[Itália] Projeto “Torce nella notte”

O projeto “Torce nella notte” (“Tochas na noite”) nasceu para manter viva a memória de pessoas que mudaram a história da humanidade, muitas vezes sacrificando suas próprias vidas. Para manter viva essa esperança, como um brilho na escuridão. Os personagens de que falo são: sem orgulho nacional, atemporais e sem gênero. A ideia nasceu durante o cerco de Afrin. A revolução de Rojava me marcou e eu quero fazer minha parte, então comecei a escrever e pintar.

O título do projeto inspirou-se na autobiografia em prosa de Virgilia D’Andrea. Inicialmente, esse livro me deu muitos nomes relacionados ao desenvolvimento do projeto. Em um segundo momento, o projeto cresceu consideravelmente além das minhas intenções originais, porque cada sujeito está ligado a outro, eles são conectados por um fio vermelho na luta e na imortalidade. A imortalidade durará enquanto eles forem lembrados e sua luta continuará enquanto continuarmos suas batalhas.

Excluir um deles parecia injusto para mim; provavelmente, este trabalho nunca terminará, pelo que também estou procurando colaboração com pessoas de diferentes países. Estou tentando espalhar as questões fundamentais do internacionalismo, pensamento libertário, igualdade de gênero, antimilitarismo e ecologia social. E sobre a importância da luta contra a Hydra do capital e o heteropatriarcado. Quero contar as histórias esquecidas de personagens desconhecidos, tentando humanizá-los o máximo possível.

Não quero falar de heróis inefáveis, mas de seres humanos que mudaram a história da humanidade. Eu acredito que a revolução não precisa necessariamente de gestos flagrantes ou bandeiras chamativas, mas de consistência, humildade e boas intenções. Como disse o partidário anarquista Lorenzo Orsetti: “Toda tempestade começa com uma única gota. Todos nós podemos ser essa gota”. Não devemos permitir que outras pessoas nos digam que somos impotentes, inúteis. Todos nós podemos fazer alguma coisa. Provavelmente, os resultados não serão imediatamente evidentes, por isso não seja motivado por retornos pessoais vãos. A maioria dos personagens de que falo morre antes de ver seus “sonhos se tornarem realidade”, mas eles fazem desta Terra um lugar melhor. É uma estrada longa e complicada, mas é o único caminho a percorrer. Esperando ver surgir um dia uma grande nação humana sem fronteiras e sem opressão.

Escolho personagens de épocas históricas e do presente para conscientizar os camaradas que estão lutando AGORA. Com especial atenção à Revolução Internacionalista de Rojava, que considero o motor da nossa revolução. Talvez, como argumentou Bookchin, não funcione, mas não há alternativa, o capitalismo está nos levando a um inevitável suicídio em massa, por isso temos que tentar. Com este projeto, estou tentando dar minha contribuição para a Revolução não apenas com propaganda, mas também com uma contribuição econômica. Os rendimentos da pintura serão doados à Comuna Internacionalista de Rojava. Enviei a eles a primeira transferência bancária há algumas semanas.

Facebook: Torce nella notte

Tradução > abobrinha

agência de notícias anarquistas-ana

folhas no quintal
dançam ao vento
com as roupas do varal

Carlos Seabra

[Espanha] Dos “Cayetanos” ao bairro obreiro | Em defesa do apoio mútuo em tempos de pandemia

 

No final da terceira semana de maio de 2020, uma série de protestos contra o atual governo do PSOE e do Podemos começou na rua Nuñez de Balboa, no bairro Goya do distrito de Salamanca (um dos distritos com maior renda na capital). Ao longo dos dias, houve tentativas de estender esses protestos a outros distritos de Madrid e outras cidades do estado sem um objetivo claro, além de se manifestar “enquanto dure o confinamento”.

Essas manifestações, longe de seu discurso de “cidadãos apolíticos irritados” pelas políticas restritivas do governo que tentam nos fazer acreditar, têm um profundo fundo classista. Eles tomam as ruas para defender seus privilégios de classe e poder, incentivados pelos partidos políticos que representam seus interesses. Essas mobilizações são em sua maioria atendidas por empresários e pessoas que vivem da exploração da propriedade privada, que é um parasita que vive do trabalho e do dinheiro de outros. Você nunca os verá em nenhuma mobilização que tenha a ver com uma reivindicação social ou trabalhista. Muitos fazem parte de vários lobbies econômicos, portanto o governo legisla a seu favor, e se beneficiam das políticas antitrabalhadores promovidas pelos poderes políticos e econômicos.

O governo lhes dá carta branca para fazerem o que quiserem, de modo que a Delegação do Governo não aja de acordo com este tipo de mobilização. Eles dificilmente serão parados, não lhes pedem cartões, não impõem sanções e não exigem que a distância de segurança seja mantida por causa do estado de alarme. Eles sabem que têm impunidade para fazer o que querem, já que qualquer tipo de sanção econômica não afetará em nada sua renda, e agem em conformidade.

Além disso, uma das coisas mais importantes que eles têm é o apoio da mídia, que os cobre e branqueia suas mobilizações, sempre com elogios ao seu status “pacífico e democrático”. Enquanto isso, os trabalhadores do bairro não têm outra escolha senão ficar em silêncio diante de sua arbitrariedade.

A situação é muito diferente nos bairros populares, os de menor renda da cidade de Madrid e os mais afetados pela pandemia do vírus COVID-19 e pela crise sanitária devido aos anos de constante privatização e desmantelamento do sistema de saúde. Basta ver como os centros de emergência e muitos centros de cuidados primários e especializados permaneceram fechados, forçando os hospitais a ficarem superlotados.

Mesmo antes da pandemia, havia um grande número de desempregados nos bairros mais pobres da capital em risco de exclusão social. O último EPA de 2019 deu um percentual de desempregados de 10% da população, o que esconde o altíssimo índice de trabalhadores precários, a destruição de empregos e as pessoas que trabalham principalmente na clandestinidade sem contribuir para a Previdência Social. Agora, centenas de famílias são afetadas pelos expedientes do Regulamento do Trabalho Temporário (ERTE). O Estado socializa os prejuízos dos empregadores e paga apenas 70% do salário que a empresa deveria pagar durante os primeiros seis meses e, claro, tarde e mal, sufocando centenas de famílias. Como muitos serão afetados por demissões, perdendo seus empregos. Tudo isso com um horizonte que ameaça com novos cortes sociais e trabalhistas, aumento da precariedade, alto desemprego ou empobrecimento extremo.

Os Serviços Sociais da cidade de Madrid, longe de poder prestar um serviço de qualidade, já saturado até a chegada da pandemia, não conseguem lidar com a falta de investimento público, com as constantes externalizações e privatizações que sofreram, assim como com a saúde e outros serviços básicos.

A ação policial tem sido totalmente contrária àquela do distrito de Salamanca. Uma infinidade de situações de abuso de autoridade tem sido tornada pública nas redes sociais e mídias alternativas enquanto que a mídia oficial tem silenciado. Tivemos que testemunhar o assédio racista especial contra trabalhadores migrantes. As sanções nos bairros pobres têm sido muito maiores do que em qualquer distrito de alta renda da capital.

A atitude da mídia, ao contrário do tratamento dado aos “pacíficos democratas” do Distrito de Salamanca, tem sido de constante criminalização e demonização contra a população dos bairros pobres, especialmente contra Vallekas, Carabanchel, Villaverde ou Centro.

Nas redes sociais e na mídia somos bombardeados com mensagens a favor e contra o governo, fortalecendo o discurso hegemônico que favorece as instituições representativas, os poderes políticos e, em última instância, um poder econômico que se beneficiará com os próximos cortes nos direitos trabalhistas e sociais.

Este discurso dominante silencia e esconde a multiplicidade de iniciativas de auto-organização e apoio mútuo que estão sendo realizadas por vizinhos e vários grupos independentes nos distritos mais criminalizados pela mídia e mais castigados pela pandemia. Essas iniciativas procuram apoiar as pessoas mais afetadas pela crise e criar um tecido social. Além disso, estão preenchendo as lacunas que, em teoria, deveriam ser abordadas pelas instituições estatais e pela Prefeitura de Madrid através dos Serviços Sociais. A criação e o desenvolvimento dessas redes são o que tem se destacado para alcançar melhorias para a população nos períodos em que as crises do sistema econômico capitalista levaram a uma maior ofensiva contra os direitos dos trabalhadores.

É claro que nós trabalhadores não podemos esperar absolutamente nada das instituições ou daqueles que detêm o poder político e econômico. A “revolta” dos “cayetanos¹” é um exemplo de como a luta de classes está se intensificando e de uma nova ofensiva contra os direitos dos trabalhadores.

A solidariedade é algo intrínseco à natureza do ser humano e sua implementação é cada vez mais necessária. O coletivo e organizado contra as privatizações e o individualismo. A prática da auto-organização e do apoio mútuo nos fará romper com o discurso hegemônico dominante e com o sistema econômico capitalista que nos sufoca e asfixia.

Pela anarquia!

Grupo Tierra

federacionarquistaiberica.wordpress.com

[1] Cayetanos é uma expressão utilizada nesse contexto para identificar as pessoas de alto nível econômico que tem se manifestado contra o isolamento social na Espanha.

