“EZLN: 30 Anos de Luta pela Vida”

No dia 01 de janeiro de 1994, o México entrava para a então Nafta (Área de Livre Comércio da América do Norte). Nessa mesma data, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) decidiu realizar o seu levante, tomando de surpresa as sedes dos poderes de nove cidades da Selva Lacandona, no estado de Chiapas, no sul do México. Formado por maioria indígena, o exército de insurgentes e insurgentas completa, em 2024, 30 anos de uma luta que nunca foi para tomar o poder, mas sim para que os territórios e os povos sejam livres e tenham autonomia para viver.

Para o primeiro encontro deste ano do Grupo de Estudos de Anarquismos, Feminismos e Masculinidades (GEAFM), indicamos a leitura de dois textos. Um é o artigo “O Zapatismo e o Fim da História”, de Alexander Maximilian Hilsenbeck Filho (2004), que explica as razões dessa revolta, como se originou o movimento e qual o seu relevante papel em uma época em que se preconizava o fim das utopias. O outro é parte da série de 20 comunicados que es zapatistas emitiram no final do ano passado, para divulgar uma nova fase em sua luta. Na “Nona parte: A Nova Estrutura da Autonomia Zapatista”, o Subcomandante Insurgente Moisés apresenta a nova reorganização da autonomia zapatista.

Quando? Sábado, 03/02/24 (16h-18h), na sede do CCS.

Para os textos e orientações para a participação acesse: http://tinyurl.com/GE0224

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Apenas
Os bastões dos peregrinos —
Campo de verão.

Ishû

[Chile] “No podrán pararnos”, solidariedade aos presos anarquistas Mónica Caballero e Francisco Solar

Neste sábado, 20 de janeiro, em Santiago, foi realizada a exposição gráfica “No podrán pararnos”, em solidariedade aos presos anarquistas Mónica Caballero e Francisco Solar.

Na atividade, foram exibidos mais de 40 trabalhos enviados de diferentes territórios, com a presença de mais de 80 pessoas.

Também foi lançado um folheto sobre a situação de Francisco e reflexões sobre a sentença a que ele foi condenado recentemente.

O chamado é para manter e intensificar a solidariedade com os presos anarquistas e subversivos, entendendo a todo momento que eles são os companheiros que estão faltando nas ruas.

Solidariedade com aqueles que atacam os poderosos e repressores!

Vamos lutar contra a prisão perpétua encoberta do companheiro Francisco Solar!

Fonte: Buskando La Kalle

Conteúdo relacionado:

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chuva fina
calçada molhada
nem o domingo saiu de casa

Alexandre Brito

Solidariedade e Justiça ao Povo Pataxó Hã-Hã Hãe

25 de janeiro de 2024

Nós, da Federação Anarquista Capixaba, vimos por meio desta expressar nossa mais profunda solidariedade diante das violências e atrocidades que o povo Pataxó Hã-Hã Hãe e suas lideranças têm enfrentado no sul da Bahia. É inadmissível que tais situações de injustiça e violência continuem a ser perpetradas contra uma comunidade originária que tem vivido em harmonia com suas terras por gerações.

Repudiamos veementemente a aplicação da teoria do Marco Temporal, que busca deslegitimar a ocupação ancestral dos povos originários sobre as terras que lhes pertencem. Exigimos de forma categórica que a demarcação de seus territórios seja realizada imediatamente, respeitando a autenticidade e importância da história e cultura de seu povo.

É fundamental frisar que a retomada de seus territórios é um ato de justiça e resistência legítimo, luta pela qual nós seguimos lado a lado, em solidariedade e apoio incondicional.

Enviamos nossos mais profundos votos de força e coragem para que os companheiros Pataxós, verdadeiros donos daquela terra continuem resistindo e lutando por seus direitos e pela justiça que lhes é devida.

Em solidariedade,

FACA

Federação Anarquista Capixaba

federacaocapixaba.noblogs.org

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grama nos trilhos
composições mudas
sem estribilhos

Carlos Seabra

O jovem israelense preso por se negar a lutar na guerra em Gaza: ‘Mais violência e sangue não vão levar a nada’

Israel é hoje um país totalmente focado na guerra contra o Hamas em Gaza.

Os ataques realizados em 7 de outubro de 2023 pelo grupo armado palestino em território israelense geraram raiva e indignação em Israel e levaram o governo a lançar uma operação militar em grande escala na Faixa de Gaza com o objetivo declarado de destruir o Hamas.

Apesar de todo o sangue derramado e dos apelos da comunidade internacional por um cessar-fogo e uma pausa no sofrimento da população de Gaza, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, insiste que a operação ainda durará “muitos meses mais”.

Em Israel, onde o serviço militar é obrigatório e tem grande protagonismo na vida dos cidadãos, os assassinatos e sequestros realizados pelo Hamas provocaram uma onda de patriotismo e de apoio às Forças de Defesa de Israel (FDI), como o exército é conhecido.

Nesse contexto, o jovem de 18 anos Tal Mitnick decidiu ir contra a corrente e tornou-se o primeiro israelense preso por se recusar a participar da guerra.

Quando foi convocado pelo Exército, dirigiu-se ao centro de recrutamento e comunicou sua recusa.

“Tomei a decisão quando percebi que minha consciência não me permitia participar das ações e ideias contra os palestinos”, disse à jornalista da BBC Rebecca Kesby.

“Eu não podia participar da ocupação ou de uma organização que acredita que a violência é a maneira de resolver os problemas”.

Ele foi condenado a passar 30 dias em uma prisão militar, na qual teve que viver como um soldado, exatamente o que não pretende ser.

Ficou confinado, sujeito a uma disciplina militar e teve de passar longos momentos em posição de sentido.

Mas o castigo não o fez mudar de ideia.

Na próxima semana, ele deve se apresentar novamente e diz que se recusará mais uma vez a lutar por considerar a guerra absurda e acreditar que só causa dor desnecessária. Ele argumenta que a história do conflito entre israelenses e palestinos prova isso.

“Toda a violência que vimos nos últimos 70 anos não resolveu nada. Precisamos mudar e a única mudança que vemos é em direção a mais violência. Mais violência e mais sangue não vão consertar nada”.

Os ataques do Hamas fizeram muitos israelenses sentirem que seu país vive sob uma “ameaça existencial”.

A interpretação é de que seguem muito presentes a tentativa de exterminar o povo judeu, representada pelo Holocausto, e as sucessivas guerras entre Israel e seus vizinhos ao longo da história, onde ainda há grupos como o Hamas ou o Irã, que não reconhecem direito de o país existir.

Mitnick esclarece que, apesar de sua postura crítica em relação à guerra, ele rejeita totalmente a violência do Hamas.

“Os ataques foram horríveis e totalmente injustificados. Todos em Israel perderam alguém mais ou menos próximo, mas não podemos permitir que essa dor resulte em um sentimento de vingança. Não podemos permitir que o exército faça o que o Hamas fez com a gente, não podemos deixar mais famílias em dor”, defende.

Entre seus compatriotas, há quem não entenda sua decisão.

“Tem sido difícil porque fui apresentado como um traidor, mas as minhas opiniões são legítimas”, diz ele.

‘Qual é o sentido disso?’

Para ele, a guerra de Gaza não é apenas um trágico uso de violência que já custou milhares de vidas, incluindo as de mais de 500 soldados israelenses, mas também é contraproducente para Israel.

