Não começou ontem, não vai terminar com as eleições

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por Imprensa Marginal | 15/10/2018

Nos últimos dias, Mestre Moa morreu após levar DOZE facadas em uma discussão com um eleitor de Bostonazi. Uma garota foi torturada pela polícia após ser pega escrevendo #elenão no muro perto de sua casa. Outra garota que andava na rua com uma camiseta escrito #elenão foi agredida e teve uma suástica marcada a faca em sua barriga. Um senhor teve sua receita rasgada pela médica que o atendia quando disse a ela que seu voto não era para Bostonazi. Outras tantas pessoas foram agredidas verbal e fisicamente, perseguidas e alvo de diversos tipos de violência nos últimos dias pelos mesmos motivos.

Mas a violência no Brasil não para no processo eleitoral de 2018. Há 518 anos indígenas e negrxs são alvo de um verdadeiro genocídio; a polícia mata diariamente nas periferias; mais de uma centena de mulheres é estuprada todos os dias no país; lésbicas, gays, pessoas trans e bissexuais são mortxs, humilhadxs, agredidxs – lembrando que o Brasil é o país onde mais se mata pessoas trans no mundo inteiro; ativistas de movimentos sociais são perseguidxs e muitas vezes assassinadxs; grupos neonazis espancam, atacam e matam pessoas nas ruas; mulheres morrem aos montes em abortos clandestinos; os problemas sociais são tratados como caso de polícia e a população é massivamente encarcerada em verdadeiros depósitos de seres humanos. Há 518 anos somos exterminadxs, e reina a lógica racista, misógina, LGBT-fóbica.

E enquanto alguns homenageiam antigos torturadores da ditadura militar como se fossem heróis, poucos se lembram das tantas Cláudias, Marieles, pessoas mortas nos Crimes de Maio, Massacre do Carandiru, Eldorado dos Carajás, e tantas outras chacinas que ocorrem diariamente pelo país que em grande parte das vezes terminam com condecorações para a policia ou simples afastamentos temporários.

Falta pouquíssimo tempo para o segundo turno das eleições e temos visto muitas discussões e debates entre anarquistas, feministas, antifascistas e libertárixs em geral com opiniões bastantes diferentes sobre o que fazer. Esse processo eleitoral, mais ainda do que todos os outros anteriores, tem se mostrado uma grande novela de mau gosto, com episódios pautados em todo tipo de jogo sujo. Temos, obviamente, o ponto em comum de que ninguém vê com bons olhos a possibilidade da chegada de Bolsonazi a presidência do Brasil, com todo seu racismo, machismo e homofobia escancarados e defesa de políticas de extrema direita, ditadura militar, tortura, etc.

O ponto em desacordo muitas vezes tem sido a possibilidade do uso do voto como ferramenta estratégica para não permitir que ele seja eleito, ou, por outro lado, a estratégia desde sempre cara a muitxs anarquistas da campanha pelo voto nulo ou abstenção como meio de trazer a tona o caráter ilusório das urnas como meio de mudanças sociais reais, e a propaganda pela criação de organizações populares horizontais. Em meio a isso surge também todo esse processo de mulheres se organizando em dezenas de cidade e indo as ruas massivamente contra Bolsonazi – e que bom ver as pessoas indo às ruas.

Porém, uma coisa é fato. Tudo isso que se está vivendo na atualidade no Brasil está muito além de Bolsonazi, que de certa forma é só a parte mais visível de um problema muito maior, e que também começou muito antes de que este se tornasse o ícone midiático que é hoje. Por mais heterogênea que seja sua base eleitoral, é nitidamente visível pelas estatísticas a presença entre seus apoiadores de um número enorme de jovens. Desse número, obviamente há aquelxs que, fechando os olhos para tudo de retrógrado que representa, vêem erroneamente Bolsonazi como uma suposta ‘solução’ à desesperança com a atual situação política e o descrédito que a esquerda partidária caiu, a partir da associação no senso comum entre esquerda e corrupção, mas também a partir de anos de políticas que procuraram amansar movimentos sociais, alianças esdruxulas pautadas por uma suposta governabilidade e políticas onde por fim quem dita as regras é a lógica do capital e das grandes corporações mundiais, com seus interesses que obviamente nada tem a ver com os nossos.

Mas dentro de tudo isso é preocupante o crescimento exponencial de um outro tipo de mentalidade entre a juventude – aquela que flerta realmente com a extrema direita, o ideário fascista, as declarações racistas, misóginas e homofóbicas do candidato. É assustador como nesse quadro, pessoas se sentem cada vez mais a vontade – e com apoio – para agir violentamente, agredir, vomitar idéias fascistas abertamente, e fazer valer de todas as formas sua intolerância. Se antes denunciávamos a ação fascista violenta de pequenos grupos como skinheads white powers, separatistas, integralistas e outros dessa corja, agora vemos vizinhos, parentes, pessoas conhecidas ou nem tanto, que defendem Bolsonazi e suas declarações absurdas, defendendo golpes e intervenções militares, ações truculentas da polícia, pena de morte, e por aí vai. Mas isso não é obra de Bolsonazi, por mais influência que tenha no momento. É um processo que surge antes ainda com múltiplos fatores, e que encontra ele como rosto visível nesse momento, contribuindo para que se amplie. Mas a verdade é que nos próximos tempos, com ou sem Bolsonazi, podem surgir novos ícones, novos rostos, novos porta-vozes. E a era da internet e das redes sociais ajudam muito nisso. Esse tipo de mentalidade tem se instalado e espalhado na juventude que, cansada do que existe, tem se alinhado à direita de forma extremamente preocupante. E seja lá qual for o resultado das eleições, precisamos pensar nisso com muita seriedade.

Tempos estranhos nos esperam, e cabe a nós anarquistas, feministas, antifascistas, analisar essa conjuntura com cuidado, procurar entender como se deu e tem se dado esse processo, quais nossas falhas durante esses anos todos, e como lidar com a situação para que seja possível seguir para outros rumos. Para além de Bolsonazi e das eleições que se avizinham – e que o “coiso” não chegue ao poder – , que soluções reais podemos criar e colocar em prática coletivamente para fazer frente a isso? Nossas discussões e ações coletivas precisam ir além!

