Semana Internacional de Solidariedade com os Prisioneiros Anarquistas | 23 – 30 de agosto de 2024

Drones militares zumbem entre as estrelas e as nuvens. A milhares de quilômetros de distância, um soldado procura alvos para matar, as emoções estão muito distantes das vidas que estão tirando. Um entorpecimento crescente em face da brutalidade atual e da propaganda estatal invocada em nossas telas. A água e a terra são objetos a serem depredados. Como o poço cavernoso da mina de carvão, estamos sendo esvaziados e escavados para sustentar a cultura do vazio do capital. A empatia, o cuidado e o amor que mantêm nossas comunidades unidas estão sendo atacados por uma vida individualizada sob o capitalismo, em que cada um cuida de si mesmo.

O que mudou desde o ano passado até o momento em que nos debruçamos sobre este texto?

Houve um aumento da vigilância, endurecimento da repressão e criminalização das comunicações criptografadas, nos apelos à guerra e ao genocídio, bem como na contínua profanação da Terra. O mundo assiste com uma mistura de horror e apatia ao aumento do número de mortos em Gaza, enquanto a invasão da Ucrânia entra em seu terceiro ano. Cerca de 10.000 prisioneiros palestinos são amarrados a camas, torturados e espancados até a morte, mantidos em condições brutais nas prisões israelenses. No Sudão, dezenas de milhares de pessoas estão mortas e milhões estão desabrigadas, enfrentando fome extrema à medida que a guerra civil entra em seu 16º mês. A resistência militante ao golpe militar em Mianmar, que na verdade foi bem-sucedido, está sendo transformada pelos militares em uma guerra civil com um número crescente de vítimas civis, à medida que as tropas do regime recorrem cada vez mais a táticas de terra arrasada.

Espera-se que aqueles de nós que vivem sob a fragilidade da “paz” neoliberal adotem posturas políticas desprovidas de sentimento humano ou ações significativas. Como romper esse véu artificial construído para fazer com que as “zonas de guerra” pareçam um mundo distante, quando os carregamentos de armas e as redes de diáspora contam uma história diferente? Como recuperar nossa humanidade e nossa capacidade de ação, compreendendo a urgência e deixando espaço para sentir, lamentar e agir, lado a lado, contra essa monstruosidade? E como manter esse tecido de resistência que desafia os ciclos de notícias e a política dos Estados-nação, reconhecendo as lutas pela sobrevivência e pela libertação contra a colonização e a extração contínua de recursos naturais que estão se materializando em todo o mundo fora dos holofotes das notícias?

O que deve ser feito? Essas são as perguntas. A empatia e a solidariedade são os remédios mais fortes contra as realidades atuais que enfrentamos. Empatia e solidariedade são as razões pelas quais estamos aqui: nossos corações abraçam essas palavras. Escolhemos compartilhar o peso da dor e entrar em ação nesta teia de resistência que foi tecida ao longo do tempo nesta Terra. Não é o nosso anseio pelas forças do cuidado, da criação e da destruição que nos reúne em torno de nossas fogueiras? Não é porque desejamos entender e saudar a dor dos outros e buscar a libertação da opressão que demonstramos solidariedade com nossos companheiros que carregam o duro fardo da repressão?

Há muitas atrocidades, muitos espíritos bonitos arrebatados deste mundo para que possamos chorar por todos eles. Em meio ao derramamento de sangue, vivem os espíritos daqueles que decidem resistir a essa ordem hegemônica, contra as engrenagens do genocídio e do colonialismo. Há pessoas em todo o giro da Terra que decidiram não ignorar as forças que atacam a vida livre. Muitos optaram por cumprimentar essas forças com os punhos cerrados e um sorriso na bochecha. Tenho certeza de que vocês também compartilham isso, talvez sem sorrir, mas estamos aqui novamente. Com o tempo, com força e paciência, aprofundaremos nossas constelações, fortaleceremos e teceremos novas teias, pois junto com os ciclos da Terra mudamos, crescemos e aprendemos.

Com força, fazemos este chamado à ação para uma semana de solidariedade com os prisioneiros anarquistas. Que nossas palavras não morram em nossas bocas, mas que nossas ideias e ações se tornem realidade.

Organize eventos de solidariedade, exibições de filmes, mostrar faixas, rodadas de discussão, ações diretas, programas de rádio, redação de cartas… seja criativo!

Vamos nos lembrar daqueles que lutaram contra essa injustiça e pagaram com suas vidas.

Não vamos nos esquecer de nossos companheiros presos e vamos mostrar o calor da solidariedade.

Ninguém será livre até que todos sejamos!

Envie-nos suas ações para tillallarefree@riseup.net

solidarity.international

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Entardecer
Sob o velho telhado
Retornam pardais.

Hidemasa Mekaru

Fatos e circunstâncias de uma quarta geração de anarquistas em Cuba. Notas desde dentro.

Abelardo

A formação de uma quarta geração de anarquistas em Cuba tem sido um processo árduo, de muita persistência e muita necessidade de memória. Atrás de nós, a geração anterior havia sido eliminada 50 anos antes pela máquina de repressão preventiva organizada pelos stalinistas cubanos do Partido Socialista Popular (PSP), em aliança com o Movimento 26 de Julho. Assim, apenas dois anos após o triunfo da chamada “Revolução Cubana”, o novo Estado que estava tomando forma por trás dessa marca política global já havia conseguido destruir todas as diversas e dispersas expressões sociais do movimento anarquista que existia em Cuba antes de 1961.

A terceira geração de anarquistas cubanos alcançou um notável desenvolvimento organizacional nas décadas de 1930 a 1950, quando em muitas outras regiões do mundo o anarquismo como movimento entrou em profundo declínio e foi varrido por seus poderosos inimigos. Um dos principais vetores desse renascimento do anarquismo em Cuba no período mencionado acima foi a Federação da Juventude Estudantil e Operária Libertária, criada no calor das experiências e fracassos das lutas sociais que se desenvolveram no início da década de 1930 contra a crise do jovem Estado republicano burocrático e neocolonial, que havia surgido em Cuba em 1902 a partir dos despojos do heroico Exército de Libertação de Cuba em Armas.

Essa organização foi a espinha dorsal de um grande grupo de jovens da época que conseguiu se recuperar do sequestro stalinista, com o apoio da polícia, da Confederación Nacional Obrera de Cuba (CNOC), uma obra-prima dos anarco-sindicalistas cubanos, com Alfredo López como uma das figuras mais representativas do esforço coletivo da segunda geração de anarquistas em Cuba. A Federação Juvenil de meados da década de 1930 também conseguiu dar um novo impulso à lendária, mas já em declínio, Federação de Grupos Anarquistas de Cuba (FGAC), dando origem em 1942 à criação da Associação Libertária de Cuba (ALC) e a organizações relevantes e hoje esquecidas de inspiração anarquista, como a Federação de Associações Camponesas, a Associação de Combatentes Antifascistas (veteranos da Guerra Civil Espanhola), os Comitês de Defesa Local, mais discretos, mas igualmente ativos, e uma tentativa séria e fracassada de intervir no mundo do trabalho cubano, como a Confederação Geral dos Trabalhadores, para confrontar o monopólio stalinista sobre o mundo sindical que havia sido estabelecido desde 28 de janeiro de 1939, com a criação da Central de Trabalhadores de Cuba (CTC).

Essa estrutura organizacional da terceira geração de libertários cubanos também deu origem a uma animada sociabilidade e a um florescente movimento editorial anarquista, que renovou a presença de longa data da imprensa anarquista e das atividades públicas em Cuba. Assim, três Congressos Libertários foram organizados (1944, 1948, 1950), atividades e práticas com perspectivas antiautoritárias se espalharam pelo resto da geografia e do tecido social do país em associações de camponeses, associações de bairro, em regiões do país marginalizadas por outras tendências de ideias, algumas tentativas no movimento associativo afrodescendente e na esfera artística, todo um legado de experiências que a quarta geração de anarquistas em Cuba está tentando reconstruir e redescobrir na Cuba das últimas três décadas, com o apoio intermitente dos camaradas veteranos da ALC, especialmente Frank Fernández, Gustavo Rodríguez e outros camaradas, que na década de 1990 fundaram o Movimento Libertário Cubano na Flórida e publicaram esse valioso e caloroso livro El anarquismo en Cuba, maravilhosamente editado pela Fundação Anselmo Lorenzo em Madri.

Na ausência de um registro detalhado da atividade anarquista em Cuba entre 1961 e o início dos anos 2000, e tomando como referência nossa própria experiência pessoal, a quarta geração de anarquistas em Cuba adquiriu uma forma organizacional explícita com a criação, em 1º de maio de 2013, da Oficina Libertária Alfredo López, em homenagem à figura principal do anarco-sindicalismo em Cuba e aos Mártires de Chicago. “A oficina”, como carinhosamente a chamamos, nesses dez anos de existência, tentou se encarregar de todo o longo vácuo de esquecimento gerado pela longa noite stalinista-fidelista que amarrou a sociedade cubana, mas também de toda a desintegração social, o autoritarismo cientificamente naturalizado na mentalidade de várias gerações e a escassa reflexão sobre meios e formas organizacionais, que floresceram em Cuba antes de 1959, com a terceira geração anarquista.

