[Itália] A guerra nunca é a solução. Solidariedade internacionalista. Deserção

O recente ataque de 28 de fevereiro conduzido pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã não é um ato isolado, nem um acidente da história. É a enésima manifestação bem planejada de uma lógica imperial que disfarça a agressão como defesa, a supremacia como segurança, a guerra como necessidade moral, o imperialismo capitalista como democracia. Nós sabemos, toda potência, quando ataca, invoca a prevenção; toda bomba é bem embalada por uma linguagem técnica, cirúrgica, inevitável e até mesmo por palavras de paz. Mas já sabemos quem pagará o preço de tal violência, as vítimas continuam sendo sempre as mesmas: crianças, trabalhadores, pobres, jovens mandados para morrer, famílias que perdem casa e futuro, os povos oprimidos. E sabemos também que a desordem que se seguirá a esta agressão favorecerá novas guerras e novos fundamentalismos.

Os regimes podem ser combatidos e derrubados apenas pelos seus próprios povos e é certo que também os movimentos populares que combateram o regime iraniano nestes anos serão atropelados pela arrogância imperialista americana. Que fique claro, não existem guerras humanitárias, nem bombardeios libertadores. As guerras são escolhas políticas, não fenômenos naturais. Existe uma estrutura global de dominação que se alimenta do medo, do nacionalismo e da submissão voluntária. Os governos falam de ameaças existenciais, mas a única ameaça permanente para os povos é justamente o contínuo e histórico entrelaçamento criado pelos Estados, entre poder militar, interesses econômicos, máfias e propaganda midiática.

A verdadeira segurança nasce da justiça social, da cooperação entre os povos, do fim da pilhagem econômica que alimenta os conflitos. A verdadeira prevenção é desmantelar as estruturas estatais que produzem a guerra: bases militares, complexos industriais bélicos, alianças fundadas na ameaça permanente e todas as leis estatais repressivas que atingem toda forma de dissenso.

Às guerras é preciso responder com a deserção. Desertar, significa hoje, antes de tudo, desertar da propaganda. Recusar o ódio étnico e religioso. Recusar a retórica da guerra inevitável, recusar o medo da liberdade verdadeira. Significa apoiar a objeção de consciência, proteger quem se opõe aos imperialismos, construir redes de solidariedade internacional a partir da base. Significa opor-se à militarização das nossas sociedades e dos nossos territórios, de Birgi até o Muos e Sigonella, defender espaços de autonomia, mutualismo, organização direta.

Criticamos sem ambiguidade toda forma de imperialismo, de qualquer bandeira e Estado que provenha. Denunciamos a hipocrisia de quem fala de direito internacional enquanto o pisoteia. E lembramos que nenhum povo é nosso inimigo.

Se há uma chama para acender, é a da solidariedade entre oprimidos.

Se há uma deserção a realizar, é a da obediência cega.

Se há uma revolução a preparar, é aquela que torna a guerra impossível porque torna impossível o domínio sobre nossas vidas.

Que as consciências despertem. Que o medo se transforme em raiva. Que o poder saiba que não pode mais contar com a nossa passividade e com o nosso medo de ser livres.

Contra todo Estado. Contra todo regime.

Contra a guerra imperialista, Deserção, Solidariedade Internacional.

Só uma sociedade de livres e iguais varrerá todo imperialismo.

Federação Anarquista Siciliana

02.03.2026

Fonte: https://umanitanova.org/la-guerra-non-e-mai-la-soluzione-solidarieta-internazionalista-diserzione/   

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

ave calada –
ninho em silêncio
na madrugada

Carlos Seabra

O massacre de mulheres no Irã em números

Nos protestos de janeiro de 2026, pelo menos 250 mulheres foram mortas em todo o país, inclusive nas regiões curdas (Rojhilat ou Curdistão Oriental). Além disso, em 2025, 55 mulheres foram executadas, 182 mulheres presas e outras 80 foram condenadas à prisão, açoites ou morte. Além desses números, foram registrados 207 casos de feminicídio em todo o país no mesmo período.

