
Por Edward Avery-Natale | 22/09/2025
Embora a cidade de Nova York seja comumente considerada o berço do punk rock americano, apenas 160 quilômetros ao sul do famoso clube CBGB, onde os Ramones e outras bandas pioneiras do punk começaram, está a Filadélfia, que mantém uma cena punk vibrante desde pelo menos 1974 e que persiste até hoje.
Sou professor de sociologia no Mercer County Community College, em Nova Jersey, editor principal de um volume intitulado Being and Punk (no prelo) e autor do livro Ethics, Politics, and Anarcho-Punk Identifications: Punk and Anarchy in Philadelphia (2016).
Sou fã de punk rock desde os 15 anos e participei ativamente de cenas punks em Filadélfia e Fargo, Dakota do Norte. Ainda frequento shows punk e participo da cena sempre que posso.
Embora o “nascimento” do punk seja sempre tema de disputa, é justo dizer que, com os Ramones se formando em 1974 e lançando o single “Blitzkrieg Bop” em fevereiro de 1976 nos EUA, e os Sex Pistols realizando seu primeiro show em novembro de 1975 no Reino Unido, o punk tem pelo menos 50 anos.
Diante desse marco, acredito que vale revisitar o auge da cena punk anarquista da Filadélfia nos anos 1990 e 2000, e como sua ideologia e ativismo político, que incentivavam a oposição ao capitalismo, ao governo, à hierarquia e muito mais, ainda exercem influência hoje.
“Não é uma rebelião típica”
Na Filadélfia, especialmente em West Philly, várias ocupações, casas e espaços coletivos sediavam shows, eventos políticos e festas, além de servirem como moradia para punks durante os anos 1990 e 2000. Em alguns casos, a própria ocupação era uma forma de protesto, viver cooperativamente em prédios abandonados era visto como ação política.
Havia o Cabbage Collective, que organizava shows na Igreja Calvary, na 48th com Baltimore Avenue. O Stalag 13, perto da 39th com Lancaster Avenue, foi onde a famosa banda Refused fez um de seus últimos shows, e o Killtime, logo ao lado, foi onde Saves the Day tocou em 1999 antes de se tornar famosa. A First Unitarian Church, uma igreja real no centro da cidade, ainda hoje realiza shows em seu porão.
Esses espaços subterrâneos tornaram-se centrais para a cena punk da Filadélfia, que até então carecia de locais médios para bandas menos conhecidas.
Muitos punks de Philly nessa época misturavam subcultura musical com ativismo social. Como uma anarco-punk, subgênero do punk rock que enfatiza ideais de esquerda, anarquistas e socialistas, me disse em entrevista para o meu livro:
“Minha mãe… disse: ‘Achei que você fosse crescer e sair disso. Eu não entendia, e seu pai e eu ficávamos tipo: “O que estamos fazendo? Ela vai a esses shows! Está bebendo cerveja!” Mas aí víamos: “Ela acorda na manhã seguinte para ajudar a entregar mantimentos a idosos e organizar exibições de filmes feministas!” Não sabemos o que fazer, não sabemos como lidar com isso; não é uma rebelião típica.'”
Essa fala captura a rebelião complexa e ambígua que está no coração do anarco-punk. Por um lado, é uma forma de rebeldia juvenil com os elementos típicos: consumo de álcool e drogas, música alta e roupas, penteados, tatuagens e piercings incomuns.
Mas, ao contrário de outras formas de rebeldia adolescente, os anarco-punks também buscam mudar o mundo por meio de atividades pessoais e políticas. No plano pessoal, como mostrei em meu livro, muitos tornam-se veganos ou vegetarianos e procuram evitar o consumo corporativo.
“Tenho orgulho de tentar não comprar de fábricas exploradoras e de manter meu apoio a corporações no mínimo, embora eu tenha relaxado um pouco com o tempo”, disse outro entrevistado, também vegano. “Você enlouquece se tentar evitar completamente, a menos que vá morar com o [grupo punk britânico] Crass em uma comuna anarquista.”
Amor e raiva na guerra contra a guerra
Os punks ativistas de Philly dessa época espalharam seus ideais anarquistas por meio de palavras e ações.
Bandas como R.A.M.B.O., Mischief Brew, Flag of Democracy, Dissucks, Kill the Man Who Questions, Limp Wrist, Paint it Black, Ink and Dagger, Kid Dynamite, Affirmative Action Jackson, The Great Clearing Off, The Sound of Failure, entre muitas outras, cantavam sobre guerra, capitalismo, racismo e violência policial.