Tudo isso teve de ser realizado em meio ao gigantesco e eficiente aparato de repressão social preventiva organizado pela polícia política de Cuba (o temido Departamento de Segurança do Estado ou G2) durante as últimas seis décadas, onde qualquer expressão social minimamente autônoma em relação às instituições do Estado quase sempre foi desintegrada e metodicamente reprimida.

Nesse contexto, um pequeno grupo de pessoas com intenções antiautoritárias criou o Red Observatorio Crítico de Cuba em 2006, um espaço que se tornou uma coordenação de montagem de projetos autogeridos, onde quase uma dúzia de iniciativas colaboraram em áreas como educação antiautoritária (Proyecto El Trencito), autodidatismo (la Escuelita), história intelectual do pensamento de libertação (Cátedra Haydee Santamaría), ativismo ambiental (Colectivo Guardabosques, a iniciativa ambiental La Rueda), dissidência sexual (Colectivo Arcoiris), ativismo antirracista e memória afrodescendente (Cofradía de la Negritud, a irmandade de performance poética Chekendeke, a Alianza Antirracista Anamuto, a iniciativa autônoma Esquina de la descolonización de la memoria histórica popular cubana 27 de noviembre), o laboratório de propostas para a renovação socialista em Cuba, Socialismo Participativo y Democrático (grupo SPD), depois as iniciativas anarquistas Taller Libertario Alfredo López, Locación Cristo Salvador e a iniciativa editorial Almario.

A Oficina Libertária Alfredo López, o Coletivo Guardabosque, a Locación Cristo Salvador foram os que desenvolveram as Jornadas Libertárias de Primavera em Havana, iniciadas em 2013, desenvolvendo-as quase sem interrupção até o recente junho de 2024, que finalmente quase não teve atividade alguma. Nesse período, desenvolvemos um grande número de atividades em espaços familiares e públicos (relacionados e em disputa). Fundamos o pequeno jornal mensal Tierra Nueva. Um espaço para a interação de pessoas e ideias anarquistas, a editora Guillotina Inútil, contribuímos para o lançamento da primeira revista ambientalista autônoma de Cuba Guardabosque, a revista Almario e, sob um espírito comum, a Carne Negra, Fanzine sobre artes visuais.

Nesses esforços, recebemos a solidariedade de companheiros, iniciativas e organizações, sem os quais teria sido muito mais difícil fazer o pouco que fizemos. Em primeiro lugar, a iniciativa do G.A.L.S.I.C. (Grupo de Apoyo a los Libertarios y Sindicalistas Independientes en Cuba) e seus animadores fundadores Daniel Pinos e Gustavo Alberola e outros companheiros da CNT em Paris, companheiros em Toulouse; a CGT e a IWW em sua seção de São Francisco, por meio da camarada Samantha Levens, os camaradas do coletivo editorial do El Libertario, o falecido camarada Nerio Casoni e sua iniciativa Locos por la Tierra, os camaradas da CNT espanhola, o centro social de Madri Rompe El Círculo, o grupo das Ediciones El Salmón, camaradas organizados e iniciativas individuais na Alemanha, Holanda, a Federação Anarquista da França; a Internacional de Federações Anarquistas (IFA), o coletivo Kiskella Libertaria na República Dominicana, a Federación Anarquista Gaucha, a editora Rojo y Negro na Colômbia, a iniciativa editorial Alter no Uruguai, entre muitas outras iniciativas que, devido às formas emaranhadas e afetivas em que a memória opera, podem sofrer os efeitos injustos do esquecimento neste momento. Mas todos eles juntos conseguiram fazer com que nos sentíssemos parte de um movimento internacional discreto, mas vibrante e eficaz, do qual recebemos apoio material e nutrição intelectual fértil sobre conhecimento, debates e práticas antiautoritárias, depois de mais de meio século de ausência dessas perspectivas em Cuba.    

Com essa rede de apoio e solidariedade efetiva, e nos colocando em nossas circunstâncias em Cuba, reposicionamos uma perspectiva anarquista no debate público de ideias em Cuba e repovoamos com datas esquecidas os calendários de eventos históricos em Cuba dominados por stalinistas, liberais, trotskistas e social-democratas. Depois de meio século, conseguimos recuperar nossa presença em espaços anarquistas internacionais de prestígio, como a Feira de Vídeo e Revista Anarquista de Caracas, a Feira do Livro Anarquista de Londres, vários congressos da IFA, recebemos convites ou coordenamos reuniões com federações e iniciativas anarquistas na Venezuela, República Dominicana, Colômbia, Brasil, México, Espanha, França, Itália, Alemanha, Holanda, República Tcheca, Eslováquia. Em 2018, graças à visibilidade internacional que alcançamos na mídia anarquista do mundo, fechamos uma campanha de crowdfunding bem-sucedida que nos permitiu comprar um espaço em Havana e fundar a ABRA, o primeiro centro social anarquista em Cuba, depois de mais de um século de ausência de tais espaços em Cuba, e em 2016 lançamos a criação da Federação Anarquista da América Central e do Caribe (FACC), que atualmente está tentando sobreviver minimamente como um espaço de comunicação e coordenação intermitente entre camaradas na região.

2019 é o ano do início da paralisação em curso que leva à crise das Jornadas Primavera Libertária de 2024 e do restante dos espaços que iniciamos em 2013. Isso ocorreu em meio a uma situação material marcada pelos efeitos globais da pandemia da COVID-19, na qual muitos dos espaços para a coordenação de iniciativas sociais autônomas foram desarticulados, mas também por tudo o que veio com a pós-pandemia em Cuba: a extinção do sistema de transporte público no país, a precariedade coletiva dos salários devido à inflação desenfreada e fora de controle, o colapso dos sistemas de abastecimento de alimentos, do sistema elétrico nacional, o êxodo em massa de mais de um milhão de pessoas em menos de dois anos, o envelhecimento precário de nossos pais, com pensões miseráveis e sem cobertura de medicamentos para nossos doentes, com a liquidação do sistema de saúde pública em Cuba pelo governo, priorizando investimentos imobiliários e hoteleiros, o que nos condenou a uma vida de dificuldades reforçadas, em que a principal questão é sobreviver. Uma sobrevivência sob uma vigilância policial mais forte e uma legalidade mais arbitrária, após os dias históricos de protestos em massa de 11 a 13 de julho de 2021, contra a precariedade e o despotismo do governo, que deixaram um saldo de mais de 1.000 presos políticos, submetidos a longas sentenças e péssimas condições de prisão, pelo único crime de exercer o direito e o dever de protestar diante da miséria generalizada, sem perspectiva de uma solução governamental.

A pequena quarta geração de anarquistas em Cuba está vivendo, como o resto da sociedade cubana, a longa agonia da chamada Revolução Cubana, devorada pelo “Estado Socialista” nascido dela e que deu origem a uma oligarquia militar-empresarial, entrincheirada no poderoso oligopólio cubano G.A.E.S.A. (Grupo de Apoyo Empresarial S.A. ), que administra fundos e investimentos multimilionários em Cuba e fora de Cuba, um controle mafioso da estrutura produtiva estatal em declínio, da indústria hoteleira, da suculenta exportação de serviços médicos em condições de semiescravidão para os trabalhadores e profissionais de saúde cubanos, e a administração também mafiosa do uso das substanciais remessas enviadas anualmente pelos emigrantes cubanos para suas famílias, sob condições de sequestro em Cuba e outros negócios diferentes, a partir dos quais essa oligarquia explora e oprime a sociedade cubana em seu conjunto, como um território colonial anexado, ao qual subsidia uma magra cesta de consumo mensal de sobrevivência para cinco dias, da qual dependem milhões de pessoas, expropriadas de suas próprias vidas, enquanto simultaneamente essa oligarquia sustenta um imponente aparato de vigilância preventiva, policial-parapolicial e de repressão carcerária, com uma gigantesca e não quantificada população carcerária, que lhes permite administrar o colapso social em curso sem grandes doses de violência explícita, como um verdadeiro Estado dentro do Estado cubano, que não presta contas à solene Controladoria Geral da República de Cuba, nem a nenhuma das dessemelhantes e inúteis organizações de massas da Revolução.

Ao mesmo tempo em que se entrincheiram no tecido social do país, como os verdadeiros gusanos “vermes” (termo que eles usaram durante décadas para definir os cubanos que simplesmente discordavam de seu regime “revolucionário”), essa oligarquia em nível internacional clama lamentavelmente todos os anos na ONU por seu mantra favorito: “o levantamento imediato e incondicional do desumano bloqueio ianque a Cuba”, que eles consideram o ‘problema mais importante que aflige a Revolução Cubana’, que nada mais é do que a saída de luxo a que esses oligarcas aspiram, que lhes permitiria estabilizar-se por mais algumas décadas como o grupo dominante dentro de Cuba, sendo os administradores e beneficiários diretos do restabelecimento da relação neocolonial de longa data com os EUA, relacionamento que eles mesmos romperam em 1960-61 e agora lamentam ter fundado “o primeiro território livre da América”, sob os impulsos anti-ianques impensados do fundador da atual dinastia Castro. A superação desse momento de transbordamento do anti-imperialismo autoritário e militarista da oligarquia castrista lhes permitiria salvaguardar seu domínio sobre Cuba, sob o protetorado ianque, e sentar-se à mesa com eles e expulsar a burguesia cubana da Flórida, como os porcos da Fazenda Manor fizeram com os humanos que expulsaram, com sua vitoriosa revolução animal, na obra-prima de George Orwell.

