[Itália] Carlo Giuliani

Há 20 anos, entre 19 e 22 de julho de 2001, os dias dramáticos do G8 em Gênova deixaram uma marca permanente na nossa memória com os confrontos e a devastação da cidade, o assassinato de Carlo Giuliani e o ataque na escola Diaz realizado pela polícia. No dia em que Giuliano morreu, eu fiz esta ilustração para “Il Messaggero” (foi distribuída pelo mundo inteiro também pela C&W Syndicate). Um desenho que foi utilizado mais tarde e serviu de inspiração para placas em vários eventos, mas também como uma ideia que foi amplamente apropriada por outros autores.

Art&text by Marco De Angelis

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estrela cadente
ponto de exclamação
quente

Millôr Fernandes

[Turquia] Informações dos companheiros da DAF sobre os eventos em 20/07

Seis anos atrás, em 20 de julho, 33 revolucionários anarquistas e socialistas foram assassinados em Suruç em um atentado kamikaze do ISIS (Estado Islâmico) em colaboração com o Estado turco. Eles tiveram um sonho. Eles pretendiam reconstruir Kobane, que havia sido destruída pelo ISIS.

Ontem (20/07) estivemos nas ruas, como fazemos todos os anos em homenagem aos nossos 33 companheiros e amigos. O Estado também estava nas ruas com toda a sua força policial. O bairro de Kadıköy foi ocupado pela polícia, que atacou a manifestação. 65 rebeldes, incluindo 10 de nossos companheiros, foram brutalmente presos. A tortura continuou em veículos policiais, hospitais e delegacias. Os policiais jogaram um companheiro nosso da escada, dentro de um hospital.

Esses métodos não nos levarão ao silêncio! O Estado será responsabilizado por cada um de nossos companheiros que foram mortos, torturados e detidos.

Devrimci Anarşist Faaliyet (DAF)

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Rosto no vidro
uma criança eterna
olha o vazio

Alphonse Piché

[Grécia] Vídeo | O renascimento da okupação Libertatia

A reconstrução da Libertatia é um grande desafio, não só para nós, mas para todas as pessoas em luta contra qualquer forma de fascismo e capitalismo. Acreditamos que esse processo em si mesmo e o seu êxito final será mais uma prova de que podemos viver e criar sem a interferência do Estado, do Capital e da Autoridade. É uma batalha que tem de ser ganha e será ganha.

>> Veja o vídeo (06:09) aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=qjF9P8p_MX0&t=60s

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sombras pelo muro:
a borboleta passa
seguindo a anciã…

Rosa Clement

Convocatória para a Semana Internacional de Solidariedade com os Presos Anarquistas | 23 – 30 de agosto de 2021

Há uma mentira fundamental na sociedade capitalista, uma promessa que nunca se torna realidade, a promessa da liberdade: só deves trabalhar duro. E cada vez que tropeçamos com uma nova crise do capitalismo, esta se torna visível.

Alguns dizem que o Covid-19 é uma crise sanitária. Mas não é! O Covid-19 é outra crise causada pelo capitalismo e seu afã de mais riqueza e crescimento. A contaminação da terra fértil através da agricultura industrial, o roubo do habitat para os seres humanos e os animais selvagens mediante políticas de extração que convertem os bosques prósperos em desertos, é a loucura do capitalismo que empurra a humanidade para novas fronteiras onde nos esperam mais vírus.

Este ano trouxe mais injustiça social e econômica, mais sofrimento, mas também mais luta. As pessoas se rebelaram contra o sistema capitalista e os regimes autoritários. As pessoas lutaram por sua liberdade e contra a exploração. As pessoas fizeram greves nas fábricas e se levantaram nos cárceres contra a política autoritária e orientada ao lucro.

Foi um ano duro e ainda há mais por vir. Nestes tempos necessitamos mais do que nunca de solidariedade, tanto na vida cotidiana como em nossos bairros e comunidades. Tampouco devemos esquecer nossos companheiros na prisão, que lutam pela liberdade e a igualdade. Eles vivem momentos difíceis neste momento, pois a pandemia isola ainda mais as pessoas na prisão.

Por isso, este ano, voltamos a convocar a Semana Internacional de Solidariedade com os Presos Anarquistas.

Realize alguma ação de solidariedade, levante um cartaz, organize um ato de escritura de cartas aos presos ou projete um filme, informe sobre os que estão nos cárceres e faça-os saber que não estão sós e esquecidos. Envie-nos uma foto, um texto breve, e/ou um vídeo de seu ato ou ação, um programa de rádio: tua criatividade não tem limites.

Recordemos aos que lutaram contra esta injustiça e pagaram com suas vidas.

Não esqueçamos os que estão no cárcere e continuam sua luta.

Siga lutando!

Que os ricos paguem pelo Covid!

solidarity.international

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De noite minha sombra
Embebe-se na parede —
O grilo cricrila

Ryôta

[Bielorrússia] Antifascista detido e condenado a servir 18 meses de trabalho forçado por uma performance de rua

O ativista bielorrusso, antifascista e cantor da banda de street punk Mistee X, Igor Bancer, foi enviado a um campo de trabalho depois de um veredito que o sentenciou a 18 meses de serviço forçado.

Igor não é um novato quando se trata de opressão de estado e já foi preso múltiplas vezes no passado. Desta vez, Bancer foi detido e acusado de vandalismo no dia 20 de outubro de 2020. Seu “crime” foi uma performance de rua que envolvia dançar em frente a uma viatura mostrando suas nádegas aos policiais. No entanto, o motivo real por trás da sua prisão e detenção parece ser sua oposição descompromissada com o regime ditatorial da Bielorrússia. Além disso, sua participação nos protestos pós-eleição que se passaram no país no ano passado e suas atividades políticas de longa data.

Bancer passou 5 meses na prisão depois de ser sentenciado em outubro de 2020. Durante este período aprisionado, ele enfrentou diversos tipos de repressão: sua detenção foi prolongada sem nenhuma justificativa e seu julgamento foi adiado. As visitas de família foram negadas a ele e foi proibido de receber pacotes vindos de fora. Ele foi transferido entre diversas prisões e submetido a isolamentos várias vezes, sempre sob o pretexto da pandemia de Covid-19.

Apesar disso tudo, Igor continuou exigindo seus direitos humanos básicos. Como punição, ele foi enviado para uma prisão psiquiátrica, onde ele recusou as consultas médicas na ausência do seu representante legal. No dia 3 de março de 2021, Bancer iniciou uma greve de fome “seca” para protestar contra a sua detenção e o tratamento que vinha recebendo. Ele foi sentenciado no dia 19 de março e solto para aguardar transferência para uma penitenciária. No dia 17 de junho, ele foi mandado de volta para a prisão para cumprir sua sentença.

Você pode escrever para Igor no seguinte endereço:

Bantser Igor Romanovich

IUOT-9, ul. 3 Chepinskaya

Vitebsk, 210034

Bancer é um entre muitos anarquistas e antifascistas encarando duras repressões na Bielorrússia. Mais atualizações estão disponíveis no site da ABC Belarus (abc-belarus.org)

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2021/07/16/belarus-antifascist-detained-to-serve-18-months-of-forced-labour-for-a-street-performance/

Tradução > Calinhs

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A velha mão
segue traçando versos
para o esquecimento.

