Carta a Carlo Giuliani

Por Tomas Rothaus

«Se falamos sério sobre revolução, devemos olhar para a história com olhos severos e ver suas consequências, não apenas se falharmos, mas mesmo se triunfarmos. Revoluções significam sangue, morte e sofrimento. Se não estamos dispostos a aceitar isso, então não deveríamos invocá-las.»

As lições de Gênova, Barricada #8, verão/setembro de 2001

Escrevi essas palavras outrora, Carlo, quando teu sangue ainda estava fresco no asfalto e teu nome ainda estava em todos os jornais e em todas as televisões. Publiquei-as em nossa revista anarquista, Barricada, e continuo a compartilhá-las. Mas, por favor, não as interprete mal. Lamento que não estejas mais aqui e vivo tua morte como uma tragédia. Ainda hoje penso em ti mais do que possas imaginar. Espero não ser o único, nisso.

Por anos e anos, enquanto pude, certifiquei-me de que, a cada 20 de julho, a raiva que carregávamos no coração por tua morte fosse direcionada contra nossos inimigos. Em cidades aleatórias, em qualquer país em que estivesse, garantíamos que as garrafas molotov iluminassem a noite, que chovessem pedras na escuridão contra os bancos, que emboscadas fossem armadas para as patrulhas dos tiras, que teu nome fosse gravado nos muros de Boston, Göttingen, Paris, Berlim. Às vezes, para celebrar tua vida e não tua morte (além de despistar os tiras), escolhíamos vingar-te no dia do teu aniversário, 14 de março, em vez do dia da tua morte.

Hoje, décadas após aquele 20 de julho de 2001, lembro-me de ti frequentemente das maneiras mais inesperadas. Vejo uma pessoa por volta dos quarenta anos. Vestida decentemente, em ordem, talvez com um terno de escritório ou um uniforme de trabalho. Um ser humano velho o suficiente para parecer marcado pelos estresses inevitáveis da vida, do amor e do trabalho, mas ainda jovem o bastante para que sua juventude transpareça por trás da sombra da barba do fim do dia e de um princípio de barriga de cerveja. Porque quando vejo essa pessoa comum, qualquer pessoa que tem mais ou menos a idade que terias hoje, lembro-me do dia em que a bala de um carabineiro te tirou a vida e teu futuro.

Não me indigna tanto tua morte, mas toda a vida da qual foste roubado.

Tínhamos uma afinidade na luta, e foi apenas o acaso que te colocou naquele confronto específico, naquela praça determinada; aquela em que eu e meus amigos, por acaso, não estávamos. A única vez, naquele dia particular, em que as forças da ordem não apontaram suas armas para o céu, mas contra a cabeça de um ser humano. Tua cabeça.

Pelo que me dizem, se vivêssemos na mesma cidade, há boas chances de não nos darmos muito bem. Dizem-me que eras um dos punkabbestia de Gênova, o que (pelo que entendi) são semelhantes aos chaos punk, os punks de rua que tínhamos nas minhas bandas. Não particularmente organizado, às vezes presente em alguma assembleia política, mas definitivamente não um ativista, militante ou quadro de algum tipo. As Tute Bianche, cujas declarações ainda hoje tenho óbvias reservas em tomar como verdadeiras, te definiram como «não particularmente político». Disseram que costumavas passar o tempo na Piazza delle Erbe, «pedindo esmola e vagabundeando com amigos e cães de rua». Contra o que não tenho absolutamente nada, mas todos sabemos que os punks de rua e os jovens anarquistas ortodoxos e obsessivos muitas vezes não se davam muito bem.

Nada disso importa, no entanto. O que importa é que te congelaram no tempo. Serás para sempre um jovem punk de rua, se é realmente isso que eras, privado da oportunidade de fazer qualquer coisa que te desse alegria e te fizesse sentir completo como pessoa nos anos e décadas que te restariam. Talvez tua rebelião inicial, no fim, se tivesse atenuado, terias terminado os estudos universitários, tirado um diploma, seguido em frente, olhando com desprezo para teus dias na rua como rebelde e marginalizado. Ou talvez os olhasses com nostalgia melancólica, como um capítulo saudável que atravessaste em tua existência antes de se assimilar, encontrar um bom trabalho sindicalizado graças aos contatos de teu pai, constituir família e jogar uma moeda para a próxima geração de punkabbestia ao cruzá-los pelas ruas que outrora foram tuas. Ou, quem sabe, poderias ter te tornado um velho punk de cabelos grisalhos mas ainda livre, com o cão ao lado, fazendo a coleta para Gênova até este preciso dia.

Mas roubaram-te o futuro, portanto não serás nunca nenhuma dessas coisas. Não nos trairás, não seguirás adiante, não caminharás entre nós. E, mesmo que minhas aventuras não me tivessem exilado da Europa e eu pudesse me encontrar novamente em Gênova, nunca recordaríamos juntos aquele dia de verão tão quente e ensolarado em que poderias ter ido ao mar e, em vez disso, indignado com a invasão policial de tua cidade, te juntaste a nós no confronto.

Nunca terás a chance de virar a página, de te arrepender de tuas escolhas, de renegar os excessos de tua juventude ou de passar toda a vida permanecendo fiel a eles. Serás para sempre, como teu melhor amigo Daniele recordou apenas alguns dias após teu assassinato:

«Alguém que tinha aquele mal dentro, aquele que está aqui no ar, que todos temos. Não se integrava na sociedade, no sistema. Sofria muito e, como era mais sensível que nós, mais generoso e mais bom, era também mais frágil.»

Para sempre um jovem de vinte e três anos, pouco mais que um rapaz, que nos olha de uma foto desbotada pelo tempo, ou que me lembra o preço brutal da rebelião enquanto a imagem de ti deitado numa poça de sangue me lampeja constantemente na cabeça.

Assim como estou indignado pelo fato de que te foi roubado qualquer futuro que te restasse para escolher, da mesma forma olho com alarme para tua memória a desvanecer-se no tempo da consciência coletiva daqueles que vieram depois de ti. Nem sei por que estou te escrevendo esta carta. Não acredito no além-vida, e duvido que tu acreditasses. Talvez seja apenas meu modo desesperado de me agarrar a um senso de controle sobre o que parece inevitável: que o tempo, no fim, nos devora a todos. Que, por mais que as circunstâncias possam ser diferentes, tanto a morte quanto a passagem dos anos um dia virão me buscar, assim como vieram te buscar. E, no entanto, e presumo que somos semelhantes no espírito, só porque é inevitável não significa que isso me impedirá de tentar evitá-lo.

No entanto, muitos anos se passaram, Carlo, e eu também tive que depor as armas. Portanto, já que não posso mais fazer minha parte para manter viva tua memória através da ação, aqui estamos: um anarquista sem Deus escrevendo uma carta a um punkabbestia morto. Com a esperança de que outros a leiam e perguntem sobre ti, sobre as condições, os sonhos e as aventuras que levaram à maré montante de nosso movimento, e à onda que naquele dia levou tua vida. É a única arma útil que consigo encontrar hoje em meu arsenal para combater a ideia de que sejas esquecido, reduzido a uma simples nota de rodapé no confronto distante de uma estação já suprimida. Teu rosto, tuas esperanças, teus sonhos e, finalmente, teu nome destinados a desaparecer nos livros de história.

Travamos a batalha por tua memória desde o dia em que foste morto. Fizemos o melhor para lhe sermos fiéis. Para não te atribuirmos papéis ou aspirações que poderias ter recusado. Mas não foi fácil, e peço desculpas se não te representamos como gostarias. Na Barricada, sem hesitação e com audácia, te rotulamos como anarquista, sem nunca saber se te identificavas com essa palavra. Em nossa defesa, não podes imaginar o que foram aquelas horas, aqueles dias, aquelas semanas e aqueles meses após tua morte.

