[Espanha] O desenhista anarquista que retratou a Guerra Civil desde as barricadas de Barcelona volta à cena

O Museu Nacional d’Art de Catalunya resgata a obra de José Luis Rey Vila, “Sim”, testemunha direta dos primeiros combates

Por Rodrigo Romaneli | 05/05/2026

Durante décadas, o relato visual da Guerra Civil Espanhola foi dominado por nomes universais como Pablo Picasso. No entanto, muito antes de o horror cubista de Guernica se tornar o símbolo global do conflito, houve aqueles que desenharam a guerra a pé de rua, com o cheiro da pólvora ainda fresco no papel. Um deles foi José Luis Rey Vila, conhecido como “Sim”, um ilustrador anarquista cuja obra capturou a imediatez e o pulsar dos primeiros dias da contenda.

Agora, coincidindo com o 90º aniversário do início da guerra, o Museu Nacional d’Art de Catalunya (MNAC) resgata seu legado com uma exposição que reúne 40 de seus desenhos. As peças, adquiridas recentemente, reconstroem o olhar urgente de um artista que, embora não fosse um combatente, ideologicamente foi um soldado.

Nascido em Cádis e forjado nos horrores da guerra do Rif — experiência que o empurrou para o pacifismo radical —, Rey Vila estava em Barcelona quando o golpe de Franco abalou a cidade em 19 de julho de 1936. Enquanto o estrondo dos disparos despertava a capital catalã, Sim não procurou abrigo. Pegou seu caderno e lançou-se à rua.

Seus traços, de linhas grossas e cores intensas, retratam milicianos com lenços ensanguentados, barricadas improvisadas com rolos de papel de jornal e os caminhões blindados da CNT-FAI avançando pelas ruas. Seu estilo, que combinava carvão com aquarela, não só capturou a violência, mas também a atmosfera trágica do momento, desde as enfermeiras que atendiam os feridos até as milicianas erguendo o punho em plena marcha.

Apesar de seu talento, Sim foi um artista marcado pela fratura política. Rejeitado pelo Sindicato de Desenhistas Profissionais devido às suas simpatias libertárias, encontrou seu lugar no escritório de propaganda da CNT-FAI. Foi lá que publicou “Estampas da Revolução Espanhola”, uma obra que conseguiu burlar o pacto de não intervenção europeu para circular pelos Estados Unidos, Canadá e até mesmo pela China, onde foi reproduzida pelo célebre anarquista Ba Jin.

Aquelas imagens foram, para muitos, o primeiro contato visual com a resistência republicana, muito antes de a maquinaria de propaganda internacional e as icônicas fotografias de Robert Capa estarem em pleno funcionamento.

Em 1937, Sim mudou-se para Paris para colaborar no pavilhão espanhol da Exposição Internacional. Lá, seus desenhos dividiram espaço com o Guernica de Picasso e as obras de Miró e Alexander Calder, numa última tentativa de mobilizar a opinião pública mundial. Após a vitória franquista em 1939, Rey Vila nunca mais voltou.

Seu exílio na França se estendeu até sua morte em 1983, em relativo anonimato. Embora continuasse desenhando — desde cenas taurinas até os protestos de maio de 68, onde foi ferido por uma bomba enquanto desenhava —, sua obra sobre a guerra ficou eclipsada por uma memória histórica que, durante décadas, priorizou a estética comunista e das Brigadas Internacionais em detrimento do olhar libertário.

Hoje, a exposição no MNAC (aberta até 31 de dezembro) devolve o protagonismo àquele desenhista que, desde as barricadas, entendeu que a história não apenas se escreve, mas se desenha enquanto acontece.

Fonte: https://www.diario-red.com/articulo/cultura/dibujante-anarquista-que-retrato-guerra-civil-barricadas-barcelona-vuelve-escena/20260504150131068852.html 

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Te vejo única
te toco tímida
te sinto úmida.

Simão Pessoa

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