1º de Maio Libertário no Espírito Santo

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Aproxima-se mais uma vez a histórica data 1º de Maio e o contexto no qual esta se desdobrará é crítico para os explorados. A elite empresarial aliada ao Estado brasileiro promove um grande ataque coordenado contra os direitos dos trabalhadores, almejando concentrar ainda mais riqueza e, logicamente, precarizar ao limite as relações de trabalho.

De tal modo, os sindicatos (e outras entidades) pelegos, que sempre estiveram ao lado do Estado e do Capital, não promovem (ou não querem promover) resistência, mantendo-se praticamente na inércia. Quando muito, resmungam por migalhas que são incapazes de fazer frente às agressões capitalistas, situação que não poderia ser diferente ante a lógica de submissão na qual estão inseridos até o pescoço.

Lado outro, os anarquistas do território do Espírito Santo se insurgem contra esta lógica econômica e sindical perversa, vendida e contrarrevolucionária, que por sua essência é absolutamente ineficaz na defesa dos direitos dos explorados e ainda mais imprópria para a transformação social em bases libertárias.

Assim, propomos:

> GREVE GERAL INDEFINIDA

> RESISTÊNCIA EM TODOS OS ÂMBITOS: CASAS, ESCOLAS & LOCAIS DE TRABALHO

> PROMOÇÃO DA AUTOGESTÃO E AÇÃO DIRETA, APOIO MÚTUO PELA ANARQUIA

Ocorrerão atos nas seguintes regiões:

> Grande Vitória – panfletagem, conversações e colagens

> Região Sul – panfletagem, conversações e colagens

Assinam o presente: FOES, COLETIVO AUTOGESTÃO E INDIVIDUALIDADES LIBERTÁRIAS.

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agência de notícias anarquistas-ana

Pássaros em silêncio.
Noturna chave
tranca o dia.

Yeda Prates Bernis

Sobre paz, amor e um pouco de guerra: relato dos dias com Penny Rimbaud no Brasil

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Sobre paz, amor e um pouco de guerra: relato dos dias com Penny Rimbaud no Brasil

Por No gods No masters & Imprensa Marginal

(…) tanto na memória e/ou imaginação de muitas outras pessoas, Crass está praticamente cravado na pedra, uma pedra que porventura irá rolar para o topo de uma colina da qual, com ou sem ajuda, irá eventualmente rolar para baixo novamente. Quando a pedra está no topo da colina, algumas pessoas parecem gostar de poli-la, deixando-a tão brilhante que é possível ver seus próprios rostos nela. Elas querem se ver nela, como se de alguma forma pudessem fazer parte dela, ou a pedra uma parte delas. Elas não querem ver as sujeiras, as partes ásperas, então passam a polir mais e mais até que, em suas frustrações, empurram a pedra, enviando-a novamente colina abaixo. Quando a pedra está no pé da colina, algumas pessoas gostam de mijar nela, como se isso fosse de alguma forma negar seu poder ou pelo menos diminuí-lo. Mas Crass foi ali, numa outra época, e não agora, então como pode este poder ser negado? Não faz diferença nenhuma se a pedra está no topo da colina sendo polida, ou se está no pé da colina sendo mijada. Crass foi um acontecimento; aconteceu e deixou de acontecer. O que outras pessoas fazem dele é da conta delas, o que, na verdade, não tem ligação a lguma com Crass. (…) Polir ou mijar, mudança não é estrutural, mas atitudinal; mude você mesmo, mude o mundo, e se as memórias do Crass te ajudarem nisso, ótimo. Se não ajudar, ótimo também.”

Penny Rimbaud, janeiro de 2017

Introdução de “Eles Nos Devem Uma Vida – Crass: Escritos, Diálogos e Gritos”

Foram dias bastante intensos, tanto no sentido objetivo da organização em si, quanto com relação a tudo que vivemos, pensamos e experienciamos durante a rápida passagem de Penny Rimbaud pelo Brasil. Esse relato tenta dar conta de um pouco disso tudo.

