[Curdistão] Mais um anarquista morreu em Rojava enquanto defendia a revolução

“Não me arrependo e morri fazendo o que achei certo, defendendo os fracos e permanecendo fiel aos meus ideais de justiça, igualdade e liberdade.”

O comando TKP / ML-TIKKO de Rojava divulgou um comunicado anunciando o martírio do lutador anarquista italiano Lorenzo Orsetti em Deir ez-Zor.

O texto completo da declaração diz o seguinte:

“Hoje o nosso companheiro TEKOŞER, um intrépido lutador que vivia no quartel-general de TIKKO, foi martirizado durante a luta para salvar Baxoz das mãos do DAESH. Esta manhã [18/03], nosso companheiro italiano TEKOŞER foi enviado para a imortalidade durante a operação contra o DAESH. A dor da nossa perda é tremenda. Nosso camarada internacionalista TEKOŞER juntou-se sem medo de inúmeros ataques e confrontos na frente de batalha, desde a resistência de Afrin à libertação de Deir ez-Zor.

Nosso companheiro, que foi um grande lutador da revolução de Rojava, sempre foi um líder da guerra e da resistência. O nome TEKOŞER será lembrado como de luta e resistência. Cada lugar onde o inimigo aparecia era um lugar de guerra e resistência para ele. Ele estava sempre inquieto quando não se juntava aos confrontos e pintava a mais bela imagem de felicidade quando ia para a frente de batalha. Ele surfou a onda de liberdade da Itália para Rojava. Seu nome é o heroico do internacionalismo e da revolução, como os de BARBARA ANNA KISTLER e do comandante NUBAR OZANYAN.

Nosso bravo camarada viverá para sempre em nossos ideais de liberdade. Ele estará sempre conosco na cor vermelha da nossa bandeira da vitória. Será lembrado com respeito e dignidade. Prometemos honrá-lo em nossa luta e continuar sua camaradagem e compromisso com a luta.

O bravo camarada dos lutadores de TIKKO, um herói do proletariado internacional, um lutador destemido da Revolução de Rojava, nosso companheiro TEKOŞER viverá em nossa luta contra o fascismo.

O CAMARADA TEKOŞER É IMORTAL!

Os lutadores do povo são imortais!

Abaixo o imperialismo, o feudalismo e todos os sistemas reacionários!”

>> Em uma mensagem escrita antes de seu martírio, o voluntário italiano disse o seguinte:

“Oi, se você está lendo esta mensagem, significa que eu não faço mais parte deste mundo. No entanto, não fique tão triste, estou bem com o que aconteceu comigo, não me arrependo e morri fazendo o que achei certo, defendendo os fracos e permanecendo fiel aos meus ideais de justiça, igualdade e liberdade.

Então, apesar da minha partida prematura, minha vida tem sido um sucesso, e tenho quase certeza de que fui com um sorriso no rosto. Eu não poderia ter pedido.

Desejo-lhe tudo de bom no mundo e espero que um dia você também decida dar a sua vida pelos outros (se ainda não o fez), porque essa é a única maneira de mudar o mundo.

Somente combatendo o individualismo e o egoísmo em cada um de nós podemos fazer a diferença. Estes são tempos difíceis, eu sei, mas não desanime, nunca desista, nunca! Nem por um segundo.

Mesmo quando tudo parece estar perdido, quando os males que atormentam a terra e a humanidade parecem intransponíveis, você deve encontrar força, você deve buscar força em seus companheiros.

É nos momentos mais sombrios que mais precisamos da sua luz.

E lembre-se sempre que “toda tempestade começa com uma única gota de chuva”. Você deve ser essa gota de chuva.

Eu amo todos vocês, espero que você valorize essas palavras pelo tempo que virá.

Serkeftin!

Orso

Tekoşer,

Lorenzo.”

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poeirão
se levanta no caminho
secam meus olhos

Marcos Amorim

[Canadá] Tema anti-fascista no Festival de Teatro de Montreal

Trecho da peça sobre a luta grega

por Fifth Estate Collective

 Norman Nawrocki: “De jeito nenhum! De jeito nenhum!”

 “Árvores que falam” (“Trees that Talk”) foi apresentada no Festival Anarquista de Teatro de Montreal em 2018, cujo tema era o antifascismo. A peça é baseada na vida de seis mulheres anarquistas e antifascistas – quatro da oposição do século 20 na Itália, Espanha, Alemanha e Polônia, e duas recentes da Grécia e da Síria.

 Uma foto de cada personagem foi projetada no palco com a música tema do período tocando enquanto as mulheres diziam seus monólogos. Este trecho apresenta Georgia, uma antifascista grega que foi interpretada pela atriz Caileigh Crow.

 No final, as atrizes, acompanhados por um acordeonista, cantaram a música italiana antifascista, Bella Ciao, com o público.

 Para obter informações sobre o festival internacional de teatro de 2019, visite anarchistetheatrefestival.com.

 (GEÓRGIA SAI da sombra chutando, fazendo Muy Thai; para a frente e para trás, esquerda, direita, para frente, para trás… e soca para todos os lados, enxuga o rosto com uma toalha, agacha-se para respirar, xinga em grego, mostra o dedo do meio.)

 Kaleespera! (Boa noite) Kalos IRTHATE! Seja bem-vindo! Bem-vindo ao genuíno clube de luta antifascista! É onde eu treino com outros anarquistas – homens e mulheres. Meu nome é Georgia. Eu sou grega. Sou uma anarquista há muito tempo. Vinte anos pelo menos.

 (SOCOS E CONTAGEM) 1 ena! 2 dhee-o! 3 tree-a! 4 te-sera!

 Quando o partido neofascista Aurora Dourada entrou pela primeira vez no parlamento, houve batalhas de rua entre nós antifascistas e eles. No meu bairro em Atenas, houve ataques racistas e ataques contra anarquistas.

 E, ataques anti-migrantes em todo o país. Contra migrantes indocumentados e refugiados do Afeganistão, Paquistão, Somália. Eles usaram paus, pés-de-cabra e cães de ataque. Eles mataram gente. Então, anarquistas e antifascistas começaram a treinar autodefesa. Para proteger a nós e aos outros.

 (SHADOW BOXING NO PALCO E CONTAGEM) 1 ena! 2 dhee-o! 3 tree-a! 4 te-sera!

Eu luto pela igualdade de todas as pessoas. Todas. É por isso que sou anti-fascista. O antifascismo significa que lutamos contra qualquer tipo de opressão. Racial, sexual, homofobia e até o capitalismo. Porque o capitalismo global é uma espécie de fascismo também. Os ricos oprimem os pobres. Em todo lugar. Gamoto elk! Foda-se!

Neste ginásio, não há tolerância com o comportamento machista ou patriarcal. Caras machões? Não são bem-vindos! Pow! (SOCA OPONENTE IMAGINÁRIO)

Na Grécia, temos uma cultura profundamente enraizada de antifascismo. (pausa para recuperar o fôlego, as mãos nos joelhos)

Durante a Segunda Guerra Mundial, nazistas alemães e fascistas italianos e búlgaros nos ocuparam. Antes de os expulsarmos, eles mataram 60.000 judeus gregos.

Mas o fascismo não morreu com Mussolini ou no final da guerra. Não! A Europa não aprendeu com seus erros. Existem aqueles que vivem para espalhar o discurso de ódio todos os dias. Até mesmo aqui! Entre 1967 e 1974, brutais juntas militares de direita governaram a Grécia. Tantos ativistas, sindicalistas, antifascistas foram presos, torturados e assassinados. Mas sempre, resistência antifascista.

(chutes altos, movendo-se pelo palco)

Você sabe, eu não sou a favor da violência. Eu sou anarquista. Eu prefiro resolver na conversa. Violência contra fascistas geralmente é autodefesa. E eu não quero que o mundo lide com o fascismo usando violência. Eu quero mudar o futuro e derrubar a ideologia fascista usando meios pacíficos.

