
Diante do recente impasse entre Donald Trump e a OTAN, o que se descortina não é um conflito entre “isolacionismo” e “aliança”, mas a nudez do sistema de Estados operando em sua lógica mais primária: a disputa por hegemonia pelo uso da força, a militarização de rotas comerciais como extensão natural da política imperial e a total instrumentalização de vidas humanas em nome de interesses geopolíticos. Para uma perspectiva anarquista e antiguerra, cada elemento desse contexto — desde o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã até a ameaça de Washington de abandonar o tratado do Atlântico Norte — não passa de mais um ato do mesmo espetáculo em que o Estado se revela como a principal fonte de violência organizada, e a “segurança” invocada por ambos os lados é, na prática, a segurança dos mercados e das cadeias de comando, nunca a das populações que pagarão o preço com seus corpos e territórios.
O Estreito de Ormuz, hoje bloqueado pelo Irã, é o ponto onde se materializa a disputa entre duas facções estatais pelo controle do fluxo energético global. A exigência de Trump para que a OTAN envie navios de guerra a fim de “garantir a livre navegação” nada tem a ver com princípios de liberdade; trata-se de impor, por meio de canhões e mísseis, a circulação ininterrupta do petróleo que alimenta a máquina de guerra e o capitalismo ocidental. Quando o ministro da defesa alemão, Boris Pistorius, declara que “essa guerra não é nossa, nós não a queremos”, não está ecoando qualquer sentimento pacifista — está apenas demarcando o limite tático de sua própria burguesia nacional, disposta a lucrar com a instabilidade sem necessariamente assumir os custos diretos de um confronto no Golfo. A recusa europeia não é uma vitória contra a guerra; é um cálculo de riscos dentro da mesma lógica imperialista que, décadas atrás, levou Alemanha e outros países da OTAN a participar de bombardeios na Iugoslávia, no Afeganistão e no Iraque.
A ameaça de Trump de retirar os Estados Unidos da OTAN, por sua vez, escancara o que sempre esteve por trás das alianças militares: não há compromisso com valores comuns, há apenas conveniência estratégica. O presidente norte-americano considera a aliança uma “via de mão única” porque, em sua visão, os europeus não estariam arcando com a parte que lhes cabe no serviço de manutenção da ordem imperial global. Mas a chantagem da saída não representa um movimento antiguerra; ao contrário, revela que Washington quer a liberdade de agir unilateralmente, sem ter que negociar com sócios menores que agora ousam dizer “não”. É a política de gangues em sua forma mais explícita: ou se alinham à ofensiva contra o Irã, ou os EUA retiram sua “proteção” — como se a presença de 84 mil militares e dezenas de bases em solo europeu fosse um favor altruísta, e não a infraestrutura que permite projetar poder sobre o Oriente Médio, a África e a Ásia Central.
O emaranhado jurídico que envolveria uma eventual retirada formal dos EUA ilustra perfeitamente como o Estado, mesmo em suas disputas internas de competência entre Congresso e Presidência, não possui freios substantivos que o impeçam de continuar sua trajetória bélica. A seção 1250A da Lei de Autorização de Defesa Nacional de 2024 proíbe o presidente de abandonar a OTAN sem aprovação de dois terços do Senado — uma amarra legal que, para os anarquistas, apenas formaliza a divisão de tarefas entre as facções da classe dominante. Enquanto isso, um parecer do Departamento de Justiça de 2020 sustenta que o presidente tem autoridade exclusiva para rescindir tratados, e a Suprema Corte tem consistentemente ampliado os poderes executivos. Trump já retirou os EUA de cinco tratados internacionais, como o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), sempre com a certeza de que a máquina estatal não se autolimita. Mesmo que o Artigo 13 do tratado da OTAN preveja um ano de espera após a notificação, o que se desenharia seria uma batalha judicial onde o desfecho importa menos do que o fato incontornável: o Estado encontra sempre um meio legal ou extralegal para fazer valer sua vontade armada.