“Quando começarmos a buscar a paz, quando o país realmente começar a ver os palestinos como seres humanos, será quando conseguiremos ter segurança”.

A poucos dias de ter que se apresentar novamente, ele se mostra determinado a não dar o braço para torcer. Ele também não pretende recorrer a manobras administrativas que poderiam livrá-lo de uma mais do que provável segunda condenação, como alegar problemas mentais, porque se recusa a acreditar que suas convicções possam ser consideradas um problema mental.

“Com o tempo, as pessoas verão que a minha decisão é a certa e eu não vou mudá-la. Ninguém deve colocar sua vida em risco,” acredita.

“O governo enviar todas essas pessoas para morrer por nada não vai nos trazer nenhuma segurança, e estamos vendo isso com mais soldados e civis morrendo todos os dias. O Hamas não está enfraquecendo. Qual é o sentido desta guerra para além de vingança?”.

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/articles/crgv54qg8yno

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espiral de sol –
luz nas frestas da
escada em caracol

Carlos Seabra

Paramos! | Retornamos em fevereiro de 2024.

[Chile] Palavras de Francisco Solar da prisão, final de dezembro de 2023

Mesmo diante de uma prisão perpétua disfarçada, a ação sempre compensa.

Era de se esperar outra coisa dos poderes constituídos? Embora a sentença de 86 anos de prisão tenha provocado surpresa e alguma consternação, o Poder agiu de acordo. Puniu as ações enérgicas dirigidas contra seus defensores e representantes, a audácia da rebelião aberta que atingiu seus espaços que julgavam inexpugnáveis, e também a reivindicação descarada e inequívoca desses ataques, demonstrando que percebem o perigo implícito na disseminação de ideias e ações.

O Estado agiu como age, e isso não deveria ser uma surpresa.

Ele procedeu como tem feito historicamente quando foi diretamente atacado, quando sentiu genuinamente a ameaça a suas vidas e quando, além disso, não encontrou submissão ou arrependimento.

Além de procurar me enterrar para sempre neste lugar, essa sentença é claramente um sinal intimidador para todos os espaços e individualidades anarquistas que se posicionam abertamente pelo combate, na medida em que busca pôr fim às práticas ofensivas que se recusam a desaparecer e que demonstraram seu alcance e potencial na revolta de outubro. É, em suma, um golpe para o anarquismo de ação como um todo, refletindo a ameaça que ele representa para o poder, o que, por mais paradoxal que possa parecer, mostra que o caminho insurrecional cumpre parte de seu propósito. O fato de estarmos sendo perseguidos, de terem criado anos atrás uma equipe anti-anarquista especializada, que agora foi replicada para combater o crime organizado, e de recebermos sentenças de 86 anos, são indicadores de que o caminho da ação preocupa e inquieta os poderes constituídos.

A insistência e, às vezes, a intensificação da ação anarquista levou a uma condenação contundente que tem claramente uma pretensão desmobilizadora e um senso de vingança política.

Entretanto, é inegável que ultimamente não houve progresso na ofensiva anárquica, mas sim uma estagnação e até mesmo um declínio no desenvolvimento e na multiplicação de práticas transgressivas. Acredito que isso se deva a vários aspectos, incluindo a variável repressiva, bem como um efeito pós-revolta que, ao que parece, levou à desmobilização em vários ambientes e individualidades. Acredito que uma análise mais aprofundada dessa questão merece uma análise mais detalhada, o que não é o caso aqui.

E se você me perguntar se valeu a pena. Eu respondo não só que valeu, mas que vale e valerá muito a pena. Que tomar a decisão individual de se rebelar, de se vingar e de pôr fim, mesmo que por um instante, à impunidade dos poderosos é um dos momentos mais bonitos que se pode vivenciar. Que associar palavras e ações, indo além de meros slogans esvaziados de conteúdo, fortalece e dá significado a uma posição individual e coletiva de conflito. Que levar as ideias para o campo do possível é sempre necessário e indispensável quando se decide livremente confrontar o poder, mesmo que isso custe décadas de prisão e até mesmo a própria vida. A ação sempre vale a pena.

Essa sentença de prisão perpétua oculta, que é uma das mais altas sentenças internacionais contra um anarquista, tem obviamente a intenção de pacificar, mas cabe a nós decidir se esse sinal atinge seu objetivo. Está em nossa vontade e decisão tornar essas sentenças completamente sem sentido e até mesmo mais um motivo para atacar, como o “Grupo de Ação 6 de Julho – Nova Subversão” expôs corretamente após o recente ataque com explosivos contra uma agência bancária.

Aqui dentro, entendendo, como já apontei há alguns anos, que os anarquistas presos são companheiros ativos que estão temporariamente encarcerados, em oposição e evitando a limitação da figura do “preso”, é que pretendo continuar contribuindo com as diferentes iniciativas da luta anarquista. Insistindo na luta permanente pela anulação das sentenças da justiça militar e com a campanha pela libertação do companheiro Marcelo Villarroel, pela liberdade dos presos anarquistas e subversivos e pela destruição da sociedade carcerária.

Presxs anarquistas e subversivxs às ruas!

Que se explodam as prisões!

Viva a anarquia!

Francisco Solar Dominguez

Prisão La Gonzalina – Rancagua.

Dezembro de 2023

Fonte: Buskando La Kalle

Tradução > Liberto

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Cúmulos-nimbos
Atravessando os céus
Sobre o rio sem água.

Shiki

[Israel] “Eu me recuso a participar de uma guerra de vingança”: carta de um objetor de consciência israelense

Tal Mitnick, de 18 anos, recusou-se a se alistar no exército israelense. A seguir, sua carta pública.

“Esta terra tem um problema: duas nações criaram um vínculo inegável. Mesmo com toda a violência do mundo, não poderíamos apagar o povo palestino ou seu vínculo com essa terra, assim como o povo judeu ou nosso vínculo com essa mesma terra não podem ser apagados. O problema aqui é uma forma de supremacia, a crença de que essa terra pertence a apenas um povo. A violência não pode resolver esse problema, seja por parte do Hamas ou por parte de Israel. Não há solução militar para um problema político. É por isso que me recuso a me alistar em um exército que acredita que o problema real pode ser ignorado, sob o pretexto de uma guerra civil, com um governo que apenas perpetua o luto e a dor.

No dia 7 de outubro, a sociedade israelense passou por um trauma sem precedentes na história do país. No decorrer de uma terrível invasão, a organização terrorista Hamas assassinou centenas de civis inocentes e sequestrou outras centenas. Famílias foram assassinadas em suas casas, jovens foram massacrados em uma rave e 240 pessoas foram sequestradas na Faixa de Gaza. Após o ataque terrorista, iniciou-se uma campanha de vingança não apenas contra o Hamas, mas contra todo o povo palestino: bombardeios indiscriminados de bairros residenciais e campos de refugiados em Gaza, total apoio militar e político à violência dos colonos na Cisjordânia e perseguição política em uma escala sem precedentes dentro de Israel. A realidade em que vivemos é violenta. De acordo com o Hamas, mas também de acordo com as FDI [Forças de Defesa de Israel] e a classe política, a violência é a única solução. Seguir a lógica do “olho por olho, dente por dente”, sem pensar em uma solução real que traga segurança e liberdade a todos nós, só leva a mais mortes e sofrimento.

