[França] Polícia francesa prende 227 em protestos dos “coletes amarelos”

Após cinco meses de mobilizações, milhares de “coletes amarelos” foram às ruas pelo 23º sábado consecutivo de protestos, já marcado por confrontos entre forças de segurança e manifestantes, que resultaram em mais de 200 prisões. A polícia atacou os manifestantes em várias ocasiões com granadas de dispersão e gás lacrimogêneo em uma grande avenida no centro da capital, entre as praças da Bastilha e da República.

No meio do dia, a polícia havia prendido 227 pessoas em Paris e feito mais de 20.500 “checagens preventivas”. Às 19h locais, havia sido decretada prisão preventiva de 178 pessoas na capital, inclusive seis menores.

‘Viver com dignidade’

A manifestação em Paris começou calma, com as tradicionais reivindicações de um aumento do poder aquisitivo e de mais democracia direta. Outro protesto, que partiu da Basílica de Saint-Denis, no norte da cidade, transcorreu sem incidentes.

“Queremos viver com dignidade. Eu tenho minha pensão, mas estou aqui pelas gerações futuras”, afirmou Joël Blayon, pescador aposentado.

O clima no “ato 23” era de desconfiança, ao fim de uma semana, na qual o presidente Emmanuel Macron iria revelar um grande programa de reformas para aplacar a insatisfação social. O anúncio foi adiado para a próxima quinta-feira pelo incêndio na Catedral de Notre-Dame, em Paris.

A comoção nacional provocada pelo incêndio de Notre-Dame irritou alguns “coletes amarelos”, especialmente pelos milhões de euros prometidos pelas maiores fortunas francesas para a reconstrução. “Gosto muito de Notre-Dame, sou católico, mas o maior dos patrimônios são a mão e a cabeça que trabalham”, afirmou Jean-Maria, professor aposentado vindo de Auxerre (centro).

Protestos pelo país

Em Bordeaux (sudoeste), centro de força do movimento, uma pequena multidão se reuniu na praça da Bolsa antes de iniciar a marcha, enquanto a polícia bloqueava o acesso às ruas do centro da cidade. Em Toulouse (sul), milhares de pessoas se reuniram em uma praça central. “Estou com medo, mas isso não me impediu de vir”, disse Claudine Sarradet, um aposentado.

Em Marselha (sul), cerca de mil “coletes amarelos” se reuniram para protestar no Porto Antigo. Na cidade de Lille, no norte, centenas de pessoas se manifestaram. “Macron não pode dar respostas porque não quer mudar sua política, a de ‘tudo para os ricos'”, disse Stéphanie, de 27 anos, dona de casa.

Entre 200 e 300 pessoas se manifestaram em Rouen (norte), apesar de o protesto ter sido proibido.

Como nas semanas anteriores, autoridades proibiram manifestações em locais emblemáticos do país, como a grande avenida Champs-Élysées e a catedral de Notre-Dame, em Paris. Mais de 60.000 policiais e gendarmes foram mobilizados, anunciou na sexta-feira o ministro francês do Interior, Christophe Castaner, que disse temer o retorno dos “vândalos”.

Fonte: agências de notícias

agência de notícias anarquistas-ana

Outono
Empoleirado num ramo seco
um corvo

Matsuo Bashô

[Espanha] Hermanos Bastardos: rap anarquista de Andújar

A dupla estreia com “Sin miedo a la ruína”, um álbum cheio de crítica social

por Fran Cano | 03/04/2019

Chamam-se Alberto Amaro (Andújar, 1990) e Alberto Gutiérrez (Andújar, 1991) e formam os Hermanos Bastardos. A dupla está unida há uma década e meia pelo rap. A marca é mais recente, desde o final de 2014, e acaba de publicar o segundo projeto musical Sin miedo a la ruína (Sem medo da ruína).

Amaro diz que o primeiro álbum foi intitulado Dejotamodo y Berto, os nomes que eles usam no rap. Essas onze canções permitiram que eles se dessem a conhecer. “A gente começou e entre um álbum e outro nós atuávamos e preparávamos o próximo”, lembra o rapper, que combina música com sua ocupação como publicista.

A novo disco da dupla tem 18 temas baseados na ideia que defendia o anarquista e sindicalista Buenaventura Durruti em 1936. “Não temos nenhum problema em nos definir politicamente: somos anarquistas”, reivindica Amaro em conversa com este jornal. Há músicas no álbum que também fazem isso: desde Rebeldia a Bêbados e Anarquistas, Liberdade de Pensamento. “Nosso pensamento é libertário, e as pessoas que nos ouvem sabem disso”, acrescenta.

O CONTEÚDO IMPORTA

Hermanos Bastardas defendem que os temas têm que ter mensagem, e afastam-se dos ritmos urbanos mais ampliados agora que mostram o contrário. “Em Liberdade de pensamento criticamos a sociedade de consumo que nos tem arrastado para uma vida que só parece importar o trabalho e gastar como se não fosse importante ter tempo para nós”, aprecia o artista.

Amaro antecipa que a turnê chegará entre o final de setembro e o início de outubro. Está previsto que haverá pelo menos uma performance ao vivo com o grupo chileno Marmota no bar, que colabora no último álbum com a música Filhos da Destruição. Também estão presentes no álbum Ika e Samuel de Xpresidentx e Def con Dos, Fefo LKK da antiga banda punk Los Kostokaron, Protestango e El Fuego, La Palanra desde Buenos Aires e Ihmaele de la Torre,  da banda de Granada Fausto Taranto, entre outros músicos.

O som da dupla bebe em outros gêneros, como o punk, daí a ideia de ‘anarcorap’. Sem medo da ruína está disponível no YouTube e pode ser baixado em plataformas digitais, do Google Play ao iTunes e Spotify, além do site oficial. “Apostamos em dar facilidades a todos que querem se aproximar de nossa música”, conclui.

>> Videoclipe – Borrachos y anarquistas:

https://www.youtube.com/watch?v=JxuO9cZJ6gY

Fonte: https://lacontradejaen.com/hermanos-bastardos-rap-andujar/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

chuva fina
tarde esfria
todo o lago se arrepia

Alonso Alvarez

 

Resenha: 2013, livro punk

obre a obra de Camila Jourdan, 2013: memórias e resistências

por Wander Wilson | 18/04/2019

Ataque sonoro é nome de uma coletânea punk lançada em 1985. Na capa, dois mísseis, um estadunidense e um soviético miravam para a cidade de São Paulo, mostrando as forças antagônicas agindo em conjunto contra o que não seria governado por elas. Esta é a descrição da coleção Ataque, organizada por Acácio Augusto e Renato Rezende em conjunto com a editora Circuito. É nesta coleção que se insere o livro de Camila Jourdan: 2013: memórias e resistências. Escrito curto e rápido que trabalha sobre a própria vida da escritora, assim como as canções de punk rock.

Camila esteve nos acontecimentos de 2013, portanto, não escreve sobre um fato externo, pressupondo uma neutralidade da razão. O livro é dividido entre suas memórias, entrevistas e análises, o que coloca vida e pensamento em fluxos relacionáveis, escapando da arrogância filosófica e científica capaz de produzir verdades unitárias – uma forma-Estado do pensamento. É contra esse tipo de verdade vinda dos céus que o livro se volta, afirmando sua ética anarquista nos combates que trava. Escapa das soluções fáceis à esquerda e à direita, os dois mísseis que apontavam para a cidade de São Paulo na capa da Ataque sonoro. O ano de 2013 não foi o começo do golpe que resultaria na ocupação do governo do Estado pela direita. Também não se trata de separar grupos terroristas infiltrados, financiados pela esquerda, comumente chamados de vândalos. Essas narrativas consolidam aquilo que se quer enterrar, a revolta de 2013, equacionando a continuidade do Estado e renovando seus governos.

Embora o livro trate dos acontecimentos na cidade do Rio de Janeiro, um episódio da cidade de São Paulo estabelece conexões com esses fluxos de análise. Chamada para negociar com políticos sobre as pautas de reivindicações dos atos que aconteciam neste mês, uma militante do Movimento Passe Livre (MPL) enuncia: “Primeiro eu queria dizer que eu não gosto de políticos. Eu gosto de Ramones”. Não havia o que se negociar, não era disso que se tratava as contestações que apareciam por todo o país.

O fervor nas ruas em 2013 começou antes e ainda não acabou, faz parte das disputas em curso. 2013 foi a ocupação por indígenas do antigo museu do índio na cidade do Rio de Janeiro, convertendo-o na aldeia maracanã, o que impediu a demolição do prédio nos preparativos da Copa do Mundo de 2014. Foi também a remoção de seus ocupantes pelas forças policias em março de 2013. Foi todas as escolas ocupadas pelo Brasil em anos posteriores, todos os beagles libertados de uma empresa de cosméticos, a luta contra a máfia dos transportes… Foi muito. Está sendo.