Mas enquanto isso, mais uma vez, há fascistas patrulhando as ruas – nossas ruas! Não podemos deixá-los marchar livremente. Temos que tornar as ruas inseguras para eles.

Então nós treinamos. Para defender a nós e aos outros. É assim que fazemos na Grécia!

POW! POW

Kalynychta! (boa noite!)

>> Norman Nawrocki é um escritor / ator / músico de Montreal e, por vezes, dramaturgo. Ele viajou pela Itália em novembro e dezembro de 2018 com uma recém-publicada tradução italiana de seu romance antifascista, anarquista, de direitos dos refugiados de Roma, CAZZAROLA! Anarquia, Romani, amor, Itália.

Fonte: https://www.fifthestate.org/archive/402-winter-2019/anti-fascist-theme-at-montreal-theatre-fest/ 

Tradução > Abobrinha

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/11/03/grecia-revidando-academia-grega-treina-para-acoes-antifascistas/

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jardim da minha amiga
todo mundo feliz
até a formiga

Paulo Leminski

[Espanha] Lançamento: “A luz da inocência”, de Pura Sánchez

Esta obra fala sobre o testemunho de uma vida única, marcada pela violência que aquelas que foram derrotadas tiveram que sofrer. Uma vida em que a condição de mulher resistente superará a de vitima. Para ela, a protagonista, Enriqueta Trujillo, enfrentará as duras circunstâncias que terá que viver, armada de solidariedade e empatia com as pessoas de sua classe e com um olhar compreensivo, ausente de rancor, um olhar puro, cheio de inocência, que não será ofuscado nem pelas penas e nem pelos anos de cárcere.

Avó nonagenária, manteve firme até agora seu propósito de contar sua experiência, para conhecimento de seus descendentes e para as novas gerações.

Esta é uma vida alheia em que talvez muitos possam identificar pedaços de sua própria vida. Uma experiência plena de humanidade, singular, única e representativa de uma história atual. Sem esquecer que “Os seres humanos são muito importantes para serem tratados como meros traços de um passado”.

Enriqueta Trujillo Gallardo (Serón, Almería, 1924). Ainda jovem, emigrou, junto com sua mãe, a Sallent, Barcelona. Lá, por influência de seu padrasto, Eduardo Muñoz, militante da CNT, foi educada na Escola Racionalista.  Meses antes do golpe de estado de 1936, volta com sua família a Pedro Martínez (Granada), onde será presidenta das Juventudes Libertárias. Também conviverá um tempo, em 1937, com a 147ª Brigada Mista do Exército de Andaluzia, sob as ordens de Francisco Maroto, onde realizará tarefas de ligação.

Terminada a Guerra da Espanha, será encarcerada, julgada e condenada por participação na rebelião. Devido a sua idade, ficará sob a tutela do Tribunal de Menores, em primeira instância, e, mais tarde, ficará reclusa no Convento das Adoradoras, até alcançar maior idade.

Sempre teve a solidariedade como o princípio que guiou sua vida e fez questão de transmitir isso a sua numerosa família.

La luz de la inocencia

Pura Sánchez

Edições Bellaterra, Coleção Otras Letras. Barcelona 2019

128 págs. Rústica 23×15 cm

ISBN 9788472909229

13.00 €

ed-bellaterra.com

Tradução > Daitoshi

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longe noite escura
uma viola
amor murmura

Eugénia Tabosa

[Itália] Turim: Declaração final ao tribunal do companheiro anarquista Gioacchino Somma

Hoje, mais do que nunca, depois de dois anos desde o início deste processo que enfrento com meus/minhas companheirxs, irmãos e irmãs anarquistas, e depois de deixar o atual promotor falar e contar uma fantasia doentia que não surpreende ninguém, hoje mais do que nunca reafirmo com mais força de que sou anarquista, individualista e insurrecionista.

Depois de ler milhares de páginas de documentos judiciais, escritos pelos diferentes inquisidores de Turim e Nápoles, fiquei ainda mais convencido de que às vezes é melhor ter problemas com a justiça do que pensar nisso como você faz.

Mantenho firme minhas ideias, das quais você não gosta, porque elas visam a destruição de tudo o que tem a ver com o seu mundo miserável.

Se eu pudesse ter escolhido, nunca teria nascido, mas outrxs escolheram por mim e só consegui viver neste mundo do meu jeito. Eu nunca serei parte do rebanho para o qual você dita o caminho do pastoreio… eu sou diferente. Eu prefiro sair da rota e andar com os lobos.

Culpado ou inocente?

Não, obrigado. Deixo este jogo sujo para você.

Eu sou anarquista e, portanto, sempre serei seu inimigo!

Eu estou ao lado de minhas irmãs e irmãos que ainda estão presxs em suas prisões estaduais. Sou simpático e cúmplice de Alfredo, Nicola, Alessandro, Danilo, Marco, Anna, Valentina e todxs xs companheirxs anarquistas presxs por outras razões em todo o mundo… da América do Sul à Grécia!

Não será a ameaça da lâmina de uma frase pendurada na minha cabeça para me fazer abandoná-las.

Me machucou não poder escrever para elxs nesses dois anos, mas eu decidi não dar mas pérolas aos porcos… e é claro que os porcos não são meus irmãos e irmãs presxs, mas aqueles que me seguiram por seis anos, aqueles que colocaram um microfone no meu quarto e aqueles que ouviram tudo o que acontecia no meu quarto. Felizmente, eu bloquei o olho de sua querida “Agente Elena”, essa porcaria que ainda está viva no meu computador. Espero ter dado apenas material para a sua “masturbação intelectual” e nada mais…

Considero um elogio ser chamado de “terrorista” por um Estado que, através de seu braço armado, mata em suas delegacias, quartéis e prisões; que sempre foi a fachada institucional da Máfia, da Camorra, da ‘Ndrangheta e da Sacra Corona Unita, bem como o perpetrador de massacres nas ruas, trens, aviões e que ultimamente tem submergido barcos carregados de gente que escapam de seus territórios nativos por causa de guerras que o Ocidente travou para seus países.

Sim, quero subverter tudo isso!

Assim como afirmei no início do julgamento, reivindico como meu e apenas meu o projeto da RadioAzione, no site do qual publiquei todos os textos com os quais sinto afinidade, cumplicidade e solidariedade. Reivindico os textos assinados “RadioAzione” como textos escritos por minha mão, reiterando que o que eu pensava então ainda penso hoje. Reivindico todas as palavras ditas no rádio. Reivindico a vontade de traduzir textos reivindicando ações diretas realizadas por companheirxs anarquistas em todo o mundo. Porque eu sou para ação direta! Afirmo ter traduzido os textos dxs companheirxs anarquistas presxs em campos de concentração em todo o mundo. Afirmo ter apoiado, colaborado e organizado iniciativas para a Cruz Negra Anarquista. Afirmo que sempre apoiei companheirxs presxs, também por meio de iniciativas voltadas para seu apoio econômico. Reivindico ser anti-autoritário, individualista, pela insurreição, pela destruição desta existência suja e fétida e do Estado-Capital!

Para sempre seu inimigo!

Pela anarquia!

Gioacchino Somma

Fonte: https://www.autistici.org/cna/2019/03/08/dichiarazione-finale-al-tribunale-di-torino-del-compagno-anarchico-giocchino-somma/

Tradução > keka

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No perfume das flores de ameixa,
O sol de súbito surge —
Caminho da montanha!

Bashô

[Brasil-Rojava] Mensagem de solidariedade internacional da liderança do Conselho de Gestão Ka’apor com a luta popular curda

“Guerreiras e guerreiros do povo curdo,

 Nós, povo Ka’apor do Maranhão (Brasil) estamos unidos com vocês pela autonomia, autogestão e autodeterminação. O capitalismo, a intolerância e a violência contra nós não pode parar a resistência pela defesa de nossa cultura, nossa forma de viver e defesa de nosso território étnico e cultural. Repudiamos toda forma de agressão do imperialismo e o que querem nos impor como modelos políticos e culturais. Pela livre autogestão e determinação dos povos. Abraços de muita resistência. Conselho Gestão Ka’apor”.