A violência não nos protege

Recuso-me a acreditar que mais violência nos garantirá mais segurança, recuso-me a participar de uma guerra de vingança. Cresci em um lar onde a vida é sagrada, onde o diálogo é valorizado, onde a comunicação e o entendimento sempre vêm antes da violência. No mundo corrupto em que vivemos, a violência e a guerra são uma forma indireta de aumentar o apoio ao governo e silenciar os críticos. Devemos reconhecer que, após semanas de operações terrestres em Gaza, no final foram as negociações e um acordo que permitiram o retorno dos reféns. Que foi a ação militar que causou a morte de outras pessoas. Por causa da mentira criminosa de que “não há civis inocentes em Gaza”, até mesmo os reféns que agitavam uma bandeira branca e gritavam em hebraico foram mortos a tiros. Não consigo imaginar quantas situações semelhantes não foram investigadas porque as vítimas nasceram no lado errado da cerca.

As pessoas que disseram ‘nenhuma negociação com o Hamas’ estavam simplesmente erradas. Ponto final. A diplomacia e uma mudança de política são as únicas maneiras de evitar mais destruição e morte em ambos os lados.

A violência à qual o exército recorre, inclusive nos últimos anos, não nos protege. O ciclo de violência é de fato um ciclo: a violência do exército, como a de qualquer exército, sempre traz mais derramamento de sangue. Na prática, ele nada mais é do que um exército de ocupação que busca se manter como tal. A verdade é que ele abandonou o povo do Sul e o país como um todo. É importante fazer a distinção entre as pessoas comuns e os generais ou egoístas que estão no topo desse sistema: nenhum de nós, pessoas comuns, decidiu financiar o Hamas, nenhum de nós decidiu perpetuar a ocupação e nenhum de nós decidiu deslocar tropas para a Cisjordânia alguns dias antes da invasão, porque os colonos decidiram construir uma sukkah [local de culto judaico construído temporariamente para o feriado de Sucot] em Huwara. E agora, depois de uma política de longa duração destinada a implodir, somos nós que estamos sendo enviados para matar e ser mortos em Gaza. Não estamos sendo enviados para lutar pela paz, mas em nome da vingança. Eu havia decidido me recusar a me alistar antes da guerra, mas agora que ela começou, estou ainda mais convencido de minha decisão.

A mudança virá de nós

Antes da guerra, o exército protegia os assentamentos, mantinha o cerco assassino à Faixa de Gaza e preservava o status quo do apartheid e da supremacia judaica sobre a terra entre o rio Jordão e o mar. Desde o início da guerra, não vimos nenhum apelo por uma mudança genuína de política na Cisjordânia e em Gaza, pelo fim da opressão generalizada do povo palestino e do derramamento de sangue, ou por uma paz justa. Pelo contrário, estamos testemunhando o aumento da opressão, a disseminação do ódio e a expansão da perseguição política fascista em Israel.

A mudança não virá dos políticos corruptos daqui, nem dos líderes do Hamas, que também são corruptos. Ela virá de nós, o povo de ambas as nações. Acredito de todo o coração que o povo palestino não é um povo mau. Assim como aqui, onde a grande maioria dos israelenses quer viver uma vida boa e segura, ter um lugar onde seus filhos possam brincar depois da escola e pagar as contas no final do mês. O mesmo acontece com os palestinos. Na véspera de 7 de outubro, o apoio ao Hamas na Faixa de Gaza estava em uma baixa histórica de 26%. Desde o início da violência, esse número aumentou consideravelmente. Para que as coisas mudem, precisamos criar uma alternativa – ao Hamas e à sociedade militarista em que vivemos.

Essa mudança ocorrerá quando reconhecermos o sofrimento suportado pelo povo palestino nos últimos anos e o fato de que ele é resultado da política israelense. Esse reconhecimento deve ser acompanhado de justiça e da construção de uma infraestrutura política baseada na paz, na liberdade e na igualdade. Não quero participar da continuação dessa opressão e do derramamento de sangue. Quero trabalhar diretamente para encontrar uma solução, e é por isso que me recuso a entrar para o exército israelense. Amo este país e seu povo, pois é de onde venho. Eu me sacrifico e trabalho para que este país seja um país que respeite os outros, um país onde possamos viver com dignidade.

Tal Mitnick, 26 de dezembro de 2023.”

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O rio de verão —
Que alegria atravessá-lo
De sandálias à mão.

Buson

[Espanha] Natureza, história e crítica. Se constitui o Grupo Anarquista de Montaña de Albacete.

Frente ao embrutecido e monetizado lazer e esportes capitalistas, a sensibilidade libertária de Albacete se organiza para oferecer alternativas:

Na quarta-feira passada, dia 1º de novembro um grupo de militantes anarquistas e anarcossindicalistas se reuniram em assembleia com o objetivo de constituir o Grupo Anarquista de Montaña de Albacete, assim como para fazer os primeiros acordos de seu funcionamento.

À assembleia foi um nutrido grupo de companheiros e companheiras com este objetivo, na qual, em primeiro lugar, se apresentou a palestra que se havia proposto e que foi apresentada por um companheiro. Uma vez apresentada, se produziu um debate na assembleia sobre a orientação e caráter que se devia conferir ao grupo, não houve nenhum tipo de desacordo e se acordou a constituição do grupo.

O debate aconteceu com as características que se deviam conferir e suas finalidades com arranjo a nossos princípios claramente anarquistas e anarcossindicalistas. Apesar das diferentes opiniões era claro que existia um acordo geral e um sentimento coletivo de trabalhar neste terreno.

Com isto, o Grupo Anarquista de Montaña de Albacete, como assim se chamou, se propõe a ser um espaço para que desde o movimento anarquista possamos realizar atividades relacionadas com a natureza: caminhadas, excursionismo, montanhismo, e diversas disciplinas desportivas.

Nos voltamos e nos aderimos à tradição anarquista dos geógrafos exploradores da dimensão de Elisee Reclus e Piotr Kropotkin, e aos médicos anarquistas como Isaac Puente.

A necessidade de integrar a natureza em nossas vidas, distanciada e destruída pela sociedade capitalista, tem o objetivo de ajudar-nos a ser mais conscientes do mundo que nos rodeia, com a finalidade de transformá-lo.

Nosso grupo não somente quer impulsionar uma forte atividade na natureza com Rotas, mas que também quer opor-se ao desporte de competição, à enfermidade obsessiva do mundo capitalista pelo corpo, ao egoísmo, a obsessão, o culto à personalidade, a competitividade, a profissionalização, a elitização do esporte, a institucionalização, a rentabilidade, o patrocínio e, no fim das contas, ao capitalismo.

O ser humano deve cultivar tanto sua mente como seu corpo, por isso, nosso grupo não somente defende a volta à natureza, mas que defende a ideia de que essa volta se faça conscientemente.

Outra das finalidades do grupo é a de distanciar a classe obreira de todas aquelas formas de lazer nocivo que sempre difundiu o capitalismo: consumismo, drogas, prostituição, tauromaquia, consumo tecnológico, turismo depredador, publicidade, casas de apostas, futebol-negócio, etc. Entendemos que o movimento anarquista deve criar uma forma de relação social fundada sobre a base do respeito, da cultura e da ética do apoio mútuo e da solidariedade, assim como do crescimento moral e intelectual, e não sobre a base da miséria, da depravação e do empobrecimento moral e intelectual.

O Grupo Anarquista de Montaña de Albacete busca também, aproximar a montanha da classe obreira, cada dia mais distanciada de nossa cotidianidade, convertida em um objeto de consumo, em um luxo capitalista para uns poucos, sob a forma de um produto turístico. Sobretudo, aproximar a natureza de nosso entorno a nosso conhecimento.

