Pergunta > A CNT tem uma bonita história de lutas em Jerez que poucos lugares podem oferecer. Faça-nos um breve recorrido histórico com os momentos importantes.
Resposta < A história do anarcossindicalismo em Jerez começa antes mesmo da existência da CNT. Já nos tempos da Primeira Internacional, a classe operária jerezana se destacou por sua atividade societária, que agitou o campo e os círculos urbanos. Rapidamente o patronato e as autoridades tentaram acabar com esse movimento através da repressão policial e judicial, com os famosos processos da “Mano Negra (1884)” e de “Asalto Campesino em la ciudad (1892)”.
O movimento operário local conseguiu reorganizar-se, e em 1918 é criada a CNT de Jerez, associada à Federação Regional Operária Andaluza. É um momento central na história do anarcossindicalismo jerezano, que se verte no setor agrícola especialmente, em torno do líder do jornaleiro diarista Sebastián Oliva, que publica o periódico “A Voz do Campesino” para difundir as lutas. Mas também a CNT se estende em setores importantes, como o da indústria vinícola e o da construção.
Na década de 1930, os/as anarcossindicalistas jerezanos conseguem que a CNT seja a organização operária de massas, com dezenas de milhares de filiados na população, e com uma capacidade organizativa impressionante; prova disso foi a Greve “dos Caracóis”, que em 1932 paralisou Jerez durante mais de um mês em protesto pelas deportações de anarquistas a Guiné Equatorial (Bata). Em julho de 1936 a CNT foi aniquilada mediante os assassinatos e o terror fascista que todos conhecemos.
Em 1977 a CNT de Jerez se reorganiza, com uma importante presença inicial em empresas como a Fábrica de Garrafas e Adegas Domecq. A partir da década de 1990, a CNT passa a ter só um Sindicato de Ofícios Vários, mas centra sua ação no trabalho em rede com outros movimentos sociais, mantendo alguns focos de conflito em empresas de pequeno e médio porte.
Pergunta > A crise na que está afundada a cidade, serviu para fortalecer o sindicato?
Resposta < De algum modo sim. O aumento da precariedade, e o destroço dos direitos laborais ante as sucessivas reformas, converteu à classe trabalhadora jerezana em algo sumamente débil. Isso faz que agora se aproxime mais gente ao nosso sindicato para pedir assessoria e apoio com seus problemas. Aumentou algo a filiação, mas também a quantidade de tarefas que tem que abarcar.
Igualmente, os problemas sociais (habitacional, carestia de vida, exclusão social, etc.) se multiplicaram. Muitas pessoas afetadas por esses problemas vêm pedir nossa solidariedade, e tentamos transmitir nossa experiência de luta, mostrando-lhes o caminho da autogestão e da ação direta. Percebemos que muita desta gente já está autogestionando suas lutas.
Pergunta > A CNT denunciou sempre a figura do “liberado” sindical. Pode sobreviver um sindicato sem eles?
Resposta < Sim, claro, somos um exemplo disso. Somos 40.000 filiados/as em todo o território do Estado espanhol, que funcionamos sem delegados sindicais (liberados) e sem subvenções. Temos jornal próprio, assessorias jurídicas próprias, locais, uma fundação cultural (a Fundação Anselmo Lorenzo), cooperativas…
Pergunta > A CNT é uma estrutura independente e paralela ao Estado, é uma forma de viver.
Resposta < Um sindicato pode funcionar sem “liberados”, com a implicação direta de sua militância; com dificuldades quanto à dedicação pessoal, claro, mas ao mesmo tempo, com a tranquilidade de não deixar os assuntos dos/das trabalhadores/as nas mãos de nenhum “representante” que possa assinar ou fazer algo pelas costas de seus representados. Essa tem sido a opção histórica da CNT, a ação direta e o sindicalismo revolucionário, e quem não acredita neste mecanismo tem as outras opções sindicais baseadas no modelo reformista gerido pelo Estado.