Houve quem entre nós, com boas intenções mas equivocados, te fantasiou como um militante anarquista organizado. Um combatente na linha de frente do black bloc. Queriam transformar-te num mártir consciente que sacrificou de bom grado a própria vida pela causa. Mas sei que não escolheste isso, até porque estavas a um passo de sequer comparecer, naquele dia. E, mais importante, porque nenhum de nós escolhe isso. Ao contrário dos fascistas, celebramos a vida, não a morte.

«Carlo vive — os mortos sois vós.»

Depois, houve os pacifistas e reformistas. Ultimamente tento evitar a linguagem hiperbólica e sectária do anarquismo de minha juventude, mas quando me lembro deles, de suas ações e de suas palavras quando falavam de ti, esse vocabulário volta com violência. Se pudesses ter visto as lágrimas de crocodilo da escória daquele movimento! Invocavam teu nome, fingiam erguer tua memória, mas te celebravam e recordavam apenas porque estavas morto. Ao mesmo tempo, difamaram aqueles que agiram contigo, como tu; que eram teus companheiros naquele dia, mas que o destino não colocou na trajetória da bala de um carabineiro na Piazza Alimonda. Disseram que éramos nós os responsáveis pela violência, que tínhamos atraído a raiva do Estado sobre os “bons manifestantes”. Que, indiretamente, éramos nós os responsáveis por teu desaparecimento, não o Estado, não o carabineiro que atirou. Espalharam absurdas teorias da conspiração de que o black bloc e a resistência de massa, generalizada e digna, eram obra de policiais infiltrados e fascistas.

À deriva na realidade paralela criada por sua narrativa, tentaram nos atacar, tentaram nos expulsar do movimento, empurrando-nos para os tiras, chamando-nos de fascistas e vândalos. E no dia seguinte, enquanto nos movíamos para vingar tua morte, direcionaram seus coros de «Assassinos!» contra nós tanto quanto contra a polícia. Eles também fizeram de tudo para te reivindicar como mártir de seu movimento, mas no caso deles com o incrível cinismo e hipocrisia de reivindicar tua memória enquanto denunciavam todos os outros que agiram como tu. Para eles, eras melhor morto do que vivo. Um vândalo quando vivo, um mártir quando morto.

Os do ATTAC, o Genoa Social Forum, as Tute Bianche, os partidos, os reformistas e toda a sopa de aspirantes a gestores do descontentamento: todos tentaram fazer de ti uma vítima. Um jovem infeliz e equivocado, assassinado pelo Estado. Queriam te privar de tua capacidade de ação, como fazem frequentemente com aqueles cujas escolhas não conseguem entender ou respeitar. Ainda não tenho certeza de quanto havia de oportunismo cínico e quanto do fato de que simplesmente não conseguem conceber qualquer forma de luta fora das manobras políticas e dos confrontos mediados. Assim, sempre que colocávamos os tiras em fuga, cada vez que se abriam frontes suficientes para mantê-los à distância, de modo que alguns de nós tivessem a chance de desconstruir calmamente a paisagem do capitalismo e fazer pausas tão necessárias quanto merecidas entre um combate e outro, esparramados sobre os mobiliários urbanos dos bancos que havíamos colocado na rua com a leveza de uma fogueira no quintal de casa, eles fantasiavam sobre algum grande plano supremo da polícia para justificar a repressão contra todo o movimento no-global. Nós, que tínhamos sobrevivido, éramos fascistas, vândalos e provocadores, enquanto tu, pelo simples fato de estares morto, te tornavas uma vítima e um mártir. Simplesmente não podiam aceitar que a rebelião em Gênova não era apenas orgânica e autêntica, mas também vitoriosa.

Morreste precisamente porque, naquele dia e naquele momento, estávamos vencendo. Os tiras estavam recuando. Não sei se chegaste a saber, mas não acontecia só ali na Piazza Alimonda: estavam em fuga em toda a área. Sei que isso será controverso, mas dadas as circunstâncias, nem tenho certeza se é correto dizer que te “assassinaram”. Pouparei a ambos a reconstituição voyeurística dos detalhes de teus últimos momentos. Houve anos de discussões intermináveis sobre se a bala te atingiu diretamente ou ricocheteou em algo, se estavas lançando o extintor ou apenas o segurando na mão. No fim, estabeleceu-se que o militar que atirou em ti agiu em legítima defesa e foi absolvido de todas as acusações. Nem tenho certeza se isso importa, para ser sincero, além da necessidade de muitos companheiros, até mesmo companheiros anarquistas, de buscar o papel de vítima da brutalidade policial, como se nos posicionarmos como vítimas perpétuas diante do Grande Estado Mau nos conferisse alguma superioridade moral aos olhos da sociedade. É uma atitude derrotista e eu a odeio, e presumo que tu também a odiarias. A justiça que procurávamos nunca foi a do Estado e de seus tribunais.

Falando em medo, eis o que disse ao juiz o militar que te atirou, Mario Placanica, pouco depois de ter tirado tua vida:

«Atirei porque tinha medo de morrer. Não sei o que aconteceu. Lembro que estavam nos cercando, nos atacavam, o jipe era um inferno. Minhas mãos tremiam e atirei sem olhar para fora.»

Não me interpretes mal: certamente não sou amigo de tiras ou militares, mas não tenho dificuldade alguma em acreditar nele. Na época, ele tinha vinte anos, pouco mais que um garoto, enviado para as ruas de Gênova naquele dia depois que seus superiores lhe disseram para «ficar alerta» porque os manifestantes iriam «lançar sacos de sangue infectado» e haveria «ataques terroristas». Ele disse: «A sensação era como se estivéssemos indo para a guerra.»

Já me encontrei em situações semelhantes, inclusive em outros lugares de Gênova naquele mesmo dia. Estive no teu lugar, mas num momento diferente e num lugar diferente, e olhei nos olhos da pessoa fardada à minha frente. Se eu fosse o policial ou o soldado, também teria medo. Talvez também tivesse apertado o gatilho, especialmente se fosse um jovem soldado, crente em Deus e na pátria, diante de uma horda avançante e aparentemente incontrolável de anarquistas encapuzados.

Para o que vale, o homem que te matou agora é a sombra de um ser humano. Dispensado dos carabineiros em 2005 por problemas psiquiátricos, hoje se descreve como um «homem destruído, só e consumido» que luta contra a depressão.

Como é previsível, não tenho quase nenhuma simpatia por sua condição. Mas ele é pessoalmente um assassino? Não sei. Nunca conseguimos realmente decidir sobre isso, tanto que a quarta capa do número da Barricada que publicamos logo após a batalha de Gênova, dedicado a ti e no qual prometíamos vingar-te, traz a frase «Carlo não foi uma vítima da brutalidade policial», proclamando ao mesmo tempo: «Assassinaram um anarquista.»

Por mais desprezo que sinta pelo homem que te tirou a vida, alguns anos atrás ele disse algo que me ajuda a entender por que eu, como tantos outros anarquistas, me identifiquei tão fortemente contigo e senti teu desaparecimento de forma tão pessoal e apaixonada:

«Aquele dia continua sendo um trauma para mim, um trauma pela morte de um rapaz como eu, também ele vítima naquele dia trágico. Não sou um carrasco, não sou um vingador. Aquele dia não empunhava a pistola por Mario Placanica, empunhava-a pelos Carabinieri, pelo Estado italiano.»

Por um momento, ignoremos a autocomiseração e a falsa equivalência com que se pinta como uma vítima tua igual, já que ambos sabemos que ele não era um recruta, mas um profissional que escolheu voluntariamente seu ofício. Ele ainda tem razão ao dizer que foi o Estado italiano quem colocou a pistola na mão daquele soldado criança e lhe deu carta branca para atirar contra quem se rebelava. Atiraram em ti porque eras “um de nós”.

“Um de nós”. Escrevemos isso nos muros por anos. Um entre as dezenas e dezenas de milhares nas ruas de Gênova que naquele dia escolheram se insurgir. Um de nós, um idêntico a nós, independentemente do rótulo político que colamos em nós mesmos, independentemente de alguns passarem os dias cuidando de revistas anarquistas e planejando ações enquanto outros passam o tempo pedindo esmola e vagabundeando com seus cães por sua cidade.

