ufa, estamos saindo de férias!

ufa, estamos saindo de férias!

retornamos dia 4 de fevereiro de 2019. até a volta!

agência de notícias anarquistas-ana

“Sugestões de leitura para as férias de 2019”

Com as férias chegando, a Agência de Notícias Anarquistas (ANA) pediu que oito anarquistas indicassem para leitura em 2019 dois livros, um marcadamente anarquista e outro não, antigo ou novo. Eis abaixo as sugestões. Boa leitura!

[um]

por Luiz Alberto Barreto Leite

Florbela Espanca versus Adonias Filho. Em 26 de agosto de 1930, em pleno Estado Novo salazarista, a ditadura fascista que governou Portugal durante décadas, Florbela Espanca escreve a seu amigo Guido Battelli, pesquisador e editor, uma carta significativa, em que se destaca um parágrafo inicial afiado como um bisturi:

Não, não falaremos de política nem de religião; não nos entenderíamos. Sou pagã e anarquista, como não poderia deixar de ser uma pantera que se preza…”

Uma tomada de posição que sintetiza a vida que levou, sendo pioneira no ingresso feminino à Universidade, na frequência a círculos literários, enfrentando o pensamento predominante na sociedade lusitana de retorno às trevas da Inquisição, mas também os preconceitos que ainda traziam aqueles que lutavam pela Liberdade. Seus poemas muito nos ensinam sobre amor, sexualidade e morte e sobre os direitos que todos temos de dispor dos nossos corpos e de decidir quando a própria vida deve terminar. Quem lê o Portal Anarquista e o blog da Agência de Notícias Anarquistas (ANA) já deve ter alguma intimidade com Florbela. Mas o convite que recebi foi para indicar um livro marcadamente anarquista. Vejam bem, não estou indicando um livro de Anarquismo explícito, mas um livro de poesia de uma autora que fez um longo caminho libertário até explicitar-se como anarquista a pouco mais de três meses do seu suicídio final.

O livro que indico é o da maturidade. Só viria a ser publicado em 1931, um ano após a sua morte, aos 36 anos: Charneca em Flor, título também do soneto que abre o livro.

Das derrotas, das queimaduras, despe a mortalha, reergue-se como charneca rude, não o pântano brasileiro, mas o luso terreno arenoso, inculto e árido, com vegetação rasteira (Aulete digital) que se abre em flor. É vida!

Não há como não se apaixonar por Florbela Espanca, nascida Flor Bela Lobo e que se nomeou Florbela d’Alma da Conceição Espanca.

Charneca em flor

Enche o meu peito, num encanto mago,

O frémito das coisas dolorosas…

Sob as urzes queimadas nascem rosas…

Nos meus olhos as lágrimas apago…

Anseio! Asas abertas! O que trago

Em mim? Eu oiço bocas silenciosas

Murmurar-me as palavras misteriosas

Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,

Dispo a minha mortalha, o meu burel,

E, já não sou, Amor, Soror Saudade…

Olhos a arder em êxtases de amor,

Boca a saber a sol, a fruto, a mel:

Sou a charneca rude a abrir em flor!

Para quem quiser saber mais sobre o tema, recomendo o ensaio de Enrique Marques Samyn, “Sou pagã e anarquista: Florbela Espanca diante da Política publicado no portal Academia.edu (https://www.academia.edu/33385840/_Sou_pag%C3%A3_e_anarquista_Florbela_Espanca_diante_da_pol%C3%ADtica)

O convite também contempla a indicação de um autor e um livro que não sejam marcadamente anarquistas. Ora, vou para o outro extremo: um autor assumidamente integralista, figura destacada nos primeiros Governos militares pós 64. Dirigiu a Biblioteca Nacional de 1961 a 1971, foi membro e depois Presidente do Conselho Federal de Cultura, até sua morte em 1990. Além disso, dirigiu a Agência Nacional (órgão informativo do Governo) e presidiu, em 1972, a Associação Brasileira de Imprensa. Embora politicamente fascista, foi um defensor, nos meios golpistas, da liberdade de expressão. Não tenho notícias de que haja perseguido um único intelectual ou qualquer dos funcionários que trabalharam sob suas ordens. Pelo contrário, ajudou o cineasta comunista, baiano como ele, Olney São Paulo, quando saiu da cadeia em 1974, a realizar “O Forte”, baseado em um dos seus romances. Olney estava na lista negra depois que seu média metragem de 1969, Manhã Cinzenta (uma obra-prima), fora exibido em Cuba, levado por um cineclubista em um avião sequestrado.

O livro que indico é de 1975: “As velhas”. Adonias já tinha vivido dois terços de sua vida e aperfeiçoado sua escrita. Raquel de Queiroz, em texto introdutório no próprio livro, diz, bem dito: “o lugar de Adonias Filho na ficção brasileira, todos sabemos que é singular e pessoalíssimo. A prosa nobre e enxuta, a economia concisa do estilo, ao mesmo tempo tão sóbrio e de tão intensa conotação poética; e essa força de poesia atinge por vezes momentos tão altos que o romance chega a ser então mais um canto do que uma simples narrativa”. Nele está a rudeza “civilizatória” da região cacaueira do Sul da Bahia, contada a partir do enfrentamento de clãs encabeçados por quatro velhas, que a viuvez possibilitou chegarem ao comando em uma cultura na qual as mulheres existiam para servir.

A poesia de Florbela Espanca, a anarquista, e a prosa de Adonias Filho, tão diferentes, mas tão próximas da perfeição, nos trazem mulheres fortes, donas de seus corpos, traçando rumos tão diferentes, Florbela despindo-se de qualquer pretensão ao poder, Adonias e suas velhas apoderando-se do que era dos homens e exercendo o poder sem complacência.

[dois]

por Ingrid Ladeira

Livro anarquista: Minha desilusão na Rússia – Emma Goldman. Trata-se da primeira compilação de artigos escritos por Emma Goldman para o jornal New York Word publicada no ano de 1923. Goldman relata nos artigos sua decepção frente a experiência que viveu na Rússia revolucionária dominada pelos bolcheviques. Emma Goldman entendia que a revolução bolchevique seria um passo importante para o movimento anarquista mundial, chegando a elogiar a revolução em seu periódico Mother Earth. Goldman e seu companheiro Alexander Berkman foram deportados para Rússia juntamente com mais duzentos anarquistas que viviam nos Estados Unidos, as batidas policiais foram conduzidas por Edgar Hoover.

Emma demonstrava preocupações sobre os rumos que a Guerra Civil Russa poderia tomar, aliando essas preocupações com a possibilidade de ser pega pelas forças anti-bolcheviques. Em sua viagem pelo país, encontrou repressão, administrações falhas, corrupção ao invés de justiça social, como havia imaginado. Diante desse cenário sem liberdade, Emma Goldman decidiu que não havia futuro naquele país para ela e seus companheiros anarquistas, posteriormente os anarquistas foram perseguidos impiedosamente pelo governo bolchevique.

Por quê indicar esse livro? Precisamos valorizar os escritos femininos no que diz respeito aos acontecimentos da humanidade. Emma Goldman foi uma das maiores anarquistas que já existiu, sua fibra e coragem inspira a todos que conhecem sua trajetória e seu ativismo. Além disso, teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo nos Estados Unidos e no mundo, seus escritos políticos sobre as questões femininas e sobre os problemas da sociedade ultrapassaram as fronteiras marítimas chegando na Europa e na América Latina. Inspirou mulheres no Brasil, na Argentina, Uruguai, Chile. Precisamos ler Emma Goldman! Precisamos ler as mulheres anarquistas!

Outra indicação (livro não anarquista): O Segundo Sexo – Simone de Beauvoir. Publicado originalmente em 1940 é uma das obras mais importantes para o movimento feminista mundial. Neste livro Simone de Beauvoir analisa a situação da mulher na sociedade. A autora procura abordar os diversos aspectos psicológicos, biológicos e históricos da condição feminina na sociedade patriarcal. Este livro inspirou os movimentos feministas das décadas de 60 e 70. No Brasil foi publicado em dois volumes, o primeiro faz uma reflexão sobre os fatos que condicionam a situação da mulher na sociedade e o segundo volume analisa a condição feminina a partir de esferas diferentes.

Por quê indicar esse livro? Reafirmo que precisamos ler os escritos de mulheres! Este livro revolucionou o entendimento da situação feminina em sua sociedade que reprimi os comportamentos fora do padrão. O livro é conscientizador e inspirador, necessário para entender as conquistas femininas nos dias atuais.

[três]

por Zion

A Estratégia do Especifismo”. Na presente entrevista realizada em 2009 por Felipe Corrêa, Juan Carlos Mechoso, militante histórico da Federação Anarquista Uruguaia (FAU), responde questões sobre a estratégia do Anarquismo Especifista. Essa concepção político – organizativa do organismo. Produzida no seio da FAU a partir da leitura de alguns clássicos anarquistas e contribuições próprias, além de ter sido bastante relevante no Uruguai nos anos 1960 e 1970, constitui um referencial de suma importância para várias organizações anarquistas, que hoje compõem a Coordenação Anarquista Brasileira (CAB).

Motivo da indicação: Por décadas o vetor social do anarquismo foi colocado de lado, parte disso ocorreu de forma premeditada e articulada através da propaganda do sistema pra impedir o crescimento de uma ideologia que estava mobilizando a população nos anos 1910 e 1920 e conseguiu diversas conquistas nos direitos trabalhistas. O anarquismo aos poucos foi se tornando uma ideologia individualista e sem inserção nas massas e com isso pouco perigoso para o Estado e o Capitalismo. O Especifismo é uma proposta latino americana de organização que coloca o anarquismo na sua origem, lutando ombro a ombro com o povo que a partir do Uruguai se expande pro Brasil em diversos estados formando a CAB, Argentina e África do Sul.

A Revolução Ignorada – Liberação da mulher, democracia direta e pluralismo radical no Oriente Médio”. Inspirado em parte pela visão do ecologista social e anarquista de Murray Bookchin, adotou a perspectiva do “municipalismo libertário”, pregando entre os curdos a criação de comunidades livres e autônomas, baseadas nos princípios da democracia direta, que iriam juntas além das fronteiras nacionais – as quais, com o tempo, se espera que percam seu significado. Neste sentido, como propuseram, a luta curda poderia se tornar um modelo para um movimento mundial rumo a uma democracia genuína, uma economia cooperativa e a dissolução gradual do Estado-nação burocrático.

Motivo da Indicação: Rojava é uma revolução abafada tanto, obviamente, pela direita quanto pela esquerda, por ser hegemonicamente eleitoral ou autoritária. Rojava é a prova que a revolução não precisa da transição de um estado socialista. Nos pilares da libertação da mulher (não seria exagero que nenhuma outra revolução o protagonismo feminino foi tão grande), na democracia direta e no pluralismo radical, entender e divulgar Rojava se torna uma prática revolucionária em quem acredita numa transformação social sem a força opressora do Estado.

[quatro]

por Sol de Abril

Minha sugestão de leitura anárquica é o livro “Federica Montseny – Primera ministra electa en Europa” (Colección Base Hispánica Editorial Base – Barcelona – 2014). O livro trata da biografia de Federica Montseny, grande personagem do movimento libertário do século XX, atuou como líder sindical durante a guerra civil espanhola, foi ministra da saúde entre 1936 e 1937. Em 1939 se exilou na França, e dedicou sua vida no exílio à luta antifranquista. Durante a Segunda Guerra seu nome figurava na lista negra enviada por Franco ao governo alemão e ao governo colaboracionista de Vichy pedindo sua extradição. Chegou a ser presa mas não extraditada. Retornou à Espanha em 1977 por um breve período e logo regressa ao exílio em Toulouse onde escreve suas memórias e retoma a luta com seus companheiros de exílio. É nessa cidade que falece em janeiro de 1994. A autora Antonina Rodrigo é uma prestigiada escritora espanhola que se destaca pelo gênero biográfico, contribuindo para divulgar o papel das mulheres revolucionárias na história da Espanha.

A outra sugestão é “Ensaio sobre a Lucidez” (Companhia da Letras), escrito em 2004 por José Saramago. É uma genial crítica às instituições políticas e à democracia representativa com seus partidos de direita, centro e esquerda. Embora inspirado pela vida política portuguesa a história que acontece em uma cidade fictícia de um país qualquer, é muito significativa e instigante, inclusive para nós no Brasil de hoje.

[cinco]

por Maikon Jean Duarte

A estratégia do especifismo – Juan Carlos Mechoso. As narrativas históricas sobre o anarquismo é marcada por uma perspectiva eurocêntrica. As agitações, lutas e organizações das e dos de baixo dos países do sul-global são ignoradas, quando muito são mencionadas em notas de rodapé. Por este território que enraizamos o nosso anarquismo também ocorre uma interpretação colonialista sobre as lutas dos povos oprimidos. Os livros pouco abordam a presença anarquista na América Latina, especialmente das regiões colonizadas pela Espanha. O livro A estratégia do especifismo, elaborado e editado pela Editora Faísca, acaba por trazer uma pequena contribuição, mas necessária. A obra é uma entrevista com Juan Carlos Mechoso, que desde a década de 1950 é um quadro militante da FAU, Federação Anarquista Uruguaia. A companheirada da banda oriental foi responsável por construir um anarquismo com cara e jeito dos sofrimentos, resistências e organização dos povos oprimidos da América Latina. A conjuntura local foi fundamental nas interpretações das obras e histórias de militância de Bakunin, Malatesta e da larga história do sindicalismo de intenção revolucionária. A trajetória anarquista apresentada pelas palavras de Mechoso oferecem a alternativa de organização da militância anarquista com projeto de sociedade futura, onde este trabalho político interfere nas lutas contra todas as formas de opressões.

