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[Espanha] “Mujeres Libres”: as anarquistas que revolucionaram a classe obreira

No final da II República umas 21.000 anarquistas se agruparam formando o primeiro movimento feminista radical de autêntica base popular na Espanha. Um dos grupos precursores de reivindicações pela liberação de gênero que, tantos anos depois, continuam presentes na atualidade.

Por Beatriz Asuar Gallego

Se diz que a história é escrita pelos vencedores, mas o que não se diz é que os vencedores, quase em sua totalidade, são homens. E, tampouco se diz, que estes costumam esquecer das mulheres: se dermos uma olhada para trás e pensarmos nos grandes momentos de mudança da humanidade, ou nas grandes revoluções, nenhum ou quase nenhum nome de mulher nos vem à cabeça.

A história da Espanha não foi menos dura com as mulheres, enterrando durante muitos anos o papel que tiveram durante a época mais rebelde do país, a Guerra Civil. No entanto, organizações sociais tentam constantemente preencher uma lacuna em nossa memória coletiva, e enfrentar o esquecimento. Como exemplo, a CGT e Mulheres Anarquistas com a Agrupação de “Mujeres Libres”, que neste 2017 faz 80 anos de sua fundação. Uma organização que se formou então como o primeiro movimento feminista radical de autêntica base popular e precursora na luta por reivindicações que, tantos anos depois, continuam presentes na atualidade.

Como nasceram? No final da II República em uma dinâmica política e cultural que abria novas possibilidades para a participação das mulheres na luta social. A CNT, Confederação Nacional do Trabalho, era desde 1910 a central sindical principal orientada pelo anarquismo, da qual depois derivou a CGT. Um sindicato que contava com uma grande presença de mulheres e que reconhecia os direitos laborais básicos como a liberdade econômica ou a igualdade de salário, mas que quase não pensava em iniciativas de lutas específicas.

Ante isto, as mulheres necessitaram marcar seu próprio caminho. Em Barcelona, núcleo principal do movimento anarquista, foi fundado em 1934 o Grupo Cultural Feminino, pioneiro nas articulações de mulheres dentro do sindicato. Mas a explosão da guerra civil mudou o ritmo das formações, avançaram e decidiram então criar sua própria organização. Em 2 de maio de 1936 várias mulheres publicaram o primeiro número da revista “Mujeres Libres” que, como relata Paula Ruíz Roa, responsável pela Secretaria da Mulher da CGT “serviu de base para a constituição do grupo libertário e a organização de seu primeiro e único congresso, que puderam realizar em agosto de 1937”. Em pouco tempo, passaram a contar com 147 agrupações locais e 21.000 mulheres filiadas.

O primeiro grupo autônomo de mulheres

Desde seu início, “Mujeres Libres” se formou como um grupo totalmente autônomo. A maioria delas militantes, já faziam parte de outras organizações do movimento libertário – CNT, FAI, Juventudes Libertárias -, no entanto, não se subordinaram a nenhuma das estruturas prévias.

Esta foi uma batalha das anarquistas pelo rechaço que gerou dentro do movimento libertário uma organização só de mulheres: “Foram elas que fizeram ver que era necessário separar as organizações de toda a classe trabalhadora das organizações das mulheres para diferenciar as reivindicações de ambos, porque dentro da luta da classe obreira não se dava a importância que tinham”, explica a Público o atual secretário da CGT, José Manuel Muñoz Póliz.

A escritora e historiadora estadunidense Martha Ackelsberg assinala que a maior conquista da organização foi ser a “pioneira entre as organizações feministas” e “unir a luta contra a exploração capitalista com a opressão patriarcal”. Assim foi, “Mujeres Libres” seguia a linha ideológica da CNT, mas desenvolveu seu próprio objetivo: emancipar a mulher da tríplice escravidão, “escravidão de ignorância, escravidão de mulher e escravidão produtora”. Com o início da guerra, se propuseram outra meta, “colaborar com uma ajuda ordenada e eficiente na defesa da República”.

Reivindicações ainda presentes na atualidade

“O que mais chama a atenção neste grupo é como colocam a problemática da mulher. Sobretudo naquela época, com temas que abarcam desde a abolição da prostituição, à educação mista, comedores ou creches populares ou o amor livre. Reivindicações que chegam à maioria da esquerda muito depois, na década de 70”, conta o historiador brasileiro Thiago Lemos Silva, que estudou durante mais de dez anos a história desta agrupação.

Desde seu início reclamaram a importância da incorporação da mulher ao trabalho assalariado, realizando múltiplos trabalhos, além das atividades de retaguarda: desde a alfabetização até a capacitação no trabalho em todos os setores laborais. E, para que esta incorporação não fosse uma dupla carga para as mulheres, reclamavam – assim como na atualidade – e puseram em marcha comedores e creches populares nos locais de trabalho.

Romperam com a ideia de que o lar e as relações conjugais eram privadas: denunciavam com fervor o controle dentro da vida em casal a partir do Estado e da Igreja católica. Proclamavam o amor livre e denunciavam que o modelo tradicional de família fomenta as desigualdades. Por um lado, porque mantêm as dependências econômicas na qual se sustenta o patriarcado. Por outro, porque ampara a submissão das mulheres aos homens dentro da família pelo que careciam de todo direito de expressarem-se nela.

Outro dos temas que mais destacaram foi a educação infantil. Asseguravam que nas escolas se adquire uma mentalidade enquadrada pelos valores burgueses por isso era essencial que a educação desse um giro total potencializando uma escola para a liberdade. Dentro da educação, além disso, reclamavam a necessidade da educação sexual, abordando temas que até então eram tabus, como os métodos contraceptivos ou o aborto.

A repressão contra as anarquistas

Como com quase todos os grupos revolucionários a repressão durante a guerra por parte das tropas franquistas foram colossais. Mas com os grupos de mulheres como este que supunham um duplo perigo ao lutar não só pela emancipação da classe obreira, mas também pela emancipação da mulher.

Parece uma tarefa impossível documentar o número exato de mulheres que passaram pelo calvário da tortura, dos assassinatos, dos desaparecimentos e da violência sexual. Mas sim, sabemos que assim como com a maioria de milicianas e militantes, as integrantes de “Mujeres Libres” acabaram no cárcere, no exílio, ou, na melhor das hipóteses, submetidas a um silêncio absoluto negando haver participado nesta organização. Nem mesmo, desde o exterior, no exílio, conseguiram manter estruturas organizadas na clandestinidade, pelo que aos três anos, em 1939, “Mujeres Libres” acabou dissolvendo-se. Ainda que tenham mantido um legado: “criaram um grande desejo nas mulheres de liberdade para todas nós”, afirma Ruíz Roa. E assim que, como também assinala Thiago, “é preciso conhecer a história destas mulheres para poder questionar o machismo”.

Fonte: http://www.publico.es/politica/memoria-publica/80-anos-mujeres-libres-xxx-mujeres-libres-anarquistas-revolucionaron-clase-obrera.html

Tradução > Sol de Abril

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A tarde se vai.
E com ela se despedem
O Sol e a Lua Nova.

Josete Maria Vichineski

A alternativa anarquista em Cuba

Por Bill Weinberg

Fifth Estate # 399, Outono de 2017 | Estados Unidos

Um antigo centro comunitário que recebia o cenário do rock moderno está sendo ocupado por ativistas, aparentemente ignorado pelas autoridades. A alguns quarteirões de distância, fazendas urbanas são áreas verdes e prósperas na paisagem, produzindo frutas e verduras para a comunidade.

Oakland? Detroit? Lower East Side de Manhattan?

Não. Esta é Havana.

Em abril deste ano, voltei a Cuba pela primeira vez em 24 anos com a missão de analisar a alternativa ecológica da ilha e como havia se desenvolvido desde o fim do Período Especial, como foi chamado na linguagem oficial do governo, que havia começado em 1989.

Encontrei uma ilha transformada desde aqueles tempos de crise. Enquanto alguns elementos do modelo ecológico haviam sobrevivido, outros haviam sido abandonados. Mas a viagem fez com que eu presenciasse outra alternativa – uma rede anarquista emergente, buscando promover ideias antiautoritárias enquanto a ditadura, cautelosamente, começava a se instaurar.

Cuba tornou-se um experimento vivo para a humanidade em um futuro pós-petróleo, depois do colapso da União Soviética ter significado o fim do petróleo subsidiado. Isso quebrou a economia, dando início ao Período Especial, e foi um grande incentivo aos modelos autossuficientes e ecológicos – bicicletas como meios de transporte, fazendas urbanas em Havana, agricultura orgânica no campo.