Em nenhuma das questões levantadas acima, nós, anarquistas de Cuba, temos a menor possibilidade de definir qualquer coisa. Em nossas mãos, temos apenas ferramentas escassas, mas essenciais: exercitar e disseminar o desejo de auto-organização, ajuda mútua e livre iniciativa popular em todas as questões da vida cotidiana, para corroer e desnaturalizar lógicas autoritárias internalizadas, mesmo entre aqueles de nós que lutam contra o despotismo governamental, banir de nossas vidas a necessidade de novos comandantes-chefes humanistas e assumir o controle de nossa própria existência precária, solidária e, sem arrogância doutrinária, atenta aos terrenos, temas e espaços onde surge a necessidade sentida de organização de base e reunião entre iguais, para contribuir com nossas propostas e ideias. Em todos os lugares, a tensão anarquista atravessa a todos nós e não é monopólio daqueles que se definem como anarquistas.

O colapso do monumental estado kafkiano que foi erguido em Cuba, supostamente para proteger a Revolução Cubana, faz parte de uma crise global em andamento e sabemos que não será um evento automaticamente libertador. Dependerá da vontade, dos desejos e da capacidade de organização das comunidades e dos povos que compõem Cuba e o mundo. As três gerações de anarquistas em Cuba que nos precederam estiveram lá e nós também estaremos.

Povos Organizados, Matrias sem Estados

Em algum lugar de Havana, julho de 2024

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Luz crepuscular
Um último arco-íris
Na ponta do pinheiro

Teruko Oda

[Espanha] 100×1 Solidariedade! 100×100 | Marcelo Villarroel nas ruas!

O companheiro Marcelo passou mais de 16 anos ininterruptos na prisão, que não foram capazes de quebrar sua vontade ou derrotar seu espírito indomável.

Baleado, torturado, isolado… mas íntegro e digno, irredimível. Preso pela primeira vez aos quatorze anos de idade, passou nove meses na prisão, sendo o mais jovem preso político do continente, e depois sofreu outra longa prisão, de 1992 a 2005. De seus cinquenta e um anos, ele passou trinta na prisão.

Um revolucionário dedicado que, entre muitas outras ações ousadas, recuperou bancos para financiar a luta, que se arriscou e está pagando caro por seu compromisso, um homem corajoso.

Ele participou da expropriação do Banco Security em outubro de 2007 no Chile, na qual um policial foi morto. Marcelo não foi responsabilizado por essa morte, mas foi condenado a duas sentenças de sete anos por roubo a banco, sentenças cumpridas integralmente em dezembro de 2023. Na verdade, ele deveria ter sido libertado em liberdade condicional em 2019…

Hoje, ele está preso com base em sentenças proferidas pelo sistema de justiça militar de Pinochet, pelo Ministério Público Militar, e estão tentando fazê-lo cumprir 46 anos de prisão…

Durante a ditadura militar, a prisão política nunca ultrapassou doze anos, de 78 a 90.

Marcelo representa tudo o que o Sistema odeia, um revolucionário persistente, incansável, inatingível, o pior dos exemplos… é por isso que estão tão irritados com ele.

Agora ele precisa de nós… existe a possibilidade de um litígio legal para derrubar suas condenações pelo sistema de justiça militar e tirá-lo das garras do inimigo. Isso só pode ser feito por advogados e, para essas despesas, estamos lançando esta campanha urgente de arrecadação de fundos.

Dirigimo-nos, em primeiro lugar, aos companheiros anarquistas e revolucionários e, por extensão, a todos aqueles que abominam o infame capitalismo, e até mesmo àqueles que agem apenas em termos de defesa dos direitos humanos.

Pedimos uma contribuição de 100 euros. Cem pessoas, e as despesas do processo serão cobertas.

Se você está lendo isso, não deixe passar em branco e contribua o mais rápido possível.

Essa iniciativa vem de “La Contratertulia”, um programa de rádio anarquista modesto e de longa duração. Entre os atuais contratertulianos está o companheiro Gabriel Pombo da Silva, um revolucionário incansável, outro homem corajoso que sabe, infelizmente, o que é passar trinta anos na prisão e que, sem advogados, ainda poderia estar lá.

MÉTODOS DE CONTRIBUIÇÃO:

– Por Western Union (em qualquer agência dos correios) Coloque “Ayuda familiar”. Você deve trazer sua carteira de identidade e o dinheiro em espécie. E você deve nos enviar por e-mail o recibo com o código e o nome completo do remetente para que eles possam retirá-lo. Em nome de Daniela Andrea Zapata Silva 15.356.522-8

– Somente se for impossível para você usar o método acima, depositar na conta ES 13 0049 0244 5026 1018 4975 conceito PEDIDO M. Nesse caso, não coloque mais nada.

PEDIMOS, por favor, e a pedido do Marcelo, se puder, que nos envie um comprovante de pagamento para nosso endereço de e-mail para verificar se tudo chegou corretamente (no último caso, depósito direto na conta, não é necessário).

contratertuliaARROBAprotonmail.com

E, PEDIMOS a VOCÊ que replique, encaminhe e divulgue este comunicado por todos os meios à sua disposição.

A LUTA É O ÚNICO CAMINHO!

Fonte: https://www.agorasolradio.org/podcast/la-contratertulia/no-cxxv-segunda-epoca-320/

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Primeira chuva de inverno —
O macaco também quer
Uma capinha de palha.

Bashô

O povo organizado tem mais poder do que qualquer político: Campanha Não Vote, Lute! 2024.

É comum que organizações e movimentos dos trabalhadores enxerguem as eleições como um momento para disputar as candidaturas e conseguir demandas que estão pendentes. Não é nosso caminho. A FOB, a mais de 15 anos, mantêm sua independência frente aos governos que vem e vão enquanto os grandes proprietários e empresários são servidos pelas gravatas azuis ou vermelhas. Acreditamos que disputar a gestão do Estado é um jogo que, ainda que possa garantir pequenas demandas, divide a classe mais do que unifica para a luta. Não acreditamos também que as eleições são um momento oportuno para divulgar nossa proposta de organização. Que melhor maneira de divulgar uma proposta do que realizar ela? Já que nosso projeto não passa por dentro do Estado, seria uma confusão desnecessária entrar neste jogo para apontar para a porta de saída. Buscamos praticar o que dizemos. O povo pode tudo quando está unido. Pois será através da união do povo que vamos pavimentar o caminho para uma vida digna. Será através de sua ação direta, das organizações nos seus locais de trabalho, estudo e moradia.

Deste modo, frente as eleições municipais de 2024, a FOB – Federação das Organizações Sindicalistas Revolucionárias do Brasil, convoca a classe trabalhadora para a campanha Não Vote, Lute sob o lema “O povo organizado tem mais poder do que qualquer político”. Ela deverá ocorrer entre 16 de agosto até 27 de outubro de 2024. Neste período deverão ser realizas atividades de agitação e propaganda sobre o tema da campanha, além de buscar realizar ações reivindicativas pressionando os governos municipais a atender demandas dos locais de trabalho, estudo e moradia organizados. Isto é mais relevante ainda por conta que nas eleições municipais é onde os candidatos utilizam direitos básicos como moeda de troca para suas candidaturas: habitação (telhas e sacos de cimento), consultas na saúde pública, empregos, pavimentação de ruas, saneamento etc.

Ainda que a decisão de realizar esta campanha tenha sido debatida amplamente em toda federação, deve-se observar cada contexto local para sua realização ter resultado positivo na organização. Nenhum filiado da FOB deverá ser repreendido por votar ou não votar, assim como se posicionar pessoalmente, desde que não vincule este posicionamento à organização. A campanha, então, é realizada pela livre adesão dos filiados e parceiros da luta.

Seguindo as deliberações da plenária nacional da FOB de 2021, é importante reforça que devemos priorizar as alianças táticas no trabalho de base ao invés de realizar articulações com agrupamentos ideológicos que nos distanciam de nosso objetivo enquanto sindicalistas revolucionários.

Na página lutafob.org/naovotelute2024 será disponibilizado materiais e orientações gerais para a campanha.

Viva a classe trabalhadora! Avante!

Orientações Gerais

Período: 16 de agosto à 27 de outubro de 2024

Atividades Sugeridas:

Rodas de Conversa / Cine debates / Seminários / Muralismo / Batalhas de Rap e outras manifestações populares / Atos e passeatas / Panfletagem / Pintura de camisas

Materiais:

Cartazes / Cartazes A4 simples / Panfletos / Comunicado Nacional em Panfleto A5 / Hashtags: #naovotelute

lutafob.org

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Rastros de vento,
escuridão de brasas,
um salto suave.

Soares Feitosa

Quase 50 mil pessoas morreram na Europa por causa do calor em 2023, mostra estudo

O aquecimento global provocado pela concentração crescente de gases de efeito estufa na atmosfera terrestre foi responsável direto pela morte de quase 50 mil pessoas só no continente europeu no ano passado, principalmente por conta do calor excessivo. A conclusão é de um novo estudo publicado nesta semana na revista Nature Medicine.

