[Chile] O Triunfo da democracia e os falsos críticos

Enquanto milhares de chilenos celebram o triunfo eleitoral para mudar a Constituição, nós seguimos em pé de guerra contra toda forma de poder.

Hoje o Estado chileno, os partidos políticos e a imprensa oficial celebram junto à cidadania e o nauseabundo triunfo da democracia, da via institucional e da cultura cívica e republicana, como se do triunfo de um campeonato mundial de futebol se tratasse.

Como sustentam os “revoltosos”, hoje convertidos em orgulhosos votantes, esta contradição? Não o sabemos.

O que sim sabemos é que os que ontem denunciavam a “brutalidade” da repressão, hoje foram amavelmente recebidos nas urnas escoltadas por policiais e militares.

O que também sabemos é que sobre o sangue fresco do pavimento que viu cair assassinado por balas policiais faz tão somente três dias o jovem Anibal Villarroel, hoje os tão idealizados moradores dançam e cantam ébrios de democracia.

Ganhou o Chile, ganhou o Estado, ganhou a sociedade e seu desejo de viver sob um novo pacto social com o domínio, ganhou a vontade majoritária de gerar novos consensos sociais. Ao final do dia, com barricadas mais ou barricadas menos, ganhou o mesmo velho roteiro escrito e reescrito historicamente nos palácios do poder para frear as revoltas, para desviar as rebeliões para causas institucionais e partidárias.

E o poder ri, ri e ri. Ri porque são validadas as instituições. Ri porque agora terá a sua disposição mais cidadãos “conscientes” e democráticos que ajudem voluntariamente a assinalar os refratários, os divergentes, os insurretos, os “distanciados”, os “violentos” que interfiram em seus processos de mudança cheios de repugnante civilidade. O poder ri, porque sabe que ainda com culposa esperança, inclusive, alguns quantos autodenominados anarquistas foram às urnas se render oficialmente ante o inimigo, renegando suas ideias, capitulando em suas convicções tão líquidas e voláteis como a memória do tão romantizado “povo”.

Nós, orgulhosa minoria de sediciosos, seguimos em guerra contra o poder sem confusões, nos multiplicando e nos fortalecendo no caos.

Porque nossa revolta não começou em 18 de outubro nem finalizará com um asqueroso plebiscito.

MORTE AO ESTADO E AO CARNAVAL DA DEMOCRACIA.

A ANARQUIA VIVE NO ATAQUE CONTÍNUO À DOMINAÇÃO.

PELA INSURREIÇÃO PERMANENTE SEM LÍDERES NEM DIRIGENTES,

COM NOSSOS MORTOS NA MEMÓRIA E NOSSOS PRESOS NA LUTA,

SEGUIMOS EM GUERRA CONTRA TODA FORMA DE PODER.

Anárquicos não pacificados do sul de Abya Yala ($hile).

26 de outubro 2020.

Tradução > Sol de Abril

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/10/22/chile-um-ano-depois-de-18-de-outubro-continuamos-a-espalhar-a-insurreicao-anarquica-contra-o-poder/

agência de notícias anarquistas-ana

Lua cheia.
Me dá, me dá!
Chora a criança.

Issa

Lançamento: “A Condição Feminina em Maria Lacerda de Moura”, de Tatiana Ranzani Maurano

A proposta deste estudo é trazer as contribuições dos escritos da educadora, feminista e anarquista do início do século XX, Maria Lacerda de Moura (1887-1945) sobre a condição feminina, fazendo aproximações possíveis dentro da discussão das categorias de gênero, patriarcado e educação e tomando como objeto de estudo seu segundo livro, Renovação, escrito em 1919. O objetivo foi fazer uma análise de configuração textual da obra Renovação e, assim, trazer à tona seus argumentos sobre a condição feminina e a educação em seu tempo, bem como os desdobramentos para os desafios da atualidade. Assim, como instrumento para o desenvolvimento de tal proposta, buscamos nos apropriar dos estudos de Maria do Rosário Longo Mortatti sobre a Análise de Configuração Textual, considerando as categorias gênero, patriarcado e educação como focos da análise. A compreensão da história da sociedade e, dentro dela, a de um determinado grupo social oprimido, bem como as elaborações do pensamento para a superação dessa condição, é crucial para captar a dimensão da dominação masculina dentro dela e, assim, buscar a transformação dessa realidade. Nas leituras feitas sobre os escritos de Maria Lacerda de Moura, destaca-se seu diferencial em relação aos pensamentos e escritos das mulheres brasileiras de sua época. Historicamente falando, Lacerda é de uma época em que as mulheres estavam lutando por seus direitos a melhores condições de trabalho e ao sufrágio. Destaca-se o que já falava a autora sobre a mulher poder escolher com quem vai se envolver, sobre a importância de ela estudar, de instruir-se, sobre amor livre, sobre a escolha de ter ou não ter filhos, sobre sua condição de subjugada, tutelada, não apenas nas questões dos direitos, mas também nas questões do cotidiano, em um nível mais simbólico e particular, algo que começou a ser mais discutido e pontuado a partir da segunda metade do século XX (1960-1970). Nesse sentido, é notório o quanto Maria Lacerda de Moura ainda pode contribuir para as questões relacionadas à condição e subjugação feminina e para a reflexão sobre os conceitos de gênero, patriarcado e educação. Revisitar seus escritos, ou seja, olhar para a história, é ter cada vez mais a percepção do quanto a opressão da mulher está enraizada na construção histórica em nossa sociedade e do quanto ainda se mantém nos dias de hoje, seja pela não garantia dos direitos que conquistados, seja pela opressão simbólica e histórica que ela sofre cotidianamente. Revisitar sua obra foi a descoberta de caminhos para a renovação social.

>> Tatiana Ranzani Maurano nasceu em 2 de abril de 1977 na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo. Formou-se em Psicologia pela Unimep, sempre trabalhando na área social, com populações historicamente negligenciadas, principalmente mulheres, tanto em Piracicaba como em Recife, capital de Pernambuco. Em 2019 defendeu seu mestrado em Educação pela Unimep, estudando as questões de educação e gênero através dos escritos de Maria Lacerda de Moura. Atualmente é doutoranda em Educação pela Unesp – Marília, estudando o que Maria Lacerda de Moura falou sobre educação e fascismo no Brasil.

A Condição Feminina em Maria Lacerda de Moura

Tatiana Ranzani Maurano

Scortecci Editora

ISBN 978-85-366-6122-3

Formato 16 x 23 cm

260 páginas

R$ 45,00

galeriadolivro.com.br

agência de notícias anarquistas-ana

viagem de trem
entre as estações
a primavera

Joaquim Pedro

 

[Grécia] Contra a arbitrariedade e o terrorismo do Estado!

No dia 15 de outubro, dois companheiros turcos – refugiados políticos que vivem no bairro de Prosfygika – foram presos e mantidos sob custódia até o meio-dia do dia seguinte e serão novamente julgados no dia 27 de outubro.

No quadro geral de presença e aterrorização policial no bairro – que se intensificou nas últimas duas semanas devido ao julgamento do Aurora Dourada – os dois companheiros passavam em uma motocicleta na rua Degleri por volta das 20h00 quando os policiais os pararam para verificá-los.

Inicialmente, eles pediram os documentos da moto e as identidades dos companheiros. Então, depois de perceberem que os companheiros eram moradores no bairro de Prosfygika, eles mudaram de atitude em relação a eles. Com a desculpa de não terem visto todos os documentos obrigatórios, algemaram-nos – com as mãos nas costas – e os transferiram para a estação de polícia de Ampelokipoi, embora não haver tido nenhuma resistência ou confronto. Lá, eles foram mantidos em uma cela no porão, em circunstâncias horríveis, onde cinco migrantes estavam passando seu nono dia sem audiência.

Por não termos uma imagem clara se a ação dos policiais foi motivada por motivos pessoais ou se é uma ordem geral do Estado visando criar um ambiente de medo dentro do nosso bairro, do nosso lado continuaremos a dar nossas respostas na base da auto-organização, da resistência e da solidariedade.

No dia27 de outubro, às 09h00, no edifício 2 dos tribunais de Evelpidon, apoiaremos nossos companheiros nessa luta como fazemos na vida cotidiana.

NÃO TOQUEM EM NOSSO BAIRRO E EM NOSSOS COMPANHEIROS!

Comunidade de Prosfygika Squatted

Fonte: https://athens.indymedia.org/post/1607949/

Tradução > A. Padalecki

agência de notícias anarquistas-ana

Venerável
É quem não se ilumina
Ao ver o relâmpago!

Bashô

[Chile] Comunicado: Prisioneirxs da guerra social de ontem e de hoje pela destruição da sociedade prisional

– A todxs aqueles que lutam contra este mundo de opressão e miséria

“A realidade dos prisioneiros em guerra nas prisões chilenas não pode ser falsificada. No dia a dia há luta, há silêncio e ainda menos esquecimento. Diferentes gerações de subversivos que se encontram com visões semelhantes neste presente de luta”. – (Chamado dxs prisioneirxs em guerra, abril de 2015)

“A prisão é outra etapa de luta no caminho do confronto, o confronto antiautoritário para mim ainda não acabou, apenas mudou de forma”. – Mónica Caballero Sepúlveda.