A história em quadrinhos Asa Quebrada, de Antonio Altarriba (roteiro) e Kim (desenho), é de uma potência sem tamanho. O livro conta a história de gente humilde e entregue as amarras do cotidiano do período antes, durante e depois do governo fascista de Franco. A obra conta a história de Petra, a mãe de Altarriba. É uma espécie de segunda parte da memória do roteirista sobre os seus pais – em A arte de voar falou de seu pai. Petra foi uma criança rejeitada por quem deveria se importar, faz de sua vida uma constante entrega aos outros. Como o povo viveu sobre regimes autoritários? Quais as estratégias foram criadas por estes para sobreviver os dias difíceis da repressão? A obra não tem por objetivo responder estas perguntas, mas são pontos que ficaram no meu imaginário ao concluir a leitura. Afinal, como será a vida cotidiana no período que se inaugurará no 01 de janeiro de 2019? O livro é maior do que as perguntas expostas aqui, mas é o que fica comigo frente ao próximo ano.

[seis]

por Jully Vasconcelos

Recebi o convite para indicar duas obras para leitura em 2019. Poderia listar alguns aqui que valem muito a pena serem lidos como: “Facismo: Filho Dileto da Igreja e do Capital” e “A Mulher é uma Degenerada” de Maria Lacerda de Moura, “Vivendo Minha Vida” e “Minha Desilusão na Rússia” de Emma Goldmam, “Preferi Roubar a Ser Roubado” lançado pela Barricada de Livros, entre outros…

Mas darei destaque para duas obras em especial, como pedido. A primeira é “O Triunfo da Anarquia e outros escritos” de Isabel Cerruti, lançado pela Biblioteca Terra Livre. Eu estava bem ansiosa em ter esse livro em mãos e quando ganhei de presente do meu companheiro a obra superou minhas expectativas em todos os sentidos. Desde a belíssima capa, seleção e divisão dos textos, as gravuras, tudo cuidadosamente selecionado e organizado nesse livro que nos enche os olhos e o coração.

Já havia lido algumas coisas da Isabel Cerruti, mas esta publicação traz ao conhecimento geral vários textos que poucas pessoas tiveram acesso ou oportunidade de ler. Por isso é um trabalho muito importante, ainda mais se tratando de uma militante anarquista brasileira que não tem seus escritos tão difundidos quanto outras mais famosas. O fato é que temos uma história muito rica de mulheres que atuaram fortemente no movimento anarquista brasileiro e, muitas vezes, desconhecemos tal história. Seja pelo obscurecimento e apagamento histórico, ou por falta de acesso, falta de tempo para pesquisar, etc, sendo estes trabalhos de pesquisa, seleção, transcrição e publicação desse material de suma importância para esse resgate e para o fortalecimento do anarquismo em si e do anarcofeminismo.

Isabel Cerruti (1886-1970) nasceu em São Paulo, passando parte de sua infância no Brás (bairro operário) e interessada desde cedo pelas idéias anarquistas, participou intensamente do movimento operário entre 1910 e 1960. Isabel escreveu ativamente em jornais anarquistas, como A Plebe e A Lanterna, além de colaborar com publicações em outros estados, com seu próprio nome e com os pseudônimos Isa, Ruti e Isabel Silva.

Como oradora proferiu conferências e comícios públicos, em prol do anarquismo, da educação da classe trabalhadora. Fez parte, ao lado das irmãs Soares, do Centro Feminino de Educação. Não rejeitava convites para defender a mulher trabalhadora, e via no homem não seu rival, mas um companheiro de lutas. Isabel Cerruti combatia o feminismo burguês, a exploração capitalista, o oportunismo político e, acima de tudo, denunciava a miséria humana através de sua verve ácida e seu espírito delicado e livre. Defensora intransigente da dignidade humana e do ideal anarquista, morreu em casa, em São Paulo no ano de 1970.

“O Triunfo da Anarquia e outros escritos” de Isabel Cerruti está dividido em oito partes: Ideal Anarquista e Revolução Social, Questão Feminina, Questão Operária e Sindicalismo, Religião e Anticlericalismo, Amor Livre, Desigualdade Econômica e Social, Pingos D’Água e Outros Escritos. Após uma introdução biográfica destacam-se, os textos em que a autora declara abertamente sua vinculação ao anarquismo. Seguem os artigos sobre a questão feminina, reflexões sobre o papel e atuação da mulher nos espaços políticos. Trazendo algumas das discussões do movimento anarquista e operário, vem os escritos sobre sindicalismo e, em seguida, os textos anticlericais. Na seção Amor Livre, o debate desenvolvido por Cerruti com outros camaradas anarquistas nas páginas do jornal A Plebe. A questão das desigualdades econômicas e sociais, também objetos de reflexão de Isabel. Finalizando na compilação Pingos D’Água e outros escritos anteriores. De acordo com a Biblioteca Terra Livre: “Uma vida plena de “gotas” dedicadas ao anarquismo, que agora agrupadas formam um enorme oceano de ideias”. Vale a pena cada linha…

A segunda dica vai para o livro, também recém lançado, de Rodrigo Ktarse “Inflamando Pensamentos Insurgentes no Gueto – Literatura Incendiária Combativa”. Essa obra é um soco no estômago da sociedade capitalista e racista!!! Sendo um livro simples, com linguagem acessível, não acadêmica e de fácil entendimento Rodrigo Ktarse traz uma necessária reflexão acerca da sociedade ontem e hoje, acerca das estruturas sociais, de luta de classes e sobre a questão racial de forma direta e didática, com referências à Malcolm X e os movimentos de luta contra o encarceramento em massa, movimentos contra o genocídio do povo preto pobre periférico, emancipação da mulher, direito dos povos indígenas em luta contra o sistema capitalista. Usando A PALAVRA (os livros e as letras de Rap) como uma ferramenta de luta a obra nos tira das zonas de conforto espaciais e da alienação compulsória estática, te faz refletir, pensar e querer se mover.

O livro está dividido em seis partes: 1- Gueto Subversivo; 2- Pelo Pão, Pela Terra, Pela Liberdade; 3- Reflexão; 4- A Arma do Opressor; 5- A Guerra Interminável Contra a Vida do Povo do Gueto e 6- Sabedoria. A belíssima capa, projeto gráfico e diagramação feitas por Sergio Rossi, prefácio de José Poeta e Palhaço.

Como cita Katarse, de acordo com Malcolm X: “Normalmente, quando as pessoas estão tristes, não fazem nada. Limitam-se a chorar. Mas quando sua tristeza se converte em indignação, elas são capazes de fazer as coisas mudarem”. Leiam, pois vale muito a pena. É realmente um livro incrível!!!

[sete]

por breu

TAZ: Zona Autônoma Temporária” – Hakim Bey. Datado de 1985 e publicado no Brasil pela Conrad, TAZ tem seu valor e sua necessidade preservados, ainda mais considerando o atual contexto político, principalmente no Brasil. Isso porque o conceito da zona autônoma temporária – doravante TAZ – se encaixa perfeitamente numa lacuna aqui vigente – aqui no Brasil, aqui na política, aqui no macro e no micro, aqui em nós. Partindo da formulação de uma análise sobre as organizações piratas do século XVIII, Bey propõe que se criem e destruam, construam e extingam, recriem e refaçam zonas autônomas temporárias – em vez de esperarmos eternamente pela concretização de uma revolução –, que podem ser físicas, temporais, imaginárias, e que começam com um simples ato de percepção. O livro conta com capítulos intitulados “Utopias Piratas”, “A Psicopatologia da Vida Cotidiana”, “A Ânsia de Poder como Desaparecimento” e “Caos Linguístico”, dentre outros. E já que Hakim Bey deliberadamente não define o conceito da TAZ, explicando que “(…) se o termo entrasse em uso seria compreendido sem dificuldades… compreendido em ação”, dá pra entender que o texto trata de prática, de vivência, de experimentação, e não de teorias conceituadas em abstração; em suma, não se trata de anarquismo, mas de anarquia.

A Política Sexual da Carne: uma teoria feminista-vegetariana” – Carol J. Adams. Publicado originalmente em 1990, A Política Sexual da Carne procura traçar uma intersecção entre a matança de animais e a violência contra a mulher, entre a exploração de ambos. O livro revela estruturas sutis que operam na lógica da dominação, e que se manifestam nas relações de poder inerentes à sociedade capitalista patriarcal (uma das muitas expressões de uma sociedade cuja principal característica é sua natureza hierárquica). A autora une temas como o militarismo, o fordismo, o Frankenstein de Mary Shelley, a linguagem como forma de legitimação (ou de invalidação) da máquina opressora. “O texto cultural que determina as atitudes positivas predominantes sobre o consumo de animais raramente é examinado com rigor. A principal razão disso é a natureza patriarcal do nosso discurso cultural de defesa da carne. A mensagem reconhecível da carne inclui a associação com o papel masculino; seu significado é reafirmado dentro de um sistema fixo de gênero; a coerência que a carne atinge como um item significativo da alimentação surge das atitudes patriarcais, incluindo a ideia de que os fins justificam os meios, de que a objetualização de outros seres é uma necessidade da vida e de que a violência pode e deve ser mascarada. Tudo isso faz parte da política sexual da carne”.

[oito]

por Thiago Lemos Silva

Em um texto célebre consagrado à discussão do campo de estudos envolvendo a história das mulheres, Joan Scott sustenta que a inclusão das mulheres na história não constituiria um mero suplemento, mas, sim, uma reescrita da própria narrativa historiográfica. Guiado por esta constatação como ponto de partida, gostaria de dar duas dicas de leitura para o ano de 2019 às leitoras e aos leitores do blog da Agência de Notícias Anarquistas (ANA). Trata-se de Mujeres Libres de España – El Anarquismo y la lucha por la emancipacipación de las mujeres, de Martha Ackelsberg (Vírus Editorial, 2017) e Calibã e a Bruxa – Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva, de Silvia Federici ( Editora Elefante, 2017).

O primeiro livro é dedicado à história de Mujeres Libres, organização surgida no entremeio da Guerra Civil e da Revolução Social na Espanha (1936-1939). A partir de um rigoroso estudo, em grande parte baseado em fontes orais, Martha Ackelsberg joga luz sobre as condições sociais criadas pelo movimento anarquista e anarcossindicalista espanhol que permitiram a emergência e consolidação de uma organização voltada especificamente para a emancipação das mulheres; as inúmeras atividades colocadas em marcha para alterar a situação das trabalhadoras, tais como a criação da revista homônima (da qual existem 12 números), programas de alfabetização, cursos técnico-profissionais, campos de treinamento militar, divulgação de métodos contraceptivos, prática do aborto, cursos de maternidade consciente e, não menos importante, os liberatórios da prostituição; e também suas tensas relações com outras organizações anarquistas (CNT, FAI, FIJL), majoritariamente masculinas, que nunca as reconheceram como organização formal do amplo movimento libertário. De acordo com a autora, apesar da sua efêmera existência, o legado de Mujeres Libres para libertar as mulheres da dominação de classe e gênero constitui-se em um aporte importantíssimo aos movimentos feministas contemporâneos que é extremamente atual.

O segundo livro volta-se para um tempo e espaço mais amplo, abarcando em maior medida o continente europeu e em menor medida o continente americano a partir das múltiplas transformações que ocorrem na transição do medievo feudal para a modernidade capitalista. Tendo como mote central a questão da caça às bruxas, o livro (re)visita o processo de acumulação primitiva do capital desde o ponto de vista feminino, mostrando que a execução de centenas de milhares de mulheres no início da era moderna e a emergência do novo modo de produção econômico não se tratava de uma mera coincidência. Para Silvia Fedrici, a caça as bruxas constitui-se num ardil ideológico arquitetado pelo patriarcado através do Capital, Estado, Igreja para destruir a autonomia que as mulheres tinham sobre sua própria força de trabalho, tanto no âmbito produtivo, quanto no âmbito reprodutivo. Frente à nova divisão sexual do trabalho que se desenhava sob a ordem capitalista era necessário fixar as mulheres no espaço privado, feminizar o trabalho reprodutivo e, sobretudo, desconectar seu vínculo com o trabalho produtivo, apresentando-o como algo destituído de valor. Para a autora, a caça as bruxas não é apenas um processo distante no tempo e no espaço, mas, sim, uma dinâmica que (re)aparece continuamente na ordem capitalista diante de suas crises estruturais, tal como se pode evidenciar na perda de direitos, aumento da violência e, não raro, eliminação física das mulheres.

Em suma, os livros de Ackelsberg e Federici nos mostram que a história das mulheres não é apenas uma história de mulheres, como se fosse um aparte que viesse apenas suplementar uma história dos homens, ainda apresentada como universal. Muito pelo contrário, seus trabalhos mostram como que a naturalização do olhar masculino tem conduzido a narrativa historiográfica a desconsiderar de antemão dimensões importantes do passado, rotulando-as de “tipicamente femininas” como se fossem destituídas de valor. Esta visão reproduz, ainda que involuntariamente, a velha ideia de que a história se desenrola verdadeiramente nas ações políticas, campos de batalha e negociatas diplomáticas, perdendo de vista a riqueza da vida privada, das relações com a sexualidade, dos vínculos afetivos, as redes de sociabilidade cotidiana e a vida das pessoas comuns.

agência de notícias anarquistas-ana

Água empoçada
Pulo sem molhar os pés
Na calçada quebrada.