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

folha seca
sobre o travesseiro
acorda borboleta

Alice Ruiz

[Grécia] Atenas: Manifestação contra o terrorismo de Estado e a guerra anti-imigração

Praça Exarchia – Sexta-feira, 29/05 – 20h00

Solidariedade com os e as moradoras da Ocupação Themistocleous 58 | Tirem as mãos das ocupações – Policias fora das nossas casas e bairros

Na segunda-feira, 18 de maio, as unidades de repressão do estado grego, MAT, DELTA, OPKE e EKAM, invadiram uma casa em Exarchia onde imigrantes com os seus filhos estavam hospedados. Eles evacuaram o prédio, destruíram a infraestrutura básica (eletricidade-água) e num clima de terror levaram os e as moradoras para um ônibus para passar primeiro pelo campo infernal de Petrou Ralli e depois ou para um campo de concentração desconhecido ou para o desabrigo. Legalmente, o edifício pertence a Voulgarakis, um dos políticos mais corruptos do Nova Democracia [partido de direita], e estava abandonado há mais de uma década e começou a ser usado em fevereiro de 2016 como um lugar de luta e moradia para as pessoas necessitadas, em resposta à “crise” migratória da época. Os e as atuais habitantes vieram do Congo e da Síria. Fontes policiais oficiais hipocritamente falaram de “condições de vida verdadeiramente miseráveis”, claramente fazendo troça de pessoas que tinham acabado de ser arrancadas e levadas à situação de sem-abrigo. O humanitarismo e a condenação da violência, a aceitação do diferente, a elevação da maternidade e a proteção das crianças, todos os valores que o Estado está a promover estão se desmoronando como uma torre de cartas em cada foto que mostra homens encapuzados com armas automáticas a levar famílias e outros moradores para os campos. Algumas destas pessoas estão detidas em Amygdaleza, enquanto outras foram libertadas ao pé de Petrou Ralli sem lugar para onde ir e foram para casa [ocupação] onde encontraram blocos de cimento nas portas e nas janelas. Projetos auto-organizados, camaradas e moradores do bairro de Exarchia ainda estão a tentar apoiar as e os migrantes nesta situação difícil.

Imigrantes de países empobrecidos pela exploração econômica e pela guerra orquestrada por países desenvolvidos são forçados a vir para a Europa desenvolvida, passando necessariamente por países como a Grécia onde encontram a continuação do inferno. Morrem na exploração de campos e obras e quando a economia não precisa deles, são postos em campos de concentração para ter trabalhadores de reserva e fundos europeus e quando não precisam deles para isto, executam-nos na fronteira, seja afogando-os ou disparando sobre eles sendo o exemplo mais óbvio o de Evros. Depois de o Estado semear o racismo e impor a sua desvalorização violenta, racistas cegos e gangues de nazis desempenham um papel na conclusão do extermínio social de imigrantes já empobrecidos.

Mas os estrangeiros — desde os imigrantes aos escravos racializados — sempre exigiram com o seu sangue a sua visibilidade, liberdade e igualdade. Atualmente, protestos, greves de fome e motins nos campos de concentração são esforços para quebrar o aprisionamento, a repressão, a limitação do movimento, as condições de vida miseráveis e a violação dos chamados direitos humanos básicos. Sem asilo, sem assistência gratuita, sem acesso à educação, sem direito ao trabalho, apenas ilegalidade, escravidão, mais perseguição e humilhação nas ruas da metrópole, cada vez mais confinamento e concentração em armazéns de almas. Embora na realidade os direitos e benefícios existentes sejam fundamentados na hierarquia, exclusão e exploração, as lutas e demandas das minorias étnicas, indivíduos isolados e das suas comunidades são justas e necessárias para a sua sobrevivência num sistema onde a vida depende dos governantes. E é por isso que nos levantamos lado a lado!

As lágrimas de crocodilo das autoridades sobre o valor da vida humana e da saúde pública durante a pandemia nunca lavou seu rosto profundamente racista. Antes e durante o Coronavírus, as suas estatísticas eram claras. Casos em x número de pessoas mais x casos em imigrantes. “O alienígena” ainda é sinônimo de uma bomba de saúde, apesar do fato de que o vírus foi eventualmente espalhado por ajuntamentos cristãos e conferências de comerciantes, políticos e cientistas. Eles estavam e ainda estão a apelar para ficarmos em casa e mantermos a distância, enquanto os e as imigrantes e prisioneiras — locais e estrangeiras — estavam empilhadas em contêineres e em celas em condições que apenas de boa fé chamaríamos de insalubres.

Para muitas pessoas, mas especialmente para as e os imigrantes, ocupações habitacionais sempre foram um refúgio do ódio racista e das políticas anti-imigração, uma maneira de ter uma vida decente e de interagir com a sociedade. Localizadas no centro da metrópole, permitem que os e as imigrantes interajam com moradores locais, outros imigrantes e comunidades étnicas, façam parte dos bairros e da vida cotidiana, tenham acesso a serviços e estruturas de solidariedade e participem da vida social e política. Edifícios abandonados, muitos deles pertencentes ao Estado ou aos seus políticos, construídos pela implacável tributação dos trabalhadores e depois negligenciados, finalmente ganharam vida novamente, abrigando a vida da parte mais subestimada da base social, oferecendo ao mesmo tempo uma resposta ao problema mais amplo da habitação, mas também ao problema da desigualdade e da exploração causada pela propriedade. A violência contra as ocupações em geral e contra os migrantes em particular é uma tentativa do Estado grego de reforçar o racismo e a exploração, para aterrorizar todas e todos os oprimidos e explorados.

Desde o ataque aos espaços públicos ao ataque à habitação, desde a privatização dos espaços verdes à destruição do meio ambiente natural, desde as demissões aos salários não pagos, desde a privação de liberdades básicas à disseminação do controle eletrônico, desde os assassinatos “intencionais” na fronteira de Evros aos assassinatos “negligentes” nas prisões de Thiva e nos campos de Manolada, cada vez mais as pessoas no poder estão a levar as e os explorados a um estado de sufocamento insuportável.

Vamos respirar fundo e violentamente irromper contra o Estado, contra os seus chefes e guardas, lado a lado com os miseráveis. Com iniciativas contínuas, mas também organização permanente, vamos retomar o tempo e o espaço roubados construindo comunidades rebeldes e livres sem divisões nacionais e de gênero, sem exploração e hierarquia.

DOCUMENTOS PARA TODOS E TODAS MIGRANTES E SEUS FILHOS

DOCUMENTOS DE VIAGEM PARA QUE POSSAM ENTRAR E SAIR DAS ILHAS E DA GRÉCIA

NÃO AOS CENTROS DE DETENÇÃO

REDES DE APOIO MÚTUO E DE LUTA EM TODOS OS BAIRROS

POR UM MUNDO DE IGUALDADE, LIBERDADE E SOLIDARIEDADE, SEM FRONTEIRAS E GUERRAS

Rede de Apoio Mútuo e Luta

synsquat@riseup.net  / @AntiCovidAidNetwork

Fonte: https://athens.indymedia.org/post/1605294/

Tradução > Ananás

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/05/22/grecia-a-solidariedade-e-a-nossa-arma-2/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/05/20/grecia-declaracao-da-ocupacao-de-habitacao-para-refugiados-e-imigrantes-notara-26-sobre-o-despejo-da-ocupacao-themistokleus/

agência de notícias anarquistas-ana

estação vazia
no trem sozinho
um passarinho

Ricardo Portugal

[Chile] Diálogo sobre pedagogias anarquistas: estado atual e olhares para o futuro dentro do colapso capitalista

No âmbito do “Curso em massa, online e aberto: as pedagogias anarquistas em nossas vidas cotidianas” e diante do colapso mundial em que nos encontramos nos vários territórios. É necessário construir cenários de diálogo em que experiências, conhecimentos e saberes sejam compartilhados desde as pedagogias anarquistas, perguntando-nos: Onde estamos? E para onde vamos?

Individualidades e organizações que realizam práticas e pesquisas em pedagogias anarquistas em nosso século participam da discussão.

Data: 29 de maio de 2020

14h00: México / Colômbia / Guatemala / Peru / Equador

15h00: Chile / Bolívia / Paraguai

16h00: Uruguai / Brasil / Argentina

19h00: Espanha

Transmissão ao vivo por La Pizarra Negra:

https://www.facebook.com/LaPizarraNegraPedagogiaAnarquista

Esperamos todos e todas, saúde e ação!

La Pizarra Negra

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/04/17/chile-curso-em-massa-online-e-aberto-as-pedagogias-anarquistas-em-nosso-cotidiano/

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os aloendros
em fila
nos separavam do mundo

Guimarães Rosa

[Espanha] O anarquismo e a mudança revolucionária

O que o termo “revolução” significa hoje? Embora seja óbvio que o significado social e político tem seu significado histórico, a possibilidade de grandes mudanças revolucionárias parece ter sido em grande parte banida da imaginação das pessoas de hoje.

Além disso, a questão torna-se importante, mesmo quando entramos na arena libertária, quando há a habitual e cansativa discussão sobre por que não votar em uma eleição. Em outras palavras, nunca se deve dizer que o voto é inútil, mas que não é de todo útil para mudar a sociedade, para uma transformação radical da mesma, em suma, para a revolução. Isso tem muito a ver com uma época em que, em conexão com o fim das ideologias, parecia há alguns anos atrás que o fim da história tinha sido alcançado. Uma estupidez tremenda, pois as sociedades humanas estão sempre sujeitas a mudanças históricas, mas é um discurso que, apesar das muitas crises que sofreu, tem permeado em grande parte a imaginação das pessoas. É verdade que, no horizonte, nenhuma grande mudança revolucionária parece estar à vista; mesmo o que tem sido chamado de “revolução” nos últimos anos nada tem a ver com os grandes eventos revolucionários do passado. Outra questão, segundo esta visão conservadora ou reacionária, já que teria havido uma prática bastante desastrosa no passado, é que elas não seriam desejáveis deste ponto de vista. Esta visão obviamente manteria o status quo, embora aqueles que a professam aceitem alguma mudança, geralmente através do sistema estabelecido e de uma forma bastante cosmética.