Em junho de 2013 pululou todo tipo de contestação na extensão dessa artificialidade territorial que chamamos de Estado-nação. Viu-se a retomada de uma série de práticas e pensamentos anarquistas como a ação direta, a dissolução de hierarquias e a recusa da organização em partidos. Viu-se a emergência mais consolidada no Brasil da tática black block e a tentativa exaustiva de jornais, mídias televisivas e alguns intelectuais de esquerda de enquadrá-los como vândalos.

2013 foi também os atos anti-Copa em 2014 e as ações repressivas por parte das forças de Estado, até então sob o governo nacional do Partido dos Trabalhadores (PT). O livro começa com a polícia invadindo a casa de Camila, na época, militante da organização anarquista Terra e Liberdade (OTL) e da Frente Independente Popular (FIP), e levando-a para a cela da Polinter sem tomar conhecimento da acusação que a havia colocado lá. Depois foi transferida para a prisão de segurança máxima de Bangu junto com outras militantes mulheres. Lugar que não devia existir, assim como todo cárcere, espaço com presas majoritariamente negras obrigadas a se submeterem às carcereiras majoritariamente brancas. O livro acompanha parte do processo dos 23 de junho, das 23 pessoas arrancadas de suas casas durante os atos contra a Copa na cidade do Rio de janeiro. Camila, filósofa e professora da Uerj, chega a ser impedida de dar uma palestra na Universidade Federal da Grande Dourados, no Mato Grosso do Sul. A justiça considerou que essas atividades não eram “essenciais ao exercício de sua profissão”. Tudo isso tem algo de 2013, este acontecimento que ao mesmo tempo está fora e dentro do calendário.

Livro de escrita corajosa em meio a este processo cujas provas são os depoimentos de um policial infiltrado na Frente Independente Popular (FIP). As provas vindas deste único relato foram cassadas recentemente pelo Supremo Tribunal Federal (STF), muito embora o processo ainda corra sem estas provas validadas. Patti Smith, em entrevista ao La Nación, disse que, antes da palavra punk existir como a conhecemos chamavam-na de liberdade. Após os primeiros shows na casa CBGB e a emergência desse estilo sonoro nos Estados Unidos, as duas palavras passaram a se mesclar em uma relação explosiva. Para a poeta do rock, o punk se transformou e pode ser muitas coisas, ele é uma vontade de afirmar outras formas de vida. Nesse sentido, Camila não escreve sobre junho de 2013 e sim com o acontecimento. É disto que também tratava junho: a afirmação de outros mundos e outras vidas, de práticas de liberdade. É também por esses caminhos que reverberam a vida pulsante deste livro em meio aos seus breves e corajosos acordes.

* Wander Wilson é doutorando em Ciências Sociais (antropologia) pela PUC-SP.

O livro será lançado em São Paulo no dia 27 de abril. Para mais informações, clique aqui:

https://www.facebook.com/events/250523155743360/

Fonte: https://diplomatique.org.br/2013-livro-punk/?fbclid=IwAR26Ebs0S2ihvY0r4fIrrJ9GrlUJQAJwOUVso0b1njD3vTGVF7u8_u8LkpI

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/04/07/analise-do-documentario-lancado-recentemente-o-que-resta-de-junho-sobre-as-chamadas-jornadas-de-junho-de-2013/

agência de notícias anarquistas-ana

Uma árvore nua
aponta o céu. Numa ponta
brota um fruto. A lua?

Guilherme de Almeida

[Portugal] Brasil: Crônica de um Desastre Anunciado

Este artigo é dedicado a Soledad Barret Viedma, assassinada pela ditadura militar brasileira, neta do anarquista Rafael Barrett.

Há alguns anos atrás um conhecido editor anarquista paulista, Plínio Coelho, crítico feroz do PT, alertava que os governos de Lula e Dilma estavam a abrir caminho para um qualquer político populista de extrema-direita. Não se tratava de bruxaria, nem de ter recorrido a uma mãe-de-santo de um qualquer terreiro de candomblé, mas tão só da lucidez de alguém que estava atento ao desastre que se anunciava.

Lula e o PT foram a partir dos anos 80, com o fim da Ditadura Militar, catalisando as esperanças de milhões de brasileiros numa mudança estrutural da sociedade. Não esperavam um revolução mas tão só reformas profundas que trouxessem alguma justiça social a uma das sociedades mais perversas, injustas e desiguais do mundo. A reforma agrária, a reforma urbana, a reforma fiscal, o fim da corrupção e o combate às grandes máfias do crime organizado era o mínimo que se esperava e que se prometia nas campanhas eleitorais.

É certo que quando Lula foi eleito já tinha começado a acomodar o seu programa aos poderosos interesses dominantes na famosa “Carta ao Povo Brasileiro” [1], que mais não era que um pacto negociado com os verdadeiros donos do Poder no Brasil. No entanto, o programa reformista do PT não era ainda uma impossibilidade até porque teria, nesse momento, um grande apoio social e era o desejo da militância popular do partido e dos eleitores, num contexto em que os setores conservadores estavam acuados.

O que se viu a partir de 2003, no entanto, foi algo diferente. Impôs-se no PT a linha hegemônica “pragmática” que, em nome da “governabilidade”, estava disposta a fazer todo o tipo de acordos com os deputados e senadores conservadores e a acomodar o seu programa aos interesses do grande capital. Foi uma época de crescimento econômico, numa conjuntura favorável, em que os grandes grupos econômicos passaram a encarar o governo de Lula de forma mais complacente, esquecendo as desconfianças do passado. Cresceram os salários mas principalmente os lucros desses grupos industriais e financeiros. Simultaneamente, o governo de Lula teve a possibilidade de implementar alguns dos seus programas sociais que tinham por base uma velha tradição latino-americana, no caso brasileiro getulista, de subsídios e apoios estatais aos grupos sociais mais pobres. Este assistencialismo permitia também dar o acesso ao consumo, embora mínimo, aos grupos excluídos e aos trabalhadores com salários mais baixos [2].

Os mandatos foram avançando e nada de reformas de fundo, pelo contrário, a velha política do “toma lá dá cá” foi-se consolidando como a tática de negociação parlamentar com os setores mais conservadores e reacionários da câmara dos deputados e do senado. Foi a época em que vimos Lula abraçado a Sarney, Collor, Maluf, Eduardo Cunha, Sérgio Cabral e tantos outros sinistros personagens.

Quando Lula, após oito anos de governo, em 2011, conseguiu transferir o apoio que ainda tinha, em função de uma situação econômica expansiva e das suas políticas sociais, para uma figura apagada da burocracia, Dilma Rousseff, não se esperava a tormenta que já se podia adivinhar com o chamado “mensalão”, esquema de corrupção na Câmara de Deputados que começava a chamuscar o PT. Como não tinha ainda chegado a crise brava, os eleitores, na velha tradição do “rouba mas faz” de Ademar de Barros e Paulo Maluf, ainda aceitaram que a corrupção fosse obra de uns quantos dirigentes e que Lula nada soubesse do assunto. Mesmo que esses dirigentes do PT acusados, José Genoíno e José Dirceu, fossem dois dos mais importantes estrategas do partido, muito próximos a Lula.

Com Dilma os problemas não pararam de se avolumar, a crise econômica e social foi crescendo ameaçadora, nas ruas as manifestações de descontentamento começaram a ser cada vez mais ruidosas. As obras faraônicas para o Mundial de Futebol de 2014 e para as Olimpíadas de 2016 causaram indignação, tanto mais que para a educação e para o sistema de saúde, que nunca deixou de ser um desastre, faltavam verbas. No seu governo aprovaram-se leis especiais de repressão social tendo em vista esses grandes eventos e um esquema de segurança máxima foi montado para garantir que a habitual violência das grandes cidades brasileiras, com milhares de mortos por ano, não incomodasse os visitantes estrangeiros. Mas as manifestações ainda eram de movimentos sociais de esquerda, embora começassem a agregar muitos descontentes influenciados pelo discurso conservador.