Um de nós. Todos nós, para além de nossas motivações mais específicas, estávamos lá naquele dia porque víamos este mundo como uma engrenagem quebrada e nos recusávamos a ficar de braços cruzados. Escolheste te rebelar, assim como nós, com uma pedra na mão, o rosto coberto, a cabeça erguida e tua dignidade. Nenhum intermediário, nenhuma encenação ou espetáculo para consumo dos supostos gostos das massas. Apenas teu corpo como arma e os companheiros ao teu lado como força. Escolheste este caminho não para morrer, mas para viver. Porque querias viver, livre e sem correntes.

Tão livre, tão sem correntes, que sei que nossa afinidade provavelmente só existia nas ruas, no confronto direto contra aqueles que reconhecíamos como inimigos comuns. Não cederei a tons nostálgicos sobre que pessoa fantástica eras, mesmo que teu pai diga que lhe deste «a força de teus ideais» e lhe ensinaste a não julgar as pessoas por «uma camiseta rasgada, os buracos nas calças ou os cabelos coloridos». Não haverá voyeurismo da dor aqui; os abutres da imprensa já fizeram o suficiente na época.

Um de nós. Talvez não um ativista ou militante, não um quadro de nenhuma organização ou estrutura, mas um de nós porque escolheste lutar. Lutar ao nosso lado, ombro a ombro. Um de nós: e é por isso que atiraram em ti. Todos sabemos que a bala que te atingiu poderia muito bem ter atingido qualquer um de nós. Era destinada a qualquer um de nós, a todos nós.

Nos meses e anos seguintes à tua morte, entendi o quão dolorosa e visceralmente verdadeiro isso era, enquanto um companheiro após o outro caía sob as balas do Estado ou as lâminas dos fascistas. No mesmo ano em que morreste, o Estado desencadeou uma chuva de fogo que matou dezenas de pessoas na Argentina. Não pude deixar de me lembrar de ti enquanto me abrigava atrás de nossas barricadas improvisadas, sem saber se os projéteis que zuniam em nossa direção eram de borracha ou de chumbo. Anos depois, quando um policial assassinou um anarquista de quinze anos em Atenas, muitos de nós que havíamos compartilhado as ruas contigo em Gênova fizemos chover fogo sobre os tiras do lado de fora do Politécnico ocupado. Estavas em nossos pensamentos também então.

O que vou dizer agora pode parecer contraditório, mas ficará claro para outros combatentes. Após muitos anos, cheguei à conclusão de que é isso que somos: combatentes. Claro, não vamos à guerra, e não pretendo nos fazer passar pelo que não somos. É verdade que não há comparação entre os riscos associados aos conflitos em que participamos e as condições de um verdadeiro confronto bélico. Mas minhas experiências de vida e as de quem me cerca envolvem uma constante proximidade com a morte, a prisão, ferimentos graves, o exílio. Não são as experiências, os traumas, que a maioria dos civis vive nesta parte do mundo, pelo menos, ainda não.

Como combatente, acredito em duas coisas ao mesmo tempo, mesmo que soem contraditórias.

Primeiro: tua morte foi trágica. Gostaria que nunca tivesse acontecido. Tentamos desesperadamente vingar-te, tanto por princípio quanto por uma questão de pura autodefesa. Para enviar uma mensagem ao Estado: o sangue dos rebeldes, dos anarquistas, paga-se caro.

Mas, ao mesmo tempo, e é aqui que muitos não pensavam como nós, tua morte era inesperada? Provavelmente não. Deveríamos chamá-la de assassinato? Talvez num sentido amplo, mas a questão parece quase irrelevante. Acima de tudo: tua morte era um motivo para parar nossos esforços? Absolutamente não. A rebelião é importante. Mas os rebeldes morrem, particularmente quando as insurreições começam a ter sucesso e o Estado começa a levar seus inimigos a sério. E quando o Estado lhes tira a vida, sinto falta e amo também aqueles que nunca conheci.

Soa como demagogia dizer que se sente falta de uma pessoa que nunca se conheceu e com quem provavelmente nem se daria bem. Mas é assim. Sinto tua falta como sinto falta de Dax e Carlos, levados pelas lâminas dos fascistas em Milão e Madri; como sinto falta de Clément, que caiu combatendo os fascistas em Paris; como sinto falta de Pocho Lepratti em Buenos Aires, Alexis em Atenas e Tortuguita em Atlanta, todos levados pelas balas da polícia. Ou como sinto falta daquele rapaz em Göttingen que um dia entrou em nosso infoshop, de quem nem lembro o nome, e que tenho vergonha de dizer que nunca levei a sério, que depois foi dar a vida combatendo o fascismo islâmico e pela revolução em Rojava, como tantos outros voluntários internacionais. Sinto falta deles e de todos os outros companheiros que já não estão, porque aquelas balas e lâminas estavam apontadas para todos nós. Sinto falta deles porque todos faziam parte da luta por uma ideia comum. Sinto falta deles, assim como sinto tua falta, porque mesmo que eu não conheça a pessoa, conheço a espécie.

Carlo, não te conhecia, mas lamento que não estejas mais aqui. Nunca te encontrei, mas sinto tua falta. Manterei para sempre tua memória erguida e tentarei vingar tua morte, porque o sangue de nossos companheiros não se compra por pouco. E mesmo que ainda não consiga encontrar otimismo para acreditar num confortável e belo além-vida, não posso deixar de esperar que tenhas sorrisos de aprovação lá de cima por nossos esforços.

Este texto é adaptado do livro From Riot to Insurrection: The G8 Summit of 2001 & The Battle of Genoa de Tomas Rothaus.

Fonte: https://pt.crimethinc.com/2026/07/20/a-letter-to-carlo-giuliani-on-the-25-year-anniversary-of-the-battle-of-genoa

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Um cacho de uva
Enchendo a minha mão
Domingo no sítio.

Keila Yumi Hiraoka Omasa – 13 anos

[Argentina] Já saiu “Organización Obrera” N.º 112 – Julho – Agosto de 2026

O órgão de divulgação da Federação Obrera Regional da Argentina – FORA
 
• Editorial: 90 anos da Revolução Social
• Atualidade: A reforma trabalhista em ação
• História: Sembrad
• Opinião: O sindicalismo que conseguimos construir
• Atualidade: Disciplina e punição aos que ensinam
• Opinião: Comércio. Lojas que fecham, trabalhadores que ficam sozinhos
• História: Mulheres Livres. Quando a revolução também falou com voz de mulher
• História: Quando a utopia foi possível
• Internacional: Uma delegação da CIT se reúne com membros da FGWM na Tailândia
 
>> Para ler-baixar a publicação, clique aqui:
 
https://organizacion-obrera.fora.com.ar/?
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
sopra o vento
sento em silêncio
sentir é lento
 
Alexandre Brito

[Canadá] A Feira do Livro Anarquista de Montreal está de volta com dois dias de programação!

10 e 11 de outubro de 2026

Das 10h às 17h

No CÉDA (Rua Delisle, 2515)

– Venda de livros

– Espaço para jovens

– Espaço de luto e memória

– Exposição de BANNER

– Sala de descanso

– Eventos (oficinas, apresentações, espetáculos etc.)

– ART & ANARCHY – exposição internacional online (detalhes em breve)

O tema da feira de livros de 2026 é “Popping the Bubble”

O prazo para inscrições é 10 de agosto de 2026.

Entraremos em contato com todos os candidatos com nossa decisão final até 5 de setembro de 2026.

Por favor, leia nossa declaração atualizada sobre apropriação cultural.

Nosso Protocolo de Cuidado Comunitário:

Todos os participantes devem usar máscara em ambientes fechados (recomenda-se N95/KN95). Não tem máscara? Tudo bem! Máscaras serão fornecidas no local.