Jorge Luis Borges

A vasta poesia anarquista

É preciso reconhecer que este artigo tem um título problemático. O termo “anarquista” aqui é usado de maneira desavergonhadamente genérica, o que é no mínimo questionável. “Anarquista”, inscrito no título como um qualitativo de “poesia”, pode se referir tanto à poetas engajados no movimento e que publicaram em jornais canhotos, quanto ao tema da revolução libertária e da luta socialista.

Para resolver esse primeiro problema, recorro ao passado: volto os olhos para quem já pesquisou o tema. Um dos mais importantes guardiões da memória libertária brasileira atende pelo nome de Edgard Leuenroth: jornalista, tipógrafo e fundador de inúmeros periódicos importantes como A Plebe, A Folha do Povo, Ação Direta e etc.

Durante quase toda sua militância, Leuenroth colecionou registros do movimento que fez parte. Como homem das letras, deu especial atenção à literatura e à poesia. Desde 1900, e por cerca de cinco décadas, ele catalogou poemas com temáticas anarquistas publicados na imprensa operária e livre-pensadora. Nem sempre eram poemas exaltadores ou que propunham um didatismo ideológico, em sua maioria eram singelos versos de protesto.

O que dá tom à compilação de Leuenroth é sua fonte de pesquisa, a imprensa operária, em que apenas companheiros e camaradas eram convidados a publicar. É um recorte temático que favorece a inclusão de diferentes matizes da esquerda revolucionária. Por isso, na antologia de Leuenroth, há uma recorrência de poetas notoriamente anarquistas: Neno Vasco, José Oiticica, Gigi Damiani, Afonso Schmidt, Raymundo Reis.

Para quem se interessar por esse compilado de Leuenroth, existe uma pequena seleção dele no livro A poesia anarquista brasileira [1], de Yara Aun Khoury, publicada pela editora Monstro dos Mares. Ou simplesmente clica aqui e baixa uma versão em PDF [2].

Os esteios

Para efeitos de generalização, a que esse artigo é afeito, incluo por conta própria, e à deriva de Leuenroth, uma nova leva de poesia anarquista: aquela produzida por quem tem afinidades sinceras aos ideais libertários, mas não está vinculado a nenhuma organização. São simpatizantes, apoios  -   eu os chamo aqui de esteios.

Esteio é algum material, em geral madeira ou ferro, feito para escorar alguma coisa que pode cair, como a parede de uma casa ou a coluna de uma greve. É também como se nomeia alguém que ajuda, apoia, ampara outrem.

A inclusão dessa nova leva tem uma razão bastante pragmática: acredito que no eco das vozes desses poetas esteios estão os gritos de muitos poetas engajados; nas suas entrelinhas está o encanto revolucionário, e através delas ele chegará a mais olhos, despertará chamas impensáveis, inspirará gente distante. Através desses poetas, a ideia anarquista avança fronteiras inéditas se nutrindo do que o próprio anarquismo se nutre: do apoio mútuo, da solidariedade e da diversidade.

Por isso me parece que o conceito de poesia anarquista deve se permitir abarcar esses três campos: temático, quando se fala de temas caros à revolução libertária; engajado, quando é abertamente anarquista; e esteio, quando é simpatizante à causa. Estes três campos, é claro, não formam um volume único e homogêneo, contudo todos os três são capítulos de uma mesma obra.

Brossa

Gostaria de exemplificar meu argumento em prol da inclusão dos poetas esteio trazendo à luz um grande nome da poesia universal: Joan Brossa, o maior expoente do vanguardismo catalão dos meados do século passado.

Com apenas 18 anos, Brossa lutou a Revolução Espanhola ao lado das forças republicanas, mormente compostas por anarquistas e comunistas. Anos depois ele conhece o poeta Josep Foix, importante nome do surrealismo literário catalão. Como é de praxe, as vanguardas artísticas dessa época  fizeram com Brossa o que fariam com todo jovem artista daquele tempo: explodiram sua cabeça.

Brossa transitou pelo surrealismo, futurismo e dadaísmo e acabou por transcender todas elas.   Mergulhou na poesia escrita, depois na poesia visual, na poesia cênica e por fim na antipoesia. Seu trabalho chegou ao Brasil, provavelmente, pelas mãos de João Cabral de Melo Neto.

Cabral, além de imenso poeta, foi o embaixador brasileiro em Barcelona em 1947, em Londres em 1950 (dois anos depois ele é afastado e tem que retornar ao Brasil para responder a um inquérito que o acusava de subversão), em 1956 volta para Barcelona e de lá vai para Madrid e Marselha (em 1961 ele volta ao Brasil para ser ministro do Jânio Quadros, cargo que perde em 1964 com o golpe militar), parte então para Genebra, depois Berna, Assunción, Dakar e, por fim, seu último cargo de embaixada fora do país é na cidade do Porto.

Cabral se embebedou da poesia de todos os países em que trabalhou. Um pouco dessa trajetória ele escreveu em poemas, que foram compilados no livro Literatura como turismo, publicado pela editora Alfaguara e organizado por sua filha, Inez Cabral. Entre os principais responsáveis por essa bebedeira de Cabral estava Joan Brossa. Eles ficaram amigos e se influenciaram mutuamente de maneira irremediável.

Foi pelo meio campo feito por Cabral que Brossa conheceu a vanguarda Concreta brasileira, e a vanguarda concreta brasileira conheceu Brossa . Esse foi um gravíssimo acontecimento sísmico tanto para a vanguarda de lá quanto para a de cá.

A poesia anarquista, por fim, quando encarnada num poeta esteio da qualidade de Brossa, consegue viajar para longe, para onde a poesia engajada, publicada nos jornais militantes, sequer poderia imaginar. Esta é sua beleza e seu potencial.

Jr. Bellé

(Mais textos e poemas em @jr.belle e belle.noblogs.org)

[1] https://monstrodosmares.com.br/produto/a-poesia-anarquista-brasileira/

[2] https://www.anpuh.org/arquivo/download?ID_ARQUIVO=3667

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Escorre pela folha
a tarde imensa,
pousada em gota d’água.

Yeda Prates Bernis

[Chile] Palavras do companheiro anarquista Francisco Solar em memória de Luisa Toledo Sepúlveda

Para a Sra. Luisa Toledo. Palavras de Francisco Solar, desde a prisão de segurança máxima em Rancagua

Tive a oportunidade de falar poucas vezes com ela, no entanto tive a sorte e a enriquecedora possibilidade de escutá-la em inumeráveis ocasiões.

Creio que em nenhuma dessas oportunidades fiquei indiferente. A potência de suas palavras e de seus gestos, a intensidade que imprimia a cada uma de suas propostas e discursos me motivou enormemente e continuam fazendo-o. As recordo neste confinamento e ainda me arrepiam os pelos.