Ana Clara Santos de Freitas – 09 anos

[EUA] Millenials sobrevivencialistas com ideais anarquistas dividem ocupação no centro da cidade

por Lynda Edwards| 24/09/2018

David Gunn havia acabado de ser liberado do hospital depois de tentar se matar, quando ele conheceu a beleza decadente que mudou a sua vida.

Era uma casa cor de marfim no centro de Albany, abandonada anos atrás mas com a sua estrutura elegante e janelas altas de vidro intactas. Gunn, 30, escalou o seu pilar de madeira e virou a maçaneta. A porta estava destrancada.

Assim como a maioria dos edifícios abandonados em Albany”, Gunn observa.

O edifício de dois andares não tinha eletricidade ou água encanada. Mas, do lado de dentro, ornamentos maravilhosos: portas arqueadas, estantes embutidas, pisos de madeira de lei. Um grande e negro A, circulado por um O enfeitava uma parede, símbolo criado por anarquistas na década de 1890, mais tarde popularizado durante os anos 70 pelos punks. Desde 2016, de três a oito auto-intitulados anarquistas vivem ali. Eles possuem cerca de duas dúzias de apoiadores na região da Capital, que são bem vindos para visitar e planejar protestos e vigílias.

Funcionário nenhum da cidade ou do condado notou os ocupantes. O edifício deu a Gunn uma casa, amor verdadeiro e uma comunidade de amigos.

Anarquista” soa tão exótico e antiquado quanto “duelo de honra” ou “escultor de gárgulas”. Para Gunn e os seus amigos, que também são veementemente veganos, anarquismo significa: evitar todos os governos, apoiar a classe trabalhadora, promover a pilhagem e o escambo no lugar do uso de dinheiro.

Não é exagero dizer que a anarquia salvou a minha vida,” disse Gunn, que não possui família. “Me deu um propósito. Anarquia me mostrou que o sentimento de não ter nada a perder pode ser libertador e positivo”.

Os anarquistas não sabem a quem pertence a casa, cujas redondezas historicamente serviram de espaço para as segundas ou terceiras casas de barões da Era Dourada dos EUA. Os moradores da rua são trabalhadores, pobres e dedicados. Os amigos de Gunn adquiriram habilidades “DIY” suficientes (soldagem, trabalho com encanamento, carpintaria, culinária) para ajudar os vizinhos, buscando evitar os pavorosos e desumanos patrões capitalistas. A mais radiante conquista deles são os quinzenais “Livres Mercados Realmente Livres”, com milhares de itens doados, de pão fresco a mobílias diversas, além de roupas e brinquedos. A última edição do evento atraiu 20 voluntários e centenas de participantes.

Dada a desconfiança frente ao Governo e a suas vidas fora dos trilhos, os anarquistas assemelham-se a sobrevivencialistas selvagens preparados para o apocalipse Americano. Mas no lugar de caçar, pescar e se isolar numa cabana, os anarquistas vivem no centro da cidade e reviram o lixo ao cair da noite, recolhendo aveia, caixas seladas de suco e pallets de batata doce e ameixas roxas.

Sobrevivencialistas não querem ficar na presença de pessoas. Anarquistas são sociáveis, nós amamos os nossos vizinhos” afirmou Gunn. “Nós não somos niilistas. Se o governo colapsar, nós poderemos sobreviver vivendo da mesma maneira. Mas também iremos ajudar outras pessoas.”

Uma busca por abrigo, comida, amor

Garrett McCluskey, 30, é um sonhador. O eletricista de formação traz um sistema de som portátil para os parques locais, onde ele toca jazz vintage como se fosse um serviço público. Um músico talentoso, McCluskey agoniza quando tem que cobrar, mesmo quantias modestas, pelas aulas de violão e canto que ele oferece. Ele acredita que fazer música deveria ser um prazer gratuito para todas as pessoas.

Ele enfeitou metade da parede da sala de visitas com estampas coloridas de senhoras nuas e peitudas, pinups da década de 1940. Uma dessas estampas parece ter sido esculpida em ouro. As beldades são a inspiração de McCluskey para a sua busca pelo amor verdadeiro. Suas guitarras e violões estão escorados por perto.

Eu adoraria ter uma namorada para quem eu pudesse cantar”, disse ele, próximo aos seus instrumentos musicais, “Uma companhia para aventuras — mas esse estilo de vida definitivamente não é para qualquer um. Nós acreditamos que todas as espécies, animais e humanos, são iguais. Animais são os nossos amigos. Seria quase impossível se apaixonar por alguém não-vegano, que vive de comer os meus amigos”.

Vários amigos, homens e mulheres, dão rolês pela ocupação mas não podem viver por lá.

Quando os companheiros da ocupação de McCluskey tinham dinheiro suficiente, eles chamaram a empresa de energia elétrica, declarando-se os novos donos da propriedade. A energia veio. Porém, não há mais eletricidade há meses. McCluskey e Gunn afirmaram que eles nunca colocariam a construção em risco acendendo uma fogueira no seu interior. Eles usaram aparelhos de micro-ondas de uma conveniência em um posto de gasolina próximo para aquecer garrafas de água para os seus sacos de dormir, depois vestiram todas as suas roupas para evitar que se congelassem. Amigos amáveis com apartamentos os convidam para dormir no sofá quando o frio era muito intenso.

Bombeiros nunca marcaram a casa com o grande X vermelho, que designa uma construção como estruturalmente insegura para entrar.

Mas só por não ter o X vermelho não significa que uma casa abandonada seja estruturalmente sólida”, afirmou o coordenador de conservação de Albany, Samuel Wells. “São muito poucas as construções abandonadas que se encontram prontas para serem habitadas sem um bocado de trabalho. Se uma casa fica anos sem manutenção básica, ela deteriora de maneiras perigosas, que podem não estar visíveis”.

Wells disse que casas abandonadas nunca deveriam estar abertas, pois ladrões podem entrar e furtar cabos de cobre e luminárias.

Os anarquistas insistem que eles não prejudicariam as casas, mas eles podem ser excessivamente confiantes nas suas habilidades de manutenção. Um ex-colega de casa tentou colocar água corrente no apartamento removendo os registros com um maçarico.

Eles agora possuem o que foi apelidado de “banheiro de gravidade-zero”. McCluskey enche um balde de 20 litros, o leva escada acima e derrama a água numa bacia, o que faz com que os excrementos desçam até o tubo de esgoto.

O banheiro a gravidade-zero é um impeditivo para varias mulheres quando se trata de se mudar”, lamentou McCluskey.

Numa tarde de verão recente, ele dividiu mangas e melancias suculentas com os companheiros anarquistas Gunn e o estudante de medicina na Universidade da cidade, Tobi Warwick — e com as suas namoradas.

Gunn conheceu a companheira Alyssa Gallagher em uma aula de cozinhar tofu. Ela tinha um apartamento e um trabalho em Capital Roots, uma organização sem fins lucrativos que consegue produtos frescos para famílias de baixa renda. Ainda sim, ela amava Gunn a ponto de ter se mudado para a ocupação.

Dave possui ideias únicas e interessantes; ele faz uma diferença na comunidade”, disse Gallagher. “Eu não me importo em revirar o lixo. A comida normalmente é encontrada em sacolas limpas e fechadas, não é simplesmente jogada solta dentro da lixeira”.

O grupo revira lixeiras de mercearias, padarias e restaurantes. Somente uma lixeira, de um mercado de peixes, estava muito fedida para qualquer um revirar. Normalmente, eles encontram uma boa quantidade de alimentos saudáveis e limpos, e McCluskey arranja o que sobra na varanda em fileiras, com uma placa convidando passantes a se ajudarem.

Mas eu nem chego perto daquele banheiro de gravidade zero”, disse Gallagher, rindo. “Eu sou associada a uma academia, onde Dave e eu podemos usar banheiros e chuveiros”.


Sobre aquele Mercado Livre

Pode parecer estranho para pessoas sem empregos convencionais defenderem a classe trabalhadora. A investida mais recente de McCluskey ao mundo do trabalho foi a sua apresentação de stand-up sobre veganismo.

Ele foi banido do club de comediantes de Albany na mesma noite em que estreiou. McCluskey reproduziu um vídeo no palco, que mostrava um matadouro de porcos.

Mmmmm, bacon. Gargalhar (“Laughter”) fica a uma letra de abater (“Slaughter”). Já estamos gargalhando?” disse ele, enquanto porcos mutilados gemiam na tela e membros da audiência gritavam horrorizados para que ele parasse.

Perguntado se ele pensou que a ação foi divertida, McCluskey pondera sobre a questão com uma doçura sincera.

Eu acho que eu posso ser engraçado e que eu sou engraçado. Mas talvez o ato foi mais afrontoso do que cômico”, respondeu McCluskey.

O Mercado Livre é o verdadeiro local de trabalho dos anarquistas. Ele inspirou Warwick, 22, a se juntar ao grupo de Gunn. Ele tem um apartamento e um emprego em um centro médico de Albany.

Ele é um cara tão dedicado que quando nós havíamos planejado um protesto no centro de tratamento de animais, Tobi veio e ficou com a gente, com o seu avental azul”, afirmou McCluskey.

Warwick também permite que o seu endereço fique exposto nas redes sociais, promovendo o “Livre Mercado Realmente Livre”, para que moradores de Albany possam deixar doações no seu apartamento.

O Mercado foi uma experiência transformadora para mim; Eu quis estabelecer um compromisso com os ideais do grupo depois dele”, disse Warwick. “Todas as idades, incluindo crianças, e todas as raças estavam na última edição. Um homem que precisava de sapatos tamanho 42 para uma entrevista de emprego chorou quando encontrou um par”.

Os anarquistas não tinham ideia do que era um par de barras de apoio para banheiros de deficientes. Mas um homem que usava uma cadeira de rodas ficou emocionado ao adquiri-las. Warwick lembrou que itens corriqueiros podem mudar a vida de alguém que não consegue dinheiro suficiente para comprá-los, por mais que a pessoa trabalhe.

Criando um mundo deles

O professor de Sociologia na Universidade de Albany, Richard Lachmann, vê a atração pela anarquia como uma reação sensata ao se ver preso em uma economia de bicos. O seu próximo livro sobre trabalhadores Americanos chama-se “Passageiros de Primeira-Classe em um navio a naufragar: Políticas da Elite e o Declínio das Grandes Potências”. Um título que os anarquistas apreciariam.

Os Millenials estão inseridos em uma economia com diversos trabalhos disponíveis, mas a maioria precarizados, sem seguridade ou garantia nenhuma”, afirmou Lachmann. “Comunidades fora dos trilhos, rurais e urbanas, surgem mais frequentemente em tempos de instabilidade econômica”.

Historicamente, a personalidade espinhosa dos anarquistas e a falta de vontade de fazer concessões dificultavam que eles se submetessem a ajustes que a maioria dos trabalhadores faz quase sem pensar para se darem bem com os chefes e se encaixarem nas culturas corporativas.

Mas se você é jovem e tudo o que o mundo corporativo lhe oferece é a alternância interminável entre trabalhos insatisfatórios, as recompensas para esses compromissos parecem valer menos a pena”, disse Lachmann. “É um movimento arriscado tentar criar o seu próprio mundo. Mas se o mundo em que você se encontra agora é instável e pouco atraente, o risco parece valer a pena”.

Gunn discute com franqueza as dificuldades que a sua saúde mental passa ao lidar com espaços de trabalho tradicionais. Depois da sua tentativa de suicídio, ele disse que funcionários públicos da saúde o diagnosticaram com depressão e transtorno de estresse pós-traumático. Gunn afirma que ele frequenta um terapeuta e recebe um auxílio por deficiência, que é muito escasso para que ele se sustente.

Honestamente, eu provavelmente não me encaixaria em um monte de empregos”, disse Gunn. “Mas eu encontrei um jeito de ser uma parte significativa do mundo”.

Fonte: https://www.timesunion.com/news/article/Millenial-survivalists-share-downtown-squat-13215107.php#photo-16216490

agência de notícias anarquistas-ana

Esse pé de caqui
Cresceu comigo –
Agora me dá frutos!

Kailane Souza Ferreira – 13 anos 

[Espanha] Paideia, 40 anos de escola libertária

Na antiga Grécia, paideia era o processo educativo que durante a infância transmitia uma educação integral para que o indivíduo adquirisse um conhecimento completo de suas capacidades e crescesse de forma autônoma e responsável. Seguramente por isso, o coletivo de pessoas que iniciou um projeto de ensino distanciado do oficial e baseado em uma escola livre, autogestionada e solidária, escolheram esse nome.

Este ano de 2018, Paideia, completou 40 anos. Durante essas quatro décadas estão demonstrando em Mérida (Badajoz) que o acompanhamento durante a fase de crescimento individual e coletivo, é mais respeitoso com as pessoas do que ministrar um ensino regular, onde por interesses estatais ou privados – o que majoritariamente significa religioso – mais que o crescimento se avalia se se assumiu o que lhes ordenam aprender. Neste sentido, Paideia é o contraponto ao estabelecido. Tem claro que para mudar o mundo é preciso tentá-lo desde baixo, desde a infância, pois sabido é que para conseguir qualquer transformação social profunda é necessária uma formação prévia.