E foi no meio dessa crise, em 1993, que visitei Havana para uma conferência sobre bicicletas como meios de transporte urbano. Foi quando vi o início dos jardins e fazendas comunitários que estavam surgindo em terrenos baldios pela cidade.

Uma geração depois, Cuba está subsidiando petróleo da Venezuela, abrindo sua economia para o capital privado e torcendo pelo fim do embargo dos EUA. E as alternativas ecológicas sobreviveram?

Ao andar pelo centro de Havana ficou evidente que as bicicletas quase não estavam sendo utilizadas. Quando estive lá, em 1993, elas haviam ultrapassado o número de carros nas ruas. Agora não havia quase nenhuma, a não ser pelos bicitáxis que levavam turistas pelo trânsito de carros. Conversei com planejadores urbanos do governo e eles admitiram que as ciclovias haviam sido abandonadas com a volta do petróleo.

Também ficou claro que uma espécie de gentrificação está se estabelecendo em Havana Velha – muito do capital estrangeiro está entrando no setor do turismo, com o aumento de bares sofisticados, galerias e restaurantes.

No entanto, fiquei sabendo que a agricultura urbana, que emergiu espontaneamente durante o Período Especial como uma medida de proteção, foi aceita pela burocracia e ainda está bastante forte.

Para ver essas fazendas urbanas, fui de táxi até Vedado, o distrito sofisticado mais verde, mais extenso e em tempos pré-revolucionários ao oeste de Centro Havana. A Praça da Revolução é o centro de Vedado, o coração do poder administrativo de Cuba. É para onde o icônico rosto de Che Guevara está olhando, da parede do Ministério do Interior.

A apenas alguns quarteirões de distância dessa praça infértil e cara, projetos habitacionais encontram-se lado a lado às mansões gastas da burguesia que há muito se foram, agora habitadas por moradores da classe trabalhadora. Em uma dessas ruas, visitei Isbel Díaz Torres, outrora professor de literatura e um dos dissidentes da esquerda de Cuba. Sua rede, o Observatório Crítico Cubano, foi fundada em 2006, depois do poder ser transferido de Fidel a Raul Castro, para criar uma voz anticapitalista e anti-imperialista declarada por maior liberdade.

Díaz se considera um anarquista e vive como se esperaria de um – em uma construção desabitada, ou o mais próximo disso que vai encontrar em Havana. Ao passarmos pelas colunas de entrada da antiga casa e cruzarmos o jardim interior, Díaz me contou a história dela.

— Nos anos 90, esta era a Catedral do Heavy Metal — lembrou-se com um sorriso. Durante o Período Especial, a construção foi usada como uma casa de cultura – um centro comunitário sancionado pelo governo -, conhecida como Pátio de Maria. Mas seu cenário do rock moderno saiu um pouco de controle e, em 2003, o governo precisou fechá-lo. Provavelmente por conta de um grupo de metaleiros, a apenas alguns quarteirões da Praça da Revolução.

O espaço ficou desocupado por um tempo, mas após os furacões devastadores de 2008, os habitantes que tiveram suas casas destruídas ou danificadas se abrigaram lá – e foram permitidos a ficar, sua residência não oficial, mas aceitável. Díaz e seu namorado estavam entre essas pessoas, dividindo um pequeno apartamento nos fundos do quintal.

Díaz vê que um processo de apropriação do Estado da cultura alternativa está em andamento. Ele observa que embora o rebelde Pátio de Maria tenha sido fechado, um lugar novo e oficial, que atrai eventos de metal, o Maxim Rock, foi aberto do outro lado da Praça.

— No começo, o cenário do metal era completamente underground — afirma. — E então criaram uma organização. Há uma para o rock, uma para o hip-hop, tudo é controlado.

A agricultura comunitária, aquela outra forma de reivindicar o espaço urbano do Período Especial, sobrevive. Embora ainda seja duvidosa. Ao contrário das afirmações oficiais, Díaz afirma que os jardins estão sendo abandonados em toda a cidade:

— A perspectiva de cultivar nosso próprio alimento nos terrenos se provou temporária. Agora temos o petróleo e os químicos novamente.

Ele conta que dois dos livros sobre jardinagem e autossuficiência doméstica muito populares durante o Período Especial – El Libra de La Familia (O Livro da Família) e Por Nuestras Propias Esfuerzas (Por Nossos Próprios Esforços), ambos publicados pelo Olive Green Editions – foram “quase esquecidos hoje em dia”.

É difícil dizer se os huertos familiares – jardins familiares informais, não regulamentados pelo sistema administrativo – estão em declínio. As fazendas urbanas formais, conhecidas por organopônicos, estão claramente prosperando.

Eu e Díaz caminhamos a alguns quarteirões de sua casa e passamos por grandes lotes com fileiras de espinafre, alface, cebolinha, aipo, salsinha, couve-flor. Trabalhadores com enxadas cultivavam a terra atrás das cercas, interligadas por videiras ou reforçadas por fileiras de cactos.

Um dos organopônicos se chama Quinto Congresso – por conta do Quinto Congresso do Partido Comunista Cubano que aconteceu em 1997, o ano em que a fazenda foi inaugurada. Outra se chama Plaza, devido à Praça que cobre Vedado.

Os trabalhadores fizeram uma pausa para responder minhas perguntas.

Essas fazendas começaram espontaneamente, embora em geral sob as direções dos burocratas que trabalhavam no prédio oficial do governo próximo, para alimentar seus próprios trabalhadores durante o Período Especial. Mas logo foram reconhecidas e organizadas como coletivos. Elas ainda estão ligadas ao sistema administrativo – por exemplo, vendem os produtos para o Conselho do Estado, o maior órgão de poder de Cuba, que tem sua sede perto dali.

Mas o mesmo processo pode ser visto aqui: uma iniciativa ascendente espontânea que teve o controle do Estado como preço pela sobrevivência.

Isbel Díaz e seus companheiros estão organizando trazer uma voz anarquista aberta ao debate crescente sobre o futuro de Cuba. Seis anos atrás, eles fundaram a Oficina Libertária Alfredo Lopez para emergir do Observatório Crítico – que recebeu seu nome por causa do líder anarcossindicalista assassinado pela ditadura de Gerardo Machado, em 1926.

Através de reuniões feitas nos últimos dois anos em Havana, eles estão avançando nas críticas feitas ao que chamam de capitalismo do Estado cubano e estão procurando pelo legado da tradição anarquista da ilha.

Cuba teve um movimento trabalhista forte ligado ao anarquismo, especialmente na indústria do cigarro, da virada do século através da repressão da era Machado nos anos 20 e 30.

Os últimos remanescentes desse movimento foram extintos nos primeiros anos do regime de Castro, quando os dissidentes anarquistas foram presos por “atividades contrarrevolucionárias”. Foi um presságio da repressão mais geral do regime sobre culturas potencialmente dissidentes, com a música afro-cubana sendo discriminada, os Beatles banidos e – o mais importante – homossexuais sendo perseguidos e até mesmo internados.

O regime suavizou todos esses aspectos consideravelmente (há até um Parque John Lennon em Havana), mas ainda permanece para vermos quanto espaço é tolerado para algo tão abertamente de oposição quanto o anarquismo.

A Oficina Libertária Alfredo López está arrecadando fundos para comprar um novo lugar em Havana para servir de centro social e biblioteca anarquista – se aproveitando da flexibilização do mercado imobiliário.

Eles se afiliaram a uma federação anarquista regional da América Central e Caribe para promover ideias e ações antiautoritárias, para tudo que os EUA considerem como seu famoso quintal.

Com sua benfeitora do petróleo, a Venezuela, em uma profunda crise atual e com Donald Trump divulgando políticas radicais em Cuba que anunciam o retorno à longa desestabilização da campanha de Washington, Cuba e região podem estar diante de desafios novos e sombrios nos meses e anos que virão.

Pelas sementes que vi em Vedado, está claro que a voz anarquista, pelo menos, estará lá.

> Bill Weinberg escreve para o CounterVortex.org

Ajude a Oficina Libertária Alfredo López no GoFundMe (apenas euro): gofundme.com/gg2wrcac

Fonte: https://www.fifthestate.org/archive/399-fall-2017/the-anarchist-alternative-in-cuba/

Tradução > Amanda Laet (linkedin.com/in/amanda-laet-8733ba114)

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Nas águas do mar
Águas-vivas flutuam
Tranqüilamente…

Miranda

[Espanha-Austrália] Autogestão: “A esquerda não quer ouvir que temos que ir a um modo de vida muito mais simples e autogestionário”

Ted Trainer acaba de publicar ‘La vía de la simplicidad. Hacia un mundo sostenible e justo’. O pesquisador e ativista australiano nos abre as portas de Pigface Point, seu espaço autogestionado nas proximidades de Sidney.