Diante disso, há aqueles de nós que acreditam que a transformação radical, a mudança revolucionária (em muitas áreas da vida), é mais necessária do que nunca, já que o capitalismo e os estados nos conduzem a um desastre considerável, para não dizer que já estamos sofrendo com isso. Digamos que, a priori, é uma questão de desejo revolucionário, que uma grande parte da população parece não ter, pois suas consciências parecem ser colonizadas por aquelas forças conservadoras, ou reacionárias, que afirmam que outro mundo não é possível. É claro que, na ausência de um desejo e consciência majoritária revolucionária, é impossível incentivar a mobilização e a mudança. Especialmente se falamos de ideias anarquistas, que não deixam de promover a plena participação da sociedade nas mudanças, um aprofundamento da democracia, se quiser chamar assim. Em primeiro lugar, deve-se dizer que o desmantelamento daqueles que afirmam que a mudança revolucionária não é possível é uma questão simples. A história nos mostra que as sociedades humanas são continuamente transformadas, às vezes gradualmente, às vezes por um grande evento, progressivamente ou não. Em suma, a mudança revolucionária é inerente à própria existência de comunidades formadas por seres humanos. A teleologia, a história da humanidade voltada para um fim ótimo, um conceito de origem religiosa, que acabou sendo de alguma forma secularizado, é algo, não só discutível, mas francamente rejeitado. O que é possível é a mudança inovadora e radical da sociedade, mas graças ao desejo e à vontade do ser humano, não a fatores externos. Podemos citar aqui Albert Camus e seu homem rebelde, que é capaz de dizer não à autoridade instituída e acaba mudando o que parecia imutável.

Tentemos, portanto, aceitar antes de tudo que é possível mudar o estado das coisas, uma concepção radical e inovadora da liberdade. Voltemos agora ao termo revolução. Essa possibilidade de transformação radical seria baseada no que Eduardo Colombo chama de “imaginário revolucionário”, nossa capacidade simbólico-institucional, que assumiria diversas formas, mas em sua versão anarquista seria formada pelos desejos e aspirações de uma liberdade baseada na igualdade, uma rejeição a todas as formas de dominação ou ação social sem intermediários, entre outras coisas, o que traria o grande evento revolucionário. Seria um imaginário social libertário, mais ou menos semelhante ao clássico, ao dos militantes quando o anarquismo nasceu no século XIX e seu posterior desenvolvimento. Entretanto, outros autores anarquistas, como Tomás Ibáñez, embora aceitando logicamente o desejo de mudança revolucionária, consideram que o imaginário que o favorece é, pela força, muito diferente hoje. Embora os traços que caracterizam o anarquismo sejam os mesmos, já que existem princípios e atitudes que são permanentes, o mundo de hoje é muito diferente e um grande evento transformador não seria possível hoje como no passado. As contínuas mutações do capitalismo, que se renova de forma inédita, juntamente com o desenvolvimento tecnológico e a era da Internet, fazem com que o mundo de hoje seja muito diferente do de um século atrás.

Este é um debate sobre a possibilidade de um imaginário revolucionário com alguma conexão com o passado, sobre os grandes eventos de mudança, ou sobre a possibilidade de um que aceite que as revoluções assumam formas muito diferentes. É a mesma polêmica entre os postulados da Modernidade, com sua grande confiança na razão e no progresso, e a situação pós-moderna, que é verdadeiramente incerta e aparentemente sem muito a que se agarrar. Diremos, como fizemos em outras ocasiões, que talvez seja um falso dilema: é necessário uma conexão com as raízes do Iluminismo, com razão crítica, bem como um questionamento feroz de tudo o que tem sido pernicioso no desenvolvimento da Modernidade (e que tem muito, ou tudo, a ver com o sistema econômico, exploratório e político dominante). Por outro lado, a análise da sociedade pós-moderna, tudo o que nela é crítico, antiautoritário e social, é muito interessante e deve ser levado em conta. O importante da mudança revolucionária, a priori, é aceitar que ela é sempre possível, manter intacto o nosso desejo por ela e trabalhar o melhor que pudermos para essa sociedade libertária. Se as consciências de grande parte da sociedade parecem ser colonizadas por um sistema que não nos agrada em absoluto, a grande tarefa é como provocar um novo cenário revolucionário em que o grande desejo do povo é de ampla liberdade e reconhecimento do outro, a solidariedade sobre a qual a sociedade anarquista se baseia. A resposta, como sempre foi, é começar a construí-la aqui e agora.

Capi Vidal

Fonte: http://reflexionesdesdeanarres.blogspot.com/2017/05/el-anarquismo-y-el-cambio-revolucionario.html#more

Tradução > Liberto

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no poste
duas casas de João-de-Barro
rua iluminada

Joaquim Pedro

[Argentina] Apresentação em vídeo do livro “El anarquismo de Rodolfo González Pacheco”

Amigas e amigos, companheiras e companheiros: temos o prazer de compartilhar o vídeo da apresentação virtual do último livro impresso da coleção Utopía Libertaria, “El anarquismo de Rodolfo González Pacheco“, a cargo de seus autores. Também copiamos os links de dois vídeos onde são atualizados (visualmente) os títulos de nossas coleções impressos até maio de 2020.

Um abraço, saúde (agora mais do que nunca) e Revolução Social (cada vez mais urgente)

JC

>> Vídeos:

https://www.youtube.com/watch?v=BhuNWaeal1A

https://www.youtube.com/watch?v=mzp5skIoOkY&feature

https://www.youtube.com/watch?v=Q3hcGPMDbQ8

Libros de Anarres

Avenida Rivadavia 3972

Ciudad de Buenos Aires [4981-0288]

Argentina

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agência de notícias anarquistas-ana

Profundo silêncio.
Na escuridão da floresta
Dançam vaga-lumes.

Eusébio de Souza Sanguini

 

[Espanha] Anarquismo e ciência em tempos de coronavírus

“O anarquismo representa um ensaio de aplicação das generalizações obtidas pelo método indutivo-dedutivo das ciências naturais à apreciação da natureza das instituições humanas, bem como a previsão, com base nessas apreciações, dos aspectos prováveis na marcha futura da humanidade rumo à liberdade, à igualdade e à fraternidade”.

A ciência moderna e o anarquismo – Piotr Kropotkin

No contexto do Iluminismo, o anarquismo originário foi alinhado com o desenvolvimento da ciência nos séculos XVII a XIX. Acreditava em uma ciência racionalista que pusesse fim ao obscurantismo, à superstição, às crenças inquisitoriais, à repressão, à ignorância, à pobreza, à escravidão; uma ciência que contribuísse para a transformação social, pondo fim aos modelos absolutistas e de servidão das monarquias do Antigo Regime. A ciência durante esses séculos desempenhou um papel revolucionário e o anarquismo valorou e coincidiu com aquela perspectiva pela qual o conhecimento veio a ser utilizado como ferramenta de libertação coletiva.

“Descartando o absoluto em todas as ordens e expandindo o relativo em termos ilimitados”. Com esta máxima do anarquista Marcial Lores de A Coruña, incluída na publicação de 2010 da Associação Isaac Puente Crença e Ciência, no final do século XIX, defende “uma ciência despojada de preconceitos, que experimenta a liberdade em busca do conhecimento”.

O anarquismo como filosofia política compartilhou esses postulados de liberdade, de relativismo, o que lhe permitiu lançar luz sobre novos tipos revolucionários de relações humanas, de poder, econômicas e sociais… que se manifestariam nos modelos teóricos e práticos das sociedades libertárias.

Certamente esse apoio não era uniforme, nem sempre era uma relação idílica entre ciência e anarquismo, mas oscilou a partir do entusiasmo do “anarquismo científico” do naturalista Piotr Kropotkin, passando por Élisée Reclus ou Errico Malatesta até as objeções e advertências de Mikhail Bakunin sobre os riscos da nova alienação que supunha delegar o antigo poder abolido à ciência, transferindo a fé e a crença na religião em nome da fé na ciência positivista até considerá-la como o novo deus que sabe tudo, nos guia e resolve tudo.

Com o passar do tempo, a ciência vem deixando de lado suas convicções progressistas e a melhoria da vida da população para se tornar mais uma ferramenta a serviço de um sistema social classista e capitalista que mercantiliza tudo, até mesmo a saúde, como estamos vendo nessa pandemia de coronavírus.

De sua parte, Paul K. Feyerabend, ampliando horizontes, em sua obra de 1975 Contra o método. Esboço de uma teoria anarquista do conhecimento, ele se mostra contrário a uma visão exclusivamente racionalista da ciência, apontando que outros recursos irracionais e emocionais devem ser levados em conta, já que, afinal, a ciência é apenas mais um dos contextos em que o caráter humano deve emergir. No processo de pesquisa científica realista e racional, obcecada com regras e sua aplicação, pode ser positivo dispensar regulamentações rígidas, ignorar o método científico se necessário e abrir um novo caminho de liberdade que leve a descobertas insuspeitas.

É com essa abordagem alternativa, subversiva, alheia aos cânones da academia oficial, que “o anarquismo pode sem dúvida fornecer uma excelente base para a epistemologia e a filosofia da ciência”. Para este anarquismo epistemológico de Feyerabend, “Se tudo correr bem, não há obstáculos ao conhecimento”.

Não se deve ter medo de dar menos atenção à ordem e ao direito na ciência, assim como não se deve ter medo das experiências e sociedades reguladas pela filosofia anarquista. Como Albert Einstein nos lembrou, “Imaginação é mais importante do que conhecimento. O conhecimento é limitado e a imaginação envolve o mundo”.