As Rotas que se organizarão serão rotas naturalistas e históricas, dirigidas a conhecer melhor nosso entorno, capacitar-nos e a sermos mais conscientes do mundo que nos rodeia desde as ideias anarquistas.

Por isso, desde o Grupo Anarquista de Montaña de Albacete, os animamos a que se ponham em contato com nosso grupo e a participar das atividades que organizemos de agora em diante.

Saúde e Montanha!

grupoanarquistademontanaab.wordpress.com

Tradução > Sol de Abril

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Eu acordo
contando as sílabas;
o haikai ri

Manuela Miga

[Espanha] Sobre a suposta bondade natural do ser humano no anarquismo

Se entende que qualquer postura política ou social tem certas concepções antropológicas. Qual é o anarquismo? O que é realmente desafiador a esse respeito?

Por Silvia K. Döllerer | Graduada em Filosofia e Periodismo. Mestre em Crítica e Argumentação Filosófica. | 18/10/2023

Antes de tudo, seria útil estabelecer o que chamamos de “natureza humana”. Em geral, é a atribuição de um componente comum a toda a espécie humana, uma característica essencial que torna o homem (e a mulher) “humano” como tal. É verdade que a própria existência de uma natureza compartilhada gera muito debate e que não há uma opinião unânime de que esse seja o caso ou, se for o caso, qual seria esse substrato comum a todos os seres humanos, independentemente de sua origem histórica. No entanto, como este artigo parte de uma suposição falaciosa sobre essa questão, que geralmente está associada ao pensamento acrítico, as várias opiniões sobre a verificabilidade ou a realidade da suposta existência de uma “natureza humana” são de pouca relevância aqui.

Muitos dos argumentos que são apresentados como críticas ao anarquismo baseiam-se na falsa crença de que os libertários concebem os seres humanos como “naturalmente bons”, que essa seria a única razão ou incentivo para que uma sociedade sem estado e hierarquia fosse possível ou mesmo desejável. Entretanto, esse não é o caso.

Os anarquistas não acreditam que a bondade seja parte de nossa essência; não existe essa visão particularmente otimista. É claro que pode haver indivíduos libertários e até mesmo coletivos que acreditam, mas eles estão longe de ser a maioria, nem sua posição pode ser usada para fazer um julgamento do anarquismo como um todo. Como já mencionado, e como Gabriel Kuhn coloca (Revolução é mais que uma palavra: 23 Teses sobre o Anarquismo), uma das “principais críticas ao anarquismo vindas de ideologias marxistas (social-democratas ou leninistas) [é que] o anarquismo é ingênuo, pois tem uma visão idealizada da natureza humana e das relações sociais”; no entanto, ele também acrescenta que “a visão anarquista da natureza humana é, na verdade, muito mais sutil do que a das outras correntes da esquerda (por exemplo, em relação à psicologia do poder)”.

Sem falsear Kropotkin

Alguns dos teóricos que sustentam essa crítica procuram baseá-la em um dos mais renomados de todos os autores anarquistas: Piotr Kropotkin, principalmente por sua obra Apoio Mútuo. Nessa obra, o teórico russo pretende principalmente demonstrar, graças ao seu interesse científico no comportamento de diferentes espécies de animais não humanos, que há uma importante nuance na famosa tese darwinista. Quando se exclama vigorosamente que a evolução ocorre por “seleção natural”, com a “sobrevivência do mais apto/idôneo”, suas conclusões às vezes são mal interpretadas.

O fato de uma determinada característica ser uma “vantagem adaptativa”, tornando um determinado indivíduo mais apto à sobrevivência, obviamente difere de habitat para habitat, mas tem mais a ver com a adaptabilidade a circunstâncias que podem parecer adversas. É nesse ponto que Kropotkin entra com suas várias observações, investigações e estudos do mundo animal, não poupando exemplos: pinguins, besouros enterrados ou aves migratórias. Mencionando o biólogo K. F. Kessler (uma citação que também aparece com destaque na obra do anarquista russo):

Certamente não nego a luta pela existência, mas sustento que o desenvolvimento progressivo, tanto de todo o reino animal quanto, especialmente, da humanidade, não é tanto uma questão de luta mútua quanto de ajuda mútua. Duas necessidades essenciais são inerentes a todos os corpos orgânicos: a necessidade de alimento e a necessidade de multiplicação. A necessidade de alimentação os leva a lutar pela subsistência e ao extermínio mútuo, e a necessidade de multiplicação os leva a se aproximar da ajuda mútua. Mas no desenvolvimento do mundo orgânico, na transformação de algumas formas em outras, a ajuda mútua entre indivíduos da mesma espécie talvez seja mais influente do que a luta entre eles.

É isso que Kropotkin argumenta em toda a sua obra: que o apoio mútuo ocorre em muitas espécies do reino animal e que é, em um grande número de situações, muito mais eficaz para a evolução e a sobrevivência do que a superioridade adaptativa de um indivíduo. Isso mostra que a solidariedade é uma possibilidade real (não uma qualidade inata), não um sonho utópico.

Causas antes dos efeitos

Por outro lado, ao apontar a ingenuidade dos libertários que negam a necessidade das prisões e da repressão governamental, não há fontes anarquistas suficientes para fundamentar a alegação de que o protesto decorre de uma boa concepção do ser humano. Ou seja, quase nenhum teórico anarquista justifica a abolição da prisão com base em uma bondade inata do ser humano.

Para citar outro autor: Emma Goldman, muito crítica do sistema penitenciário e dos mecanismos que o mantêm, estuda as causas da criminalidade; ela enfocou principalmente a moralidade de sua época como um importante fator condicionante ou mesmo desencadeador de atitudes criminosas, aspecto que também não poderíamos descartar hoje. Ela não argumenta que em uma sociedade anarquista não haveria disputas de nenhum tipo, nem que todas as pessoas se tornariam seres de luz em uma sociedade governada pelo apoio mútuo, mas, como muitos de seus colegas, ela mostra que a grande quantidade de crimes é causada por condições sociais que o anarquismo quer combater em suas raízes. Proudhon já comentou sobre isso com seu “a propriedade é roubo”, mas a crítica se estende a muitas outras áreas.

Grande parte dos comportamentos que consideramos prejudiciais para uma convivência mais harmoniosa são atitudes decorrentes de determinadas culturas, tradições ou sistemas de valores (como a santidade da propriedade privada, exacerbada pelo capitalismo): inveja, ganância, meritocracia e sua consequente competitividade etc. Isso aponta para a grande influência do contexto no comportamento humano; longe de argumentar que isso se deve a uma única causa, mostra uma forte relação entre os valores sociais e a maioria dos crimes atualmente puníveis. Dessa forma, a ênfase está no domínio do normativo, não do natural; de como é a esfera social que abriga os valores, um espaço que é puramente contingente e está em constante mudança.