>> Video: https://vimeo.com/324859429

Os Ka’apor surgiram há cerca de 300 anos na Amazônia, entre os rios Tocantins e Xingu. Após os conflitos com os colonizadores luso-brasileiros, eles migraram para o Maranhão, onde vivem sob grande pressão de madeireiros e latifundiários da região. Eles são conhecidos pela criação de áreas de proteção dentro do território, onde os indígenas da Guarda de Autodefesa impedem o desmatamento e a invasão.

A solidariedade étnica internacionalista com a luta do povo curdo reforça que o que está em jogo é a sobrevivência de toda a comunidade planetária.

Internationalist Commune of Rojava

internationalistcommune.com

internationalistcommune[a]riseup.net

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Não é meia-noite
e as mariposas cansadas
já dormem nas praças.

Humberto del Maestro

[França] Coletes amarelos Ato 18 em Paris

Os coletes amarelos voltaram a protestar em Paris pelo 18º sábado consecutivo. Lojas como Hugo Boss, Lacoste, Nespresso, entre outras, foram destruídas e saqueadas na tradicional avenida Champs-Elysées. Houve confronto entre manifestantes e policiais. O jornal “Le Monde” afirmou que 240 pessoas foram detidas.

O conhecido restaurante Fouquet’s, frequentado por políticos, celebridades e turistas, teve os vidros quebrados, as mesas derrubadas e a fachada pichada.

Na avenida Franklin Roosevelt, travessa da Champs-Elysées, uma agência bancária localizada no térreo de um edifício residencial foi incendiada.

Os incidentes começaram cedo, às 10h30 no horário local, nas proximidades do Arco do Triunfo. Policiais foram atacados com pedras e outros objetos. Manifestantes também construíram barricadas e atacaram carros da polícia, que reagiu com bombas de gás lacrimogêneo e jatos d’água.

Macron esquia nos Pireneus…

Os protestos aconteceram enquanto o presidente francês Emmanuel Macron chegava aos Pirineus com a mulher, Brigitte, para esquiar. “Vou passar dois ou três dias aqui, para recobrar as forças e me reencontrar com a paisagem e amigos”, disse Macron ao jornal regional “La Depeche du Midi”.

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Noite na cabana —
Um grilo na prateleira
Procura por algo.

Issa

[São Paulo-SP] Fronteiras e Encruzilhadas: O anarquismo em debate

por Torta | 16/03/2019

Na semana de luta das mulheres, sábado, 9 de março, aconteceu, na Casa do Povo em São Paulo, o lançamento do sexto número do Jornal de Borda 06. A edição possui como mote Fronteiras e Encruzilhadas, e leva consigo dois fac-símiles de jornais editados por mulheres anarquistas nos anos 1920, O Nosso Jornal e Nuestra Tribuna (pesquisados no AEL e no Cedinci, dois importantes arquivos latino-americanos). Na plateia estava presente cerca de 60 pessoas que enfrentou chuva e bloco de carnaval para chegar até o evento e prestigiar o debate com artistas, professoras, historiadoras, feministas e anarquistas colaboradoras do jornal, as debatedoras foram elas: Ana Gagliardo, Bruna Kury, Edith Derdyk, Fernanda Grigolin, Lucia Parra, Rafaela Jemmene, Paula Monterrey e Samanta Colhado Mendes.

O Jornal de Borda é um periódico de arte contemporânea, editado em português e espanhol, com distribuição latino-americana. Ele é um lugar de pesquisa da artista-editora Fernanda Grigolin, que convida colaboradores dentro de um tema estabelecido em cada edição. Na atualidade o Jornal é atravessado por participações anarquistas, tomando as urgências postas no periódico; conduzindo o seu ritmo também. O Borda (como é carinhosamente chamado o Jornal de Borda) começou a ser publicado no ano de 2015, como um projeto autônomo, e já contou com a colaboração de mais de 140 pessoas de diversos países da América Latina, entre eles: Brasil, México, Argentina, Uruguai, Chile, Peru, Nicarágua. O projeto gráfico do Jornal de Borda é de Lila Botter desde a primeira edição. O número seis marca a mudança no projeto, aumentando na altura, e tendo 48 páginas, talvez venha a ser o último Jornal de Bordaem alta tiragem, já que os custos de pesquisa, edição e circulação são altíssimos. E mesmo com a campanha realizada na Benfeitoria, apenas 20% dos custos foram cobertos.

Bella Ciao

Quem chegou no horário, teve uma gratíssima surpresa, ao menos para os anarquistas. Enquanto a roda se organizava, ouvia-se as notas ao piano de Bella Ciao. Era a atriz Cibele Troyano, que encontrando um piano no espaço sentou junto a ele e presenteou o lançamento com seu talento.

Vamos à roda!?

Aconchegadas as pessoas presentes – público,  e  colaboradoras –  foi a vez de Fernanda Grigolin tomar a palavra na apresentação do Jornal. Ela iniciou sua apresentação agradecendo a Casa do Povo e as pessoas presentes. Comentou sobre a história do jornal e como desde a edição 04, que teve a edição fac-símile de A PlebeO Borda é construído com participações de anarquistas e sobre o anarquismo. Ela folheou o jornal e comentou sobre a edição atual e as participações. Uma questão que ela trouxe foi que O Borda convocou pessoas que escrevem sobre diversas mulheres de forma profunda.

Por mais que circulem na internet biografias de mulheres anarquistas e antologias importantíssimas sobre elas, ainda há um desconhecimento sobre a vida dessas mulheres e desencontros de informações. Por exemplo, as anarquistas  Juana Rouco, da Argentina, e Maria Lacerda de Moura, do Brasil, escreveram suas autobiografias. Juana em 1964, já velhinha, Maria Lacerda em 1929, ainda jovem. O  projeto autobiografias cruzadas é uma página dupla do Jornal de Borda, com desenho de Flor Pastorella, tradução de Fernanda Grigolin e Valéria Mata, trechos autobiográficos falando de luta, amor e vida, de Maria Lacerda, traduzido ao espanhol, e Juana Rouco, ao português. Muito cuidado e pesquisa envolveram o projeto. Nas páginas também selecionamos trechos pequenos de militantes e pesquisadoras que se debruçaram nas duas importantíssimas anarquistas, como os de Juliana Vasconcelos, Cristina Guzzo, Ingrid Ladeira e Angela Roberti, alguns traduzimos, outros estão na língua original. Juana Rouco também está presente no jornal com a edição fac-símile de Nuestra Tribuna e no texto de Laura Fernández Cordero sobre o periódico.

As participantes Samanta Colhado Mendes  e Lucia Parra estiveram presentes trazendo para o debate suas experiências de pesquisa em anarquismo, ambas juntamente com Laura Fernández Cordero foram consultoras da edição e acompanharam o processo das edições dos fac-símiles. Samanta Colhado, em sua apresentação, contextualizou a luta das mulheres anarquistas, suas atuações anarcossindicalistas na Primeira República e suas produções  textuais e de luta. Em especial, comentou sobre  as mulheres que realizaram O Nosso Jornal, uma das  edições fac-símiles contidas no Jornal de Borda. Lucia Parra conversou com os presentes sobre educação anarquista, produção de conhecimento, combate ao analfabetismo e a construção de espaços autônomos anarquistas, como o Centro de Cultura Social, ativo até hoje.