1.- Desde sempre pela Revolta permanente.

“As experiências das derrotas passadas permanecem vivas… palpitantes e crescerão de tal forma que conseguiremos cercar por todos os lados aqueles que em uma batalha passada nos derrotaram”. – Pablo Bahamondes Ortiz.

A revolta que começou em 18 de outubro de 2019 foi, entre outras coisas, a cristalização das lutas multiforme e antiautoritárias que ocorreram neste território durante as últimas décadas, em parte, um sinal inegável da continuidade de um caminho antagônico e subversivo.

A ausência de uma petição comum e de uma liderança centralizada mostra claramente o sentido antiautoritário da revolta que em sua multiplicidade e autonomia encontrou sua principal força, quebrando a ordem estabelecida, o poder e toda a institucionalidade.

Reconhecemos a capacidade criativa da revolta, da violência e da fertilidade das múltiplas ações subversivas que foram desencadeadas e expandidas nestes meses, por todo o território, mas desconsideramos a noção de “Explosão Social” como ponto culminante, uma metáfora da panela de pressão, de um instante, caracterizando a revolta como um fenômeno volátil, cuja duração é prolongada tanto quanto o ruído de uma explosão ou a luz de seu clarão. A revolta enfatiza as individualidades e gera rupturas; no fazer coletivo move a margem fictícia do que antes pensávamos impossível, quantos sonhos e rumores conspiratórios escaparam de sua prisão obsessiva para se materializarem em belas imagens de liberdade, quantas individualidades deram aqueles passos decisivos dos quais não há retorno, aqueles que nos constroem e nos posicionam no antagonismo com este mundo e sua ordem. Durante meses a máxima anarquista tomou vida ao fazer, afinal, que a paixão destrutiva é também uma paixão criativa.

Mas a política do momento procurou canalizar essas energias para os caminhos institucionais com um novo plebiscito, que busca apenas salvar seu próprio sistema, sua própria ordem.

Nossa melhor ferramenta será sempre a reflexão, a análise, nosso próprio olhar consciente que é um reflexo do que somos, onde estamos e do que esperamos. A batida contínua de confronto direto, tortura, prisão, morte e vida é o presente ativo onde nos unimos ao interior das prisões em uma transversal de oxigênio libertário contra o Estado, sua violência militar, policial, política e econômica.

“Valeu a pena? Impossível responder com um simples “sim”, às vezes tão seco, vazio e autocomplacente, há muito mais coisas para se colocar em equilíbrio. Mas é inegável que toda experiência em busca da liberdade vale a pena; tomar conta da existência com todas as suas vitórias, suas derrotas, suas alegrias e suas tristezas, são aquelas experiências inestimáveis que o submisso nunca poderá conhecer”. – Joaquín García Chanks.

Nem esquerda nem direita, como ontem, nem votos nem botas; somente a luta!

Fazemos parte da necessidade urgente de lutar, rompendo com a normalidade, desmascarando os líderes que assumem que suas intenções são de encasular em eleições a raiva, a rebelião e a energia da revolta, com seus candidatos ou organizações.

Repudiamos toda a política funcional e mercenária, em todo o seu alcance com o rançoso folclore panfletário, cujo fim apodrecido é cooptar e controlar vidas. Isto não é mudança por mudança, não são novas formas, não é o progressivismo cidadão, não é uma nova constituição, nem reformas ao capital. É a possibilidade palpável de ser livre: mulheres, homens, dissidentes; crianças e avós com um amanhecer onde a podridão fedorenta do Estado, o poder, suas castas e seus luxos caem em pedaços.

A decisão ainda é se levantar, se rebelar e parar de dançar ao som da submissão, dar peso à ternura do amor na guerra, enfrentar com chumbo, pólvora e fogo autônomo e subversivo a violência do Estado. Devemos nos tornar fortes, aprendendo a resistir à ofensiva, cada um com suas próprias habilidades.

Trata-se de dar a oportunidade definitiva de enfrentar o mundo do poder, seus apoiadores e falsos críticos.

Esperamos muito tempo, e este momento único de profundo descrédito da fantasia democrática do capital exige esse fluxo incontrolado de liberdade que parece revitalizado a partir de diferentes espaços da realidade através das infinitas formas de organização para a luta pela libertação total.

Assim como no final dos anos 80 não tivemos nada a ver com o show eleitoral, plebiscitos e rearranjos burgueses para a manutenção da ordem existente, nossa única escolha continua sendo alimentar o fogo rebelde da Revolta.

“Toda lei faz parte do domínio, mas não cale minha voz, o que penso, o que digo. Seus cárceres, seus colégios, seus trabalhos existem para sustentar seus privilégios. Seu dinheiro e sua mercadoria, seu poder e sua família alimentam minha convicção de lutar pela Anarquia”. – Marcelo Villarroel Sepulveda.

O prolongamento da perseguição, repressão e prisão como razão de Estado.

Nesta jornada, tivemos que caminhar e enfrentar a prisão, entre outras realidades, como uma parte inalienável, assumida, mas não desejada, da luta subversiva.

Prisão nas mãos de um Estado e de sua democracia para proteger sua paz social que sustenta sua violenta opulência.

Desta forma, vivemos na prisão desde o final dos anos 80, conhecendo em primeira pessoa todas as modificações da rede jurídico-político-político-prisional: Temos sido menores sob o controle do Sename, processados por promotores militares e ministros em visita, conhecemos a tortura da polícia, desaparecidos em seu quartel nauseante, fomos condenados em julgamentos atormentados por irregularidades sob suas leis antiterroristas e suas reformas processuais penais. Temos visto a cumplicidade servil entre jornalistas, policiais e promotores como apoiadores de julgamentos fraudulentos, bem como a vingança burocrática e prática dos gendarmes e seu isolamento em sistemas de encarceramento de alta e máxima segurança, aos quais estamos destinados há décadas.

Nem vitimização, nem assistência, nem protagonismo autoafirmativo vazio habitam nossas práticas de vida.

Estamos destinados a uma incerteza jurídica afirmada na macabra razão de Estado que tem neste momento o ponto máximo de ilegalidade dentro de sua própria legalidade na situação de nosso camarada Marcelo Villarroel Sepulveda que é mantido prisioneiro alterando seu tempo de cumprimento com o objetivo de mantê-lo purgando 40 anos de confinamento efetivo protegido em uma conhecida modificação recente chamada decreto 321, relativo às liberdades condicionais.

Fazemos um chamado urgente para divulgar sua situação e para revelar a vingança do Estado.

Ele já está há mais de 25 anos na prisão que não pode ser prolongada e nós unimos forças na luta para que Marcelo e todos os prisioneiros da guerra social retornem às ruas o mais rápido possível.

“Na geração de cumplicidades, na conspiração e na ação que estamos removendo elos de nossas cadeias, estamos vivenciando, mesmo que sejam passageiras, pequenos momentos de liberdade. A decisão de destruir tudo o que foi imposto é tomada na primeira pessoa, ou seja, é uma decisão individual tomada livremente com todos os riscos que ela implica”. – Francisco Solar Domínguez.

Um ano após a revolta que sacudiu outubro, nós nos rebelamos contra todo começo e fim, nós rejeitamos a ideia de uma data comemorativa dissolvida nas águas da história e da qual fazer uso periodicamente, como um troféu que é retirado para lembrar e viver, sempre no passado, a suposta pontualidade da subversão e a segmentação de um antagonismo real. Longe das opções de poder e de seu caminho institucional para recuperar a legitimidade, a única coisa que resta, o inestimável e não quantificável, é a experiência de projetar-se e projetar-se por caminhos de negação antagônica a um mundo de falsidades, dominação, miséria e leis.

O chamado é para aguçar e intensificar o confronto que resultará na qualificação da ofensiva, na multiplicação dos grupos de ação e em sua coordenação.

Coordenação que permite a geração de diálogos que ampliam visões e fortalecem posições, que possibilitam trocas de todos os tipos e que visam provocar e aprofundar a desestabilização do que foi estabelecido por meio de golpes fortes e constantes contra o poder.

“Que a cumplicidade se multiplique fortalecendo o combate urbano, pois a guerrilha irrompe em cada esquina contra o estado policial militar e toda a sua fauna política cidadã”. – Juan Aliste Vega.

Saudamos a digna resistência de Mauricio Hernández Norambuena, que luta com integridade há mais de 18 anos diante da vil vingança do poder que o mantém em um insano regime de punição. Abraçamos a resistência indomada pela libertação dos mapuches, seus Weichafes presos e suas comunidades em luta, e todos os prisioneiros anarquistas, antiautoritários e guerreiros pela libertação total dos centros de distribuição nas prisões do mundo.

Abraçamos nossos amores, companheirxs e cumplicidade incondicional que nos enchem de novidade para continuar a luta diária contra o confinamento.

Caminhamos juntos com Andrés Soto Pantoja, Norma Vergara Cáceres, Pablo, Eduardo e Rafael Vergara Toledo, Pablo Muñoz Moya, Alejandro Sosa Durán, Ariel Antonioletti, Claudia López , Sole y Baleno, Sergio Terenzi, Alex lemún, Julio Huentekura, Matías Catrileo, Jhony Cariqueo, Mauricio Morales, Zoé Aveilla, Lambros Foundas, Herminia Concha, Javier Recabarren, Sebastián Oversluij, Daniel Vielma e todxs os irmãxs, combatentes e guerreirxs de todo o planeta que nos acompanham de algum lugar do universo e das estrelas nesta luta pela vida, pela preservação da terra, contra o Estado, a prisão e a capital.