Que sorte a que tivemos todos nós de ter podido coincidir na vida com uma pessoa como a Sra. Luisa!

Outra coisa que nunca deixou de me impressionar foi seu permanente interesse por atualizar-se, por saber o que estava se discutindo e propondo, e por saber quais eram as motivações das novas gerações de jovens combatentes. Isto a manteve plenamente vigente. A manteve na luta rechaçando qualquer assento de honra desde onde muitos se sentam com o poder de dirigir e deslegitimar as novas experiências. A Sra. Luisa é inseparável da luta porque ela mesma é uma expressão de luta.

Na vez que fui para sua casa convidá-la para o lançamento de um livro – que foi uma das poucas vezes que conversei com ela- já estava enferma e muito débil, mas apesar disso falamos por longo tempo, perguntando-me, com um interesse que me surpreendeu, cada detalhe de nossa experiência de prisão na Espanha, o que fala e reafirma sua preocupação por cada acontecimento novo, em especial pela situação dos presos, realidade que viveu diretamente com o encarceramento por vários anos de sua neta [Tamara] Sol.

Inteirei-me pela televisão de sua morte e aí se falava do triste falecimento de “Luisa Toledo, ativista e defensora dos direitos humanos”, tratando evidentemente de ocultar o que ela era realmente e o incômodo que significou e significará para o poder. A Sra. Luisa foi uma reivindicadora e incentivadora da violência política, afirmando permanentemente, de forma explícita, a necessidade urgente de dotar de maior contundência os ataques. De ir mais além, de levar a cabo a vingança contra os que ela chamava: “os assassinos e exploradores do povo”, pelo que a denominação de “defensora dos direitos humanos” creio que fica pequena (para dizer pouco) servindo só aos que se utilizam da luta e dos mortos.

Por último, mando um afetuoso abraço a todos os seus próximos e familiares, em especial a Don Manuel e a Ana.

Só morre quem é esquecido!

Francisco Solar D.

C.P Rancagua.

Fonte: https://buscandolakalle.wordpress.com/2021/07/19/palabras-del-companero-anarquista-francisco-solar-en-memoria-de-luisa-toledo-sepulveda/

Tradução > Sol de Abril

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As campânulas
Se espalham pelo terreno —
Casa abandonada.

Shiki

[Itália] O opúsculo “Dal Profondo” foi lançado

“…porque é bem verdade, como diz um de nossos camaradas em uma carta, que “há uma palavra que normalmente é usada com parcimônia, mas à luz dos fatos que aconteceram ela precisa ser erguida no mastro das futuras lutas contra a prisão, a palavra é vingança”.

Este texto tem muitas falhas, por exemplo, não fala, se não for mencionado em alguns textos, dos espancamentos e torturas ocorridos na prisão de Santa Maria Capua Vetere, como vingança do Estado contra os desordeiros, assim como não fala das muitas revoltas que se repetiram nas prisões após março e ao longo do ano passado. Haverá, como tem havido, outras contribuições e textos que expandirão o tema e contribuirão para a análise, o importante é que o discurso não pare, que o que aconteceu não seja enterrado no esquecimento e que as próximas revoltas, porque haverá, possam se tornar oportunidades para explorar e não apenas notícias vistas nas notícias.

“Dal Profondo” é uma coleção que vem do desejo de colocar por escrito algumas declarações, atualizações e algumas reflexões que se espalharam, quase exclusivamente na internet, durante os dias de março de um ano atrás, quando as revoltas na prisão inflamaram as noites e os dias. Muitos de nós nos lembramos bem dessas noites e dias, apesar do fato de que um ano depois a quantidade de raiva que ela gerou está lentamente se esgotando. A coleção é dividida em duas partes: a primeira, com exceção de uma crônica inicial que reúne os principais eventos de 7, 8, 9, 10 e 11 de março, contém toda uma série de comunicados de imprensa, contribuições e reflexões publicadas nos dias imediatamente posteriores aos tumultos, contribuições publicadas principalmente em sites e blogs de contrainformação. Junto com estes também há alguns artigos de jornais institucionais. Estes últimos, longe de serem considerados confiáveis, longe de receber qualquer consideração política do autorx da coleção, foram incluídos apenas para dar uma ideia do alcance da revolta, a fim de melhor enquadrar esses eventos em vista do efeito que tiveram fora, neste caso, nas crônicas da mídia do regime, com todo o alcance da propaganda e do saque dialético que estes envolvem. A segunda parte do livreto, por outro lado, contém dois comunicados que foram emitidos alguns meses após os tumultos, reflexões sobre os acontecimentos e a repressão estatal que os acompanhou. Uma premissa é importante: primeiro, esta coleção não é exaustiva; segundo, e consequentemente, não segue de forma alguma um corpus cronológico preciso, exceto aquele útil ao autorx para dar forma e conteúdo à sucessão do texto. Alguns dos textos incluídos não se referem diretamente aos tumultos, mas foram escolhidos para serem incluídos por razões cronológicas ou por mera diversão (por exemplo, um artigo de jornal que fala do incêndio que ensombrou o tribunal de Milão, em 28 de março, um evento que pode não ter uma causa política, mas que, no entanto, não pode deixar de fazer um sorriso). Rasgar estes testemunhos e reflexões do frio da internet é necessário para contribuir para tornar as revoltas prisionais de março de 2020 um evento claro, tão relevante como sempre, que levou as pessoas a entrarem em choque contra os guardas e contra as estruturas prisionais, que não representam nada além de uma das formas reais do que o Estado representa: miséria, exploração, coerção e prisão. Para que as prisões explodam, para que as mortes e torturas não fiquem sem solução. Viva a revolta.

Para receber cópias, informações, custos do panfleto ou qualquer outra coisa, favor contatar nereidee@riseup.net

As cópias são absolutamente grátis para os prisioneiros anárquicos e detentxs.

Em qualquer caso, é bem-vindo e encorajado a imprimir e divulgar este panfleto!

SOLIDARIEDADE COM NATASHA EM GREVE DE FOME.1312.

Fonte: https://nereidee.noblogs.org/post/2021/06/27/e-uscito-lopuscolo-dal-profondo-raccolta-di-testi-articoli-e-comunicati-sulle-rivolte-carcerarie-di-marzo-2020/

Tradução > Liberto

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Esta é a mão
que às vezes tocava
tua cabeleira.

Jorge Luis Borges

[Grécia] Tessalônica: Ajude a reconstruir a okupa Libertatia

Nos ajude a reconstruir a okupa Libertatia, incendiada por fascistas, como um símbolo antifascista e centro político.

Ajude a reconstruir Libertatia

A okupa Libertatia, ativa desde 2008 em Tessalônica, foi o alvo de uma ação fascista em 21 de janeiro de 2018. Naquele dia, um fervor nacionalista em Tessalônica estava no maior pico de todos os tempos, com uma manifestação muito grande ocorrendo contra o uso do nome Macedônia para o Estado vizinho. Desde o incêndio dos fascistas, nossa decisão foi reparar o prédio queimado, continuar abrigando nossas lutas e fazer uma declaração sólida contra o fascismo.