A partir de 2014 tudo se complicou. A Operação Lava Jato seguiu todo um conjunto de pistas que incriminam um grande esquema montado pelo governo do PT para distribuir dinheiro entre si e os partidos aliados a partir das grandes obras públicas e da Petrobras. Num momento em que a recessão econômica começava a apertar os brasileiros, com desemprego, falência de pequenos negócios e inflação crescentes, ver os dirigentes políticos do país a desviarem milhões e milhões dos recursos públicos despoletou a raiva de muitos dos eleitores que haviam apoiado Lula, Dilma e PT, sentindo-se traídos pelo partido. Essa raiva iria convergir com o ressentimento latente de setores conservadores da chamada classe média, que perderam de forma significativa poder de compra e que, no seu profundo reacionarismo, nunca aceitaram o discurso socializante do PT, mesmo que este fosse mais simbólico do que real, e as mudanças sociais e culturais que estavam ocorrendo no Brasil, muitas das quais até à margem do PT [3].

A partir daí, a base social que sustentava o governo foi-se fragmentando e a reação arrogante do PT contra todos os que saíam à rua, apelidados de coxinhas, acompanhada da vitimização do partido e de Lula, só fizeram crescer ainda mais a raiva. Não se podia mais tapar o sol com a peneira, nem ocultar que a esquerda geriu um grande esquema de locupletação com os recursos públicos.

Dilma Rousseff foi afastada do poder, em 2016, em pleno pique da crise econômica [4], após grandes manifestações de rua anti-governamentais, numa das típicas manobras maquiavélicas dos parlamentares brasileiros, mas que se resumiu para o PT e para a esquerda a um “golpe”, mesmo que esse golpe tenha sido dado pelos aliados da véspera do PT, muitos dos quais integrados nos governos de Lula e Dilma e que haviam sido sócios nos esquemas de corrupção na última década.

Aquilo que os grandes estrategas do partido imaginaram ser a forma de cooptar apoio aos seus governos para garantir a “governabilidade”, a corrupção, saía-lhes como um tiro pela culatra. Não só políticos aliados, como empresários, decidiram falar, como até dirigentes do próprio PT vieram confirmar os esquemas corruptos desses governos.

Da ideia de um partido vítima e de dirigentes inocentes passou-se então ao discurso “todos fazem isso”, naturalizando assim a prática corrupta do partido que usou os mesmos instrumentos dos velhos partidos. Só que o problema era, por um lado, que o PT desde a sua fundação defendia um discurso ético de combate à corrupção e à velha política brasileira. Por outro, o esquema que começava a ser exposto pela polícia e justiça mostrava-se o mais elaborado, complexo e bem gerido sistema de corrupção montado a partir do poder central. Não era já a prática da corrupção avulsa e amadora de cada partido e político meterem no bolso o que podiam, mas um sistema articulado, e centralizado, de distribuição de recursos públicos pelos partidos no poder, PT e seus aliados conservadores.

A raiva e o ressentimento passaram a ser imparáveis. Por razões de oportunidade foi um deputado ex-capitão, boçal e autoritário, Jair Bolsonaro, um Duterte à brasileira, que assumiu a frente desse combate anti-petista. Os políticos e dirigentes partidários mais importantes estavam na quase totalidade envolvidos nos vários esquemas que começavam a ser revelados e à esquerda nenhum dos partidos conseguiu, ou teve coragem, de entrar em confronto aberto com o PT. A direita começava a ganhar a disputa, uma direita autoritária, reacionária e inorgânica, em alguns casos de tipo fascizante, cimentada pelos pastores conservadores das igrejas pentecostais, mas que arrastou no seu avanço muitos dos desiludidos ex-eleitores apoiantes de Lula e do PT.

Chegados às eleições presidenciais de novembro, ao se extremar o confronto, a disputa passou a ser entre dois messias: Jair Bolsonaro e Fernando Lula Haddad. O que muitos imaginaram ser a solução milagrosa, o apoio de Lula, e a apresentação de Haddad como um homem de confiança de Lula, tornou-se no segundo turno o veneno. A maioria dos eleitores não votariam no que Haddad representava, mesmo que do outro lado estivesse o candidato mais boçal e reacionário que alguma vez se apresentou a eleições. Numas eleições radicalizadas sob o signo de “Haddad ou fascismo”, um terço dos eleitores, os abstencionistas, brancos e nulos, recusou-se a dar o seu voto ao candidato do PT.

A possibilidade de derrotar Bolsonaro, dentro da lógica política partidária, só poderia ter existido se Haddad tivesse assumido uma autocrítica em relação às práticas governamentais desastrosas do PT e negociado com o PDT, PSDB, PV, Rede e PPS uma frente contra a ameaça autoritária. No entanto, o PT, partido que em nome do “pragmatismo” fez todo o tipo de acordos espúrios com os partidos conservadores e os parlamentares mais reacionários ao longo de mais de uma década, usando a corrupção como instrumento de cooptação, não foi capaz de fazer um simples acordo político com os potenciais aliados do segundo turno.

A chantagem de “Haddad ou o fascismo”, com tudo o que significa de manipulação política, num contexto dramático, não funcionou.

Como escreveu o poeta: “E agora José?”

A situação é complexa e imprevisível. No mínimo vai crescer a partir de 2019 o caráter autoritário do estado brasileiro, vão ser desenvolvidas políticas conservadoras de restrição de direitos e uma guerra ideológica contra os valores de uma cultura progressista e cosmopolita, para lá de uma agenda econômica ultra-liberal que é o ponto fundamental para o grande capital. Uma coisa é certa: Jair Bolsonaro não dispõe de uma maioria social, a sua vitória embora significativa, resultando de 55,13% dos votos, está longe de recolher esse apoio [5]. No entanto, parece ser claro que o confronto e a oposição às políticas conservadoras, principalmente de uma perspectiva libertária da autonomia e auto-organização, passará mais pela sociedade, pelas ruas e pelos locais de trabalho, do que pelas disputas institucionais e partidárias em Brasília. A menos que os sindicatos, movimentos sociais, MST, ecologistas, feministas e nações indígenas rompam os laços de dependência e subserviência em relação ao Estado e aos partidos, no caso do Brasil em relação ao PT, não sairemos desta lógica contaminada da alternância dos grupos dirigentes que vão ocupando o Poder do Estado sem que nada mude de fundamental na sociedade brasileira. Que os anti-capitalistas se tornassem nesta fase, em nome de um frentismo, a ingênua tropa de choque de defesa do PT, ao lado do PSOL, seria o último desastre, tanto mais que os treze anos de lulismo nos demonstraram que as questões centrais na sociedade continuam a ser o Estado e o Capitalismo. Desta realidade não há como escapar. Se há uma coisa que a história recente do Brasil nos volta também a recordar é que nada se pode esperar de qualquer vanguarda iluminada e menos ainda de qualquer messias, chame-se António Conselheiro, Getúlio Vargas, Jânio Quadros, Luís Inácio ou Jair Bolsonaro.

A esquerda e a autofagia

A propósito das eleições brasileiras muitos respeitáveis comentadores, sociólogos e políticos vieram explicar-nos, a nós e aos brasileiros, que um dia em Portugal Álvaro Cunhal apelou a que os militantes do PCP votassem em Mário Soares, mesmo que para isso tivessem de tapar o nariz ou a cara do candidato. Este gastronômico ato de engolir sapos era dado como o exemplo pedagógico a ser seguido pelos eleitores brasileiros descontentes com o PT se quisessem impedir a vitória de Jair Bolsonaro, reacionário hardcore. Esqueceram no entanto que o melhor exemplo da submissão ao pragmatismo realista está no Brasil onde o histórico dirigente comunista Luiz Carlos Prestes apoiou Getúlio Vargas, e pediu votos a seu favor, depois deste ditador ter mandado prender, torturar e matar comunistas e anarquistas, e ser o responsável direto pela deportação de Olga Benário, a comunista companheira de Carlos Prestes, para a Alemanha nazi onde morreu num campo de concentração.

Prestes foi pois o melhor exemplo da disposição dos comunistas e da esquerda para devorar as próprias vísceras em nome do partido, da nação e do povo.

Texto de M. Ricardo de Sousa
Ilustração de Daniela Rodrigues

Notas:

[1] Carta divulgada em 2002 por Lula ainda candidato a presidente para acalmar os empresários e o mercado financeiro. A redação deste documento é atribuída a António Palocci que foi ministro da Fazenda do primeiro governo do PT e é hoje um dos delatores nos processos da Lava Jato.

[2] Os principais programas sociais foram o Bolsa Família e o Fome Zero que tiveram um forte impacto nos setores mais pobres da sociedade brasileira.

[3] Mas não podemos esquecer que uma parte dessa pequena e média burguesia urbana, principalmente a intelectualizada, foi nos últimos anos apoiante do lulismo.

[4] Neste período da pior crise desde os anos 90 o desemprego já havia superado os 12% e o PIB caído mais de 3%.