O cenário futuro de um mundo pós-petróleo, onde os recursos escasseiam e o crescimento já não encontra indicadores positivos que o mantenham, leva o ser humano a buscar alternativas sustentáveis para garantir a sobrevivência. Se, ademais, incorporamos um enfoque social onde a divisão dos recursos seja justo e equitativo entre todas as pessoas que formamos o planeta, então nos encontramos com o livro “La vía de la simplicidad. Hacia un mundo sostenible e justo”, do pesquisador e ativista australiano Ted Trainer (Editorial Trotta, 2017).

Com uma ampla trajetória no campo das teorias de transição e do zênite do petróleo, o autor nos abre as portas de Pigface Point, seu espaço pessoal autogestionado nas proximidades de Sydney, onde pratica a vida simples que promove em seus ensaios e onde se encontra sua residência. No mesmo recinto também desenvolvem numerosas atividades de tipo educativo e informativo com o fim de mostrar a todas as pessoas interessadas uma das alternativas possíveis a um mundo capitalista baseado no crescimento e no consumo.

La vía de la simplicidad” é uma resposta holística a um mundo pós-capitalista, quantos anos esteve pesquisando sobre isto?

Muito tempo. Tentei fazer isso com meu primeiro livro em 1985, “Abandon Affluence!”, e para isso, logicamente, já estava há vários anos estudando o tema e buscando evidências. Posteriormente, em 1995, com “The Conserver Society: alternatives for sustentability”, melhorei os argumentos. No entanto, é em “La vía de la simplicidad” onde apresento uma tentativa teórica para superar com teses e evidências mais fortes e melhor estruturadas os trabalhos anteriores, dando respostas claras sobre o que está acontecendo, até onde vamos e tendo em conta experiências ilusórias de que existem neste âmbito na atualidade.

Fala dessa “grande visão” de nossa sociedade que as pessoas devem compreender para atuar em consequência. “La Vía de la simplicidad” é uma explicação extensa e exaustiva sobre ela mas, poderia dar-nos umas pinceladas?

O fato é simples. Há três elementos principais para entender o que está acontecendo no mundo. Estamos utilizando muito mais recursos de que deveríamos. A quantidade de produção e consumo é totalmente insustentável e se pode documentar detalhadamente olhando gráficos de extração de mineração, petróleo, pesca… Nos últimos anos se produziu um aumento incrível no consumo em geral. Por isso temos que decrescer. Temos que esboçar outro modelo onde possamos seguir vivendo bem mas, ao mesmo tempo, que a quantidade de recursos consumidos per capita seja muito menor em comparação com a atualidade.

O segundo elemento importante desta ideia é que não há múltiplas alternativas. Tudo passa por criar uma “vida simples”. Isto implica níveis de consumo de recursos muito baixos, níveis de autossuficiência muito elevados a nível local, economia local, autogestão local e produção em função das necessidades, não dos lucros. Estes elementos não são discutíveis.

Estamos preparados para implementar na atualidade “La Vía de la simplicidad” em nossas vidas ou a sociedade necessita mais evidências que augurem um colapso da civilização?

Nós não queremos que o sistema colapse. Queremos que o atual modelo decresça para ganhar tempo até que chegue o colapso. Enquanto isso, temos que trabalhar para que mais pessoas despertem e se deem conta de que este sistema não vai ser capaz de mantê-los.

No geral, as pessoas não entendem que o mercado não poderá seguir crescendo para sempre. Isto prejudicará principalmente as pessoas com menos recursos e só os ricos poderão se beneficiar. Por isso necessitamos tempo para que as pessoas normais, a maioria social, entenda que esta grande transição vai chegar. Neste contexto, seria ideal que distintas alternativas já estivessem funcionando para demonstrar não só na teoria, mas também na prática, que existem numerosas alternativas a um modelo capitalista como as Localidades em transição. Para estar preparados para quando chegue o colapso energético devemos decrescer durante 20 ou 30 anos construindo a alternativa que necessitamos.

Quanto tardará em chegar o colapso do sistema capitalista atual?

Há um livro muito potente intitulado “Failing States, Collapsing System”, de Nafeez Mosaddeq Ahmed, que fala sobre o Oriente Médio e sobre as coisas alarmantes que estão acontecendo ali. Todos os países produtores de petróleo estão sofrendo vários problemas: o esgotamento dos recursos petrolíferos e, com isso, o incremento do preço para poder extraí-lo; o disparado crescimento da população… Nos últimos 30 anos só se preocupou de fazer-se cada vez mais ricos e não em melhorar as condições de vida das famílias. Agora o que tem é uma grande escassez de água e importam a maior parte da comida. Isto implica que o custo dos bens se multiplique. A quantidade de petróleo que necessitam para abastecer as pessoas está aumentando e o número de serviços e subsídios que proporcionam os Estados está se reduzindo. A quantidade de petróleo que podem exportar também está se reduzindo. De acordo com os gráficos que apresenta o autor, restam 10 anos até que os recursos decresçam de maneira dramática. Pensamos que na atualidade temos um problema com os refugiados mas, quando a única coisa que podem exportar as pessoas que vivem nestas regiões do mundo seja areia, a situação será dramática.

Há muitas análises na atualidade que vão nesta direção. Falam de uma crise multifatorial, não só pelo petróleo e não só no Oriente Médio. É a mudança climática também, o colapso da pesca… Cada vez se torna mais difícil extrair minerais e os custos de fazê-lo cada vez são mais elevados. Se deteriora a produtividade da economia. O sistema financeiro quebrará. Todas estas coisas vão piorar em muito pouco tempo. Antes de 2030 golpearão o mundo de tal maneira que tudo vai explodir e quebrar-se. As respostas às perguntas são múltiplas mas todas estão focadas até uma mesma direção, e é que o crescimento infinito do sistema capitalista é insustentável. Sua quebra virá vinculada a outras crises de diversa índole que só se poderão amenizar com uma mudança de sistema.

Crê que as pessoas ricas e poderosas aceitarão voluntariamente esta mudança de modelo de maneira pacífica ainda quando isto significa perder seus privilégios?

Não podemos garantir. De fato, é muito provável que os mais poderosos tentem lutar por manter seus privilégios e suas posições atuais. No entanto, aqui aparece uma oportunidade para mudar as coisas. O atual sistema requer uma grande quantidade de energia, um sistema financeiro… No contexto de um colapso, estaríamos praticamente sem energia, não haveria combustíveis líquidos e o sistema financeiro tardaria muito tempo em poder recuperar-se. Esta nova realidade facilitaria a mudança de paradigma mas também impulsionaria os ricos a tentar controlar a todo custo os poucos recursos que sobrariam. Também se lançariam pelos meios de comunicação e, possivelmente, inclusive potencializariam movimentos fascistas.

É provável que as pessoas voluntariamente não decidam mudar-se à “La vía de la Simplicidad” sem que seja de maneira coercitiva. Haverá que esperar que tudo estale?

Com sorte não terá que ser um colapso, mas simplesmente uma grande deterioração da situação. Sempre será de maneira voluntária. De nenhuma maneira cremos no uso da força, não tem nenhum papel neste projeto. Temos que enfrentar-nos ao cessar da produção, a que terminem as férias em Bali, a reduzir os recursos caros ao mínimo. Também teremos que convencer as pessoas, incluídos os proprietários, de que é preciso decrescer. Na Revolução de 1936-37 na Espanha, muitos dos proprietários das fábricas se adaptaram ao novo modelo de produção cooperativa e se geraram benefícios para toda a comunidade. Neste momento, quase todas as fábricas deveriam ser fechadas, já que estamos produzindo demasiado, e tanta produção não é necessária e está arruinando o planeta. Com sorte, todavia teremos algumas décadas para convencê-los e, se há sorte, encontraremos maneiras para gerar os menores inconvenientes possíveis, especialmente para todas as pessoas que trabalham atualmente nas fábricas.

Fazes referência em seu livro, mas também nesta entrevista, à experiência cooperativista e anarquista da Espanha nos anos 1936-37. Como influiu este fato no desenvolvimento de sua teoria?