O coletivo organizador da Feira do Livro Anarquista de Montreal reconhece que estamos no território tradicional dos Kanien’kehá:ka. Os Kanien’kehá:ka são os guardiões da Porta Oriental da Confederação Haudenosaunee. A ilha chamada “Montreal” é conhecida como Tiotia:ke na língua dos Kanien’kehá:ka e, historicamente, tem sido um ponto de encontro para outras nações indígenas, incluindo os povos algonquinos. O coletivo da Feira do Livro Anarquista acredita que não basta apenas reconhecer os guardiões desta terra. Incentivamos todos os participantes da Feira do Livro a se informarem e se educarem, e a resistirem ativamente ao colonialismo e ao neocolonialismo em suas diversas formas, bem como à diversidade de formas que a resistência também pode assumir.

Feira do Livro Anarquista de Montreal!

info[AT]anarchistbookfair[DOT]ca

anarchistbookfair.ca

Instagram: @montrealanarchist

FB: https://bit.ly/2IDoHkR

Mastodon: @anarchybookfair@kolektiva.social

agência de notícias anarquistas-ana

brasa do tempo
acende quando passas
no pensamento

Carlos Seabra

[Grécia] 90 anos da Revolução Espanhola: A luta contra o poder continua e continuará rumo à anarquia… (cartaz)

,«…Nós carregamos um mundo novo, aqui, em nossos corações. E esse mundo cresce a cada momento…». Buenaventura Durruti, 1936

19/7/1936-19/7/2026. 90 anos da revolução social na Espanha. A população em revolta de muitas cidades e vilarejos não apenas enfrentou o golpe militar dos fascistas de Franco, mas, ao mesmo tempo, começou a construir a utopia. As decisões sobre todas as questões cotidianas eram tomadas pelas assembleias locais e operárias. A exploração do trabalho assalariado chegou ao fim. Os meios de produção, assim como os meios de transporte e de telecomunicações, passaram para a gestão coletiva. A autodeterminação do corpo humano tornou-se realidade. As milícias armadas assumiram a guarda dos territórios libertados. A vida cotidiana encontrou um sentido verdadeiro na alegria rebelde das barricadas. Mesmo que por um curto período, o caminho para a libertação individual e social se abriu amplamente e será, para sempre, um exemplo brilhante para todo ser humano em luta.

Assim como naquela época, também hoje, a luta contra o Estado, o capitalismo, as divisões de gênero, a propriedade privada, a exploração do homem pelo homem, a opressão religiosa e a pilhagem da natureza continua…

A luta contra o poder continua e continuará…

Rumo à anarquia…

Assembleia de anarquistas contra os dogmas do mundo do poder

againstobvious.espivblogs.net

agência de notícias anarquistas-ana

Seu olhar segue
o voo do pássaro –
será que desce?

Eugénia Tabosa

[Alemanha] “Ombro a ombro contra a violência da extrema-direita”

No último sábado (18/07), membros do sindicato de base União dos Trabalhadores Livres [FAU, sua sigla em alemão], juntamente com a aliança Stuttgart Contra a Direita, manifestaram-se com mais de 200 pessoas contra a violência da extrema-direita em Stuttgart-Norte.

Havia um motivo sério para essa manifestação: Em abril de 2026, um anarcossindicalista da FAU foi atacado com uma faca por extremistas de direita em Stuttgart-Norte e ficou gravemente ferido por múltiplas facadas no peito. Ele conseguiu ligar para o serviço de emergência e sobreviveu graças a uma cirurgia de emergência.

Essa tentativa de assassinato teve como alvo um de nós. Ele foi a vítima, mas o ataque era para todos nós e para aquilo que defendemos: uma sociedade baseada na solidariedade e uma vida digna para todos e todas. Os fascistas amam a morte. Nós amamos a vida. E lutamos contra aqueles que querem nos tirar a vida. É por isso que nos atacam. Só podemos combater esse ódio juntos. Um ataque a um de nós é um ataque a todos nós. Essa sempre foi a resposta do movimento operário, é hoje e continuará sendo. Cuidem uns dos outros. E acima de tudo: Não deixem ninguém sozinho. Porque: Podem quebrar um dedo, mas cinco dedos formam um punho.” [FAU]

agência de notícias anarquistas-ana

Tonalidade
Palidamente verde
em rosa fogo

Helena Monteiro

Propriedade é roubo, e quem defende é cúmplice

Sempre é lícito recordar que a propriedade privada dos meios de produção não nasceu do trabalho, nasceu da espada. Cercar a terra, declarar-se dono do que é de todos e expulsar quem nela vivia — esse é o ato fundante do Capital. Proudhon tinha razão: se um homem chega e diz “isto é meu”, sem ter colocado um tijolo, sem ter regado o chão, ele está roubando. E o Estado não apenas valida esse roubo com leis e polícia, como o canoniza como “direito sagrado”. Roubo legalizado continua sendo roubo.

Quem defende a propriedade privada das fábricas, da terra, das máquinas, está do lado do ladrão. Não existe “propriedade mista”, “função social da propriedade” ou “capitalismo consciente”. Esses termos são cortinas de fumaça para manter o essencial: a expropriação do trabalho. O patrão não é mais produtivo que o operário; ele é mais armado. O banqueiro não cria riqueza; ele a concentra. Defender a propriedade é ser cúmplice da violência silenciosa que transforma necessidade em lucro, suor em mais-valia, vida em mercadoria.

O capitalismo não é um sistema econômico — é uma guerra contínua contra quem não possui. E a primeira trincheira dessa guerra é a propriedade. Sem ela, não há exploração; sem exploração, não há Estado; sem Estado, não há hierarquia. Por isso a defesa da propriedade privada é tão feroz: ela é o nervo central da dominação. Cada argumento sobre “incentivo ao trabalho” ou “direito de herança” esconde o mesmo horror: alguém possui o que não fez, e muitos não possuem o que fazem.

Não se reforma o roubo, se devolve. E devolver não significa pedir licença ao ladrão. Significa ocupar, reivindicar, expropriar. Toda fábrica abandonada, todo latifúndio improdutivo, todo imóvel vazio é um roubo em curso. E a cúmplice silenciosa é a sociedade que normaliza a chave na porta, a cerca de arame farpado, o contrato de gaveta. Enquanto houver alguém pagando aluguel para quem nunca construiu, enquanto houver trabalhador recebendo migalhas do que ele mesmo produziu, o roubo segue impune.

Portanto, a luta anticapitalista é uma luta antirroubo. Não pedimos reforma agrária — pedimos terra livre. Não pedimos taxação de grandes fortunas — pedimos abolição da fortuna. Não pedimos participação nos lucros — pedimos a gestão operária de tudo. E a cada um que diz “mas a propriedade é direito”, respondemos: o direito do ladrão é o dever da vítima. Cúmplice é quem cala, quem negocia, quem vota no menos ladrão. Nós escolhemos devolver, sem pedir licença.

Abaixo a propriedade! Roubado é roubado!

Liberto Herrera.

Fonte: https://libertoherrera.noblogs.org/2026/07/21/propriedade-e-roubo-e-quem-defende-e-cumplice/

agência de notícias anarquistas-ana

Escorre pela folha
a tarde imensa,
pousada em gota d’água.

Yeda Prates Bernis

Negacionismo tosco versus negacionismo sutil

O negacionismo ambiental da extrema direita é tosco, nega o que todas as evidências comprovam e trata a comunidade científica como um bando de conspiradores a serviço de um plano secreto dos globalistas (ou da China, ou da ONU…). Ao mesmo tempo, espalham “teorias” esdrúxulas, sem nenhuma base na realidade, que buscam essencialmente esconder a responsabilidade da sociedade capitalista industrial pelo colapso ambiental, como o HAARP e chemtrails. Defendem o bonde do capital sem freios.
 
O negacionismo ambiental da esquerda da ordem é sutil, mas é negacionismo e serve à ilusão de um capitalismo verde. O discurso é bonito, mas o modelo de “desenvolvimento” do país segue fazendo avançar o colapso ambiental. O negacionismo sutil não nega a existência da questão ambiental, mas insiste em chamar colapso de “crise” e parece não perceber a urgência, a gravidade e a profundidade do problema. Defendem reformas para criar uma economia capitalista sustentável.
 