A artista anarcotransfeminista Bruna Kury, que  também é colaboradora do jornal, trouxe a roda uma reflexão sobre sua performance, um debate sobre as fronteiras do corpo com questões raciais e da transgeneridade. Seguida pelas falas da artista Paula Monterrey, que nesta edição entrevistou a feminista ativista nicaraguense Marlen Chow Cruz sobre o movimento #SoyPicoRojo e da designer Laura Daviña, parte do projeto Vamos mais Longe! Vamos más lejos! de respostas a um trecho de A mulher é uma degenerada de Maria Lacerda de Moura. A artista Edith Derdyk, convidada especial desta edição intervindo nos miolos de 16 páginas, trouxe ensinamentos sobre o processo de construção de livros e publicações, as fronteiras da linha que inspiraram sua intervenção artística no jornal, o espaço entre e comentou sobre as falas anarquistas anteriores a dela, Edith destacou a importância de trazer o anarquismo ao primeiro plano do diálogo e seus ensinamentos não institucionais. Por fim, tivemos os comentários da artista Rafaela Jemmene com sua participação imagética, fruto de sua pesquisa em site-specific, e Ana Gagliardo sobre seu texto que mescla português e espanhol, a fronteira da língua.

Após as apresentações, a roda esteve aberta ao debate e as perguntas. O evento também marcou o lançamento de um novo livro, Matilde Magrassi. uma libertária no Brasil e na Argentina, pesquisa e edição de Fernanda Grigolin com projeto gráfico de Laura Daviña e Flor Pastorela e apoio deLa Paternal Espacio de Proyectos. O próximo lançamento do Jornal de Borda 06 será realizado ainda em Campinas (SP), no espaço de cultura independente Torta no dia 21 de março às 19h, e no Rio de Janeiro, sem data até o momento mas com grandes possibilidades de ser no Primeiro de Maio.

>> Lançamento Jornal de Borda 06 em Campinas (SP), dia 21/03:

https://www.facebook.com/events/311471359516745/

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/03/05/sao-paulo-sp-neste-sabado-09-03-lancamento-do-no-6-do-jornal-de-borda/

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Sopra o vento
Segura-te borboleta!
Na pétala da flor.

Rodrigo de Almeida Siqueira

[Espanha] Capitalismo verde, a mesma reviravolta

Desde que começamos a ouvir falar do Capitalismo Verde até hoje, a situação política, econômica e social mudou consideravelmente. O que, é claro, permanece o mesmo, é o objetivo do sistema capitalista: a acumulação de capital e a obtenção de benefícios.

O desastre capitalista

Muitos diriam que estamos em uma fase terminal do capitalismo, em que a incapacidade de oferecer soluções eficientes para os problemas das pessoas que vivem sob seu teto é evidente: o desemprego, a exploração, a insegurança no trabalho, repressão, nocividade…

Com a sucessão contínua de uma crise após outra, a situação de emergência diária que nos força a viver a gestão capitalista que se faz do mundo, está cada vez mais urgente. E com o passar dos anos, o capitalismo absorve e é introduzido em mais e mais esferas da vida, tornando-se um monopólio crescente da gestão de recursos e relacionamentos que ocorrem no planeta.

O tempo tem mostrado que a crise é inerente ao capitalismo, e cada crise é seguida por uma reestruturação das relações sociais nas quais o sistema capitalista dependia para funcionar normalmente. Cada fase enterra a anterior, e todos os caminhos que ditam para resolver os problemas em que o próprio capital nos colocou, nos enterram. E até hoje, os principais questionamentos do capitalismo não são feitos acerca de seus fundamentos, mas apontam para uma “má gestão” de recursos.

Estas críticas alarmam sobre o declínio dos padrões de vida, o aumento do desemprego, a perda de direitos conquistados (incorporada nos serviços públicos), corrupção dos partidos e banqueiros, e assim por diante podemos simplesmente sair andando. Ao negar as consequências ou criticar suas manifestações, é possível manter a fé no capital. Isso levanta a possibilidade de administrar o capital e sua sociedade de outra maneira.

E há algum tempo começaram a apontar as novas maneiras que o capitalismo deve ter para nos salvar novamente dos problemas que causou.

A situação que faz parte é delicada: cidades superpovoadas, acumulação de lixo, aumento da poluição, despovoamento do campo, aquecimento global. Todos os sintomas que nos afligem hoje foram incubados quando, ao longo da segunda metade do século XX, o capitalismo produtor de commodities foi se espalhando e crescendo a um ritmo alucinante, devastando o meio sob seus pés, aproveitando todos os recursos, apropriando-se de todos os serviços, em resumo: tomando o planeta para transformar tudo em dinheiro (ou mais típico do capitalismo tardio, títulos da dívida, moedas, ações…).

Mas onde é que esta versão de curto prazo do capitalismo nos leva cujo único propósito era devorar tudo o que é devorável?

Diante da crise gerada, estados e mercados vem há anos começando a propor um “uso racional de território e recursos”. E o fato é que a marcha acelerada que o capitalismo conduziu durante todos esses anos supõe hoje uma escassez de energia que o impedirá de continuar com seu ritmo atual, impedindo a obtenção de benefícios.

Começa-se a falar, então, de capitalismos verdes, economias verdes, desenvolvimento sustentável. E assim entramos na nova era do capitalismo com sobrenomes.

O que é capitalismo verde?

O “capitalismo verde” é uma nova área de negócios em que a mercadoria é a natureza. A natureza e todos os seus ativos são agora um mercado novo e necessário, que permitirá ao sistema sair da crise econômico-financeira que criou. Mas quais são os seus antecedentes?

Embora se tenha falado dos problemas ambientais causados pela industrialização do mundo durante grande parte da segunda metade do século XX, ao final deste ocorrem encontros e um dos momentos mais significativos no desenvolvimento do capitalismo verde, que marcaria uma linha no discurso sobre problemas ambientais. A Cúpula Rio20 (também conhecida como a Cúpula da Terra) de 1992, realizada no Rio de Janeiro, Brasil: a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Neste encontro surge um amálgama de associações, tratados e comitês para gerir o futuro do planeta: A Convenção das Nações Unidas sobre a Diversidade Biológica (CDB), a Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (CMNUCC): e a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (CNULD).

Vinte e sete anos depois, após inúmeras reuniões, conferências e encontros de todos os tipos, com todos os grupos e comitês criados para aliviar os efeitos que as crises geram na Terra, a realidade é que o único resultado foi a diminuição da biodiversidade, a aceleração dos desequilíbrios climáticos, processos de desertificação e a redução de áreas florestais e de zonas úmidas.

A Natureza como mercadoria

O que surgiu depois dessas cúpulas tem sido a criação de instrumentos de mercado econômico que tentarão evitar o desastre e nos mostrar o caminho para continuar crescendo economicamente e calculando os possíveis danos que a Terra e seus habitantes poderiam suportar. Um processo de mercantilização da natureza que é funcional aos interesses do responsável central pela crise ambiental: grandes empresas e estados.

O uso da natureza para fins econômicos não é novo, o sistema de produção capitalista extrativa vive disso, mas esta nova visão do capitalismo verde vai um passo além, transformando a própria natureza em uma fonte de lucro, privatização e mercantilização do meio.

Esse processo pelo qual a natureza se torna uma prestadora de serviços, em que além de ser utilizada para explorar o meio ambiente, abre novos mercados que permitem a rentabilidade decolar desse novo cenário, envolve atores de peso como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, governos, empresas de energia, etc.

Em 2010, por exemplo, o Banco Mundial promove a iniciativa WAVES, que nasce de acordo com suas palavras como “uma aliança global liderada pelo Banco Mundial que busca promover o desenvolvimento sustentável através da integração de recursos naturais e sua avaliação econômica ao planejamento de políticas de desenvolvimento e economia nacional “.

Depois de uma das cúpulas do G8 em 2007, nasceu o estudo da Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade ou “TEEB”, que “visa tornar visíveis os benefícios econômicos da biodiversidade e os custos da perda da biodiversidade“. Dito de outra maneira, busca identificar e quantificar esses benefícios e mitigar as perdas. É significativo que a comissão encarregada de coordenar o estudo do TEEB tenha sido concedida ao Deutsche Bank.