Nós abraçamos xs torturadxs, mutiladxs, perseguidxs, presxs e caídxs na Revolta de outubro, pensamos em você!

A todos xs camaradas de diferentes territórios que falam a mesma língua de guerra, nós os abraçamos no internacionalismo ativo, na fraternidade subversiva, autônoma e fraterna negra.

Juventude combatente: insurreição permanente!

Caminhando com dignidade rebelde e olhar subversivo, dentro e fora da prisão: Em direção à libertação total!

Enquanto houver miséria, haverá rebelião!

Que a revolta destrua as prisões!

Afie o conflito, intensifique a ofensiva!

Pela extensão da solidariedade com xs prisioneiros da guerra social, da Revolta e da libertação mapuche!

Memória, resistência e subversão!

– Mónica Caballero Sepúlveda

Prisão feminina de San Miguel.

– Pablo Bahamondes Ortiz

C.D.P. Santiago 1.

– Francisco Solar Domínguez

Seção de segurança máxima – casas.

– Marcelo Villarroel Sepúlveda

– Juan Aliste Vega

– Joaquin Garcia Chanks

Prisão de alta segurança.

Santiago do Chile.

Domingo, 18 de outubro de 2020.

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

tatalou e caiu
com onda espiralada
fragor de entrudo

Guimarães Rosa

[EUA] Três fotos coloridas que mostram o terror da escravidão há 160 anos

Os recentes protestos nos Estados Unidos do movimento Black Lives Matter têm despertado a atenção sobre as injustiças históricas sofridas e vivenciadas pela população negra, e entre elas, a mais impactante de todas: a escravidão.

Pensando em dar voz para o discurso antirracismo, o editor de fotografia Tom Marshall resolveu coletar uma série de imagens em preto e branco do fim do período de escravatura nos EUA, entre aos anos 1850 e 1930, e entregar a elas uma nova coloração que destaquem os horrores da época.

1. Escravo açoitado

A imagem do “escravo açoitado” se tornou uma das mais populares sobre a escravidão norte-americana e circulava bastante entre os grupos abolicionistas do país. Nela, o escravo fugitivo Gordon, também conhecido como “Peter chicoteado”, mostra seus ferimentos durante uma consulta médica realizada na Luisiana, em abril de 1863.

Antes da sua fuga, Gordon precisou esfregar cebolas em todo seu corpo para enganar o olfato dos cães farejadores. O homem, então, refugiou-se entre o Exército da União, que lutava pelo lado abolicionista na Guerra Civil Americana.

O retrato é a marca de dor e sofrimento deixado sobre a pele da população negra neste período sombrio da história humana.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://www.megacurioso.com.br/educacao/116561-3-fotos-coloridas-que-mostram-o-terror-da-escravidao-ha-160-anos.htm

agência de notícias anarquistas-ana

Algo faz barulho —
Cai sozinho, sem ajuda,
O espantalho.

Bonchô

[EUA] A necessidade de um movimento anarquista revolucionário nunca foi tão grande

Por Wayne Price

Fifth Estate # 407, outono, 2020

O anarquismo recentemente está em todo lado nas mídias. Os anarquistas são culpados e denunciados por um amplo espectro de políticos. Trump e os seus seguidores denunciam anarquistas e antifas como sendo as figuras centrais nas manifestações Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).

Os democratas fazem uma distinção entre aqueles que eles designam como manifestantes pacíficos e os anarquistas maus e violentos que, ecoando os republicanos, acusam de serem responsáveis por danos à propriedade e de se envolverem em saques.

Na realidade, os e as anarquistas estão envolvidos numa ampla gama de atividades dentro do movimento de protesto. Estão circulando ideias dentro das rebeliões que, se não são anarquistas, são consistentes com o anarquismo. A ideia de as pessoas tomarem as ruas diretamente, em vez de esperar a cada poucos anos para votar num político que irá para um lugar distante para tomar decisões por nós é congruente com o anarquismo. As demandas do movimento BLM, incluindo a daqueles que reivindicam o corte do financiamento à polícia e até mesmo a sua abolição, são distintas das exigências das reformas habituais de maior treino de sensibilidade para os policiais.

É improvável que essas forças resultem numa revolução anarquista popular num futuro próximo, mas será que estes fatores contribuirão para a criação de um movimento anarquista revolucionário organizado? Organizado não significa qualquer tipo de partido, uma organização que visa assumir o poder do Estado e governar o povo. Anarquistas não dizem às pessoas o que fazer. Estão em diálogo com os outros, contribuindo com as suas próprias ideias abertamente e honestamente, encorajando as outras pessoas a se auto-organizarem de forma independente e a se oporem a abordagens autoritárias.

A política nos EUA é altamente polarizada. O Partido Republicano, no passado um partido de centro-direita, tornou-se um culto de extrema-direita. Abarca auto-identificados nazis assim como fascistas excêntricos do Q-anon (teoria da conspiração de extrema-direita). Os democratas seguiram na derrapagem para a direita, tornando-se agora o partido de centro-direita. Mas os democratas tiveram de reagir ao crescimento da esquerda desenvolvendo uma chamada ala progressista, embora impotente.

Os democratas não ousam ir tão longe para a esquerda quanto os republicanos podem ir para a direita. A base republicana pode ficar histericamente louca, escorrendo para o fascismo, sem ameaçar as bases do sistema. Mas se a base dos Democratas de afro-americanos, latino-americanos, trabalhadores sindicalizados, mulheres, ambientalistas, pessoas LGBT e outros se tornasse muito militante, abalaria a ordem dominante.

As suas necessidades não poderiam ser satisfeitas sem uma incursão profunda no capitalismo e no Estado. Trabalhadoras e trabalhadores furiosos podem até fazer greves em massa e fechar a economia, até ocupar os locais de trabalho e indústrias e tomá-los por conta própria. A elite governante da qual o Partido Democrata faz parte não permitirá isso.

Portanto, é extremamente importante para eles desacreditar os anarquistas. Têm sido feitos esforços massivos para canalizar o descontentamento para o sistema eleitoral, especificamente pelos democratas. Uma indicação da virada para a esquerda foi o aumento do apoio ao que é chamado de socialismo por seus defensores, mas são apenas programas de governo estendidos, como os encontrados nos países escandinavos.

Esse entusiasmo, especialmente por parte dos jovens (o que quer que o socialismo signifique para eles) foi exibido nas recentes primárias presidenciais democratas, inicialmente direcionado para o apoio à campanha de Bernie Sanders. Mesmo depois de ele se retirar da disputa, os Socialistas Democratas da América concentraram-se principalmente no eleitoralismo, enquanto Bernie deu todo o seu apoio à chapa eleitoral democrata.

No entanto, alguns ex-apoiadores de Bernie ficaram desiludidos com os democratas e voltaram-se para uma direção anti-eleitoral, quase anarquista.

Ao contrário da imagem dos anarquistas na mídia como um monólito assustador, existem diferenças entre eles em muitos tópicos. Sobre a violência, por exemplo, muitos anarquistas são pacifistas absolutos, enquanto outros usarão a força física em autodefesa, mas quase todos distinguem entre a destruição de propriedade e ataques contra pessoas. Muitos acreditam numa estratégia de longo prazo de construção de instituições alternativas até que elas possam, com sorte, substituir a economia e o estado capitalistas. Outros, sem rejeitar instituições alternativas, acreditam que terá que haver um confronto direto com o Estado e a classe capitalista em algum momento na forma de uma insurreição revolucionária. Ambas as tendências, que se sobrepõem, apoiam os protestos populares do BLM.

Em manifestações e na sua organização, as e os anarquistas frequentemente trabalham como médicos, fornecedores de alimentos, assessores jurídicos e noutras funções de apoio, além de estarem na linha de frente contra a polícia. As manifestações do BLM revelaram uma ampla camada de anarquistas que são negros ou não-brancos. Eles integram conceitos anarquistas com a teoria antirracista e com as suas próprias experiências.

O sistema tenta minar a tendência ao anarquismo de todas as maneiras que pode. Como mencionado, existe a tendência de culpar os anarquistas tanto pela direita quanto pelos liberais. O uso provocativo da violência por grupos fascistas e pela polícia na criação de parte da violência e de danos à propriedade é geralmente ignorado.

Retirar fundos à polícia, enquanto cause gritos de horror à direita, não é mais do que transferir dinheiro do governo para diferentes agências enquanto reorganiza a polícia para continuar a policiar os pobres e a reprimir a resistência. Mesmo a exigência mais radical de abolir a polícia é meramente liberal se interpretada como significando a eliminação de uma força policial especializada, mantendo o capitalismo e o Estado.