Essa luta não começou ontem, nem vai terminar com o resultado das eleições. Essa luta está para além das urnas ou de um período eleitoral, ela deve seguir nas ruas, todos os dias.

anarcopunk.org

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Para tricotar
Sento-me numa cadeira
De onde veja o relógio.

Toshiko Nishioka

Apresentação da FOB em Florianópolis (SC)

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Dia 20 de outubro, sábado, às 15 horas, no ICOM, rua Victor Meirelles, 170 (Sala 203) – Centro.

O governo aprovou a reforma trabalhista, que piorou as condições de trabalho. Ele quer aprovar a reforma da previdência. A educação sofre cortes de gastos cada vez maiores e as escolas e universidades tem piorado a cada dia. A repressão às manifestações está cada vez mais dura. Enquanto isso, os sindicatos estão mais preocupados com as eleições. Abandonaram a ideia da greve geral para “não atrapalhar” seus candidatos.

Ao contrário do movimento estudantil e sindical que se organiza separando categorias e se concentra em eleger representantes para participar do sistema político atual, o Sindicalismo Revolucionário propõe que o povo protagonize suas lutas em organizações conjuntas e independentes, não só para se defender, mas para destruir o capitalismo, a exploração do trabalho e a dominação da burguesia. Para unir todo o povo em uma mesma organização de luta, convocamos todos os estudantes e trabalhadores do campo e da cidade a se somar na iniciativa de construção da Federação das Organizações Sindicalistas Revolucionárias do Brasil (FOB).

PELA AUTONOMIA E COMBATIVIDADE EM NOSSAS LUTAS! RECONSTRUIR O SINDICALISMO REVOLUCIONÁRIO!

lutafob.wordpress.com

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agência de notícias anarquistas-ana

A quem me visita
o perfume da ameixeira
e a taça lascada.

Issa

E os pós-modernos?

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Tava pensando esses dias: Grande parte da propaganda dos bolsominios gira em torno de atos do pós-modernismo e não tem absolutamente nada a ver com a esquerda e os movimentos populares. Como fomos parar numa situação onde um artista rolando pelado no chão com crianças é relacionado à luta camponesa e indígena pela terra ou à movimentos grevistas de trabalhadores?!

Vejo muitos pós-modernos convertidos ao lulismo falando desesperados de “tática”, “pragmatismo”, etc. etc. Mas nos últimos anos só agiram pra chocar e negar a inteligência do povo (seus atos esteticamente “radicais” e sua prática política pelega), impulsionaram uma noção distorcida de justiça inquisitória unilateral (os famosos “escrachos”, onde denúncias não tinham necessidade de comprovação, tal como as fake news), distanciaram mais ainda as teorias acadêmicas da luta de classes (afinal, o que a teoria pós-moderna pode contribuir com essa conjuntura de acirramento da luta de classes? Nada!), estimularam um individualismo pseudo-esquerdista universitário vaidoso e pequeno-burguês.

Como disse recentemente um grupo hooligan antifascista “Bonde do Che”:

Se você é do tipo que combate Bolsonaro pagando de ‘maconheiro satanista’, falando em ‘crianças trans’, banalizando o aborto e romantizando o crime organizado apenas para escandalizar as massas, você é o maior cabo eleitoral do candidato. A maioria da população não entende suas ironias de turminha de DCE.”

Eu diria, portanto, que o pós-modernismo foi o maior cabo eleitoral do Bozo. Eu diria que a esquerda institucional se utilizou em muitos momentos do pós-modernismo de forma oportunista e suja, e por isso foi associado a ele. E hoje colhe o que plantou.

Tenho certeza que extirpar essa cultura pós-moderna (assim como o lulismo/reformismo) da esquerda combativa será decisivo no próximo período, separando o joio do trigo, exigindo cotidianamente um método correto no diálogo com o povo e nas resoluções de suas contradições. Nesse momento estaremos cumprindo um importante papel às lutas populares e à revolução.

por Anarquista qualquer

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Parada do trem –
Com o vendedor de flores
Vêm as borboletas.

Sôshi Nakajima

Palavras de um bakuninista sobre a situação atual

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por Marcos Paulo | 13/10/2018

Primeiro gostaria que quem se dispusesse a ler essa minha contribuição se atentasse a esses dois pontos do raciocínio de Bakunin que informam a minha exposição mais abaixo:

[CARTA DE BAKUNIN A NETCHAYEV, 1870]:

Isso me basta agora para demonstrar que nosso povo não é uma folha em branco em que qualquer associação secreta pode escrever o que ela bem entender, o programa comunista de você por exemplo. O povo elaborou, em parte consciente e quase tudo inconscientemente, seu próprio programa, que cada associação secreta deve conhecer, adivinhar, e ao qual terá que conformar-se se quiser vencer.

[TRECHO DO ARTIGO “A INTERNACIONAL E KARL MARX”, 1872, DISPONÍVEL EM PORTUGUÊS NA COLAGEM DE TRECHOS “A NECESSIDADE DE ORGANIZAÇÃO]

Só os indivíduos, e somente um pequeno número de indivíduos se deixa definir pela “idéia” abstrata e pura. Os milhões, as massas , não só no proletariado, mas também nas classes esclarecidas e privilegiadas, só se deixam arrastar pela força e pela lógica dos “fatos”, só compreendendo e encarando, a maior parte do tempo, os seus interesses imediatos e as suas paixões de momento, sempre mais ou menos cegas. Portanto, para interessar e para arrastar todo o proletariado na obra da Internacional, era preciso e é preciso aproximar-se dele não com idéias gerais e abstratas, mas com a compreensão real e viva dos seus males reais; e os seus males do dia a dia, ainda que apresentem um caráter geral para o pensador, e ainda que sejam na realidade efeitos particulares das causas gerais e permanentes, são infinitamente diversos, tomando uma multiplicidade de aspectos diferentes, produzidos por uma variedade de causas passageiras e reais. Tal é a realidade quotidiana destes males. Mas a massa do proletariado, que é forçada a viver sem pensar no dia de amanhã, agarra-se aos males de que sofre e dos quais é eternamente a vítima, precisa e exclusivamente nesta realidade, e nunca ou quase nunca na sua generalidade.