Os que em seu tempo apostaram por um projeto que já é uma realidade, não o conseguiram facilmente. Ainda que Paideia começou a funcionar em janeiro de 1978, ninguém esquece que sua raiz ocorreu em uma população próxima, Fregenal de la Sierra, onde Josefa Martín Luengo, Pepita, tentou desenvolver uma Escola em Liberdade dentro do próprio sistema educativo que foi abortada pela ainda latente Administração franquista. Pouco ou nada mudou a realidade. Atualmente tem que seguir desenvolvendo-se à margem e mantendo-se com um mínimo de contribuição familiar que cubra transporte escolar, alimentação, material educativo e gastos de manutenção. Apesar disso o coletivo assume a situação de quem passa por dificuldades econômicas para que ninguém deixe de participar da escola.

Como escola libertária, seu objetivo é o de facilitar o crescimento de “pessoas livres, responsáveis, autônomas, igualitárias, justas, não violentas e felizes”. A metodologia que se utiliza não é autoritária, tampouco existem os exames nem as notas, eliminando-se assim a competição e respeitando-se o ritmo de crescimento pessoal. Cada menino ou menina marca um tempo de aprendizagem para logo transmiti-lo ao resto e suscitar seu interesse. As decisões se tomam em uma assembleia geral onde se resolvem todos os temas de forma dialogada e respeitosa com as diferenças tanto individuais como grupais, estabelecendo-se “uma relação entre gente adulta e menor de igualdade e companheirismo”, neutralizando-se nela a autoridade adulta para substituí-la pelo consenso. A pedagogia libertária também está sujeita ao debate e autocrítica para contribuir com a sua evolução.

Parabéns aos que fazem possível que valores como a liberdade, o respeito, a solidariedade e outros inerentes ao ideal libertário, sigam presentes em Paideia.

Fonte: Solidaridad Obrera # 373, Barcelona, dezembro de 2018

Tradução > Sol de Abril

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/09/07/espanha-paideia-40-anos-de-luta-contra-as-maquinas/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/02/01/espanha-lancamento-paideia-25-anos-de-educacao-libertaria/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2011/11/09/espanha-grupo-nazista-ataca-a-escola-livre-paideia/

agência de notícias anarquistas-ana

Vai caindo a tarde
Um sabiá canta
No tronco do ipê.

Manuela Zarichen – 11 anos

[EUA] Como anarquistas ajudaram os refugiados de incêndio californianos em um estacionamento do Walmart

por Erin Corbett | 10/12/2018

Dizem que “ajuda mútua” é um modelo melhor para fornecer ajuda do que o trabalho tradicional de caridade de cima para baixo.

Antes do fogo, o estacionamento do Walmart em Chico, Califórnia, já era um lugar natural para as pessoas buscarem uma espécie de refúgio se não tivessem outros lugares para ficar. De acordo com Steve Breedlove, um ativista anarquista local, a superloja fez vista grossa quando as pessoas que passavam pela cidade estacionavam durante a noite e dormiam em seus carros. Então, quando o Incêndio do Campo varreu a região, destruindo totalmente a cidade do Paraíso e deslocando mais de 50.000 pessoas, era natural que cerca de 100 evacuados tivessem chegado ao estacionamento para montar tendas, e era natural que o Walmart os encorajasse inicialmente. Alguns começaram a chamar de “Camp Wallywood”.

À medida que as pessoas do grupo trabalhavam para se ajustar à súbita mudança de circunstâncias, elas foram ajudadas, entre outros grupos, por uma organização solta chamada North Valley Mutual Aid (NVMA). Com base no princípio de “solidariedade, não caridade”, ajuda mútua é um processo de prestação de assistência às comunidades, trabalhando e apoiando-as com base em suas necessidades, ao invés de uma abordagem hierárquica de cima para baixo.

Este princípio significava que quando uma evacuada do Paraíso chamada Tammy expressou a necessidade de um espaço comunitário, o grupo de trabalho de limpeza e reconstrução da NVMA ajudou a construir um no estacionamento. Duas grandes tendas bege foram colocadas lado a lado, com travesseiros, cadeiras, livros e alguns outros itens no interior compõem o espaço comum. Uma placa de papelão está colada do lado de fora, lendo-se: “Venha se aquecer!”. Para Tammy, isso era importante para se recuperar do trauma coletivo do incêndio. “Todos nós nos curamos juntos em comunidade e quando [a NVMA] saiu e construiu este espaço comunitário, eu sei que eles entendem porque a comunidade é como nos curamos”, disse ela em um vídeo filmado pela NVMA. Comunidade é como fazemos tudo”.

Antes do incêndio, o condado de Butte já enfrentava uma terrível crise imobiliária, com uma população sem casa de pelo menos 1.900 pessoas. A destruição provocada pelo fogo provavelmente expandirá essa população drasticamente, e a NVMA quer ajudar tanto as pessoas sem casa quanto as vítimas do incêndio, outra diferença entre a maioria dos grupos de ajuda humanitária e a sociedade de ajuda mútua.

As organizações que prestaram assistência a evacuados após os incêndios do mês passado incluem a Cruz Vermelha e também abrigos locais, como o Centro Jesus, o Abrigo da Comunidade Torres e o Abrigo de Inverno do Espaço Seguro. A Agência Federal de Gerenciamento de Emergências (FEMA) aprovou mais de US $ 12,7 milhões em assistência para sobreviventes nos condados de Butte, Los Angeles e Ventura. Mas os organizadores disseram que a resposta federal ao Acampamento de Incêndio não atendeu às necessidades imediatas de abrigo, alimentos, assistência médica e suprimentos, devido à natureza lenta dos processos burocráticos de resposta a desastres. É nesse ponto que as redes de ajuda mútua estão preenchendo as lacunas e assumindo os esforços de ajuda em suas próprias mãos.

North Valley Mutual Aid é uma dessas redes, e inclui uma mistura de anarquistas, comunistas, socialistas democratas, “liberais de Bernie” e outros que queriam ajudar com ajuda direta. Em uma série de reuniões em uma livraria/cafeteria anarquista, os organizadores formaram grupos de trabalho visando prover as pessoas mais marginalizadas. Ativistas montaram uma cozinha vegetariana sob o sistema de valores Food Not Bombs da Pacific Culture, uma empresa local de fermentação no centro de Chico. Eles prepararam comida e entregaram para as pessoas necessitadas, no estacionamento do Walmart e em outros lugares.

Rain Scher, um organizador anarquista da NVMA que viveu em Chico durante 14 anos, explicou que Chico “funciona como uma pequena cidade onde todos conhecem alguém que conhece alguém, o que nos torna capazes de realizar uma reunião pública e obter rede de ajuda iniciada”.

Os organizadores da NVMA analisaram o trabalho do Mutual Aid Disaster Relief para orientação. O esforço nacional de alívio de desastre de base foi formado em resposta à devastação do furacão Katrina em 2005 e trabalhou ao lado do Common Ground Collective, uma rede descentralizada de voluntários que responderam às necessidades da comunidade. Em Nova Orleans, médicos voluntários de rua forneceram tratamento médico gratuito, e voluntários também montaram um abrigo para mulheres, construíram jardins comunitários e banharam zonas úmidas. Algumas das pessoas que forneceram ajuda sob a bandeira da North Valley Mutual Aid também trabalharam com o Common Ground Collective.

Apenas algumas semanas antes do início do incêndio, o Mutual Aid Disaster Relief visitou Chico durante uma turnê nacional de treinamento. Enquanto ninguém na época poderia saber que o incêndio mais letal na história da Califórnia iria atingir o condado logo depois, Scher disse que não foi uma surpresa total. “Tivemos incêndios ruins – não tão ruins assim, mas estamos familiarizados com o fato de que essa é uma preocupação real e precisamos estar mais preparados como comunidade”, disseram eles. “A infraestrutura que existe para o governo local e federal para atender às necessidades de nossa comunidade não é suficiente”.

De acordo com Miles, os membros da comunidade se reuniram para ajudar as pessoas diretamente após os incêndios, em vez de incentivá-las a ficar em abrigos fora de Chico – como outras organizações, incluindo a cidade de Chico e o Walmart. As autoridades encorajaram as pessoas a sair “principalmente devido às mudanças de chuva e temperatura, bem como à falta de serviços disponíveis para ajudar os evacuados”, segundo a cidade de Chico. Mas a NVMA não viu a necessidade de o acampamento terminar. “As pessoas querem ficar aqui porque é a comunidade delas e queremos apoiá-las”, disse Miles. Ele explicou que as pessoas hesitam em ficar em um abrigo em outra cidade porque não sabem o que esperar quando chegam.

Breedlove, que está se organizando com o grupo de limpeza e reconstrução da NVMA, disse que alguns membros da comunidade que lutam contra doenças mentais e vícios hesitavam em procurar ajuda em um abrigo da Cruz Vermelha. Para outros, ficar com seus animais de estimação era importante, então eles optaram por sair de abrigos que exigiriam manter animais em outro lugar. 

A NVMA distribuiu paletes e lonas para evacuados em preparação para intempéries. O grupo também criticou a segurança de terceiros do Walmart, que, segundo Scher, incomodou as pessoas no estacionamento e retirou as posses de uma família. Em um comunicado, um porta-voz do Walmart negou que os pertences pessoais de alguém tivessem sido retirados, e observou que “enquanto estávamos felizes em servir como um local imediato para escapar dos incêndios florestais, a propriedade do Walmart não era uma instalação de abrigo e não se destinava a servir como um lugar de moradia de longo prazo para evacuados ou outros que foram atingidos pelo Incêndio no Campo”.

O acampamento do estacionamento acabou sendo desmembrado em 1º de dezembro, mas o grupo de trabalho de limpeza e reconstrução está atualmente se organizando para pressionar a cidade a sancionar acampamentos autogeridos, semelhantes à instalação em Wallywood, onde as pessoas poderiam se ajudar sem serem governadas. 

É do caralho”, disse Breedlove. “Nossa comunidade nunca será a mesma”. Mas no meio de toda a destruição, também resta um sentimento de esperança, já que as redes de ajuda mútua estão se tornando mais necessárias e difundidas como resposta a desastres relacionados ao clima.

Quando esses desastres acontecem é trágico”, disse Miles. “Você vê um colapso do sistema estatal. Vimos o que acontece com o capitalismo de desastre”, acrescentou ele, mas “as pessoas têm a oportunidade de cultivar algo novo e melhor e estamos olhando para as rachaduras e vendo que sementes podemos plantar”.

Fonte: https://www.vice.com/en_us/article/vbax7d/how-anarchists-helped-californian-fire-refugees-in-a-walmart-parking-lot?utm_campaign=sharebutton&fbclid=IwAR0n9qQnPlmAuOP8KQ0vBkUMZN6RlU5aXBdKRRJNBjSX7FTN3deDJOMK4zY

Tradução > sapat@

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/09/25/organizadores-anarquistas-porto-riquenhos-tomaram-o-poder-em-suas-proprias-maos-apos-o-furacao-maria/

agência de notícias anarquistas-ana

Férias de verão
Chuva danada não para
Brinco na goteira.

Felipe Adriano de Oliveira Lima – 6 anos

[Itália] Uma casa para a Biblioteca | Campanha nacional de subscrições para a aquisição da sede da Biblioteca Franco Serantini

Em 2019 a Biblioteca Franco Serantini entrará em seu 40º ano de vida. Um aniversário especial sob muitos pontos de vista, de fato não é comum que uma estrutura cultural nascida da sociedade civil, autofinanciada e autogerida consiga alcançar tal idade! A Biblioteca, nestes anos, além de desenvolver uma ativa e intensa promoção cultural e editorial, aumentou seu patrimônio bibliográfico e arquivístico, alcançando uma respeitável consistência (mais de 50.000 monografias, jornais, revistas e números únicos [mais de 5.550 títulos], 86 fundos arquivísticos com dezenas de milhares de documentos, fotografias, discos, obras artísticas, correspondências, registros de depoimentos orais, bandeiras, manifestos, folhetos e relíquias) em grande parte inerentes à história política e social dos oitocentos e dos novecentos, e obtendo reconhecimentos no plano não somente nacional mas também internacional. Hoje a biblioteca faz parte, como entidade coligada, da rede nacional dos Institutos da Resistência e da International Association of Labour History Institutions (IALHI).

A biblioteca até hoje não tem sua própria casa, no momento continua a ser hospedada pela Universidade de Pisa, e é por isto que a Associação dos Amigos da Biblioteca Franco Serantini promove durante todo o próximo ano uma subscrição nacional para dar uma sede estável à Biblioteca F. Serantini. Esta ação, que deverá realizar-se até 31 de dezembro de 2019, poderá garantir a conservação, a utilização e a valorização do patrimônio da Biblioteca, mas também ativar finalmente o projeto de um “Laboratório das culturas e das memórias”, com o intuito de conservar, condividir a memória e a história social e política da idade contemporânea e de ser o lugar de discussão e projeção para a cultura libertária do século XXI.

O novo centro será aberto a todos os cidadãos e associações que se reconheçam nesse projeto, e constituirá um centro de promoção da leitura e da cultura libertária e antifascista, uma ocasião de enriquecimento cultural, de crescimento pessoal e de toda a comunidade. Para realizar este sonho, o empenho da Associação não é suficiente e necessita de um gesto de forte solidariedade e um substanciosa contribuição da parte de todos, seja daqueles que nestes anos tem sempre sustentado a Biblioteca seja daqueles que queiram apostar no projeto e tomar partido dele.

Qualquer um que queira participar da subscrição nacional – que tem o objetivo não somente de dar uma sede à biblioteca mas também de aparelhá-la para consentir uma utilização o mais ampla possível – pode enviar a sua doação à Associação Amigos da Biblioteca utilizando o seguinte IBAN:

IT25 Z 076 0114 0000 0006 8037 266

Endereçado a: Associazione Amici della Biblioteca F. Serantini, via I. Bargagna n. 60 – 56124 Pisa

Pode-se contribuir à biblioteca também através da coleta do 5X1000

Como fazer para destinar o teu 5 por 1000 à Biblioteca F. Serantini?