[5] Fernando Haddad teve 44,87% dos votos e a soma dos brancos, nulos e abstenções foi de 30,87%.

Fonte: http://www.jornalmapa.pt/2019/03/28/brasil/

agência de notícias anarquistas-ana

o vento lambe teu corpo,
ainda morno o bebo:
parece vapor de licor

Alaor Chaves

[França] Festival Libertário de Lyon: “Nós nos instalamos por todos os cantos”

Este festival “Primavera Libertária, nós nos instalamos por todos os cantos” é organizado, já há vários anos, por diferentes coletivos libertários de Lyon, por associações e por camaradas que encontraram-se no pensamento antiautoritário.

O festival “Novembro Libertário” decidiu neste ano aproveitar os belos dias da primavera para se estabelecer em Lyon em 2019 e renascer sob o nome de “Primavera Libertária”.

De 24 de março de 2019 a 3 de maio de 2019, venha conhecer-nos em Lyon para um novo mês de festival.

…visa difundir os saberes e práticas libertárias…

O objetivo da “Primavera Libertária” é mobilizar, criar e compartilhar o pensamento libertário, suas atualidades, suas práticas, a fim de desconstruir os estereótipos que os caricaturam com demasiada freqüência e tornar possível a tod@s e quaisquer um@ a ver, que o anarquismo é ancorado vigorosamente nas atualidades críticas do nosso mundo. Não, a renúncia não é o nosso horizonte. Não, a cultura do poder, a meritocracia, do capitalismo, do patriarcado, do nacionalismo nunca formarão nosso horizonte.

Mobilizamo-nos contra todas as formas de opressão e dominação, contra as regressões sociais e as injustiças que surgem de todos as partes, e contra a negação da justiça, contra a histeria securitária e identitária!

…à reunião de toda a população…

Na primavera de 2019, os libertários de Lyon se propuseram a ocupar todos os espaços possíveis e imagináveis (MJC, bares, espaços públicos, cinemas, instalações autogeridas, teatros…) para dar maior visibilidade às práticas libertárias.

Estamos instalando-nos em todos os lugares para criar uma dinâmica coletiva que permita responder claramente às questões de um mundo possível, superar as divisões herdadas do passado e desconstruir moralidades e injunções econômicas autoritárias e verticais; aquelas da economia capitalista-produtivista.

…para trabalhar à transformação social!

As culturas libertárias oferecem ferramentas e armas para refletir e agir de maneira diferente. Este festival de educação não formal, aberto a tod@s, visa a emancipação individual e coletiva, assim como a crítica das injustiças e instituições políticas e sociais repressivas.

No programa: livros, debates, concertos, teatro, poesia, comida, reuniões, ateliers/oficinas, conferências, projeções e poemas – mil (e uma) maneiras de se conhecer e se dispersar, para sonhar-falar-organizar uma sociedade cujo horizonte será pintado de cores do anarquismo.

printempslibertaire.info

Tradução > Markus Markus

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/11/16/franca-lyon-novembro-libertario/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/11/14/franca-lyon-festival-libertario-edicao-2016-de-3-a-25-de-novembro/

agência de notícias anarquistas-ana

A sensação de tocar com os dedos
O que não tem realidade –
Uma pequena borboleta.

Buson

[Espanha] A idiotização da sociedade como estratégia de dominação

As pessoas estão tão imersas no sistema estabelecido que são incapazes de conceber alternativas aos critérios impostos pelo poder. Para consegui-lo, o poder se vale do entretenimento fútil, com o objetivo de entorpecer nossa sensibilidade social, e nos acostumar a ver a vulgaridade e a estupidez como as coisas mais normais do mundo, nos tornando incapazes de alcançar uma consciência crítica da realidade. No entretenimento fútil, o comportamento tosco e irrespeitoso se considera um valor positivo, como vemos constantemente na televisão, nos repugnantes programas conhecidos como “imprensa rosa”, e nos espetáculos de massa onde a gritaria e a falta de respeito são normas, sendo o futebol a forma mais completa e eficaz que o sistema tem utilizado para entorpecer a sociedade.


Nesta subcultura do entretenimento fútil, o que se promove é um sistema baseado nos valores do individualismo possessivo, e em que a solidariedade e o apoio mútuo são considerados ingenuidade. No entretenimento fútil, tudo se passa para que o indivíduo suporte estoicamente o sistema estabelecido sem resistir. A história não existe, o futuro não existe, só existe o presente e a satisfação imediata proporcionada pelo entretenimento vago. Por isso não é estranho que os livros como os de autoajuda, autêntica psicologia depreciável, o misticismo a lá [Paulo] Coelho, ou infinitas variantes do clássico “Como se tornar milionário sem esforço” se proliferem. Em última instância, a ideia do entretenimento fútil é nos convencer de que nada pode ser feito; de que o mundo é como é e é impossível mudá-lo, e que o capitalismo e o poder opressor do Estado são tão naturais e necessários como a própria força da gravidade. Por isso é comum escutar: “É algo muito triste, sem dúvidas, mas sempre houve pobres oprimidos e ricos opressores, e sempre haverá. Não há nada que se possa fazer”.

O entretenimento fútil conseguiu a proeza extraordinária de fazer com que os valores do capitalismo sejam também os valores daqueles que se vêm escravizados por ele. Isso não é algo recente, La Boétie, no longínquo século XVI veio expressando claramente seu espanto em seu pequeno tratado sobre a servidão voluntária. No qual constata que a maior parte dos opressores perdura unicamente por ter cúmplices entre os próprios oprimidos. O sistema estabelecido é muito sutil, com sua estupidez forja nossas estruturas mentais, e para isso se vale do púlpito que todos temos em nossas casas: A televisão. Nela não há nada que seja inocente, em cada programa, em cada filme, em cada notícia, sempre resume os valores do sistema vigente, e, sem darmos conta, passamos a acreditar que a verdadeira vida é assim. Nos introduzem seus valores em nossas mentes.

O entretenimento fútil existe para ocultar a evidente relação entre o sistema econômico capitalista e as catástrofes que assolam o mundo. Por isso é necessário que exista esse espetáculo fútil, para que enquanto o indivíduo se autodegrada, afundando no lixo oferecido pelo poder através da televisão, não perceba o óbvio, não proteste e continue permitindo que os ricos e poderosos aumentem seu poder e riqueza, enquanto os oprimidos do mundo seguem padecendo e morrendo em meio a existências miseráveis.

Se seguirmos permitindo que o entretenimento fútil continue moldando nossa consciência, e por tanto o mundo ao seu capricho, ele terminará nos destruindo. Porque seu objetivo não é outro senão o de criar uma sociedade de homens e mulheres que abandonem os ideais e as aspirações que os fazem revolucionários, para conformar-se com a satisfação de umas necessidades induzidas pelos interesses das elites dominantes. Assim os seres humanos se encontram despojados de toda a personalidade, convertidos em animais vegetativos, sendo desativada por completo a ideia de lutar contra a opressão, atomizados em um enxame de egoístas desenfreados, deixando, mais do que nunca, as pessoas sozinhas e desvinculadas entre elas, focadas na exaltação de si mesmas.

Assim, dessa forma, aos indivíduos não restam mais energias para mudar as estruturas opressoras (que, aliás, não são percebidas como tais), já não lhes resta força nem coesão social para lutar por um mundo novo. Não obstante, se quisermos reverter tal situação de alienação a que estamos submetidos, só nos resta, como sempre, a luta. Só nos resta contrapor outros valores fundamentalmente opostos aos do espetáculo fútil, para que surja uma nova sociedade. Uma sociedade na qual a vida dominada pelo absurdo do entretenimento fútil seja somente uma memória dos tempos estúpidos em que os seres humanos permitiram que suas vidas fossem manipuladas de maneira tão obscena.

Fonte: http://www.despiertacultura.com/2018/06/la-idiotizacion-de-la-sociedad-como.html

Tradução > Daitoshi

agência de notícias anarquistas-ana

sol e margaridas
conversa clara
na janela da sala

Alonso Alvarez

[Portugal] As gralhas batem as asas!

CSA A Gralha
 
A Gralha (Centro Social Auto-gerido) é organizada a partir dos princípios anarquistas da auto-gestão, do apoio mútuo, do assemblearismo e da horizontalidade, com um enfoque feminista, anti-racista, anti-especista e anti-capitalista. Mais do que um espaço físico, é um projeto político – visceral, encarnado e multiforme – que crocita a urgência de resistir, agitar e combater a sociedade opressiva e autoritária, aqui e agora, sempre em solidariedade com outras geografias de insubmissão, a caminho de uma outra forma de vida, de mundo, de futuro.
 