Penny, um dos formadores da banda inglesa Crass nos anos 70, então baterista e autor de muitos de seus escritos, letras e panfletos, esteve durante grande parte de sua vida envolvido em projetos e iniciativas contraculturais, artísticas e libertárias, e ainda hoje, aos 74 anos, segue escrevendo, criando, e conspirando novos projetos – que em sua maioria brotam da casa-comunidade Dial House, onde vive desde o final dos anos 60, em meio a um enorme jardim onde plantam parte do que comem e fazem germinar novas idéias e propostas de vida. Foi ali nesse terreno em Essex, Inglaterra, que, aind a no final dos anos 60, decidiu tirar todas as trancas e fechaduras da casa, para criar uma casa aberta a todo tipo de iniciativa subversiva e contracultural… E as pessoas começaram a chegar. Dali muita coisa surgiu, antes, durante e depois do Crass, talvez um dos projetos mais conhecidos nesta história.

Um belo dia, umx de nós foi até a Dial House sem aviso, sem contato prévio, somente com o endereço e a vontade de conhecer de perto essa experiência. E foi recebidx com uma xícara de chá, muita conversa, comida e uma cama para passar a noite – como se aquela pessoa estranha que chegava ali, fosse uma velha amiga de anos. De toda essa receptividade, duas visitas à casa e dois anos de conversa coletiva, nasceu essa pequena turnê pelo Brasil e o livro “Eles nos devem uma vida – Crass: Escritos, diálogos e gritos”, que acaba de sair do forno.

Foram dez dias, com três conversas com Penny durante o No Gods No Masters Fest na Semente Negra, em Itanhaém/SP, uma em São Paulo/SP no SESC Consolação, uma em Divinópolis/MG no Movimento Unificado Negro de Divinópolis organizado pelo Coletivo Pulso, e uma em Belo Horizonte/MG no Cine Santa Tereza, organizado pelo Coletivo Metalpunk Overkill junto a uma linda feira de materiais anarquistas, livros, discos, zines, rango vegano e produtos artesanais de iniciativas autônomas. Durante as atividades também rolou exposição fotográfica com imagens atuais da Dial House, colagens de Gee Vaucher, exibição simultânea de uma vídeo-arte de Penny, e lançamento do livro. Foram dez dias de muita conversa e convivência, algumas idas a praia, ao mar, ao rio, ao histórico Centr o de Cultura Social em SP, a uma recente casa okupada em BH, ao espaço do Coletivo Pulso em Divinópolis, à comunidade indígena Awa Porungawa Dju – em um bonito encontro com o Pajé Guaíra, que lhe presenteou com um nome em tupi-guarani. Foram dez dias fazendo pão, cozinhando, compartilhando risadas, experiências, sabedorias, diferentes realidades, e, sobretudo, muito amor. Só o que pudemos ver é uma pessoa muito simples, muito amorosa, com um coração enorme e muita vontade de compartilhar e participar de tudo, da maneira mais horizontal possível, em todos os momentos – e isso se mostrou não apenas nas c onversas, mas também no ato de lavar a louça, fazer comida coletivamente, afiar as facas da casa, trocar conhecimentos, ajudar a arrumar, organizar, carregar e o que mais fosse preciso, participar na resolução de problemas, ensinar tai chi chu an, fazer chá… Esse encontro nos gerou muitas reflexões e inquietações, assim como tantas outras pessoas que acompanharam as atividades vieram relatar.

Em algumas de suas falas, Penny falou sobre Crass, Dial House, movimento hippie, punk, anarcopunk, anarquismo de forma mais direta e baseada em suas memórias e críticas. Em outras, tentou introduzir um pouco de suas tantas reflexões filosóficas sobre o que seria esse “si mesmx”, presente na frase “não existe autoridade além de você mesmx”. Falou de amor, paz, zen-budismo, filosofia, e por vezes tentou desconstruir o mito gerado em cima do Crass e sua história, tentando trazer outros pontos em questão, pautados em tudo que se seguiu em sua vida depois da banda. Suas visões e dúvidas sobre nossa realidade, o racismo no Brasil, questões indígenas e outros pontos surgiram no decorrer desses dias. Para além das respostas e reações à agenda imposta pelo sistema e da reafirmação do que é ruim, propôs a importância da criação de novas formas de vida e de tudo o que buscamos e acreditamos. No sentido inverso da imposição de dogmas e intransigências em nossos espaços de atuação, propôs o respeito e o diálogo. Em todos os momentos, paz e amor estiveram presentes nas falas desse velho hippie-punk-zen-inominável.