O ataque fascista contra a okupa Libertatia ocorreu em Tessalônica, no dia 21 de Janeiro de 2018. Na “capital” multicultural da península dos Balcãs, a cidade dos refugiados, da perseguição e extermínio das populações judaicas e outras etnias, a cidade dos trabalhadores assassinados durante o sangrento Maio de 1936 e do assassinato de Lambrakis em 1963. Entre os crimes de fascismo e nacionalismo que aconteceram nesta cidade, mais um é acrescentado, o incêndio de um prédio histórico, que estava de pé há mais de um século. Infelizmente, quem esquecer a história estará pronto para vivê-la novamente.

O incêndio criminoso da okupa Libertatia foi um incidente que abalou o bairro de Faliro, em Tessalônica. Este edifício neoclássico nas ruas de L. Strat e Sarantaporou, um dos poucos prédios antigos conservados em Tessalônica, forneceu um teto essencial para algumas pessoas como também um lar para ideias libertárias. O ataque ocorreu no dia da “manifestação macedônica”, onde pessoas fecharam as ruas e saíram para defender a “identidade grega” da Macedônia. Uma multidão fascista, incluindo hooligans, depois de enfrentar primeiro um contra-ataque antifascista no centro da cidade, entrou na Libertatia e a queimou.

Durante o ataque, a polícia que estava próxima, nada fez para preveni-lo. Enquanto o esqueleto de concreto do prédio ainda estava de pé, o piso, tetos e tudo dentro dele foi destruído (incluindo um arquivo detalhado de livros políticos, textos e os pertences pessoais das pessoas participantes do projeto de moradia coletiva da okupa). As causas políticas e as correntes dessa reunião ultra nacionalista ridícula são um assunto discutido em detalhes em nossos textos anteriores e gostaríamos, aqui, de nos concentrarmos em nossa luta que está por vir. Para mais informações sobre os detalhes do ataque, as manifestações fascistas pró-Macedônia durante este período, como também algumas das ações solidárias que já ocorreram, confira o blog: rebuildlibertatia.noblogs.org

QUEM NÓS SOMOS (LIBERTATIA)

Libertatia significa libertária, inspirada na semi-mítica comunidade liberal de piratas dos anos 1600. Em maio de 2008, o casarão foi ocupado e as pessoas que ocuparam deram vida a ele após muitos anos de desolação. Tentamos torná-lo sustentável e conseguimos. Devido à sua idade e sua arquitetura, isso foi conseguido com muito esforço, às nossas próprias custas e ajuda de companheires.

O grupo da ocupação se baseou nos princípios de igualdade, anti-hierarquia e de auto-organização. Isto criou um lugar aberto a todas pessoas que lutam para derrubar um sistema social podre, baseado na exploração. Para além das nossas ideias, Libertatia também abrigou nossas necessidades e nos abrigou, sem o intermédio de aluguel. Alojou pessoas que não tinham meios para alugar uma moradia, tais como migrantes/refugiades e pessoas das classes sociais mais pobres.

Nos seus muitos anos, acolheu muitos grupos e pessoas diferentes, com interesses e funções diversas. Para além do coletivo político que ali estava – e ainda está – alojado, muitos outros grupos centrados em partes específicas da luta libertária, como o antifascismo e o antissexismo, também fizeram parte da okupa. Além disso, muitas atividades e grupos culturais foram alojados na okupa: biblioteca, cinema, teatro, música, oficinas, etc., bem como grupos de auto-educação, como a descoberta e partilha de conhecimentos sobre questões políticas anti-hierárquica. Acreditamos firmemente que a ação requer conhecimento e que o conhecimento requer educação.

SOBRE O PROJETO DE RECONSTRUÇÃO

O incêndio intencional não mudou as nossas intenções nem enfraqueceu em nada a nossa determinação. Mas tornou tudo mais difícil em termos materiais. O desejo de reconstruir a Libertatia nos foi logo evidente, desde o primeiro momento. Há duas razões principais para isto. Primeiro, queremos que a nossa okupa seja capaz de abrigar tudo o que fazia antes, e ainda mais. Em segundo lugar, acreditamos que a sua reconstrução é uma afirmação veemente contra o fascismo e a favor das nossas ideias libertárias. O que eles destroem, nós, com as nossas mãos e as mãos de nosses camaradas, podemos reconstruir e fazer florescer novamente. A luta antifascista não se pode limitar apenas a opor-se à ameaça, sempre que esta se torne visível. Contribuímos para esta causa e pela causa da mudança deste sistema perigoso, também criando, provando o valor das nossas ideias, por meio de declarações afirmativas para que os nossos ideais possam tomar forma.

Após o incêndio intencional, foi criada uma iniciativa de grupo específico, a fim de organizar ações para o projeto de reconstrução e formar um corpo permanente para concluir esta luta. Este grupo ainda está ativo e é o principal responsável pelo processo de reconstrução.

A respeito da parte técnica, até agora, limpamos grande parte dos destroços no interior da okupa. Felizmente, o casarão consiste em dois edifícios separados, com o maior (queimado) de frente para a rua, e o segundo, menor, no jardim, que não foi danificado pelo fogo. Ainda assim, não foi utilizado desde que as últimas pessoas que ali moravam saíram de lá. A fim de podermos ficar e trabalhar no local, primeiro reformamos as rachaduras do edifício pequeno. Este foi um feito em si mesmo; uma vez que a maioria de nós não tinha experiência prévia de construção, mas com uma ajuda valiosa, aprendemos a fazer tudo isso.

Ao mesmo tempo, começamos também a trabalhar no edifício principal (queimado), tentando sobretudo minimizar quaisquer danos consequentes que os elementos o causariam. O próximo grande passo importante foi cobri-lo com um novo telhado, que o protege da chuva e está instalado no edifício de uma forma sólida. Evidentemente, uma das primeiras coisas que fizemos foi consultar arquitetes e pedreires, que confirmaram que não há perigo de colapso do edifício a curto prazo.

REPRESSÃO E NOSSA SITUAÇÃO ATUAL

Nas nossas tentativas de reconstruir a Libertatia, óbvio que também tivemos de lidar com o convidado-não-convidado: o Estado. No dia seguinte ao incêndio intencional, foi convocada um ato em solidariedade que começou na Libertatia. 2500 pessoas mostraram seu apoio nessa ação. Infelizmente, e com bastante antecipação, a polícia atacou a manifestação com pretextos tolos, prendendo 5 pessoas ao acaso e acusando-as de incêndio criminoso no mais alto grau. Quanto aos culpados por detrás do incêndio intencional da Libertatia, mesmo enquanto falamos, não foram feitas detenções nem mesmo acusações.