Tentando não ser etnocêntrico (a malária, por exemplo, causa 600 mil mortes por ano), a realidade é que nos países mais desenvolvidos, vivemos em um estado de alarme surpreendente, com um terço da humanidade confinada às suas casas para que a pandemia de coronavírus não continue a se espalhar e cause uma saturação do sistema de saúde que leva a milhões de mortes. Esse fato provocou uma paralisia da economia capitalista globalizada com implicações no modelo social e de consumo em que praticamente todo o planeta está imerso e, paradoxalmente, estamos vendo as vantagens dessa situação de diminuição real. A emissão de gases poluentes foi reduzida e a qualidade do ar melhorou; o processo de turistificação e gentrificação foi retardado; há sintomas do renascimento de certa flora e fauna; iniciativas de redes de apoio mútuo estão proliferando espontaneamente; estamos descobrindo novas formas de nos relacionarmos e repensarmos os cuidados com os idosos; valorizamos mais a saúde ocupacional; o frenesi consumista foi refreado; a criatividade e originalidade de nossas expressões, afetos e relações de vizinhança estão surgindo…

Entretanto, a situação atual que estamos sofrendo com a pandemia nos deixa com questões muito complexas que nos permitem buscar novas formas de reflexão coletiva e explorar novas experiências práticas alternativas. Em primeiro lugar, a pandemia causou um extraordinário problema de saúde, uma emergência sanitária. Isso implica em refletir sobre a necessidade de uma atenção universal à saúde; sobre os milhões de dólares em cortes econômicos e trabalhistas sofridos pelo sistema público de saúde, tanto em termos de materiais quanto de pessoal de saúde; sobre os recursos que dedicamos à saúde pública e privada; sobre os cortes nos recursos destinados à pesquisa, ciência, busca de vacinas; sobre nossa dependência do mundo exterior e nossa própria incapacidade de produzir equipamentos de proteção, respiradores, máscaras, etc.

Diretamente ligados a esta primeira área de reflexão, nos encontramos com as deficiências do sistema de cuidados desumanizados que orquestramos como sociedade com nossos idosos, agora que eles se tornaram o primeiro grupo de risco contra o qual o vírus ataca com maior intensidade. Um sistema de residências comercializadas, extraordinariamente privatizadas, nas mãos de fundos de abutres, que permite o estacionamento de idosos porque as exigências do estilo de vida que nos é imposto pelo capitalismo nos impedem de prestar um atendimento mais direto.

Estreitamente relacionados a estes aspectos estão os graves problemas de saúde mental causados pela falta de afeto, pela solidão do confinamento em que vivemos e deixamos nossos mais velhos, tendo causado uma alteração radical das regras básicas e ancestrais de convivência, de relação com a morte, de celebração de funerais na maior desumanização e solidão com que jamais poderíamos sonhar. Quem repara toda essa dor?

Uma segunda questão tem a ver com ética, com moralidade, com o sistema de valores que regula a tomada de decisão sobre qual paciente tem mais direito de ser internado em uma UTI, de usar o ventilador, o respirador, a quem é proposto ou escolhido para salvar sua vida. Estamos diante de um sistema utilitário, impiedoso, típico da sociedade neoliberal pragmática e instrumental, em que as decisões são tomadas de acordo com a idade e as perspectivas de vida do paciente.

Uma terceira questão é o dilema de escolher entre a saúde e segurança dos trabalhadores e da população como um todo (o que implica a cessação de todos os tipos de trabalho e atividade econômica não relacionados com o desempenho de empregos essenciais para a manutenção da vida) ou continuar com a atividade econômica mesmo em risco para a saúde das pessoas. Estamos diante de um dilema de posicionamento ideológico claro. Das posições libertárias não há dúvida de que a opção é garantir absolutamente a vida e a saúde no trabalho diante de qualquer variável econômica, como recessão, redução do PIB, etc. Contra o modelo neoliberal e capitalista, propomos um modelo humanista, antiutilitário, alheio ao egoísmo individual, à busca imperiosa da felicidade ligada a cálculos meramente economicistas, como definidos há anos por autores como Alain Caillé, Karl Polanyi ou o decrescentista Serge Latouche.

Outra quarta e extraordinária questão está relacionada ao desenvolvimento tecnológico, ao controle social dos nossos dados digitais, das nossas vidas (aplicações informáticas, geolocalização, reconhecimento facial…) e à perda da liberdade e intimidade individual e coletiva, com a desculpa de que com ela o Estado e a autoridade zelam pela nossa segurança e saúde. A linguagem belicista que se impõe na análise da pandemia, a justificativa da presença das forças armadas e policiais tanto nas ruas quanto na mídia, refletem essa deriva totalitária e autoritária do poder e do Estado, o dono absoluto de nossas vidas, no qual a população só tem que obedecer (confinamento nas casas e saída apenas para o trabalho e que a economia não pare).

O exemplo da China é paradigmático como aponta o filósofo Byung-Chul Han em seu recente artigo “A Emergência Viral e o Mundo do Amanhã” ao descrever o funcionamento daquela sociedade em relação ao uso do Big Data para o controle e vigilância digital da população e ao custo da perda de liberdade e privacidade.

Possivelmente, e muito lamentavelmente, a maioria da população não recusará o controle digital e assim defenderá sua liberdade porque, até agora, sem que ninguém nos peça para fazê-lo de forma obrigatória, essa maioria já colocou sua vida à disposição das grandes empresas de comunicação e redes sociais em um processo de irresponsabilidade e renúncia expressa à sua privacidade e liberdade, ignorando descaradamente o fato de que os poderes – que serão sempre vigilantes e usarão todas essas informações para garantir sua segurança e não a nossa. O controle já existe, como denunciaram Julian Assange e WikiLeaks, mas pode ser um bom momento para refletir sobre a escalada que está vindo com o controle dos celulares e o acompanhamento dos nossos movimentos como ferramenta para combater a pandemia.

Finalmente, e isto é o que menos se ouve no debate público, teremos que nos perguntar, como quinta pergunta, porque surgem estes tipos de epidemias (que estão se tornando cada vez mais frequentes) e refletir sobre a ligação entre elas e o modelo produtivo e social em que vivemos. Reflitamos sobre a mudança necessária no modelo produtivo, econômico e social para evitar que este tipo de pandemia continue a se desenvolver nos próximos anos, como muitas pesquisas já previram, encontrando ligações diretas entre este modelo de exploração do trabalho (com superlotação em cidades contaminadas, pessoas medicalizadas, imunologicamente vulneráveis, esgotamento de recursos…) e a geração deste tipo de doença. Neste sentido temos Robert G. Wallace, em seu livro de 2016, Grandes Granjas Geram Grandes Gripes, o grupo Chuang em sua publicação de março de 2020, Contagio Social. As guerras de classes microbiológicas na China, mostram a conexão entre a atual agroindústria capitalista, o modelo consumista ocidental e a etiologia das recentes epidemias (SARS, Ebola, Gripe Aviária, Covid-19…)

O que diz a ciência sobre todas essas grandes questões que surgiram?

Atualmente, a pesquisa científica está imersa em uma corrida mundial para encontrar a vacina que libertará a humanidade da temida Covid-19. Na verdade, esta é a solução concreta e imediata para um problema que é apenas o sintoma de uma grande síndrome chamada capitalismo, neoliberalismo, darwinismo social…

Será encontrada uma vacina que ajudará a acabar com a pandemia, nos libertará de seus efeitos mortais e ao mesmo tempo enriquecerá os grandes grupos empresariais e farmacêuticos (a vacina não será colocada a serviço da população com critérios de equidade social, mas a serviço do mercado com preços exorbitantes, priorizando critérios econômicos), mas as soluções para as pandemias que virão no futuro, que são o resultado do atual sistema econômico e social, a ciência não está em condições de fornecê-las porque a ciência se tornou mais um elo nesse sistema. A ciência deixou de desempenhar o papel revolucionário que um dia teve e tornou-se mera tecnologia científica, um mero negócio, incapaz de libertar a humanidade dos anti-valores que a regulamentam, sem qualquer pretensão filosófica ou política. A ciência se posicionou, sob seu estigma de neutralidade e objetividade fictícia, a serviço do poder, do Estado, dos exércitos e das grandes multinacionais, tornando-se uma ferramenta útil para perpetuar o sistema.

O que o anarquismo lhe pede, o que ele traz à ciência nestes tempos de coronavírus, é que seja subversivo, integrador do conhecimento, holístico, humanista, que se torne independente do poder porque com ele se tornará independente de sua própria fragmentação intencional em áreas de pesquisa desconectadas, departamentalizadas e especializadas, como a Élisée Reclus já apontou, e de seu próprio paradigma metodológico universal e fixo, adotando uma epistemologia adaptável aos contextos. A ciência é constrangida por seu rígido método científico e, portanto, está perdendo possibilidades de olhar para o que está acontecendo na realidade com maior amplitude. Flexibilidade e adaptabilidade são necessárias, levando em conta o ser humano de forma mais integral, como lembrou Feyerabend, a fim de propor respostas globais ao drama existencial da vida.

Atualmente a pesquisa científica é muito parcial, não responde a grandes teorias que dão resposta às preocupações globais da humanidade. São também teorias que são propostas com base na competição e na rivalidade, sem compartilhamento ou cooperação.

O vírus não é combatido a partir de uma ciência fragmentada, mas sim propondo modelos teóricos que integram todos os parâmetros que afetam a vida e a saúde no planeta, como, por exemplo, modelos de prevenção sanitária; modelos urbanos e habitacionais que estão longe de estarem superlotados; modelos econômicos decrescentes, anticapitalistas, solidários e de autogestão; modelos de exploração agrícola e pecuária não-intensiva, sem macrofazendas ou superlotação de animais e desmatamento, que respeitam a soberania alimentar; modelos que impedem as mudanças climáticas, que apostam na sustentabilidade da vida com um novo modelo energético e energias renováveis; modelos que integram os processos de robotização e novas tecnologias e a distribuição de trabalho e riqueza; modelos sociais que são assembleias nas quais as decisões se tornam coletivas… Em suma, modelos globais, cientistas não clássicos, antipatriarcais, antirracistas, ambientalistas, libertários.

Vamos resgatar a ciência de sua domesticação, das garras do capital, para que ela avance e deixe de ser mera tecnologia. Façamos com que ela recupere o seu sentido transformador, pois há muitos desafios para continuar vivendo.