É uma ilusão dizer que a polícia pode ser abolida sem uma revolução para criar um tipo diferente de sociedade. Na verdade, é um equívoco popular acreditar que os anarquistas desejam uma sociedade como a atual, mas sem polícias. A sociedade de classes é uma justificativa para manter o poderio armado do Estado. Deixar o capitalismo no lugar sem as estruturas policiais atuais resultaria em caos (anarquia, como a mídia colocaria) até que a ordem fosse restabelecida por gangues criminosas, mafiosos, polícia privada corporativa ou uma combinação dos três. A maioria das pessoas, não importa o quanto odeie a polícia, sabe disso. Os anarquistas podem apoiar as exigências de retirada de fundos ou abolição da polícia, ou outras reformas, como o fim das leis sobre as drogas, enquanto explicando que isso só pode ser totalmente alcançado após uma revolução.

Há uma enorme pressão para empurrar o nosso movimento para moderar as nossas demandas maximalistas. Isto está ocorrendo enquanto o mundo enfrenta uma concentração de desastres que tornam soluções brandas completamente inadequadas: a pandemia, a depressão que ela desencadeou, o racismo e a opressão policial, a catástrofe climática com as suas ondas de calor resultantes, tempestades violentas e incêndios florestais, a vil presidência Trump, guerras contínuas, o aumento das tensões EUA-China e uma nova corrida às armas nucleares, tudo isto implorando por visões que vão além das reformas.

Nestas condições, nada poderia ser mais importante do que o crescimento e a coerência do anarquismo revolucionário. É desconhecido como é que isto poderá sacudir as coisas. A América do Norte é um lugar grande e é improvável que uma organização, rede ou federação possa ou venha a ter todas as melhores ideias.

Uma revolução, se vier, será uma frente unida de muitas tendências, anarquistas e não anarquistas. É importante, entretanto, que a minoria que se vê como anarquista não espere passivamente que os movimentos apareçam, mas trabalhe para fazer o processo avançar.

>> Wayne Price é um escritor anarquista de longa data, teórico e ativista. Ele é o autor de A Abolição do Estado; Perspectivas anarquistas e marxistas.

Tradução > Ananás

agência de notícias anarquistas-ana

Sol de primavera…
Apenas um pardalzinho
Canta…Canta…Canta…

Irene Massumi Fuke

[Grécia] Tessalônica: Sentença final para os anarquistas Giannis Dimitrakis, Kostas Sakkas e Dimitra Syrianou

Giannis Dimitrakis foi condenado a 11 anos e 6 meses de prisão, sem circunstâncias atenuantes, por roubo, posse de armas de fogo e uso de documentos falsos.

Kostas Sakkas foi condenado a 7 anos e 10 meses de prisão com as mesmas acusações.

No entanto, ambos foram absolvidos das acusações de resistência à prisão e posse de drogas que a polícia havia incluído no processo de investigação.

A companheira anarquista co-réu Dimitra Syrianou foi condenada a 2 anos, com pena suspensa de 3 anos, por simples cumplicidade em um roubo, e foi libertada.

Recordando

No dia 12 de junho de 2019, os anarquistas Giannis Dimitrakis e Costas Sakkas foram presos após a expropriação de 70 mil euros de um carro-forte que estava prestes a abastecer um caixa eletrônico no Hospital Universitário AHEPA, em Tessalônica. A anarquista Dimitra Syrianou foi presa algumas horas depois pelo mesmo caso.

>> Estes são os endereços atualizados mais recentes dos companheiros:

Giannis Dimitrakis

Sofronistiko Katastima Domokou

T. K. 35010, Domokos, Fthiotida – Grécia

Kostas Sakkas

Dikastiki Fylaki Koridallou, A. Pteriga

T. K. 18110, Korydallos, Atenas – Grécia

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agência de notícias anarquistas-ana

Sobre o telhado
um gato se perfila:
lua cheia!

Maria Santamarina

Apresentação e Lançamento do livro “Foge Cara, Foge!”, de Xosé Tarrío González

Edições Crônica Subversiva. Porto Alegre 2020.

É a primeira versão em português de um livro que desde a década dos noventas vem enchendo de amor e ódio a quem o lê. Amor pela liberdade e ódio pelas prisões.

O autor, Xosé Tarrío, um anarquista que se faz tal sequestrado pelo estado espanhol, nos compartilha uma parte da sua vida, na que entra em prisão por um furto menor e termina encarcerado pelo resto da sua vida. Porém, ele é de aquelas pessoas que não decai na luta, que espalha cumplicidade e solidariedade, que nunca se submete, levando a dignidade aos extremos que nos torna seus cúmplices e odiamos, junto com ele, a cada carcereiro que procura humilhar os presxs.

O relato pessoal de Xosé Tarrío nos bate na cara com o retrato cotidiano das práticas miseráveis dos carcereiros e de todo o aparelho institucional que sustenta o sistema carcerário. Aí a importância de traduzi-lo, porque o cárcere aqui, e cada vez mais, está normalizado e se ampliando.

Ao estar cada vez mais normalizado, o sistema prisional termina por se inscrever nas valorizações cotidianas das pessoas que pensam, até sentem, a necessidade de que certo desequilíbrio, seja acidental ou proposital, seja restabelecido com anos de encerro daqueles que são considerados culpados; ativando fórmulas nada exatas com as que se calculam os anos de vida que pagam tal ou qual “injúria”.

Os julgamentos não procuram uma avaliação sobre um fato problemático, mas a construção de monstros sociais que “mereçam” ser jogados para longe da sociedade “ideal”. Omitindo as iniquidades sociais inerentes às rupturas e atos “criminosos”, como se fosse possível não tomar em conta a vontade de dominação, as procuras totalitárias, os moralismos hipócritas, todo o horizonte da desigualdade social, que são as que provocam a reação ofensiva que chamam crime. O cárcere, assim, se apresenta como o “destino marcado” para todo inconformado com sua condição (de escravo) na sociedade e que se rebela contra isso.

E Xosé Tarrío tem o acerto de nos lembrar da crueldade de habitar no seio dos que nada tem, o que ele vivencia desde seus primeiros anos de vida, e do preço duro e belo de não se render a nenhum desses destinos: nem escravo funcional, nem preso modelo. O livro é uma homenagem à fuga, e Xosé não se deixa abalar por tentativas frustradas…

Ao mesmo tempo, o livro é uma viagem para momentos importantes da luta contra as prisões.

Pela vigência da luta contra toda tirania e gaiola, alguns companheiros que bem conhecem e sentem as palavras de Xosé, participaram desta edição.

O Prólogo foi escrito pelo irredutível Gabriel Pombo da Silva, um companheiro de Xosé e de tantos outrxs anarquistas, que se encontra mais uma vez sequestrado pelo estado Espanhol por ser um digno inimigo dos “destinos sociais”.

Monica Caballero e Francisco Solar, recentemente presxs em Santiago do Chile, nos contam em Ampliando o olhar, sobre a atualidade do regime FIES na Espanha onde eles passaram 4 anos sequestrados pelo Estado.

E César, irmão de um dos presos assassinados no incêndio do Cárcere de San Miguel no Chile, em 8 de dezembro de 2010, colabora com esta edição com: Foge cara, foge, que temos mais do que 81 razões para lutar. César assim como Pastora Dominga González, a mãe de Xosé Tarrío, viraram guerreirxs contra o sistema penitenciário, da mesma forma como tantas pessoas que, desde fora, lutam por um mundo sem prisões, a partir da terrível experiência de ver um querido encerrado.

Todas essas colaborações são a vigência da comunicação cúmplice e afim entre aqueles que ao estarmos contra toda autoridade, vivemos na latente contradição de perder a liberdade lutando por ela.

É esperando que este livro deixe sua marca na pele, no coração, e, sobretudo na ação dos amantes da liberdade destas terras, que trazemos esta tradução, esse grito anticarcerário, e trazemos Xosé Tarrío, no seu passo guerreiro pela vida sequestrada pelo Estado.

Pela libertação total. Contra todas as prisões!

Porque toda tentativa de fuga é um ato de liberdade.

Porto Alegre

Primavera 2020

Apresentações em Porto Alegre e Blumenau.

A todos as pessoas interessadas no livro e na sua difusão e apresentação (feiras, distros, sebos, coletivos, espaços e individualidades) convidamos a nos escrever e contatar no e-mail: cronica-subversiva@riseup.net

agência de notícias anarquistas-ana

escreve
a tinta se esvai
o mar se expande

Seferis

[Chile] Documento de Posição frente ao Plebiscito, processo constituinte e Assembleia Constituinte.

O ‘Acordo pela Paz Social e a Nova Constituição’ do Bloco no Poder sob a conjuntura do chamado à Greve Geral no contexto do Levante Popular.

Desde 18 de outubro na região metropolitana e desde 19 de outubro, do passado ano de 2019, no conjunto de regiões ao longo do território dominado pelo Estado do Chile, se gestou um Levante Popular nas ruas a partir do aumento de $30 no transporte do metrô na capital, situação que fez “explodir a panela de pressão” de injustiças, desigualdades, iniquidades, misérias, precarização e abusos que, desde o pós-ditadura se gerou por três décadas no país. Dito marco político, que teve como ponta de lança o estudantado secundário, foi crescendo cada vez mais como avalanche e somando a setores de trabalhadoras/es, habitantes, estudantes, desempregados, marginalizadas/os, mulheres e dissidências sexuais, indígenas e juventude popular; quer dizer, o conjunto da classe que vive do trabalho, entre os quais, claro, o Povo Organizado que vem lutando faz décadas. Este levante foi se ampliando em capacidade de convocatória, massividade nas ruas, combatividade, deliberação política em assembleias autoconvocadas e ampliação por todo o território, conseguindo pôr em questão a ordem social burguesa e a institucionalidade que a  sustenta.