Em suma, por qualquer meio, o capitalismo e o neoliberalismo sempre foram identificados pela privatização e mercantilização dos bens públicos, incluindo os bens comuns da natureza. Política que está acontecendo agora em todo o mundo. Graças a fatores como a ciência, motor de crescimento para a expansão do capital e ponta de lança de todas as melhorias produtivas em qualquer área do sistema capitalista; e até o ambientalismo, cuja principal função tem sido apontar os sintomas derivados do desastre ecológico perpetrado por tantos anos e nunca suas causas. Oferecendo, além disso, propostas que respondam apenas a critérios técnicos e econômicos que beneficiem apenas determinadas forças políticas e financeiras, e que acabam perpetuando a exploração e a industrialização de nossos meios [natureza].

Até onde isso nos leva?

 Cada fator e cada agente contam para completar a mercantilização e privatização da natureza, e todos são colocados para trabalhar na mesma direção, de modo que a máquina não pare e, em última análise, favoreça a perda e a degradação da natureza em benefício dos de sempre. Privatização que muitas vezes envolve quebrar uma infinidade de formas tradicionais de vida, saqueando os recursos das culturas indígenas ou privando populações inteiras de autogestão, impedindo a capacidade das comunidades de determinar livremente o manejo e uso de seus bens comuns.

O capitalismo verde, embora vestido com roupas mais legais que o antigo capitalismo industrial, perpetua e aperfeiçoa a relação de exploração e opressão que vem se desenvolvendo desde a sua criação. Se permitirmos que a lógica do mercado direcione as relações das pessoas e do ambiente em que eles habitam, isso inevitavelmente nos levará ao pior dos cenários.

Não podemos arcar com soluções dentro dos quadros estabelecidos pelo próprio sistema para recuperar nossas vidas. É impossível voltar atrás e inutilizar a demanda por algum tipo de direito proveniente do Estado ou do Capitalismo. Nem da ciência na forma de resposta ou gestão tecnológica. Nem da burocracia na forma de organização e implementação de mecanismos regulatórios que permitam a sustentabilidade do desenvolvimento. Tudo o que vem do capitalismo, seja qual for a sua cor, só oferecerá respostas paliativas a uma sociedade doente. Nada que seja fundado na insistência do reformismo nos libertará da exploração e da precariedade.

Fomentar uma cultura de autogestão, encontrar uma outra maneira de se relacionar com a natureza e entre nós, uma não quantificável, finalmente, poderia nos fornecer as ferramentas necessárias para lutar contra o sistema que nos coloca em um mercado como consumidores sujeitados e consumíveis, que envenena tudo o que toca e nos leva à destruição.

Fonte: https://aquiyahora.noblogs.org/post/2019/01/22/capitalismo-verde-la-misma-vuelta-de-tuerca/

Tradução > Liberto

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Neve ou não neve
onde há amigos
a vida é leve

Alice Ruiz

[De algum lugar…] Comunicado dxs compas Gabriel e Elisa | “Livres e Perigosxs”

Livres e Perigosxs

Ardire, Scripta Manent, Operação Buyo… Percebem? São apenas algumas das “operações” jurídico-policiais que nosso “clã” experimentou na própria carne pelo fato de ser e estar anarquistas até as últimas consequências.

Somos um clã-nômade que vai de país em país em busca de cúmplices que pratiquem o anarquismo sem buscar a aprovação e o consenso, que agem sem se preocupar com o discurso “politicamente correto” (tão em voga em nossos tempos) que hoje infesta nossas lojas. Também não nos interessa a “estética” mas sim a “ética”, o prático, o real… Procuramos um anarquismo que nos manche as mãos, que nos mantenha despertx e sempre em guarda (o oposto de toda autocomplacência); é esse anarquismo que desagrada e inquieta os servos do Estado que não cessam em seu empenho de nos aprisionar.

Não é fácil ir de um lugar para outro. É ainda mais difícil com a nossa filha a tiracolo, essa pequena formosura que chamamos de Iraultza e, uma companheira canina que jamais renunciaremos a levar conosco, porque é parte integral do nosso clã.

Aparentemente, o Estado espanhol não desistiu de querer me prender por um “resto de sentença” que só existe em suas mentes podres e em seus documentos de merda.

Sendo assim as coisas, decidimos viver na sombra, colocando nosso grãozinho de areia invisível em todos aqueles projetos que nos interessam e com os quais nos sentimos cúmplices.

Expressamos toda nossa solidariedade subversiva axs companheirxs DIGNXS julgadxs na Itália e no mundo. Não temos declarações para oferecer em aulas de “togadxs” porque cagamos em seus teatros e esboços, em suas acusações e absolvições.

A melhor maneira de propagar a Anarquia é vivendo-a intensamente e, não representando-a. Não nos é dada a farsa nem a comédia.

Não haverá mais “comunicados” de nosso clã: Estamos livres e somos perigosxs

Pela Anarquia!

O clã nômade-anárquico.

Elisa-Gabriel-Iraultza e a quadrupede.

Fonte: https://contramadriz.espivblogs.net/2019/03/15/desde-algun-lugar-libres-y-peligrosxs-comunicado-de-les-compas-gabriel-y-elisa/

Tradução > keka

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/06/21/espanha-carta-do-anarquista-gabriel-pombo-da-silva-depois-de-estar-fora-dos-muros-das-prisoes/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2014/06/30/espanha-gabriel-pombo-da-silva-em-isolamento-provisorio/

agência de notícias anarquistas-ana

Apenas estando aqui,
Estou aqui.
E a neve cai.

Issa

Teaser: Viver Para Lutar | Episódio 1- Punk, Anarquismo e Feminismo: As Minas dos anos 90

Estreia em abril de 2019

Direção: Marina Knup / Anarcofilmes Produções | 2019 | 85min

Parte de uma série de documentários sobre a cena anarcopunk no Brasil nos anos 90, o primeiro episódio retoma a importante ligação entre punk, anarquismo e feminismo que floresceu naquele período. Questionando todo o contexto social em que viviam, as mulheres punks criaram coletivos, zines, bandas, redes, encontros anarcofeministas e projetos que trouxeram a tona as urgências do feminismo não só dentro das movimentações punks e anarquistas, mas para suas próprias vidas. Por meio das memórias de mulheres que viveram esta história, tanto na movimentação anarcopunk quanto em outros contextos punks da época, reúne algumas dessas inúmeras experiências de luta.

>> Assista o teaser (02:45) aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=3E5B8UxCqrQ

anarcopunk.org

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Sonha o mendigo
Entre sacos de lixo
E flores de ipê

Edson Kenji Iura

“Dez pequenas anarquistas”

porLuiz Malavolta|16/02/2019

No próximo dia 30 de março, vai completar 117 anos que meu bisavô materno, Antonio Caso, desembarcou com mulher e uma penca de filhos no porto de Santos, vindos de Nápoles, Itália. Chegaram ao Brasil sem falar uma palavra em português. Ele já veio empregado, contratado pela empresa Gastaldi & Cia. para trabalhar na colheita de café na fazenda do Dr. F. C. Soares Brandão, aqui em Jaú (SP).

Antonio Caso, então com 43 anos de idade, e a família deixaram para trás não só irmãos, primos e tios, mas também a fome que grassava nos campos, onde trabalhavam incansavelmente para fazendeiros italianos, que se apropriavam de tudo e davam uma banana para os empregados. Nos arquivos do Museu da Imigração, em São Paulo, a família Caso foi a de número 19.900 a chegar ao Brasil vinda daquele país. Os dados constam do livro 72, página 147, do controle de entrada feito no porto.