Então, para tomar o coração e conquistar a confiança,o consentimento, a adesão, a afluência do proletariado…, é preciso começar por lhe falar, não dos males gerais de todo o proletariado internacional, nem das causas gerais que lhe dão nascença, mas dos seus males particulares, quotidianos, privados. É preciso lhe falar de sua profissão e das condições do seu trabalho precisamente na localidade em que habita; da duração e da grande extensão do seu trabalho quotidiano, da insuficiência do seu salário, da maldade do seu patrão, da carestia dos víveres e da sua impossibilidade de nutrir e de instruir convenientemente a sua família. E lhe propondo meios para combater os seus males e para melhorar a sua posição, não é preciso lhe falar logo dos objetivos gerais e revolucionários que constituem neste momento o programa de ação da Associação Internacional dos Trabalhadores, tais como a abolição da propriedade individual hereditária e a instituição da propriedade coletiva; a abolição do direito jurídico e do Estado, e a sua substituição pela organização e federação livre das associações produtivas; provavelmente ele não compreenderia nada destes objetivos, e poderia mesmo acontecer que, estando influenciado pelas idéias religiosas, políticas e sociais que os governos e os padres procuraram inculcar-lhe, repelisse com desconfiança e cólera o propagandista imprudente que quisesse convertê-lo com esses argumentos. Não, primeiramente só é preciso propor-lhe objetivos que o seu bom senso natural e a sua experiência quotidiana não possam ignorar a utilidade, nem repeli-los.

Bem, aqui vão alguns apontamentos:

A) Combater o reacionarismo hoje diz respeito, também, a combater a influência danosa entre os trabalhadores da social-democracia. Essa influência domestica e subordina às lutas em função da disputa parlamentar.

Foi precisamente pela recusa desse modelo representativo-democrático, pelo fato de a experiência direta ter repetidamente mostrado sua completa ineficiência, que a nova direita pode assediar os setores dos trabalhadores e têm tentado fazer com que comprem suas ilusões.

B) Essa nova direita, nunca é demais dizer, soube compreender as circunstâncias do desenvolvimento da consciência de classe do proletariado brasileiro e explorar suas contradições ideológicas.

Primeiro, diferente da esquerda institucional, essa direita abraçou e disputou os sentidos da greve dos caminhoneiros. Sabendo identificar corretamente um sentimento anti-republicanista (absolutamente legítimo). Aproveitou disso pra passar a sua pauta de intervencionismo militar. Pauta essa que não contrariava esse ponto do programa formulado pela experiência no povo, porque não recorria ao velho recurso do apelo pela representação democrática (coisa que o povo já tá cansado).

Segundo, lança uma candidatura (no 17) que soube se enraizar por se pintar de antissistêmica, contra o poder e os privilégios dos setores vinculados ao Estado, e demonstrando um desprezo (muito verbal até então, mas que pode se traduzir em algo mais) pela institucionalidade e pela legalidade democrática.

C) Nesse quadro, quem nada contra a corrente da História, e é incapaz de apreender o sentido da experiência direta das últimas lutas por fora do modelo oficial social-democrata (especificamente de Junho e da greve dos caminhoneiros) é precisamente a esquerda institucional. O pessoal das universidades cuja instrução formal é possibilitada pelo trabalho daqueles pobres de direita que deveriam aprender as discussões sociais por osmose, e a quem xingam de fascistas.

A defensora da legalidade democrática e da institucionalidade é a esquerda reformista, veja bem, e não a direita reacionária. Acontece que para quem essas ferramentas nunca foram de valor, para o povo propriamente dito, democracia representativa e legalidade institucional são preciosismos. O povo não liga para esses valores, e nem deve. Pra disputar a consciência do povo é preciso saber subordinar o seu programa aquele por ele forjado na experiência, coisa que votar num candidato contra o fascismo está longe de fazer.

Apostar na velha porta carcomida esperando um novo caminho é, como diria Einstein, insanidade. E fazer isso esperando barrar o fascismo é a mais doce ilusão que a abstração acadêmica consegue nos vender. O reformismo, caso ganhe e consiga ser gestor de turno do Estado brasileiro, vai passar um programa anti-povo, caçar direitos e fortalecer o aparelho repressor, tal qual faria Bolsonaro, e vai usar a chantagem do fascismo, dizendo que precisa de governabilidade pra fazer o trabalho sujo, paralisar as lutas e não deixar Bolsonaro ganhar em 2022. Enquanto isso a nova direita saberá colocar a insatisfação popular a seu dispor, travando a disputa ideológica nos setores populares que a esquerda universitária até aqui se achou muito casta pra fazer.

Haddad ou Bolsonaro? Baygon ou SBP? Em quem quer que você vote o fascismo cresce se não existe alternativa real de combate à influência ideológica junto dos trabalhadores. A única via, desde sempre, foi construir uma referência de organização e luta por fora da social-democracia, que negue a premência da disputa do Estado. Aliás, que reconheça nessa disputa a ilusão que ela de fato é. E que caminhe para o rumo já apontado pelos trabalhadores marginalizados sem referência sindical: nós por nós. A tarefa agora é organizar um programa radical que consiga enraizamento de massas e saiba subordinar-se à experiência popular.

Simples? De maneira nenhuma. Mais imperativo. Fora disso, e qualquer coisa que não caminhe nesse sentido, sim, desonra a bandeira do antifascismo, inclusive puxar voto no PT.

D) Universidade é o terreno da abstração mesmo né? Galera morre na abstração mas não é capaz de cair pra vida real. Quem puxa voto pro Haddad, e não quem faz campanha contra a farsa eleitoral, é conivente com o crescimento do reacionarismo. Deixa de desonestidade!

E) Esse texto não foi direcionado especificamente aos anarquistas, mas a todos os trabalhadores. Mas fica aqui um palavra do meu mais absoluto desprezo ao anarcocirismo e anarcopetismo: se você se chama anarquista e agora capitulou pra fazer campanha pra candidato, toma vergonha e vai procurar outra brincadeira pra preencher seu tempo. Você não é, se algum dia foi, anarquista. A base social tem o direito de se embaraçar nas leituras e cair nesse desespero pró-petista que nada tem a contribuir para a luta real contra o fascismo. Os anarquistas, nunca.