É neste contexto que a Mesa de Unidade Social (a CUT, a ANEF, a CONFUSAM, assim como outros setores sindicais e sociais) fazem um chamado à Greve Geral para a quinta-feira, 14 de novembro de 2019, o qual teve uma alta convocatória, conflitividade e combatividade nas ruas, assim como efetividade na hora de paralisar os caminhos aos setores produtivos, de comércio e serviços. Nesse contexto, com uma importante parte do território paralisado, sob toque de recolher e com um governo encurralado e impotente, partidos das Oposições (com uma parte da Frente Ampla) junto aos partidos do Oficialismo e o Governo de Sebastián Piñera convocam a uma reunião de emergência no mesmo dia, conseguindo assinar o ‘Acordo pela Paz Social e a Nova Constituição’ às três da madrugada da quinta-feira, 15 de novembro. Mas que implicações teve este acordo para o movimento popular?

Como Frente Anarquista Organizada [FAO], fazemos a leitura que dita assinatura foi um acordo do Bloco no Poder (governo e grande parte do parlamento) para frear o transbordamento do Movimento Popular ao Estado de Direito, à ordem social burguesa e ao status quo da sociedade capitalista-neoliberal. O acordo pela nova constituição foi uma “válvula de escape” para evacuar a fumaça das barricadas e com isso apagar o incêndio desatado por todo o país; assim como o acordo pela paz, foi um “cheque em branco” para a geração de novas leis repressivas e criminalizadoras do movimento popular e das/os lutadores sociais no Parlamento, uma das instituições burguesas com menos legitimidade social, junto ao Governo de Piñera e as FF.AA (Forças Armadas) e da Ordem. Da mesma forma, o mencionado acordo foi um “salva-vidas” que lançaram grande parte das oposições parlamentares a um governo com uma aprovação próxima a 6%(de longe a mais baixa do pós ditadura) cuja única resposta às demandas populares era (e é) seguir violando os direitos humanos com maior repressão, mortes, mutilações, torturas, feridas, violações e encarceramento.

Mas também é preciso assumir as falhas existentes desde o movimento popular e, em particular, desde o sindical. Nesse sentido, se a CUT e a Mesa de Unidade Social tivessem jogado para ampliar o chamado à Greve Geral de forma indefinida, é provável que em alguns dias mais o movimento popular teria sido capaz de derrubar o Governo empresarial de Piñera e seus séquitos, já que a efervescência e condições sociais da conjuntura o permitiam e exigiam. Isto inclusive poderia ter freado a assinatura do acordo e ter deixado em uma melhor situação a correlação de forças do movimento popular ante o Bloco no Poder e o conjunto do Bloco Dominante. Não obstante, isto não aconteceu e não podemos fazer política ficção ou avançar com anseios e sonhos. O certo é que os setores da casta política – mal chamados de oposição – preferiram jogar por uma saída política por cima, um acordo dentro da institucionalidade burguesa, às costas do povo levantado, arrogando-se a representatividade deste e buscando “separar águas” entre manifestantes pacíficos e violentos. Não resta dúvida de que a história lhes dará a conta.

Com o anterior, da mesma forma é necessário reconhecer que, embora desde 2005 se venha configurando um processo de reconstrução do tecido social, as forças políticas revolucionárias e anticapitalistas não vislumbrávamos um levante popular em um horizonte próximo nem estávamos preparadas para dar-lhe uma saída revolucionária com um programa unitário para nossa classe explorada e oprimida. O que mais se vislumbrava, e ainda se vislumbra nas ruas é uma raiva encarniçada antipolicial, a saída de Sebastián Piñera e em menor medida as demandas históricas pelo estabelecimento de direitos sociais. Ainda que no início a Assembleia Constituinte não era uma demanda central dos protestos, há que reconhecer que esta terminou posicionando-se, em grande parte dos conselhos e assembleias autoconvocadas, nas ruas e inclusive em parte da juventude combativa da denominada “primeira linha”. Nesse sentido, o que se pode tirar a limpo do Plebiscito, da convenção constitucional e do processo constituinte, é que permitiu reunir critérios de discussão e estender a deliberação política das diversas assembleias territoriais, estudantis, sindicais, feministas, socioambientais e indígenas, em torno a superar e mudar a atual Constituição política forjada a sangue, fogo e terror na ditadura e redigida entre quatro paredes a portas fechadas. Finalmente, há que mencionar que o acordo também gerou uma perda de massividade das convocatórias do Levante Popular; auxiliado, em seguida, pela repressão e criminalização com as novas leis como a “antibarricadas”, a “antisaques”, que ao fim e ao cabo eram leis que buscavam criminalizar os mecanismos de luta das/os trabalhadores e do povo levantado.

Plebiscito, Convenção Constitucional e processo constituinte.

Com ditos antecedentes, podemos afirmar que a convenção constitucional é um mecanismo legítimo para que o movimento popular avance no resguardo e conquistas de direitos sociais? Ou é um mecanismo acordado pelo Bloco no Poder que carece de legitimidade ao não levar em conta as assembleias autoconvocadas?

Tal como esboçávamos, nossa leitura é que a convenção constitucional acordada pelo Bloco no Poder, por setores que se arrogaram nossa representatividade, às costas do povo levantado, é um mecanismo que possui legalidade sob a institucionalidade burguesa, mas que carece de legitimidade social. Isto porque se materializará com travas institucionais presentes na atual constituição, como a regra do 2/3 para a aprovação das matérias a tratar, a impossibilidade de encaminhar TLC (tratados de livre comércio), as travas à participação de dirigentes sindicais e sociais como constituintes, a não permissão da participação de jovens menores de idade, entre outras. Mas ainda mais importante, porque não leva em conta as milhares de deliberações realizadas e acordos alcançados por nosso povo nos conselhos e assembleias autoconvocadas ao longo do território. Somos claros em propor que qualquer tentativa de levantar uma assembleia constituinte popular, soberana, livre, autoconvocada ou o epíteto que se queira colocar, deve ser uma necessidade que nasça no seio do movimento popular, em suas organizações próprias de classe, desde suas bases nos diversos territórios, reconhecendo os mecanismos de democracia direta que o povo gestou em suas deliberações, como são as assembleias com capacidade de consenso e/ou voto de mãos levantadas. Contudo, é necessário destacar que diferente dos processos eleitorais regulares da democracia representativa e burguesa que nos tutela, este processo constituinte, ainda sendo um acordo por cima do Bloco no Poder, é algo ao qual se viram obrigados a ceder, produto da pressão social e do transbordamento institucional que palpitava nas ruas do país, para evitar que derrubássemos o Governo de Piñera, que era a demanda central antes do 15N. E levando em conta o anterior, não é pouco que abrissem a porta a um processo que em mais de 200 anos de existência da república e do Estado do Chile nunca havia ocorrido. Finalmente, há que destacar que será o conjunto do povo organizado e levantado o que dará ou não legitimidade ao que resulte do processo ao calor das lutas e deliberações políticas que se forjem.

As tarefas desde o Anarquismo classista organizado.

Nesse sentido, entendemos que nosso papel como organização política e em geral como anarquistas organizadas/os não está em fazermos parte do Plebiscito, Convenção Constitucional e processo constituinte chamando a votar aprovação da convenção constitucional nem muito menos chamar a votar rechaço junto aos setores políticos ultradireitistas e conservadores do bloco dominante e da sociedade. Mas entendemos que como anarquistas não podemos ficar alheias/os aos processos sociais que nos envolvem como classe trabalhadora, e entendemos que nossa contribuição deve estar posicionada em torno a retomar o Levante Popular aos poucos dentro do contexto de pandemia que o país e o mundo vive; retomar as ruas e as assembleias sindicais, estudantis, territoriais, antipatriarcais e socioambientais, entre outras, que voltam a forjar agora que grande parte do país superou a etapa de confinamento em quarentena; estar agitando nas barricadas de autodefesa contra a forte repressão que vem para manter a massividade nas ruas de nosso povo manifestando-se; em não ceder nem um metro as ruas aos setores neofascistas agrupados em torno ao Rechaço, já que como movimento popular não podemos tolerar a intolerância do negacionismo pinochetista e ditatorial que calou profundo na burguesia e por que não dizê-lo, em setores da nossa mesma classe.

Nossa tarefa será estarmos alertas, em refletirmos em conjunto nas assembleias auto convocadas de deliberação popular sobre os alcances do processo constituinte para nossa gente, em seguir construindo nos espaços sociais onde temos presença na cotidianidade, em manter vivas as chamas das barricadas porque é ao calor da luta que temos nos reconhecido como iguais, como parte de um mesmo povo, de uma mesma classe que vive do trabalho.

Entendemos que há setores de nossa classe que depositaram sua confiança no Plebiscito, Convenção Constitucional e no processo constituinte, o qual, a nossos olhos, não os faz nem inimigos de classe nem tampouco traidoras/es. O importante, é apontar ao mesmo inimigo de classe – aos setores que querem manter tudo tal qual está – desde as assembleias e protesto popular nas ruas, tanto quem não faz parte do processo constituinte e quem sim faz parte.