A família veio com muita esperança no Brasil. Essa esperança contagiou a todos já no embarque, em Nápoles, no navio Equità, palavra italiana que significava muito para aqueles camponeses esfomeados e deserdados. O nome do navio representava equidade, igualdade, o justo, a realização de justiça, do respeito aos direitos das pessoas. Era tudo o que eles e outros buscavam na América. Entre 1880 e metade do século 20, o Brasil recebeu 1,5 milhão de italianos.

Atualmente, estamos assistindo a intensos processos migratórios em várias regiões do mundo por razões políticas e econômicas. A Venezuela é o caso mais dramático perto da gente. Nos Estados Unidos, Donald Trump, neto de imigrantes alemães, quer murar seu país para impedir a entrada de expatriados esfomeados latinos, africanos e do Oriente Médio. A Europa é um primor racista. Passou décadas mandando seus filhos para a América. Hoje, fecha suas fronteiras para os sírios e africanos que fogem de guerras civis em seus países.

Já no Brasil, os Caso descobriram que a terra aqui era mesmo farta e fértil, mas estavam sob controle nas mãos de latifundiários. O contrato de trabalho para colher café era de Antonio, mas a família toda tinha que ir para ajudar no trabalho por ordem do fazendeiro. No fim do mês, só tinham direito a um salário, o do chefe da família. Não demorou para concluírem que o Brasil podia ser tudo, menos uma terra justa, de igualdade. Italianos e japoneses vieram substituir a mão de obra escrava.

Os livros de história do Brasil nem tocam nesse assunto, mas deveriam, porque esses dois grupos de migrantes conseguiram superar as adversidades e se tornaram membros de comunidades fundamentais na formação do povo brasileiro. Os italianos, em particular, com grande influência na nossa cultura e nossos costumes.

Conto essa história, porque quero tratar de um livro recentemente lançado na Suíça, que já ganhou edições até na Alemanha. Traz uma história real, desconhecida da maioria das pessoas. “Dez Pequenas Anarquistas” é o título do romance baseado em fatos reais, escrito pelo suíço Daniel de Roulet. Narra a história de dez jovens mulheres suíças da cidade de Saint-Imier, do Vale de Joux, região que sempre produziu relógios de grifes, como Jaeger-LeCoultre, Vacheron Constantin, Patek Philippe e Breguet. No fim do século 19, as fábricas de relógios empregavam muitos homens e mulheres da cidade. Os trabalhadores recebiam um salário miserável, tinham jornadas longas e estafantes e eram vítimas de todo tipo de violência dos patrões.

As dez pequenas anarquistas eram operárias dessas fábricas. Estavam infelizes com a sua situação e não viam perspectivas de futuro. O mundo começaria a mudar para elas quando o russo Mikhail Bakunin foi a Saint-Imier para participar do 1º Congresso Internacional Anarquista, acompanhado do italiano Errico Malatesta, ambos expoentes do anarquismo.

Bakunin defendia que um novo mundo era possível, desde que sem fronteiras e barreiras. Um mundo sem “nenhum deus, nenhum patrão, nenhum marido”. Esse mundo seria a “utopia realizável”, cuja base era “viver sem mentiras”. Não foi difícil para Bakunin e Malatesta conquistarem os corações das dez novas discípulas, que se demitiram das fábricas de relógios, juntaram suas economias e partiram em direção à Patagônia, entre a Argentina e o Chile, numa região isolada e despovoada do continente sul-americano. Lá seria a terra prometida para as dez pequenas anarquistas, cujo lema sempre foi “nenhum deus, nenhum patrão, nenhum marido”. A Europa enviou muitos migrantes anarquistas para as Américas nos séculos 19 e 20. Uma parte dos meus antepassados que vieram para o Brasil era constituída de anarquistas, que tiveram de fugir da Itália, pois lá eram perseguidos.

Da teoria à prática, a vida das jovens suíças foi muito dura neste canto do mundo. A nova terra que buscavam era tão perversa quanto aquele mundo que viviam no Vale do Joux. Da Patagônia, o grupo de mulheres foi para a Ilha Robinson Crusoé, no Chile, e perambularam por vários lugares ao sul do continente nos anos seguintes.

Sessenta e quatro anos depois do início da epopeia, a única sobrevivente delas, Valentine Grimm, escreveu o seguinte num diário pessoal localizado por Daniel de Roulet, no Uruguai: “No começo, nós éramos dez e, no fim, apenas uma”. Essa frase dá início ao primeiro capítulo do livro de Roulet. As outras nove jovens foram abatidas por doenças ou pela precariedade da vida que encontraram na América. Duas, que formavam um casal de lésbicas, acabaram assassinadas por intolerância pela opção sexual.

Com grande precisão no tom, sem ênfase ou romantismo, Roulet recria o espírito anarquista que pairou no final do século 19 em Saint-Imier, naqueles dias em que a cidade foi sede do primeiro congresso anarquista, em 1872. Em entrevista no lançamento do livro, na Alemanha, o autor destacou o papel “dessas mulheres valentes, que enfrentaram muitos reveses perigosos em suas vidas. Até que morre uma após outra”. Segundo ele, todas as moças tinham personalidades e convicções fortes. “Valentine, a única que sobreviveu e acabou indo viver no Uruguai, já idosa, sempre foi uma líder. Trata-se de uma característica que torna seu personagem particularmente cativante”.

Além do mais, as dez pequenas suíças conviveram e se relacionaram com Bakunin e Malatesta, num momento histórico do surgimento do movimento anarquista internacional. Participaram de greves e manifestações contra seus patrões, atos que foram reprimidos pelo governo.

Para reconstituir a história das dez moças, Roulet viajou para a América do Sul. Passou pelos povoados em que elas viveram, localizou documentos, apurou dados históricos. No Centro de Documentação e Pesquisa de Berna, na Suíça, encontrou dados sobre a vida do operariado daquele período, o fim do século 19. “Descobri a história do doutor Basswitz nos arquivos. Ele era um refugiado político alemão, judeu, que teve que deixar seu país após a revolução de 1848. Em Saint-Imier, ele cuidava de pacientes pobres. Fundou uma escola secundária para meninos e abriu um hospital regional. Foi eleito para o conselho da cidade. Mas, um dia, o governo de Berna anunciou que sua permissão de residência havia sido cancelada e determina a sua expulsão. A população saiu em defesa do médico. O governo reprimiu os protestos com mil soldados. Para apaziguar os ânimos e a escalada da revolta, Basswitz decidiu que o melhor era partir. Os líderes dos protestos foram condenados a seis meses de prisão. No meio desses atos, estavam as mulheres anarquistas que deram os primeiros passos nas questões de vida, casamento, amor e gênero. Daí o slogan delas: ‘Nenhum deus, nenhum patrão, nenhum marido’.”

Segundo Roulet, em Buenos Aires, mulheres europeias anarquistas tiveram papel fundamental nos dois últimos séculos. “O movimento anarquista foi muito forte na Argentina. As mulheres anarquistas nas décadas de 1890 e 1900 reivindicaram autonomia. Elas publicavam um jornal, o ‘La Voz de la Mujer’. Firmaram rejeição ao casamento como instituição concebida no século 19, contra a submissão de mulheres aos homens, a ausência de direitos de voto, a incapacidade de comprar bens etc.”

Para o escritor, o que chama a atenção nos personagens de sua obra é a capacidade de cada uma delas de experimentarem novas maneira de trabalhar, de amar e de viver. “Ao contrário dos marxistas, que planejavam colocar o partido no poder depois que a revolução fosse feita, os anarquistas faziam a pergunta: mas o que faremos uma vez no poder? Será necessário mudar a escola? Como? Devemos votar? E a igualdade entre homens e mulheres?”, diz o escritor. São questões que ainda hoje suscitam debates em todas as partes.