Além disso, a polícia invadiu a okupa três vezes na tentativa de nos impedir de reconstruir o edifício. Após a detenção de 4 camaradas em 8 de Novembro de 2019 apenas por trabalharem no telhado do edifício e o confisco do nosso equipamento em outra ocasião, em 17 de Julho de 2020, a última invasão ocorreu em 23 de Agosto de 2020. A polícia, armada até aos dentes, arrombou a porta e correu para dentro, enquanto nós trabalhávamos no telhado do edifício, onde estávamos, gritando em protesto contra a invasão e também tornando-a pública para a vizinhança. No final, 12 de nós foram preses e são agora ridiculamente acusades de obras de construção ilegais, de resistência contra a polícia e, ironicamente, de danificar um patrimônio classificado! O movimento de Tessalônica respondeu à altura e no dia 5 de Setembro, enquanto uma manifestação com 150 pessoas se encontrava no exterior da okupa, a protegendo de qualquer intervenção policial, pudemos consertar uma grande parte do telhado. Contra todas as probabilidades, conseguimos concluir a restauração do telhado em Novembro de 2020. Esta primeira grande vitória mostra que mesmo contra a vontade do Estado, mesmo com conhecimentos e experiência limitados, mesmo com a luta e as nossas vidas, continuamos, ainda conseguimos lidar com isso.

PORQUE PRECISAMOS DO SEU APOIO

Para continuar o projeto de reconstrução, precisamos de um fundo adicional para além do que temos condições de dispor, especialmente durante esse isolamento social, uma vez que é impossível organizar qualquer ação de levantamento de fundos como costumávamos fazer (shows, bares de apoio financeiro, etc.). O financiamento do projeto de reconstrução é duplo: o custo da reconstrução propriamente dita, como também uma parte dos custos que foram gastos para a defesa jurídica das pessoas acusadas da luta pela Libertatia.

Nós pedimos seu apoio para a conclusão desse projeto. A reconstrução da Libertatia é um grande desafio, não só para nós, mas para todas as pessoas em luta contra qualquer forma de fascismo e capitalismo. Acreditamos que esse processo em si mesmo e o seu êxito final será mais uma prova de que podemos viver e criar sem a interferência do Estado, do Capital e da Autoridade. É uma batalha que tem de ser ganha e será ganha.

CONTRA A VONTADE DE QUALQUER UM,

A OKUPA LIBERTATIA DEVE PERMANECER VIVA

SEM RECUO, LUTA CONTÍNUA

CONTRA O FASCISMO E O NACIONALISMO

PARA O ANARQUISMO E O COMUNISMO LIBERTÁRIO

>> Para colaborar, clique aqui:

https://www.firefund.net/rebuildlibertatia

Tradução > Serena

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neve profunda –
as pegadas do gato
cada vez maiores

Ion Codrescu

[Reino Unido] Squatter Take Camberwell Cop Shop (2.0) | Declaração completa

The Serious Annoyance voltou a ocupar a vazia Delegacia de Polícia de Camberwell, Camberwell Church St SE5, enquanto continuamos em nossa luta para #killthebill (derrubar a lei) e destacar o papel destrutivo da polícia.

Esta semana, o draconiano projeto de lei do PCSC foi aprovado em sua terceira leitura, enquanto o estado continua a impor a expansão dos poderes da polícia que não fazem nada além de aumentar a capacidade da classe dominante de nos reprimir. Sabemos que os policiais não nos protegem – seus recursos não estão focados em capturar os chamados “criminosos”, mas em proteger a riqueza e o poder da classe capitalista. Também sabemos que nenhuma exigência para tirar o dinheiro da polícia é suficiente – os desgraçados dos Conservadores já têm tirado o dinheiro da polícia há anos! Como todas essas delegacias de polícia vazias provam… Em vez disso, devemos construir um mundo que abole a polícia, organizando nossas próprias comunidades e tornando a polícia completamente desnecessária.

Não aceitamos e não aceitaremos o aumento dos poderes da polícia que efetivamente proíbem protestos e criminalizam a invasão, algo que equivale à limpeza étnica da comunidade GRT (ciganos, romani e viajantes) no Reino Unido, tornando impossível uma vida de viajante.

Apesar dos ataques cada vez mais violentos e extremos do estado contra aqueles de nós que resistem ao crescente estado policial, desde o despejo brutal de Clapham NotACopShop ao assédio de nossos camaradas em Bristol e as cruéis sentenças de prisão propostas para os bravos militantes supostamente envolvidos nos distúrbios de Bristol, continuaremos a lutar contra o projeto de lei e sua criminalização da transgressão e de nossos direitos democráticos.

Não apenas continuaremos resistindo a esse projeto de lei até o último momento possível, mas continuaremos nos organizando para quebrar o sistema que precisa dele: um sistema caindo cada vez mais fundo em uma crise que só pode tentar resolver com mais policiais, mais vigilância, mais leis, que despojam nossa liberdade e dignidade para proteger a riqueza e o poder da classe dominante. Nós nos recusamos a viver em seu mundo de ‘policiamento total’, guardados em todos os lugares pelos servos de um regime maligno de perseguição às mulheres, negros e pardos, pessoas queer, a classe trabalhadora e todos os outros grupos oprimidos.

Ao ocupar esta delegacia, nos posicionamos coletivamente contra essa injustiça. Ofereceremos workshops e eventos que resistem a este estado fascista.

Esperamos que este seja um espaço de encontro, de forjar afinidades, de contar histórias, de inspirar, provocar, tramar. Fique atento às oficinas e às discussões, ao aproveitamento de nossas ideias, à identificação do nosso inimigo, sempre rumo à libertação total desta sociedade autoritária.

Juntos somos fortes e vamos ter o que merecemos.

Foda-se suas leis, lute para sempre.

Com amor, raiva e solidariedade, The Occupiers xx

https://nfaaf.wordpress.com/2021/07/08/squatter-take-camberwell-cop-shop-2-0-full-statement/

Tradução > abobrinha

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portas batendo
fugindo da chuva
o vento

Alonso Alvarez

Lançamento | “Vida em perigo: Revolução contra a catástrofe climática”, de Javier Sethness-Castro

A leitura de Vida em perigo é, ao mesmo tempo, assustadora e esperançosa. Por um lado, o livro faz um relato trágico das ações do sistema capitalista sobre o meio ambiente. Por outro, o autor nos aponta caminhos – talvez, não para reconstruirmos o mundo que outrora conhecemos, mas para construirmos, a partir dos escombros, novos mundos.

As reflexões de Sethness-Castro sobre como a catástrofe climática vem sendo tratada pelos agentes políticos internacionais deixa evidente que, se permitirmos que o capitalismo continue sendo a força motriz da ação humana sobre o planeta, não haverá futuro. O autor não fala apenas daquilo que, em um primeiro momento, consideramos responsável pela catástrofe: a queima de combustíveis fósseis, a mineração, a destruição das grandes florestas. Ele situa a evolução da catástrofe climática em um panorama ético, deixando evidente a necessidade de se prestar atenção aos resultados da exploração desenfreada da Terra sobre todas as formas de vida.

Vida em perigo nos instiga a agir hoje, movidos pelo sobressalto que nos causa o conhecimento sobre a tragédia em que estamos envolvidos, para que façamos possível a existência de um amanhã.