Recuperemos o sentido ancestral da ciência na busca da verdade e do conhecimento, a partir do relativismo, partindo da premissa de que a ciência é a ferramenta menos imperfeita que temos para continuar avançando como espécie. É o que fazemos há milhares de anos, num processo de experimentação, empírico, de observação, de tentativa e erro permanente, antidogmático, incansável.

Nesse sentido, o anarquismo e a ciência podem retornar às alianças, compartilhando parâmetros de subversão, espontaneidade, criatividade, arte, cultura, liberdade… para poder dar soluções coletivas, imaginativas, inovadoras, longe das exigências dos mercados e dos interesses comerciais. O dossiê¹ que se segue mostra esta rica relação bidirecional entre anarquismo e ciência, longe das abordagens economistas e utilitárias.

Do mundo do pensamento e da ciência, prevê-se que as saídas para esta crise podem oscilar entre o fortalecimento de um capitalismo mais totalitário (Byung-Chul Han) ou um comunismo reinventado (Slavoj Zizek).

Que análise pode ser feita a partir de posições libertárias e anarquistas? Certamente, respostas de solidariedade e apoio mútuo começam a surgir em toda parte diante das concepções de uma sociedade totalitária, onisciente, omnipresente, “Big Brother”. Demonstremos com nossas ideias e práticas anarquistas que a saída real, aquela que vai melhorar nossas vidas, só será se for libertária, coletiva, auto-organizativa, tecendo redes de apoio mútuo e de solidariedade.

Editorial da Revista Libre Pensamiento # 102 (Primavera 2020)

[1] http://librepensamiento.org/wp-content/uploads/2020/05/LP-N%C2%BA-102.pdf

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

tarde cinza
borboleta amarela
toda luz do dia

Alexandre Brito

[Espanha] Patriótico egoísmo

Por Íñigo González | 25/05/2020

Poderia resumir-se nestas duas palavras o que está acontecendo estes dias com os panelaços de pessoas cuja principal característica é exibir a bandeira monárquica.

A questão é: O que pedem? Por que protestam? Pelo que parece, pedem liberdade e que abram El Corte Inglés [famosa rede de lojas de departamento]. Vamos nos centrar na liberdade, o do El Corte Inglés é mais complicado, talvez outro dia. É chamativo o conceito de liberdade em algumas pessoas, geralmente se referem a SUA liberdade, passando pelo arco do triunfo a liberdade dos demais, inclusive recorrendo à exploração (a nova forma de escravidão) de seus semelhantes para conseguir SUA liberdade.

Sim, parece incrível, mas neste planeta há pessoas que se consideram com mais direito que as demais por múltiplas razões: seus sobrenomes, suas posses, seus estudos, seus títulos nobiliários, seu lugar de nascimento, sua cor de pele, sua bandeira, seu gênero e um montão de outras estupidezes, cada qual mais insensata, ilógica, fictícia e absurda.

Levamos muito tempo jogando com isto. Geralmente, estes tipos de argumentos foram expostos pelos setores privilegiados para exercer o controle sobre os despossuídos para não perder esses privilégios. Sempre souberam jogar bem suas cartas, não vamos negar, e souberam convencer a pessoas que não pertencem a seu círculo com a vã esperança de entrar nele. Já sabeis, os pobres não seremos perigosos enquanto abrigarmos a esperança de sermos ricos.

Outros temos claro que a liberdade, ou é para todos, ou não é para ninguém. Eu não posso ser livre se minha liberdade depende da submissão de outros porque então, tenho que me ocupar de manter submetidas a essas pessoas. Nós pensamos que, para sermos livres, temos de ser todos, sem exceção. Mas para isso faz falta EDUCAÇÃO e, nestes tempos, a educação brilha por sua ausência.

Há todo tipo de teorias sobre esta pandemia, os governos dos diferentes estados estão enfrentando-a de diferentes formas. Geralmente os governos de ideologia conservadora, sob a premissa da liberdade (a liberdade de seguir ganhando dinheiro) estão priorizando a atividade econômica frente a saúde da população com terríveis consequências.

Nesta época da desinformação, há que pôr tudo em dúvida. Não saberia dizer se as medidas que estão tomando no estado espanhol são as adequadas, não sou epidemiologista nem nada parecido, mas sim tenho uma coisa clara, se me dizem que não cumprir a certas normas pode matar alguém, posso crer ou não, mas não sou tão estúpido nem tão pouco solidário a ponto de me arriscar a comprová-lo as custas da vida de meus semelhantes. Já haverá tempo depois de tomar as medidas necessárias, para saber se fomos manipulados com algum outro fim (como defendem muitas teorias da conspiração). Agora é o momento de observar, analisar, comprovar, em uma palavra, aprender. E desaprender talvez. Ir sentando as bases que nos permitam conviver em harmonia sem dominação, sem governo, em paz.

É difícil pedir isto a coletivos que se caracterizam por sua falta de solidariedade, que só pensam em seu bem-estar, que pensam que pertencem a um grupo privilegiado, acostumados a reclamar seus direitos e não cumprir com suas obrigações, a lei de dois pesos e duas medidas.

Sim, também sou às vezes levado pela ira, pelo desejo de por-me frente a eles e gritar que não merecem o ar que respiram e contaminam com suas vergonhosas manifestações em carro. Sei que são os mesmos que jogam no chão suas máscaras e luvas (mais de uma vez tive que ouvir que assim dão trabalho aos garis, este é o nível) sei que são os mesmos que armam escândalos quando demoram para atendê-los no ambulatório ou no hospital, os mesmos que protestam porque os colocam em lista de espera para uma operação, os mesmos que votam em partidos que destroem a saúde pública.

Sei quem são, sei como pensam, convivo com eles. Sei que é inútil explicar-lhes as coisas, que não evoluem, que o único que lhes importa é manter (tristemente em alguns casos, conseguir) seu status. Não lhes fales de mudança climática, implicaria ir andando para comprar o pão em vez de ir de carro, não lhes fales de gente que passa fome ou sem-teto, eles já dão seu donativo na igreja, não lhes fales de trabalho precário, eles são empreendedores (a maioria das vezes com o respaldo do capital acumulado por seus pais e avós) e nós, simples trabalhadores, não podemos nem imaginar as dificuldades que tem um empresário, não lhes fales de maltrato animal, os animais estão para servir-nos (assim opinam algumas pessoas), não lhes fales de apoio mútuo, eles valorizam a pessoa que se faz por si mesma, ainda que geralmente contêm com todo tipo de pessoas a seu serviço. Poderíamos seguir com um longo etc, mas nós já o sabemos.

Dizia antes que sim, que as vezes sou levado pela ira, mas tenho claro que a violência começa onde acaba a inteligência, por isso eles sempre começam antes. Não baixemos a seu nível.

O mais doloroso de tudo isso é ver como pessoas de classe humilde se unem a seus amos, dói. Não me surpreendeu nada ver os ‘cayetanos’ [patriota endinheirado] do bairro de Salamanca com panela na mão, achei graça, se retratavam sós. O doloroso foi ver pessoas com poucos recursos seguir seu exemplo, como cães agradecidos a seu amo, esperando as migalhas de sua comilança pelo bom trabalho que realizaram em defesa de seus interesses. Não consigo entendê-lo. É medo? É ignorância? É lavagem cerebral?

O grande trabalho do fascismo na guerra civil foi acabar com toda a intelectualidade de nosso país, tinham claro, se queres submeter a população, não deve haver pensadores. Ainda hoje estamos pagando as consequências desta limpeza, pessoas que defendem a quem as explora, rouba e utiliza com um só argumento, difuso, indeterminado, vazio de conteúdo, irracional: ser espanhol.

Assim que não nos dirigimos a ti, que tens uma renda de mais de 100.000€, nos dirigimos a ti, que chegas com dificuldade ao fim do mês. Quem crês que vai te ajudar quando o necessites?

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/patriotico-egoismo/

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

Suave impressão de asas
abrindo em tempo-semente
e pausa suspiro

Nazareth Bizutti

[Espanha] 103º aniversário do companheiro Antonio Oviedo Cadierno

No domingo passado, 17 de maio, a CNT Sevilha teve a honra de celebrar junto ao companheiro Antonio Oviedo Cadierno e sua família seu 103º aniversário. Durante a visita lhe fizemos a entrega de um carnê honorífico, um ramo de flores e a antiga bandeira da CNT de Sevilha.

Nascido em 17 de maio de 1917, se filiou a CNT aos 14 anos e militou até bem entrada a democracia. Durante os anos de guerra lutou três anos nas frentes, e durante sua estadia em Madrid conheceu Buenaventura Durruti. Após a guerra veio “o campo de concentração, mais tarde o cárcere, e posteriormente a liberdade vigiada (…) Para cúmulo, o tirano Franco faz servir a todas as fazendas da guerra que não serviram com ele”. Foram anos de quarteis onde sofreram tratamentos vexatórios e a fome do pós-guerra. Já na clandestinidade, trabalha junto a companheiros na conservação da CNT e na transmissão das ideias anarquistas, colaborando em várias publicações.

Após mais de um século de vida Antonio tem ainda intacta sua inquietude para aprender, trabalhar e melhorar, e segue fiel a essas ideias que o fizeram lutar na guerra e das quais segue sentindo-se orgulhoso.

Nos encheu de alegria vê-lo sorrir e animar-se com a visita, durante a qual nos recordou a importância de “difundir o nosso e o que passou, para que não se perca”. Foi especialmente emocionante cantar junto a ele “A las barricadas”, e apesar de não poder dar-lhe um abraço e um beijo por seu aniversário, ao levantar suas mãos entrelaçadas em símbolo de solidariedade e apoio mútuo nos disse que “não são fictícios, mas verdadeiros, os abraços entre anarquistas”. Que assim seja e conservemos todos seu espírito solidário nestes tempos difíceis que também nos cabe viver agora.

Queremos por último agradecer a sua família, e em especial a sua filha Encarna, a quem sabemos também lutadora, o carinho e a proximidade com que nos abriu as portas de sua casa e nos contou a história de seu pai e de seu povo.