Foi muito importante. Esta experiência demonstra que o que propomos se pode fazer. De fato, creio que é o melhor exemplo que temos na história recente: uma alternativa em uma sociedade moderna que implica uma considerável indústria, coordenação, universidades, hospitais… O imprescindível em uma sociedade contemporânea. É um exemplo poderoso que nos recorda que o que propomos é possível porque, basicamente, já foi feito com êxito antes.

Milhões de pessoas na área de Barcelona cooperativizaram os meios de produção e gestionaram a sociedade de maneira comunal. Creio que foi o fato mais importante que aconteceu ao longo da história. Alejandro Magno, Gengis Kan… O que fizeram foi insignificante. Foi tribal, estúpido e bruto. Simplesmente mataram as pessoas e conquistaram territórios para poder construir um império. Não fizeram bem a ninguém. Que métodos ou que movimentos surgiram em 50.000 anos de história para criar uma sociedade pacífica, amistosa, cooperativa e organizada em base a questões ambientais e proporcionando uma vida amável?

Outro exemplo que me ocorre é a sociedade que se desenvolveu em torno de Creta até o 1.500 AC. Ainda assim, é difícil buscar boas sociedades que sirvam como modelo para gestionar o mundo. No entanto, há muitíssimos pequenos exemplos por todo o planeta. Mas, sem dúvida, a grande escala, o exemplo mais completo e emocionante foi o dos anarquistas espanhóis em termos de um mundo sustentável, justo e pacífico.

O decrescimento energético é um elemento fundamental neste novo modelo, como também o é a energia limpa. Qual é o papel das renováveis?

Sem dúvida temos que mover-nos para as renováveis. Na atualidade, uma de minhas linhas de pesquisa se centra nas capacidades da energia renovável. Apesar de que não creio que se possa gestionar o nível de consumo energético da sociedade atual com energia renovável, esta sim tem uma razão ecológica devido à quantidade e ao custo de produção.

Tampouco seria possível em um mundo pós-petróleo usar as renováveis como alternativa sem reduzir o consumo. Este é o ponto de vista que pretendo contribuir na discussão. Não sou dogmático mas estou muito seguro de meu argumento. Temos que mover-nos às renováveis já que em “La vía de la simplicidad” a única energia possível e coerente é a renovável.

Converter “La vía de la simplicidad” em um modelo mainstream é o grande desafio que temos adiante?

Totalmente. Tudo isto não pode ficar em um círculo reduzido de acadêmicos ou pessoas que leem livros de 300 páginas. As pessoas comuns querem que seus problemas reais se solucionem, mas para isso tem que entender que há um problema. Por exemplo, o efeito estufa é um problema, mas a maioria dos estadunidenses não consideram que o seja e, provavelmente, tampouco a metade dos australianos. Por isso, o grupo crucial de pessoas é o de pessoas normais.

A esquerda na hora de abraçar as teorias de “La vía de la simplicidad”, tem sido uma aliada ou uma opositora?  

O papel da esquerda neste projeto é um grande problema. Eu gastei muita energia tentando que se somassem a esta alternativa de um mundo simples. Alguns o fizeram mas muitos outros não. A maior parte da esquerda segue pensando que seu grande problema é o capitalismo. Pensa que sem ele todos nós viveremos bem. Outros se deram conta de que temos um problema de recursos naturais e ambientais. No entanto, seu foco é muito suave e não lhe dão demasiada importância em reduzir nossa forma de consumir. Não querem pensar em um Simpler Way. Temos passado muito tempo tentando explicar à esquerda: “Gente, o capitalismo tem que terminar, mas este não é o fim da história. Temos que mover-nos a uma vida simples, onde a tomada de decisões se realize de maneira comunitária”. Mas não querem ouvi-lo; outro trabalho que nos fica.

Fonte: https://elsaltodiario.com/autogestion/la-esquerda-no-quiere-oir-que-tenemos-que-ir-a-um-modo-de-vida-muito-mas-simple-e-autogestionario

Tradução > Sol de Abril

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final de tarde
se amontoam sabiás
a cantar entre nós

Antonio Marcos Amorim

[EUA] Vídeo: “A Chorus of Versus”: 14 meses de rebelião nos “Estados Unidos”

O “Chorus of Versus” é a primeira versão do vídeo sobre a resistência, vivida no ano passado, contra a supremacia branca, o patriarcado, o Estado e o capitalismo, nos chamados “Estados Unidos”. Com filmagens combinadas de maneira cronológica, o filme conta a história de um ano bastante bizarro, mostrando desde motins contra a polícia e conflitos de rua com fascistas a autodefesa comum e ajuda mútua organizada pela comunidade.

É possível fazer o download para exibição no site: https://vimeo.com/245393866.

Agradecemos, em especial, às equipes de jornalistas radicais, como Unicorn Riot, Sub.Media e ItsGoingDown.org, pelo incrível trabalho realizado. E também aos grupos, como Take Em Down Nola e Black Women’s Defense League, que publicaram suas filmagens no Youtube, etc. Confira seus trabalhos e os apoie! A todos aqueles que morreram nas mãos do Estado no ano que se passou, seja durante protestos ou apenas tentando sobreviver nesta sociedade miserável: o poder está com vocês.

Vocês ainda vivem, nos ensinam e nos guiam. Vocês serão recompensados.

Tradução > Amanda Laet (linkedin.com/in/amanda-laet-8733ba114)

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café da tarde—
na mangueira em flor
farra de pardais

Nete Brito

[Itália] Nasceu o Centro de Documentação Libertário “Felix”

No sábado, 9 de dezembro, realizou-se a inauguração do Centro de Documentação Libertário “Felix” (CDL Felix).

O centro nasce da necessidade de criar na área de Asti um espaço de debate e cultura radicais sobre os temas da libertação animal, humana e sexual. Este espaço foi criado nas instalações da associação “La Briccona”, um círculo local em Castagnole Monferrato (At).

Dentro da biblioteca, é possível encontrar, em empréstimo, venda e consulta, inúmeros materiais de temas antiespecistas, anarquistas e antissexistas.

A maioria dos volumes foi herdada da antiga ocupação da Rua Orfanotrofio, um dos edifícios de propriedade da A.S.L. que nestes anos acolheu, além de uma dúzia de famílias em habitação de emergência, até mesmo um espaço social que hoje não está mais ativo. Esta experiência, que recentemente foi judicializada em primeira instância, e gerou pesadas condenações e multas pela ocupação contra os militantes e as famílias, tem sido, de certa forma, o ponto de partida deste CDL. Os volumes recuperados foram catalogados e integrados com novos materiais comprados graças a iniciativas de autofinanciamento.

Na inauguração, com os inúmeros amigos e companheiros que participaram, comeram, bebiam, apresentaram o projeto e contaram a história de Amerio “Felix” Felice, o anarquista astuto que nomeou o Centro. Amerio, nascido em 1901, antifascista de primeira hora, sofreu o exílio na França pelas perseguições por parte do fascismo, participará em 1936 na Guerra Civil Espanhola. Nesta experiência, central na vida de Felice, queríamos ver não apenas uma passagem importante na história do século XX, mas também, através dos grupos de mulheres “Mujeres Libres” e a ação de numerosos anarquistas pioneiros atentos a questões de animais, uma experimentação real e radical da liberdade, em todas as suas formas: social, de gênero e até mesmo, embora parcialmente, animal.

Dentro da biblioteca, é possível consultar, entre outras coisas, um arquivo impresso das principais publicações anarquistas italianas: “A rivista anarchica”, “Germinal”, “L’internazionale” e “Umanità Nova”. Esta hemeroteca inclui uma valiosa coleção de números que vão desde os anos 60 até hoje. Também em consulta na mesma seção estão impressas cópias dos periódicos antiespecistas “Veganzetta”, “Liberazioni” e “Animal Studies”.

Para se manter informado sobre as iniciativas do centro visite: cdlfelix.noblogs.org.

Fonte: http://www.umanitanova.org/2017/12/24/e-nato-il-centro-di-documentazione-libertario-felix/

Tradução > Liberto

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Cinco lobos correm

em noite de lua cheia.

— Uivos na floresta —

Tânia Souza

[EUA] Convocatória para um dia de solidariedade internacional com os acusados do J20

Em 20 de janeiro de 2017 (J20), dezenas de milhares de pessoas foram às ruas de Washington durante a cerimônia de posse do presidente Donald Trump com grandes protestos, que iam de bloqueios criativos a ações combativas de rua. Naquele dia, uma das manifestações era de um “bloco anticapitalista e antifascista” que conduzia faixas onde se podia ler “Nenhuma transição pacífica” e “Que os racistas voltem a ter medo”. Em resposta ao protesto, a polícia atacou-o com violência e cercou aproximadamente 230 pessoas, detendo-as por supostamente terem provocado danos materiais ou por estarem próximas dessas ações.