No espaço específico no modelo CUC, 730 e único, indicar o código fiscal da Associazione Amici della Biblioteca F. Serantini ONLUS: 93057680501

Se apresentar o Modelo 730 o Unico:

• Compilar a página no modelo 730 o Unico;

• Assinar no requadro indicado como “Sostegno del volontariato…”

• Indicar no requadro o código fiscal da Associazione Amici della Biblioteca F. Serantini: 93057680501

Mesmo que não precise apresentar a declaração de rendimentos pode destinar à Associazione Amici della Biblioteca o teu 5×1000:

• Compilar o anexo fornecido junto ao CUD do teu empregador ou da entidade prestadora de serviço, assinando no requadro indicado como “Sostegno del volontariato…” e indicando o código fiscal da Associazione Amici della Biblioteca F. Serantini ONLUS: 93057680501

• Insira a página em um envelope fechado

• Escreva no envelope “DESTINAZIONE CINQUE PER MILLE IRPEF” e indica o teu sobrenome, nome e código fiscal

• Deixe o envelope em uma agência do correio, em uma agência bancária – que os recebam gratuitamente – ou a um intermediário habilitado à transmissão telemática (CAF, comerciários, etc.)

Também é possível apoiar a Biblioteca com uma doação liberal. As contribuições enviadas à Associação são deduzíveis no limite de 10% da renda total declarada e de qualquer forma na medida máxima de 70.000 euros por ano, de acordo com o art. 14 do D. L. n. 35/05. Para poder usufruir da dedução fiscal na declaração de rendimentos é necessário conservar a documentação emitida pelos correios e pelo banco. As contribuições em dinheiro não são dedutíveis.

>> Para maiores informações dirigir-se à:

Associazione Amici della Biblioteca Franco Serantini ONLUS

via I. Bargagna, n. 60 – 56124 Pisa. – tel. 050 9711432 cell. 331 11 79 799

Web: http://www.bfs.it

E-mail: associazione@bfs.it

Tradução > Carlo Romani

agência de notícias anarquistas-ana

Garoa fina, garoa grossa
Nas costas do trabalhador
Que volta da roça.

Luzia Padilha – 14 anos

[Espanha] Campanha para financiamento do livro “Kafka anarquista. O anatomista do poder”

por LaMalatesta – livraria/editora libertária

Kafka era um anarquista? Esteve relacionado com os círculos anarquistas de Praga? Que relação o seu trabalho tem com a anarquia? Todas estas questões e algumas mais são tratadas neste trabalho de Costas Despiniadis.

Queremos editar este livro com o seu apoio através de uma campanha de financiamento coletivo: https://www.goteo.org/project/kafka-anarquista

Neste livro se destaca a dimensão política-anarquista dos escritos de Kafka e se investiga por que a crítica oficial silenciou este fato, e também a razão pela qual muitos de seus biógrafos velaram sua correspondente vinculação com círculos anarquistas de Praga.

Se analisam seus romances e contos (O Processo, O Castelo, A Transformação, Na Colônia Penal, O Desaparecido, A Obra), que provam que foi um crítico incisivo do poder, da burocracia, do capitalismo, da lei, do patriarcado e das prisões.

Além disso, por meio de uma pesquisa minuciosa de seus Diários, de suas biografias, bem como as memórias de amigos e pessoas que o conheceram, demonstram seu envolvimento nos círculos anarquistas de Praga entre 1909 e 1912.

Sobre o autor

O escritor, tradutor e editor Costas Despiniadis nasceu em 1978, na Grécia. Desde 2001, dirige a editora Panoptikón e a revista do mesmo nome. Como tradutor e editor, trabalhou em várias editoras. Alguns de seus textos foram traduzidos para o francês, inglês, alemão, búlgaro e macedônio.

Ele é o autor dos livros Franz Kafka: o anatomista do poder (ensaio, 2007, 2013, 2018), Guerra e Segurança (ensaio, 2008), Noites que cheiram a morte (histórias, 2010), Saída de emergência (ensaios, 2016) e Selba (poemas, 2017), todos publicados pela Panoptikón.

Traduções de alguns dos seus livros para outros idiomas:

Nuits qui exhalaient la mort, tradução de Christine Frat, Ouapiti-Panopticon, 2013. Kafka et les anarchistes, Insubordination, intransigeance, refus de l’autorité, tradução de Christine Frat, Atelier de Création Libertaire, 2018. Franz Kafka. The Anatomist of Power, tradução de Stelios Kapsomenos, Black Rose Books, 2018. Noches que olían a muerte, tradução de Mario Domínguez Parra, Ouapiti-Panopticon, 2018.

Fonte: http://lamalatesta.blogspot.com/2018/12/kafka-anarquista-el-anatomista-del-poder.html

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/10/17/franca-lancamento-kafka-e-os-anarquistas-insubordinacao-intransigencia-recusa-a-autoridade-de-costas-despiniadis/

agência de notícias anarquistas-ana

Árvore seca
na floresta úmida
que amor lhe faltou?

David Rodrigues

[Espanha] Entrevista a Jordi Maíz: Calumnia, que algo fique

por Sergio Giménez | 05/11/2018

Desde um povoado maiorquino ao pé da Serra de Tramuntana, um medievalista, doutor e professor de História, realiza um tenaz trabalho de edição de livros e revistas relacionados com o mundo libertário. Seu nome é Jordi Maíz Chacón (Cabra, 1977), e acaba de publicar El Otoño de Kropotkin. Entre guerras e revoluciones (1905-1921)(La Malatesta Ediciones, 2018).

Ser Histórico > Para que saibas do tipo de entrevista, continua sendo válido aquilo de divulgar para formar individualidades, tirar zeros ao monte para convertê-los em unidades?

Jordi Maíz < Sinceramente, eu não sou de tirar nem de converter nada em unidades. Faz anos que venho trabalhando ou dedicando parte de meu tempo existencial à composição, correção, edição e distribuição de material sensível de difundir os movimentos e práticas antiautoritárias em qualquer de suas vertentes. Não tenho intenção de formar ninguém, pois nem sou exemplo, nem estou em condições mais do que de tratar de desconstruir meu próprio ser, o que não é pouco.

S.H. > Conte-nos o que é Calumnia e como nasce o projeto.

J.M. < Calumnia é um projeto autogestionado de difusão de textos, debates, jornadas ou materiais que de uma forma ou outra nos ajudem a escapar, ainda que seja momentaneamente, do capitalismo e do individualismo selvagem no qual nos encontramos submergidos, ou talvez afogados.

O projeto, em certa medida, é continuador de outras iniciativas nas quais me vi envolvido. Desde meus anos juvenis, daquilo que se chama ensino obrigatório e post-obrigatório, venho participando da autoedição de poemários, fanzines e folhetos da órbita do que se chamou DIY (faça você mesmo). Vamos, que andava daqui para lá entre fotocópias e grampeadores para ocupar aquilo que se chamava tempo livre. O que no início era um escape, logo se converteu em uma necessidade.

S.H. > Mas já mudou muito desde então, não acha?

J. M. < Assim é. Passei muitos anos entre grampos, e ainda o faço. Com o tempo, aprendi que as minhas necessidades de elaborar estes materiais eram compartilhadas por outras compas e daí surgiram projetos de edição menos fanzineiros como Insomnus (tristemente suicidado) ou o grupo de estudos libertários Els Oblidats. Agora que o penso, Calumnia talvez seja uma simbiose entre esses anteriores projetos. E nasce da necessidade de compartilhar textos entre amigas e amigos com certas afinidades políticas, da necessidade de esvaziar nossas gavetas cheias de rascunhos, artigos inconclusos e outras reflexões ou da necessidade de tirar da cabeça coisas que nos ocupam demasiado espaço.

Mais tarde se uniram – e também outras se separaram – a nosso interesse pela edição e a distribuição de materiais de velhos amigos e de novas pessoas que nos permitiram crescer ou simplesmente ampliar nosso raio de ação.

S.H. > Que objetivos propusestes?

J.M. < Não tínhamos um projeto a longo prazo nem objetivos muito concretos devidamente discutidos. Mas se me perguntas, nossos objetivos são simples: compartilhar literatura antiautoritária e potencializar encontros de caráter libertário em qualquer âmbito. Talvez, parafraseando Vidal da Blache, as características geográficas próprias do mundo editorial e livreiro no qual nos movemos (Mallorca) foram determinantes para que nós mesmas criássemos esses espaços e ferramentas de confluência.

S.H. > Vossa forma de funcionar concorda com o que expõe em vossas publicações…

J.M. < Não sei, isso talvez devam dizê-lo os que nos observam.

S.H. > Faz um tempo que nós os observamos.

J.M. < Bem. Nós não queremos nem temos necessidade de que nos atirem flores nem de ser exemplo de nada. Fazemos o que podemos e como podemos. Algumas estarão de acordo e outras não. O aceitamos. Para bem ou para mal, este caminho o decidimos nós mesmas, e já veremos até onde nos leva.

S.H. > Explica-nos, pois, como organizais; vosso financiamento, distribuição, etc.

J.M. < Em Calumnia, faz tempo que nos colocamos que não queríamos fazer negócio de tudo isto, que o fazíamos por prazer e que quando este desaparecesse o deixaríamos. Foi assim como três amigas decidimos dar o impulso para melhorar nossa estrutura colaborativa. O impulso foi quase uma tortura, meses de papéis e consultas para buscar uma fórmula na qual estivéssemos bem. Não queríamos torturar a ninguém com eternas assembleias nem com discussões sobre a transcendência do mundo editorial, assim que nos propusemos quatro coisas básicas e as levamos adiante. Deste modo, por exemplo, decidimos não aceitar nenhum tipo de subvenção para sustentar o projeto; que o preço dos livros o decidiríamos nós; que a edição, distribuição e o trato com as autoras também seria gestionada por nós mesmas; e outras tantas coisas com as quais não quero aborrecer a ninguém.

S.H. > Certo, entendido, mas o que fazem é preciso ser financiado de alguma maneira.

J.M. < Evidentemente, tampouco queríamos nos enganar: isto supunha assumir uns gastos econômicos e organizar uma infraestrutura que devíamos consolidar. Assim que pensamos que a melhor forma, nossa melhor forma, era contar com amigas e grupos comuns para estabelecer uma rede de assinantes que em troca de uma quota anual receberiam todas as nossas publicações. Os que dão apoio ao projeto, além disso, tem prioridade para publicar textos, já que eles também devem ser partícipes do processo, e lhes pedimos ajuda nas correções, ilustrações, textos e alguma outra cosa. No coletivo aprendemos a revisar, a compor, a distribuir, a pedir, a dar e a equivocar-nos em muitas ocasiões. Talvez muita gente não saiba que um número importante de nossos livros, e não me refiro aos meus pessoalmente, foram compostos por seus próprios autores; alguns baixaram seus programas; compartilhamos fontes e aprendemos juntas como montar, do principio ao fim, o livro. Um processo estressante mas muito recomendável.

S.H. > E pode-se “sair do gueto” tal e como está organizado o mundinho editorial?

J.M. < Sair do gueto? Não sei; parece que nos acostumamos a ele. Tudo depende dos objetivos e dos meios que considere cada um. Há editoras do mundinho libertário muito respeitáveis que creio que saíram desse micro mundo e se desenvolveram com força. Agora bem, que isso tenha ajudado a que mais pessoas se interessem pelas ideologias ou projetos que pudesse haver por trás desses textos é outra questão. Por outro lado, que essa situação facilite que alguns possam viver de seu próprio trabalho, no setor do livro, sem ter que depender das estruturas empresariais alheias, também me parece uma opção muito respeitável.

Nós não nos dedicamos a isto profissionalmente. Em meu caso, trabalho a dezesseis anos como professor, um ofício no qual passo muito bem e, ademais, me permite viver – em um sentido econômico –. Por sorte, não abandonei meu interesse pelos livros, ao contrário. Em alguma etapa de minha vida trabalhei no mundo editorial profissional, não da distribuição e no setor livreiro, e a verdade, há de tudo: desde os que sobrevivem como podem, até os que se profissionalizaram mediante a subvenção pública como modus vivendi. Pelo que vi é um grêmio em constante transformação. Faz pelo menos vinte anos que me movo nele e também vejo como se repetem as mesmas dinâmicas aqui e ali. Se me permite, se alguém pretende tornar-se rico com livros, talvez seja melhor que se dedique ao varejo com drogas ou a outra atividade que lhe oferecerá melhores rendas, mas como diriam – se me permites – Faemino e Cansado, “melhor isto que estar por aí delinquindo”. Se fosse para ganhar dinheiro nos dedicaríamos a editar outras coisas, mas como não queremos outras coisas aqui nos encontramos.

S.H. > Não parece nada simples, pois, sobreviver nesse mundo.

J.M. < Não é, ainda que não quero simplificar. Por exemplo, alguns utilizam fórmulas mistas que vão desde a participação dos circuitos comerciais até as feiras e encontros do livro anarquista. No setor editorial, como em outros, a balança está em mãos de uns poucos; mas não é menos certo que a situação atual permitiu que surjam e também se façam um nome editoras desde o antiautoritarismo que vislumbrem uma situação muito diferente. Nós, por exemplo, preferimos não entrar em segundo quais canais de distribuição – assumindo que são um porta-voz muito potente – em troca de seguir controlando todo o processo. Não queremos editar 1.000 livros para sentir-nos na obrigação de vendê-los e enganar as pessoas. Nossas tiragens, de 200-250 exemplares, nos permitem ter uns poucos pontos de distribuição amigos e a venda direta através de nossa web, com a qual asseguramos não converter nossas casas em verdadeiros depósitos de livros.