Mais uma potencialidade

Como uma das bandeiras mais importantes do anarquismo é a possibilidade de mudança, de desenvolvimento, não se trata tanto de o ser humano ter componentes concretos que se manifestam continuamente no sujeito, mas sim de poder tê-los em potencial. Nessa linha, Tomás Ibáñez, em seu livro Agitando los anarquismos. De Mayo del 68 a las revueltas del siglo XXI, dedica um capítulo a essa questão, cujo título já é uma frase clara: “A natureza humana: um conceito excedente no anarquismo”. Nesse texto, ele enfatiza que

É totalmente falso, assim que nos damos ao trabalho de examinar o discurso anarquista […], que ele seja caracterizado por uma concepção da natureza humana próxima à de Rousseau. Em geral, as figuras clássicas do anarquismo estão mais inclinadas a enfatizar a plasticidade do ser humano, enfatizando que ele é composto de traços positivos e negativos. De fato, eles consideram que essas características estão frequentemente em conflito e, portanto, devemos estar sempre alertas e reconstruir constantemente as condições de liberdade para que uma vida coletiva sem coerção seja possível.

Em outras palavras, é uma questão de construir uma situação em que a anarquia seja possível; ênfase em “construir”, pois não é um dado adquirido. Para que isso seja viável, tudo o que é necessário é que os seres humanos tenham o potencial para os valores de apoio mútuo desejados e as circunstâncias históricas que possibilitem o desenvolvimento desse potencial, o que acredito ter sido comprovado ao longo da história ou das diferentes experiências que cada um de nós possa ter tido.

A única natureza humana no anarquismo

Apesar de tudo o que foi dito, se o pensamento libertário fosse necessariamente (o que eu não acho que seja o caso) postular e se posicionar em uma natureza humana específica, ela seria a mutabilidade. O atributo da mudança é o que necessariamente torna possível a liberdade, que não é inatamente predefinida e, portanto, não é guiada para o “bem” e para longe do “mal”, uma liberdade sem adjetivos. A possibilidade de o indivíduo escolher o que quer fazer, quer isso contribua para uma melhor convivência ou envolva um conflito: é isso que está sendo defendido. É isso que está sendo buscado, ou o que estamos tentando reconquistar.

Se, por outro lado, não pudéssemos ser maleáveis, cairíamos no mais profundo determinismo, negando assim não apenas a possibilidade de anarquia, mas de qualquer outro sistema de organização e valores que não os atuais. Uma questão que, por outro lado, o desenvolvimento histórico já refuta pela existência de diferentes épocas com suas diferentes formas sociais. No entanto, quase a própria questão de uma natureza humana já traz consigo uma certa determinação em relação ao ser humano: algo que é e não pode mudar, que o acompanha (ou guarda) do nascimento à morte. É por isso que a proposta é, em si mesma, um paradoxo: se o atributo compartilhado por todos os seres humanos é o fato de mudarmos e não sermos determinados, então ele não pode, em si mesmo, ser considerado um atributo comum, já que o que é comum é o fato de não haver nada comum.

Embora este artigo tenha tido a intenção de dar algumas pinceladas no principal argumento contra o anarquismo, que forma uma espécie de falácia do “homem de palha” ou petição de princípio, uma vez que a premissa utilizada não é a correta, não se pretende, de fato, postular outra premissa naturalista em seu lugar, mas derrubá-la. E aqui uma conclusão, reflexão e/ou advertência: é preciso evitar que a natureza do ser humano se torne uma questão central nos debates sobre a viabilidade do anarquismo porque, além de ser um impasse, seria “entrar exatamente no jogo daqueles que negam a possibilidade da anarquia alegando sua incompatibilidade com a natureza humana e cair na armadilha de usar a mesma lógica argumentativa que inspira seu discurso” (Ibáñez, op. cit.).

Fonte: https://www.elsaltodiario.com/el-rumor-de-las-multitudes/bondad-natural-del-ser-humano-anarquismo-kropotkin

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Um aguaceiro —
Os pardais da aldeia
Se agarram ao capim.

Buson

 

[Alemanha] Feira do Livro Anarquista Berlim-Kreuzberg 2024

É com grande prazer que anunciamos que uma feira de livros anarquistas será realizada de 5 de setembro a 8 de setembro de 2024 no NewYorck em Bethanien 2 B, 10997 Berlin-Kreuzberg 36. Até onde sabemos, a última vez que algo assim foi realizado em Berlim foi em 2016, quando ocorreu o Tage der anarchistischen Ideen und Publikationen (Jornadas das ideias e publicações anarquistas). Não apenas muitos anos se passaram desde então, mas também é importante organizar novamente um evento regular em Berlim para divulgar ideias anarquistas e revolucionárias. Portanto, a feira do livro não deve ser vista como algo efêmero, mas como um evento contínuo que deve ocorrer todos os anos. Desde o início da década de 2010, as feiras de livros anarquistas em toda a Europa, desde a Península Ibérica até os Bálcãs, contribuíram para um renascimento mais do que bem-vindo das ideias e práticas anarquistas. O resultado não foi apenas a conexão e a referência entre companheiros de todo o planeta, mas também a internacionalização dos debates. E é isso também que queremos alcançar com esta feira de livros.

Há muitas razões para organizar feiras de livros anarquistas em Berlim e em outros lugares para dar mais espaço aos livros anarquistas, ou seja, às ideias anarquistas, mas será que é exatamente isso que queremos? Será que é suficiente montarmos algumas mesas de livros, fazer algumas leituras de livros, sair um pouco? Não, não é suficiente, porque o que queremos, acima de tudo, é intensificar os debates que devem levar à prática. Os livros e todos os produtos escritos são, portanto, veículos importantes que podem conectar todos nós, mas os livros em si não são nada, é o conteúdo que eles carregam que é útil, é a prática que forma um movimento real. O conteúdo é todo tipo de temas e questões, mas eles precisam ser debatidos. O objetivo desse debate, dessas discussões que temos de fazer aqui e em todo o mundo, tem apenas um objetivo: acabar com o mundo do capitalismo, fazê-lo explodir. Isso é feito por meio da prática da insurreição, da guerra de classes, da guerra social, levando a uma revolução social mundial. Em outras palavras, o intenso debate entre os anarquistas e todos os revolucionários que colocará um fim imediato ao estado-nação, ao capital e ao patriarcado.

Além da necessidade de intensificar debates específicos, também nos concentraremos em alguns temas para a feira do livro.

– A posição sobre a guerra (na Ucrânia e em outros lugares).

– O debate sobre nacionalismo-nação-povo-estado, que não pode ser separado um do outro.

– A disseminação de ideias anarquistas e revolucionárias por meio de livros, propaganda, prática, etc.

Seria de se esperar que o movimento anarquista já tivesse chegado a uma resposta/posição coerente em muitas questões, mas, como diz o ditado entre alguns anarquistas, não há nada mais radical do que a realidade, e isso foi expresso novamente. Um ditado muito mal compreendido, porque os supostos anarquistas ainda estão do lado do Estado-nação, como alguns estão, que eles supostamente pretendem combater. Do que estamos falando agora? Estamos falando da Catalunha, do Curdistão, dos mapuches, da Palestina, da Ucrânia ou de tantos outros exemplos do passado e do presente? Estamos falando de participar de eleições, apoiar partidos, proteger a democracia (ou seja, o Estado capitalista), legitimar o monopólio da violência ou tudo isso ao mesmo tempo? Também poderíamos ver isso em relação à Covid-19, não apenas com que “impotência” um movimento anarquista é capaz de cair, mas com que ímpeto ele é capaz de legitimar o Estado. Mas o que tudo isso pode ter a ver com o anarquismo, ou com um movimento anarquista? Muito simplesmente, nada.