Segundo os autores do estudo, esse número poderia ter sido 80% maior sem medidas de adaptação climática empreendidas nos últimos 20 anos. Entre as medidas destacadas, estão avanços na assistência médica, uso mais generalizado de ar-condicionado e campanhas informativas sobre os riscos do calor.

O estudo utilizou os registros de óbitos disponíveis no Eurostat, que abrange 35 países europeus, além de um modelo epidemiológico para analisar as mortes junto com os registros semanais de temperatura de 2023 para estimar o número de mortes que poderiam ser atribuídas ao calor. A análise revelou que 47.690 pessoas morreram por efeitos do calor intenso na Europa no ano passado.

A maior parte das mortes decorrentes do calor extremo foi registrada nos países da bacia do Mediterrâneo. A Grécia, líder no ranking, experimentou 393 mortes por milhão de pessoas no ano passado, seguida pela Itália (209 mortes por milhão) e Espanha (175 mortes por milhão).

Os pesquisadores também analisaram a exposição dos países europeus ao risco de mortes por calor. Países mais frios, como Reino Unido, Noruega e Suíça podem enfrentar o maior aumento relativo no número de dias desconfortavelmente quentes nos próximos anos. Mas o número absoluto de mortes continuará a acontecer no sul europeu, que é mais bem adaptado ao clima quente, mas ficará mais exposto a temperaturas escaldantes.

A despeito de 2023 ter sido o ano mais quente já registrado em todo o mundo, o número de mortos pelo calor na Europa foi inferior ao registrado em 2003, quando uma onda de calor matou cerca de 70 mil pessoas em todo o continente. Para os pesquisadores, essa redução no número de mortes mostra o sucesso das ações de adaptação climática nas últimas décadas.

“Precisamos considerar as mudanças climáticas como uma questão de saúde pública”, defendeu Elisa Gallo, pesquisadora do Instituto de Saúde Global de Barcelona (Espanha) e autora principal do estudo, ao NY Times. “Ainda temos milhares de mortes causadas pelo calor todos os anos, então ainda temos que trabalhar muito e temos que trabalhar mais rápido”.

Fonte: https://climainfo.org.br/2024/08/13/quase-50-mil-pessoas-morreram-na-europa-por-causa-do-calor-em-2023-mostra-estudo/

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pétala amarela
a borboleta saltou
sem pára-quedas

João Acuio

[Chile] Memórias de um julgamento

(…) Depois veio uma testemunha mais importante. Trata-se do motorista de táxi que ajudou Luciano quando ele foi queimado pela explosão. Nesse caso, apesar das tentativas da defesa, observou-se que o taxista ficou com sequelas psicológicas, pois, após ter ajudado o Tortuga a se recuperar, deixou o local dirigindo, mas em estado de choque.

Segundo ele, teve pesadelos durante 5 meses, nos quais sonhava com o corpo ferido de nosso companheiro. Ele também afirmou que seu carro ficou com danos menores (apenas alguns pequenos arranhões) porque estava muito perto do local da explosão. Por fim, ele contou que muitas pessoas passaram pelo local e nenhuma delas o ajudou.

Quando terminou seu depoimento, Luciano decidiu falar brevemente. Seria a única vez que ele falaria durante o julgamento.

– Olá Rodrigo… Eu não sou muito bom em expressar o que eu sinto, mas eu queria lhe agradecer pela sua ação, pelo que o senhor fez… Eu quero lhe agradecer muito por ter me ajudado.

O motorista de táxi respondeu:

-Sim, quero dizer… repito, não sei por que fiz isso, talvez tenha sido uma questão de instinto. Na época, foi muito chocante, mas agora fico feliz em vê-lo assim, sorrindo. Sei que sou uma pessoa simples, mas gostaria de saber se posso ir abraçá-lo…

O presidente do tribunal lhe deu permissão e os dois foram para o centro da sala de audiências para se abraçarem com muita emoção e agradecerem e parabenizarem um ao outro. O motorista de táxi deixou a sala de audiências acenando para Luciano.

Fonte: https://informativoanarquista.noblogs.org/post/2024/08/16/chile-memorias-de-un-juicio/

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Tormenta hibernal —
O rosto do passante,
Inchado e dolorido.

Bashô

Contra a miséria política.

UERJ: Estudantes ocupam o campus Maracanã

Na “calada da noite”, no dia 25/06, enquanto os estudantes se encontravam de férias e, portanto, afastados em grande parte da universidade, a reitoria da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), composta pela reitora Gulnar Azevedo e pelo vice-reitor Bruno Deusdará, assinou um Ato Executivo de Decisão Administrativa (AEDA 038/2024), o qual vem sendo devidamente chamado pelo corpo estudantil como “AEDA da Fome”. Os estudantes, em resposta, decidiram ocupar o campus Maracanã da UERJ.

A AEDA da Fome

Sob a alegação de que a UERJ está sem dinheiro para garantir a permanência e os direitos dos estudantes cotistas, a reitoria simplesmente colocou em xeque os estudantes não cotistas de baixa renda, isto é, estudantes provenientes do proletariado, o que torna evidente o teor de classe da atitude covarde da reitoria.

O AEDA mudou os requisitos para obtenção das bolsas estudantis na universidade. Ela se encontra em vigor desde o dia 1° deste mês. O auxílio-material foi de R$1,2 mil (pago 2 vezes ao ano) para a metade do valor. O auxílio-alimentação ficou restrito a quem estuda em campus sem restaurante universitário. O número de estudantes contempladas pelo auxílio-creche foi reduzido a apenas 1,3 mil estudantes, sendo que antes bastava a solicitação. A bolsa voltada aos estudantes com vulnerabilidade agora passa a exigir renda bruta de meio salário mínimo por pessoa da família, isto é, R$ 706.

Alguns servidores defendem que os cortes sejam realizados, afirmando que os auxílios são auxílios e não salários, não tendo, portanto, o objetivo de pagar as constas das famílias desses discentes. Esses discentes, em sua maioria proletários racializados como não-brancos, que têm de enfrentar longos trajetos e horas de transporte para chegar à universidade, para não mencionar quando as localidades nas quais moram são afetadas diretamente pela violência que impede sua ida à universidade.

A Resposta dos Estudantes

Os estudantes decidiram ao longo de reuniões, por um conjunto de atos a serem realizados no dia 14/08. Este dia começou com um ato às 7h em apoio aos terceirizados, que estão há meses sem receber salário. Às 15h ocorreu um ato do Dia Nacional do Estudantes na Cinelândia e, por fim, um ato pela revogação da AEDA da Fome em frente a UERJ às 17h, que fechou a avenida São Francisco Xavier, numa clara exposição da força que a unidade de luta é capaz. Este último resultou na ocupação do prédio principal do campus Maracanã da UERJ. Barricadas com mesas e bancos foram levantadas nas portas principais.

Sobre a AEDA, uma estudante afirmou: “é um absurdo isso tudo! Uma amiga minha não vai poder vir pra faculdade porque não vai receber o auxílio-creche, não sabe o que vai fazer. Eu mesma penso em arranjar um trabalho pra me manter e me formar. Mas ai a gente escuta gracinha de professor falando que a gente tem que se dedicar totalmente à universidade, como se a gente fosse um bando de preguiçosos. Um professor disse que quem trabalha no máximo vai ganhar um pouco a mais por ter ensino superior, mas que não é pra esperar mais do que isso.” Já um estudante da Baixada Fluminense disse: “é difícil. A gente chega aqui e o professor olha pra gente com cara feia. A gente fica quase 2h no ônibus e no trem e a gente ainda tem que tirar do nosso bolso, que não é pouca coisa. Qual a diferença disso pra pagar uma universidade privada?”. Este último relato é importante, pois mostra, de certo modo, como certas medidas assumidas pelas universidades públicas empurram os estudantes para as universidades privadas, o que também higieniza a comunidade acadêmica, já que são os estudantes que recorrerão às universidades privadas, não os playboys.

Sem qualquer surpresa, a reitoria se prontificou em criminalizar a ocupação, partindo para cima dos estudantes pobres revoltados contra a fome: na manhã desta quinta-feira, 15/08, a empresa Conquista ordenou que seus funcionários terceirizados da vigilância agredissem os estudantes. Estes vigilantes atuam na área de segurança patrimonial, não sendo portanto parte da sua função a repressão, muito menos a repressão a movimentos sociais. Como bem questionou o grupo Invisíveis (@invisiveistrabalhador) no seu perfil no Instagram: “Seria isso um desvio de função?” Como bem pontuou o grupo numa outra postagem: “a ordem dada pela coordenação de segurança da UERJ, é desvio de função violação de relações trabalhistas.”