Fonte: http://sevilla.cnt.es/2020/05/103-cumpleanos-del-companero-antonio-oviedo-cadierno/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Vejo outra vez
Flores do ipê roxo
Num céu todo azul

Calberto

[Alemanha-Índia] Solidariedade com a população rural de Bengala Ocidental

O recém-fundado sindicato dos Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW, sua sigla em inglês) Kolkata organiza doações de alimentos para pessoas em aldeias ao redor de Calcutá (leste da Índia). As pessoas de lá são particularmente atingidas pelas consequências da pandemia. Ao mesmo tempo, o controle estatal é menos rígido do que nas cidades maiores, o que resulta em um escopo de ação um pouco maior.

O Sindicato dos Trabalhadores Livres (FAU) mantém um diálogo regular com as pessoas presentes e é um importante apoiador financeiro da iniciativa. Incentivamos todos a apoiarem também os esforços da IWW Kolkata.

As pessoas que estão ativas na IWW Kolkata montam pacotes de ajuda contendo alimentos básicos. Elas compram o conteúdo diretamente dos agricultores locais, enchem os pacotes e os distribuem para as pessoas afetadas. Nas aldeias, a IWW Kolkata trabalha em conjunto com grupos de voluntários e os chamados Clubes. Esses Clubes são estruturas autogestionadas, administradas pelas pessoas das aldeias, basicamente para organizar serviços e apoio social.

Uma embalagem tem os seguintes conteúdos: arroz de 5 kg, pasta daal, óleo, soja e sabão – e custa cerca de 250 INR (cerca de 3 EUR). Até agora, mais de 200 famílias em três aldeias (Salboni, Kaina e Jitusole) foram supridas com esses pacotes. O foco agora está na vila Ghitokham.

Por enquanto, o maior número possível de aldeias da região devem ser envolvidas. A IWW Kolkata está assumindo que esse ciclo de fornecimento provavelmente terá que ser repetido dentro de um mês, supondo que a política de bloqueio continue. Atualmente, há a necessidade de assistência imediata. Com o apoio atual, os agricultores têm alguma renda e as pessoas sem dinheiro, sem renda, recebem alguns alimentos básicos.

O foco agora está no fornecimento e distribuição desses bens. Além disso, também há planos de organizar alfaiates na área, para que produzam máscaras de proteção, que serão vendidas nas cidades e vilarejos vizinhos. Os alfaiates se beneficiariam diretamente da renda gerada. Isso requer alguns esforços para preparar e deve ser implementado em algumas semanas a partir de agora.

Solidariedade, não caridade!

Contatos:

Facebook-Seite: / iwwKolkata
E-mail: iwwkolkata@gmail.com
FAU: fauhh12@fau.org

Conta bancária:

Nome: Abhijay Gupta
Número da conta: 20670110065914 agência
Banco e: UCO BANK – JHARGRAM
Código IFSC: UCBA0002067

A Índia não faz parte do sistema IBAN, portanto, transferir dinheiro pode ser mais difícil. Nesse caso, plataformas como TransferWise e Skrill podem ser uma alternativa fácil.

Tradução > A. Padalecki

agência de notícias anarquistas-ana

lua nublada
no alto da montanha
a solitária árvore

Alonso Alvarez

[Internacional] Enfrentar uma crise de saúde global: o Estado e o capitalismo não funcionam, mas a solidariedade sim

A Comissão de Relações da Internacional das Federações Anarquistas (IAF-IFA) continua exercendo as suas atividades durante a atual pandemia global. Em todos os territórios, as e os delegados das nossas Federações reuniram-se virtualmente para se afirmar em relação ao compromisso do anarquismo social e organizado nesta crise mundial.

A pilhagem e a destruição da natureza, a exploração e o empobrecimento de sociedades inteiras, as operações de guerra, a morte de milhões de pessoas devido à fome e à carência, a exclusão e confinamento de pessoas em campos de concentração e prisões revelam a natureza criminosa do sistema estatal capitalista. A brutalidade deste modelo autoritário de organização social torna-se hoje, no contexto da pandemia global, ainda mais flagrante.

Enquanto os e as nossas ativistas estão tentando manter o seu trabalho social e político vivo sob diferentes formas, principalmente graças à tecnologia, apesar das regras generalizadas de confinamento, algumas preocupações comuns foram compartilhadas, como se segue.

• Reconhecendo a necessidade de responsabilidade social na tomada de toda as precauções de saúde necessárias que todos os indivíduos devem adotar para se proteger a si e proteger os outros, denunciamos o autoritarismo e militarismo de todos esses governos que abordam questões de saúde através da repressão militar e policial e através da supressão das liberdades civis e da valorização de formas totalitárias de controle social. Este é especialmente o caso com os governos que aproveitaram a situação para impor mudanças autoritárias.

• Denunciamos a busca pelo lucro dos capitalistas e das classes dominantes, que tentam reiniciar a produção, independentemente da segurança dos e das trabalhadoras e apoiamos as greves e as mobilizações espontâneas das e dos trabalhadores que ocorreram em todo o mundo para recusar as lógicas do lucro e para promover a ação direta.

• Denunciamos a ascensão da violência doméstica e sexista fomentada por medidas de confinamento doméstico e opomo-nos como de costume ao patriarcado, ao sexismo e à homo/transfobia.

• Denunciamos a retórica nacionalista implantada na maioria dos Estados e estamos em solidariedade com os e as migrantes, que muitas vezes sofrem e se arriscam mais do que outros devido às condições desumanas e vergonhosas dos campos de detenção.

• Solidarizamos com as e os prisioneiros e contra todas as prisões, campos de detenção e instituições totalitárias, cuja natureza assassina é especialmente revelada por esta pandemia.

• Denunciamos as condições das pessoas em situação de pobreza e de todos e todas as desempregadas e trabalhadoras precárias que estão a carregar o fardo da injustiça social em todo o mundo e se arriscam à morte pela fome em alguns países, sendo eles e elas a menor preocupação dos seus governos e classes dominantes.

• Somos solidários e solidárias com os e as profissionais de saúde e com todas e todos os trabalhadores que estão a desempenhar tarefas essenciais para a vida de todos e todas, operando muitas vezes sem a proteções e garantias necessárias, pagando muitas vezes com suas vidas as ineficiências e erros dos aparelhos estatais e administrativos.

• Somos solidários e solidárias com todos os povos e comunidades que resistem à guerra estatal e à repressão, desde Chiapas a Rojava, e cujo fardo é atualmente agravado pelo Covid-19.

• Por tudo isto, apelamos ao aumento das experiências de baixo para cima de apoio mútuo; solidariedade e partilha que estão a ocorrer em todo o mundo, a fim de realizar as únicas práticas que podem ser eficazes para enfrentar os desafios globais atuais. Estas formas de ajuda recíproca entre os e as mais fracas da sociedade, os e as pobres, os e as idosas, todos os grupos e indivíduos mal tratados, explorados e discriminados devem expandir-se. Mais fortemente do que nunca, precisamos apoiar todas estas experiências concretas que visam transformar o nosso cotidiano, incluindo cooperativas de solidariedade, escolas alternativas e libertárias, espaços ocupados, espaços de solidariedade e intercâmbio alternativo, bem como todas as iniciativas fundamentadas no apoio mútuo e na transformação social libertária em todo o mundo.

• Embora fosse impossível resumir todas as experiências concretas que estão a ser apoiados pelos e pelas nossas camaradas e federações em diferentes países e realidades, alguns exemplos parciais de experiências em curso de apoio mútuo podem incluir: A criação de grupos de apoio mútuo que ajudam a comunidade/casa/vizinhança a lidar com o vírus, por exemplo, com a distribuição de alimentos, equipamento de proteção e medicamentos; a abertura de novos espaços para viver e para fazer atividades culturais, incluindo ocupações de espaços por pessoas sem abrigo; a difusão de livros, revistas e outros suportes e explicações para lidar com a crise; promover e implementar práticas alternativas anticapitalistas ao sistema econômico existente, tal como fundos compartilhados de solidariedade; a promoção do ativismo para apoiar grupos abusados e vulneráveis, como povos indígenas. E muitos outros que não podem ser listados aqui.

O sistema do estado capitalista que condena milhões de pessoas à morte através da fome, doença e guerra, não está a lutar contra a pandemia, mas para a preservação dos privilégios e poder das elites políticas e econômicas.

Sofrendo a situação atual como todos os outros e outras, nós anarquistas da IFA confirmamos e continuamos a nossa luta mundial pela justiça e liberdade, para ir em frente construindo a cada dia o novo mundo que trazemos nos nossos corações.

Fonte: http://apo.squathost.com/facing-a-global-health-crisis-state-and-capitalism-do-not-work-but-solidarity-does/

Tradução > Ananás

agência de notícias anarquistas-ana

Começo de chuva…
A tempestade faz festa,
no meio da rua.

Humberto del Maestro

[EUA] Marcando o 30º aniversário do bombardeio de Judi Bari e Darryl Cherney

O 30º aniversário do bombardeio de Judi Bari e Darryl Cherney é dia 24 de maio de 2020. Geralmente, os camaradas de Judi na área da baía comemoram esse evento todos os anos indo ao local onde a bomba explodiu sob o assento do carro de Judi enquanto ela dirigia por Oakland, para marcar o momento, assim como reunir pessoas para discussões sobre ativismo radical e solidariedade. Este ano será diferente em tempos de pandemia. Mas a data será marcada, não obstante, como uma lembrança contra o esquecimento.

Judi Bari disse, há muitos anos:

“Partindo do bastante razoável, mas infelizmente revolucionário conceito, de que as práticas sociais que ameaçam a continuação da vida na Terra devem ser mudadas, precisamos de uma teoria de ecologia revolucionária que abranja questões sociais e biológicas, luta de classes e reconhecimento do papel do capitalismo corporativo global na opressão dos povos e na destruição da natureza.