S.H. > Que critérios de publicação tens?

J.M. < Nossos critérios de publicação não são um dogma epigráfico nem as Tábuas da Lei; pretendemos que sejam de acordo com nossa forma de pensar e atuar em nosso dia a dia. Tratamos de publicar textos de temáticas próximas ao movimento libertário e que, com isso, sirvam para recuperar histórias que, de outra forma, talvez ficassem em um de tantos arquivos que conservamos em nossos computadores. Normalmente nos dedicamos, nós mesmas, a pedir originais e temáticas àquelas pessoas que sabemos que nos podem oferecer alguma história que nos interessa. Quando nos chega um original analisamos profundamente o texto e a viabilidade de sua publicação. Não temos nenhum tipo de contrato com as autoras, ainda que se lhes mandamos um compromisso, que está disponível em nossa web, onde lhes informamos de nossos meios, princípios e de que, se está de acordo, ficamos felizes em começar. No catálogo há autoras que estão muito consolidadas em outras editoras e outras que publicam pela primeira vez, mas cuidamos sempre que o trato para com elas seja o mesmo. Outro aspecto que já comentamos, mas que gostaria de lembrar, é que as assinantes de Calumnia tem prioridade na hora de publicar textos.

S.H. > E como estruturas as diferentes temáticas?

J.M. < Desde o início, pretendemos fomentar dois eixos que pensamos que nos acompanham. Por um lado, um dos pilares de Calumnia é a publicação de poesia, em castelhano ou em catalão, inclusive em esperanto; e por outro, o outro pilar que sustenta a maior parte de nossas publicações, é o ensaio histórico sobre o anarquismo. Entre ambos, temos já uns 50 títulos em distribuição. Não posso mais que agradecer a paciência e os materiais que nos facilitam as que publicam conosco, pois quando recebemos esses textos ainda temos esse lampejo que nos diz: “Caramba! É preciso publicar isto, que agrada muito”. E este entusiasmo não queremos perder.

S.H. > Pelo que te ouvimos dizer, 2018 foi uma autêntica loucura: mais de vinte títulos publicados. Como Calumnia enfrenta o próximo ano?

J.M. < Em 2017 já nos auto exigimos muito. Recordo o trabalho que nos deu levar adiante um livro como Anselmo Lorenzo. En el alba del anarquismo; apenas podíamos assumir economicamente o projeto, mas menos ainda que ficasse no esquecimento o empenho que havia detrás por parte de cada uma das autoras. Penso que valeu a pena, ao menos para mim.

Este ano foi uma loucura, não vou negar. Ao longo de 2018 publicaremos um total de 21 livros ou libelos. Imprimimos uns 4.500 exemplares e distribuímos entre nossas assinantes uns 800 livros. Também, e essa parte é a que queremos seguir cuidando, tanto as quotas como as vendas permitiram que possamos colocar uns 120 livros em bibliotecas sociais, ateneus, para presos ou pessoas em situação econômica desfavorável. Cada vez que editamos um livro tratamos de plantar exemplares em alguns espaços afins e que isso não lhes suponha custo algum. Por enquanto estamos conseguindo.

Tanto o ritmo como os custos econômicos são insustentáveis. Em algum momento tentamos resolver a falta de renda procedente das vendas com a edição em formato fanzine de alguns textos, mas isso ao final nos gerou mais falta de tempo ainda. Por isso, em novembro, iniciamos uma campanha de assinaturas para incorporar mais gente ao projeto e que, assim, permitam manter um ritmo de edição mais ou menos constante. Na realidade, com as assinantes deveria ser suficiente, mas sempre é um obstáculo difícil de resolver. Se alguma se anima, que nos contacte por correio, o processo é muito simples e pensamos que reconfortante para a assinante e para nós.

Para este próximo ano temos algumas obras já em mente. Certamente aparecerão novas. Mas posso avançar que antes do final de ano sairá um texto polêmico, como quase tudo o que gostamos, que se chama Consideraciones generales sobre la Violencia, de Ángel Pestaña, e que para princípios do ano teremos um livro de Josep Pimentel que se intitulará Refugiados, no qual se recolhem testemunhos inéditos sobre o exílio de 1939. Para antes do verão, também, temos nosso encontro anual com a revista Humanitat Nova, do qual já temos os primeiros textos e que promete consolidar-se; e um novo número da revista de poesia La Tormenta, um projeto conjunto com nossas irmãs de Piedra Papel Libro, um projeto imprescindível e recomendável para todas vós. Mas vamos, há outras tantas coisas que agora não quero adiantar, e que espero que possas seguir desde aqui.

O que fazemos se faz por prazer, assim que para 2019, além do anterior, faremos o que pudermos. Esta ideia nos agrada muito. Imagina, temos umas 50 assinantes que pagam uma quota anual fixa, que em 2019 será de 30 euros, e que não sabem se receberão 1 livro ou 15 em troca. Veja que somos suicidas! Por certo, para evitar mal entendidos: as pessoas da equipe e eu, evidentemente, somos também assinantes e pagamos nossas quotas – ia dizer religiosamente, mas creio que não é necessário —.

S.H. > Revela-nos algum debate interior dos que tenham surgido estes anos, seja prático ou mesmo teórico.

J.M. < Debate… Creio que temos debates quase todo dia com o que fazemos. Olha, no âmbito prático nos são colocadas muitas questões sobre se devíamos ou não vender livro em tal lugar ou neste outro. Também sobre se temos que implicar mais às autoras em seu processo de criação. Os debates são constantes. Por exemplo, agora – bom, faz uns meses – nos propusemos ajudar a vários coletivos próximos no ideológico de forma econômica. A fórmula que finalmente consensualizamos foi a de enviar-lhes livros e que eles gestionem sua venda e seu possível retorno econômico. Sabemos que se lhes mandamos dinheiro, ficamos sem imprimir, assim que a decisão foi essa. Talvez mais adiante seja outra; já te disse que estamos em debate e contradição constante.

S.H. > Pois seguimos, Jordi. Que não diminua.

J.M. < Muito agradecidas pelo interesse e parabéns por todo o empenho que estás fazendo. Já sabes que algumas colaboradoras de Ser Histórico tendem a ter sinergias conosco e isso é uma oportunidade que não queremos deixar passar. Beijos, saudações e a seguir.

Fonte: https://serhistorico.net/2018/11/05/que-algo-queda/?fbclid=IwAR1BKObh9SNp_QgvsfZn-GgDgt-CLzt8ymdcx9mi_qvynvI7SDWOVs_TVWo

Tradução > Sol de Abril

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/11/29/criamos-a-monstro-dos-mares-dentro-de-uma-garagem-numa-noite-fria-de-inverno/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/08/30/espanha-lancamento-o-outono-de-kropotkin-entre-guerras-e-revolucoes-1905-1921-de-jordi-maiz-chacon/

agência de notícias anarquistas-ana

Deitada na grama
Ouço o canto do sabiá
Que tarde feliz!

Danieli Ginko – 12 anos

[EUA] Michelle Cruz Gonzales sobre permanecer punk e ensinar lições

por Luther Blisset

Desde o século XVIII, anarquistas europeus e ocidentais têm se interessado profundamente pela educação. Enquanto figuras como William Godwin e Max Stirner ajudaram com o enquadramento inicial, o interesse e a aplicação aumentaram no final do século XIX. Desde o tempo de Ferrer e das Escolas Modernas em Nova York (1911), a educação anarquista se desenvolveu rizomaticamente em múltiplas direções simultâneas. Este perfil de Michelle Cruz Gonzales é o primeiro em uma série de perfis sobre educadores, não-tradicionais e tradicionais, que veem a si mesmos e ao seu trabalho educacional como antiautoritários ou trabalhando para uma mudança social significativa.

Michelle Cruz Gonzales é uma Xicana¹, musicista punk rock, autora e educadora. Suas identidades pessoal e profissional são definidas em grande parte como sendo uma praticante Xicana das práticas culturais e de escrita antiautoritárias de Orwell. Autora de The Spitboy Rule, Gonzales concordou em compartilhar seu tempo para falar sobre ensinar e trabalhar como uma antiautoritária e punk na educação.

Como sua experiência na cultura punk influenciou seu trabalho como educadora?

A cultura punk influencia quase todas as partes da minha vida, especialmente o ensino e a aprendizagem. Fiquei quieta por muitos anos, mas não há nada como a pré-menopausa para revigorar o ethos punk de uma mulher. Eu tenho pensado muito sobre a minha garota punk interna. Ela se identifica muito fortemente com seus estudantes, quase consegue entender o que eles estão passando, seu desejo por uma professora que os respeite e o que eles estão passando. Uma professora que não os rejeitará, suas ideias, ou suas lutas particulares, até mesmo lutas que são exclusivas da geração do milênio, os tipos de atributos que são escritos na cultura popular, as acusações de narcisismo, senso de direito, quão dispersos eles são vistos como sendo. Ensinar jovens adultos parece muito com estar em uma banda punk como a Spitboy, uma banda de primeira mensagem, uma banda que desafiou as pessoas a pensar de novas maneiras. Eu dei uma palestra na USC recentemente, e disse que se a Spitboy fosse uma turma, nós seríamos uma turma de estudos de gênero. Embora eu não ensine estudos de gênero, por exemplo, sempre houve algo de acadêmico sobre o que estávamos fazendo. Muitas de nossas músicas foram inspiradas em livros como Mismeasure of Woman (“Desmedida da Mulher”) de Carol Travis, Back Lash (“Chicotada nas Costas”) de Susan Faludi, Ultimate Violations (“Últimas Violações”) de Judith Rowlands, The Handmaid’s Tale (“O conto da Aia”) de Margaret Atwood e Possessing the Secret of Joy (“Possuindo o Segredo da Alegria”) de Alice Walker.

Quais são os desafios mais significantes que educadores radicais ou antiautoritários enfrentam quando ensinam, e como você lida com esses desafios?

Conflitos internos sobre como gerenciar uma sala de aula é um desafio comum, o pensamento de estar “no comando” das pessoas quando você realmente prefere que as pessoas sejam responsáveis por si mesmas. Notas e classificação é outra questão. Uma forma pela qual eu lido com a minha ansiedade sobre as notas é permitir que haja uma certa margem de erro da minha parte: ensino ruim, não ser clara quando eu poderia ter sido, matemática ruim, tarefas que não são realmente colocadas no sistema de avaliação quando deveriam ter sido, coisas assim. Eu sempre arredondo para cima quando qualquer nota está nos 9s. No entanto, uma questão maior é o que as notas passam a representar e como elas quase totalmente prejudicam o propósito real do ensino superior, que é aprender, aprender a ser um bom comunicador, um pensador crítico e um membro plenamente funcional de uma república.

Uma crítica aos radicais na academia é que nós somos parasitas ou hipócritas porque pegamos dinheiro do Estado via pagamento e benefícios. Como você lida com essa tensão?

Essa questão me fez rir um pouco, dada a importância do que fazemos, e quão pouco somos pagos em comparação a outros setores, mas eu sei que essa não é a preocupação dos anticapitalistas. Obviamente não estou acima de “tirar dinheiro do Estado”, mas é algo em que penso.

Eu sinto que muito do que faço no meu papel como uma educadora beirando o ativismo, coisas como ajudar a acabar com a confiança em testes padronizados (no meu campus e ajudar a espalhar a palavra sobre o uso geral do GPA do HS para colocação) que impacta desproporcionalmente os alunos de cor, mas eu estou terrivelmente ciente de que não é ativismo, dado que sou paga para fazer esse trabalho. Eu uso reuniões, tempo e recursos do campus para fazer esse trabalho, trabalho que muitos não escolheriam fazer, com o qual muitos não se incomodariam, mas eu normalmente não estou fazendo isso de graça, então eu tento não ficar toda romântica sobre esse trabalho como ativismo.
 

Em relação ao dinheiro do Estado; na verdade não é o dinheiro do Estado, é dinheiro do contribuinte (pagador de impostos) e, além do meu salário, eu supervisiono dois grandes potes de dinheiro que vêm do dinheiro dos contribuintes: o Subsídio de Transformações de Estudantes de Habilidades Básicas (subsídio de três anos) e o Subsídio de Habilidades Básicas (fundos anuais). Eu levo muito a sério o gasto de dólares dos contribuintes; gastar esse dinheiro para criar programas de apoio estudantil deve ser feito com planejamento suficiente e baseado em dados e melhores práticas. Eu fui a uma conferência recentemente que foi totalmente financiada por um desses subsídios, e eu tirei um dos meus dias pessoais para voar cedo para economizar dinheiro, já que parecia a coisa certa a fazer. Eu entendo que é um privilégio ter dias pessoais também.

Para pessoas que amam aprender, mas têm problemas com a autoridade relacionada à escola, o que você recomendaria?

Eu recomendaria pedir a outros estudantes recomendações de professores, e se você tiver que ir a um site como ratemyprofessor.com (“avaliemeuprofessor.com“), que leia nas entrelinhas, pois muitas pessoas que postam nesses sites realmente odeiam ou realmente gostam dos instrutores que eles avaliam. Leia as avaliações como você leria críticas de livros ou restaurantes. Ou seja, leia vários, empregue alguma análise crítica, e decida se esse professor seria bom para você. Outra maneira é perguntar aos instrutores com quem você se sente seguro e de quem você gosta, quem eles recomendam.