Crass e toda a história que envolve esta banda-coletivo inglesa, que tanto inspirou outras movimentações e iniciativas anarquistas/punks/libertárias mundo afora, nos inspirou igualmente em muito do que construímos. Enquanto ecoava na Inglaterra dos anos 70 a falta de perspectiva e a inexistência de um futuro, aquele pequeno grupo de pessoas propôs e vislumbrou esse futuro, baseado em um senso genuíno de comunidade, autonomia e liberdade, que poderia ser criado coletivamente se estivéssemos preparadxs para construí-lo. Anarquismo, faça-você-m esma, pacifismo, direitos animais e feminismo foram algumas das ideias que fervilharam nesse contexto, a partir de uma crítica ácida e visceral contra todo o caráter midiático, vendável e banal que o punk ia tomando naquele momento.

Mas não há porque “polir a pedra”: assim como qualquer outra experiência neste sentido, sempre existirão divergências, discordâncias e outras maneiras de fazer as coisas que nos agradam mais ou se adaptam melhor a nossa realidade. Como diz a citação acima, “Crass foi um acontecimento. Aconteceu, e deixou de acontecer”. Pertence a um tempo, a um contexto, a um local geográfico específico, com suas questões sociais, políticas e econômicas. Esperar que este acontecimento preenc ha nossas próprias necessidades e atenda por completo a nossos contextos não faria sentido algum. “Mijar na pedra” por não ver nela o espelho que gostaríamos, também não faz sentido. O Penny que aqui esteve, com seus 74 anos, seguiu em frente desd e aqueles dias de Crass, seguiu adiante com ideais que lhe foram importantes, abandonou outros, e assim segue em meio a toda a sua meditação e ação cotidiana. Muita história, vivência, reflexão e inspiração, com muito amor e um pouco de guerra. Muito ficou aqui, e muito foi para lá – trocando experiências e realidades, na construção de outras maneiras de viver e conviver com o mundo que nos cerca, mudando tudo ao redor. Se essas experiências ajudaram nisso, ótimo. Se não ajudaram, ótimo também.

Não existe autoridade além de nós mesmas, então… tomemos as rédeas de nossas próprias vidas!

Fonte, mais fotos: http://nogods-nomasters.com/nogodsnomasters/penny-rimbaud/

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agência de notícias anarquistas-ana

Água de cristal
Forma nuvens coloridas
No meu céu de sol.

Claudia Chermikoski

[Espanha] 1º de Maio de 2017: Contra a precariedade, a corrupção e a guerra

Pela Greve Geral indefinida

A precariedade e corrupção na Espanha

O governo e os meios de comunicação seguem insistindo na progressiva recuperação econômica que vive o país. Por outro lado, a taxa de desemprego supera os 4 milhões de pessoas, sendo o trabalho negro, a precariedade laboral, as rendas de inserção nas comunidades autônomas (‘RMI’ na Comunidade de Madrid), e as economias e pensões de familiares idosos, os suportes que tem os trabalhadores na Espanha para lidar com tão penosa situação. Os serviços sociais de Madrid estão colapsados e os investimentos no âmbito social são cada vez menores. Cada vez mais dinheiro é posto no sentido da terceirização de serviços, sendo consequências diretas a precarização dos serviços sociais, um pior serviço com mais gasto para o s contribuintes e o lucro direto de diversas ONGs que vivem da terceirização, da precariedade e da exclusão social.

A pobreza infantil na Espanha se multiplicou por cinco durante a crise. Entre 2008 e 2015 o número de crianças em situação de pobreza extrema aumentou para mais de 400.000. A precarização e a destruição dos postos de trabalho levaram a grande empobrecimento das famílias obreiras. Isso se traduz na falta de acesso aos serviços para os menores, má alimentação e graves consequências para a saúde.