Relatos de Trabalhadores Terceirizados sobre a Ocupação

O grupo Invisíveis tem realizado uma enquete operária com as trabalhadoras e os trabalhadores terceirizados da UERJ. Na data de hoje, os seguintes relatos foram apresentados numa postagem:

“A empresa disse para não vir por que ia tá tudo suspenso. Mas eu já tô aqui na UERJ, passei pela entrada principal e vi tudo trancado. Quando passei disseram que a greve é até revogarem a medida aí. Aí nós tamos aqui no bandejão. A princípio não vai servir comida não, só que o meu turno já fez 100 quilos de feijão. 100 QUILOS! A gente vai ver como é que vai ficar. A gente tá aqui. E ainda tamo esperando o vale alimentação e transporte, que vem atrasado e parcelado. E a gente tá aguardando a comida pronta aqui pra ser congelada. Não vão jogar fora.” (Relato apresentado por funcionários da empresa PRIME, no bandejão).

“Vocês tinham é que ocupar mais e nem deixar a gente entrar. Tamo sem salário, a CONQUISTA só atrasa. Só assim pra gente poder fazer paralisação. A gente não pode paralisar sem completar 1 MÊS  de SALÁRIO ATRASADO. Fora isso, se a gente paralisar é abandono do posto e DEMITEM COM JUSTA CAUSA. Tem um ESTATUTO DO VIGILANTE que define isso. E se a gente FALA COM VOCÊS lá EMBAIXO É OBRIGADO A ASSINAR ADVERTÊNCIA, sempre é assim. Por isso a gente não fala normalmente. A gente fica com muito medo. Não pode nem pegar panfleto com vocês. E nem ler nada.” (Relato apresentado por vigilantes da empresa CONQUISTA, que estão sem receber o salário).

A decisão de suspensão do bandejão não é à toa. Trata-se duma clara tentativa de desmobilizar os discentes através da fome. Cabe relembrar que o bandejão só existe hoje graças à organização e mobilização dos estudantes em 2017, que lutaram pela implementação do bandejão, movimento que ficou conhecido como Ocupa Bandejão. As ameaças de demissão aos vigilantes é também uma forma de desmobilização através do isolamento entre estes e os estudantes. Como foi relatado: “A gente fica com muito medo. Não pode nem pegar panfleto com vocês. E nem ler nada.” É o medo da demissão, não a desconfiança dos vigilantes em relação às ações tomadas pelos estudantes, o que os impede de somarem à ocupação. Desta forma, o enfraquecimento da luta contra a AEDA da Fome se torna iminente e, com ela, a tragédia da exclusão de 6 mil estudantes da assistência estudantil.

A empresa Conquista, não obstante não pagar o salário dos vigilantes, ainda ordena que agridam os estudantes, numa clara cumplicidade com a reitoria. Caso não sigam as ordens, esses funcionários serão demitidos. O Capital opera pelo medo. As suas condições de vida e as dos estudantes agredidos não são tão diferentes assim. Como afirmou uma funcionária da limpeza, também contratada pela empresa Conquista: “COVARDIA ISSO, ESSES SEGURANÇAS TUDO SEM SALÁRIO, SEM DISSÍDIO, SEM DIREITOS AGREDINDO ESTUDANTES”. A empresa atrasou o pagamento dos seus funcionários pela oitava vez; deve pagamento do dissídio; tem um dos contratos mais caros da UERJ; lucra burlando pagamento de rescisão, conforme cartaz do grupo Invisíveis. A empresa, assim como a reitoria, estão contra nós, proletárias e proletários!

Já o G1, em cumplicidade com a política elitista da reitoria, expõe a situação como “tumulto” e “confusão” e apresenta única e exclusivamente o que diz a reitoria, a qual se faz de vítima diante dos ocorridos. “A ocupação com a obstrução é inaceitável, pois causa prejuízos acadêmicos e administrativos à UERJ”, afirma a reitoria. Inaceitável é a situação cada vez mais precária da universidade. O corte de bolsas tem implicações diretas sobre os estudantes. Se a preocupação é realmente com “prejuízos acadêmicos”, por que não considerar os prejuízos pelos quais os estudantes passarão com a mudança nos requisitos para a obtenção de bolsas? Não é de se espantar que os protestos realizados pelos estudantes, bem como sua recusa em aceitar a conciliação de classe (“As propostas para dar solução ao impasse foram todas recusadas pelos estudantes”, conforme reitoria), sejam traduzidos como “atitudes violentas”. Afinal de contas, é “confuso” quando o proletariado racializado decide não mais ser capacho ou um corpo docilizado. Ao não se conformar mais, o proletariado passa a falar uma outra língua, incompreensível aos ouvidos habituados ao “sim, senhor!”. Numa sociedade dividida em classes, o estudante é sim um trabalhador. A tentativa de conter a união entre estudantes e terceirizados é para reduzir os riscos duma posterior expansão da luta no seio da comunidade acadêmica para uma luta social mais ampla.

A resposta dos estudantes é legítima e deve ser apoiada por todas aquelas pessoas e organizações engajadas na luta por transformações sociais. Obviamente, a luta não deve ser restringida ao meio estudantil e não parece ser este o caso, posto que os estudantes tentam a todo custo – e apesar dos ataques – aproximar os terceirizados. No dia 10/08, durante um ato dos terceirizados, os estudantes estiveram presentes. O que pode fortalecer a luta estudantil e dos terceirizados e expandi-la, é a nossa contribuição a partir de outros movimentos sociais e sindicais externos à universidade. O fortalecimento desta luta implica no fortalecimento das demais. Se não contribuirmos, ela enfraquecerá e não serão poucos os que lamentarão que o movimento estudantil anda fraco e sem forças. Pois bem, tomemos alguma providência!

agência de notícias anarquistas-ana

soprando esse bambu
só tiro
o que lhe deu o vento

Paulo Leminski

[Espanha] Pensando sobre o (condenado e falacioso) anarcocapitalismo

Não são poucos os meios de comunicação e escritores que insistem em definir o governo da Argentina como o primeiro governo anarcocapitalista da história. É possível que o óbvio oximoro seja apenas uma tentativa de atrair um público intelectualmente sedentário. O que esses pseudolibertários, supostamente defensores do capitalismo sem restrições, defendem deveria significar o fim das instituições estatais coercitivas. Obviamente, eles não são contra a exploração (sinônimo de açambarcamento dos meios de produção em mãos privadas, eu diria), mas também não são contra a coerção mais óbvia, pois isso produziria forças policiais que também são privadas e multiplicadas muitas vezes. Em outras palavras, uma falácia como o topo de um pinheiro. Nem o iníquo Milei vai desmantelar totalmente o Estado, não indo além de simplesmente cortar tudo o que puder em termos de proteção social, nem os chamados anarcocapitalistas têm o menor vestígio de sinceridade além de alguma palestra no YouTube que atrai quem pouco sabe sobre o mundo real. O que todo esse bando de ultraliberais pseudolibertários finge ser é apenas uma exacerbação do terrível mundo político e econômico em que vivemos. Nem mesmo a estupidez do minarquismo é muito plausível, já que o Estado é o que é, com sua própria lógica de dominação, independentemente de suas instituições serem mais ou menos amplas e de aceitar certas liberdades formais para preservar os interesses das elites econômicas.

Insistiremos que isso é mais do mesmo na realidade que sofremos. Hoje há um governo de aparência ultraliberal, em poucos anos haverá um mais ou menos social-democrata, mas sem questionamento real do sistema econômico, nem, veja bem, das instituições estatais. E é por isso que a toda infâmia historicamente lançada contra o anarquismo junta-se agora essa vil retórica (anarco)capitalista e até mesmo por falar sem pudor de governos supostamente libertários. É claro que as ideias anarquistas devem ser constantemente revisadas e atualizadas, mas vou explicá-las para que qualquer pessoa com um cérebro bem oxigenado possa entendê-las; principalmente, com uma premissa irrenunciável, a luta contra todas as formas de dominação. Obviamente, essa luta emancipatória também inclui a abolição, na medida do possível, da exploração do trabalho alheio em um mundo com poucas possibilidades de escolha para os mais fracos; ou seja, apesar do que a máquina de propaganda de certas tendências nos assegura, o capitalismo não é sinônimo de liberdade, mas de coerção e dominação na esfera material da existência (tão ou mais importante que qualquer outra).

Falar de um governo anarquista é, de fato, uma contradição, algo impossível em um nível ontológico (seja lá o que isso signifique). Nos falarão de ministros anarquistas em meio à guerra civil espanhola, bem como muitos líderes anarquistas em organizações paraestatais em circunstâncias muito específicas, mas isso não tornou nenhum governo anarquista. Sem dúvida, havia anarquistas em um governo, sim, e em circunstâncias muito excepcionais (não estou adotando um tom de justificativa, a história é o que é e as pessoas sinceras fizeram o que puderam), mas o que está claro é que nenhum desses libertários buscou acesso ao poder para desmantelar o Estado, mas para defender uma base comum de luta contra a reação. Milei, como muitos dos pseudolibertários de hoje, é aquele que não possui um pingo de sinceridade, enchendo a boca com críticas ao Estado para se candidatar a uma eleição e garantir seu lugar no trono. Outra marca registrada do anarquismo autêntico é a coerência entre meios e fins; nenhum anarquista vai entrar no Estado, ou em qualquer organização política hierárquica, com a certeza de que vai derrubá-los. Como dizia o clássico, somente práticas livres podem dar origem à liberdade, e lembremos também que a proposta verdadeiramente libertária é, acima de tudo, moral. A confusão política atual leva alguns comerciantes inescrupulosos a encher a boca de liberdade e adotar sua justificativa nas práticas históricas do socialismo estatista (terrivelmente autoritário e, certo, um fracasso em todos os níveis em seu suposto zelo emancipatório). O que é mais significativo, e deveria ser óbvio para aqueles que têm seus neurônios bem conectados, é que esses pseudolibertários geralmente andam de mãos dadas com a direita mais reacionária.