Depois de uma série de acusações formais e de manobras legais, aproximadamente 200 pessoas foram acusadas de seis crimes (cinco acusações de danos materiais e uma de incitar distúrbios) e duas contravenções (participação em um distúrbio e conspiração para cometer distúrbio). Isto significa que cada uma dessas pessoas enfrenta uma pena de até 61 anos de prisão.

Este é um caso sem precedentes, porque é uma tentativa por parte do governo dos Estado Unidos de reprimir os contundentes protestos que surgiram espontaneamente em resposta à eleição de Trump. As acusações pretendem asfixiar a resistência ativa e enviar uma mensagem de que a resistência não será tolerada, num momento em que é necessária mais do que nunca. Em muitos aspetos, este caso é uma experiência quanto à expansão dos poderes repressivos do Estado, com promotores que tentam incriminar todo mundo como grupo, das vidraças quebradas, tendo simplesmente como argumento a sua presença no local. Além disso, a polícia e outros agentes do Estado tentam redefinir a mais básica organização política – realização de reuniões, convocação de protestos e participação nestes enquanto grupo – como um ato de conspiração. Isto faz parte de uma tendência, tanto nacional como internacional, de aumentar a repressão, tendo como alvo os movimentos sociais nos supostos Estados “democráticos”. Se o governo dos Estados Unidos tiverem sucesso na criminalização dos movimentos sociais desta forma, isso certamente encorajará outros Estados a fazerem o mesmo.

À medida que o governo Trump conduz o mundo para uma catástrofe, é importante apoiar aqueles que nos Estados Unidos arriscaram a sua liberdade para se oporem a ele desde o seu primeiro dia no governo. Os protestos do dia da cerimônia de posse estabeleceram as pautas para várias das resistências que viriam e garantiram que governo de Trump e os seus aliados de extrema-direita não ficariam sem uma forte oposição. Mais tarde, por todo o país, as pessoas usaram a ação direta para fechar quase todos os aeroportos internacionais do país, num protesto histórico que travou temporariamente as políticas anti-imigração e islamofóbicas do novo governo. Continuando esta luta na sala dos tribunais, a maioria dos acusados está trabalhando em conjunto para responder politicamente a estas acusações e usam este caso como forma de fortalecer os laços entre diferentes lugares e diferentes lutas.

Como resposta a tudo isso, convocamos um dia de solidariedade internacional em 20 de janeiro de 2018. As ações solidárias vindas de todo o mundo têm entusiasmado os corações dos acusados, num momento em que enfrentam uma intensa repressão. Além disso, estas ações são parte de uma prática política que reconhece que estamos envolvidos numa luta comum que transcende as fronteiras. Pedimos solidariedade, não como ato de caridade, mas como gesto que sinalize uma cumplicidade com a resistência contra o governo Trump e o futuro que procura impor.

Conteúdos relacionados:

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/04/11/eua-ajude-os-222-presos-no-j20-em-west-michigan/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/01/30/eua-video-insurreicao-na-capital-da-nacao/

agência de notícias anarquistas-ana

sol em plenitude
uma rã pula — em versos
barulho de Vida

Roséli

[Reino Unido] Reflexões sobre a organização anarquista

Por Jon Bigger

Viver em um campus universitário significa que entro em contato com muitas pessoas interessadas em política pela primeira vez. Alguns nunca ouviram falar do anarquismo e outros têm um conhecimento muito limitado do que é. É um pouco diferente de conhecer e discutir o anarquismo com pessoas de 20 anos ou mais, que pensam que sabem o que é o anarquismo e esperam ter uma longa e agradável discussão em que podem demonstrar que estás equivocado.

As conversas sobre o anarquismo com o segundo grupo de pessoas são confrontações. Eles já estabeleceram seus preconceitos, mas em vez de simplesmente dizer “eu acho que você está equivocado”, iniciam uma conversa aparentemente interessada no que você acredita e por que você faz isso. Não importa como você responda, já decidiram: “As pessoas são muito egoístas para que o anarquismo funcione”, dizem. “É por isso que precisamos do anarquismo”, você insiste. “Precisamos de um sistema que impeça as pessoas egoístas de ter poder e riqueza além do justo que lhes corresponda”. Isso não os satisfaz e eles gastam o que parecem horas explicando a maneira pela qual a natureza humana prova que você estás equivocado. Ou talvez eu estivesse conhecendo pessoas erradas.

O primeiro grupo, por outro lado, pode ser muito mais receptivo. Recentemente, participei de um grupo horizontal com decisões coletivas através da democracia direta. Nos encontramos para analisar a ação, realizar ações e nos encontrar para avaliar a eficácia destas antes de planejar a próxima atividade. Embora haja dois ou três assíduos no grupo que se chamem anarquistas, o corpo principal do grupo está lá por causa do problema que enfrentamos. No entanto, o fato de que está organizado de acordo com os princípios anarquistas começou a suscitar alguma curiosidade dentro do grupo e as pessoas começaram a fazer perguntas com um interesse sincero.

Começaram a compartilhar livros e panfletos sobre organização anarquista. “Não posso acreditar que essas ideias não sejam mais conhecidas”, disse alguém outro dia, começando uma conversa sobre grupos não hierárquicos. Isso leva a uma discussão sobre termos como “solidariedade”, “igualdade” e “horizontalismo”. À medida que realizamos nossa ação direta, falamos de anarquismo; como objetivo final e também como atividade diária.

Concluímos que não há um resultado final. O anarquismo como forma de vida cotidiana começa no aqui e agora e nunca cessa. É o desafio contínuo ao poder e a autoridade. Podemos alcançar o que poderíamos consider uma forma de sistema e sociedade anarquistas, mas devemos aceitar que o processo de mudança revolucionária talvez nunca termine. Sempre precisamos estar preparados para desafiar a hierarquia cada vez que comece a se solidificar ou a recriar. Não podemos supor que um sistema evitará que a energia se solidifique sem a participação ativa de indivíduos e grupos.

Em um sistema democrático direto, por exemplo, pode ser necessário desafiar aqueles que têm responsabilidades delegadas e poderes temporários. Em um sistema econômico comunal, pode ser necessário assegurar ativamente a igualdade se as pessoas acumulam riqueza, comida ou abrigo além de uma distribuição justa. A ideia de criar organizações dentro da nossa sociedade atual que possam substituir as antigas, uma vez que elas se tornam redundantes, significa que, quando praticamos o anarquismo, criamos o futuro, não importa o quanto possa ser percebido ou quantas discussões ou cismas existam no mesmo movimento.

O cerne dessas experiências é que não precisamos converter a todos em anarquistas. O grupo em que pertenço é composto de pessoas focadas em um objetivo específico. Esse objetivo se sobrepõe ao de outros grupos e, portanto, surge lentamente uma rede baseada em ações de ajuda mútua e solidariedade. À medida que mais pessoas se envolvem e veem o valor desse método de organização, vejo que as pessoas desenvolvem habilidades que podem transferir para outros grupos. Eles estarão conscientes da importância de atuar da mesma maneira e poderão fazê-lo em outros grupos.

Às vezes, o mais revolucionário que podemos ser é começar com as coisas mais próximas de nós. Alguns dos grandes problemas do mundo parecem tão longe que nos sentimos impotentes para mudá-los. Mas, começando com problemas pequenos e locais, podemos fazer uma pequena diferença. Também é possível interagir com outras pessoas que também fazem pequenas diferenças em nossa área e de repente vejamos uma mudança significativa.

Ao reflerir sobre 2017, não posso deixar de me sentir um pouco triste e angustiado. Os desafios são enormes e, às vezes, eu sinto que mergulhamos na água para sermos levados pela corrente. Sinto-me abatido pelo estado do movimento e as disputas entre grupos que explodem no seu seio. No entanto, quando vejo as pequenas coisas, as coisas próximas, gerenciáveis e controláveis, percebo a diferença de que outros e eu estabelecemos juntos. O sucesso não é um grande protesto com muita publicidade. O sucesso pode ser um monte de resultados pequenos, mas positivos, que realmente mudam vidas. Um dos resultados que devemos buscar é espalhar nossos valores e formas de organização entre pessoas que não sabem o que é o anarquismo. Para mim, fazer isso positivamente, por exemplo, foi uma das melhores lições do ano passado.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/reflections-on-anarchist-organising/

Tradução > Liberto

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Onde começa, onde acaba
a cabeça, a cauda
da serpente do mar?