Todos os dias seguem acontecendo despejos na Espanha, pois as famílias não conseguem pagar as hipotecas. Se realizaram centenas de milhares de despejos desde o começo da crise, enquanto que o investimento em habitação por parte do Estado foi reduzido em 50%, ao passo que milhares de casas se encontram vazias. Cerca de 30% dos imóveis desocupados da Europa estão na Espanha. Chegou-se a tal ponto que na Espanha uma das principais causas de mortes é o suicídio.

A Espanha é o país com a maior desigualdade dentro da União Europeia, variando entre a segunda e quinta colocação. Essa condição, longe de diminuir, aumentou desproporcionalmente na crise, polarizando a sociedade. Cerca de 30% da população espanhola vive em risco de pobreza extrema em razão dos baixos salários, o desemprego e a precariedade laboral. De outro lado, 1% da população concentra quase 70% da riqueza do país. Os políticos jogam seu papel promovendo políticas que reforçam e protegem a concentração da riqueza nas mãos de uns poucos.

Já está mais do que demonstrado que aos representantes políticos pouco lhes importa a situação social. Seu objetivo não é outro que viver das instituições do Estado. Isso expressou claramente o senador do PP Eugenio González: “que trabalhem os idiotas”. Sendo que os idiotas que os sustentam, a eles e aos empresários, com seus salários, vícios e nível de vida. Obviamente que esse senhor não irá renunciar ao seu cargo.

No dia 23 de fevereiro se publicou a sentença dos cartões pretos. Na mesma, representantes do PP, PSOE, IU, CO e UGT, conselheiros na Caixa de Madrid, depois de gastar durante anos centenas de milhares de euros “de representação”, são condenados a penas irrisórias por apropriação indébita. O mais provável é que nenhum sequer pisará na prisão, sejam em razão das baixas pena, seja porque lhes sobra dinheiro.

A trama da ‘Púnica’ é outro caso dos mais comentados e com mais repercussão midiática na Espanha. Na mesma se prenderam e processaram dezenas de membros do PP e do PSOE, bem como empresários, todos acusados de corrupção, pagamento de comissões ilegais através de uma trama societária. Esse caso atingiu profundamente a cúpula do PP em Madrid. Os mesmos que enchem a boca de democracia e liberdade para encarcerar aqueles que lutam contra as injustiças.

A guerra no mundo

O sistema econômico capitalista não faz estragos somente na Espanha. Diversas guerras sacodem o mundo hoje em dia. Algumas mais midiáticas, outras menos. A maior parte com a justificativa de defesa da paz e promoção da democracia. No entanto, por trás desses conflitos patrocinados pelos Estados Unidos, Rússia, China, Irã, a União Europeia ou a Grã Bretanha e França em particular, primam os interesses econômicos das multinacionais e os interesses geopolíticos dos Estados, os quais giram em torno da construção de grandes estruturas, o controle do gás e do petróleo, das reservas minerais e de outros recursos naturais.

Atrás de cada arma, míssil, bomba, avião de combate e exército, existem empresários que lucram com o negócio da morte e do sofrimento. Um exemplo que temos na Espanha é o ex-ministro da defesa, Pedro de Morenés y Álvarez de Eulate, vinculado a alta nobreza espanhola e empresário da indústria armamentista.

A Espanha foi e é um dos maiores provedores de armas para o mundo nos últimos 50 anos, com a desculpa da defesa. No entanto, entre os seus clientes estão diversos países que estão envoltos em guerras com outros países ou conflitos internos. Alguns deles são o Reino Unido, Arábia Saudita, Iraque, Líbia ou Venezuela.

De outro lado temos as centenas, talvez milhares, de vítimas civis que morrem diariamente por causa dos conflitos armados que sacodem o mundo. Milhões de trabalhadores que tem que se submeterem ao sorteio da morte para manterem suas famílias.