Este livro, realizado em colaboração internacional entre a Monstro dos Mares e a AK Press, traz ao público de língua portuguesa a oportunidade de estender a solidariedade entre livros, leitores, espaços comunitários e lutas sociais em todos os lugares.

Vida em perigo: Revolução contra a catástrofe climática

Javier Sethness-Castro

ISBN: 978-65-86008-15-9

188 páginas

R$38,00

Tradução e revisão: Claudia Mayer

Diagramação e montagem: abobrinha

Colaborações: Cassio Macedo Lopes de Aquino e Baderna James

Disponível em: https://monstrodosmares.com.br/produto/vida-em-perigo/

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Árvore sem folha
em invernos rigorosos
parece que hiberna.

Leila Míccolis

[Cuba] A velha doutrina do lumpen proletariado

Por Rafael Rojas | 17/07/2021

Nos dias dos protestos populares em Cuba, a velha teoria do “lumpen-proletariado” é reavivada como um mantra da ortodoxia de esquerda. Funcionários e ideólogos da ilha e seus meios de comunicação e aliados acadêmicos na América Latina a reciclam para explicar a explosão social: aqueles que saíram às ruas em dezenas de cidades e vilas cubanas eram “vândalos, delinquentes, vulgares e indecentes”.

Esta é uma linguagem classista e racista, que também temos visto rearticulada na direita latino-americana, especialmente no Brasil, Chile e Colômbia, embora nesses casos recorra ao não menos antigo arsenal do positivismo criminalista. Nos antropólogos latino-americanos, seguidores da tese de Cesare Lombroso, como o brasileiro Raimundo Nina Rodrigues ou o cubano Fernando Ortiz, desde o início do século XX, foi estabelecida uma conexão direta entre criminalidade, negritude e pobreza.

Pensamos que as ciências sociais latino-americanas há muito abandonaram aquelas ideias superciliares sobre o “submundo afro-cubano”. Durante os anos da Nova Esquerda, o marxismo latino-americano, em contato com autores como Frantz Fanon, E. P. Thompson ou Eric Hobsbawm, questionou preconceitos herdados tanto do positivismo burguês quanto do dogmatismo soviético em relação à rebeldia dos marginalizados.

Mas quando menos se esperava, esses preconceitos ressurgiam, como se apagassem de uma só vez tudo o que George Rudé, Michael Hardt e Antonio Negri aprenderam das leituras sobre a importância das “multidões” na história. No caso da criminalização do protesto em Cuba, é inevitável referir-se ao peso que a tradição do marxismo-leninismo soviético ainda carrega na legitimação do socialismo cubano.

No Manifesto Comunista (1848) Marx e Engels haviam definido o “lumpenproletariado” – uma síntese etimológica de lump (farrapo, andrajo) e proletário (cidadão de classe baixa, trabalhador, operário) – como um setor que poderia eventualmente se juntar à revolução, mas que, devido à sua falta de consciência de classe, tendia a se aliar com a reação.

Em Luta de Classes na França (1850), Marx associou o lumpen proletário com o “mais vil banditismo” e a “venalidade mais suja”. E em seu brilhante ensaio O 18º Brumário de Luís Bonaparte (1852), o fundador do marxismo foi mais preciso ao apresentar o lumpen como a base social do Bonapartismo. Foi a esta definição que Lenin e o marxismo soviético ortodoxo mais tarde recorreram para definir os desclassificados como aliados naturais dos anarquistas, revisionistas e outras variantes teóricas ou práticas de “inimigos do povo”.

Na América Latina, esse marxismo-leninismo ortodoxo promoveu, durante grande parte do século 20, uma visão negativa do populismo baseada na rejeição do caráter revolucionário do lumpen. Em seu livro Vida lumpen. Bestiario de la multitud (2007), o estudioso argentino Esteban Rodríguez Alzueta fez um relato desse repertório de clichês e estereótipos que deram ao racismo e ao classicismo latino-americano uma nova oportunidade através da esquerda.

Diante da explosão social cubana, esses dogmas despertaram em sua forma mais brutal, o que, em suma, justifica a repressão e a deslegitimação. Os manifestantes de 11 de julho foram manipulados por campanhas de rede promovidas do exterior, ou eram “marginais” – um termo usado pejorativamente na língua oficial cubana – prontos para tirar proveito do caos para cometer crimes.

Esta resistência à compreensão da explosão social em Cuba está fortemente endividada a um não menos arcaico excepcionalismo, que expulsa a ilha de seu ambiente latino-americano e caribenho. Cuba continua a ser considerada como um país deslocalizado de sua região, cujo status de vítima dos Estados Unidos naturaliza o autoritarismo.

Fonte: https://www.razon.com.mx/opinion/columnas/rafael-rojas-1/vieja-doctrina-lumpen-proletario-443273?fbclid=IwAR0XV7XIm0SdjmhQw8If7zKYiUXwzL_52E4cEa9ayZal5EXHUkZB19sjbd8

Tradução > Liberto

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Frases compostas
no sol que passeia
sob minha caneta.

Jocelyne Villeneuve

[Itália] 3º Encontro Internacional: três dias contra as tecnociências | 23, 24 e 25 de julho de 2021

TRÊS DIAS CONTRA AS TECNOCIÊNCIAS, em Altradimora, Strada Caranzano 72, Alessandria (AL), Itália.

O programa da reunião será publicado nos próximos dias.

Mais uma vez este ano propomos um momento de discussão e reflexão entre os indivíduos e suas realidades engajados na construção de análises críticas e caminhos de oposição a este tecnomundo.

Vamos nos concentrar nos processos e desenvolvimentos tecnocientíficos que estão se acelerando sob o pretexto desta pandemia, a rede 5G, o Grande Reset, a sociedade cibernética e transhumanista, a necessidade de resistência.

Mais de um ano após a declaração da OMS de pandemia e estado de emergência, a situação planetária se torna mais clara. Uma coisa é certa, este “estado de emergência” é feito para durar muito tempo, o tempo necessário para acelerar certos processos, desde que, entretanto, não tenham decidido dar outro nome a esta “emergência” para continuar. O processo é ainda mais rápido. Um pouco como as variantes contínuas do Coronavírus, necessárias para manter a atenção geral sob pressão e, consequentemente, forçar todas as decisões na agenda do futuro a partir do novo paradigma tecno-médico.

Além dos tempos pandêmicos que querem ser duradouros e sobretudo permanentes, tornando-se o novo normal, outros aspectos deste programa são agora cada vez mais evidentes, o que é realizado internacionalmente de formas muito diferentes dependendo dos países e dos vários blocos geopolíticos. Certamente, em primeiro lugar, uma experimentação sem precedentes da engenharia genética (“vacinas” de DNA recombinante e mRNA) está sendo realizada em setores muito grandes da população: uma terapia genética de reprogramação e modificação celular que permite, além do controle dos corpos, o enxerto de muitas outras práticas tecno-médicas para cada indivíduo desde o nascimento até a morte.