Mas onde queremos chegar com tudo isso, o que isso tem a ver com o slogan mencionado acima e o que isso tem a ver com essa feira de livros anarquistas? Muito simplesmente, a realidade sempre alcança aqueles que não percebem o que estão fazendo, levando-os a defender posições que não são realmente suas. Vemos isso melhor nos exemplos mencionados acima. A realidade alcança todos aqueles que se julgam incrivelmente radicais quando construíram suas posições apenas sobre idealismo e areia, e o resultado são posições e atitudes que servem apenas ao reformismo e à contrarrevolução.

Isso nos leva à necessidade de debates que devem levar à prática a fim de resolver a confusão do momento atual.

Portanto, o foco da feira do livro também deve ser sobre as questões da guerra em geral e guerras específicas, presentes e históricas, e tudo o que é inerente ao estado-nação capitalista, por que nossa relação com ele é apenas a de uma inimizade irreconciliável. Portanto, não apenas a agitação e a propaganda, mas também as posições substantivas são de imensa importância e necessidade. O que significa para o movimento anarquista, ou o que diz sobre ele, o fato de pessoas que se dizem anarquistas participarem de guerras interburguesas entre as várias facções do capitalismo? Isso ainda é anarquismo ou revolucionário? E que opções temos para permanecermos capazes de ação revolucionária nas guerras? E certamente milhares de outras perguntas que desempenharam e continuam a desempenhar um papel nesse contexto.

Portanto, para discutir essas questões e muitas outras, convidamos todos aqueles que sentem a necessidade de abordar essas questões para a Feira do Livro Anarquista, de 5 a 8 de setembro de 2024, em Berlim-Kreuzberg.

O caráter da feira do livro também deve ser internacional e internacionalista e a chamada para trabalhos deve ser publicada no maior número possível de idiomas, porque a conexão entre anarquistas e todos os revolucionários deve ser fortalecida.

Se quiser organizar um estande ou iniciar um debate, entre em contato aqui: abmb@riseup.net, mais informações em anarchistischebuechermesse.noblogs.org.

Agitação, insurreição, anarquia!

Fonte: https://anarchistischebuechermesse.noblogs.org/?page_id=141

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

sol na janela
dorme gato no sofá
cor de flanela

Carlos Seabra

[Espanha] Isabel Mesa Delgado, uma mulher livre apesar de tudo

O anarquismo é um caminho bonito, mas muito acidentado. Mas há que segui-lo e uma vez que estás nele não podes sair, te envolve, te embriaga. O anarquismo é amor, liberdade, igualdade, humanidade em todas as condições.”

Por Angelo Nero

Foi um 30 de dezembro de 1913, faz agora oito anos de seu centenário, que nasceu na localidade andaluza de Ronda, Isabel Mesa Delgado, que também foi conhecida como Carmen Delgado Palomares, o nome que utilizou na clandestinidade esta revolucionária anarquista e resistente antifascista. Nasceu no seio de uma família obreira com uma forte tradição anarquista, como ela mesma se orgulhava ao dizer: “sou filha, neta e bisneta de anarquistas”. Seu tio-avô foi José Mesa Leompart, que participou na Comuna de Paris e foi um dos pioneiros da introdução do marxismo na Espanha.

Aos onze anos já trabalhava como costureira, e aos quatorze, quando sua família se transladou à localidade africana de Ceuta, se filiou ao Sindicato de Atividades Diversas da CNT, participando também no Ateneu Libertário da cidade, como contava a mesma Isabel: “onde se ensinava a ler e a escrever aos obreiros; também música, pintura, esperanto, naturismo, se faziam assembleias, se falava da Revolução e das ideias. Era uma juventude bonita de verdade. O primeiro que fizemos no sindicato foi uma biblioteca, os carpinteiros fizeram uma vitrine e cada pessoa levou os livros que pode. Em minha casa havia bastante livros, que levamos também. Então começamos a escrever pedindo mais livros. Se os que recebíamos estavam repetidos os distribuíamos. Fizemos ali uma biblioteca, legal de verdade! Punhamos bancos de madeira porque não tínhamos cadeiras.” Com só quinze anos se converteu na bibliotecária do Ateneu Libertário.

A jovem Isabel logo se destacou na atividade sindical, participando na criação do Grêmio da Aguja, e na organização das mulheres trabalhadoras, confirmando-se como uma autêntica líder anarcossindicalista antes dos vinte anos. Durante uma greve na pesca da almadraba, na qual a empresa utilizou a tática de contratar mulheres magrebis pela metade do salário que pagava às espanholas, para boicotar o protesto, conseguiu que se unissem também estas, em menos de vinte e quatro horas, conseguindo melhores condições laborais para todas.

Em 1934, após a morte de seu pai, Isabel Mesa se transladou a Tetuán, que então fazia parte do Protetorado espanhol, unindo-se à Juventude Libertária, que operava sob o guarda-chuva de uma sociedade esperantista. Mas foi expulsa por suas atividades anarquistas e regressou a Ceuta, onde contatou com o germe da revista Mujeres Libres, que fundaram Amparo Poch, Lucía Sánchez Saornil, e Mercedes Comaposada, e onde também escreveram Federica Montseny e Emma Goldman. Isabel também plasmou sobre o papel muitas de suas ideias sobre o feminismo, o sindicalismo e o anarquismo:

“O anarquismo é um caminho bonito, mas muito acidentado. Mas há que segui-lo e uma vez que estás nele não podes sair, te envolve, te embriaga. O anarquismo é amor, liberdade, igualdade, humanidade em todas as condições. Nem fronteiras, nem cor, nem raça, nem bandeiras…! No anarquismo só há humanidade, sentimento humano, esperança para todos, o máximo que se pode conseguir…”

Ao triunfo da sublevação militar fascista em Ceuta, em 16 de julho de 1936, se seguiu uma cruel repressão de todos os republicanos, com detenções, torturas e fuzilamentos, e Isabel colaborou com a rede solidária que ajudou a muitos companheiros a fugir para a península, utilizando barcos de pesca, até que ela mesma, ante a grave ameaça para sua vida que era permanecer ali, embarcou em um deles, com doze camaradas, com destino a Marbella. Quando esta cidade caiu nas mãos dos franquistas, em 1937, se mudou a Valência, onde realizou um curso de enfermaria, para trabalhar como enfermeira em Valência, primeiro, e depois em Gandia.

Participou também no congresso constituinte da Federação Nacional de Mujeres Libres, da qual chegou a ser secretária geral da agrupação valenciana, compartilhando militância com Lucía Sánchez Saornil, Pura Pérez Benavente e Amelia Torres Maeso. Representando Mujeres Libres esteve no Comitê Nacional da CNT e no pleno da Solidariedade Internacional Antifascista que se celebrou em 1938 em Valência.

Com a queda da República, fugiu a Alicante, o último refúgio republicano, mas não pode embarcar nos últimos navios que iam com destino à Argélia, e foi caminhando até Almería. Desde ali se foi à Málaga, onde começou a trabalhar na edição clandestina do Faro de Málaga, em 1941. Mas a rede de propaganda foi descoberta pela polícia franquista, e Isabel Mesa, ainda que escapou da detenção, foi julgada em rebeldia e condenada à morte.

Passou à clandestinidade e mudou seu nome para Carmen Delgado Palomares, continuando suas atividades antifascistas, e em 1942, em Valência, fundou, com outras companheiras, a União de Mulheres Democráticas, com o objetivo principal de ajudar os presos republicanos e suas famílias. Junto a sua companheira anarquista Angustias Lara Sánchez, montou um quiosque de jornais, desde onde, em segredo, distribuíam imprensa anarquista. Em 1956 foi detida durante oito dias, e torturada na delegacia de Samaniego, em Valência, mas isto não impediu que seguisse dedicando-se à propaganda anarquista.