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Cerejeira silvestre –
Sobre o regato se move
Uma roda d’água.

Kawai Chigetsu

[EUA] Vídeo: Fascista vai a nocaute em confronto com antifascistas

Os antifascistas dos Estados Unidos continuam com a ofensiva de não dar trégua e qualquer espaço público à extrema direita e à organizações fascistas.

Em 6 de outubro, na cidade de Providence, no estado norte-americano de Rhode Island, o grupo de extrema direita “Proud Boys”, e outros como “American Guard” e “Boston Free Speech” e suas celebridades – Tusitala “Tiny” Toese, líder do “Patriot Party”, e Joey Gibson, que se postula como candidato republicano ao Senado, organizaram um ato supremacista branco no centro da cidade. Contudo, uma contra-manifestação antifascista foi convocada e superou em números a manifestação ultradireitista.

Em determinado momento dos protestos, um facho desferiu alguns socos em um antifascista. A partir daí aconteceu um confronto corpo-a-corpo entre os grupos, terminando com um fascista nocauteado. Como de costume, a polícia protegeu “seus amiguinhos”.

Após o enfrentamento, principalmente nas redes sociais, os fachos se queixaram da “violência esquerdista e dos anarquistas”.

>> Veja o vídeo (01:40) do confronto aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=bhvzypJcw54

Fascistas não passarão, nem aqui nem acolá! Ação direta neles!

agência de notícias anarquistas-ana

Junco ressequido –
Gelado ao sol da manhã
O vulto do peixe.

Hirose Izen

Não Temos Tempo de Ter Medo: Combater com Ação Direta a Ofensiva Reacionária

Comunicado nº 60 da União Popular Anarquista – UNIPA, outubro de 2018

Às trabalhadoras e aos trabalhadores do Brasil

À Juventude pobre da periferia

Aos povos indígenas e camponeses

Ao povo negro das favelas e periferias

Às mulheres combatentes e aos grupos LBGTT

Aos operários, desempregados, trabalhadores informais, estudantes e professores

Nenhum governo do mundo combate o fascismo até suprimir-lo, quando a burguesia vê que o poder lhe escapa das mãos recorre ao fascismo para manter o poder de seus privilégios.”

(Buenaventura Durruti – anarquista espanhol)

No Comunicado nº 57, de março deste ano, afirmamos que nem o lulismo e nem o anti-lulismo apresentariam soluções para os problemas estruturais da classe trabalhadora brasileira. A classe dominante, entre elas os altos escalões do poder judiciário brasileiro e as altas patentes militares, escolheram fazer uma ofensiva com objetivo de explorar, dominar e espoliar ainda mais o povo. E mesma toda conciliação de classe do lulo-petismo não foi capaz de evitar todo o processo de repressão e criminalização do PT e do Lula.

A burguesia apostou suas fichas numa ascensão do próprio PSDB de Alckmin no pós impeachment, no entanto, dois anos depois viu a ascensão do candidato de extrema direita, Jair Bolsonaro (PSL), que se tornou o principal favorito dessas eleições presidenciais. Alimentado pelo anti-petismo, pelo apoio das igrejas neopentescotais, e pela adesão do General Mourão, do PRTB (herdeiro do Prona) a sua candidatura mudou qualitativamente. Ela indica a adesão de uma parte da cúpula da burguesia militar a um projeto de reação autoritária, dando substância de classe ao mesmo, ganhando apoio do agronegócio, mineração e setores do comércio. O apoio do eleitorado a candidatura indica a formação de uma base social conservadora, mas contraditória, na aristocracia salarial e na pequena burguesia, além do apoio confuso de setores do proletariado marginal em parte com base num conservadorismo e messianismo de base religiosa, o mesmo que vota em Lula. Na reta final da campanha de primeiro turno temos ainda o início da adesão de uma burguesia e dos meios comunicação corporativos, de forma mais aberta a Rede Record do Bispo da Igreja Universal Edir Macedo.

Neste sentido, o programa político-econômico foi se consolidando como ultraliberal e conservador, a partir da assessoria do Economista Paulo Guedes, ex-assessor econômico na ditadura chilena de Pinochet. A desconfiança dos agentes capitalistas se deu apenas pela contradição entre a ação parlamentar de Bolsonaro e a nova pauta de sua candidatura: ultra privatizadora e pró-americana. Não tem nada a ver com defesa da democracia e de direitos civis, políticos e sociais. Ao chamado “mercado”, ou seja, a classe dominante, só tem interesse na maximização da exploração.

Ainda no Comunicado 57 afirmamos:

O Sistema capitalista brasileiro está oscilando da demagogia ao despotismo, implicando na reestruturação das relações de classe e de poder. A nova fase do Estado de Exceção visa permitir um aprofundamento da exploração, modificando as relações de classe; visa retomar o controle dos cargos e dos recursos do Estado pela grande burguesia e pela pequena-burguesia de mercado, expulsando assim a pequena-burguesia de esquerda, uma parte da tecnocracia e a aristocracia operária. Desse modo, a centralização do poder tem um conteúdo econômico e de classe. Ao atacar a aristocracia operária e setores da pequena-burguesia, a política ultraneoliberal do PMDB visa concentrar renda e riqueza, nivelando as condições de vida da classe trabalhadora por baixo.”

(UNIPA, Comunicado 57, março, 2018)

1. Os cenários: a volta Estado de Exceção neodesenvolvimentista ou à repressão ultraneoliberal

No Comunicado 57 delineamos 4 cenários:

Cenário 1) Lula reverte a decisão e se candidata;

Cenário 2) Lula fora das eleições, mas o PT lançando candidato alternativo;

Cenário 3) Lula fora das eleições com o PT colocado na ilegalidade como uma organização criminosa;

Cenário 4) Lula fora das eleições, com todos os Partidos de Esquerda com suas candidaturas inviabilizadas por uma estratégia de judicialização e criminalização.