Pergunta > CC.OO, UGT, o que te sugerem essas siglas…
Resposta < Que são exemplos vivo de degradação do sindicalismo, com estruturas totalmente corruptas e sem nenhuma visão ideológica de classe. Já faz muito tempo que deixaram de ser anticapitalistas, e não sabem mais funcionar sem subvenções. A participação brilha por sua ausência em seu seio, e ficaram presos no sindicalismo de “consulta”, esse impossível pacto com o Capital. Se parecem mais a empresas de gestão que a sindicatos, é um modelo clientelar (o/a trabalhador/a como cliente de um sindicato).
Pergunta > A CNT pede sempre a abstenção quando chegam às nomeações eleitorais, explique-nos porquê.
Resposta < Não acreditamos na democracia representativa, nessa estrutura política que nos obriga a votar para que alguns representantes gestionem nossas vidas. Preferimos gestionar (autogestionar) nossas próprias vidas.
Ademais, a experiência histórica e nossa consciência nos ensinam que o Poder corrompe, que os/as supostos/as representantes do povo vivem nas costas dele.
Os parlamentos, prefeituras, governos… não fazem outra coisa que perpetuar um modelo de democracia caduco: o da democracia liberal ou burguesa, que se demonstrou ineficiente para gestionar a crise. Nosso modelo é o da democracia direta: estender a autogestão a todos os campos, e que as assembleias sejam as que decidam.
Pergunta > O SOC e depois o SAT não herdaram de alguma maneira as heroicas lutas anarcossindicalistas de Andaluzia, sobretudo, do campo?
Resposta < Não acho, eles se apresentam a eleições sindicais, e não são anarcossindicalistas, senão nacionalistas andaluzes. Estão muito “politizados” (influenciados pelas dinâmicas de partidos políticos), a CNT é claramente uma opção antipartidarista.
De fato, todavía há seções sindicais do campo na CNT andaluza com força: em Pedrera, Fernán Núñez, Arahal…
Se é certo que há confluência com o SAT, especialmente nos últimos anos; estamos na unidade de ação, junto com outras organizações. Mas, entendemos que seu modelo é distinto.
Pergunta > Que conflito laboral está seguindo (e apoiando) neste momento?
Resposta < Estamos imersos em um conflito com a empresa elétrica Bersol, que é uma subcontratada da Endesa. Esta subcontratada despediu a todo seu pessoal, 14 trabalhadores, sem haver sub-rogado à nova empresa o que se fez com seu serviço. Também se reclamam folhas de pagamento não remuneradas.
Um caso parecido é o de Climartín, empresa especializada na instalação de vidros. Levou a cabo um ERE (expediente de regulação de emprego) que afetou a 12 trabalhadores, sem indenização alguma, e sem pagar folhas de pagamento atrasadas. Levam dois anos sofrendo atrasos e calotes. Este conflito estamos abarcando conjuntamente desde o sindicalismo alternativo: CNT, CGT e SAT de Jerez.
Pergunta > Pergunta para não iniciados. Explique as diferenças ideológicas com a CGT.
Resposta < Bom, a CGT é uma cisão da CNT. Até 1980, um setor da CNT decidiu arrancar pela opção de apresentar-se às Eleições Sindicais. Isso supôs que seus delegados sindicais puderam aceder a horas de “liberados/as”, ter algumas subvenções, maior representatividade, etc.
Pergunta > A CNT quis manter seu modelo de ação direta, que entende que é o mais coerente com o anarcossindicalismo.
Resposta < De todas formas, em que pese a polêmica com a CGT teve momentos fortes de desacordo, hoje em dia melhorou muito a relação com ela, e considero que estamos nas mesmas lutas, conservando a identidade de cada organização.
Fonte: noticiasdejered.es
Tradução > Caróu
agência de notícias anarquistas-ana
dedinho rechonchudo
aponta ao céu a criança…
estrela cadente!
Yá-Yá
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!