Fonte: http://www.comerciodojahu.com.br/post?id=1386482&titulo=

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passos de pássaro
no telhado lá de casa
embalam sonhos

Marland

[Grécia] Patrulha anti-sexista em Exarchia

Em resposta a cultura misógina de Exarchia, em Atenas, e o recente incidente de estupro, abuso sexual e violência de gênero nas ruas da área, nós decidimos mostrar para aqueles que gostariam de nos fazer viver com medo que são eles que possuem motivos para estarem com medo. Na noite de 10 de março, nós fomos em uma patrulha anti-sexista sem a presença de homens cis entoando slogans e demonstrando nossa capacidade de lutar de volta.

Fonte: https://athens.indymedia.org/post/1596262/

Tradução > Tempestades da Existência

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Abriu-se a papoula
E ao vento do mesmo dia
Ela veio ao chão.

Shiki

[Espanha] Digitalização completa da Revista Libertária BICICLETA (1977-1982)

Revista política com informação e comunicações de carácter anarquista. Apareceu em 1º de novembro de 1977 em Madrid por iniciativa de Chema Elizalde e da editora Campo Abierto, anunciando com um boletim precedente suas orientações ecológicas e anarcossindicalistas. De fato, “Bicicleta” era a sigla do  Boletín Informativo del Colectivo Internacionalista de Comunicaciones Libertarias y Ecológicas de Trabajadores Anarcosindicalistas, ainda que habitualmente utilizasse a denominação de Revista de comunicações libertárias. Desde o final de 1978 até o começo de 1982 se transladou à Valência, onde seu coletivo editor conseguiu uma rigorosa periodicidade mensal. Finalmente tiveram que voltar a mudar-se para Barcelona, onde deixou de ser editada em meados de 1982. Durante sua existência foi uma referência (apesar das diferenças) entre as diversas facções do movimento libertário do estado espanhol.

>> Digitalização: Anarko Biblioteka – CGT Murcia:

http://www.cgtmurcia.org/cultura-libertaria/anarkobiblioteka/cultura-libertaria/publicaciones-y-enciclopedias/1639-b-i-c-i-c-l-e-t-a-todos-los-numeros-1977-1982

Fonte: https://www.portaloaca.com/historia/historia-libertaria/14203-digitalizacion-completa-de-la-revista-libertaria-bicicleta-1977-1982.html

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Lentos dias se acumulam –
Como vão longe
Os tempos de outrora.

Buson

[Grécia] A luta pela revolução social continua viva | O Refratário Lambros Foundas é imortal

10 de março de 2019

Em 10 de março de 2010, a Luta Revolucionária atacou pela primeira vez:

O companheiro Lambros Foundas morreu por balas de um policial durante a expropriação de um veículo. Ele morreu durante a preparação para a Luta Revolucionária, que constituiu a continuação da ação de uma organização contra a crise, contra o capitalismo e o próprio Estado, contra as políticas do sistema, que foram formadas pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI, nos mesmos dias. Um ato de oposição aos encargos dos contratos de empréstimo (memorandos) que, dois meses depois após sua morte, foram impostos pelo poder político e econômico supranacional. Foi uma ação-resposta à extorsão fascista imposta pelo poder político e econômico grego: “Memorandos ou Destruição”. Foi uma resposta ao dilema da “salvação do sistema ou salvação da maioria social”.

Nesse dilema, nosso companheiro Lambros Fountas e todxs na Luta Revolucionária já haviam respondido: a única resposta à crise é a Revolução Social.

Como uma luta revolucionária, apesar dos golpes repressivos, continuamos firmes e, em abril de 2014, a organização realizou um grande ataque com bombas contra o Banco da Grécia e o FMI, duas das três instituições que compõem a troika. Foi um ataque aos mecanismos de aplicação de políticas de genocídio social para a sobrevivência do capital, a ditadura dos mercados, a junta do sistema representativo. Foi um ataque aos mecanismos de ocupação da sociedade.

Este ataque foi também a continuação da ação do próprio Lambros Foundas contra a derrota, o abandono da Luta Revolucionária, a resignação, a morte social. Contra todas estas forças que queriam enterrar a ação rebelde armada. Queriam e esperavam que em 10/03/2010 nas ruas de Dafni [subúrbio de Atenas], que o companheiro Lambros Foundas e a própria Luta Revolucionária tivesse deixado seu último suspiro. Queriam que a repressão triunfasse.

Por nossa insistência, por nossa fé inquebrantável fé na Revolução, pela teimosia da Luta Revolucionária em permanecer de pé resistindo aos golpes repressivos, fomos condenadxs a cadeia perpétua. É nosso dever não deixar que a derrota apague a chama da Revolução Social. É nosso dever não deixar a derrota enterrar nosso companheiro Lambros Foundas e distorcer a luta pela qual ele deu sua vida.

Hoje, 09 anos após a morte do nosso companheiro, sua luta exige uma reivindicação. Sua luta é nossa luta pela derrubada da tirania moderna, pela Revolução Social. A luta por uma sociedade de igualdade econômica e uma política de liberdade para todas as pessoas.

A LUTA PELA REVOLUÇÃO SOCIAL PERMANECE VIVA.

O REFRATÁRIO LAMBROS FOUNDAS É IMORTAL

Pola Roupa – Nikos Maziotis

Membrxs da LUTA REVOLUCIONÁRIA

Fonte: https://mpalothia.net/o-agonas-gia-tin-koinoniki-epanastasi-paramenei-zontanos/

Tradução > keka

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/03/16/chile-em-marco-e-todos-os-dias-memoria-solidariedade-e-agitacao-anarquica-contra-o-poder/

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Entre a roça e a montanha,
A chuvinha vai parando…
A folhagem nova!

Buson

[Portugal] A Batalha dos 100 anos

No outro dia recebi o mais recente número d’A Batalha. De maneira talvez tipicamente anarquista, o jornal não anunciava que estava prestes a tornar-se centenário.

por Rui Tavares | 22/02/2019

Qual é o jornal político mais antigo de Portugal? A resposta é muito fácil e está no título da crônica: o jornal político mais antigo em Portugal é A Batalha, hoje publicado como “jornal de expressão anarquista”, e que fará amanhã 100 anos precisos.

Quando foi fundado, no dia 23 de fevereiro de 1919, A Batalha era já o órgão oficial da Confederação Geral do Trabalho, a confederação sindical portuguesa anarcossindicalista que estava em formação desde os congressos da União Operária Nacional em 1914 e 1917. A Europa tinha acabado de sair de uma guerra mundial há pouco mais de três meses. A I República continuava em convulsão, ainda recentemente ensombrada pelo assassinato do presidente Sidónio Pais, em dezembro de 1918.

Antes de aparecer A Batalha já o panorama da imprensa anarquista portuguesa — como o de toda a imprensa política daquela época — fervilhava em iniciativas, jornais e revistas que apareciam e desapareciam em vários pontos do país, ora porque reprimidos tanto pela monarquia como pela república, ora porque os seus autores, grande parte deles operários, emigravam para o Brasil.

Uma das revistas anarquistas de então que ainda hoje se lê com mais prazer (a coleção completa da edição portuguesa está na Hemeroteca digital) teve aliás uma história luso-brasileira. O seu nome era Terra Livre e o seu fundador foi conhecido por Neno Vasco, de nome completo Gregório Nazianzeno de Vasconcelos, um homem do Penafiel, criado em Amarante e estudante em Coimbra, que emigrou para o Brasil e regressou depois a Portugal, onde morreria na epidemia de gripe pneumônica em 1920. Se o nome é hoje desconhecido, saiba-se que é dele a primeira tradução do hino A Internacional para português — e a única que se canta da mesma forma dos dois lados do Atlântico. A Terra Livre, projeto que já vinha do Brasil, teve em Portugal no ano de 1913 uma equipa de peso: além do próprio Neno Vasco, Aurélio Quintanilha (pai do atual deputado Alexandre Quintanilha), Pinto Quartin e muito outros. Além de libertária, a revista foi a primeira defensora em Portugal daquilo a que hoje chamamos ecologismo. Foi duramente reprimida pelos republicanos de Afonso Costa. Os redatores da Terra Livre foram metidos vários vezes na prisão do Limoeiro, e a tipografia da revista destruída. Os seus últimos números traziam textos em espanhol, francês, inglês e alemão para divulgar a situação da revista e apelar à solidariedade operária europeia com ela.