Acredito que já temos essa teoria. Isso se chama ecologia profunda e é a crença central do movimento ambiental radical.”

Suas perspectivas e análises esclarecem o porquê ela era considerada perigosa para o status quo corporativo e foi atacada. Em 24 de maio de 1990, uma bomba caseira foi plantada no carro da ativista do Earth First! Judi Bari. A bomba explodiu, enviando ela e sua colega ativista Darryl Cherney ao hospital em Oakland – Judi com ferimentos fatais, já que a bomba havia sido escondida diretamente sob o banco do motorista. Judi e Darryl estavam a caminho de um evento no Earth First! Redwood Summer. Aquela explosão e o subsequente ataque ao Earth First! assim como contra Judi e Darryl, pelo FBI e pela polícia de Oakland, mudariam para sempre a face do ativismo florestal nas florestas de sequoias e em outros lugares.

A pessoa responsável pela bomba nunca foi encontrada, em parte porque o FBI nunca conduziu uma investigação séria, optando por culpar e assediar os ativistas do Earth First!, tentando acusar Bari e Cherney a terem bombardeado a si mesmas. Um processo movido por Judi e Darryl contra o FBI e o OPD por violação dos direitos constitucionais foi finalmente bem-sucedido em 2002, vindicando Darryl e Judi, mas veio cinco anos depois da morte prematura de Judi por câncer de mama aos 47 anos.

Redwood Summer foi uma mobilização em massa de estudantes e outras pessoas que vieram através dos EUA para protestar contra o desmatamento da região de sequoias no norte da Califórnia, sendo dizimadas pela motosserra corporativa. Foi modelado pelas mobilizações de direitos civis no sul na década de 1960. O verão de desobediência civil e protestos nas florestas prosseguiram, apesar da perturbação monumental causada pelo bombardeio e das tentativas de enquadrar e destruir o Earth First! e mudou a face da organização de ações diretas na época.

Havia uma exibição planejada dedicada a Judi no Museu do Condado de Mendocino, que colocaria em exibição o carro bombardeado e outros artefatos da época, que seria inaugurado em 1º de maio. A pandemia adiou tudo isso, mas incentivamos as pessoas a assistir ao filme de longa-metragem, Who Bombed Judi Bari?¹ no YouTube. Conta a história do atentado, Redwood Summer, Earth First! e muito mais.

[1] https://www.youtube.com/watch?v=HWApxvSjMKY&feature=emb_title

Fonte: https://itsgoingdown.org/marking-the-30th-anniversary-of-the-bombing-of-judi-bari- and-darryl-cherney /

Tradução > A. Padalecki

agência de notícias anarquistas-ana

Noite escura,
chuva fina esconde
a lua cheia.

Fabiano Vidal

[Espanha] O Fascismo segue nas ruas e nas Instituições

Assistimos a um patético espetáculo das pessoas da direita nas ruas, em meio da crise sanitária pelo Covid-19 e com a maioria da população confinada em suas casas, tratando de sobreviver e de não estender o maldito vírus para não voltar à situação de colapso dos hospitais e das UTIs.

Com as ruas vazias pela demostração geral de responsabilidade da população, envoltos em sua bandeira espanhola, estes patriotas, com seus talheres de prata em riste, percorrem as ruas dos bairros ricos das cidades, com megafones e panelaços, protestando contra o governo, ao qual atribuem a responsabilidade de todos os mortos.

A Lei mordaça que eles defenderam e votaram, não se aplica a eles em nenhum caso, a polícia os trata amavelmente, devem ser “pessoas de bem” e essa Lei foi feita só para os “esfarrapados”, “desalinhados”, anarquistas, vermelhos e pessoas de mal viver.

As Delegações do governo lhes permitem estas Concentrações, Manifestações e inclusive Caravanas de “carreatas” de protesto, enquanto impede à maioria da população de passear juntas, rechaça qualquer tentativa de Concentração de protesto aos demais Movimentos e Coletivos sociais e ninguém revoga a maldita Lei Mordaça, à qual estes “noivos da morte” parece que são imunes.

Entre militares, fascistas e religiosos, temos as ruas ocupadas como se assistíssemos a um documentário do passado, a um Nódulo dos que gostavam de Franco. Causa grande espanto o que está ocorrendo.

Quando a classe trabalhadora e os setores populares se manifestavam massivamente contra a miséria e escravidão a que nos submeteram após a grande fraude chamada crise de 2008, estes diziam que isso não significava nada, porque havia mais gente que ficava em casa. Mas agora é este bando o que ocupa as ruas, com valentia, como se fossem ativistas, isso sim, bem penteadas, com roupa de marca e com perfumes caros.

Não nos cabe dúvida que a maioria social, a classe trabalhadora, as pessoas que sofrem a precariedade de vida e a exclusão social, voltaremos a tomar as ruas que são nossas, e lhes devolveremos a suas tocas de luxo, estamos nos preparando para isso, com suas Leis Mordaça, sua repressão seletiva e sua arcaica patriotada de ficção.

Nada vai nos parar porque nossa vida vai nisso. Defender Serviços públicos, universais e de qualidade, começando pela Saúde, Revogar as Reformas laborais, lutar pela Igualdade real entre homens e mulheres, lutar contra a Emergência climática, pelo futuro de nossa gente Jovem, pelos Cuidados às diversas Dependências, pela Renda Básica das pessoas Iguais (RBis), pelas pessoas excluídas, por umas Pensões públicas dignas, pelos direitos e liberdades de todas, será nossa urgência e prioridade.

É então quando diremos “Não fiques em casa”, luta junto a tua Classe por um futuro mais justo, solidário, igualitário e em um planeta habitável.

Já falta pouco. As ruas nos esperam.

Secretariado Permanente do Comitê Confederal da CGT

cgt.org.es

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

Grande sol poente
chupa no horizonte
estrada serpenteante

Winston

[Alemanha] Trabalhadores sazonais forçam os chefes das fazendas a pagá-los

Credores que haviam assumido a fazenda de aspargos Spargel Ritter em Bornheim, Bonn, pensavam que poderiam fugir sem pagar o que deviam aos trabalhadores mal pagos, mas uma campanha sólida organizada com o sindicato da FAU [União de Trabalhadores Livres, anarcossindicalista] logo desiludiu-os dessa noção.

O problema com Spargel Ritter começou dois meses antes da temporada de colheita que estava para começar em abril deste ano, quando os credores iniciaram processos de falência contra os proprietários Claus e Sabine Ritter. Trabalhadores imigrantes já estavam sendo contratados, principalmente da Romênia, apesar de uma evidente degradação do local, quando os Ritters entraram em problemas financeiros mais profundos.

Um relatório da situação do local em fevereiro descreveu uma bagunça repleta de lixo, onde os contêineres para os trabalhadores não estavam sendo nem mesmo vagamente mantidos e as atividades foram cortadas ao mínimo, uma situação que certamente não melhoraria quando os credores, liderados pelo escritório de advocacia Dr. Schulte-Beckhausen & Bühs se envolveram.

Em vez disso, as coisas pioraram significativamente quando os trabalhadores começaram a chegar para a colheita em meados de abril, pois o administrador principal Andreas Schulte-Beckhausen não tinha intenção de pagar pelo trabalho duro que ele estava impondo a 240 ajudantes de colheita que haviam viajado 1.800 milhas para estar lá.

Em 15 de maio, os trabalhadores esperavam receber os salários pelos quais trabalhavam, mas receberam uma quantia de 100-200 euros por um mês de trabalho nos campos – 3 a 7 euros por dia para deixar suas casas e famílias para viver 4 -5 pessoas em uma sala em barracos cheios de lixo ao lado de uma estação de tratamento de esgoto em uma das regiões mais ricas da Terra, sem garantia de ver o resto, pois os credores tentavam enxaguar a empresa em colapso por tudo o que ela tinha.

Foi um tapa final na cara no topo de uma lista crescente de comportamentos insultuosos dos novos proprietários, que, segundo os trabalhadores, estavam cortando custos sempre que possível, inclusive fornecendo alimentos mofados e estragados, não se incomodando em fornecer aquecedores ou saneamento adequado e, posteriormente, falta de EPI ou medidas de distanciamento do vírus. A segurança era tão ruim que um trabalhador ficou paralisado.

Portanto, a resposta deles foi imediata. Mais de 150 pessoas protestaram no pátio da fazenda, deixando claro que não perderiam mais tempo sem pagamento integral.

A situação subiu de tom rapidamente e, quando a FAU tentou enviar representantes – três membros eram trabalhadores – os administradores tentaram um bloqueio completo, impedindo-os de sair do local. Segurança foi contratada, com grandes custos, e até 20 policiais de Bonn foram convocados para manter o controle, pois os chefes ameaçavam despejar os contêineres superlotados que estavam sendo usados como abrigo para trabalhadores.

No dia 19, cerca de 80 trabalhadores de colheita e um número maior de apoiadores do sindicato marcharam no consulado romeno em Bonn para publicar suas queixas, transformando a questão em uma política internacional, chamando os grandes veículos da mídia que estavam no local para cobrir a questão e pressionando Schulte- Beckhausen, que eles descreveram que estava agindo como a máfia. Um representante da FAU declarou no comício: “A farsa de Spargel Ritter deve agora terminar. Os salários devem ser pagos, as pessoas doentes devem ser cuidadas adequadamente. É insuportável que essa condição continue.”

Um dia depois, mais dinheiro foi recebido magicamente, enquanto os administradores tentavam comprar os protestos o mais barato possível. Mesmo assim, eles tentaram impedir a supervisão sindical, juntando trabalhadores em grupos de dez, expulsando-os da área e permitindo a FAU acesso apenas a um veículo.

A FAU Bonn tuitou: “Atingimos nosso objetivo mínimo: os trabalhadores não estão falidos e não têm perspectiva de serem colocados nas ruas. Agora a batalha legal começa.”

