[Chile] O Sol Ácrata N°2 (exemplar 75), Abril de 2026

EDITORIAL: ALERTA, ALERTA! Escrito por Nekro

A ascensão de José Antonio Kast à presidência do Chile não é uma simples mudança de governo. Não é uma alternância eleitoral dentro da democracia. É o sinal de que o regime neoliberal chileno entra em uma nova fase de endurecimento.

O fascismo não chegou ao Chile marchando com uniformes nem levantando bandeiras nas ruas. Chegou como costuma fazer no século XXI: sentado nas instituições, falando a linguagem da segurança, da ordem e da reconstrução nacional. Isso não acontece por acidente. O fascismo aparece quando o sistema econômico perde legitimidade e as elites precisam restaurar o controle social. Esse é o Chile em que Kast chega. Não o país do otimismo neoliberal dos anos 1990 nem o “jaguar da América Latina” que durante décadas foi vendido pelas elites. Ele chega a um país fraturado e exausto por um modelo que prometeu prosperidade enquanto concentrava a riqueza. O Chile que recebe Kast é um país endividado. Um país onde milhões sobrevivem pagando créditos para estudar, viver ou adoecer. Um país onde trabalhar já não garante viver. As aposentadorias condenam à pobreza. O custo de vida aumenta enquanto os salários mal dão conta. E quando um país chega a esse ponto, a raiva explode. A Rebelião Social de 2019 foi a maior crise política do modelo neoliberal desde sua instalação durante a ditadura. Milhões de pessoas foram às ruas e questionaram a ordem econômica e política que governou o Chile durante décadas. Durante semanas, o país inteiro tremeu. O mito da estabilidade chilena desabou diante dos olhos do mundo. Mas o regime não caiu. O poder reagiu como sempre faz quando seu domínio é desafiado: primeiro com repressão, depois com uma saída institucional destinada a conter a revolta. O processo constitucional foi apresentado como transformação. Mas acabou funcionando como um mecanismo para esfriar a mobilização sem alterar as estruturas profundas do modelo.

O resultado foi uma sociedade que continua vivendo sob as mesmas condições de precariedade, mas agora com uma frustração política muito mais profunda. Esse é o país em que Kast chega ao governo: um país onde o mal-estar social persiste, mas onde o cansaço, a desconfiança e o medo começaram a ocupar o espaço que antes era ocupado pela esperança de mudança.

É nesse terreno que crescem os projetos autoritários. O fascismo não surge apenas do ódio. Surge do medo das elites de perder o controle quando o consenso que sustentava o sistema começa a se romper. Quando as instituições perdem legitimidade e a crise social se aprofunda, o poder começa a falar a linguagem da ordem, da segurança e da disciplina. Kast encarna precisamente essa resposta. Seu discurso não fala de desigualdade estrutural nem do fracasso do sistema de aposentadorias. Não fala do endividamento que domina a vida cotidiana de milhões de pessoas. Fala de segurança, de ordem e de restaurar a autoridade do Estado. Essa linguagem não é nova. É a linguagem que historicamente aparece quando o sistema precisa se defender. Suas primeiras decisões como presidente mostram claramente para onde seu governo está indo. Apenas seis dias depois de assumir o cargo, apresentou o chamado Plano de Reconstrução Nacional, um pacote econômico que promete crescimento, emprego e estabilidade. Mas por trás desse discurso aparece algo conhecido: o aprofundamento do mesmo modelo neoliberal que produziu a crise social do país. Redução de impostos para as empresas, subsídios estatais para reduzir custos trabalhistas, eliminação de regulamentações para acelerar projetos de investimento e incentivos fiscais para reativar o mercado imobiliário.

A receita é conhecida. É a mesma lógica que governou a economia chilena por mais de quarenta anos: crescimento baseado na expansão do capital privado com a promessa de que seus benefícios um dia chegarão ao resto da sociedade. O problema é que esse “um dia” nunca chegou. A desigualdade continua lá. A precariedade continua lá. O endividamento continua lá. O conflito social que estourou em 2019 continua latente sob a superfície.

O que muda agora é a forma de administrar esse conflito. Quando o consenso neoliberal deixa de ser suficiente para sustentar a estabilidade política, o sistema começa a se endurecer. A linguagem do crescimento econômico se mistura com a da ordem e da segurança. A promessa de prosperidade se combina com a expansão do controle social. É isso que estamos vendo hoje. Kast não inaugura um novo sistema político. Ele representa a fase autoritária de um modelo econômico que tenta sobreviver à sua própria crise.

Por isso, este momento exige clareza. O fascismo não entra em uma sociedade se anunciando como fascismo. Ele entra prometendo estabilidade, segurança e ordem contra o caos. Mas sua função sempre foi a mesma: proteger um sistema econômico que já não pode se sustentar apenas pelo consenso. O Chile entra agora em um novo ciclo político. Um ciclo onde o poder tentará restaurar o controle social enquanto o mal-estar que sacudiu o país há poucos anos continua sem encontrar uma saída real.

A pergunta já não é se o conflito social voltará. A pergunta é quando. E também o que faremos nós. O antifascismo não nasce nos parlamentos nem nos discursos institucionais. Nasce na sociedade organizada: nos bairros, nos territórios e nos espaços onde as pessoas voltam a se reconhecer como força coletiva.

Porque todo sistema de dominação depende, em última instância, da obediência daqueles que o sustentam.

E essa obediência nunca está garantida.

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Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Um pombo no mar
traz ao bico verde ramo:
terra à vista?

Anibal Beça

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