Kyorai

[Itália] Cozinha anarquista, uma revolução em marcha

O Manifesto da Cozinha Subversiva foi publicado em janeiro de 2016 pelo coletivo libertário “Rivoltiamo La Terra”. Linhas gerais simples, de amplo consenso, para definir uma cozinha ao mesmo tempo ecológica, ética, social e definitivamente anarquista. A seguir, entrevista a Francesco Scatigno do coletivo libertário “Rivoltiamo La Terra”, autor de “Mezza Rivoluzione o La Rivoluzione Integrale” e do “Manifesto di Cucina Sovversiva”.

Como nasce Cozinha Subversiva?

Cozinha Subversiva nasce como resposta a uma exigência de coerência entre o que se diz ou o que se propõe e o que se faz. Creio que nos aconteceu um pouco a todos isso de encontrar-se em centros sociais, em círculos libertários ou em sedes de coletivos e consumir pratos de indubitável origem comercial. Com isto quero dizer que a autogestão não é uma fórmula exclusivamente política. É e há de ser uma prática econômica que constitua um exemplo para quem frequenta os centros sociais. Não basta apenas reduzir a compra procedente da grande distribuição quando se organizam jantares de autofinanciamento, este modelo tem que ser levado também a ambientes privados, à compra doméstica.

Como fazer Cozinha Subversiva?

Fazer cozinha subversiva significa abastecer-se onde há pequenos produtores, pequenas explorações agrícolas de gestão familiar ou fundadas na cooperação de várias pessoas, significa recorrer cada vez menos à grande distribuição e, se não se compartilha um estilo de vida vegetariano ou vegano, reduzir a poucas vezes na semana o consumo de produtos de origem animal e que procedam de pequenos pecuaristas por questões de sustentabilidade ambiental.

Mas os movimentos camponeses não estão presentes em todos os territórios…

Nem sempre é fácil, por exemplo em povoados do Apenino, longe dos grandes mercados de Roma, Bolonha e Florença, são organizados por movimentos regionais que se afiliam a “Genuino Clandestino”. Onde esteja um camponês que trabalha eticamente e não explora a trabalhadores nem cultive a terra com herbicidas e produtos químicos, estão todos os ingredientes para guisar em chave da Cozinha Subversiva. Ademais recentemente se organizou a rede “Fuorimercato” (Fora Mercado) que mediante uma organização logística quer fomentar o transporte de todos aqueles produtos que estão fora do mercado da grande distribuição e que fazem seus os princípios de autogestão, produção sem exploração, apoio mútuo e cooperação. Quem não consegue dar em seu próprio território com alguns produtos de camponeses éticos pode dirigir-se a “Fueramercado” para abastecimento.

Como se pratica a Cozinha Subversiva?

Começar a fazer Cozinha Subversiva não é tão difícil. Basta que cada um cuide de suas próprias compras e consumo e comece a frequentar mercados biológicos locais das redes regionais de produtores (veja o mapa cucinasovversiva.it/mappa-delle-autoproduzioni/), comece também a conhecer a pequenos produtores locais que trabalham bem, que não tem dependentes sobre cujo trabalho especular para acumular riqueza. Conhecer os produtores significa falar com eles, visitar as explorações agrícolas, compreender os sistemas e as técnicas de trabalho que empregam. Conhecer os produtores significa estar consciente de estar apoiando um modelo de exploração agrícola, de relações laborais, de abordagens para com a terra e a produção de alimentos que levados a grande escala resolveriam grande parte dos problemas sociais e econômicos de nosso planeta.

Por quê é importante fazer Cozinha Subversiva?

Cozinha Subversiva é um convite a criar comunidade em torno dos alimentos e da produção dos mesmos, a compartilhar saberes e sabores. Entre os objetivos deste projeto consta precisamente o de experimentar e difundir a fermentação das verduras, uma técnica na qual as multinacionais estão investindo grandes recursos para poder levar patentes para comercialização de produtos para aqueles veganos e vegetarianos consumistas que não tem o menor escrúpulo na hora de consumir se não com a preocupação pela origem vegetal ou não do produto. Um grupo de consumidores crescente e suculento sobre a qual criar especulação, estudo de trabalhadores, recursos e com a qual seguir criando brechas sociais.

Cozinha Subversiva, significa forçosamente veganismo, inclusive antiespecismo?

Cozinha Subversiva é uma prática acessível para todos, também os onívoros. Consiste na escolha, segundo critérios precisos, dos ingredientes a utilizar para guisar. Se os ingredientes mais importantes de um prato ou de um jantar procedem de criadores a cargo de camponeses éticos, então se está fazendo Cozinha Subversiva. Certamente para os antiespecistas não existem criadores éticos. O que nos preocupa é que o consumo se desloque da grande distribuição para pequenos produtores para gerar uma mudança nas relações econômicas e sociais e derrubar assim sistemas hierárquicos e especulativos no mundo laboral. Assim que, enquanto haja alguém que consuma produtos derivados de animais, é importante que esse consumo sofra uma mudança e não siga alimentando toda a cadeia vinculada à grande distribuição. Alguns de nós são veganos, outros vegetarianos, mas isto não importa: todos podem ser subversivos na cozinha. Outra coisa é a quantidade de consumo de produtos de origem animal. Se os criadores pequenos éticos não são capazes de responder ao consumo diário de todos os onívoros, faz falta propor-se a necessidade da redução do consumo de produtos de origem animal.

Pode resultar interessante uma cozinha que tenda ao veganismo? Podemos imaginar uma mudança paulatina do consumo neste sentido?

Desde logo. A cozinha vegana não é chata. Antes bem, é um percurso que convêm realizar, o da experimentação. Os princípios que nos inspiram nos animam a rechaçar todos aqueles produtos veganos comerciais que no início só falávamos em negócios biológicos e que agora se difundem também nos descontos a preços muito baratos. Os rechaçamos porque o negócio do biológico está criando uma cadeia paralela de grande distribuição que explora o trabalho humano da mesma maneira que o convencional. O discurso é o mesmo para todos aqueles produtos veganos não biológicos que são baratos, geralmente de escassa qualidade quanto aos ingredientes e para nada “cruelty free”. Livres da crueldade para com os animais, vale. Mas, quanto a exploração dos trabalhadores? Que é a especulação de uma grande empresa sobre o trabalho dos próprios trabalhadores se não crueldade? Liberação animal e emancipação do ser humano tem que ir de mãos dadas, não pode haver liberação animal sem liberação humana. Já não é liberação humana senão simples negócio. Um vegano que não se faz estas perguntas e que não procura resolver estas contradições não tem princípios éticos, o move só uma sensibilidade parcial ou está seguindo a corrente da moda.

Em que sentido se pode falar de experimentação? Quer dizer que da triste imagem da salada se chega ao hamburguer vegano, inclusive na “cozinha anarquista”?

Assim é. Mediante uma técnica especial de preparação, podemos obter produtos similares aos do comércio, partindo de verduras e farinhas não necessariamente refinadas. Já não são necessárias a farinha de glúten, amidos e outros preparados. Podemos preparar esses produtos em casa indo às compras onde está o camponês.

A fermentação das verduras é um processo de transformação das verduras cujo fim é reduzir os antinutricionais existentes na verdura fermentada, torná-la mais nutritiva, influir em seu sabor e mudar sua consistência de modo que se consiga um produto acabado parecido a salsichas, salsichão, embutidos, assados, fatias vegetais etc. sem ter que abrir mão, como se vem fazendo até agora, de glúten puro de trigo ou de preparados para seitan para alcançar tais objetivos. Podemos autoproduzir um prato saboroso, nutritivo, e complicado de guisar só na aparência!

Que é que caracteriza a autoprodução para quem se identifica com um estilo de vida e de alimentação vegana subversiva?

A fermentação das verduras, a criação de massas de verduras sós ou de verduras e farinhas não refinadas em alternativa a produtos comerciais feitos com amidos, glúten puro e amidos industriais na criação de produtos vegetais proteicos semelhantes a carne. Esta técnica de autoprodução se vale de produtos em bruto, facilmente localizados onde estão os camponeses, ao contrário dos do comércio que empregam ingredientes refinados e industriais!

Como se pode defender um saber e evitar que seja utilizado pelas empresas?