O cenário 2 se confirmou e com ele a previsão de fortalecer o lulismo e com isso desgastar o sistema representativo. Como avaliamos, para desarticular o lulismo e todas as formas de oposição por dentro do sistema seria necessário avançar para os outros dois cenários. Esses dois cenários (PT na ilegalidade e/ou todos os partidos de esquerda) podem evoluir no pós eleição de 2018 no caso de uma vitória da chapa Bolsonaro-Mourão (PSL-PRTB).

Um possível governo Bolsonaro-Mourão (PSL-PRTB), que teria em Bolsonaro uma liderança personalista de massas conversadora e autoritária, aglutinaria todas as forças reacionárias e conservadoras que se organizaram contra o PT e o lulismo com uma política econômica ultraliberal de retirada de direitos das trabalhadoras e trabalhadores. Do ponto de vista da violência contra a classe trabalhadora, a tendência é sua radicalização, podemos ter a implementação de um modelo parecido com a Turquia, um governo civil militarizado e extremamente repressor. Esse modelo tende ao aprofundamento da repressão sistemática para desarticular no médio prazo o lulismo e o petismo, bem como seus partidos satélites, e com isso desarticulando as principais forças hegemônicas dos movimentos da classe trabalhadora e dos movimentos sociais em geral.

O possível aumento da centralização do poder estatal, tornando a democracia burguesa mais restrita e limitada, tende a produzir efeitos contraditórios de desorganização e reorganização dos movimentos sociais. Ou seja, no curto prazo, o ultraliberalismo conversador, tende a uma ofensiva para destruir o lulismo e desarticular os principais movimentos sociais. Isso significaria o aumento da violência contra ativistas e militantes e das lutas sociais no geral, podendo inclusive girar atuação paramilitar especificamente contra as organizações da classe trabalhadora e seus militantes. Neste sentido é preciso destacar o grande número de militares eleito pela bancada do PSL, sem contar que uma parcela significativa dos eleitores de Bolsonaro forma uma base protofascista.

Considerando o plano das políticas governamentais, o ultraliberalismo tem uma agenda absolutamente anti-povo. Privatizações, incluindo a privatização de serviços públicos como saúde e educação, retirada de direitos mais básicos, entreguismo econômico, desprezo pelas pautas dos camponeses e indígenas, violência contra o povo negro e favelado. Nesse cenário, o ascenso das lutas e resistências populares será inevitável.

Num cenário de extrema repressão e de uma agenda governamental anti-povo, alternativa para os movimentos da classe trabalhadora e dos movimentos sociais em geral será a emergência de novas formas de consciência de classe, autoconscientes e auto-organizadas. Mas para isso será necessário que a classe trabalhadora abandone o lulismo enquanto ideologia, isto é, superando as ilusões personalistas, messiânicas e estatistas que até agora hegemonizam os movimentos sociais. Esse seria um processo de auto-organização e autoconsciência do desenvolvimento das forças coletivas da classe trabalhadora.

Um segundo cenário seria a vitória da chapa Haddad-Manuela (PT-PCdoB) tendo que aprofundar a política de conciliação e um ajuste fiscal que já se avizinha para os próximos anos, no entanto, com seu governo sendo questionado pela extrema direita que tende a não aceitar o resultado das eleições. E por outro lado, pressionados pelas forças liberais democratas pró mercado, aumentando o controle sobre o movimento sindical e social em troca de uma paz para sua sustentação politica, atendendo interesses da burguesia. As frações da burguesia, mesmo com toda experiência de conciliação do governo petistas e de acenos do próprio Haddad, mostraram um movimento paulatinamente adesão à chapa de extrema direita, Bolsonaro-Mourão, indicando que não há perspectivas para refazer o pacto de conciliação de classes. Portanto, um possível governo petista deve sofrer enormes ataques da burguesia e da extrema direita, com boicotes e locautes, principalmente se se confirmar a perspectiva de recessão da economia mundial. Neste sentido, não podemos descartar uma intervenção por parte do PSL e das forças políticas, sociais e econômicas que agora o apoiam, como o generalato, para derrubar um governo PT-PCdoB e realizar, inclusive novas eleições sem os dois partidos.

2. Caminhos da insurgência: auto-organização e ação direta

Seja qual for o novo governo, Bolsonaro-Mourão (PSL-PRTB) ou Haddad-Manuela (PT-PCdoB), os cenários mais prováveis é de acirramento da luta de classes e dos conflitos políticos, com o avanço do Capital sobre a classe trabalhadora, retirando mais direitos, aumentando da exploração e recrudescimento da repressão. E a saída para essa situação não passa pela disputa eleitoral, mas pela criação de espaços autônomos da classe (assembleias populares) que seja semente de um contrapoder com vista a organização de um congresso do povo. O autoritarismo e a tirania estão dentro do Estado. A liberdade está no autogoverno das trabalhadoras e trabalhadores. No socialismo.

Diante do acirramento da luta de classes e de recrudescimento do regime, a classe trabalhadora terá que passar por um processo de auto-reorganização, isto é, buscando formas organizativas livres das amarras da tutela das burocracias sindicais e políticas, bem como romper com as práticas e concepções legalistas e pacifistas da social-democracia, necessitando organizar sua autodefesa enfrentar a nova conjuntura de acirramento da luta de classes. Os cenários exigem um movimento de massas auto-organizado, resultante da rearticulação das forças coletivas do proletariado.

Por isso é necessário promover a ação direta e resistência local, por meio da promoção de lutas e greves parciais reivindicativas, de resistência à intensificação da exploração e retirada de direitos, combinada com a criação de organizações sindicais e cooperativas de tipo sindicalista revolucionária. É fundamental nos auto-organizarmos. Os cenários serão cada vez mais difíceis para as alternativas revolucionárias e combativas no curtíssimo prazo.

Será fundamental uma luta de palmo a palmo, casa à casa, rua à rua, combatendo em duas frentes: a reação clerical militar-burguesa e o lulismo-reformismo que aposta suas fichas na administração do governo federal. A estratégia revolucionária: resistir localmente, pensando e construindo globalmente. É preciso combinar as resistências e lutas locais com as formas globais contra o autoritarismo e a tirania, com a propaganda de construção de assembleias populares, que mesmo que não sejam imediatamente realizáveis, educam e forjam a consciência de massa para as lutas futuras.