Avançar em um programa comum para nossa classe, desde os setores sociais e políticos revolucionários que estabeleça a saída de Piñera e seu governo, a superação do neoliberalismo e a conquista de direitos sociais que nos foram arrebatados a sangue, fogo e terror na ditadura por parte da classe dominante, em unidade, desde as bases do mundo social; e assim, superar o atual período político aberto em 1973 com o golpe de estado cívico-militar contra a classe trabalhadora e o povo organizado.

Frente Anarquista Organizada [FAO]

Outubro, primavera de 2020.

PARA DERRUBAR O NEOLIBERALISMO E GARANTIR DIREITOS SOCIAIS

SEGUIR FIRMES NAS ASSEMBLEIAS, BARRICADAS E RUAS!

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

a luz do poente
escala a alta montanha;
no cume será a noite.

Alaor Chaves

[EUA] Os ideais anarquistas de Liberdade e Controle Comunitário não são uma ameaça para o povo, mas afugentam as elites

Dana Ward e Paul Messersmith-Glavin discutem porque as elites e os políticos são rápidos em demonizar o anarquismo, porque sua ideia de um mundo sem dominação e exploração ameaça a ordem dominante, não o povo.

Os anarquistas assustam as elites privilegiadas e seus seguidores autoritários não simplesmente porque os principais objetivos do movimento têm sido abolir as fontes de poder das elites – o Estado, o patriarcado e o capitalismo – mas porque o anarquismo oferece uma forma viável de organização social e política alternativa baseada em coletivos trabalhistas, assembleias de bairro, federações de baixo para cima, escolas livres centradas na criança e uma variedade de organizações culturais que operam com base na cooperação, solidariedade, ajuda mútua e democracia direta e participativa. Em oposição a todas as formas de hierarquia, dominação e exploração, os anarquistas trabalham para criar uma cultura baseada na igualdade de acesso aos recursos, tornando possível o exercício genuíno da liberdade. No último século e meio, e particularmente nas últimas duas décadas, os princípios da autogestão do anarquismo proliferaram em todo o mundo e também se tornaram parte dos procedimentos operacionais normais de protesto. Como as elites não teriam lugar em uma sociedade anarquista igualitária, não é surpreendente que os governantes tremam com a ideia de “jurisdições anarquistas”.

As realidades sombrias da crise climática, a pandemia de coronavírus e a violência policial contínua expuseram as deficiências da atual liderança e do sistema de governo existente, ao mesmo tempo em que proporcionaram oportunidades, como todas as crises, de criar mudanças significativas. A realização ou não de uma mudança histórica – em direção a uma sociedade fundamentalmente diferente – dependerá em parte da capacidade de manter uma pressão política militante e criativa nas ruas, ao mesmo tempo em que construímos formas de contra-poder, contra-instituições e organizações que prefiguram a visão anarquista de uma sociedade livre.

Os políticos sempre usaram caricaturas grotescas do anarquismo para justificar o assassinato, espancamentos, deportação e prisão de anarquistas, muitos deles imigrantes recentes, cujo único crime foi acreditar na possibilidade de um mundo melhor.

Este é um momento de grande agitação cultural em termos de problemas que giram em torno da raça, confrontados por uma reação política severa e pela tentativa de se realocarem ante o poder patriarcal branco. Em contraste com o primeiro movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) de vários anos atrás, que surgiu em resposta aos assassinatos de Trayvon Martin e Mike Brown, há uma compreensão crescente entre os brancos de como formas históricas de opressão continuam a moldar nossas vidas. Black Lives Matter pode ser o maior movimento de protesto social da história dos Estados Unidos. Nos dois primeiros meses após a polícia ter assassinado George Floyd em Minneapolis, aproximadamente 15 a 26 milhões de pessoas (até 8% da população) participaram dos protestos Black Lives Matter.

O presidente usa estereótipos desgastados para deslegitimar o movimento nas ruas, alegando que anarquistas e antifascistas são elementos sinistros por trás desses protestos. Entretanto, a grande maioria dos participantes do movimento são na verdade pessoas pobres e de classe trabalhadora de cor e seus aliados brancos. Esta é, em grande parte, uma revolta espontânea. Os anarquistas estão de fato nas ruas em solidariedade, exigindo justiça, assim como têm sido desde que o anarquismo pediu pela primeira vez a abolição do capitalismo e do Estado no processo de criação de um movimento de trabalhadores de massa na década de 1860. Em particular, as táticas utilizadas na atual revolta são uma combinação de métodos historicamente comprovados, refinados ao longo de décadas de luta e novas adaptações diante de uma polícia cada vez mais militarizada e brutal.

Os anarquistas de hoje não lideram nem instigam os protestos atuais. O papel anarquista nas ações, entretanto, vai muito além de estar nas ruas com os outros manifestantes. Desde o ressurgimento do anarquismo nos anos 90, quando princípios organizacionais anarquistas foram usados para bloquear as reuniões da Organização Mundial do Comércio em Seattle, o anarquismo tem permeado os movimentos de oposição contemporâneos. A ênfase anarquista na ação direta e na militância de rua ajuda a definir os movimentos de hoje, assim como o uso de grupos de afinidade e táticas de blocos negros. O horizontalismo militante é hoje o padrão de protesto.

A importância do protesto incansável contra a violência policial é que o ingrediente-chave para uma mudança bem-sucedida é a perturbação militante da vida cotidiana, como vimos em Portland, Louisville, Rochester, e muitas outras comunidades em todo o país. Sabemos de estudos de 323 movimentos violentos e não-violentos em todo o mundo que protestos que mobilizam pelo menos 3,5% da população podem provocar mudanças de regime. Embora os protestos de hoje não sejam sobre mudanças de regime, mas sobre mudanças sociais e políticas, há motivos para esperar que os protestos de hoje criem uma mudança histórica que será muito mais significativa do que simplesmente mudar o ocupante da Sala Oval. Como nossa sociedade e seu estabelecimento político continuam a ser lançados no caos, o anarquismo oferece uma saída viável, uma forma de organização livre e cooperativa fora do processo eleitoral. Em parte por esta razão, as elites vilipendiam os anarquistas.

Os políticos sempre usaram caricaturas grotescas do anarquismo para assustar os cidadãos e justificar o assassinato, espancamento, deportação e prisão de anarquistas, muitos dos quais são imigrantes recentes, cujo único crime foi acreditar na possibilidade de um mundo melhor. Que ironia, então, que são os anarquistas que são percebidos como violentos, quando na realidade a grande maioria da violência tem sido perpetrada por aqueles que trabalham para o capitalismo e o Estado. Entretanto, os anarquistas deram importantes contribuições para nossa história, criando espaços para novas possibilidades no processo de “exigir o impossível”. O anarquismo de hoje mudou muito desde suas origens no século XIX, mas os princípios básicos permanecem os mesmos e podem ser vistos em ação nas ruas e no trabalho que está sendo feito nos bairros das cidades e vilas grandes e pequenas.

Há mais de cem anos, em seu livro Apoio mútuo: Um fator de evolução, o anarquista Peter Kropotkin argumentou contra a interpretação de Herbert Spencer sobre Charles Darwin, ressaltando que a evolução não é impulsionada pela competição entre as espécies, mas sim que aquelas espécies que cooperam são, em sua maioria, as mais propensas a sobreviver. A cooperação social permite que os humanos cuidem uns dos outros e trabalhem juntos para superar as adversidades. Foi exatamente assim que as pessoas responderam à pandemia do coronavírus. Como Jia Tolentino observou no The New Yorker: “Coletivos informais de cuidado infantil, grupos de apoio a transexuais e outras organizações ad-hoc operam sem os líderes ou financiamento filantrópico dos quais depende a maioria das instituições de caridade. Não existe um diretório abrangente de tais grupos, a maioria dos quais não busca nem recebe muita atenção. Mas de repente eles parecem estar em todos os lugares”.

As pessoas estão respondendo com cuidado, cooperação e apoio mútuo em meio à calamidade da pandemia do coronavírus, ao frenesi da brutalidade policial e aos recentes incêndios florestais devastadores na costa oeste dos Estados Unidos. Em Portland, Oregon, as pessoas têm estado nas ruas protestando em apoio a vidas negras e contra a polícia por mais de cem dias seguidos, e só fizeram uma breve pausa durante os incêndios florestais. Inúmeros coletivos, organizações, grupos de afinidade e blocos foram formados. Como observa Roger Peet da Cooperativa de Artistas Justseeds, “houve uma grande floração de pequenos núcleos que fornecem uma eclética variedade de serviços à população protestante: lanches, lavagem de olhos, capacetes, escudos cuidadosamente construídos, tratamento de feridas, confecção de panfletos, água, comunicação e muito mais. Estas redes de ajuda mútua e pequenas estruturas fornecem uma infraestrutura para melhorar o contexto de protesto noturno, mas também fornecem algo coerente para os participantes fazerem, fora do objetivo vago de simplesmente protestar. Clínicas espontâneas foram organizadas para prestar assistência médica aos manifestantes, para ajudar com os efeitos físicos e emocionais do trauma de força bruta e contra a exposição à guerra química utilizada pela polícia. E com a qualidade do ar na Costa Oeste – recentemente a pior do mundo devido aos grandes incêndios florestais – os militantes têm desviado por um tempo sua atividade para prestar assistência devido à catástrofe. Desde médicos de rua na linha de frente de protestos e alívio de desastres naturais até organizadores no Brooklyn levando alimentos a pessoas vulneráveis durante a pandemia, a ação direta e a iniciativa de pessoas comuns estão fazendo uma diferença material na vida diária das pessoas.