As demandas remanescentes para os trabalhadores da Spargel Ritter incluem:

1- Todos os trabalhadores recebem salários de três meses. O salário mensal é baseado em 30 horas de trabalho por semana, remuneradas a 9,35 € por hora.

2. Todos os trabalhadores que desejarem devem ser apoiados com uma indicação para outras empresas.

3. Uma viagem de volta à sua cidade natal deve ser organizada para todos os trabalhadores que desejam sair, com o empregador cobrindo os custos. No caso de trabalhadores que precisam disso por razões médicas, os custos de devolução do paciente à saúde devem ser pagos.

4. Todos os trabalhadores têm direito a subsídio de doença por dias de doença, à uma taxa regular ao salário.

O confronto legal está agora em andamento, enquanto a FAU tenta fazer valer todos os direitos dos trabalhadores e, eventualmente, levá-los para casa com seu salário integral. O sindicato está pedindo apoio ao seu fundo de assistência jurídica, detalhes abaixo.

FAU IBAN: DE25 3506 0386 1112 5200 05 | BIC: GENODED1VRR | Referência: Asparagus Ritter

Fonte: https://freedomnews.org.uk/germany-seasonal-workers-force-farm-bosses-to-pay-up/

Tradução > A. Padalecki

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agência de notícias anarquistas-ana

ipê florido
as abelhas zunem
folhas caídas

Rubens Jardim

[Espanha] Crowdfunding: “Ecologismo Integral; identidades, justicia social y decrecimiento”

Gerar uma alternativa ecológica integral política, social e econômica através de redes de produção e consumo. Decrescer para ser justa.

Por quê um livro com estas características?

Nos encontramos imersas em um contexto onde o ecologismo necessita dar um passo adiante para não ser instrumentalizado pelo poder. E quando digo pelo poder, não me refiro unicamente a esses homens de preto, mas sim, aos partidos políticos e suas políticas profissionais.

Por quê digo isto?

O motivo é claro assim como duro. Dentro das instituições nunca poderemos estabelecer uma sociedade ecossocial. Os interesses econômicos das grandes empresas bloquearão qualquer tentativa a partir de dentro para modificar a realidade existente. Portanto, qualquer vislumbre de tentativa de dentro das instituições, não fará senão desgastar o sujeito que tente e perder seu tempo ao nadar em uma direção equivocada. Disto sabem muito aquelas que, após a febre das CUP, anteriores a Podemos, deixaram suas atas de conselheiras e voltaram às ruas.

Como o fazemos?

Em pleno século XXI, um século que está sendo e será de colapso em matéria sanitária, climática e política, o ecologismo necessita estruturar-se em torno de uma atuação política não institucionalizada, tendo em conta por sua vez os seguintes elementos:

Quanto ao territorial:

1) A Biorregião, a comarca e o município como sujeitos territoriais.

Quanto ao organizativo:

2) Um Confederalismo Democrático adaptado a nossa realidade sociológica que gestione politicamente a relação entre os diversos sujeitos que fazem parte do projeto.

Quanto ao jurídico:

3) Um sindicato como marco de atuação.

Quanto ao político:

4) Ecologismo social, feminismo e antimilitarismo.

A que se destinará o dinheiro?

Todo o dinheiro será utilizado para a correção, formatação e impressão do livro, quer dizer, todo o dinheiro será para a editora levar o livro às ruas. Cabe dizer neste ponto que o livro tem um preço de 15 euros, os quais não cobrem os gastos de envio. Portanto, ditos gastos o autor tentará cobrir com as colaborações de apoio de 5 euros (aspecto que agradeceria que se tivesse em conta ;)).

Qual é o calendário?

Uma vez que se consiga o dinheiro-1380 euros sem contar com os gasto de envio, que serão de uns 2 euros por exemplar-184 euros aproximadamente – o que supõe uma soma total de 1564 euros, se assinaria o contrato com a editora e, a partir daí, transcorreriam cinco meses até a publicação do livro.

>> Mais infos, participar da vaquinha:

https://www.verkami.com/projects/26510-ecologismo-integral-identidades-justicia-social-y-decrecimiento?utm_medium=email&utm_source=transactional&utm_campaign=info%40verkami.com

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

árvores grandes
formam extensas sombras
descanso em paz

Thiphany Satomy

[Espanha] Rocker e a tradição socialista autoritária

Já Rudolf Rocker, em 1925, denunciava essa distinção entre o socialismo utópico, supostamente tudo o que antecede Marx, e o socialismo científico, resultado das ideias de Marx e Engels. Após a consolidação do totalitarismo, fascista e comunista, Rocker não pôde deixar de fazer uma enorme crítica ao socialismo autoritário sob o título de “A Influência das Ideias Absolutas no Socialismo”.

A suposta “missão histórica do proletariado” só poderia ser questionada agora; uma classe social, além de ser impossível estabelecer os limites de tal conceito, não pode ser atribuída a certas tarefas históricas ou tornar-se representante de certas correntes ideológicas. Naturalmente, pertencer a um determinado estrato social não garante o pensamento e a ação dos indivíduos. Assim, o anarquismo critica o determinismo econômico e histórico, qualquer tipo de processo natural que ocorra fora da vontade humana. Rocker ousa até mesmo acusar o marxismo de ser absolutista e de fazer danos irreparáveis ao socialismo, confiando no desenvolvimento mecânico e desconsiderando as premissas éticas. Não se pode mais reivindicar Proudhon, entre os antigos socialistas, já que foi ele quem mais insistiu em negar uma panacéia universal que resolvesse todos os problemas sociais; encontramos nos franceses, embora existam, é claro, aspectos de suas propostas que foram superados com o tempo, uma crítica feroz a qualquer tendência absolutista e a qualquer sistema fechado. É um legado inquestionável para o anarquismo, a negação de todo dogmatismo e sectarismo, e a plena confiança na pluralidade social.

É claro, Marx e seus apoiadores também chamaram Proudhon de “utópico”. O desenvolvimento do capitalismo, com seus poderosos monopólios, aliado ao fortalecimento do Estado, devia ser visto como uma negação das propostas de Proudhon. Precisamente, Proudhon, conhecido explicitamente como o primeiro anarquista da modernidade, soube prever o desenvolvimento capitalista e avisar em conformidade. O advento do fascismo no século XX, juntamente com os graves problemas de burocratização e a negação dos direitos pessoais e da liberdade no socialismo de Estado, só pode dar razão moral às advertências anarquistas. O Proudhon foi talvez o primeiro, como aponta Rocker, a prever que a união entre socialismo e absolutismo implicaria uma tirania sem precedentes. A influência do autoritarismo sobre o movimento socialista remonta à sua primeira fase, com a Grande Revolução e o longo período das guerras napoleônicas. Após esse período turbulento, houve um período de resignação e desespero, um terreno fértil para a reação e o autoritarismo.

Os chamados “socialistas utópicos”, Saint-Simon, Fourier e Owen, testemunharam esse tempo turbulento; assim, Rocker afirma julgar suas ideias e atos em relação à época em que viveram, sem recorrer a essa classificação arbitrária e insignificante do “socialismo utópico” e depois chegar ao “socialismo científico”. É claro que mesmo esses precursores do socialismo, por mais avançados que fossem, não poderiam escapar às influências autoritárias da época. Rocker lembra que o absolutismo napoleônico havia relegado a tradição liberal para segundo plano; havia uma nova fé na onipotência da autoridade. Na velha escola socialista, portanto, há um certo flerte com concepções absolutistas e uma hostilidade às aspirações liberais. Rocker denuncia essa influência nociva, a do jacobino e da tradição autoritária; porém, houve um notável contrapeso com o pensamento de Saint-Simon, com o associacionismo federalista de Fourier e, sobretudo, com a já anarquista filosofia de Proudhon. Entretanto, a situação na Alemanha seria muito diferente, não havia mais uma tradição revolucionária e o liberalismo era uma cópia fraca do inglês; até o fim da Primeira Guerra Mundial, o alemão era um estado semi-absoluto. O socialismo de um Ferdinand Lassalle, mais do que o de Marx e Engels, e sua confiança inabalável num estado todo-poderoso, exerceram uma grande influência no movimento operário alemão.

Para Rocker, a influência de Marx sobre a classe trabalhadora alemã foi de natureza muito diferente. Marx também captou influências absolutistas, pois subordinou todo o desenvolvimento social às necessidades forçadas baseadas nas condições econômicas; sua suposta descoberta das leis do movimento social foram para ele “puras e absolutas”. Trata-se de uma concepção mecanicista e fatalista dos fatos históricos que é apresentada, não raro na obra de Marx, como uma verdade absoluta. No entanto, Rocker considera que Marx também teve a influência de Proudhon, portanto seu objetivo final foi também a eliminação do Estado na vida social. Porém, como já insistimos muitas vezes, onde difere é na maneira de atingir esse objetivo; Bakunin e os anarquistas insistirão no fim prévio do Estado, ao lado das instituições de exploração econômica, a fim de possibilitar o livre desenvolvimento da vida social. As concepções centralistas e autoritárias de Lasalle e Marx acabarão por predominar sobre o socialismo libertário, o que levou nas décadas seguintes a uma concepção socialista rígida e dogmática, com a pretensão até de ter uma base científica. Era uma tradição fatalista, e com uma fé cega no Estado, que se tornaria o poderoso guia do movimento socialista internacional; Rocker, com triste ironia e retomando as palavras de seu amigo Erich Mühsam, lembrou que essa influência seria tão terrível quanto a política de Bismark e só poderia ter um nome: Bismarxismo. Foi o terreno fértil para as ditaduras: o socialismo só pode ser livre ou não existirá.

Capi Vidal

Fonte: http://reflexionesdesdeanarres.blogspot.com/2013/06/rocker-y-la-tradicion-socialista.html

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

figos pretos
em farrapos nas figueiras
chuva de outono

Rogério Martins