Juan Cáspar

Fonte: https://exabruptospoliticos.wordpress.com/2024/07/27/a-vuelta-con-el-condenado-y-falaz-anarcocapitalismo/

Tradução > anarcademia

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agência de notícias anarquistas-ana

Coruja voa
Espreitando o rato
Que passeia só.

Ze de Bonifácio

[Espanha] Juntas contra a espionagem de Estado

A não aceitação da ação contra o agente infiltrado da Polícia Nacional, DHP, nos movimentos sociais de Barcelona, avaliza o uso destas técnicas de controle e criminalização dos movimentos sociais, violando direitos fundamentais.

Desde diferentes coletivos políticos, assembleias, organizações e movimentos sociais denunciamos a gravidade que significa a Audiência Provincial de Barcelona considerar improcedente agora a ação apresentada por algumas companheiras contra o policial infiltrado DHP, seus superiores hierárquicos e o Ministério do Interior. A Audiência Provincial confirma a inadmissibilidade da ação e rechaça a investigação de uma infiltração que durou 3 anos, e que supõe a espionagem de um amplo leque de coletivos, espaço e assembleias, e o estabelecimento de diversas relações pessoais.

Por isso, algumas das pessoas afetadas decidiram interpor uma ação por delitos de abusos sexuais, delitos contra a integridade moral, descoberta e revelação de segredos íntimos, e o impedimento do exercício de direitos cívicos.

Nos dois últimos anos foram detectados mais de oito casos de infiltrações policiais em movimentos sociais. O Estado cruzou todas as linhas vermelhas para recolher informação de pessoas, entornos, coletivos e organizações que lutam para ter uma vida digna. Os corpos policiais não duvidaram em utilizar relações pessoais, íntimas e sexo-afetivas, o engano, a manipulação e a coisificação. Tudo amparado pelo silêncio do Ministério do Interior, que insiste em não dar nenhum tipo de informação, recorrendo à lei franquista de Segredos Oficiais (Lei 9/1968, 5 de abril), que acoberta qualquer informação como secreta. Este caso não é único, mas, que estas operações policiais também foram documentadas em outros países contra diferentes coletivos e movimentos. Um tribunal de direitos humanos inglês sentenciou com contundência que estas práticas podem ser consideradas TORTURA, já que prescindem de toda ética e respeito.

Confirmar a inadmissão de ações como esta, não só significa não querer investigar estes casos, fato já muito grave em si mesmo; como também, legitima e aprova a infiltração de policiais nos movimentos sociais e políticos sem limites. Significa também aprová-la na intimidade das pessoas, em suas casas e em suas camas, dando via livre à violação em cadeia de direitos básicos e fundamentais como o direito ao protesto, e em particular o direito à liberdade de associação. Assim, a infiltração policial ataca diretamente o associacionismo e criminaliza o ativismo, controlando e, definitivamente, reprimindo, o tecido social e político de nossos bairros, povoados e cidades.

Somos conscientes dos efeitos individuais e pessoais que estas práticas tiveram e ainda tem sobre as pessoas diretamente afetadas por este operativo policial. Quantas mais o foram sem sabê-lo? Quantas o serão amanhã? E se acontecer com você? Denunciamos que o alcance que puderam ter e terão estas infiltrações é incalculável se isto não se detém.

Por isso, queremos encontrar-nos na solidariedade e no apoio mútuo, organizadas e decididas a responder a este ataque, e a fazê-lo de forma coletiva. Diante disso, diferentes coletivos políticos, organizações e movimentos sociais manifestam que estas praticas tem um forte impacto coletivo e que desafiam a cada uma de nós, tanto de maneira individual como coletiva.

Exigimos a imediata finalização destas operações; a investigação destes fatos e de outras infiltrações policiais; o levantamento e apuração de responsabilidades públicas; e a não repetição deste tipo de operações. Para que mais nenhuma de nós se veja afetada pelas infiltrações policiais.

E por isso não nos cansaremos de repetir:

JUNTAS CONTRA A ESPIONAGEM DE ESTADO!

Fonte: https://framaforms.org/juntes-contra-lespionatge-destat-juntas-contra-el-espionaje-de-estado-1719853596

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

um longo suspiro –
o luar brilha sobre
seios intumescidos

Suezan Aikins

Encontro Internacional de Práticas Anárquicas e Antiautoritárias contra as Prisões

Argentina | Julho de 2025

Chamada para trabalhos

A importância desse tipo de encontro que leva a uma agitação internacional e reproduzível é essencial para compartilhar nossas experiências na guerra contra a dominação. É por isso que, como uma continuação da iniciativa do Encontro Internacional de Práticas Anárquicas e Antiautoritárias Contra as Fronteiras, realizado por companheiros em Tijuana, México. Nesta ocasião, a iniciativa é retomada, convidando-nos a refletir sobre nossas práticas em torno das prisões, levando em conta a intensidade e as variadas formas pelas quais as prisões nos habitam. Como uma necessidade antiautoritária, é essencial ampliar a reflexão sobre as prisões e como elas não estão concentradas apenas em um espaço ou tempo específico, mas também como estão incorporadas em nossa vida cotidiana, até mesmo na natureza e nos animais não humanos.

Extrativismo, especismo, patriarcado, urbanismo, corpos em punição, coerção, prisões, tecnologia, militarismo, colonialismo, autoritarismo e assim por diante. Essas são algumas das práticas que se originam nas prisões. Portanto, convidamos qualquer individualidade, coletivo ou iniciativa a compartilharem sua contínua reflexão de pensamentos/práticas antagônicas contra as prisões através de conversas, projetos culturais, apresentações de material audiovisual, gráfico e cênico que gire em torno do pensar/fazer contra as prisões. Com o objetivo de mapear o papel que as prisões desempenham atualmente em nosso imaginário, desde o coletivo até o individual. Acreditamos na necessidade de aprimorar nossas ideias/práticas, baseadas na horizontalidade, no cuidado mútuo, na autogestão e na autonomia, para enfrentar a hegemonia do poder, a partir da multiformidade anárquica antiautoritária e do internacionalismo antiprisional.

As informações e a data de encerramento serão atualizadas assim que possível.

encuentroanarquico@riseup.net

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

O viajante
Chupa uma laranja
Pelo campo seco.

Shiki

[Chile] “Nunca nos esqueceremos de você, querido companheiro!”

O corpo de Luciano já partiu. Um importante grupo de companheiros, amigos, apoiadores e familiares terminou hoje (14/08) de se despedir dele neste plano terreno da vida. Seu legado, sua presença, suas palavras e seus atos ficam para sempre na história do Anarquismo local e internacional, onde seu nome é sinônimo de força, resistência, decisão e coerência na tensão do conflito que não nos furtamos a enfrentar na prisão e na rua, onde o Tortuga sempre soube dar o melhor de si além de todas as dificuldades e limitações a que foi exposto em decorrência de suas decisões, fruto de suas claras convicções insurrecionais.

Nunca nos esqueceremos de você, querido companheiro!

Com nossos guerreiros sempre e em todos os lugares!

Tortuga vive e retorna na luta diária contra todas as autoridades!

Nada acabou,

Tudo continua!

Fonte: Buskando La Kalle

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agência de notícias anarquistas-ana

A lua crescente
Está arqueada —
Que frio cortante!

Issa

[Chile] Lançamento: “Ovelha Negra”, de Jorge Enkis

A p r e s e n t a ç ã o

Na fazenda se preparam para o grande nascimento da centésima ovelha, mas esta ovelha nasce diferente de todas as outras.

Juliana, a ovelha negra, mora sozinha, pois se separa das outras ovelhas e parte em uma aventura para encontrar a si mesma e encontrar outros como ela.

Baixe, imprima e divulgue.

Em português:

https://editorialautodidacta.org/wp-content/uploads/2024/08/Ovelha-Negra-Jorge-Enkis.pdf

Em castelhano:

https://editorialautodidacta.org/wp-content/uploads/2024/08/Oveja-Negra-Jorge-Enkis.pdf

editorialautodidacta.org

agência de notícias anarquistas-ana

Canto da cigarra.
O vento espalha
Suave despedida.