A ação direta, o enfrentamento de rua e as greves terão de assumir uma nova dimensão. A ação direta não se resume a luta combativa, embora seja sua característica fundamental, pois ela significa a luta proletária autoconsciente, a ação política emancipatória da classe. O enfrentamento de rua não poderão se restringir aos grupos de autodefesa, pois será necessário uma luta ofensiva. As greves terão superar os limites das lutas reativas e corporativas. As greves gerais não poderão ser apenas políticas, mas terão de assumir a condição de uma greve geral insurrecional.

Há 84 anos, no dia 07 de outubro de 1934, foi dada uma lição aos fascistas. Anarquistas, Comunistas e militantes colocaram para correr os integralistas na praça da sé em São Paulo. A tirania e o autoritarismo deve ser combatidos com a auto-organização e ação direta da classe rumo ao socialismo, ao autogoverno das trabalhadoras e trabalhadores.

Entramos num ciclo de guerra de classe declarada contra as trabalhadoras e trabalhadores travestido de antipetismo. Para enfrentar essa guerra é necessário: 1) construir movimentos autônomos; 2) organizar a ação direta; 3) articular os comitês populares (antifas) de autodefesa.

NÃO VOTE, LUTE!!!

Organizar Assembleias Populares e um Congresso do Povo trabalhador e explorado!!!!

O fascismo não se discute, se destrói!!!

Greve Geral!!!

União Popular Anarquista – UNIPA

Site: uniaoanarquista.wordpress.com

Facebook: uniaopopularanarquista

E-mail: unipa@protonmail.com

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Escorre pela folha
a tarde imensa,
pousada em gota d’água.

Yeda Prates Bernis

Combater o Fa$cismo pela Ação Direta

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por Mano da Rádio Cordel Anarquista | 10/10/2018

Não escrevo esse texto somente para aquelxs pessoas que compartilham do mesmo pensamento que eu, que mesmo diante da conjuntura atual continua críticx e contrárix as eleições e a qualquer tipo de representação, ao contrário, escrevo para todxs, que independente das eleições mantém a ação direta como a principal ferramenta de transformação social e luta pela emancipação plena do ser humano.

Estamos diante de um avanço do fa$cismo declarado (porque o fa$cismo institucional¹ mascarado sempre existiu) de uma forma inédita desde o fim da ditadura militar, alguns anos atrás o fa$cismo declarado estava a cargo de pequenos grupos de jovens nazi-fascistas, que encontrávamos geralmente no fim de balada, e que esses encontros resultavam com frequência em violência física, ocasionando em alguns casos até mortes, principalmente de pessoas de sexo-dissidentes, negrxs, nordestinxs, mas também com punks e anarcxpunks.

Esses grupos como não poderia ser diferente, sempre tiveram ao seu lado os aparatos de repressão do e$tado, estes fazendo da impunidade e omissão uma grande contribuição para o crescimento desses grupos na sociedade. Para muitxs anarquistas restava somente umas meias com bolas de bilhar, e outros tipos de improvisos para se defender, mas que durante muitos anos foi relativamente suficiente para de certa forma conter esses grupos.

Mas diversos fatores nos últimos anos contribuíram para que o pensamento desses pequenos grupos saísse dos porões do DOPS [Departamento de Ordem Política e Social] e penetrassem de forma sistemática no senso comum da população. Dos vários motivos que acredito ser responsáveis por essa onda fa$cista atribuo ao crescimento do empoderamento de setores da sociedade que sempre foram excluídxs, como xs sexo-dissidentes, mulheres, negrxs, pobres e diversos outrxs, que se organizaram e souberam utilizar das tecnologias para construir afinidades e combater os diversos tipos de preconceito. E como onde tem excluídx e oprimidx sempre terá privilegiadx e opressor, obviamente aquelxs que usufruíam e ainda usufruem do status quo opressor ficaram sedentxs por discursos e pessoas que representassem esse ódio contra a ascensão dessas pessoas que elxs sempre oprimiram.

Um momento que ficou visível que esse tipo de pensamento não era minoria, foi nas manifestações de junho de 2013, quem pôde acompanhar sentiu na pele literalmente que o nazi-fa$cismo não estava mais restrito aquelxs jovens carecas de vida noturna, mas havia tido uma grande adesão, principalmente da classe merda, e classe merda alta.

Já se passaram cinco anos desde as gloriosas e ao mesmo tempo aterrorizadoras manifestações de 2013, e o que vimos é que o pensamento nazi-fa$cista conseguiu encontrar alguém para se personificar, e com o apoio dos meios de comunicação, da burguesia nacional e internacional, conseguiram propagar o pensamento de ódio contra xs oprimidxs de uma forma assustadora, o que antes era tido como preconceito hoje tem se naturalizado e tem feito parte do cotidiano das relações sociais. Mas dessa vez não é somente a classe merda que defende esse tipo de pensamento, tem atingido a população pobre e periférica também, e o resultado dessa adesão em massa tem sido assassinatos, ameaças e todo tipo de violência as pessoas principalmente do sexo-dissidente, mulheres, negrxs, mas também ativistas e movimentos sociais.

Na proporção que chegou discordo que tudo isso pode ser resolvido no âmbito eleitoral, independente do resultado das eleições esse pensamento e essas práticas irão continuar, até mesmo porque as duas forças que disputam o poder do e$tado já mostraram o que fazem com quem se rebela contra elxs, trago como exemplo para a memória dxs leitorxs a lei antiterrorista sancionada pelo governo anterior, e a repressão e perseguição dxs anarquistxs nas manifestações de 2013.

Diante da escolha que uma parte dxs anarquistxs tem feito em torno das eleições pode ser que discordem principalmente da análise que faço no parágrafo acima, mas tenho grande esperança que não discordem de uma coisa, que temos que agir, que temos que nos mobilizar em todos os espaços que temos acesso, na vizinhança, na associação de bairro, nas ruas, escolas, sindicatos, enfim, precisamos urgentemente combater o fa$cismo, e isso só pode ser feito pela ação direta.