Nós temos considerado estas dúvidas desde o princípio e temos refletido sobre a utilização de ingredientes de origem industrial na cozinha, conseguindo acabar com eles pouco a pouco. Estamos desenvolvendo um projeto para compartilhar estes conhecimentos e evitar que se convertam em fonte de negócio, a ideia é ao contrário criar um fundo de fomento de projetos laborais cooperativos sem patrões.

Como se realizará o projeto?

Por hora estamos não obstante em uma fase de análises, avaliando como prosseguir este nosso percurso. Ainda se está debatendo criar uma associação ou uma fundação e registrar a marca. Estamos estudando registrar coletivamente uma marca que identifique este tipo de massa de modo que se impeça que uma empresa qualquer possa produzi-los e vendê-los em grande distribuição. Nós faríamos algo completamente diferente do que fazem as empresas tradicionais que produzem seitan, mopur, músculo de trigo, embutidos e assados veganos. Mediante uma ferramenta que a nós anarquistas não agrada especialmente, ou seja o registro de uma marca, quiséramos excluir a quem especula e faz negócios com base a estes conhecimentos e difundir esses saberes nas cozinhas dos lares, dos pequenos pubs, dos centros sociais. Assim como hoje se faz o pão em casa com levedura mãe, nos agradaria que algum dia se prepararem estas massas de verduras fermentadas em casa em vez de ir comprá-las como ocorre hoje com produtos similares, nos negócios biológicos ou nos discount.

Como transmitir estes novos conhecimentos?

Nós quiséramos difundir este saber entre indivíduos mediante a organização de aulas ministradas por companheiros-formadores pagos para realizar esta atividade.

Existe uma estratégia comercial viável?

A licença se poderia ceder a pequenos donos de restaurantes minimamente éticos e com os ingressos se poderia realizar ou apoiar projetos de cooperação aos quais está difícil se equilibrar economicamente e resultar sustentável (veja-se Sfruttazero, -“Explotacero”- que consegue a duras penas produzir molho cada ano graças a arrecadação de fundos e de meios de produção mediante formas mutualistas), realizar um projeto que gere lucro a quem trabalha nele todo o ano. No caso de Sfruttazero, se houvesse um financiamento mais sólido, a solução que os próprios companheiros da região da Puglia se propõe alcançar é a abertura de um laboratório de transformação ativo todo o ano onde se transforme o tomate em molho mas também outras conservas para trabalhar em todas as estações com produtos diversos.

Em que aspectos a Cozinha Subversiva é propriamente “anarquista”?

Nos agrada a ideia de uma revolução integral, sem compromissos, que se construa dia a dia seguindo dois caminhos: um, individual que lhes corresponde aos indivíduos escolher e um, coletivo, que corresponde aos esforços que fazemos todos juntos pelos projetos que levamos adiante coletivamente para liberar-nos da opressão do capital e do Estado. A alimentação e o consumo são aspectos fundamentais da revolução porque uma parte relevante do capitalismo a derrubar especula com a produção alimentícia com a cumplicidade das instituições. Temos que construir estruturas autogestionadas que nos ajudem a prescindir tanto do capitalismo como do Estado. Nós, em torno à fermentação das verduras e outros temas de primeiro plano para Cozinha Subversiva, queremos criar uma comunidade capaz de interatuar virtualmente no novo foro e também de estabelecer relações sãs, horizontais, de intercâmbio e apoio mútuo. O foro de Cozinha Subversiva pode converter-se em uma ferramenta de comunicação rápida vinculada à colheita e a distribuição de produtos da terra, de sinalização de eventos, de iniciativas solidárias, de intercâmbio de mão de obra, etc. Cozinha Subversiva favorecerá relações reais organizando eventos relacionados com a cultura alimentícia, momentos de formação e intercâmbio de saberes, concursos de cozinha para promover as autoproduções e os mercados de autoprodução.

Convidamos a todos aqueles que nutram interesse e curiosidade por estes conteúdos a visitar o site cucinasovversiva.it, interatuando no foro e participando nos projetos!

Monica Jornet

Grupos Errico Malatesta – FAI – Napoli e Gaston Couté – Fédération Anarchiste

Fonte: http://www.umanitanova.org/2017/12/03/cucina-anarchica-una-rivoluzione-in-atto/

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

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agência de notícias anarquistas-ana

é só um instante:
o beija-flor no ar, sugando
flor de laranjeira

Otávio Coral

[Espanha] Lançamento: “Leer en rojo. Auge y caída del libro obrero (1917-1931)”

Frente aos movimentos sociais que consideravam a Cultura como um templo que o trabalhador tem o direito de possuir, a proposta anarquista distinguiu-se por negar que da Cultura estabelecida, produzida e difundida pela burguesia, se pudesse obter algo positivo para a emancipação da classe trabalhadora.

Para alcançar isto havia que se criar um modelo cultural próprio, totalmente à margem do existente, com novos conceitos e processos de gestão “do cultural” e do conhecimento. Além disso, a revolução cultural deveria preceder à social: só assim viria para ficar. Conhecer a fundo a realidade para poder transformá-la. Por isto, a entusiasta explosão de editoras e publicações marginais que aconteceram nas primeiras décadas do Século XX, cujo intenso brilho encantou inclusive a esquerda republicana em um momento crucial da nossa história. “Leer en Rojo” analisa as editoras e as publicações daquele arrebatador período cultural, onde os livros haviam de ser a argamassa onde se construía um Novo Mundo.

Alejandro Civantos Urrutia é Doutor em Literatura Comparada pela Universidade de Granada, e professor no IES Arjé (Chauchina), onde é Chefe de Estudos. Como pesquisador participou no projeto do Centro de Documentação Crítica de Madrid sobre a literatura avançada dos anos 20 e 30, colaborando com dois ensaios, “La izquierda radical en la crisis de la monarquía” e “La revolución editorial de El nuevo romanticismo“, recolhidos em “Una generación perdida” (Stockcero,2013). Publicou na revista “Sociocriticism” (2016) um estudo sobre a editora anarquista cordobesa “Renovación Proletaria“. Participou também em revista de criação literária como “Artegnos“, “Istmo” e “Hijos de la Lira“. É autor do volume de relatos “Mujeres en día lluvioso” (LGR, 2014).

Leer en rojo. Auge y caída del libro obrero (1917-1931)

Alejandro Civantos Urrutia

Col. Investigación, 3

FAL, Madrid, 2017

324 págs. PVP: 12 euros

Fundación de Estudios Libertarios Anselmo Lorenzo

C/Peñuelas, 41 -28005 Madrid-Espanha

fal@cnt.es

fal.cnt.es

Twitter: @FAnselmoLorenzo

Tradução > Rosa e Canela

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inútil, inútil
a forte chuva
mergulha no mar

Jack Kerouac

[Canadá] Convocatória à 9ª Conferência da Rede de Estudos Anarquistas da América do Norte

A Rede de Estudos Anarquistas da América do Norte (NAASN) convoca às apresentações para nossa nona conferência que se realizará em 1º, 2 e 3 de junho de 2018 em Tiotia:ke, também conhecida como “Montreal, Canadá”.

De acordo com o espírito aberto e fluido do anarquismo, não limitamos a convocatória a temas de discussão específicos, mas incentivamos às apresentações a abordar as diversas matérias históricas, contemporâneas e utópicas.

NAASN dá boas vindas a trabalhos que examinem assuntos sobre indigenismo, etnicidade, gênero, sexualidade, culturas juvenis e urbanas; e a estudos que cruzem disciplinas e campos que incluam, mas não se limitem, à filosofia, teoria politica, psicologia, musicologia, estudos literários, antropologia, sociologia, geografia, estudos raciais críticos, estudos queer e trans, estudos sobre o trabalho, estudos sobre deficiência, desenho gráfico e artes plásticas. Também incentivamos aqueles estudiosos das ciências duras e outros campos, que encontrem influências ou relevâncias anarquistas em seu próprio trabalho.

Apresentações anteriores incluíram: as lutas populares, os movimentos sociais e camponeses, a descolonização e o ressurgimento indígena, fronteiras e imperialismo, racismo, violência policial, tortura, vigilância, tecnologia; assim como biografias, histórias orais, historiografia, e subculturas anarquistas.

