Anarquismo no Pará: a morte do anarquista Plácido de Albuquerque (1920)

Por Carlos Ferreira de Araujo Jr.

Em 1920, dois operários anarquistas foram escolhidos para representar os trabalhadores do Pará no Terceiro Congresso Operário Brasileiro, organizado pela C.O.B no Rio de Janeiro: José da Silva Gama e João Plácido de Albuquerque. José da Silva Gama nasceu em Maceió, mas cedo mudou-se para Belém. Se tornou um anarquista a partir das leituras de Kropotkin, Gorki e Tolstoi.  Já era bem conhecido por participar de grupos de propaganda libertária em Belém.

Já João Plácido de Albuquerque nasceu em 1885, em Minas Gerais, se mudou para Belém do Pará ainda jovem. Começou a militância anarquista em 1913. Entre 1913 e 1920 foi um incansável militante anarquista da cidade. Plácido foi perseguido e demitido de inúmeras vezes. Com outros libertários, fundou grupos de propaganda anarquista na capital paraense. Enquanto não tinha emprego, Plácido fabricava e vendia cigarros para poder sobreviver. Em 1917, em artigo publicado A Plebe, João Plácido informava, bastante animada, o surgimento de diversas associações de classes em Belém. Por causa destes históricos favoráveis, Silva Gama e Plácido Albuquerque embarcaram no navio Campos para o Rio de Janeiro representando o proletariado paraense.

Ao chegarem na capital, os dois libertários foram abordados e presos acusados de serem ladrões e anarquistas perigosos. Telegramas enviados pela polícia do Pará para a polícia do Rio de Janeiro informavam a ida de dois militantes anarquistas. Os dois foram levados para a Delegacia Central. Silva Gama se mostrou mais reservado do que seu companheiro. Por sua vez, Plácido Albuquerque não negou o motivo de estar naquela cidade. Disse que representava o operariado de Belém. Relatou aos policiais a dificuldade de trabalhar mais de 8 horas por dia numa cidade como Belém. Ao final das explicações ironizou: “Não era melhor que me prendessem lá, poupando-me da viagem?”

Da Central de Polícia, Plácido foi levado ao Hospital onde morreria dias depois. José da Silva Gama denunciou que os dois sofreram maus tratos e Plácido falecera por conta das torturas sofridas. O corpo do operário foi velado na sede da União da Construção Civil. O enterro de Plácido, no Cemitério do Caju, capital federal, foi acompanhado por mais de mil operários que entoavam hinos libertários como Filhos do Povo. O caixão foi baixado ao canto da Internacional. 

REFERÊNCIAS

KARLLOS, Jr. Brasil Negro Insurgente; Ed. Monstro dos Mares. 2025

RODRIGUES, Edgar. Companheiros.

PERIÓDICOS

GAZETA DE NOTÍCIAS. Data: 25/04/1920. N.114

A PLEBE.18/08/1917.N.10.P.2.

GAZETA DO RIO. 25/04/1920. N. 114

A RUA. 24/04/1920.N.103.

A VOZ DO POVO.26/04/1920.N.79.

____________.01/05/1920.N.84.

____________. N. 84. 01/05/1920.

____________.03/05/1920.N.85.

BIOGRAFIA AUTOR

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).

>> Foto em destaque: Dois representantes do Pará: Silva Gama, anarquista negro, e Plácido Albuquerque, anarquista morto no Rio de Janeiro (RJ).

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