O que é que faremos?

No CSA A Gralha, acolheremos vários projetos colaborativos que farão deste centro social um organismo vivo, múltiplo e fluído, tais como um ponto de encontro, uma biblioteca social e um centro de arquivo e documentação, uma loja livre, assim como incluirá futuramente um grupo de consumo auto-gerido, uma editora, uma livraria, um centro de recursos, um grupo de guerrilha audiovisual e um grupo de investigação autônoma. É também um espaço aberto para colectivos que se identificam com os princípios d’a Gralha.

Se tens uma ideia ou te apetece organizar uma atividade, se fazes parte de um colectivo ou um projeto que têm afinidade com a Gralha, escreve-nos para agralha@riseup.net ou aparece nas assembleias mensais!

As gralhas batem as asas no próximo sábado, dia 20, às 16h:

https://www.facebook.com/events/1013675575689467/.

Aparece!

Fonte:https://www.facebook.com/gralhacentrosocialautogerido/

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varal vazio
um só fio
lua ao meio

Alice Ruiz

[Espanha] Lançamento: “Autobiografia de Manuel Martínez”, de Eduardo Romero

“Manuel Martínez é um personagem excepcional com uma vida trepidante na qual o “rebelde primitivo” e o militante anarquista se sucedem como a larva e a mariposa em uma crisálida”. — Santiago Alba Rico

A vida de Manuel Martínez (Madrid, 1951) pode ler-se como a história subterrânea de toda uma geração de inadaptados sociais; jovens de bairro que enfrentaram uma máquina repressiva que não se deteve com a morte do ditador. Sua peripécia vital pode ler-se como uma contra história da Espanha — dessa Espanha selvagem — da segunda metade do século XX, que passou do tardo-franquismo a uma democracia de consumidores.

Manuel entrará na sacola como um chouriço, como um malandro de bairro, como um mais dos milhares que sofreram a aplicação da Lei de Vagabundos e Meliantes — mais tarde de Periculosidade Social —, e sairá da prisão convertido em um expropriador.

Nem é este outro livro carcerário nem a história de Manuel Martínez, é a história de um herói (em algumas ocasiões é bem mais a de um anti-herói). É a narração da vida nas barriadas madrilenhas antes e durante o desenvolvimento franquista, da reclusão de Manuel durante década e meia em todo tipo de instituições prisionais e de sua participação na Coordenadora de Presos em Luta (copel).

Este testemunho é, ademais, a história das mães que não podiam atender a seus filhos porque trabalhavam de internas, dessas mulheres que se converteriam em “mães de presos” e que se organizariam antes que eles para lutar por seus direitos. É a história da migração interna e da urbanização vertiginosa, dos bairros de casebres e dos blocos de moradias, dos hippies e dos yonquis, da vida “depressa, depressa”. A história, também, do exílio, pois Manuel Martínez terá que ir a América Latina, onde, sobretudo no Brasil, viverá alguns dos momentos mais felizes de sua vida em uma pequena comunidade de foragidos da Espanha e Portugal.

Autobiografía de Manuel Martínez

Eduardo Romero

Pepitas de calabaza ed., Colección Vidas, 18. Logroño 2019

128 págs. Rústica 21×15 cm

ISBN 9788417386283

14.20€

pepitas.net

Tradução > Sol de Abril

agências de notícias anarquistas-ana

A serra em chuva
Sob o sol poente –
Como não agradecer?

Paulo Franchetti

[Espanha] Sant Antoni dedicará uma praça à miliciana anarquista Conxa Pérez

por Helena López | 03/04/2019

Dirigiu durante décadas um pequeno posto de bijuteria e roupa íntima no mercado de Sant Antoni, que durante o franquismo serviu de ponto de encontro clandestino entre anarquistas, desde o que nunca abandonou seu ideal libertário. Não é casualidade, pois, que o enclave da cidade escolhido para recordá-la seja o cruzamento entre as ruas de Borrell e Tamarit, em um dos extremos da recém reformada loja. Assim o aprovou o último conselho plenário do distrito do Eixample, com os votos a favor de todos os grupos exceto Ciudadanos e o PP.

Conxa Pérez Collado nasceu em Les Corts em 1915 e morreu na Barceloneta em 2014, aos 98 anos, após uma vida marcada pelo antifascismo militante. Filha de anarquista, Concha recebeu a notícia do início da guerra no bar Los Federales, em seu bairro. “O primeiro que nos ocorreu foi assaltar o quartel de Pedralbes, para buscar armas. A entrada foi fácil, não resistiram, mas estávamos tão empolgados que pegamos os fuzis e nos esquecemos das balas”, explicava em uma entrevista em 2010, feita por causa da homenagem que lhe organizou o Ateneu Enciclopèdic Popular, do qual era sócia. A preciosa fotografia que ilustra esta peça foi tomada nesse mesmo dia.

O esquecimento da munição era uma de suas anedotas frequentes, que compartilhava em numerosos espaços como membro do coletivo “Dones del 36” [Mulheres de 36], ao qual se uniu  no final dos anos 90 graças a teimosia da ativista Llum Ventura, mãe da iniciativa, de quem já não se separou até a sua morte. Juntas, junto a mulheres como Trinidad Gallego e Josefina Piquet, conhecida como ‘la Nena del 36’, fizeram um trabalho vital para conservar e reivindicar o papel destas mulheres na história.

Testemunha da cárcere de mulheres

Em 1932 se filiou a FAI [Federação Anarquista Ibérica] e em 1933 foi detida por levar uma pistola escondida no peito, arma que escondia para ajudar a um companheiro (o proprietário da mesma). Por este episódio foi encarcerada na esquecida prisão de mulheres de Reina Amàlia, no Raval, cuja memória foi recentemente recuperada pelo coletivo SomAtents.

Militante da CNT e da CGT na etapa moderna, lutou em Belchite. Em dezembro de 1938 abandonou Barcelona e foi transladada ao campo de refugiados de Argelès. Regressou em 1942 e depois de passar um tempo como empregada doméstica, abriu o posto no mercado de Sant Antoni no qual passou grande parte de sua vida.

Seus últimos anos os viveu em uma residência na Barceloneta, perto de sua inseparável Llum, onde até o último dia, já em cadeira de rodas, fez parte da luta de moradores de seu bairro de acolhida.

Fonte: https://www.elperiodico.com/es/barcelona/20190403/conxa-perez-la-miliciana-anarquista-del-mercado-de-sant-antoni-7386275?fbclid=IwAR0LOkSZh9-YfHG5GQVFlwFh9gkZqDuffHE5B6FLLwLpP7FBusYcpNd39ZU

Tradução > Sol de Abril

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/11/24/espanha-teatro-les-solidaries-uma-homenagem-as-mulheres-libertarias/

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Quietude –
O barulho dos pássaros
Pisando as folhas secas.

Ryúshi

[Chile] Lançamento: Imagem Ácrata. Cartazes de protesto antiautoritário. Vol. I: Europa.

O pensamento anarquista nasce como teoria política e filosófica justamente na Europa, durante o ápice das lutas sociais do século XIX, quando a classe trabalhadora já sofria consequências de um capitalismo em expansão. A civilização moderna industrializada, através de seus dispositivos de controle, buscava impor no mundo todo um sistema econômico, político e social que ameaçava (e ainda o faz) submeter ao seu ritmo, todas as formas de vida, trabalhos e territórios.  Nesse contexto, a organização política do movimento operário, camponês e dos oprimidos em geral, era (e ainda é) indispensável para mudar o rumo das coisas, lutar contra um sistema desumano, fazer a revolução e – Por que não? – viver a anarquia. Desde essa época, a ideia anarquista – e ainda dentro dos vai-e-vens caóticos da história – se desenvolveu com força por todos os cantos do mundo.  Jornais, rádios, comícios e atividades variadas foram pouco a pouco expandindo-a, sendo a propaganda um espaço significativo neste sentido.

Entendemos como propaganda, neste sentido, o impulso de caráter social que leva o emissor – anárquico neste caso, – a se expressar especificamente para comunicar uma ideia. O desejo de transmitir um conceito, conhecimento particular ou forma de entender o mundo, seja qual for, é inerente à vida em comunidade.  Seja um discurso, pichações e até um filme, os meios de comunicação são armas poderosas para apresentar a realidade, e o anarquismo desenvolveu desde cedo seus próprios mecanismos para difundir seus ideais e propósitos, sendo o cartaz, uma forma fundamental para a socialização da “ideia”.