A sociedade digital está invadindo todas as dimensões e aspectos sociais: desde a forma de trabalhar, estudar, viver, até a forma de conceber a saúde, o próprio corpo e o mundo. Não estaremos mais cercados pelos elementos e emoções que compõem todos os corpos, mas por elementos artificiais que nos projetarão irremediavelmente para o mundo dos automatismos mecânicos.

A corrida para o mundo das máquinas é possibilitada pela nova rede 5G que, além de prejudicial por sua própria natureza, será justamente aquele primeiro passo fundamental que dará lugar à internet dos corpos comunicantes, onde os objetos serão tão onipresentes com nossos corpos a ponto de torná-los parte deles em um único todo comunicante, dando lugar a esse organismo cibernético tão caro aos transhumanistas. Estes primeiros aspectos estão permitindo a inervação de muito mais, pense nos novos passes digitais para viajar entre países sem ter que passar pelas diversas opressões de segurança médico-médica e os microchips que serão implantados nos corpos.

O que tivemos que sofrer no último ano e meio é uma consequência do desenvolvimento deste mundo tecnológico, por sua própria natureza ecocida. Obviamente estamos no ponto de uma grande transformação, ao que não estamos acostumados é a velocidade com que a pandemia está ocorrendo ao longo do tempo, escancear como uma esponja que estava lá antes para garantir que um mundo diferente seja possível, no entanto, é impossível mesmo só na memória.

Estes longos meses rasgados entre o medo e a mera sobrevivência biológica tornaram a humanidade incapaz de encontrar o verdadeiro no novo universo do falso, incapaz e refém do novo credo científico. O próprio pensamento é capturado e devolvido incapaz de uma possibilidade crítica. As palavras para descrever o que está acontecendo estão encolhendo e ficando cada vez mais finas, de modo que já são diferentes do que deveriam expressar.

Estes meses finalmente mostraram quem com este estado de coisas, com uma longa fé no progresso da tecnociência, mesmo quando isto foi sem demora para servir à guerra, envenenar o planeta ou nos transformar em armadilhas do mundo. Máquina e corpos escravizados pelo paradigma biotecnológico – permitiram tudo isto. Mesmo antes de apoiar materialmente ideias econômicas precisas, tudo é modificado para a nova transformação, dando a este novo estado de coisas uma aparência salvadora indispensável, por progressistas e esquerdistas que passaram do direito à saúde para o direito a uma vacina para todas e todos, com o pedido de suprimir a vida a fim de protegê-la para um novo bem comum chamado saúde coletiva.

Em meio a essa erosão do pensamento, da crítica, do compromisso e da ação, o que fazer então? Mais uma vez, parece-nos que não é só importante mas fundamental liberar pensamentos livres que podem perturbar o enorme complexo de mentiras que foi posto em movimento. A contrainformação, embora importante, não só não é suficiente, como corre o risco de paralisar a ação em meio a uma invasão constante de dados e informações de todos os tipos que expressam tudo e o oposto de tudo. O que é necessário é uma compreensão da trama que está tomando forma, em sua forma atual, mas acima de tudo na forma que ela tomará num futuro próximo. Os elementos para a construção desta lúcida análise dos fatos já estão presentes. Não é essencial saber se tudo começou em um laboratório de biotecnologia ou em um improvável mercado de peixe.

Para aqueles de nós que organizamos este encontro, é mais claro do que nunca que qualquer forma de análise crítica que realmente queira ter um impacto na realidade deve necessariamente envolver a compreensão dos processos da nova transformação profunda em curso e não pode deixar de se tornar uma resistência ao novo paradigma tecno-médico cibernético e transhumanista. Estamos sempre atrasados, talvez até mais em poucos do que antes e com poucos meios organizacionais. Isto não deve nos desencorajar, considerando que, com o tempo, resistir em nível individual ou coletivo será a única maneira de continuar nos sentindo e nos reconhecendo como seres humanos.

Resistência ao nanomundo, Bergamo.

O lugar onde será realizada a reunião, Altradimora, (www.radiodelledonne.org/altradimora) é uma casa com camas e há a possibilidade de montar tendas no gramado em frente à casa. Ajude-nos a organizar a reunião da melhor maneira possível, divulgando o máximo possível esta apresentação e o programa, avisando-nos com antecedência de sua presença.

Aqui está a apresentação e o programa da reunião anterior:

https://hide.espiv.net/?https://www.resistenzealnanomondo.org/necrotecnologie/2654/

Referência:

https://www.resistenzealnanomondo.org/necrotecnologie/biotecnologie/programma-tre-giornate-contro-le-tecno – ciências /

Para informações, reservas e contatos:

 www.resistenzealnanomondo.org, info@resistenzealnanomondo.org

www.facebook.com/3giornatecontroletecnoscienze/

Fonte: https://contratodanocividad.espivblogs.net/italia-3o-encuentro-internacional-tres-dias-contra-las-tecnociencias-23-24-25-de-julio-2021/

Tradução > Liberto

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Tendo a ser, mas pouco:
resta ainda um tempo
que me espera e reclama.

Thiago de Mello

[Espanha] Hasta siempre, Anselmo

O companheiro Anselmo Tamayo, membro da SAYSEP em Valladolid, faleceu na segunda-feira, 19 de julho. Ele será colocado para descansar no dia 20 na mortuária de El Salvador, em Valladolid, às 16h00.

Um representante regular nas eleições confederadas e sempre dando uma mão à Organização.

Para Anselmo Tamayo

Adeus Anselmo

Se nosso sindicato é, como você dizia, vocação, dedicação, paixão, ação, veemência, convicção, colaboração, vontade, generosidade e dedicação, Anselmo, você foi, você é e você será para sempre, nossa referência.

Ninguém com maior vocação e paixão por esta organização. Você se entregou, Anselmo, sem reservas a tudo o que empreendeu. Você foi apaixonado ao ponto do excesso, um lutador incansável e com sua disposição infinita, você estimulou todos nós ao seu redor, infectando-nos com sua energia para a ação.

Você nunca foi superado por nenhum desafio e nunca desistiu de nada. Teimoso em suas convicções, veemente em sua defesa das mesmas, mas capaz de reconhecer erros e mudar critérios quando os argumentos eram razoáveis.

Generoso e disposto, você não poupou nem um pouco de energia em sua dedicação ao sindicato e àqueles de nós que o compõem. Sempre avançando para assumir responsabilidades; sempre na linha de frente, e em tantas ocasiões colocando sua vida em risco, e também perdendo.  Você deu tudo de si até o último momento e até o último suspiro. Por isto, por esta dedicação desmedida, você nos privou de sua companhia muito cedo.

Amigo Anselmo, companheiro Anselmo. Não nos despedimos de vocês, porque não podemos nem queremos. Você ainda está aqui, dando-nos guerra porque, como aquele que mais o ama hoje me disse, companheiro Anselmo, você é um guerreiro.

Que sua chama nos ilumine, seu exemplo nos guie e sua memória nos impulsione a tornar esta Confederação Geral do Trabalho ainda maior.

Descanse, porque você o merece.