Como nossa sociedade e seu estabelecimento político continuam a ser lançados no caos, o anarquismo oferece uma saída viável, uma forma de organização livre e cooperativa fora do processo eleitoral. Em parte por esta razão, as elites vilipendiam os anarquistas.

Há também um reconhecimento generalizado nos Estados Unidos do fracasso do Estado como um método viável de organização social. Durante décadas, com a desilusão sobre a guerra dos EUA no Vietnã, o escândalo Watergate e revelações sobre o papel do FBI na supressão dos movimentos sociais, a inadequação do estado é agora ilustrada pela inepta resposta federal à pandemia do coronavírus. É uma rede de segurança social quebrada que protege muito poucos, um ambiente em colapso e o racismo sistêmico imposto pela polícia militarizada. É cada vez mais claro que o governo não pode resolver estas múltiplas crises. Os anarquistas apresentam alternativas fundamentais e urgentes ao poder hierárquico e a uma sociedade baseada na exploração e dominação.

A perturbação nas ruas muda o debate político. Assim como o movimento Occupy Wall Street mudou os debates públicos para se concentrar na desigualdade econômica, os protestos de hoje mudaram o debate para se concentrar no racismo sistêmico. À medida que o debate muda, os valores mudam, as prioridades mudam, novas alianças emergem e possibilidades anteriormente inimagináveis se tornam realizáveis. Sabemos também que haverá uma reação inevitável. O fator mais importante que limitará a reação será a força das comunidades de resistência que surgem como resultado do fato de as pessoas se verem no movimento. As pessoas precisam ficar nas ruas, agitando, mantendo a pressão para manter o foco na abordagem destas questões. Outra proteção para os movimentos sociais é ter o apoio da população do lado dos manifestantes.

Fizemos progressos significativos na luta política pela opinião pública, de modo que os ataques ao Black Lives Matter, antifa e anarquismo aumentaram dramaticamente. A ala direita está se mobilizando para proteger os privilégios e o poder branco, patriarcal e capitalista. Um importante benefício de participar dos protestos é o sentimento de pertencer a um poderoso veículo de mudança social e o conhecimento de que não está sozinho em sua indignação. O sentido de identidade resultante fortalece a vontade de resistir no momento e também prepara você para futuras batalhas.

Não importa quem seja eleito em novembro, esta agitação e este edifício de movimento deve continuar. Apesar da demonização da atual administração, os anarquistas de hoje estão trabalhando para criar uma sociedade livre não apenas através de manifestações militantes de rua, mas participando da organização do local de trabalho, projetos de ajuda mútua e da criação de organizações e contra-instituições diretamente democráticas. Precisaremos de uma proliferação de greves selvagens, como as decretadas pelos jogadores da NBA em apoio às vidas negras, e da disseminação de políticas de oposição por toda a sociedade. Os anarquistas estão criando uma cultura que molda o desafio à supremacia branca, valoriza a vida dos negros e defende aqueles de nós que estão sob ataque porque somos vulneráveis, quer sejamos bichas, trans, mulheres, classe trabalhadora ou sem teto. Todas nós.

As elites políticas e as classes dirigentes de hoje têm interesse em manter as coisas como estão, mesmo que isso signifique um contínuo assassinato policial de negros, uma intervenção militar estrangeira e uma crise climática que está crescendo perigosamente.

A ação direta dos movimentos sociais de baixo é um poderoso motor da história. Grandes mudanças nas democracias ocidentais ocorrem quando a legislação tenta alcançar e responder à pressão dos movimentos sociais, como os motins e a organização dos movimentos de direitos civis nas décadas de 1950 e 1960. O mundo de hoje está longe dos ideais anarquistas e exigirá mudanças sociais fundamentais em todas as áreas da vida, desde como nos organizamos economicamente até como decidimos as prioridades sociais e políticas. As elites políticas e as classes dirigentes de hoje têm interesse em manter as coisas como estão, mesmo que isso signifique o assassinato contínuo de negros pela polícia, a intervenção militar estrangeira e uma crise climática que está crescendo perigosamente. Eles não cederão voluntariamente o poder e compartilharão a riqueza, como a história tem mostrado. É essencial ter um movimento social nas ruas, nos locais de trabalho, nos bairros e nas cidades. Um movimento militante traz pessoas comuns para o diálogo com os tomadores de decisão da elite. Isso nos torna difíceis de ignorar. À medida que as pessoas alcançam vitórias concretas, o movimento continua e se constrói até um momento decisivo em que é possível uma mudança social, econômica e política profunda. Neste processo, os anarquistas são motivados a capacitar as pessoas a compartilhar o poder coletivamente em vez de permitir que as elites acumulem poder para si mesmas.

Os movimentos sociais também precisam de uma visão do futuro. O anarquismo nos aponta na direção da criação de um mundo livre e igualitário. O anarquismo oferece uma sociedade na qual ninguém fica de fora, na qual nenhuma necessidade básica permanece insatisfeita e, mais importante ainda, uma cultura igualitária na qual ninguém está acima ou abaixo ou no caminho do exercício genuíno da liberdade.

Compartilhamos a necessidade desesperada de uma sociedade fundamentalmente diferente. Uma sociedade que não causa mais danos ao meio ambiente em busca do lucro, onde a polícia não mais assassina pessoas de cor para preservar a supremacia branca, livre da exploração do trabalho do povo e livre da violência misógina, uma sociedade onde as pessoas afetadas pelas decisões políticas são as que tomam essas decisões. Uma sociedade diretamente democrática que se opõe principalmente à dominação e à exploração é algo que o anarquismo nos oferece e é por isso que é tão perigoso para os que estão no poder.

>> Dana Ward é Professora Emérita de Estudos Políticos na Faculdade Pitzer, onde fundou e mantém os Anarchy Archives.

>> Paul Messersmith-Glavin é um organizador anarquista de longa data e membro do Instituto de Estudos Anarquistas (IAS) e da Perspectives on Anarchist Theory.

Fonte: https://itsgoingdown.org/anarchism-threat-to-elites/amp/?__twitter_impression=true

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

passeio de madrugada
os meus sapatos
empapados de orvalho

Rogério Martins

[Espanha] Crônica da Greve nas Universidades e Centros de Pesquisa

Ontem (21/10), foi convocada uma greve geral nas Universidades e Centros de Pesquisa para denunciar e exigir, entre outras coisas, uma universidade pública e gratuita, conciliação de trabalho e pessoal e contratação direta. A greve foi amplamente apoiada por trabalhadores de ambos os setores.

A jornada de luta na cidade de Valência consistiu em uma concentração pela manhã no gabinete do reitor da Universidade de Valência e pela tarde uma concentração unitária em frente à Faculdade de Medicina. Organizações estudantis, trabalhadores do setor científico e professores associados da universidade também participaram do ato. A Avenida Blasco Ibáñez foi bloqueada e puderam ser ouvidos  slogans como: “Trabalhadores e estudantes unidos à frente”, “Sem ciência não há futuro” ou “Não à precariedade na pesquisa”

Na Comunidade de Madrid, a greve unitária de pesquisa e universidades foi ativamente promovida pela aliança e colaboração entre a CNT, a FEL e a CGT. Ontem, vários piquetes informativos foram realizados, complementando as faixas colocadas na última segunda-feira em vários campi universitários e outros atos informativos que foram realizados: Uma coletiva de imprensa virtual, entrevistas com a mídia, muito barulho nas redes sociais… Em particular, nós da CNT-Comarcal Sul estivemos piquetando na sede da UOC em Madrid – uma instituição que ainda não reconhece o trabalho de seus professores e tutores colaboradores – assim como no Ministério da Ciência, porque sem uma ciência comprometida com a transformação social e baseada na dignidade de seus trabalhadores…, para onde vamos? À tarde, com a manifestação, que percorreu parte do centro da cidade de Madrid (Atocha – Neptuno – Sol) desde as 18h, na qual outros grupos de estudantes também participaram (obrigado!), pusemos um fim a este trabalho conjunto para um presente e futuro digno nas universidades e centros públicos de pesquisa. Um ponto e depois outro, sim, ou talvez dois pontos ou alguns pontos de suspensão, porque é hora de continuar tecendo laços entre aqueles de nós que querem apostar em uma “pluriversidade” e na pesquisa pública para todos e todas.