O cartaz como ferramenta de comunicação visual é uma das formas mais efetivas de difundir uma ideia ou uma mensagem. A assimilação quase imediata entre texto e imagem, naturalmente dá espaço para a interpretação do receptor que tem dúvidas. Nesse contexto, no campo de ação onde o cartaz é mostrado, a representação clara e eficaz do discurso, a síntese de formas ou a ênfase icônica podem servir para chamar a atenção do leitor e provocar um entendimento ou uma reflexão complementar. Em resumo, o pôster busca visibilidade, legibilidade e captar o leitor. A cor, a tipografia, a ilustração ou a fotografia, são os elementos básicos, ferramentas comunicativas para prender a atenção, passar informação e mobilizar seu receptor. A propaganda anarquista, geralmente se apresenta de duas formas: como denúncia ou proposta. A denúncia aponta seus discursos aos mecanismos e práticas que atentam contra a realização plena da liberdade individual e coletiva.  O estado e suas leis coercitivas, as cadeias, a repressão policial, as guerras e os exércitos, o controle social, o fascismo, o capitalismo e as religiões, são, entre outros aspectos, problemas cotidianos que impedem a emancipação social. Por outro lado, a solidariedade, o apoio mútuo, a coletivização, a autogestão,  a autodeterminação e a organização horizontal, são de alguma forma, os princípios e práticas com as quais construímos, dia a dia, esse novo amanhã.

Este livro aborda as diversas formas de representação do ideal anarquista na Europa, mostrando pôsteres que enfocam em problemas próprios desse continente como a migração, as cadeias para imigrantes, as crises recentes do capitalismo, a militarização e o controle social; assim como também se pode apreciar cartazes que nos falam das atividades políticas, organizacionais, manifestações culturais, feiras do livro e diversos aspectos que dão forma à prática libertária. O critério utilizado para a seleção de materiais visuais expostos priorizava o aspecto político, tentando abarcar o amplo espectro do pensamento anarquista. O critério “estético” também foi considerado no momento de escolher o material compartilhado, entendendo que alguns pôsteres cumpriram melhor que outros com os aspectos formais básicos de um cartaz, mencionados anteriormente.

O material recopilado representa uma porcentagem mínima da propaganda impressa pelos anarquistas na Europa, no entanto, serve para dar uma olhada às lutas atuais ou recentes que ocorreram nesse território. Neste sentido, é interessante observar como alguns cartazes abordam temas específicos, ou como vários cartazes similares podem gerar “sistemas” de comunicação ou campanhas para difundir ações, temas ou eventos. Inclusive, pode servir para se perguntar: “Como é que a maioria destes cartazes são coloridos?”.  Esta amostra forma uma parte de um arquivo visual concreto recompilado por algumas pessoas e companheiras que viajaram a Europa em algum momento de suas vidas.

Este arquivo digitalizado, assim como o livro, pretende ser um catálogo aberto em constante reconstrução, podendo dessa forma ampliar-se como documento de registro histórico da comunicação visual e da propaganda antiautoritária, tanto na Europa como em outros lugares do mundo. Se lhe interessa colaborar com o arquivo de documentação visual, pode fazê-lo desenhando um cartaz, pegando propaganda na rua ou enviando material.  A finalidade única deste trabalho é contribuir e fortalecer a difusão e o desenvolvimento da comunicação antiautoritária.

Imagen Ácrata. 

Afiche de protesta antiautoritaria. Vol. I: Europa.

Mar y Tierra Ediciones, 82 págs.  20 x 27,7 cms.

marytierraediciones.org

Tradução > Daitoshi

agência de notícias anarquistas-ana

A lua minguante
procura com quem falar
na boca da noite

Ronaldo Bomfim

[Espanha] “A liberdade não tem fronteira, começamos Rojava e vamos seguir até o final”

Conhecer-se. Falar. Cuidar-se. Essa é a base desde a qual se constrói a revolução.

“Que classe de mulher queres ser? Que vida queres levar?”, pergunta a comandante Arian a suas companheiras das YPJ (Unidades de Defesa das Mulheres). Muitas não sabem o que responder. Olham o chão, suas mãos, seus rostos refletem a imensidade da pergunta. Nunca se questionou que vida escolhem para si mesmas, que mulher querem ser ou em que entorno querem viver. “Se não nos conhecemos não podemos triunfar”, explica Rohash Shexo, representante na Europa da organização Kongreya Star, guarda-chuva que acolhe as organizações de mulheres do Curdistão e que pretende extender a revolução da emancipação da mulher a todo Oriente Médio. “A revolução se constrói sobre a experiência”, e a primeira coisa é nos conhecermos e nos organizarmos.

Ainda que Rohash tenta nos pôr na pele do povo curdo, é difícil alcançar a compreender a experiência destas mulheres revolucionárias e de um povo que sofreu 74 genocídios em sua história. Eriça os pelos da pele, as lágrimas brotam dos olhos, reações puramente físicas. Para interiorizar suas palavras é preciso de dias. Semanas. Meses. “Sinto falta de minhas companheiras, a luta, a guerra. Sinto falta de compartilhar sua dor e suas dificuldades, e compartilhar também a alegria da liberação. É algo incrível sofrer e depois desfrutar da liberdade”, descreve a comandante Arian. E outra vez a pele de galinha.

 ‘Comandante Arian’ é o filme documentário que se projetou na jornada ‘Rojava: Revolução de Mulheres’ que organizamos a CNT Comarcal Sul Madrid com Rojava Azadi, e que contou com a participação de Rohash Shexo, que narrou em primeira pessoa a história da mulher curda e seu povo. Ante um salão de atos lotado, Rohash expressou sentir-se “como em Rojava” e mostrou sua alegria ao constatar o interesse que desperta sua luta e o perto que nos sentimos deste povo e sua revolução. Uma revolução que começou em 1980 com a luta das mulheres para conquistar seus direitos e alcançar a dignidade para seu gênero. A tirania que sofria a mulher se explica em um exemplo estremecedor que narra o filme. Uma vizinha de Arian, de 12 ou 13 anos, foi violada e ficou grávida. Quando sua família a encontrou e descobriu seu estado, a assassinou. Arian teve claro desde pequena que queria ser guerrilheira. Que não queria essa vida para ela nem para suas irmãs mulheres. E com 30 anos liderou um batalhão de mulheres que lutou contra o Daesh e conseguiu expulsá-lo de Kobane, “o coração do Curdistão”.

 “Por que as revoluções árabes não triunfaram? Por que a revolução curda sim? Organização”. Uma ideia na qual insiste Rohash. Organização das mulheres e da sociedade. Paralelas e independentes, mas unidas e relacionadas. Quando as cidades árabes começaram a levantar-se a partir de 2011, “o povo não o planejou, por isso o resultado foi uma guerra civil”, explica Rohash. A população curda e suas mulheres estavam organizadas desde os anos 80, e sua revolução prosperou sobre a base da liberação da mulher.

 Quando a primavera árabe começou na Síria, os curdos do norte do país aproveitaram para liberar-se de décadas de opressão que haviam sofrido sob o regime Baazista e para desenvolver a chamada “terceira via”, conhecida como Confederalismo Democrático: um modelo baseado em promover direitos igualitários entre pessoas de diferentes etnias, religiões e gêneros. A organização funciona através da autogestão e aproximadamente 4 milhões de pessoas vive sob esta administração.

 A sociedade em Rojava se organiza de baixo para cima em comunas e assembleias, tal e como explicou Rohash. As comunas são a base da sociedade que gestiona o que lhes afeta diretamente e que por sua vez está encarregada de escolher os e as representantes que integram as assembleias, e assim sucessivamente nos diferentes níveis organizativos. Sempre de baixo para cima. Sempre mulheres e homens.

 Na evolução da revolução curda uma data importante é 2005, ano em que as mulheres criaram a organização guarda-chuvas Kongreya Star (a que pertence Rohash) para impulsionar a liberação da mulher mediante sua formação e defesa, apoiando-se no Movimento de Mulheres Curdas, com 30 anos de experiência. Seu trabalho se converteu nos cimentos da organização de mulheres e tornou possível a participação da mulher em todas as estruturas políticas e sociais de Rojava. O único requisito para pertencer a Kongreya Star é a necessidade de que a mulher esteja previamente envolvida na organização da sociedade. “Em qualquer sociedade, se a mulher não está organizada não tem um papel”, aponta Rohash.

 Para desenvolver e aprofundar a revolução, criaram os denominados Comitês, 10 no total, nos quais está integrada toda a sociedade e cada um versa sobre um tema específico: político, social, economia, autodefesa, acadêmico…Nas questões que afetam diretamente a mulher, são elas que tem sempre a última palavra.