Enquanto isso, as perspectivas para a questão ambiental no Brasil seguem mais do que alarmantes.
 
1- Relações internacionais voltadas para expandir a venda de soja, gado e minério. Acordos com a UE e a China, por exemplo.
2- Novos poços de petróleo, inclusive na Amazônia.
3- Política trilionária de financiamento do latifúndio através do Plano Safra, Lei Kandir etc.
4- Investimentos em infraestrutura para exportação de commodities e produção de energia:
a. Pavimentação de rodovias no coração da Amazônia, com destaque para a BR-319.
b. Construção de hidrovias e ferrovias.
c. Novas hidrelétricas na Amazônia.
d. Expansão de outras formas predatórias de exploração de energias não fósseis como as “fazendas” eólicas e solares.
5- Liberação indiscriminada de agrotóxicos.
6- Proliferação de datacenters.
7- Aumento da mineração de terras raras.
8- Retrocesso legislativo generalizado.
 
Os governos brasileiros são reféns da nossa condição de economia periférica do capitalismo e da nossa história de fornecedores de commodities para os países ricos.
 
O governo Lula pratica o negacionismo sutil. Finge que não é negacionista, mas mantém a política de desenvolvimento que nos aproxima cada vez mais do colapso. Um eventual governo Bolsonaro fará mais ou menos a mesma política, mas sem pudor nenhum de pisar no acelerador. Sem sutileza, bem tosco.
 
Radicalizar os ecologistas. Ecologizar os radicais.
Produzir menos. Produzir diferente. Dividir melhor.
Revolução ou extinção.
A saída é comunista, ecológica e libertária.
 
Fonte: @ecologiaemarxismo
 
Conteúdos relacionados:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/05/07/lula-ninguem-nesse-pais-tem-mais-responsabilidade-climatica-do-que-eu/
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/03/11/novo-video-brail-500-anos-de-catastrofe-colonial/
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/09/27/cop30-amazonia-e-a-farsa-ambiental-do-capitalismo-verde/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
O vento leva
as folhas e a poeira…
voam as lágrimas
 
Karen Aniz

[México] Guitarras Libertárias

Olhar a prisão. Olhar para o juiz. E cuspir neles.

Por que é importante continuar apontando esses muros e essas fronteiras?

Tantas macroprisões e microprisões ao nosso redor. Tantos dispositivos de vigilância, de controle social e poder sobre as nossas vidas.

O fascismo respira na nossa nuca, sempre esteve aí, na nossa frente, infiltrado nos discursos mais progressistas das suas esquerdas rançosas e direitas cínicas. Não queremos palmadinhas nas costas de nenhum governo.

Propomos nos encontrar. Cantos contra a autoridade. Exercitar-nos, treinar-nos e nos preparar.

Por isso, queremos colocar no convite a música, a comida, a organização, o desacordo, a poesia e a ação.

Juntar-nos para conspirar e agitar.

Organização e tecidos de individualidades e redes de afinidade.

Que saibamos que quando algo acontecer, vamos estar aí, entre nós.

Reconhecermo-nos, cuidar das nossas costas.

Um encontro para conspirar em memória de Jorge Esquivel, sempre presente nas ações insurretas e combativas.

Um encontro para continuar falando dos companheirxs que agora mesmo enfrentam o sequestro do Estado, ou que têm processos penais em aberto. Não deixá-los no esquecimento.

Liberdade a presxs em luta!!

Liberdade total para os companheirxs em liberdade condicional!

Liberdade para Yahari Brito!

Yorch presente! A UNAM o encarcerou!

Por uma solidariedade ativa, antiautoritária e sem fronteiras.

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Porque não sabemos o nome
Tenho de exclamar apenas:
“Quantas flores amarelas!”

Paulo Franchetti

Armando Gomes (1888-1944): anarquista antirracista!

Armando Gomes (1888-1944) foi um ferroviário negro de orientação anarquista sindicalista que se destacou na cidade de Campinas-SP. Armando Gomes também foi escritor e artista plástico. O libertário foi casado com Idalina de Jesus. Seu filho Fausto Pires de Camargo trabalhou nos carnavais da cidade. Armando foi um ativista libertário que combatia em duas frentes: uma frente em defesa da classe operária; e outra em defesa dos homens de cor.

O libertário negro também foi um grande defensor das religiões e artes africanas. Em 1901, aos 14 anos fundou a Sociedade Dançante Familiar União da Juventude, conhecida como “União da Juventude”, associação que defendia a livre manifestação da cultura afro-brasileira, como a congada, o jongo, os sambas, o candomblé e a umbanda.

Na sede da União da Juventude a capoeira era praticada livre da repressão policial.  A Sociedade Dançante Familiar também cedeu espaço para apresentação de danças norte-americanas como Reg Time, o Blues e o Jazz. Armando Gomes também fez parte da Sociedade Humanitária Operária.

Assim como outros anarquistas da época, Armando Gomes era adepto do Espiritismo, fato que o aproximava das religiões afrobrasileiras.  Junto a outros homens negros, Gomes fundou a Liga Humanitária dos Homens de Cor, em novembro de 1915, de caráter mutualista, na cidade de Campinas. Além desta Liga, o libertário também fundou a Liga dos Operários de Bairro, na década de 1910. Armando Gomes participou do 3º Congresso Operário no Rio de Janeiro.

Em 1917, a Greve Geral iniciada em São Paulo chegou a Campinas. Vários operários, especialmente os operários ferroviários, entraram em greve por conta da prisão de Ângelo Soave, líder sindical anarquista. Dezenas de operários se concentraram em frente a um local chamado Porteira do Capivara.

A repressão policial não tardou e foi extremamente brutal. Houve confronto e cerca de dezesseis operários saíram feridos, incluindo Armando Gomes. Três operários que estavam no local morreram: Antônio Rodrigues Magotto, Pedro Alves e Tito de Carvalho. Os três operários foram enterrados no Cemitério da Saudade.

Com Armando Gomes internado sob custódia dos agentes de segurança, dois irmãos de Armando, José Gomes e Walter Gomes, continuaram a organizar as movimentações operárias. Após sair do hospital, Armando Goes foi preso. Em 1920, durante a Greve da Mogiana, Armando foi preso novamente por organizar outras agitações operárias.

REFERÊNCIAS:

NOMELINI, Paula Christina Bin. “Mutualismo em Campinas no início do século XX: possibilidades para o estudo dos trabalhadores”. Disponível em: “https://periodicos.ufsc.br/index.php/mundosdotrabalho/article/viewFile/1984-9222.2010v2n4p143/17218″.

DULLES, John W. F. Anarquistas e comunistas no Brasil (1900-1935). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2ª ed., 1977.

Pró – Memória Negra de Campinas : Armando Gomes- O Rei da União. Disponível em: Pró – Memória Negra de Campinas: Armando Gomes ” O Rei da União” (promemorianegradecampinas.blogspot.com)

Autor:

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).

BLOG PLUMA NEGRA: https://plumahnegra.blogspot.com/

agência de notícias anarquistas-ana

dia de sol –
até o canto do passarinho
tem cor

Jandira Mingarelli

25/07: “Anarquismo e Sindicalismo” no Instituto Histórico e Geográfico de Santos (SP)

No dia 25 de julho de 2026, sábado, às 15 horas, no Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS), localizado na Avenida Conselheiro Nébias, número 689, no Boqueirão, em Santos (SP), o Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri (NELCA) estará lançando os livros: “Anarquismo e Sindicalismo Em Santos – Volume 1” de Marcolino Jeremias e “Revolta Proletária Em Santos” de Primitivo Soares (Florentino de Carvalho).

O público presente aproveitará a ocasião para conhecer esses novos estudos realizados, por pesquisadores sérios e competentes, sobre o surgimento do anarquismo e do sindicalismo revolucionário na Baixada Santista e suas conexões com outras regiões.