Quando A Batalha surgiu veio preparada para ter logo um sucesso tal que dificultasse a ação repressiva contra o novo jornal. E conseguiu-o. A Batalha era — coisa hoje impensável — um jornal diário, chegando a ser o terceiro mais vendido em Lisboa, logo a seguir ao Século e ao Diário de Notícias. Tinha uma vantagem de peso: quando havia greve dos tipógrafos, era mesmo o único diário que circulava. Para o seu sucesso contava não só com o conteúdo político, mas também com o talento literário dos seus colaboradores, um deles Ferreira de Castro, o autor d’A Selva, em tempos o escritor português mais traduzido.

Em 1927, a ditadura que viria a dar lugar ao Estado Novo proibiu a publicação d’A Batalha e perseguiu com ferocidade os seus redatores. Mário Castelhano, um dos seus redatores-principais, foi preso, degredado, e teve a triste honra de “inaugurar” o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, onde morreu em 1940.

Por essa altura A Batalha continuava a ser publicada, mas na clandestinidade, chegando a certa altura a ser produzida dentro de uma gruta na zona ocidental de Lisboa. Mas com a decapitação do movimento anarquista, a derrota na Guerra Civil Espanhola (onde Germinal de Sousa, um português filho de outro redator-principal d’ABatalha, foi parte beligerante como secretário da Federação Anarquista Ibérica), o grande jornal anarcossindicalista teve de interromper publicação.

Segundo mo contaram, com divertida lástima, os sobreviventes destes tempos viriam a reencontrar-se nas ruas nos primeiros dias depois do 25 de Abril de 1974 e a olhar uns para os outros com cara de “mas ainda estamos vivos?”. Um dos primeiros projetos que abraçaram foi reeditar A Batalha, sob o impulso decisivo de Emídio Santana, um dos homens que tentara matar Salazar para tentar acabar com a ditadura em Portugal, dar um golpe na retaguarda do franquismo em Espanha e ajudar a conter o fascismo na Europa. E assim A Batalha renasceu, teve várias periodicidades, e ainda existe, sendo agora trimestral.

Não conheci Emídio Santana. Mas a certa altura da minha vida passava as tardes de sábado na sede d’A Batalha com gente que tinha mais de meio século de vida do que eu. Nunca esquecerei a Lígia, cujo apelido creio que nunca cheguei a saber, ex-aluna da Escola Oficina n.º 1, onde se aprendia tipografia, ciências e esperanto. Ou o José de Brito, então já com noventa anos, veteranos de revoltas anarquistas na Argentina e no Uruguai.

No outro dia recebi o mais recente número d’A Batalha. De maneira talvez tipicamente anarquista, o jornal não anunciava que estava prestes a tornar-se centenário. Faço-o eu então aqui nesta crônica, na esperança de que mais gente se venha a interessar pelo seu socialismo libertário, e pelo tempo em que o anarquismo predominava no movimento operário em Portugal.

Fonte: https://www.publico.pt/2019/02/22/opiniao/opiniao/batalha-100-anos-1862944

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cai o granizo:
rapaz, fique em casa,
tenha juízo

Carlos Seabra

[Suíça] “Estou fazendo o melhor que posso nestas circunstâncias”

Sexta-feira, 1° de março de 2019, prisão de Zurique.

Queridxs companheirxs, queridxs amigxs.

Um mês se passou desde que, em 29 de janeiro, eu estava indo de bicicleta para trabalhar, saindo da Langstrasse para a Josefstrasse, quando um carro sem identificação me forçou a parar e outros dois policiais disfarçados em bicicletas caíram em cima de mim por trás. Havia uma mulher entre eles que lembro de ter me seguido até minha casa não muito tempo atrás. Depois saímos com outrxs 15 convidadxs indesejadxs para uma última visita final ao meu apartamento, meu carro e a biblioteca anarquista, onde, entre outras coisas, dados e documentos eletrônicos foram apreendidos.

Agora desembarquei nesta outra dimensão, composta por espaços estreitos, móveis básicos, longos corredores, grades, ainda e sempre grades e portas de metal, cuja abertura e fechamento ditam o ritmo diário. Estou separado de lugares e pessoas familiares a poucas centenas de metros pela violência de toda uma sociedade que prefere um regime de muros e leis ao reino da liberdade e da consciência. Do lado de fora, amamos sonhar, experimentar, nos rebelar. Nossa dignidade está ferida pelas ignomínias sobre as quais este mundo repousa. Pouco a pouco, nossas experiências e nossas descobertas se tecem até formar uma visão global e levamos em conta, no pensamento e de fato, as condições de dominação para nos libertar, rejeitando constantemente o catálogo de modelos pré-estabelecidos, incluindo os dxs anarquistas. É assim que desenvolvemos um projeto revolucionário em que a teoria e a ação continuam desafiadoras e mescladas. Podemos nos sentir crescendo e quase pensamos que podemos abraçar o mundo. Então, em um instante, tudo pode ser reduzido a alguns metros quadrados. Todo anarquista sabe disso e sempre o tem mais ou menos presente em um canto de sua cabeça. A existência dessa possibilidade, particularmente emblemática do núcleo essencial dessa ordem social, é precisamente uma razão para não transformar nossa vida fora em uma prisão: convenções e preconceitos, compromissos progressivos e satisfações voláteis, que nos permitem chegar ao próximo dia e nos limitar, e o medo que procura nos diminuir aos nossos próprios olhos.

Esse projeto revolucionário que cada anarquista desenvolve em si mesmx continua a se desenvolver mesmo quando se está na prisão. Contribuir para isso e não sacrificar nossa própria iniciativa aos ditames da repressão é uma solidariedade revolucionária, que também sinto por aqueles que definham nas prisões do Estado. Talvez tenhamos que prestar muita atenção ao cacete da polícia a prisão. Mas, principalmente, a repressão é também a propagação de rituais e conteúdos simbólicos nos enclausurando em um gueto cultural e nos afastando da realidade da luta social, da oferta de soluções participativas em troca de pequenas concessões, do assédio de todos os lados por estímulos e informações que são uma linguagem cada vez mais insignificante e sem sentido que nos permite tornar as nossas ideias compreensíveis para nós mesmxs e para xs outrxs. Tudo isso pode ser muito mais importante na supressão de qualquer levante contra as relações existentes. Eu acho que esses problemas deveriam pelo menos ser considerados no mesmo contexto.

No que diz respeito à minha situação pessoal, estou fazendo o melhor que posso nestas circunstâncias. Estou triste por ver-me tão subitamente arrancado de entes queridxs e sonhos. Mas eu consigo muito bem procurar aberturas, se não fora, pelo menos em meu coração. Eu uso o meu tempo para ler e escrever, para aprender e estudar. Há algumas pessoas com quem posso conversar. Estou ansioso para receber notícias e análises sobre o que está acontecendo no mundo, publicações anarquistas (para serem enviadas em envelopes), bem como cartas de amigxs e conhecidxs.

Entendo alemão, francês, italiano, inglês e um pouco de espanhol e turco. Claro, o promotor também participa da leitura. Por fim, gostaria de agradecer calorosamente àqueles que me apoiam com qualquer meio possível.

Desejo-lhes coragem e força aí fora, onde é ainda mais necessário do que aqui dentro. Pelo menos podem sair mais. Para vocês, um abraço com todo o meu coração!

Anarchistische Bibliothek Fermento

Zweierstrasse 42, 8005 Zürich

bibliothek-fermento [ät] riseup.net

Tradução > keka
Fonte: http://bibliothek-fermento.ch/text09.html

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agência de notícias anarquistas-ana

Algumas pessoas.
Folhas caem também
Aqui e ali.

Issa