Com o desaparecimento do ditador, colaborou na criação de vários grupos libertários na cidade de Valência, como Libre Estudio, a Federação de Aposentados da CNR, Radio Klara e o Libertario Ateneo Al Margen, além de militar em Dones Lliures e de fazer parte da Fundação Salvador Segui.

Seu ciclo vital se completou em 25 de fevereiro de 2002, e em seu funeral, tal como havia pedido expressamente, seu corpo foi envolto na bandeira vermelha e negra do anarquismo e se cantou “A las barricadas”, o hino anarcossindicalista: “Negras tormentas agitan los aires / Nubes oscuras nos impiden ver / Aunque nos espere el dolor y la muerte / Contra el enemigo nos llama el deber.” Isabel Mesa dedicou toda sua vida a esse dever de lutar contra o fascismo, ainda quando as nuvens mais escuras pressagiavam o futuro mais negro. É agora nossa obrigação reivindicar sua memória.

Fonte: https://nuevarevolucion.es/isabel-mesa-delgado-una-mujer-libre-pese-a-todo/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

fera ferida
nunca desiste –
luta pela vida

Carlos Seabra

 

[Espanha] Lançamento: “Crecer libres. Anarquismo y educación”

“Crecer libres. Anarquismo y educación” é o décimo sétimo título da coleção central de La Neurosis o Las Barricadas Ediciones. A inimizade ancestral entre as ideias anarquistas e as instituições acadêmicas explica por que Ferrer y Guardia é, provavelmente, a única figura libertária que podemos encontrar, ainda que seja de forma quase marginal, nos estudos universitários que se aproximam da história da educação. Para amenizar esse interessado esquecimento, nos propusemos a recuperar algumas figuras de grande valor para a história da pedagogia em geral, e da educação libertária, em particular. Mikail Bakunin, Jean-Marie Guyau, Paul Robin, Jean Grave, Élisée Reclus, Sébastien Faure, o mencionado Francisco Ferrer y Guardia, Ricardo Mella, Antonia Maymón, Herminia Brumana e Josefa Martín Luengo formam a lista de pensadores escolhidos para esta recompilação. Que não tenhamos introduzido nenhum texto de Lev Tolstoy, Félix Carrasquer ou Joan Puig Elías (entre os muitos interessantes nomes que nos vimos obrigadas a deixar de lado) é, simplesmente, por uma questão de espaço. Confiamos em que as e os leitores completem a leitura com outras muitas colaborações que ajudem a explorar esta rica tradição pedagógica:

Faz doze anos saiu às ruas “La (A) en la pizarra”. Escritos anarquistas sobre educação. Aquela recompilação, que foi publicada por La Malatesta Ed., é o ponto de partida deste trabalho. Dela toma alguns dos textos, mas sobretudo toma o espirito. E é que “Crecer libres. Anarquismo y educación” compartilha com aquele um objetivo simples: aproximar a todas as pessoas interessadas em educação algumas reflexões que nos ajudem a compreender o verdadeiro valor da pedagogia libertária. Percorreremos a linha temporal que vai desde Mikail Bakunin a Josefa Martín Luengo para conhecer, de forma profunda, mas simples, o pensamento de algumas interessantes personalidades que, independentemente de que tenham passado 20 anos ou 100, mostram hoje mais que nunca uma lucidez extraordinária na reflexão sobre o fato educativo. Apesar das mudanças profundas que viveram nos últimos cem anos as sociedades ocidentais, encontramos que a escola apenas mudou. Ali seguem definhando a criatividade e a alegria. Partindo da premissa de que as instituições educativas são uma ferramenta para disciplinar a infância e a juventude, encontrarás em “Crecer libres. Anarquismo y educación”, não só uma série de análises teóricas, mas todo um conjunto de propostas e reflexões baseadas nas muitas experiências educativas que tomaram (La Ruche, Cempuis) e tomam forma (Paideia) para demonstrar a viabilidade e necessidade de levantar uns novos cimentos sobre os quais construir uma cultura da educação radicalmente humanista.

Crecer libres. Anarquismo y educación

Autor / es: Alfredo Olmeda (Coord.)

Editora: La Neurosis o Las Barricadas Ed.

Páginas: 294

Tamanho do livro: 18*14 cm.

laneurosis.net

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

No espelho d’água
oculta sua face, tímida,
a lua nublada.

Douglas Eden Brotto

[Argentina] Milei não é um libertário, ele é um fascista.

O Estado usa várias formas para defender os privilégios das elites que, ansiosas por aumentar seus lucros no curto prazo, entendem que a forma democrática é um aparato burocrático lento demais para seus propósitos. É por isso que as elites escolheram o ultradireitista Javier Milei como autocrata, ou seja, o poder do Estado concentrado em uma única pessoa. Seu DNU (Decreto de Necessidade e Urgência) de 20 de dezembro passado, que modifica e/ou revoga mais de 300 leis, é típico de um ditador, pois o referido decreto dita disposições de natureza legislativa, rompendo a divisão dos poderes democráticos.

Uma DNU que, entre outras coisas, retira da população seus direitos trabalhistas e abre indiscriminadamente as importações levará ao fechamento de muitas pequenas e médias empresas e, portanto, a mais desemprego. Em questão de meses, a pobreza crescerá exponencialmente.

É por causa dessas e de outras injustiças, que tanto os sistemas democráticos quanto os totalitários produzem, que nós, anarquistas, somos contra o Estado.

Fonte: Buskando La Kalle

agência de notícias anarquistas-ana

Refresca um pouco
Pôr os pés na parede
durante a sesta.

Bashô

[México] Solidariedade com Miguel Peralta e o povo de Eloxochitlán de Flores Magón

Nove anos após o conflito sociopolítico em Eloxochitlán de Flores Magón, Oaxaca, como indivíduos que acompanharam a então Assembleia Comunitária de Eloxochitlán por 13 anos e de muitas maneiras, e que continuam hoje como o Grupo de Solidariedade com Miguel Peralta, declaramos:

O conflito social que vem ocorrendo em Eloxochitlan de Flores Magón, Oaxaca, desde 2010, entrou em um estágio crítico de repressão política e jurídica após 14 de dezembro de 2014. A partir dessa data, a família do déspota Zepada Lagunas continuou com uma campanha de mentiras, calúnias e difamação contra indivíduos e famílias que se opuseram à pilhagem dos recursos naturais de seu povo e ao desaparecimento de suas formas de organização comunitária. Para muitos deles, sua luta e consequências os levaram a ser perseguidos e presos injustamente devido ao espírito vingativo e poderoso com que Manuel Zepeda Cortes e Elisa Zepeda Lagunas agiram nos últimos nove anos.

Uma dessas famílias é a de Miguel Peralta Betanzos, que desde 2012 vivenciou a prisão de Pedro Peralta (pai) por três anos, como resultado de outro crime fabricado pelos Zepeda Lagunas e torturado no momento de sua prisão. Até o momento, seu julgamento ainda está em aberto e a queixa que ele apresentou pela tortura cometida pelo então presidente municipal e pela polícia municipal não teve prosseguimento.

No caso criminal 02/2015, entre o grupo de 34 acusados estavam Martha Betanzos (mãe) e um de seus irmãos, bem como tios, primos e pessoas muito próximas a eles. A maioria deles foi liberada pouco a pouco por meio de vários recursos jurídicos.