Nesse mesmo dia e horário, o Instituto Histórico e Geográfico de Santos estará promovendo paralelamente, outras atividades no local, como uma exposição aberta à visitação pública, o Café Filosófico e uma apresentação musical. Dessa forma, o público poderá usufruir de uma programação bastante diversificada.

agência de notícias anarquistas-ana

lua mínima
a tarde minguante
abre um sorriso

Alonso Alvarez

[Espanha] 90 anos defendendo a liberdade

Este verão completam-se 90 anos do início da Revolução Social de 1936, um dos processos de transformação social mais profundos que a história contemporânea já conheceu. Um aniversário que não é apenas uma data para recordar, mas uma oportunidade para reivindicar o exemplo de uma classe trabalhadora organizada que, diante do golpe de Estado fascista, respondeu com solidariedade, autogestão e revolução.

Em julho de 1936, quando os setores reacionários do exército tentaram acabar pela força com as conquistas operárias e as esperanças de emancipação social, milhares de trabalhadores e trabalhadoras saíram às ruas para frear o avanço do fascismo. Fizeram isso colocando o corpo, organizando-se nos bairros, nos sindicatos e nos centros de trabalho, conscientes de que a liberdade só poderia ser defendida desde baixo e com a força coletiva.

A derrota do golpe em grande parte do território abriu caminho para um processo revolucionário sem precedentes. Enquanto se combatia o fascismo nas frentes, a classe trabalhadora tomou em suas mãos a produção, o transporte, a saúde, o ensino e inúmeros serviços públicos.

Fábricas, oficinas, terras e coletividades foram geridos por aqueles que até então haviam sido explorados, demonstrando que é possível organizar a sociedade sem patrões, sem hierarquias e sem Estado.

A Revolução Espanhola foi a expressão prática de décadas de organização, formação e luta do movimento libertário. A CNT, junto com o restante das organizações irmãs, tornou realidade boa parte dos princípios do comunismo libertário: a autogestão, o apoio mútuo, a democracia direta e a solidariedade como pilares de uma nova sociedade. Mulheres e homens anônimos demonstraram que a emancipação não era uma utopia distante, mas uma realidade construída dia a dia a partir dos sindicatos, das coletividades e das comunidades.

Noventa anos depois, diante daqueles que pretendem reduzir aquela experiência a uma nota de rodapé da história ou distorcê-la, reivindicamos sua enorme atualidade. A Revolução Social continua sendo um referencial internacional porque mostrou que a classe trabalhadora não é apenas capaz de resistir à barbárie, mas também de construir um modelo social baseado na igualdade, na justiça e na liberdade.

Este aniversário quer ser também uma homenagem a todas as companheiras e companheiros que deram suas vidas defendendo a revolução e o comunismo libertário. Seu exemplo continua iluminando as lutas do presente contra a exploração, o autoritarismo, o patriarcado, o militarismo e todas as formas de opressão que seguem marcando nossas vidas.

90 anos depois, a CNT continua defendendo a liberdade

Durante os próximos meses, sindicatos da CNT, ateneus, fundações e coletivos libertários promoverão atos, publicações, exposições, debates e atividades em diferentes territórios para recordar e difundir o legado da Revolução Social de 1936. Porque a memória não é um exercício de nostalgia: é uma ferramenta de combate. Recordar aqueles que tornaram possível aquela revolução significa manter viva a convicção de que um outro mundo não apenas é necessário, mas também possível quando a classe trabalhadora se organiza e luta.

Porque, 90 anos depois, a CNT continua defendendo a liberdade.

Viva a Revolução Social!
Viva a CNT!

cnt.es

agência de notícias anarquistas-ana

Desenhos no céu …
Sorvetes derretendo
nas nuvens de algodão!

Ezequiel Soares de Oliveira – 8 anos

Chamado de solidariedade por ocasião do centenário da morte de Kaneko Fumiko, da Biblioteca Anarquista de Kamakura aos companheiros e companheiras do Chile

Da Biblioteca Anarquista, situada na distante cidade de Kamakura, Japão, enviamos uma saudação de solidariedade às companheiras e aos companheiros do Chile reunidos para recordar Kaneko Fumiko.
 
No início da década de 1920, Kaneko Fumiko desenvolveu sua atividade como anarquista em Tóquio. Chegou à convicção de que uma sociedade sem o imperador do Japão nem sua família imperial era a condição necessária para construir uma sociedade baseada na igualdade e na ajuda mútua.
 
Essa ideia era intolerável para os governantes do Império Japonês. Ela foi condenada à morte pelo crime de alta traição, uma lei que punia até mesmo o fato de conceber o desaparecimento do imperador. Posteriormente, por decisão das autoridades, a sentença foi comutada para prisão perpétua. No entanto, quatro meses depois, ela colocou fim à sua vida em uma cela de isolamento.
 
Naquela época, o Império Japonês havia colonizado a Coreia e exercia violenta repressão contra a população coreana para impedir o movimento de independência. Antes de ser presa, Kaneko Fumiko havia iniciado sua militância anarquista ao lado de Pak Yol (Park Yeol), nascido na Coreia, com quem compartilhou sua vida e sua luta.
 
Já se passaram cem anos desde que Kaneko Fumiko morreu sozinha em uma cela. No entanto, um século depois, a sociedade anarquista baseada na igualdade, na horizontalidade e na ausência de dominação ainda não se tornou realidade nem no Japão nem no mundo. Hoje vemos o crescimento dos autoritarismos e vivemos novamente uma época marcada pelas guerras.
 
Em 23 de janeiro de 1924, Kaneko Fumiko escreveu:
 
Nenhuma ideia poderá eliminar o sentimento de rebelião dos coreanos contra o Japão. Em 1919, eu estava na Coreia e testemunhei a revolta pela independência. Aquela experiência despertou em mim um espírito de rebeldia contra o poder. Quando penso no movimento de independência da Coreia, não posso senti-lo como algo estranho a mim; uma profunda emoção preenche meu coração.
 
Essas palavras expressam com clareza sua vontade. Mesmo na prisão, manteve intacta sua decisão de resistir ao Estado.
 
No Leste Asiático, a força econômica do Japão já não é o que foi. Ao mesmo tempo, dentro da sociedade japonesa cresceram a discriminação e a xenofobia. O Japão volta a se tornar um “Estado preparado para a guerra”, enquanto ressurgem tendências que evocam o passado imperial e expansionista.
 
A luta contra o autoritarismo político e a discriminação pode encontrar uma fonte de aprendizado na vida e no pensamento anarquista de Kaneko Fumiko.
 
Recordá-la não significa apenas lamentar sua morte. Significa encontrar-se com seu pensamento libertário, compreender o anarquismo que ela quis construir e torná-lo consciente em nossas próprias vidas. Significa manter a esperança em uma sociedade horizontal, sem imperador e sem dominação.
 
Difundir hoje seu pensamento em um Japão que avança em direção ao militarismo não consiste unicamente em conservar sua memória como um fato histórico. Significa assumir seu legado como uma tarefa presente.
 
Em 2019, durante a sucessão imperial no Japão após a abdicação do imperador, participei da rede “Acabemos com o sistema imperial” (Owari ni shiyō Tennōsei Network), organizando manifestações e expressando publicamente minha oposição. Nessa ação, esteve sempre presente meu compromisso com a memória e as ideias de Kaneko Fumiko.
 
Em 2025, foi finalizado o filme “Kaneko Fumiko: O que me levou a fazer isto?”, dirigido pela cineasta japonesa Hamano Sachi. Tive a oportunidade de contribuir com documentação para o roteiro. O filme retrata os últimos meses da vida de Kaneko Fumiko e devolve sua voz ao Japão atual, convertido novamente em um país orientado para a guerra.
 
A sociedade japonesa não aprendeu o suficiente com Kaneko Fumiko. Mesmo depois de 1945, continuou a discriminação contra a população coreana que permaneceu no Japão. Embora o Império Japonês tenha desaparecido há oitenta anos, os preconceitos e a discriminação não foram superados.
 