Outra coisa a fazer seria aprender sobre os diferentes estilos de aprendizado, descobrir qual é o seu e saber que quando algo sobre um instrutor realmente o incomoda, pode ser que eles estejam ensinando em seu próprio estilo de aprendizado, algo que eles podem não conseguir parar de fazer. Às vezes, apenas conhecer abre nossas mentes e cria compreensão.

Você encontrou as mesmas preocupações sobre “vender” entre os educadores radicais ou ativistas como na cena punk?

Essa ideia de venda existe em todo lugar, na academia e/ou na política geralmente acontece dentro do contexto de comprometer os valores de uma pessoa. Ironicamente, o compromisso é uma estratégia que todos nós devemos empregar em todos os tipos de áreas para encontrar a paz e/ou começar a mudar. No entanto, outra maneira de olhar a ideia de vender é da perspectiva de pessoas com privilégios. Na pós-graduação, muitas pessoas do MFA que eu frequentava não queriam ensinar porque ler porque achavam que ler a escrita ruim/em desenvolvimento arruinaria ou mancharia sua própria escrita, como se manchasse o processo criativo, então ensinar seria uma forma de vender para sua arte.

Eu chamei isso de besteira porque para mim, uma graduada do ensino médio e da faculdade de primeira geração e uma Xicana, alguém que veio de uma família de camponeses/rancheiros de um lado (artistas do outro), pessoas que trabalhavam com as mãos, a ideia de olhar para o ensino parecia insana e vinda de um lugar de privilégio, essa ideia de que um escritor deveria estar acima do ensino, do trabalho de serviço. Na cena punk, muitas das pessoas que eu vi “vender” são pessoas que vieram de origens da classe trabalhadora, pessoas para as quais a mobilização ascendente teria sido muito difícil de alcançar, e uma vida através da música se apresentou. Com tudo isso, gostaria de enfatizar que não é incomum, na minha experiência, que as pessoas com privilégio retenham aquelas com menos privilégios com a ameaça de vender. Para mim, é um privilégio ensinar, e isso me dá uma plataforma que as pessoas da minha família nunca tiveram. Claro que esta plataforma me coloca em uma posição privilegiada, que eu trabalho duro para não abusar.

Quais pensadores, escritores, ativistas, ou radicais influenciaram seu trabalho como uma educadora e antiautoritária?

Joe Strummer, George Orwell, Alice Walker, Margaret Atwood, Barbara Ehrenreich, Ana Castillo, Sonia Nazario, The Clash, Dead Kennedys, Paulo Freire, Corky Gonzales, Rubin Salazar, e mais recentemente John Hetts, e os criadores do Black Minds Matter, Dr. Luke Wood e Frank Harris III.

Como você lida com o desafio de equilibrar o aprendizado autêntico com a garantia de que seus estudantes recebam as caixas necessárias conferidas para seu grau e, assim, a capacidade de encontrar um emprego?

O estado da Califórnia é super focado em mover os alunos pelo caminho em um ritmo muito mais rápido do que nunca, o que é de certa forma bom porque finalmente, por meio de dados, entendemos que os alunos não precisam de muita “remediação” como havíamos tradicionalmente pensado, mas há também razões de economia de custos para esse foco no ritmo. A desvantagem real é que isso leva a ideia de aprendizado autêntico ainda mais longe do objetivo final de estudantes que já estão graduados, licenciados e focados no trabalho. Falo com a aprendizagem autêntica em minhas salas de aula com frequência; eu não sacrifico o rigor, e trabalho muito para dar tempo para discussões reais no estilo socrático, nas quais os estudantes estão respondendo uns aos outros, realmente interagindo com as ideias do curso juntos.

Este artigo apareceu primeiro na edição de verão do Freedom Journal

Fonte: https://freedomnews.org.uk/interview-michelle-cruz-gonzales-on-staying-punk-and-teaching-lessons/

[1] “O xicanismo transcende um mero rótulo de ser mexicano ou mexicano-americano. O “X” conecta a pessoa a um reconhecimento de sua identidade indígena que é frequentemente ignorada por muitos mexicanos. Assim como muitos na comunidade mexicana condenam sua negritude, muitos condenam sua cultura indígena e sangue indígena. Esta identidade de Xicanismo recupera a indigeneidade usando o “X” que é comumente usado para o som “ch” em línguas indígenas”.

Tradução > sapat@

agência de notícias anarquistas-ana

Alpisteiro cheio
Passarinhos aparecem ao redor
e gatos também.

Jonny Akira Nitta – 12 anos

[Itália] Lançamento: “Que não existem poderes bons. O pensamento (também) anarquista de Fabrizio De André”

Fabrizio De André (Gênova 1939 – Milão 1999) se afirmou anarquista desde suas primeiras leituras juvenis, às quais ele se aproximou depois de ouvir os discos de Georges Brassens que seu pai tinha trazido de Paris. Nós da revista “A” conhecemos ele e Dori Ghezzi em 1974, encontro que levou ao nascimento de uma amizade, uma estima recíproca e um diálogo profundo que não se interromperam nunca.

Não é por acaso que esse livro sai agora como um número especial da revista “A”, a preferida dele, que às vezes nos shows ele colocava no bolso, com o logo da capa bem visível. Nós nos dedicamos exclusivamente ao seu pensamento e fazemos isso de modo plural. Retomamos o melhor dos artigos, ensaios e entrevistas que apareceram na “A” e que abordam as milhares de questões a que ele se dedicou: prisão, hipocrisia pequeno-burguesa, droga, povos originários, homo/transsexualidade, ciganos, maiorias e minorias, prostitutas, guerras etc.

O livro começa com um escrito de Dori sobre sua própria relação com a anarquia. São reproduzidos textos da sessão “Senhora liberdade, senhorita anarquia”; vinte entrevistas realizadas por Renzo Sabatini com amigos, colaboradores, “especialistas” em temáticas aprofundadas por Fabrizio; notícias sobre seus shows a favor dos anarquistas (incluindo os de Rimini, em 1975, e de Bologna, 1976, dos quais se sabia pouco ou nada); outros escritos, testemunhos, pôsteres, fotos e desenhos em parte inéditos. Há também a reprodução de 25 páginas do volume L’anarchia, que Dori nos presenteou, que pertencia mesmo a Fabrizio. Cada página contém sublinhados e anotações das reflexões dele, com um olho na história e outro na atualidade. Um instrumento precioso e inédito para melhor compreender como ele trabalhava.

Mais uma vez, o pensamento de Fabrizio se revela um cofre, uma caixa de ferramentas para quem – anarquistas ou não – quer refletir, sonhar mas também buscar fazer um mundo melhor, na medida do possível com pessoas livres e iguais.

Entrevistas a, escritos e desenhos de:

Roberto Ambrosoli, Stefano Benni, Bruno Bigoni, Carla Corso, Paolo Cossi, Fabrizio De André, Paolo Finzi, Alfredo Franchini, Sandro Fresi, Gabriella Gagliardo, Andrea Gallo, Alessandro Gennari, Dori Ghezzi, Paola Giua, Romano Giuffrida, Franco Grillini, Amara Lakhous, Luciano Lanza, Mauro Macario, Paolo Maddonni, Porpora Marcasciano, Giulio Marcon, Massimo, Piero Milesi, Gianni Mungiello, Gianna Nannini, Gianni Novelli, Luca Nulchis, Mauro Pagani, Marco Pandin, Nadia Piave, Settimio Pretelli, Santino “Alexian” Spinelli, Renzo Sabatini, Paolo Solari, Raffaella Saba, Fabio Santin, Alfredo Taracchini Antonaros, Cristina Valenti, Luca Vitone, Armando Xifai.

Che non ci sono poteri buoni. Il pensiero (anche) anarchico di Fabrizio De André

Aos cuidados de Paolo Finzi | novembro de 2018 | pp. 200, € 40,00 | ISSN 0044 – 5592

>> Cópia do livro ”Che non ci sono poteri buoni” € 40,00.

Se você mora no exterior, aos 40,00 euros serão acrescentadas as (altas e diferenciadas) despesas de envio. Contate-nos para saber os valores.

Se você pode/quer ajudar-nos de modo especial, realizamos uma edição particular e limitada. O livro – o mesmo em todos os detalhes – está em uma caixa produzida artesanalmente, em capa dura revestida (base de 21,6 cm, altura de 30,7 cm, lombada de 3 cm) impressa a cores e com plastificação opaca, com no interior uma fita em tecido para marcação facilitada do livro e, para fechar, um sistema de dobra com imã.

>> Caixinha ”Che non ci sono poteri buoni” € 250,00.

Contato

Site: arivista.org

E-mail: arivista@arivista.org

Facebook: A-Rivista Anarchica

Twitter: A_rivista_anarc

agência de notícias anarquistas-ana

Filhote de gato
Já alcança o telhado
Quer ver a lua?

Hilary Monick Sporne – 10 anos

[Espanha] Arqueologia a Contracorrente: Rede de Apoio Mútuo por uma Arqueologia Livre e Coletiva

Arqueologia a Contracorrente é uma rede de apoio mútuo entre projetos autônomos e profissionais que lutam por abrir espaço a formas de autogestionar nosso legado cultural tanto material como imaterial.

Partimos da ideia de que não existe separação alguma entre teoria e prática, entre pensamento e ação, que não existe crítica sem afirmação. E entendemos, que dita afirmação, nasce de quem habitamos o território, de quem somos herdeiras de um conhecimento ancestral, de quem respeitamos a voz da terra.

Por isso questionamos de raiz o mundo fragmentado pela burocracia e os interesses particulares que caracterizam cada um dos espaços nos que hoje em dia se exerce nossa profissão. Em um mundo como o atual, cujo acesso ao conhecimento e sua produção está cada vez mais hegemonizado pela ideologia de mercado, a arqueologia pode abrir um marco de conhecimento fundamental e absolutamente útil para recuperar saberes e espaços nos quais gerar alternativas materiais reais. É hora de que o conhecimento arqueológico deixe de estar controlado por aqueles que destroem nosso legado material e nossas memórias.

O trabalho árduo e complicado não nos assusta, nós juntamos grupos com um interesse comum: fazer que a gestão de nosso passado material esteja em mãos coletivas através de um espaço de propostas aberto e alternativo.

Arqueologia a Contracorrente funciona de maneira assembleária e trabalha nos seguintes âmbitos:

• Feminismo no mundo da arqueologia.

• Pesquisa, teoria e prática para uma arqueologia libertária.

• Profissão e sindicalismo no mundo da arqueologia.

• Educação e socialização dos conhecimentos e saberes derivados da arqueologia.

Estamos abertas a qualquer pessoa ou coletivo interessado em participar em nossa rede desde qualquer âmbito relacionado com o mundo da arqueologia e o legado cultural.

Grupos integrantes de Arqueologia a Contracorrente:

• De la Roca al Metal: www.delarocaalmetal.com

• Centro Revolucionario de Arquelogía Social(CRAS): www.arqueologiasocial.com

• Revista Palimpsestos: http://palimpsestoanarqui.wixsite.com/palimpsestos

• Ecomuseo La Ponte: www.laponte.org

• Escuela Popular de Parla (Madrid): http://escuelapopulardeparla.blogspot.com

Para contato com Arqueologia a Contracorrente escrever ao e-mail arqueologiaacontracorriente@gmail.com

arqueologiaacontracorriente.wordpress.com

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Sabiá-da-mata
No caminho da escola
Alegra o meu dia.

Emerson Dupcoski Barbosa – 14 anos

[Espanha] Vídeo: Contem comigo, contem com a CNT

É hora de deixar de retroceder, é hora de ganhar uma vida digna. É hora de facilitar as coisas para nós e nos organizarmos para que não percamos uma batalha novamente.

É hora de você contar conosco.

cuentacon.cnt.es

>> Veja o vídeo (03:26) aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=WIZOWRcLmuQ

agência de notícias anarquistas-ana

Cachorro vadio
À sombra da quaresmeira
Dorme sobre flores

Tony Marques

[EUA] Taoismo e Anarquismo. Críticas a autonomia do estado na China antiga e moderna, de John A Rapp

Este volume da série de Estudos Anarquistas Contemporâneos se foca nas críticas anti-estatistas na China antiga e moderna e demonstra que a China não tem uma cultura política autoritária incontestada.

Tratando o anarquismo como uma crítica ao poder estatal centralizado, o trabalho primeiro examina o pensamento taoista radical do 4 século BCE ao 9 século CE e compara filósofos e poetas taoistas aos anarquistas ocidentais e pensadores utópicos. A isto se segue uma pesquisa de temas anarquistas no pensamento dissidente da República Popular da China de 1949 aos dias de hoje. Um capítulo de conclusão discute como o anarquismo taoista pode ser aplicado à qualquer crítica radical inspirada no anarquismo hoje.

Este trabalho não apenas desafia as ideias atuais de escopo e natureza da dissidência na China, mas também oferece uma comparação única do anarquismo taoista da China antiga ao anarquismo ocidental. Trazendo textos até então não traduzidos, como o trato anarquista budista do 9 século, o Wunengzi, e ensaios da imprensa PRC, será uma fonte essencial para qualquer pessoa que estude anarquismo, pensamento político chinês, dissidência política e história política.

Daoism and Anarchism: Critiques of State Autonomy in Ancient and Modern China 

Número de páginas: 224

Publicação: Agosto de 2012

Edição: Continuum Publishing Corporation

Tradução > Imprensa Marginal

agência de notícias anarquistas-ana

A caminho da escola
Vejo o ipê florido
Saudades de quem se foi.

