
Por Carlos Ferreira de Araújo Junior
Os irmãos Waldomiro, Cristiano e Djalma Fettermann nasceram no Rio Grande do Sul, no final do século 19. Os três eram filhos de um sapateiro alemão e uma negra brasileira filha de escravizados. Apesar da origem humilde, os irmãos conviveram desde a infância com os idiomas alemão e o português.
Os três foram ativos militantes libertários da capital gaúcha nas duas primeiras décadas do século 20. Os irmãos Fettermann eram operários que também se dedicaram ao jornalismo e a educação. Eles se tornaram anarquistas ainda no século 19. A primeira influência dos irmãos foi o anarquista Proudhon. Sobre Waldomiro Fettermann existem poucas informações. Sabe-se que foi professor ou funcionário na Escola Moderna de Porto Alegre na década de 1910.
Sobre Cristiano Fettermann sabe-se que ele foi professor e tradutor de grego e de latim. Era o mais velho dos seus irmãos. Após a morte do pai, Cristiano passou a sustentar os irmãos com o dinheiro que ganhava das traduções que fazia. Foi professor e fundador da Escola Eliseu Reclus, em 1906, na capital gaúcha. Na escola dava aulas de francês, alemão e português. Na década de 1910, colaborou com textos anticlericais para o jornal O Exemplo (1911). Se formou em Direito em idade avançada, três anos antes de morrer.
Sobre Djalma Fettermann há um pouco mais de informações. Consta que nasceu em Porto Alegre, em 17 de junho de 1873 e morreu no Rio de Janeiro em 15 de julho de 1973. Foi operário ourives e metalúrgico. Bastante culto, dominava os idiomas francês, alemão, latim, espanhol e o grego. Casou-se com Dulcina Martins. Assim como o seu irmão Cristiano, Djalma Fettermann foi um dos fundadores da Escola Eliseu Reclus em 1906, onde também foi professor de francês, alemão e português entre 1909 e 1912. Fez parte do Grupo Libertário Solidariedade e foi dirigente da União Operária Internacional entre 1911 e 1912.
Djalma Fettermann foi escolhido como o representante da União Metalúrgica no Quarto Congresso Operário Brasileiro realizado no Rio de Janeiro, em 1912. Em 1915, ele foi um dos fundadores e professores da Escola Moderna, localizada na antiga Colônia Africana, bairro da capital gaúcha onde havia duas grandes comunidades étnicas: negros e judeus. A escola chegou a ter cerca de 400 alunos matriculados. No ano seguinte, fundou com outros libertários gaúchos, a Sociedade Pró-Ensino Racionalista, onde também foi um dos dirigentes.
O professor Djalma também foi adepto da ação direta e da sabotagem. Na Greve de 1917, em Porto Alegre, juntamente com Zenão de Almeida e outros libertários, Djalma enfrentou a brigada policial e as ações dos fura-greves. Com o auxílio de sua cunhada, Espertirina Martins, Djalma Fettermann foi um dos responsáveis pela fabricação e lançamento de bombas contra as brigadas policiais durante os conflitos nas vias da capital em 1917. Foi redator do jornal A Luta.
Anos depois Djalma Fettermann mudou-se para o Rio de Janeiro onde trabalhou na Empresa de Correios e Telégrafos. Na década de 1930, foi integrante da Aliança Nacional Libertadora (ALN). Morreu em 1973, no Rio de Janeiro, fiel aos princípios do anarquismo.
REFERÊNCIAS
MARÇAL, João Batista. Os anarquistas no Rio Grande do Sul. Ed. Unidade Editorial. 1995. Porto Alegre-RS.
KARLLOS, Jr. Brasil Negro Insurgente: socialistas e libertários negros e pardos na Primeira República. Ed. Monstro dos Mares. 2025.
Biografia do autor.
CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).
Conteúdos relacionados:
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/05/06/anarquistas-negros-em-belem-almerinda-gama-jose-da-silva-gama-e-bruno-de-menezes-1910-1920/
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/09/29/eua-a-verdadeira-historia-dos-anarquistas-negros/
agência de notícias anarquistas-ana
é só um instante:
o beija-flor no ar, sugando
flor de laranjeira
Otávio Coral
A autoridade dos que são contra não é menos autoritária que as outras e encontra, quanto a mim, uma sólida…
Em agosto me mudarei com a família para o espírito santo. Mudança a trabalho. O lado bom é que terei…
Discordo de chamarem aos regimes políticos onde existem eleições de "democráticos". Representatividade não é democracia. E regimes representativos, são elitistas;…
O conceito de liberdade como prática cotidiana e resistência constante às cercas — seja do Estado, do capital ou das…
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!