Existem, pois, motivos para se organizar. Para a greve geral indefinida

Tanto dentro das fronteiras do mundo ocidental, quanto fora, nós, os trabalhadores, temos que sofrer as misérias a que somos condenados por empresários e políticos. De dentro, temos que sofrer o deslocamento das fábricas, a destruição dos postos de trabalho e o medo contínuo do desemprego, assim como a frustração de que jamais alcançaremos o nível de vida que nos vendem como o ideal de qualquer país rico e desenvolvido. Tudo isso com o fito de nos explorar e tirar de nós o máximo de proveito de nosso trabalho com o mínimo de salário (e se ainda economizam com a Seguridade Social, melhor ainda), embolsando tudo.

Fora do Ocidente, os negócios da guerra e os interesses imperialistas das multinacionais e do Estado mantém na miséria milhões de pessoas nos cinco continentes, sofrendo fome e guerras que nunca acabam.

O deslocamento da indústria europeia é outra manobra patronal para economizar na fabricação de produtos, mantendo milhares de trabalhadores e crianças em condições subumanas e de semiescravidão. Foi assim que Amancio Ortega, fundador da Inditex, fez sua fortuna, sendo aplaudido na Espanha como um empresário exemplar, ao passo que é exaltado pelos mesmos políticos que criam os esquemas de corrupção para enriquecerem, e por empresários que financiam aos partidos políticos que promovem políticas que defendam seus interesses de classe contra os trabalhadores.

Ante essa situação, é necessário que nós trabalhadores nos organizemos para colocar sobre a mesa a ferramenta mais efetiva que contamos tanto em nível local quanto internacional, a greve geral indefinida. Para parar as investidas neoliberais na Espanha, tanto como contra as guerras que assolam as populações do mundo em virtude de negócios de uns poucos empresários e políticos.

Longe dos sindicatos pelegos, que são parte da engrenagem da máquina neoliberal, temos a alternativa de criar e fomentar redes, coletivos e sindicatos de funcionamento horizontal, assemblearios e solidários, que são a melhor ferramenta para colocar travas ao neoliberalismo, tanto no aspecto laboral quanto no social, e ainda para defender e promover nossos interesses como trabalhadores.

NEM GUERRA ENTRE POVOS, NEM PAZ ENTRE CLASSES

PARA A GREVE GERAL INDEFINIDA

PELA ANARQUIA

Grupo Anarquista Tierra

grupoanarquistatierra.wordpress.com

Fonte: https://federacionanarquistaiberica.wordpress.com/2017/04/11/1o-de-mayo-de-2017-contra-la-precariedad-la-corrupcion-y-la-guerra/#more-790

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Amanhece em flor
e anoitece pelo chão
— efêmero ipê

Marba Furtado

Portugal e a extrema-direita

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Por Fernanda Câncio

Não há forma de saber em quem votam preferencialmente os portugueses emigrados em França. Há a ideia de que a maioria – ou uma parte considerável – vota na Frente Nacional, e de fato não é difícil nas reportagens em França encontrar portugueses que apoiam Marine Le Pen, mas com tantas intenções de voto nela na população geral, e especialmente na dita “classe operária” e pequena burguesia (à qual pertencerá a maioria dos luso-franceses), tal não será sur preendente. A não ser por um motivo, claro: todos ou quase todos os emigrantes entrevistados que declaram apoio a Le Pen dizem fazê-lo porque ela quer “endurecer a política da imigração”. Ouvir emigrantes a defender tal coisa não pode deixar de chocar. Primeiro, porque aquelas pessoas parecem não se dar conta da total contradição entre a sua situação e o que defendem; segundo, porque a explicação dessa ausência de noção é a ideia de que as políticas de Le Pen, apesar de esta insistir em usar a expressão “français de souche” (que pode ser traduzida como “francês de origem”, no sentido de “puro”) não se lhes dirigem porque eles são imigrantes “bons”, ou seja, europeus, brancos, cristãos, “esforçados” e “integrados” (aliás, Le Pen co stuma elogiar a imigração portuguesa nesses mesmos termos) – enfim, gente que “não arranja problemas”. Ou seja, muito simplesmente dito: a explicação desta ausência de noção, se pode ser entendida como pragmática (no sentido de que pensarão que mais imigrantes prejudicam os que já existem) é também xenófoba.