 A participação da mulher na luta armada é vista também como um aspecto estratégico, porque “enquanto não participem em todas as áreas da luta e das instituições não poderão alcançar a igualdade de gênero”. As YPJ, integradas unicamente por mulheres, foram criadas em 2013 para defender a mulher da ameaça do Daesh, “que valoriza mais um pedaço de pano que a vida de uma mulher”, explica Rohash. “As forças armadas nunca quiseram entrar em batalha. Nos obrigaram para proteger nossos direitos e a identidade da mulher curda. Estamos obrigadas a lutar pela liberação da mulher”, insiste Rohash, ao tempo que recorda que as mulheres curdas “tentaram sempre levar a paz, demostrar ao mundo que somos um povo que queremos viver em paz”.

O trabalho destas mulheres é ademais duplo: contra o Daesh e contra o patriarcado. Por isso “cada casa em Rojava é uma academia”, sustenta, um passo necessário “para mudar a mentalidade do homem”.

Falar e escutar a Rohash surpreende pela segurança de suas palavras e a amplitude de seu pensamento. Os princípios ideológicos nos quais se assenta a revolução não reconhece estados nem fronteiras. “Muitas pessoas nos perguntam por que não queremos um estado do Curdistão. Nós dizemos que para ter um estado, uma pessoa que nos governe, não o queremos. Para isso não teríamos feito tantos sacrifícios”. As fronteiras, “símbolo do capitalismo”, tampouco as aceitam: “Quando vives livre não existe o sentido de fronteira”.

“Hoje digo sou mulher curda, mas antes de tudo sou mulher. E quando digo sou mulher eu sou a voz de todas as mulheres e todas as mulheres são minha voz. Assim  como com os seres humanos”, e a sala estoura em aplausos. Rohash termina: “A liberdade não tem fronteira, começamos Rojava e vamos seguir até o final”.

CNT Comarcal Sul Madrid

Fonte: http://fcs-villaverde.cnt.é/la-liberdade-no-tiene-frontera-hemos-empezado-rojava-e-vamos-a-seguir-hasta-el-final/?fbclid=IwAR1eTdAC3490wprnZldKFosT1-JKxxHZeRDUJqW6LyAEzROzx1hhbr3Ti4Y

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Com a luz do relâmpago,
Barulho de pingos –
Orvalho nos bambus.

Buson

[Espanha] Agroecologia como instrumento de mudança

por Elena Martínez CNT Sierra Norte. Licenciada em Ciências da Informação e Documentarista

Este 15 de março passado, os jovens do mundo tomavam as ruas e as praças à margem de organizações e partidos políticos. Cento e cinco países se somavam à Greve por Mudanças Climáticas. O manifesto d@s jovens espanhóis começava falando dos direitos fundamentais das pessoas. Voltei a sentir essa estranha mas tão, tão agradável sensação que me invadia quando o “Mayo Quincemero” inundava de sonhos nossos corações.

Será possível que tenhamos outra oportunidade para mudar as coisas? Poderemos modificar o rumo deste futuro que se apresenta e se empenha a todo o momento em levar-nos ao desastre? Se porá fim de uma vez por todas as figuras como são os índices alimentares, essa barbaridade com a qual especulam as grandes fortunas, um dos investimentos mais rentáveis e que manipula os alimentos para benefício de tão só uns poucos?

 Quarenta mil pessoas morrem de fome por dia segundo dados da FAO. Existe o convencimento mais ou menos estendido de que não há recursos suficientes na terra para dar de comer a toda a humanidade, mas isto é absolutamente falso. É mais, produzimos ao dia um 60% mais dos alimentos que necessitamos. Não é uma questão de quantidade mas de distribuição. Nosso sistema não é eficiente, nem justo, nem sustentável.

O sistema agrícola não busca alimentar as pessoas, mas produzir mais. É a lógica do lucro. Os investimentos se orientam para conseguir uma maior produção, mas só para dar de comer aos que podem pagá-lo.

A despopulação do mundo rural é uma triste realidade. No entanto, iniciativas de recuperação da vida rural como Fraguas [okupação rural] são penalizadas. Se encarcera e se persegue todo aquele que põe em questão o sistema. A agricultura se converte em um negócio que funciona como uma indústria, e os alimentos, cada vez mais estandardizados e uniformizados, percorrem milhares de quilômetros para chegar a nossos lares. Se perde a diversidade, o consumo saudável e sustentável e se produzem mercadorias baratas. Os pesticidas e fertilizantes provocam um importante risco para a saúde. O poder das tão só quatro empresas que controlam o mercado global das sementes e pesticidas atentam gravemente contra a biodiversidade.

As políticas agrárias e os Tratados de Livre Comércio como o TTIP ou o CETA, são uma ameaça para as economias locais. A fusão da Bayer e Mosanto o ano passado, autorizada pela Comissão Europeia, nos alertava do poder destas grandes corporações que ostentam não só o mercado de sementes e pesticidas, mas também o Big Data de todos os dados massivos existentes sobre agricultura.

A todas estas questões se soma o controle da terra. Países ricos como Japão, Arábia Saudita ou Qatar, sem recursos de terras, se deram conta que comprar grandes extensões de terrenos férteis em países pobres e utilizar mão de obra local é uma boa estratégia para controlar as subidas de preços nos alimentos. Assim que conseguem extensas propriedades utilizando fórmulas que atentam não só com a soberania alimentar, mas com a ética mais elementar em um mercado do qual depende a vida de milhões de pessoas.

 Este próximo17 de abril se celebra em todo o mundo o dia da luta pela terra. Camponesas e camponeses em defesa do território e dos direitos das pessoas que produzem os alimentos em todo o planeta. Pela soberania alimentar e o direito dos povos de decidir como produzir e distribuir seus próprios alimentos. E o fazem em lembrança de outro 17 de abril. Em 1996 policiais e militares brasileiros disparavam contra uma marcha do Movimento dos Sem Terra do Brasil, em Eldorado dos Carajás, no estado do Pará. Dezenove pessoas foram assassinadas. Só queriam reivindicar seu direito à terra.

É mais que evidente quese controlas os alimentos, controlas os povos. Estados e mercados tecem suas finas redes entorno ao sustento básico de milhões de pessoas. Mas, ademais de termos como agroecologia social e política, surgem valores de associação e cooperação, iniciativas como CSA Vega do Jarama em Torremocha na Comunidade de Madrid, grupos de consumo que crescem por todas as partes, Catalunha, Astúrias, Canarias. Trabalhar pela soberania alimentar. A agroecologia como instrumento de mudança social. Decrescer e voltar a tocar a terra com as mãos.

Faz pouco o discurso de uma menina de 15 anos na Cúpula do Clima de Katowice [Polônia] se tornava viral nas redes. “Nossa civilização está sendo sacrificada para que uns poucos tenham a oportunidade de seguir fazendo grandes quantidades de dinheiro. É o sofrimento de muitos o que paga os luxos de poucos. E se as soluções do sistema são tão difíceis de encontrar talvez deveríamos mudar o próprio sistema”, dizia Greta Thunberg.

Não cabe dúvida. Ou mudamos o sistema, ou a Pachamama removerá suas entranhas implacáveis. Mas não será ela quem sucumba. Não sejamos tão pretensiosos. Serão noss@s filh@s que sofrerão as consequências de um mundo difícil de habitar. Me vem à cabeça as palavras do índio Seatle. “Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Que fica da vida, se o homem não pode escutar o belo grito do pássaro noturno, ou os argumentos das rãs ao redor de um lago ao entardecer?”

 Somos muitos. Somos tribo. Se unimos nossas vozes, se nos damos as mãos somos incontroláveis. Os que participamos nas lutas sociais sabemos da força do coletivo. Se tão só uns poucos somos capazes de conquistar coisas impossíveis, imagine-se o que poderíamos fazer tod@s junt@s se realmente quiséssemos. É a hora da Terra. É a hora dos sonhos comuns. Amanhã será demasiado tarde.

 Fonte: https://contrainformacion.es/agroecologia-como-instrumento-de-cambio/?fbclid=IwAR37bwQhxFzGkiejFbc5dwT7z6arCHO4JMuUZBvs5m5xZlP-cv_X0-jFtyk

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Tempestade repentina.
O cheiro de terra molhada
invadindo as narinas.

José Carlos de Souza

[Chile] Palestra, em Santiago: O Pensamento de Mikhail Bakunin

O convite se estende para toda pessoa interessada em participar de uma palestra que nos permita compreender o pensamento de quem é considerado um dos mais importantes referenciais teóricos e práticos do anarquismo, Mikhail Bakunin.

Quem foi Mikhail Bakunin? Quais são os principais ensinamentos do revolucionário russo? Seu legado é vigente na atualidade? Estas e outras questões poderemos elucidar na atividade.