Raimundo Gadelha

[Reino Unido] Os Dez Melhores Momentos das Olimpíadas para o Freedom

Os jogos olímpicos terminaram – aqui estão os destaques

 1. Sabotagem incendiária

A ação de um grupo de sabotadores ainda desconhecido foi realmente de encher os olhos. Na noite de abertura, enquanto o mundo olhava para a cerimônia de abertura das Olimpíadas em Paris, não era a tocha olímpica que chamava a nossa atenção, mas o bombardeio coordenado de caixas de sinalização que afetavam três das principais linhas nacionais da França. Essa sabotagem, que afetou mais de 800.000 passageiros, foi seguida por apelos imediatos por parte de políticos e executivos franceses para a captura do “bando de loucos e irresponsáveis”. Inicialmente, parecia que um sabotador havia sido pego, pelo menos de acordo com o Ministro do Interior da França e com o jornal de direita The Figaro. Infelizmente para eles, esse “militante de ultraesquerda” acabou sendo um grafiteiro, com a infeliz coincidência de ter um livro para seu curso de sociologia em seu carro quando foi pego. Tendo aparentemente esgotado todas as opções, a polícia francesa pediu ajuda ao FBI para investigar a “delegação inesperada” que enviou e-mails aos principais jornais sobre a sabotagem, embora não tenha reivindicado explicitamente a responsabilidade.

2. Arte insurrecionária

Em uma olimpíada saturada de patrocínios, foi uma lufada de ar fresco ver seus grandes anúncios serem retomados pela arte de protesto por toda Paris. Desde a parceria da Nike com o Centre Pompidou até à ênfase na forma como grandes poluidores usam os esportes para limpar suas imagens, nenhum anúncio ficou a salvo de ser rebatizado pelos artistas de rua de Paris.

3. Celebração de atletas palestinos

A França pode não reconhecer um Estado palestino, mas os atletas palestinos foram recebidos com entusiasmo nas Olimpíadas pelas multidões francesas. Competidores foram saudados por bandeiras palestinas hasteadas durante os jogos, um ato que foi ilegal na França por meses após o 7 de outubro.

4. Louise Michel ‘homenageada’

Louise Michel, líder da Comuna de Paris e notável anarquista e feminista, foi “homenageada” na cerimônia olímpica entre outras dez mulheres francesas. Michel, que ficou famosa por declarar “Se vocês não forem covardes, me matem” ao governo francês após a queda da Comuna, foi exilada na Nova Caledônia por anos. Ela não estava sozinha entre as imagens revolucionárias na cerimônia de abertura das Olimpíadas, que incluiu interpretações de “Ça ira”, uma famosa canção da Revolução Francesa, e cujas apresentações incluíam uma Maria Antonieta decapitada cantando. Não é preciso dizer que uma estátua de ouro desse ícone revolucionário não redimiu as Olimpíadas das injustiças cometidas contra as pessoas pelas quais ela passou a vida lutando.

5. Sabotagem de cabos de fibra ótica

Dias depois da sabotagem das ferrovias, os ativistas antiolímpicos atacaram os cabos de fibra óptica, afetando seis departamentos da França. Isso provocou um segundo frenesi na mídia e especulações sobre o que a “ultraesquerda” tentaria fazer a seguir. Apesar da intensa especulação da mídia e do reforço policial, a incapacidade do Estado francês de combater ou capturar esses grupos de ativistas aparentemente pequenos e independentes mostrou as limitações do Estado de segurança contra ataques desse tipo.

6. A delegação da Argélia jogou rosas no Sena

Por mais que os sucessivos governos franceses tenham a intenção de esquecer seu passado colonial, os atletas argelinos se recusaram a permitir que as Olimpíadas passassem sem um protesto contra seu antigo colonizador. Os atletas argelinos jogaram rosas no Sena durante a cerimônia de abertura das Olimpíadas em homenagem aos cerca de 100 manifestantes argelinos que foram mortos pela polícia francesa enquanto protestavam pela independência da Argélia em 1961. A ação foi simbolicamente pungente, pois o massacre envolveu o lançamento de manifestantes no Sena.

7. Protestos contra Israel

Outro grupo que não teve permissão para esquecer os crimes do passado foi a delegação israelense nas Olimpíadas deste ano. Mesmo antes da cerimônia de abertura, os protestos começaram durante a partida de futebol entre Israel e Mali, na qual os frequentadores do estádio com bandeiras e faixas palestinas demonstraram sua solidariedade. O fato de a Rússia ter sido proibida de competir, enquanto Israel não foi, continuou sendo um tema de controvérsia durante as Olimpíadas, com os espectadores continuando a destacá-lo o tempo todo.

8. O sindicato dos bailarinos venceu

Diante das “condições vergonhosas, sem compensação, ou sem saber o valor da transferência dos direitos de vizinhança” de 300 dançarinos dentre os 3.000 da cerimônia de abertura, o sindicato SFA-CGT solicitou uma greve no dia 23 de julho, que teria entrado em vigor durante a cerimônia de abertura no dia 26. Recusando-se a participar do ensaio no dia 23, eles ergueram os punhos no ar em solidariedade aos dançarinos mais precários. A greve não durou muito tempo, pois a empresa produtora dos jogos se ofereceu para aceitar muitas de suas reivindicações no dia seguinte, resultando no cancelamento vitorioso da greve.

9. O Rio Sena nunca foi limpo

Em uma monumental demonstração de arrogância governamental, o rio Sena, que foi usado para o triatlo olímpico, provavelmente nunca foi limpo com sucesso. O projeto de limpeza do Sena, vocalmente endossado pelo presidente francês Emmanuel Macron, não apenas custou £1,2 bilhão, mas também não conseguiu conter as “bactérias E. coli e Enterococcus intestinal na água”, que “ultrapassaram os níveis recomendados”. Isso pode ter resultado em doenças entre muitos atletas que adoeceram recentemente com problemas intestinais. Infelizmente, o próprio Macron quebrou sua promessa de nadar no rio no dia 23 de julho, impedindo que o site “I will poo in the Seine” [Eu vou fazer cocô no Sena] fosse usado para o fim a que se destinava.

10. Uma mensagem de esperança para o futuro das Olimpíadas

Do aumento da vigilância até a limpeza social dos indesejáveis, essas Olimpíadas mostraram nosso estágio do capitalismo em seu pior aspecto: insensível, securitizado e adaptado aos desejos de uma elite rica. No entanto, nos protestos ao longo das Olimpíadas, bem como na determinação genuína dos próprios atletas, houve momentos em que uma visão alternativa para o esporte e a competição brilhou. Como nas “Olimpíadas do Povo” de 1936, que surgiram como uma alternativa às Olimpíadas na Alemanha nazista, alguns atletas pediram uma Olimpíada desvinculada de regimes políticos e egos pessoais. Como disse Hugo Hay, finalista dos 5.000 m, sobre Macron: “Gostaria de dizer a ele que esses jogos não são dele, mas dos próprios atletas”.

~ Gabriel Fonten

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2024/08/13/freedoms-top-ten-olympic-moments/

Tradução > anarcademia

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agência de notícias anarquistas-ana

Dia grisalho
brotos brotam brutos
na ponta do galho

Danita Cotrim

Esquerda e chantagem: a defesa impossível do governo de Maduro

Por Ybelice Briceño Linares | 06/08/2024

As políticas que esse governo vem implementando há anos estão longe de ser democráticas, progressistas ou mesmo meio revolucionárias.

[Escrevo] contra o silêncio eloquente e performático de boa parte dos intelectuais e artistas da chamada esquerda que, em nome de um mito ao qual não podem renunciar […] não se posicionam a favor da vida, como acreditávamos, mas a favor da repressão, da falsificação e do discurso ideológico monolítico.

Ileana Diéguez. A performatividade da Esquerda neocolonial

Dirijo-me a essa esquerda latino-americana e global que prefere se posicionar ao lado do terror pelo simples medo de perder sua utopia, uma esquerda que não consegue se livrar da chantagem grosseira: se você não está com Maduro, está com a CIA.

Os homens e as mulheres venezuelanos da esquerda crítica e honesta há muito se cansaram dessa chantagem. Não apoiamos o setor radical da oposição liderado por María Corina Machado, porque não concordamos com seus ideais nem com suas práticas geralmente antidemocráticas e de direita. Rejeitamos enfaticamente o bloqueio dos EUA, bem como qualquer tipo de interferência em nosso país. No entanto, isso não nos impede de ver que a revolução bolivariana (que apoiamos durante seus primeiros anos) há muito se desviou do caminho.

Há anos sabemos que, apesar de sua retórica esquerdista e de seu discurso anti-imperialista, o governo de Maduro e os militares que o apoiam são um governo absolutamente impopular, gerador de desigualdades sociais e cada vez mais autoritário, como demonstram a perseguição aos protestos populares nos últimos dias (mas que começou há anos) e suas práticas que beiram o autoritarismo mais sangrento.

Não estamos apostando no triunfo de uma oposição cujo projeto não compartilhamos, mas consideramos fundamental reconhecer a vontade popular expressa em uma eleição que, apesar das táticas vantajosas do governo e de todas as suas estratégias de intimidação, teve seu candidato claramente vencedor. E esse triunfo, mais do que uma aposta em um projeto de direita, expressa o cansaço absoluto de um povo que não suporta mais a situação de miséria, precariedade e profunda desigualdade a que foi submetido.