Por exemplo, em seu single de 2006 “War-Coma”, a banda Witch Hunt refletia sobre as guerras no Iraque e no Afeganistão, responsabilizando eleitores, governo e religião:
“24 years old went away to war / High expectations of what the future holds / Wore the uniform with pride a rifle at hand / Bringing democracy to a far away land / Pregnant wife at home awaiting his return / Dependent on faith, will she ever learn? / Ignore the consequences have faith in the Lord / Ignorance is bliss until reality sets in / Never wake up again.”
(24 anos foi para a guerra / Altas expectativas do que o futuro traria / Usava o uniforme com orgulho e um rifle nas mãos / Levando a democracia para uma terra distante / Esposa grávida em casa esperando seu retorno / Dependente da fé, será que um dia vai aprender? / Ignora as consequências, tem fé no Senhor / A ignorância é uma bênção até que a realidade chega / E nunca mais desperta.)
Durante as apresentações, as bandas costumavam comentar o significado das músicas. E nas bancas de mercadorias, vendiam camisetas e discos junto com zines, livros, patches e bottons, quase sempre com imagens ou slogans políticos.
Algumas bandas se tornaram metacríticas da própria cena punk, incentivando o público a reconhecer que o punk é mais do que música.
Na canção “Preaching to the Converted”, o Kill The Man Who Questions ironizava as críticas que as bandas recebiam por serem “pregadoras demais” nos shows:
“Unity” the battle cry / Youth enraged but don’t ask why / They just want it fast and loud, with nothing real to talk about / 18 hours in a dying van / Proud to be your background band.
(‘Unidade’ é o grito de guerra / Juventude enfurecida, mas sem perguntar por quê / Só querem rápido e alto, sem nada real sobre o que falar / 18 horas em uma van morrendo / Orgulhosos de ser sua banda de fundo.)
Em West Philadelphia, punks também trabalhavam na cooperativa de alimentos local e organizavam espaços ativistas, como o antigo A-Space, na Baltimore Avenue, e o LAVA Zone, na Lancaster Avenue, onde grupos como Food Not Bombs e Books Through Bars, entre outros, atuavam. Eu mesmo organizei um encontro da Northeastern Anarchist Network no LAVA em 2010.
Os punks arrecadavam dinheiro para causas sociais e compareciam a protestos locais contra a globalização capitalista e inúmeras outras lutas. Na Convenção Nacional Republicana de 2000, em Filadélfia, punks vestidos de preto e mascarados marcharam pelas ruas junto a uma ampla coalizão de organizações comunitárias.
O punk não morreu na Filadélfia
Desde os primórdios do punk, muitos lamentam que “o punk morreu”.
Na Filadélfia, vi como a cena anarco-punk dos anos 1990 e 2000 mudou, mas também como ela continua influenciando bandas locais e os valores do punk rock em geral.
Muitos ex-integrantes e membros atuais da cena anarco-punk da cidade ainda são ativistas, pessoal e profissionalmente. Entre os que entrevistei entre 2006 e 2012 havia assistentes sociais, organizadores sindicais, professores, educadores e conselheiros escolares e sobre drogas. Para muitos, suas carreiras foram moldadas pela ética anarquista que desenvolveram dentro da cena punk.
E muitos punks locais estiveram presentes no acampamento Occupy Philly e nos protestos em frente à prefeitura em 2011; depois, marcharam nas ruas durante os protestos do Black Lives Matter após o assassinato de George Floyd e de Breonna Taylor em 2020. Também participaram do acampamento de pessoas sem-teto no Benjamin Franklin Parkway, também em 2020. E punks locais que conheço continuam participando de campanhas de base como Decarcerate PA.
O anarquismo e o punk rock abrem caminhos para que jovens desiludidos, em Filadélfia ou em qualquer outro lugar, sonhem com um mundo sem capitalismo, autoridades coercitivas, polícia ou qualquer forma de injustiça.
Nas palavras do R.A.M.B.O., uma das bandas hardcore mais conhecidas da época, que lançou seu mais recente álbum Defy Extinction em 2022:
“If I can dream it, then why should I try for anything else?”
(Se eu posso sonhar com isso, por que deveria tentar qualquer outra coisa?)
Fonte: The Conversation
Tradução > Contrafatual
agência de notícias anarquistas-ana
Quebre o cristal fino.
O estrondo é a sinfonia
da nova ética.
Liberto Herrera
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.
Enquanto isso no Brasil...
Espaços como esse são fundamentais! Força compas. Vou contribuir!
A autoridade dos que são contra não é menos autoritária que as outras e encontra, quanto a mim, uma sólida…
Em agosto me mudarei com a família para o espírito santo. Mudança a trabalho. O lado bom é que terei…