Há muito são adiantadas explicações sociológicas para esta alegada preponderância da extrema-direita na comunidade luso-francesa – a principal das quais tendo que ver com o fato de muita dela ter emigrado antes da instauração de um regime democrático em Portugal e portanto, paradoxalmente, apesar de o ter feito “a salto” (fora da lei) por viver em condições miseráveis, subscrever, por não conhecer outra, a cartilha do regime anterior. Mas, sejam quais forem os motivos, a ideia de que boa parte dos emigrantes portugueses no país onde há mais portugueses emigrados votam na extrema-direita choca com o comportamento dos eleitores em Portugal, considerado, com a Espanha, uma exceção numa Europa na qual a extrema-direita ganha balanço.

Mas talvez não haja choque algum. Qualquer pessoa que já tenha feito reportagem pelo país ou esteja atenta às discussões que permitam aferir da xenofobia dos intervenientes (nas redes sociais e fora delas) não pode deixar de se dar conta de que esse tipo de discurso não é de todo excepcional. Veja-se por exemplo o tratamento dado à comunidade cigana por algumas autarquias; o hábito arreigadíssimo de usar sapos em estabelecimentos comerciais para “afastar” os membros da etnia (prática denunciada no curta-metragem de Leonor Teles, Balada de um Batráquio, que ganhou o Urso de Ouro em 2016); a forma como se noticiam e normalizam os raides [operação militar] policiais em bairros de maioria negra e a profusão, no dia-a-dia, de atitudes e comentários racistas dirigidos a negros; a onda de indignação com a intenção da Câmara de Lisboa de financiar a construção de um centro comunitário que inclui uma mesquita.

Aliás, numa sondagem de 2016, efetuada para o arranque do programa da SIC E se fosse consigo, 16,4% dos inquiridos admitiram ser racistas e 11% disseram “não saber” ou não responderam, sendo 26,1% os que confessaram não apoiar um namoro do filho ou filha com alguém negro. E se 72,9% se afirmaram não racistas, 43,7% acham que os portugueses o são. Uma sondagem vale o que vale, claro – mas nos resultados do eurobarômetro de 2015 sobre discriminação as respostas dos portugueses, se dão a ver progressos no que respeita à aceitação de alguns grupos discriminados (nomeadamente LGBTQI), não se distinguem pela positiva face, por exemplo, às dos franceses.

Se os portugueses não forem menos xenófobos e racistas que os franceses, porque será então que isso não tem, em Portugal, correspondência no espectro político e nas intenções de voto? Talvez porque, ao contrário do que sucede noutros países que tiveram colônias, como França e Reino Unido, os grupos étnicos delas provenientes são praticamente invisíveis; não competem, não disputam lugares nem empregos “desejados”, não surgem como “uma amea&cced il;a” para os “portugueses puros” (para usar a horrível expressão de Le Pen), não exigem igualdade. Basta ligar a TV ou olhar para o Parlamento, passear no centro das principais cidades, frequentar restaurantes, bares, lojas – ou, o que é ainda mais aterrador, as escolas depoi s do secundário. Onde estão os negros portugueses? Em bolsas urbanas – os “bairros deles” – e de trabalho desconsiderado (obras, limpeza, etc.), nas “discotecas deles”, nos “restaurantes deles”. Não estão, decerto, nas redações dos jornais, das rádios, das TV. E, salvo raras exceções, estão calados. Não reivindicam, não se manifestam. Se Le Pen fosse portuguesa, podia dizer deles o que diz dos luso-franceses: “Portam-se bem.” Enquanto assim for, e continuar a haver uma tão diminuta presença muçulmana em Portugal, pode mos permanecer na ilusão da nossa “excepcionalidade”. E da nossa brandura política – filha, é claro, dos nossos brandos costumes.

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agência de notícias anarquistas-ana

Parou a chuva
o pintor mergulha o pincel
no arco-íris

Eugénia Tabosa