Isso foi agravado pela indignação com a fraude, que era suspeita, mas foi mais flagrante do que se poderia imaginar. As estratégias de má qualidade e as desculpas incomuns do Conselho Nacional Eleitoral – cujos membros são conhecidos por serem pró-governo – ficaram muito evidentes e, uma semana após as eleições, ele ainda não mostrou os resultados oficiais que apoiam o suposto triunfo de Maduro. Soma-se a isso a ausência de números detalhados por estado, paróquia e seção eleitoral, como sempre foi o caso. Tudo isso no contexto da proclamação precipitada de Maduro como presidente – antes da divulgação do segundo boletim com os resultados finais. Essas, entre muitas outras irregularidades, deram origem a uma profunda raiva que foi expressa nas ruas de todos os bairros e cidades do país. As pessoas que saíram para se manifestar não são apenas a população de classe média das grandes cidades, mas, acima de tudo, aquelas que vivem nos bairros populares e nos vilarejos mais pobres do interior, que vivem na situação mais precária, sem eletricidade, água, gás e com salários miseráveis; em outras palavras, as mesmas pessoas que saíram em 13 de abril de 2002 para defender Chávez do golpe de Estado da oposição.

O governo reagiu a esses protestos, em sua maioria pacíficos, com um discurso e uma prática de intimidação, perseguição e sequestro, descrevendo qualquer pessoa que se manifeste como “terrorista”, capturando não apenas aqueles que estão protestando, mas também aqueles que demonstram seu descontentamento por meio de redes e até mesmo simples testemunhas de mesa do processo eleitoral. Essa política foi acompanhada pela mobilização de forças parapoliciais ligadas ao governo (conhecidas como “coletivos”), cidadãos armados e motorizados que estão circulando pelos bairros, intimidando os habitantes e até mesmo atirando neles. O saldo atual dessa estratégia de terror, que o governo com o maior cinismo chamou de Operação Tun Tun – o nome de guerra de bater nas portas das pessoas – é de cerca de mil pessoas detidas – sem o devido processo -, mas o próprio Maduro prometeu encarcerar mais 1.200 pessoas e adaptar duas novas prisões para elas.

Por tudo isso, é urgente falar com a esquerda mundial, não apenas para fazê-la se posicionar sobre o que está acontecendo agora, mas também para fazê-la entender, de uma vez por todas, que as políticas que esse governo vem implementando há anos estão longe de ser democráticas, progressistas ou até mesmo revolucionárias:

– A perseguição, detenção e execução de jovens de bairros populares – enquanto faziam acordos e davam salvo-conduto aos líderes de gangues criminosas – em operações de segurança como a Operação Cacique Guaicaipuro, que levou à prisão sem julgamento justo, detenção em condições desumanas e morte em cativeiro de jovens inocentes, como no terrível caso dos cinco jovens de La Vega. Essa não é uma política de esquerda.

– A desoneração de impostos e tarifas sobre a importação de bens, alimentos e artigos de luxo, para favorecer as empresas – chamadas Bodegones – dos novos ricos ligados ao governo. A privatização neoliberal de ativos estatais também está ocorrendo, de acordo com a Lei Antibloqueio (2020), enquanto a maioria da população vive na pobreza e precisa sobreviver com um salário de quatro dólares por mês. Essa não é uma política de esquerda.

– A entrega de 12% do território nacional à exploração mineradora por meio do megaprojeto extrativista ARCO MINERO – por meio da figura autoritária do Decreto Presidencial 2248 que suspende todos os tipos de direitos na área – que abriu as portas para grandes transnacionais norte-americanas, canadenses, russas e chinesas, bem como para a mineração ilegal. Esse projeto resultou na devastação da floresta e de sua biodiversidade, na promoção do trabalho escravo, do trabalho infantil, da exploração sexual de meninas e mulheres e na perseguição e no assassinato de líderes comunitários indígenas Warao, E’Ñepa, Hoti, Mapoyo, Kariña, Piaroa, Pemón, Ye’kwana e Sanema. Essa não é uma política de esquerda.

– A intimidação, a perseguição e a detenção de líderes sindicais, camponeses e sindicais que lutam pela defesa dos contratos coletivos, contra os “bônus”, pela liberdade de associação ou por um salário digno. Esses foram os casos de Leonardo Azócar e Daniel Romero, líderes sindicais da SIDOR -Siderúrgica del Orinoco -, que foram presos e julgados “por terrorismo”, ou o ativista da Ferrominera del Orinoco Rodney Álvarez, que ficou preso por mais de 10 anos. Isso não é política de esquerda.

A essa altura, é preciso muita ingenuidade ou muito cinismo para continuar dizendo que o governo de Maduro – e seus militares – é um governo revolucionário. É por isso que me pergunto quando a esquerda internacional perceberá que tipo de regime está defendendo. Quando perceberá de que lado da história está se posicionando. Quando ela sairá da chantagem. Quando chegará à conclusão de que é obsceno que o medo de perder uma utopia valha mais do que o sofrimento, a fome, a perseguição de milhares de homens e mulheres venezuelanos.

Fonte: https://zonaestrategia.net/izquierda-y-chantaje-la-imposible-defensa-del-gobierno-de-maduro/

Tradução > Liberto

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Kátia Ribeiro de Oliveira

Pessoas contra as prisões… em Aotearoa, Nova Zelândia

Por Alicia Alonso Merino | 04/08/2024

A primeira vez que escutei nomear Aotearoa foi por um casal de origem palestina que viajava na Flotilha da Libertade, rumo a Gaza, quando nos apresentamos e me disseram seu lugar de residência. Creio que ante a surpresa em meu rosto, em seguida acrescentaram: Nova Zelândia.

Aotearoa – a terra da nuvem branca – é o nome originário com o qual os maoris chamavam a grande ilha polinésia antes da colonização britânica iniciada em meados do século XIX e que está se tentando recuperar para refletir melhor a cultura originária do país. Como é de supor, os interesses econômicos britânicos baseados na mineração e na agricultura, bateram de frente com a cosmovisão maori. Como toda colonização, as consequências nesta grande ilha não foram melhores: em menos de cem anos a população maori foi dizimada de 100.000 para 40.000 habitantes, usurparam suas terras e assolaram com sua cultura e sua língua. Deixando como herança um racismo estrutural causadores das maiores taxas de empobrecimento, de acesso à educação, saúde e outros serviços às populações originárias.

Este imediato passado colonial racista deixou também sua marca no sistema penal. Um dos principais problemas atuais é a super-representação da população maori nas prisões. Se na atualidade as minorias indígenas no país representam 15% do total da população, nos cárceres representam 50% da população masculina e 70% da feminina. Além disso, uma pessoa maori tem muitas mais possibilidades de ir ao cárcere que outra pessoa não racializada, assim como que seja condenada com uma pena maior por infrações similares.

Para denunciar as condições das prisões, e o tratamento das pessoas Transgênero encarceradas, nasceu em 2015 a organização Pessoas Contra as Prisões Aoteaora (People Against Prison Aotearoa, [1] em inglês e PAPA em seu acrônimo). Com o tempo as pessoas integrantes neste coletivo comprovaram que os cárceres não reduzem os delitos, separam as pessoas de suas redes de apoio, as inserem em um entorno de violência, pretendendo que saiam sendo melhores pessoas. Ademais as prisões reproduzem as desigualdades sociais e os desequilíbrios de poder. Também consideram que se as pessoas são tratadas com dignidade e respeito e lhes oferecem os recursos necessários para sobreviver e prosperar, poderíamos viver em uma sociedade menos violenta e mais pacífica. Por isso, se converteram em uma organização abolicionista das prisões que trabalha por um país mais justo, seguro e equitativo.

As pessoas do PAPA buscam uma transformação do sistema de justiça que consideram tem que ir junto a uma transformação dos serviços sanitários e sociais para poder abordar as causas que estão por trás de uma grande parte dos delitos. Por isso demandam uma justiça transformadora, focada nas pessoas, nas famílias, nas comunidades, que se responsabilizem por prevenir e responder aos danos que se produzem. Uma justiça que apoie a cura, a reparação e garanta a não repetição do dano. Uma justiça que se baseie nos valores subjacentes da cultura maori, que supõe: tratar a todas as pessoas com humanidade, dignidade, respeito e compaixão (Mana tangata); construir relações comunitárias (Whanaungatang); ser responsáveis, assumir as ações e prestar contas desde uma ideia de reciprocidade, restauração do equilíbrio e corrigir os danos causados (Haepapa) e exercer cuidado, compaixão e empatia (Aroha).

Para isso estabeleceram uma extensa agenda com demandas a curto, médio e longo prazo na política criminal, sistema de justiça e sistema penitenciário. Os requerimentos incluem entre muitas outras: acabar com a guerra contra as drogas descriminalizando as mesmas, retirar o financiamento das polícias, abolir a prisão perpétua e o confinamento solitário, proporcionar transporte público às prisões, incrementar as visitas, estabelecer soluções comunitárias para o dano e as violências e instaurar a Tikanga Maori (que foram os primeiros sistemas legais e de costumes em Aotearoa e se baseiam em priorizar as relações e a Whanaungatang para resolver os conflitos).

Se as grandes empresas e financeiras que lucram com o colonialismo capitalista geram mais dano que o jovem maori que vende metanfetaminas, por que tememos mais a este último que aos ricos? As pessoas do PAPA o têm claro, a única saída socialmente aceitável e alternativa factível é a abolição das prisões.

[1] https://papa.org.nz/

Fonte: https://www.briega.org/es/opinion/gentes-contra-prisiones-aotearoa

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

de tantos instantes
para mim lembrança
as flores de cerejeira.

Matsuo Bashô