Em 23 de julho de 2026, será realizado um simpósio pelo centenário da morte de Kaneko Fumiko no Museu Comemorativo do Mártir Pak Yol, na cidade coreana de Mungyeong. A organização foi impulsionada principalmente por anarquistas de Seul. Do Japão, participarão cerca de trinta pessoas. Entre elas, os únicos anarquistas seremos Kurihara Yasushi e eu.
 
Que a figura de Kaneko Fumiko seja cada vez mais valorizada tanto pelo povo japonês quanto pelo povo coreano constitui um alerta frente ao rumo equivocado que o Estado japonês está tomando.
 
Também na distante América do Sul, no Chile, as companheiras e os companheiros se reunirão para recordá-la. Pensar em Kaneko Fumiko significa hoje expressar uma vontade de resistência frente às diferentes formas de autoritarismo e de dominação que existem no mundo contemporâneo.
 
Com o desejo de um mundo sem guerras e de uma sociedade baseada na liberdade, na igualdade e na ajuda mútua, concluo este chamado de solidariedade dirigido a todas e todos os companheiros.
 
Biblioteca Anarquista
KAMEDA HIROSHI
Kamakura, Japão
 
biblioangry.noblogs.org
 
Tradução > Liberto
 
Conteúdos relacionados:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/07/17/chile-jornada-fumiko-kaneko-100-anos-desde-seu-fogo/
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/02/23/japao-filme-sobre-anarquista-tem-lancamento-100-anos-apos-a-sua-morte/
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/12/23/reino-unido-revisao-de-livro-memorias-da-prisao-de-uma-mulher-japonesa/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Mal escurece,
cantoria no jardim.
Festa dos grilos!
 
Leandro do Carmo José – 10 anos

[Espanha] Manifesto da CGT, 90 anos da Revolução Social

O golpe de Estado em 1936, protagonizado pelos militares, aliados às forças reacionárias do capital e ao fascismo internacional, significou um genocídio orquestrado contra a força crescente da classe operária em geral e contra a CNT em particular.

Nestas datas, comemoramos os 90 anos de um momento histórico para a classe trabalhadora. Centenas de milhares de trabalhadoras e trabalhadores filiados à CNT souberam se organizar contra o fascismo, construindo um novo modelo social mediante coletividades de produção, gerindo a economia de maneira coletiva e igualitária, na qual a autogestão, o apoio mútuo, a justiça social e a liberdade foram os motores que os guiavam.

Apesar da difícil situação bélica, fez-se um esforço tremendo para realizar, em paralelo, uma Revolução Social que tem sido uma experiência única e original. Buscavam uma nova sociedade, onde a exploração dos capitalistas fosse eliminada e a auto-organização dos operários e operárias assumisse um papel principal.

Temos muitas razões para recordar esse processo revolucionário, porque até hoje a classe trabalhadora segue sendo explorada e a justiça social é um anseio, não um fato, para milhões de pessoas.

Devemos conhecer o nosso passado para extrair as lições daqueles lutadores e lutadoras que nos precederam. E figuras como Lucía Sánchez Saornil, Buenaventura Durruti, Joan Peiró, García Oliver, Federica Montseny ou Amparo Poch, e milhares de anarquistas anônimos, brilharam em suas ações e propostas, naqueles anos difíceis.

Foram então milhares de operárias e operários anônimos filiados à CNT que colocaram em marcha um modelo social que hoje vemos com admiração. A semente da rebeldia já estava lançada há décadas. A classe operária se organizava em sindicatos, ateneus e em escolas racionalistas, ou aprendia a ler em jornais criados pelos próprios trabalhadores e trabalhadoras, onde o conhecimento, a análise e as ferramentas de luta revolucionária eram o motor que os impulsionava dia após dia.

Essa classe operária, que não estava disposta a aceitar o ditame do capital e dos militares, foi para as ruas e não só isso: auto-organizou-se de maneira admirável.

Infelizmente, o fascismo venceu a guerra e, após quarenta anos de repressão, exílio e nacionalcatolicismo, o regime capitalista e monárquico é herdeiro de toda essa repressão do passado.

A CGT colocou em marcha mecanismos próprios de recuperação da memória libertária, a partir da honestidade e da verdade, para conhecer e aprender com o passado, com seus acertos e com seus erros.

Por isso, devemos tomar esse momento histórico como referência para as nossas próprias lutas atuais, porque a exploração, o racismo, as desigualdades, a opressão… estão presentes em nossas vidas, e é unidas como força coletiva que poderemos, a partir da base, contrapor o peso que nos oprime.

O anarcossindicalismo segue vivo, e isso se comprova pelo crescimento de organizações como a CGT, onde os conflitos e a protesta liderados por esta organização são cada dia mais potentes e frequentes.

A filiação à CGT não para de aumentar, já somos mais de 100.000 pessoas filiadas. E o nível de protesta e reivindicações que a CGT lidera cresce dia após dia. Impulsionamos lutas e mobilizações, greves e protestos que, para as trabalhadoras e trabalhadores mais jovens, são inéditas.

Não estamos dispostas a consentir a ofensiva reacionária na qual os postulados da extrema direita pretendem nos esmagar e nos dividir, fazendo-nos acreditar que os culpados pela nossa pobreza são as pessoas migrantes e os mais fracos. Esses capitalistas tentam nos arrancar direitos, concentrando em poucas mãos a riqueza que a classe operária cria.

Mas a CGT não deve ser apenas capaz de gerar conflitos e lutas; devemos preparar a sociedade futura à qual aspiramos e, para isso, a nossa própria organização deve ser um exemplo de todos esses valores que defendemos. A formação sindical nos princípios anarcossindicalistas e a sua colocação em prática é o que preparará a classe trabalhadora para quando se apresentar uma nova oportunidade de revolução social.

Uma organização como a CGT é necessária; por isso, devemos empregar todas as nossas forças para crescer em filiação, em militância bem formada e capaz de transformar as relações de poder de capital — trabalho, de morte e opressão em Vida.

Aqueles que nos precederam são nossos referenciais e não devemos esquecê-los. Devemos a eles o melhor de nós mesmas.

Saúde, memória e luta anarcossindicalista.

Secretariado Permanente do Comitê Confederal da CGT

19 de julho de 2026.

cgt.es

Tradução > Liberto

Agência de notícias anarquistas-ana

Chega a frente fria
Lá fora, pingos de chuva,
Aqui dentro, chá.

João Victor Aparecido da Silva – 10 anos

[México] Carlo vive!

Em 20 de julho de 2001, atiraram em você, atropelaram você, mas você não morreu; você continua presente em cada revolta, em cada barricada. Cada pedra, cada coquetel molotov e toda a nossa raiva contra essa autoridade bastarda reivindicam o seu nome, gritam por vingança.

Cada ação é por você, com todo o nosso desprezo e ódio contra o capital, o Estado e toda autoridade.

Carlo vive!

Morte ao G8!

Fogo à polícia!

Distúrbios por Carlo Giuliani!

Memoria y Revuelta

agência de notícias anarquistas-ana

Hora do recreio
Brinco correndo na chuva
Meus amigos também.

Carolina Barbosa Lopes Raposo – 7 anos

[França] Os 40 anos do programa “Femmes Libres” na Rádio Libertaire!

Em 20 de junho de 2026, o Espaço Louise Michel recebeu o programa “Femmes Libres” (Mulheres Livres) para comemorar os 40 anos do programa. Convidadas e um convidado para participar das quatro mesas redondas, cantoras e musicistas com letras feministas, repletas de humor, ousando reivindicar que certos instrumentos musicais poderiam se abrir mais às mulheres, a equipe do “Femmes Libres” auxiliada por Monique, da secretaria da Rádio Libertaire, livros sugeridos pela Livraria Publico, e… ouvintes e… feministas e pró-feministas! Cerca de cinquenta pessoas, ouvindo atentamente e em clima de bom humor. Como falar de 40 anos — ou seja, cerca de 1.800 programas — sem despertar emoções, questionamentos, descobertas, surpresas e encontros? E tudo isso foi discutido!