Fonte: https://cgt.org.es/hasta-siempre-anselmo/

Tradução > Liberto

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Laranjais em flor.
Ah! que perfume tenuíssimo…
Esperei por ti…

Fanny Dupré

[País Basco] Homenagem ao anarquista Lucio Urtubia em Cascante

Por Fermín Pérez-Nievas | 17/07/2021

Faz um ano que faleceu Lucio Urtubia, “um pedreiro anarquista cascantino” que levou seus ideais até as últimas consequências. Amigos e companheiros prestaram hoje (17/07) uma calorosa homenagem em Cascante e destacaram seu legado revolucionário.

“Outros Lucios serão necessários no futuro”. Com esta frase do antigo senador Patxi Tuñón se poderia definir o legado deixado pelo anarquista cascantino Lucio Urtubia (1931-2020) um ano após a sua morte. Um tributo caloroso, simples e sincero foi prestado este sábado em Cascante a um anarquista que levou a sua utopia de um mundo igualitário e justo às suas últimas consequências. Como salientaram no decorrer do mesmo, ele tinha a “capacidade de ser não sectário e, ao mesmo tempo, de travar uma luta ideológica constante para tentar convencer todos de que o anarquismo era o único caminho para um mundo melhor e mais livre”.

Amigos da infância, amigos a quem abriu as portas da sua casa no bairro parisiense de Belleville, ex-prisioneiros e familiares de prisioneiros bascos a quem deu uma cama e um lugar para ir quando saíram da prisão, companheiros de luta, promotores de livros e documentários e, em suma, toda uma série de pessoas que conheciam, admiravam e amavam este cascantino participaram na homenagem no Romero onde ele plantou árvores quando jovem. Também a sua família, Anne, a sua filha Julliette e os seus netos que viram a sua vida e o seu legado se desdobrarem.

“Incansável, imprevisível, inatingível, irreverente, inacessível, indomável, inesquecível e inevitável” foram alguns dos adjetivos utilizados para descrever Lucio Urtubia, que chegou ao anarquismo encorajado pelo seu pai, um socialista, que antes de morrer na prisão lhe disse “Eu seria um anarquista hoje se houvesse uma nova vida”. Depois de fugir para França depois de ter sido descoberto contrabandeando equipamento militar enquanto fazia o seu serviço militar, conheceu Breton e Camus, mas a pessoa que realmente o influenciou a dedicar a sua vida ao anarquismo foi o catalão Quico Sabaté.

Para além da sua faceta revolucionária e anarquista, que se espalhou pelo mundo através de vários livros, HQ e um documentário (e que o levou a falsificar dólares e cheques bancários ao ponto de quase levar à falência o City Bank), a homenagem revelou facetas inéditas e anedotas do homem Lucio, embora ele nunca se desviasse de seu ideal político. “Roubar um banco não é roubar”, “a utopia é necessária, o que é desejado pode ser alcançado para se atingirem os objetivos”. Mais de um dos presentes definiu-o como “um homem de ação com ideais ambiciosos, a luta de classe revolucionária internacional para recuperar a dignidade do povo”, mas longe de ser um clichê, Lucio colocou em prática.

O advogado Pepe Uruñuela, Angelito (companheiro de infância do restaurante El Lechuguero), Marco Bellizzi eNekane Solana (que viveram cinco anos como parte da sua família com eles em Paris), Patxi Tuñón, José Mari Esparza (da editora Txalaparta onde foram publicados os livros que lhe trouxeram fama internacional), José Olaizola (CGT), José Antonio Antón (professor em Cascante), a Chula Potra e os autores do documentário sobre a sua vida, narraram momentos e anedotas que tinham como ponto em comum as suas fortes convicções e o seu grande coração que ele definia como “um pedreiro anarquista de Cascante”, uma terra que ele nunca renegou e à qual sempre que podia regressava. De fato, como explicou Uruñuela, a sua vida foi marcada por duas cidades: “Cascante e Paris… Sim, não olhe assim porque para quem não sabe, Cascante tem o título de cidade”.

O seu companheiro de infância, Angelito El Lechuguero (o restaurante) recordou como quando lhe perguntavam o que era a Democracia, respondia “A Democracia é El Lechuguero do meu povo, que trata todos da mesma maneira”, disse ele e descreveu o seu Lucio como “um pouco conflituoso e um pouco zangado, mas uma grande pessoa. Discutíamos muito sobre política, mas sempre a resolvíamos com um vinho”.

Aqueles que ficaram em sua casa com Anne, sua esposa, lembraram-se de como ele os tratava, trazendo-lhes baguetes e croissants de manhã, quando ele saía para o trabalho às 4 da manhã. Não surpreendentemente, um dos gestores da livraria Katakrak em Pamplona observou como se dirigiu a um grupo de jovens dizendo-lhes “para ser um anarquista é preciso trabalhar muito”, sobre uma bandeira anarquista que dizia “abaixo ao trabalho”.

Todo o dinheiro que ele recebeu de assaltar bancos ou roubá-los (ele parou de roubá-los por medo de causar dano a algum funcionário) foi dado aos movimentos libertários latino-americanos ou europeus. Neste sentido, Uruñuela apontou como “No final dos anos 70, Lucio abasteceu uma grande parte de La Ribera com multicopiadoras, de fato tenho certeza de que ainda há alguma que está enterrada em algum lugar em Tudela”. Uma tarefa que ele repetiu quando obteve algum dinheiro para os livros publicados pela Txalaparta, “era tudo para presos políticos”, eles explicaram e lembraram como ele costumava dizer que “a prisão não é nem mesmo para meu pior inimigo”.

Dois testemunhos foram especialmente emocionantes. Por um lado, o de dois prisioneiros bascos que deixaram a prisão em Paris e viveram na casa de Lucio e parentes de prisioneiros que tiveram que viajar por horas e encontraram refúgio em sua casa em Belleville (“ele procurou trabalho para mais de 15 refugiados para que pudéssemos estar aqui”, lembraram) e o de sua amiga íntima Esther Ferrer, que enviou uma gravação. Nela, mantém um diálogo imaginário com Lucio, a quem dizia “onde você está agora, deve haver muita gente, você se depara com Durruti? e Che? talvez você já tenha tentado doutriná-los. Você deve estar ficando entediado” e cantou duas canções que ele gostava, Marusiña e ¡Ay, Carmela!

O encontro terminou com a voz de Lucio (gravada) cantando uma canção anarquista da comuna francesa do século XIX e o público cantando “a las barricadas”. Seu último legado físico foi a criação do espaço Louis Michel, que existe em Paris desde 1997, para artistas “solidários que querem expor fora dos grilhões das galerias”.

Em setembro, Pamplona será palco de uma montagem de imagem e som que foi criada para manter viva a memória de Lucio Urtubia.

Fonte (mais fotos): https://www.noticiasdenavarra.com/navarra/tudela-y-ribera/2021/07/17/homenaje-anarquista-lucio-urtubia-cascante

Tradução > Argy

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sombra da luz
na lua e na rua
alvo do lago

Alice Ruiz

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