez mais ao trabalho em fábricas ou escritórios. Em algumas cidades, também se tornou mais difícil organizar debates sobre movimentos sociais com a mesma vitalidade de antes. Suspeito que isso esteja relacionado à aceleração tecnológica ocorrida durante a pandemia de COVID-19.
Fonte: https://redeslibertarias.com/2026/06/05/indonesia-anarquismo-lucha-represion-y-reorganizacion/
Tradução > Liberto
agência de notícias anarquistas-ana
A goiaba madura
E os bichinhos se mexem
Não sei o que fazer.
Bruna Quirino da Silva – 11 anos















Comunistas, Capitalistas e Anarquistas e a servidão voluntária. Mas... A hora mais escura é logo antes do amanhecer. (Provérbio árabe)
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.
Enquanto isso no Brasil...
Espaços como esse são fundamentais! Força compas. Vou contribuir!
A autoridade dos que são contra não é menos autoritária que as outras e encontra, quanto a mim, uma sólida…