Vale lembrar que o programa “Femmes Libres” surgiu por iniciativa de Nelly Trumel em maio de 1986, data do aniversário da Revolução Espanhola. Esse título foi escolhido para homenagear a organização Mujeres Libres (Mulheres Livres), criada em abril de 1936, que reunia mais de 20 mil mulheres anarquistas espanholas. Essa organização tinha como objetivo “libertar as mulheres da tripla escravidão da qual eram vítimas: escravas de sua ignorância, escravas como produtoras e escravas como mulheres”.

Desde então, o programa “Femmes Libres” propõe-se a ser um espaço de reflexão e estudo sobre a opressão específica das mulheres em uma sociedade patriarcal e capitalista baseada na dominação masculina. Esse espaço radiofônico visa valorizar as estratégias de defesa, visibilidade e reconstrução implementadas pelos movimentos feministas, à luz da análise das relações sociais de sexo, gênero, classe e origem. Assim, com duas horas semanais, inúmeras mulheres e alguns homens vieram debater e compartilhar suas lutas, suas pesquisas, suas experiências e suas criações artísticas e culturais.

Surge uma riqueza de expressão extraordinária que quisemos abordar por meio de grandes temas. Foi difícil escolher quem e o que destacar em um período de 4 horas para esses 40 anos de programas! Mas, em nossas mentes e em nossos corações, ninguém pode ser esquecido. Conseguimos identificar evoluções nas questões vividas pelas mulheres e que o programa conseguiu retratar; eis alguns exemplos.

A abordagem de gênero evoluiu. A partir das relações sociais de gênero, classe e “raça”, e da consubstancialidade das relações sociais a partir de uma dinâmica de relações de poder, o conceito de interseccionalidade também oferece uma ferramenta de análise. O universalismo da humanidade combina-se com a análise interseccional para os diferentes grupos sociais. A valência diferencial dos sexos é hoje questionada pela complexidade da relação entre gênero e sexo, a fim de romper as barreiras das normas que nos atribuem gêneros. No que diz respeito ao vocabulário, os discursos falocêntricos são rejeitados, e a dimensão política da linguagem suscita reflexão. Muitos trabalhos mobilizam elementos tangíveis em direção à feminização, à desmasculinização da língua e, para alguns e algumas, até mesmo à não binariedade da língua.

No que diz respeito ao corpo, embora nos últimos 40 anos os movimentos feministas tenham reivindicado incessantemente a liberdade das mulheres de dispor de seus corpos, a violência persiste, assim como os feminicídios. O corpo continua sendo um ponto de disputa para fascistas e reacionários de todos os matizes. A ascensão dos masculinistas e virilistas é uma manifestação disso. Surgiu a mobilização contra o sistema de prostituição, inspirada em nossas grandes figuras anarquistas, como Emma Goldman, Louise Michel ou as Mujeres Libres, assim como contra a pornografia e a gestação por terceiros, que resultam no aumento da oferta de barrigas para alugar. Mulheres vieram testemunhar contra a pornoprostituição por ocasião da Marcha de Rosen Hicher ou da publicação de “Sous nos regards, Récits de la violence pornographique”.

Quanto às outras temáticas, como a precariedade e a pobreza das mulheres, as greves em setores com grande presença feminina, o questionamento sobre alternativas à condenação penal ou à prisão, as mobilizações internacionais contra as guerras e os deslocamentos forçados, a abundância de obras, e de alguns filmes, sobre as mulheres comunardas e anarquistas, o número cada vez maior de atrizes, cantoras, musicistas, criadoras – além disso, jovens –, todas essas temáticas e muitas outras ainda demonstram a vitalidade com que as mulheres são capazes de renovar as ferramentas e as formas de sua afirmação rumo à sua própria emancipação.

As Voix Rebelles marcaram um encontro conosco daqui a 20 anos: vamos lá! Até lá, quatro arquivos de áudio correspondentes às quatro sequências do sábado, 20 de junho de 2026. Em cada link, você encontra a gravação e a programação de cada sequência, o texto da intervenção da equipe Femmes Libres, além de uma seleção de fotos relacionadas a cada uma das sequências.

Les 40 ans de l’émission Femmes libres – Séquence 1 – Samedi 20 juin 2026 – 89.4
Les 40 ans de l’émission Femmes libres – Séquence 2 – Samedi 20 juin 2026 – 89.4
Les 40 ans de l’émission Femmes libres – Séquence 3 – Samedi 20 juin 2026 – 89.4
Les 40 ans de l’émission Femmes libres – Séquence 4 – Samedi 20 juin 2026 – 89.4

Guardamos uma lembrança calorosa, mas também muito comovente, desses momentos que compartilhamos. Esse espaço de expressão radiofônica, feminista e libertária, nos empenhamos em preservá-lo, e ele permanece sempre aberto a iniciativas e criações feministas.

Hélène Hernandez

Coapresentadora do programa “Femmes Libres”

http://emission-femmeslibres.blogspot.com/

Radio Libertaire 89,4

Todas as quartas-feiras, das 18h30 às 20h30

monde-libertaire.net

agência de notícias anarquistas-ana

livro aberto gelado
o norte geme no vento
sobre a página branca

Lisa Carducci

[Itália] Gênova: em todo caso, nenhum remorso.

Realizou-se ontem (19/07) o cortejo lançado por diversas organizações genovesas e não apenas, pelos 25 anos do assassinato de Carlo Giuliani.
 
A construção do cortejo nacional começou com um seminário realizado em 4 de julho em Gênova. Companheiras e companheiros de toda a Itália discutiram e debateram questões-chave da atualidade: a tendência geral à guerra; o papel da Itália e da Europa nos conflitos internacionais hoje e no futuro; o custo da crise cada vez mais pesado, descarregado sobre o proletariado europeu pelas escolhas dos Estados Unidos para defender seu papel de diretores das principais cadeias de valor globais; as subjetividades juvenis dentro da guerra.
 
O cortejo nacional estabeleceu dois pontos de encontro: a composição mais jovem do movimento organizou-se em frente à escola Diaz, palco do massacre perpetrado pelas forças de segurança naqueles dias de luta. O encontro principal, por sua vez, esperou os jovens e as jovens na praça Alimonda, onde Carlo Giuliani foi assassinado a sangue frio. Reunidos os dois pontos, o cortejo partiu numerosíssimo pelas ruas de Gênova.
 
Mais de 10 mil pessoas se moveram juntas atrás da principal faixa que dizia: “em todo caso, nenhum remorso”.
 
O cortejo assumiu o elemento do antifascismo militante. Na Via Montevideo, inclusive, foi feita uma muralha com tábuas de madeira na sede da CasaPound. Sobre as tábuas, a inscrição era clara: “Zona desnazificada”.
 
Em seu percurso, o cortejo também encontrou a sede da Confindustria de Gênova. Considerando a Confindustria um ator-chave das políticas econômicas que, em diversas dimensões, prejudicam as classes trabalhadoras. Favorecendo os interesses de industriais, patrões e pequenos patrões, a Confindustria é a responsável pelos baixos salários, pela desestruturação do Welfare, ameaçando a reprodução das condições de vida de muitos e muitas, e, por fim, apoiando e potencializando as decisões econômicas relativas ao rearmamento e à guerra. Diante dessas considerações, a sede foi alvo de sanção.
 
O cortejo encerrou-se numeroso na Piazza de Ferrari.
 
No Tav
 
infoaut.org
 
Tradução > Liberto
 
Conteúdos relacionados:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/07/21/italia-carlo-vive-o-estado-nao/
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/07/18/reino-unido-em-memoria-do-g8-de-genova/

 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/07/16/italia-25-anos-apos-o-g8-de-genova-voltamos-mais-uma-vez-aquelas-ruas/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Na cama quentinha
A tosse logo volta.
Que gripe danada!
 
Iuir Alan de Souza – 09 anos