No entanto, no caso de Miguel, esse não foi o caso, pois ele foi detido arbitrariamente dias antes de um amparo lhe conceder a liberdade definitiva, como aconteceu com seus parentes. Desde 2015, ele teve que enfrentar o mesmo processo que seus outros companheiros: sob tortura, atormentado por falsidades e irregularidades jurídicas; com atrasos e atualizações judiciais sempre a favor de Elisa Zepeda, só para mencionar alguns.

Ele já foi condenado duas vezes a 50 anos de prisão. Sua situação jurídica ainda não foi resolvida, ele é atualmente perseguido político, pois, assim como seus companheiros, ainda está sujeito a um processo fraudulento controlado por Elisa Zepeda.

Miguel está aguardando que a Suprema Corte de Justiça da Nação admita um amparo em revisão, o que poderia devolver sua liberdade e que abriria um precedente muito importante para seus companheiros.

Portanto, não devemos nos esquecer de que o que aconteceu em Eloxochitlán de Flores Magón em 2014, como denunciamos desde 2010 caminhando ao lado da assembleia, teve uma origem política, que foi transferida para a esfera jurídica, e que a liberdade absoluta e incondicional de todos os presos e perseguidos continuará sendo arrancada deles, tendo claro quem são os adversários e adversárias.

Ainda estamos navegando no mesmo mar com navios diferentes e depende de todos nós chegarmos a um bom porto!

Hoje exigimos mais uma vez: liberdade imediata para todos os presos e perseguidos políticos de Eloxochitlan de Flores Magón!

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/09/07/mexico-colocacao-de-uma-faixa-em-oaxaca-pela-semana-de-solidariedade-com-os-presos-anarquistas/

agência de notícias anarquistas-ana

Quase desperdício.
Moscas sobre caquis podres
Só o sapo come.

Anibal Beça

Anarquistas em Revolta. Argentina: Dezembro de 2001.

Este ano marca o 22º aniversário daquele dezembro de 2001, da fúria nas ruas, da revolta, da solidariedade na superfície e também da repressão mais óbvia, crua e obscena do Estado argentino. Trata-se de uma compilação de textos anarquistas escritos entre maio de 2002 e dezembro de 2012, alguns com perspectivas mais ligadas à informalidade anarquista, como em “20/12/01” e “19 y 20 de diciembre“, publicados em Abrazando en Caos e em Exquisita rebeldía, outros com uma tendência especificista, como o Editorial do jornal Hijos del Pueblo de la Red Libertaria, publicado em 2006, e vários de uma linha bastante “clássica” do histórico jornal Libertad, com notas escritas no calor da revolta ainda latente e das tentativas de recuperação e aparelhamento partidário da esquerda institucional e do peronismo.

Decidimos reunir diferentes vozes para tornar a leitura mais complexa, para nos dar diferentes perspectivas e ampliar a visão de 2001, algumas mais próximas da idealização do “povo”, outras mais focadas na disputa contra “a esquerda”, mas todas com uma reivindicação antiautoritária e uma necessidade de estender o surto para além da lógica política e de suas instituições. Em alguns casos, os companheiros falarão de um surto, outros de revolta e até mesmo de um golpe de Estado orquestrado, embora os termos ainda não sejam definitivos hoje em dia, temos certeza de que dezembro foi isso e muito mais, foi uma manipulação da mídia e um jogo político, mas também foi a ruptura com a ordem social com um espírito insurrecional, foi a negação da polícia, mas também do cordão populista, foi a solidariedade rebelde e também a rebeldia que se chocou contra seus próprios limites.

Hoje, 22 anos depois, continuamos a apostar e a reivindicar o conflito e a negação da autoridade, com a convicção intacta e a necessidade vital de uma vida além dos limites do Estado e do Capital. Esperamos que as palavras e reflexões a seguir possam ser um ensinamento e uma motivação para nossas lutas.

Todas as fotos publicadas foram extraídas do arquivo do Kasa Loka, tiradas no final dos anos 90 e início dos anos 00.

https://kasaloka.com/

Expandindo a Revolta. Buenos Aires. Dezembro de 2023.

>> Baixe: Lxs anarquistas: diciembre 2001:

https://expandiendolarevuelta.noblogs.org/files/2023/12/Lxs-anarquistas-diciembre-2001.pdf

Tradução > Liberto

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insetos de verão
caem mortos
sobre o meu livro

Shiki

[México] Palavras de Tiara Tempestad | Até que todos sejamos livres

Graças ao apoio recebido, o valor para cobrir a multa de Tiara Tempestad foi arrecadado, o que contribuirá para seu processo em busca da liberdade.

Aqui estão algumas palavras de Tiara

Este 12 de dezembro marcou a metade da pena que me foi imposta há 3 anos e 4 meses. A partir dessa data, iniciou-se um período difícil para mim e meus amigos próximos, especialmente no início, quando não sabíamos o que aconteceria.

Durante esse tempo, várias pessoas e grupos estiveram presentes de muitas maneiras: com assessoria jurídica, acompanhamento com minha mãe, caronas, visitas, telefonemas, comida, chamadas telefônicas, eventos etc.

Sem dúvida, essas demonstrações de apoio tornaram a situação mais suportável.

Quero dizer que tenho em mente cada gesto, ação ou decisão que representa um “aqui estou”, não só para mim, mas também para outros prisioneiros que estão resistindo. Dizem que amigos são vistos na prisão e no hospital, e em parte sim, às vezes as cumplicidades são claras e são feitas em situações extremas.

Em circunstâncias de confinamento, estabelecer relacionamentos ou amizades que não respondam à vitimização ou mitificação da prisão e da pessoa que a acompanha é complexo, mas crucial. Não há manuais, mas o aprendizado é alimentado pelas contradições de acertos e erros.

Penso nos momentos de incomunicação ou desinformação; nas brigas por telefone ou nos abraços calorosos à distância; nas traições e distanciamentos; nos questionamentos e mudanças; nas horas de conversa e, é claro, nos novos encontros.

Entendo que a solidariedade antiautoritária encontra seu significado na correspondência mútua, na reciprocidade e na simplicidade que ainda trocamos. Ela se baseia em convicções e ética, e não em caridades salvadoras, em afinidades e ações, e não apenas em palavras bonitas.

Confirmo que essa punição não trará nenhum arrependimento de minha parte, apenas desprezo e rejeição a qualquer juiz e policial, e à sociedade carcerária em geral.

Agradeço àqueles que conheci ao longo do caminho e que ainda estão presentes.

Recentemente, pedi seu apoio para o pagamento da multa, que já foi coberta! Nesta quarta-feira, Alma fez o pagamento e em breve concluirá a papelada. Não tenho uma data de soltura, o pagamento dessa multa é um requisito para solicitar a liberdade condicional, ainda depende da decisão do juiz, mas é um passo a mais. E foi conseguido por meio daquele manada que ultrapassa fronteiras e muros.

Mando um grande abraço para aqueles que resistem na prisão. A Karla e Magda, que não deram um passo atrás, a Brandy e aos companheiros chilenos: Mónica Caballero, Francisco Solar, companheiros do caso Susaron e do ataque à gendarmaria.

Àqueles que acompanham os processos dos companheiros e o projeto de Malentonado.

Até que todos sejamos livres

Tiara Temestad, dezembro de 2023

agência de notícias anarquistas-ana

a lua na rua:
um gato lentamente
torna-se minguante.

André Ricardo Aguiar