Buscamos incluir as vozes de ativistas, militantes, artistas e acadêmicos; NAASN é uma rede comprometida com a produção do conhecimento, tanto dentro dos muros institucionais como fora deles. Estamos particularmente interessados em incluir vozes e perspectivas marginalizadas, e incitar a derrubada das barreiras entre disciplinas, assim como entre o acadêmico e o não acadêmico inclusive o antiacadêmico. Desde as ruas até o escritório, animamos a todos aqueles interessados na prática do anarquismo ou a todo anarquista a enviar sua proposta. NAASN tem o propósito de ser um espaço onde a disciplina e a resistência podem convergir na Ilha Tortuga/”América do Norte”. As apresentações dos painéis, comunicações individuais, oficinas, apresentações de livros, e formatos alternativos serão considerados com agrado!

ENVIO DE PROPOSTAS + PERGUNTAS

Os envios de propostas para a conferência, ou perguntas, deverão ser dirigidos ao comitê organizador de NAASN 2018: naasn2018@riseup.net

Por favor inclua em seu envio:

– Um resumo de sua proposta, com até 300 palavras.

– Uma biografia breve, com até 150 palavras.

– Os idiomas em que se pode apresentar são: espanhol, francês ou inglês. (isto nos ajuda a planejar a interpretação idiomática, já que NAASN apoiará com intérpretes ao vivo)

– Participantes. Somos conscientes das barreiras impostas pela distância e as fronteiras. Se não puder participar pessoalmente, por favor avise em tua mensagem; se suas propostas forem aceitas, te convidaremos a enviar uma apresentação pré gravada que poderá ser reproduzida durante a conferência. Também te pediremos, provavelmente, que estejas disponível durante a conferência para perguntas e respostas a distância, se a tecnologia assim o permitir.

– Se tens alguma ideia da extensão de tua apresentação, sinta-se livre para incluir o dado. Por exemplo, 20 minutos vs 40 minutos. Tentaremos acomodar-te, mas a duração das apresentações será afetada pelo número de sessões ou participantes.

Por favor envia tua proposta antes de 31 de janeiro de 2018. Nós responderemos a todas as propostas antes de 28 de fevereiro de 2018.

NAASN 2018 se realizará no território não cedido de Kanien’kehá:ka. Os Kanien’kehá:ka são os guardiões da Porta do Leste da Confederação Haudenosaunee. No idioma de Kanien’kehá:ka, Tiotia:ke é o nome da ilha apelidada depois como “Montreal”, um lugar que por muito tempo foi o ponto de encontro para outros povos indígenas, tais como os Algonquin.

FAZER CONTATO COM A NAASN

Todas as dúvidas sobre a conferência de 2018 deverão ser enviadas anaasn2018@riseup.net. Se for possível participar da conferência, particularmente como tradutor ou intérprete, por favor nos comunique, Precisamos de você! Atenção: as dúvidas sobre acessibilidade ou segurança serão bem recebidas, caso os participantes apresentem algo ou não. A inclusão é importante para nós.

Para maior informação sobre a North American Anarchist Studies Network (Rede de Estudos de Anarquismo da America do Norte), ou para inscrever-se na lista de correios da rede, te convidamos a visitar o site web naasn.org.

Por favor, divulguem.

naasn.org

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/08/29/mexico-8a-conferencia-anual-da-rede-de-estudos-anarquistas-da-america-do-norte/

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dois amigos na janela
a lua
encontra o pinheiro

Ricardo Portugal

[Grécia] O que (não) é que estamos vivendo, parte III

Neste post, publicamos o terceiro dos três cartazes publicados no site classwardogz.wordpress.com, intitulado “O que é que estamos vivendo”. Todos os cartazes da série podem ser vistos aqui.

O que estamos vivendo não é algum parêntese desagradável, ou qualquer pesadelo que, quando acordarmos, tudo estará bem.

É uma profunda derrota de classe, de quarenta anos, mental, politica e cada vez mais a nível material.

Quanto mais cedo entendermos e deixarmos de reproduzir contos esquerdistas estatais e nos organizarmos adequadamente, melhor para nós.

Fonte: classwardogz.wordpress.com.

O texto em castelhano:

http://verba-volant.info/es/que-no-es-lo-que-estamos-viviendo-parte-iii/

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/12/21/grecia-o-que-nao-e-que-estamos-vivendo/

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Novos ares respirar
Vento traz palavras
Sentimento é semente

Mara Mari

[Espanha] Fernán Gómez, escola ácrata

Na sua dilatada trajetória, existem muitos sinais de Fernán Gómez no mundo libertário, seja em seus filmes ou em suas obras.

Por Julián Vadillo

Quando a 21 de novembro de 2007 faleceu Fernando Fernán Gómez, um fato que chamou a atenção. No teatro Espanhol, onde estava o velório, o caixão do ator, dramaturgo e escritor de voz grave, estava coberto com uma bandeira vermelha e negra: a bandeira anarquista.

E não era para menos, pois Fernán Gómez sempre mostrou simpatia perante os ideais libertários que conheceu na Espanha na década de 30, quando começava já a demonstrar o que viria a ser posteriormente.

Nasceu em Lima em 1921, e muito cedo mudou-se para Madrid, e na capital Espanhola viveu os anos republicanos e a Guerra Civil. Não se pode dizer, de nenhuma maneira, que a família de Fernán Gómez tivesse um vínculo com a política de esquerda. A isto apenas escapava um tio, filiado na CNT, com o qual Fernán Gómez começou a conhecer o que era o anarquismo.

E embora a Guerra Civil não tenha sido um período fácil, e muito menos para uma família de atores, graças à CNT os espetáculos públicos reorganizaram-se e muitos puderam trabalhar. A mãe de Fernando, Carola, fez isso no teatro Alcázar.

Mas ele também o fez, quando, filiado na CNT, formou parte da Escola de Atores da organização anarcossindicalista, sob a direção de Valentín de Pedro, um dos mais importantes intelectuais libertários da época, e a sua companheira María Boixader. Duas personagens que marcaram a vida do próprio Fernán Gómez, que naquela época começou a construir uma profunda cultura também graças à biblioteca que a CNT tinha num dos locais apreendidos pelos anarquistas e frequentado pelo ator. Além disso, nesta época conhece quem virá a se tornar um dos seus grandes amigos, o também ator Manuel Alexandre. Também não se pode esquecer desta altura de Fernando Collado, que no momento dirigia um dos sindicatos da CNT na Madrid sitiada e com ele que posteriormente coincidirá no mundo do cinema.

Essa carreira de ator que tinha começado nos locais da CNT e na Escola de Atores ficou truncada com o final da Guerra Civil. O jovem ator assistiu ao conselho de guerra que condenou à morte (logo comutada) a Valentín de Pedro, seu professor. Nesse mesmo conselho de guerra foram condenados o jornalista e escritor republicano Diego San José e o redator da CNT e depois do “El Sindicalista” Carlos Rivero.

Foi o próprio Fernán Gómez que nos transmitiu este julgamento, nas suas memórias “El Tiempo Amarillo“, e também o próprio Diego San José na sua excepcional “De cárcel en cárcel“. E embora os anos da ditadura caíram como chumbo sobre todos, a vida de Fernando Fernán Gómez nesse tempo centrou-se na carreira de ator.

Após a morte de Franco encontramos Fernando Fernán Gómez nas Jornadas Libertárias de Barcelona em 1977. O seu compromisso com o movimento libertário sempre esteve presente, tanto para ele como para a sua companheira, Emma Cohen.

O seu estrondoso “No a la guerra!” na manifestação de Madrid em fevereiro de 2003, assim como nas suas constantes referências na causa libertária, fizeram de Fernán Gómez uma referência no campo libertário, mais por seu compromisso pessoal do que militante.

Ao longo da sua dilatada história existem muitos sinais de Fernán Gómez no mundo libertário, seja em seus filmes ou em suas obras. A sua amizade com o jornalista Eduardo de Guzmán levou ao ecrã o filme “Mi hija hildegart“, baseada na obra da “Aurora de sangre”, que conta a história surpreendente e pouco conhecida de Hildegart Rodríguez Carballeira, recriando parte do mundo cultural libertário da Segunda República.

Ou em “Las bicicletas son para el verano“, escrita em 1977 e levada ao cinema por Jaime Chávarri em 1984, na qual aparecem vários cenetistas. Nela Fernando deixou bem claro, pela sua própria experiência, que em 1939 não chegou a paz, mas sim a vitória, talvez recordando o triste destino do seu professor Valentín de Pedro, entre muitos outros.

Fonte: https://www.elsaltodiario.com/memoria-historica/fernan-gomez-escuela-acrata

Tradução > Rosa e Canela

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Todos dormem.
Eu nado na noite que
entra pela janela.

Robert Melançon