Mas as estratégias não têm como ser semelhante da época que combatíamos xs skinheads, através da violência (dependendo dos grupos, sim), pois agora esse pensamento nazi-fa$cista não contempla somente uma minoria, mas agrega uma parte considerável da população, e em muitxs casos nossxs próprixs familiares. Precisamos usar a ferramenta mais eficaz que historicamente xs anarquistxs sempre utilizaram, que é a educação, precisamos se colocar presente nos espaços de socialização, seja debatendo de forma direta e/ou mostrando nosso pensamento anárquico através das artes, da música, do cinema, mas independente da forma, precisamos propagandear o respeito e a convivência com a diversidade em todos os âmbitos e junto com todxs transformar o micro para um dia derrubarmos o macro-poder, isso sim é o que nos localiza como anarquistas.

Obs: Lamento muito que o termo fa$cismo tenha se banalizado e hoje em dia tem sido utilizado pelxs fa$cistas para combater outrxs fa$cistas.

[1] Observação de Crosta Knup após a publicação desse artigo, e que o autor achou relevante explicitar.

Fonte: https://cordelanarquista.milharal.org/combater-o-facismo-pela-acao-direta/

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outubro
no teto passos pássaros
gotas de chuva

Paulo Leminski

Anarquismo e/ou o “antifascismo” senso comum

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Quando se faz “campanha contra o fascismo” repercutindo palavras de ordem propagadas por limitantes de partidos políticos para alçarem seus candidatos ao poder (como o “ele não”, que pressupõe um “o outro sim”), se está permanecendo apenas no nível superficial da compreensão do fenômeno, pois o que está na raiz de todo este processo que assola não apenas o Brasil mas o mundo hoje, é exatamente a cultura sustentada pelo eleitoralismo (por todos os partidos, sejam de direita, esquerda, centro ou fundos), de condicionar a população a ficar dependente de “grandes salvadora/es da pátria”, que normalmente conseguem (esta/es “salvadora/es”) fazer passar todo um pacote ideológico de concepções de mundo uniformizantes (sejam de direita ou de esquerda) a partir do “gancho” de proporem “soluções fáceis” para algum problema urgente da sociedade (tal como – no caso da esquerda – a questão da “exclusão”, intrínseca ao funcionamento da máquina produtivista/consumista global, ou – no caso da direita -, a questão do crescimento da violência – consequência do crescimento do processo de “expulsões” intrínseco à grande máquina capitalista).

Outro exemplo do risco de se permanecer apenas no nível das aparências do fenômeno é o de se pensar que o fascismo doutrinário está tendo adesão massiva da população brasileira – em todas as classes sociais – com o crescimento da candidatura do Bozo Nazi: ora, eu, por exemplo, conheço várias pessoas próximas a mim que votam em Bozo Nazi e fazem isto apenas levadas pelo desespero de quererem ver resolvidas de forma “fácil e rápida” as questões da violência e da corrupção, mas que não compactuam ideologicamente com ideias racistas, homofóbicas, ditatoriais.

Não se deve tomar os exemplos da parcela de eleitores do Nazi que “fazem mais barulho” como sendo uma amostra significativa do universo daqueles que votam nele, sob pena de, por exemplo, deixar de perceber que uma boa parcela da/os que votam nele hoje, ontem estavam votando em Dilma ou em Lula, exatamente pelo mesmo motivo de terem sido condicionada/os pela cultura eleitoreira a buscarem soluções para os problemas sociais gerados pelo sistema através da eleição de pretensa/os “salvadora/es da pátria”.

Por tudo isto é que faço coro com a/os libertária/os que afirmam que é lamentável que a acusação de fascismo tenha sido apropriada hoje por aquela/es que – na perspectiva de um nível mais amplo e profundo de compreensão do fenômeno do fascismo – também são parte integrante e responsável por este fenômeno. E eu ainda acrescento: é muito mais lamentável que anarquistas estejam tão “míopes” que, a título de “combater o fascismo”, vão se prestar, uma vez mais, a contribuírem para a perpetuação da mesma cultura nefasta de “seguidismo de grandes salvadora/es da pátria”, que está na base do fenômeno em questão.

Então, o que eu proponho não é ficar “assistindo a tudo isto apenas porque não compactuamos com o sistema”, mas sim, que tenhamos a profundidade de compreensão do fenômeno necessária para que não nos deixemos ser manipulada/os por loba/os, movida/os pelo medo do leão.

Por isto, a única campanha que eu apoio, é a que sustenta o: #Eles Não!

Vantiê Clínio Carvalho de Oliveira

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sobre os vidros
traços de nariz e dedos
olham ainda a chuva

André Duhaime

Ivan Aguéli, condenado a viver

No cemitério cristão da pequena população de Sala está enterrada uma pessoa que foi de tudo menos cristã: pintor vanguardista, sufista, amante da cultura árabe, defensor dos direitos dos animais e, sobretudo, anarquista. Em Sala, a população que o viu nascer mas que nunca lhe compreendeu, descansa o pintor Ivan Aguéli (1869-1917). Também há um museu dedicado a sua obra pictórica.

4 de junho de 1900. Se instalou em Paris uma praça de touros provisória para apresentar e introduzir a tourada na França. No centro da praça dois toureiros esperam a saída do touro. O público guarda silêncio expectante. De repente, entre o público, salta à arena um homem vestido de negro esgrimindo uma pistola. Veloz se aproxima dos toureiros e antes que nenhum dos presentes possa reagir descarrega a arma sobre eles. Um dos toureiros cai ferido. O público grita estupefato e a polícia corre até o agressor que deixa cair a arma enquanto grita: “Viva o touro!”

O autor dos disparos é o anarquista Ivan Aguéli. Um pintor sueco que se dedica a percorrer Paris em busca de inspiração e revolução. O atentado lhe custará uma condenação a prisão condicional e uma multa. No entanto, o processo judicial que seu atentado iniciou acabou na proibição das corridas de touros na França.