O encontro é no parque Almagro, saída da estação do metrô, no domingo, 21 de abril, às 17hs.

FB: https://www.facebook.com/events/1008012719391756/

agência de notícias anarquistas-ana

silêncio de folhas
bananeira secando
à beira da estrada

Alice Ruiz

[Espanha] 1° de Maio: Agora mais do que nunca! Mais organização e mais luta na rua

Sem dúvida, a conquista da jornada de trabalho diária de 8 horas é o marco mais importante do movimento trabalhista na Espanha. Uma conquista que foi precedida por uma greve que durou 44 dias e que se iniciou na empresa Irrigação e Forças do Ebro de Barcelona, popularmente conhecida como “La Canadiense”, sendo seu acionista majoritário o Canadian Bank of Comerce de Toronto.

O motivo da greve foi a demissão de 8 trabalhadores que se recusaram a aceitar uma redução no salário. Imediatamente os trabalhadores das empresas têxteis aderiram à greve e, pouco depois, todos os funcionários dos setores de eletricidade, água e gás juntaram-se a eles. Paulatinamente a paralisação dos serviços públicos foi total: 70% das fábricas foram paradas em consequência da greve ou da falta de fornecimento de eletricidade, chegando a se declarar estado de guerra.

No entanto, o movimento trabalhista liderado pelos anarcossindicalistas da CNT não desistiu, de tal forma que se alcançou a jornada de 8 horas de trabalho e o pagamento da metade dos salário do tempo que durou a greve. O governo também se comprometeu a libertar aqueles que foram presos por causas sociais, a levantar o estado de guerra e a readmitir todos os grevistas sem represálias. Tudo isso aconteceu entre fevereiro e março de 1919. Se acabam de cumprir, portanto, cem anos dessa importante conquista social.

Cem anos atrás, uma greve que começou em uma fábrica pela solidariedade com 8 trabalhadores, mudou para sempre a vida de toda a classe trabalhadora, tanto que a OIT, fundada no mesmo ano de 1919, foi inspirada por esta situação para a elaboração de seu primeiro convênio pelo qual ele torna universal a jornada de trabalho de oito horas.

Os tempos não mudaram muito. A exploração do trabalho sofrida pelas pessoas trabalhadoras há um século ainda é válida agora, sob outras formas de precariedade e abuso por parte dos empregadores. As liberdades públicas estão ameaçadas com o surgimento de ideologias totalitárias e com as leis regressivas dos últimos governos. Metade da população continua marginalizada e sofre o flagelo intolerável da violência machista. A existência da mudança climática é negada e os mercados superexploram o planeta. Não, os tempos não mudaram muito.

Por esta razão, é agora tão necessário, como era então, que a classe trabalhadora se organize e tome as ruas em defesa de seus direitos, suas liberdades, igualdade real entre homens e mulheres, e pela defesa do planeta e de uma vida decente.

A greve da Canadiense e as posteriores mobilizações foram possíveis graças ao fato de que a classe trabalhadora da época se organizou em torno do movimento anarcossindicalista, demonstrando que é a melhor forma de organização de nossa classe. Demonstrando também, que a greve, que a luta na rua, serve para transformar as coisas.

Viva a CGT!

Viva a luta da classe trabalhadora!

Viva no dia 1º de Maio!

cgt.org.es

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Si os parece que andando
no llegáis a la libertad,
corred entonces.

Práxedis G. Guerrero.

[Espanha] Relançamento: “Fragmentos da antropologia anarquista”, de David Graeber

Qual é a distância entre o anarquismo e a academia? E entre a antropologia e o anarquismo?  Estas perguntas são compreensíveis à medida em que, como afirmou David Graeber, o âmbito acadêmico se baseia em uma separação entre a teoria e a prática que colide com a importância para o anarquismo da relação entre prática e pensamento e entre fins e meios.

O autor considera que “mais que uma Grande Teoria, poderíamos dizer que o que falta ao anarquismo é uma Base Teórica: um mecanismo para confrontar os problemas reais e imediatos que emergem em todo projeto de transformação”. A pergunta, portanto, é: “Que tipo de teoria social pode ser realmente de interesse para quem tenta criar um mundo no qual as pessoas sejam livres para administrar suas próprias questões?”. A suposta debilidade do anarquismo no âmbito teórico é, na verdade, a força de práticas políticas capazes de se converter em ferramentas úteis nos contextos históricos e geográficos diferentes, como se refletiu nos movimentos sociais como a antiglobalização ou o 15M, através de assembleias dinâmicas e da democracia e ação direta.

Fragmentos da antropologia anarquista aborda a importante ligação entre anarquismo e antropologia, entendendo os antropólogos como “o único grupo de cientistas sociais que conhecem as sociedades sem estado que existem na atualidade; muitos viveram em locais do mundo onde os Estados deixaram de funcionar ou que, com pouca atividade, foram desaparecendo com o tempo”.

>> David Graeber (1966)

Referência internacional da antropologia anarquista e do pensamento crítico, é um dos renovadores das ideias libertárias. Além de seu trabalho acadêmico, Graeber foi um ativista sindical e recentemente foi uma das referências no Occupy Wall Street. Maurice Bloch referiu-se a ele como “O melhor teórico da antropologia de sua geração.” É o autor de Direct Action: An Ethnography (Ak Press, 2009), Trabalhos de merda. Uma teoria (Ariel, 2018) e, com Marshall Sahlins, de On kings (HAU Books, 2018).

Fragmentos de antropología anarquista

David Graeber

10 €

160 págs

978-84-92559-92-3

viruseditorial.net

Tradução > Daitoshi

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Rita Schultz

O segredo da Bruxa do 71: Guerrilheira Antifascista

A atriz Angelines Fernández não era bruxa, mas tinha um grande segredo

por Alana Souza | 16/01/2019

Em toda a América Latina, a atriz Angelines Fernández ficou eternizada pelo papel de Dona Clotilde em Chaves (El Chavo del Ocho, no original). No seriado, as crianças nutriam a paranoia de que a folclórica velhinha vestida com roupas antiquadas era secretamente uma feiticeira maligna – a Bruxa do 71.

Na vida real, Angelines tinha, sim, um segredo, e bem mais interessante que ter uma religião alternativa. Em 1947, aos 25 anos, a atriz decidiu emigrar de sua Espanha Natal. Era uma questão de vida ou morte: ela fazia parte dos Maquis, guerrilheiros antifascistas que combatiam a ditadura de Francisco Franco.

Ela nasceu em Madrid em 9 de julho de 1922. Quando a guerra civil estourou, em 7 de julho de 1933, tinha acabado de completar 11 anos. Após a vitória dos nacionalistas contra os exércitos regulares republicanos, em 1939, anarquistas, socialistas e comunistas se uniram num movimento clandestino para continuar o combate, escondidos principalmente em florestas e regiões montanhosas, lançando ataques contra forças do governo. O auge dos combates foi entre 1945 e 1947, quando o cerco do governo, usando de agentes infiltrados e ataques militares pesados, estrangulou a resistência.

Ao sair da Espanha, Angelines já tinha sua única filha, Paloma Fernández. “Quando trabalhava na guerrilha espanhola, minha mãe era classificada como antifranquista, então ela precisou deixar seu país natal, considerando que sua vida era difícil. Chegou ao México em 1947, mas nunca foi refugiada”. Paloma contou em entrevista ao portal oficial do seriado Chaves, Vecindad CH.

Quando chegou ao México, não conseguiu asilo e decidiu partir para uma Cuba ainda capitalista. A vida lá também não foi fácil. Sua filha tem memórias do período: “Ela era de caráter forte. Para ela, não havia meias medidas, era branco ou preto. Não poderia ser cinza. Era uma mulher que tinha valores altos e às vezes as pessoas não aceitavam isso muito bem. Então diziam que ela tinha um gênio difícil”. Pouco se sabe da realidade sobre a época em que residiu em Havana, mas foi quando sua carreira de atriz começou a acontecer.

Logo retornou ao México, onde passou o resto da vida. Se tornaria uma das estrelas da Era de Ouro do cinema mexicano, nos anos 50. Não retornou à Espanha mesmo quando a ditadura franquista chegou ao fim, em 1975. Faleceu em 25 de março de 1994, vítima de um câncer no pulmão, em decorrência do cigarro. Ela tinha 71 anos de idade.

Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-biografia-angelines-fernandez-chaves-bruxa-do-71-foi-guerrilheira-espanhola.phtml

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A vasta noite
não é agora outra coisa
se não fragrância.

Jorge Luis Borges