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/cronica-de-la-huelga-en-las-universidades-e-investigacion/

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/10/21/espanha-os-sindicatos-que-convocam-a-greve-em-universidades-advertem-que-este-e-so-o-primeiro-passo-para-conseguir-avancos/

agência de notícias anarquistas-ana

casa quieta –
cochila o avô e
dorme a neta

Carlos Seabra

[Chile] Neste 25 de Outubro NÃO há nada para comemorar

Quase um ano após o início da revolta social do povo chileno, a nojenta classe política foi (e ainda é) ameaçada em seus privilégios que o Estado lhe concedeu desde o retorno à falsa social-democracia. No dia 15 de novembro de 2019, a classe política do $hile anunciou um novo “acordo de paz”, pois se viu encurralada pela radicalização dos protestos. Tanto partidos opositores ao governo do assassino Piñera e os demais partidos oficiais que tentaram perpetuar a maldita constituição do tirano, concordaram após 3 dias de “negociações” com um plebiscito nacional para consultar o povo para a continuidade do legado do tirano ou para escrever uma nova constituição.

Neste 25 de outubro será realizado o plebiscito acordado pelos traidores do povo e estamos conscientes de que apagar todo o legado do tirano é um desejo de todo o povo que luta nas ruas, em cada barricada, em cada confronto com a polícia assassina do Estado chileno e como resultado da brutal repressão deixou mais de 40 mortos, 347 com traumas oculares e 25.558 detidos, dos quais cerca de 2.500 são prisioneiros políticos do Estado.

Não esquecemos aqueles cujas vidas, liberdades e olhos foram tirados pelos agentes do Estado apenas por exigirem viver em um território com dignidade. É por isso que neste 25 de outubro não há nada para comemorar, nada para festejar, nada para agradecer por qualquer ato de falsa democracia. A ditadura de Piñera e seus lacaios foram além do imaginável e ninguém ainda pagou por ela.

PELOS CAÍDOS, PELOS MUTILADOS E PELOS PRESOS POLÍTICOS

NO 25 DE OUTUBRO, NÃO HÁ NADA PARA COMEMORAR.

Coletivo Antifascista Talakanta

agência de notícias anarquistas-ana

De baixo das árvores
As pessoas saem dançando.
Chuvarada na roça.

Nempuku Sato

[EUA] Lançamento: “Fotos pouco lisonjeiras de fascistas. O autoritarismo nos Estados Unidos de Trump”

Christopher Ketcham (Editor); Jeff Schwilk (Fotógrafo); Paul Street (Contribuinte): Shane Burley (Contribuinte); Tizz Bee (Contribuinte)

Christopher Ketcham apresenta-nos uma paisagem de pesadelos que é peculiarmente estadunidense. Alt Right (“Direita Alternativa”) Neo-nazis. Boogaloo Boys. Nacionalistas brancos. Chauvinistas ocidentais. Estas criaturas vagueiam pelas ruas, muitas vezes indistinguíveis dos seus parentes mais vastos, os Trumpenvolk. Estes grupos heterogêneos reúnem-se ocasionalmente para ameaçar, intimidar e atacar, buscando um “espaço seguro” para o seu ódio. Eles são patéticos. E as nossas fotos mostram isso.

Jeff Schwilk tem lutado contra o ódio no Noroeste do Pacífico há décadas, mais recentemente capturando estes capangas enquanto aterrorizavam o povo de Portland, Oregon, e não só. Os ensaios e imagens nestas páginas expõem estes soldados da intolerância, relembrando ao resto de nós que o amor, a solidariedade e o apoio mútuo são as armas que os derrotarão. O material deste livro lembra-nos poderosamente que as comunidades de compaixão devem trabalhar vigilantemente para se unirem contra a intimidação e o ódio.

Mais de trinta fotos coloridas de Jeff Schwilk são acompanhadas por ensaios contextualizando o assunto. Juntas, investigam a ascensão do fascismo nos Estados Unidos e do autoritarismo na nossa era atual. Medem também a distância decrescente entre fascistas assumidos e estadunidenses brancos regulares, alimentados pela raiva e animados por uma vitimização mesquinha e imaginada. Os contribuintes fazem luz sobre estes intolerantes, que rastejaram para fora das suas rochas atraídos pelo racismo disfarçado de políticos e provocadores da “Alt Right”, o que é melhor para mandá-los de volta para a escuridão, onde pertencem.

Christoper Ketcham é o autor de Esta Terra: Como os Cowboys, o Capitalismo e a Corrupção estão a arruinar o Oeste Americano.

Jeff Schwilk é um fotógrafo que vive em Portland, Oregon.

Paul Street é o autor de Eles governam: o 1% vs. a Democracia.

Shane Burley é o autor de Fascismo Hoje: O que é e como acabar com ele.

Tizz Bee é um organizador revolucionário e cofundador do Symbiosis PDX sediado em Portland, Oregon.

Unflattering Photos of Fascists. Authoritarianism in Trump’s America

Christopher Ketcham (Editor), Jeff Schwilk (Fotógrafo); Paul Street (Contribuinte): Shane Burley (Contribuinte); Tizz Bee (Contribuinte)

Editora: AK Press

Formato: Livro

Tipo de encadernação: Brochura

Páginas: 88

ISBN-13: 9781849353953

$18,00

akpress.org

Tradução > Ananás

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Sente-se, por favor
no banquinho do jardim,
Primavera-San…

Teruo Hamada

[Chile] Jornada de bate-papo online: “Um ano após a revolta, projeções e desafios do anarquismo”

Belas pessoas que nos seguem nas redes sociais, é um prazer para nós convidá-lo para a quinta jornada de bate-papo online. O tema desta ocasião é “Um ano após a revolta. Projeções e desafios do anarquismo”.

Esperamos sua participação neste espaço para refletir sobre as práticas e perspectivas que o anarquismo (ou anarquismos) deve ter diante deste cenário que se abriu no ano passado.

Lembre-se de se registrar, enviando um e-mail ou através de mensagens internas.

Saúde e Liberdade!

Biblioteca Libertária Itinerante

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Noite na cabana —
Um grilo na prateleira
Procura por algo.

Issa

Poluição do ar provocou a morte de quase 500 mil recém-nascidos em 2019

A poluição do ar matou 476 mil recém-nascidos em 2019, especialmente na Índia e na África subsaariana, de acordo com um estudo publicado nos Estados Unidos que destaca a responsabilidade da fumaça tóxica que emana dos combustíveis usados para cozinhar nas residências, 75% dos casos.

Mais de 116 mil bebês indianos e 236 mil africanos subsaarianos morreram no primeiro mês de vida, vítimas da poluição do ar, afirma a organização ‘State of Global Air 2020’, que utiliza dados compilados pelos americanos Health Effects Institute e Institute for Health Metrics and Evaluation.

Os autores do estudo afirmam que há cada vez mais provas que permitem vincular a exposição das mães à contaminação durante a gravidez com o risco crescente de parto prematuro ou de que os bebês tenham um grave déficit de peso.

“Apesar de uma redução lenta e constante da dependência das residências dos combustíveis de má qualidade, a poluição do ar que geram continua sendo um fator chave para a morte dos bebês”, declarou Dan Greenbaum, presidente do Health Effects Institute.

No total, a contaminação do ar provocou 6,7 milhões de mortes no mundo em 2019, a quarta maior causa de mortalidade no planeta, indica o estudo.

Os autores destacaram que a pandemia de covid-19, que provocou mais de um milhão de mortes e danos econômicos, teve um impacto positivo no que diz respeito à poluição.

“Muitos países recuperaram o céu azul e as noites estreladas pela primeira vez em muitos anos”, devido ao freio brusco das atividades. Mas os pontos positivos não devem durar muito, alertaram os autores.

Fonte: agências de notícias

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Cabelos tão brancos:
ancinho que raspa a terra,
colheita de anos.

Alckmar Luiz dos Santos

Vídeo | A Era da Democracia

Nos últimos 15 anos, vários movimentos sociais e grupos anticapitalistas atendem ao chamado do Exército Zapatista de Libertação Nacional e todo o Movimento Zapatista para uma campanha “abaixo e à esquerda” por mudanças radicais. Desde a primeira marcha que percorreu 32 estados mexicanos em 2006, Zapatistas propõem escutar as comunidades e promover valores como o anticapitalismo, o horizontalismo e a igualdade.

Nossa proposta, assim como a Otra Campaña original, é oferecer uma visão de política distante dos partidos e da esquerda institucional que, financiados pelos ricos e pelo próprio Estado, inundam as ruas e a mídia com suas propagandas e a noção de que somente entrando para as instituições estatais poderemos promover mudanças profundas.

Muitos dos maiores movimentos e revoluções em andamento em nossos tempos partilham da ideia de que é melhor mudar o sistema de forma direta, popular, auto-organizada e sem os instrumentos de gestão e repressão do Estado. Somente a prática e o debate que considere essas experiências poderão mostrar às pessoas que existe política para além do voto e da democracia representativa burguesa.

Por isso, os coletivos Antimídia e Facção Fictícia apresentam “A Era da Democracia”, um vídeo e um artigo pensado para incitar o debate sobre as origens do voto democrático, seus limites e propostas para superá-lo e construir um mundo realmente igualitário e livre — um mundo onde caibam muitos mundos!

Fazemos coro às palavras do Subcomandante Moisés, que nos lembra que “não lhe dizemos que vote, tampouco lhe dizemos que não vote. Simplesmente lhe dizemos que se organize”.

Vídeos e legendas disponíveis para download em: https://antimidia.noblogs.org/

outracampanha.noblogs.org

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outubro
pássaros pousam
nas primeiras praias

Eliakin Rufino