Quem era este anarquista desconhecido? Ivan Aguéli, se chamava na realidade John Gustaf Agelii. Nasceu em 24 de maio de 1869 em Sala (Suécia). Sua família gozava de uma posição econômica boa mas não era feliz. Durante toda sua infância foi maltratado com frequência por seu pai. Constantemente ele e seu pai se enfrentavam já que o desejo de liberdade de Aguéli era demasiado forte e isso gerava tensões entre pai e filho.

Depois de uma série de fracassos escolares o pai decide enviar Aguéli à cidade de Visby (Gotland). A ideia do pai é que Aguéli abandone as más companhias e volte ao caminho reto. A ilha de Gotland muda totalmente o futuro pintor que, impressionado por sua natureza, descobre a pintura.

De volta da ilha, Aguéli começa a estudar pintura na prestigiosa Associação de Arte de Estocolmo. No entanto, Aguéli volta a mostrar seu caráter inconformista e inadaptado se chocando frontalmente com a formação academicista e clássica da escola. Faz inimizade com o máximo representante da arte oficial da época, o pintor impressionista Anders Zorn (1860-1920).

No ano de 1890 faz sua primeira viagem a Paris. Ali muda seu nome para Iván Aguéli. Conhece Cézanne, Gauguin, Van Gogh e o anarquismo.

Para o pintor, que vive de aluguel em casa do casal Hout – Anatole e Marie – o anarquismo “quer criar uma coisa nova desde nossa sociedade insalubre”. A casa do casal Hout é uma casa cheia de gatos abandonados e acolhidos, de intelectuais que vão e vem, de tertúlias estimulantes. É o centro intelectual de Paris. Nos andares da casa Aguéli se encontra com August Strindberg, Charles Baudelaire e Eugène Delacroix.

Nem tudo é arte para Aguéli: participa em diversas ações anarquistas. Aprende a fazer bombas, é preso em diversas ocasiões. Está imerso no buliçoso mundo anarquista de Paris. Em uma carta no ano de 1911 descreve o anarquismo a seu amigo Richard Berg da seguinte maneira: “Imagina um pôr e um nascer do sol de uma vez. O enorme e tranquilo heroísmo dos dinamiteiros; a vingança das vítimas culturais; os sonhos dos utópicos e dos artistas; intuição, talvez um raio pálido mas que inclui os primeiros raios del sol”.

Finalmente, a perseguição policial de que é objeto lhe faz deixar a França pelo Egito. Será a segunda vez que visita o país. Desde pequeno, por causa da leitura infantil de As mil e uma noites, sempre se sentiu atraído pelo Oriente. No Egito se estabelece no Cairo.

A primeira visita ao Egito foi uma tentativa de curar-se de uma surdez que lhe perseguia desde seu nascimento. Aquela viagem resultou em sua conversão ao Islã, mais precisamente ao sufismo, e a adoção de um novo nome, Abd Al-Hadi Aqhili. Nessa segunda viagem se translada ao deserto para pintar e estudar o árabe. É um período de introspecção só interrompido por uma viagem a Paris e a Sala. Em seu povoado natal assiste ao enterro de seu pai. Ninguém, na Suécia, quer se relacionar com o estranho personagem que vai ao funeral vestido com uma túnica oriental. Durante estes anos escreve: “Desgraçadamente triunfarei, estou condenado a viver, já que um dia minha arte terá que explicar as excentricidades de minha vida”.

Voltará ao Egito uma terceira vez. Esta será a mais frutífera de todas: chegará a pintar cerca de setenta quadros. No entanto, sua atitude crítica contra o poder colonial inglês no país motivará sua expulsão do Egito.

Chega a Barcelona em 1917 a caminho de Paris. O estalido da Primeira Guerra Mundial lhe obriga a ficar em Barcelona. Se estabelece em L’Hospitalet. Cada manhã pega seus objetos de pintura. Seguindo a linha de trem se move terra adentro em busca de motivos para pintar. A seu amigo, o artista Carl Wilhelmson lhe pede que não ponha o nome de Iván no destinatário das cartas, “melhor Gustav” já que o nome de Iván tem demasiadas conotações revolucionárias e os rumores de agitadores e revolucionários vindos da Rússia são constantes na Espanha. Além de pintar Aguéli se dedica a fazer traduções e a escrever sobre a arte catalã. O velho revolucionário não vê com bons olhos a Barcelona da época que parece olhar com receio ao estrangeiro. “Barcelona se tornou impossível para mim. A agitação é inimiga dos estrangeiros (…) Para os revolucionários todo estrangeiro é um espião. Está claro que um pintor paisagista é um espião, pensam. Nem os policiais nem os militares me dizem algo quando pinto ao lado das baterias (…) mas os republicanos tem que se fazer notar. Como no Egito. Lá os ingleses não me diziam nada mas os jesuítas, os armênios, levantinos e todos os outros tinham que gritar me ofendendo (…) Não falo de política com ninguém nem me meto no que não me importa. Mas basta que caminhe com meus objetos de pintura pela rua ou a estrada para sentir o ódio de classe ou a xenofobia. A minha pessoa não querem mal, simplesmente não me deixam trabalhar (…)”.

Em primeiro de outubro de 1917 como cada manhã pega seus materiais de pintar e caminha pela linha férrea em busca de um motivo que lhe chame a atenção o suficiente para pintá-lo. Hoje tem febre e pode ser que ouça menos que o normal. Por trás dele avança um trem. Apesar dos contínuos avisos do maquinista Aguéli não se afasta e o trem lhe atropela em sua passagem.

Morre com a idade de 48 anos. Deixa uma obra vanguardista pioneira na Suécia. Ivan Aguéli resumia sua obra com estas palavras: “nunca se é o suficientemente exato, suficientemente simples nem suficientemente profundo”.

Quando chegou a Espanha Aguéli tinha como máximo desejo – assim o confessa a sua mãe em uma carta escrita em 1916 – visitar Múrcia. A cidade do filósofo sufí Ibn Arabi, que se regia por duas máximas: “Não tenhas medo” e “Pensa por ti mesmo”.

Albert Herranz

Fonte: https://www.nodo50.org/tierraylibertad/361articulo8.html

Tradução > Sol de Abril

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a borboleta
pousa sobre o sino do templo
adormecido

Buson