No entanto, a retirada formal talvez nem seja necessária. O que Trump e seus estrategistas já ensaiam é o esvaziamento da aliança por dentro — uma estratégia que remete ao precedente francês de 1966, quando o governo de Charles de Gaulle retirou a França da estrutura militar integrada da OTAN, mantendo-se formalmente no tratado, mas causando um caos logístico que levou anos para ser contornado. A repetição desse cenário implicaria a retirada unilateral de tropas, a desobediência ao Artigo 5º (o coração da “defesa coletiva”) e o fechamento ou redução de bases que funcionam como verdadeiros nós arteriais do poder militar estadunidense. Apenas na Alemanha, a base de Ramstein abriga mais de 16 mil militares, civis e contratados, sendo o principal centro de comando aéreo da OTAN fora dos EUA. Na Ilha Terceira, nos Açores, a base das Lajes continua sendo um ponto de reabastecimento estratégico no meio do Atlântico, essencial para qualquer deslocamento de aeronaves entre a América e a Eurásia. Na Itália e no Reino Unido, outras bases garantem o suporte para caças, transporte aéreo e reabastecimento em voo.
A retirada ou o enfraquecimento desse dispositivo não representaria, sob nenhum aspecto, um desarmamento. Tratar-se-ia apenas de uma reconfiguração que, como mostrou a experiência francesa, gera imensos transtornos logísticos, mas nunca dissolve a capacidade de intervenção. A dependência americana das bases europeias é tanta que, sem elas, a ponte aérea transatlântica entraria em colapso: aeronaves como o F-15E, com raio de combate de cerca de 1.300 km, simplesmente não teriam como operar no Oriente Médio e na Ásia Central sem escalas e reabastecimento em solo europeu. Tanques aéreos, cadeias logísticas de munições, equipamentos pesados e até o sistema de evacuação médica — cujo centro nervoso está em Ramstein — ficariam seriamente comprometidos. O fato de os próprios planejadores militares americanos reconhecerem esses prejuízos demonstra o quanto a “segurança nacional” dos EUA é, na verdade, uma estrutura de ocupação global que exige a submissão de territórios alheios para se sustentar.
Sob a ótica anarquista, contudo, o mais revelador nessa crise é o modo como o debate público reduz toda a questão a um cálculo de eficiência militar ou a uma disputa entre “globalistas” e “isolacionistas”, quando a verdadeira questão deveria ser: por que ainda toleramos que um punhado de Estados decida, com navios de guerra e bombardeiros, quem pode ou não navegar por um estreito, quem pode ou não extrair petróleo, quem pode ou não existir? O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã é um ato de coerção estatal; a ameaça de enviar uma frota da OTAN é outro. Nenhum dos dois lados representa a vontade popular, nenhum dos dois defende a livre circulação de pessoas, nenhum dos dois coloca a inviolabilidade da vida acima das cotas de exportação de hidrocarbonetos. O que está em jogo é a continuidade de um sistema no qual o acesso a recursos é garantido pela capacidade de infligir morte, e no qual a geopolítica é simplesmente a continuação da guerra por outros meios — ou, como já se disse, a guerra é a continuação da política por outros meios.
Por fim, a história nos mostra que nenhuma aliança militar se dissolve sem deixar rastros de destruição, e nenhum Estado abdica de sua violência fundante. A saída dos EUA da OTAN, mesmo que viesse a ocorrer, não significaria o fim das intervenções americanas; apenas deslocaria os eixos de intervenção, provavelmente reforçando o caráter unilateral e ainda mais desregulado da política externa. E a permanência, com ou sem Trump, significará a manutenção de uma estrutura que já matou centenas de milhares de pessoas no Oriente Médio, nos Bálcãs, no norte da África, sempre sob o pretexto de “defender” valores que, na prática, se resumem à subordinação econômica e militar. Para quem se coloca do lado das populações que sofrem com bloqueios, bombardeios e ocupações, a única posição coerente é a recusa absoluta a essa lógica: não à OTAN, não ao unilateralismo estadunidense, não ao militarismo iraniano, mas à própria existência de alianças bélicas e Estados armados. A crise no Estreito de Ormuz é apenas mais um sintoma de que, enquanto existirem Estados, existirão conflitos armados; e enquanto existirem tratados como o da OTAN, existirão estruturas institucionalizadas para perpetuar a guerra, seja em nome da “livre navegação”, da “defesa coletiva” ou de qualquer outra fórmula que tente maquiar o poder de matar em massa como um interesse legítimo.
Liberto Herrera.
Fonte: https://libertoherrera.noblogs.org/2026/03/31/entre-chantagens-e-canhoes/
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