Gabrielle Rodrigues Souza – 13 anos

[Espanha] Parar o fascismo… votando?

por Acratosaurio rex | 08/12/2018

Os 42% das abstenções na Andaluzia, desnorteia a esquerda, que não entende como tanta gente deixou de jogar suas cédulas nas urnas. Não podem explicar, apesar de serem tão inteligentes e terem tantiiiisimos graduados, porque tantos eleitores acreditam que seu voto é uma merda inútil, preferindo dedicar esse dia sagrado e participativo em outras coisas. E assim, se alguém diz ao candidato de esquerda que não votou nele, reprovam a imaturidade política, e dizem que a entrada dessa ralé no Parlamento é devido a minha abstenção dogmática e, em geral, a abster-se. E resulta sem pensar muito, que o fascismo deve ser parado pelo voto. E ele lança o desafio: se Hitler chegasse ao poder, você também se absteria?

Não importa que Hitler esteja morto e suas cinzas espalhadas. Vamos avaliar quantas pessoas teriam que votar para parar os pés de Hitler, graças a esse compêndio de sabedoria que é a Wikipedia, que concentra todos os resultados eleitorais da República de Weimar.

Nas eleições de setembro de 1930, votaram 81,95% do censo. Hitler obteve 18,25% dos votos, (eliminada a abstenção). Nesta ocasião, os socialdemocratas venceram.

Em julho de 1932, 84,10% das pessoas votaram, e Hitler levou 37,27%. Ele ganhou, mas não o suficiente para governar sozinho.

Em novembro de 1932, a participação caiu para 80,58%. Hitler perdeu eleitores ficando em 33,09%. Quanto mais abstenção, menos nazismo, portanto.

Por outro lado, nas eleições de março de 1933, 88,74% dos hunos foram votar, e Hitler obteve 43,91% dos votos. Não. Nãooo conseguiu a maioria absoluta. Ele não tinha 36 assentos… e ainda implantou a ditadura. Nas eleições que vieram depois, somente Ele apareceu.

Que lições podemos tirar dessas operações matemáticas? Bem, ao contrário do que se pensa, Hitler nunca ganhou uma eleição democrática de maneira absoluta. E a abstenção não foi o que levou Hitler ao poder. Em Bochelandia votavam muitas pessoas, mais de 80%, e ainda assim Hitler foi ganhando cada vez mais votos, exceto quando houve mais abstenção em novembro de 1932, quando os nazistas perderam muitos eleitores. De onde se pode deduzir que quanto mais pessoas votarem, mais nazistas aparecem.

Enfim, para mim o que levou Hitler ao poder, foi por um lado a sorte e o azar, por outro lado, suas milícias de assassinos, juntamente com o apoio dos partidos burgueses, para não mencionar a estupidez dos socialdemocratas e comunistas, que se dedicaram a lhe fazer guerrear em vez de buscar pactos para governar e sair da paranoia nacionalista em que a grande nação teutônica havia afundado. E, claro, a culpa dos eleitores que acreditavam no scheißedeutschland e que achavam que votar nos nazistas era a solução.

E isso lhes conto apenas para saber, quando lhe convidarem a votar para parar a ascensão do fascismo, que não têm nada a ver com as eleições e abstenção, com o crescimento eleitoral da extrema direita. Os fascistas crescem ou diminuem porque os eleitores conscientes lhes votam mais ou menos. Eles não crescem porque os abstencionistas recalcitrantes aprovam as eleições. O parlamento é um efeito. Não a causa.

Portanto, se eles pedirem para você votar para barrar o fascismo… na realidade eles querem que você vote neles. E como eles não sabem como dobrar sua moral, eles recorrem a Hitler, que é o curinga. Apesar de hoje, é impossível que chegue ao poder, mesmo reunindo as suas cinzas… Os militantes o sabem! Hitler não chegou a posição de Chanceler graças à abstenção, se não precisamente pela ausência dela.

Portanto, eu sempre me absteria? Bem, eu não descarto votar se houvesse algo muito grande em jogo, como baixar um gato de uma árvore. Vou, voto, e um político sobe à árvore milenar, e para tirar o gato, que lhe arranha impiedosamente enquanto desce com o bicho agarrado ao seu couro cabeludo, miando como um louco entre gritos de sofrimento indizível e rosto desfigurado. Dane-se. Quem não votaria, só para ver um político fazendo algo útil?

Fonte: http://alasbarricadas.org/noticias/node/41080

Tradução > Liberto

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/12/17/espanha-sobre-as-eleicoes-na-andaluzia-e-o-avanco-do-fascismo-o-antifascismo-sera-anticapitalista-ou-nao-sera/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/12/11/espanha-andaluzia-apos-as-eleicoes-da-andaluzia-contra-a-desmobilizacao-e-o-fascismo-organizacao-e-luta/

agência de notícias anarquistas-ana

A caminho da escola
Céu de algodão doce
Saboreio com os olhos.

Taís Dambrowski Wierczorkowski – 13 anos

[Espanha] O que é o Centro Social Autogestionado La Xusticia?

La Xusticia é um Centro Social Autogestionado; isto é, um espaço aberto ao povo, um local comunitário construído por moradores e moradoras que querem apostar por um modo de vida mais justo e solidário, menos consumista e individualista. La Xusticia quer ser um espaço de encontro e de aprendizagem, assim como um viveiro de novos projetos. Por isso no local cabe todo tipo de propostas dedicadas a conhecer-nos entre as pessoas, a aprender de maneira crítica entre todos e todas, a nos entretermos e nos divertirmos, a nos formar, a nos rebelar ou a construir coletivamente diversos tipos de projetos. Porque um povo unido sempre é mais que muitos indivíduos isolados.

Em La Xusticia funcionam, entre outros projetos, uma biblioteca, uma livraria, um ponto de encontro onde tomar algo ou jogar uma partida na ludoteca, um espaço infantil, um grupo de montanha, assessoria laboral e um grupo de consumo ecológico. Também realizamos e programamos atividades (palestras, projeções, teatro, música). Mas esperamos abrir novos horizontes no futuro. Se tens alguma ideia ou te apetece participar, aproxime-se para nos conhecer. Porque mais além dos desejos, a realidade do projeto é feita pelas pessoas, tanto as que trabalhamos para abrir este espaço como tu, se te decides a se aproximar, o que te encorajamos.

O local está situado na C/ Valentín Ochoa Nº5 em La Felguera, nas Astúrias, norte da Espanha.

laxusticia.noblogs.org

agência de notícias anarquistas-ana

Lá vão as formigas
As folhas ganham pernas
No jardim de casa

Isabelle Stasiu Mainardes – 12 anos

[Espanha] Rojava: A formar comitês internacionalistas! A organizar a resistência!

Um chamado internacionalista à ação conjunta ante a iminente ameaça contra a revolução em Rojava e Curdistão

Não é a questão nunca mais de se acontecerá ou não, mas de quando começarão os ataques contra nossa revolução no Norte da Síria. O presidente fascista turco Recep Tayyip Erdoğan anunciou faz uns dias que lançará o quanto antes uma ofensiva militar contra as áreas de autogoverno no Norte da Síria e Rojava. Na segunda-feira 17 de dezembro, Erdoğan declarou que as preparações do exército turco foram completadas e ameaçou com que a ofensiva é só questão de tempo. Depois da declaração de uma invasão militar em Rojava por parte do presidente da Turquia, a administração autônoma do Norte da Síria fez um chamado à mobilização. Nas cidades, povoados e bairros a resistência já está sendo organizada pela sociedade.

A guerra de ocupação da Turquia contra o Cantão de Afrin em princípios de 2018, mostrou ao mundo inteiro do que é capaz o Estado turco. Enquanto que a guerra destruía a Síria durante os últimos sete anos, Afrin se manteve um oásis de paz. Com a ocupação turca, Afrin foi reduzido a escombros, centenas de milhares de pessoas tiveram que fugir. O povo de Afrin está vivendo todos os dias massacres, violações, sequestros, destruição e outras brutalidades. Afrin, a ilha da tolerância, é hoje um centro de treinamento para Salafistas. O que o Estado turco tratou de destruir desde o princípio em Afrin é o projeto democrático que foi construído e defendido com grandes esforços e duros sacrifícios durante os seis anos da revolução. A revolução no Norte da Síria e Rojava nos demostrou que outro mundo é possível. Um mundo mais além do nacionalismo, do sectarismo religioso e da hegemonia imperialista. É uma revolução das mulheres, na qual as mulheres tomaram as rédeas de suas vidas em suas próprias mãos e estão organizadas autonomamente em todas as áreas da sociedade.

Uma luta decisiva pela sobrevivência

Quando Kobane foi sitiada pelos bandos assassinos do chamado Estado Islâmico, e Afrin foi atacado e ocupado pelo exército turco, centenas de milhares na Europa e em todo o mundo tomamos as ruas para defender precisamente estes valores junto com esta revolução. O Dia Mundial por Kobane, o Dia Mundial por Afrin e a campanha “Mulheres levantemo-nos por Afrin”, são uma expressão de que a revolução de Rojava é nossa revolução comum. Agora a luta crucial pela defesa do projeto da Federação Democrática do Norte da Síria está preparando-se. As sociedades no Norte da Síria e Rojava já anunciaram que defenderão os territórios liberados até o final, com todas as consequências que isso implique. Está agora em nossas mãos divulgar e denunciar os ataques contra Rojava e ser a voz de nossa revolução.

Uma invasão da Turquia com o apoio dos Estados Europeus e potências internacionais

Nossa tarefa agora é organizar-nos e preparar os protestos na Europa. Está claro que a iminente intervenção militar só se fará realidade graças ao apoio que o regime de Erdogan recebe das potências internacionais tais como a Rússia, Irã, os Estados Unidos e os países europeus. Os aviões, bombas e drones que bombardeiam os territórios e populações do Curdistão são da OTAN. Os tanques, veículos e rifles com os quais os soldados turcos invadiram Afrin e travam uma guerra no Norte do Curdistão são alemães. É antes que nada o respaldo incondicional e político desde Berlim e outros países europeus o que alenta Ankara a cometer semelhante violação da lei internacional. Não só isso, é especialmente o apoio direto das políticas internas na Alemanha e outros países europeus, a repressão dos protestos ou a proibição de bandeiras e símbolos do movimento curdo, assim como a criminalização contínua e intensificada das organização, simpatizantes e ativistas do movimento curdo. Não é casualidade que precisamente neste momento muitas autoridades europeias estão começando a investigar e processar internacionalistas por apoiar às YPG/YPJ (Unidades de Defesa do Povo/Unidades de Defesa das Mulheres).

Nesta tarefa o governo do Estado espanhol não é uma exceção. De sobras é conhecida sua estreita simpatia e ampla colaboração econômica, política e militar com o regime da Turquia. A presença militar espanhola na base de Inlcirlik ao sul da Turquia com o pretexto de lutar contra o terrorismo internacional, a reunião oficial do ex-primeiro ministro turco Binali Yıldırım em Madrid no passado 25 de abril por causa da “VI Reunião de Alto Nível Hispano Turca” na qual ambos governos reafirmaram sua cooperação na luta contra o “terrorismo separatista interno”, ou a notícia confirmada de que Espanha será um dos maiores compradores das azeitonas roubadas e saqueadas do ocupado cantão de Afrin, engrossando a Turquia milhões de euros, são só alguns exemplos de como o Estado espanhol lucra com a morte, guerra e massacre dos povos do Oriente Médio e Curdistão.

Já que o Estado espanhol vai ser um agente mais na próxima guerra em Rojava, é importante fazer pressão aqui contra o governo e levar nossos protestos e ações às ruas. Com o espirito de ontem de Kobane e Afrin, devemos hoje também unir nossas forças, organizar-nos e atuar de forma conjunta.

Coordenemos a resistência

É por isso que fazemos um chamado àquelas companheiras e companheiros que se identificam com os valores desta revolução, às que já estão organizadas em grupos de solidariedade com Rojava e o Curdistão, a todas aquelas para quem Rojava se converteu em esperança e inspiração nos últimos anos, e a todas as que não querem ser cúmplices de outro massacre no Oriente Médio com o apoio dos Estados europeus e das potências internacionais: uni-vos em vossos territórios, cidades e bairros e formem Comitês de Resistência Internacionalistas em defesa de Rojava, construindo alianças mais além das diferenças ideológicas. Assim como nos juntamos durante as resistências de Kobane e Afrin em comitês e alianças solidárias, devemos agora também coordenar nossa resistência comum e fazê-la forte e duradoura. É importante enfatizar que uma construção estratégica e a longo prazo destes comitês ou estruturas é decisivo e importante para um futuro não tão longínquo de resistência comum também aqui na Europa. Porque a única força na qual pode confiar a revolução de Rojava é a força dos movimentos populares revolucionários globais, é nossa própria força organizada desde a base que luta pela liberdade e contra o fascismo em todas as partes.

Formem comitês de resistência internacionalistas, participem nas ações e eventos de apoio ao movimento revolucionário do Curdistão em vossas localidades. Unam forças com companheiras e companheiros de vosso território e saiam à rua contra a guerra e o apoio militar ao extermínio da Turquia no Norte da Síria e Rojava.

Juntas defenderemos a revolução!

Contra o fascismo, não passarão!

Viva a revolução de Rojava!

Internacionalistas

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/12/26/curdistao-ypj-international-turquia-e-daesh-duas-caras-diferentes-do-mesmo-inimigo/

agência de notícias anarquistas-ana

Entre a roça e a montanha,
A chuvinha vai parando…
A folhagem nova!

Buson