Relatório Hengaw 2026: O custo trágico para as mulheres no Irã

Por ocasião do dia 8 de março de 2026, a organização de direitos humanos Hengaw publicou um alarmante relatório estatístico. O relatório documenta repressão estatal sem precedentes e persistência crítica da violência de gênero em todo o Irã.

O início de 2026 foi banhado em sangue

Os protestos de janeiro de 2026 foram violentamente reprimidos. A Hengaw relata que pelo menos 250 mulheres foram mortas a tiros, incluindo 25 adolescentes. Até o momento, já foram formalmente verificadas as identidades de 204 vítimas. As províncias mais afetadas são a de Teerã (61 mortas) e de Isfahan (29 mortas). Entre os alvos identificados estão muitas alunas, professoras e profissionais de saúde.

2025: Ano recorde de execuções

O ano de 2025 marcou um recorde sombrio com a execução de 55 mulheres em prisões iranianas, o maior número nos últimos 25 anos.

  1. Opacidade judicial: Somente 7% das execuções foram anunciadas pela mídia estatal, e muitas ocorreram em segredo.
  2. Minorias alvo: Entre as condenadas, se destacam as mulheres de minorias étnicas (curdas, turcas, lores e gilaks).

Judicialização da militância e do feminicídio

O sistema judiciário continua sendo usado como ferramenta de pressão política. Em 2025, 80 ativistas foram condenadas à prisão (totalizando mais de 354 anos), e condenadas a açoites, bem como a pena de morte (como para Nasimeh Eslamzehi e Zahra Shahbaztabari). Ao mesmo tempo, foram registradas 182 prisões arbitrárias, afetando as mulheres bahá’ís e curdas principalmente.

Por fim, a violência doméstica e social continua endêmica, com 207 feminicídios registrados em 2025. O relatório destaca que 14,5% desses assassinatos estão ligados a crimes de “honra“, como são chamados, com frequência cometidos por parentes próximos (maridos, pais, irmãos) em um contexto legislativo que se empenha em proteger as vítimas.

Foco no Curdistão

No Curdistão, a repressão é dupla: pelo menos 24 mulheres curdas foram mortas nas manifestações de janeiro (incluindo 3 menores) e outras 50 foram presas. Em 2025, 30 casos de feminicídio também foram documentados nas províncias curdas, atestando a insegurança política e civil persistente.

Fonte: https://kurdistan-au-feminin.fr/2026/03/09/iran-le-massacre-des-femmes-en-chiffres/

Tradução > CF Puig

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agência de notícias anarquistas-ana

velho haicai
séculos depois
o mesmo frescor

Alexandre Brito

[Grécia] Atenas: Solidariedade com a comunidade de refugiados ocupada

Num período em que os Estados admitem abertamente que nada mais têm a prometer às sociedades senão guerra, pobreza, morte e repressão, vislumbramos imediatamente o cenário que os nossos líderes políticos e econômicos nos estão a preparar: guerra no estrangeiro e a perpetuação do estado de emergência em território nacional. Um período em que, simultaneamente, os bens sociais públicos são desvalorizados e privatizados, os assassinatos em campos de trabalho forçado aumentam, a exploração laboral se intensifica e as políticas criminosas anti-imigração conduzem a massacres nas fronteiras terrestres e marítimas. Neste contexto, os Estados protegem-se contra os “inimigos internos”, ou seja, contra aqueles que não aceitam esta realidade como uma condição legal e que lutam contra ela.

A comunidade de refugiados ocupada tem sido alvo de repressão estatal por meio de um novo contrato anunciado, que inclui os edifícios da comunidade entre os disponíveis para exploração e reforma. Informações divulgadas pela mídia estatal falam de uma evacuação imediata dos prédios ocupados. As ocupações — como pontos de referência mais visíveis da luta auto-organizada, trampolins do contra-ataque social e de classe e pontos de territorialização dos projetos de resistência militante, solidariedade de classe e auto-organização social — sinalizam um conflito permanente com o mundo da individualização, da propriedade privada e da subordinação. Assim, elas são alvos permanentes da repressão estatal, que aplica de forma constante e metódica a política preventiva de contrainsurgência do Estado.

O ataque às ocupações e aos espaços de luta auto-organizados é parte integrante do ataque à resistência social e de classe como um todo: desde os repetidos ataques às manifestações nos centros urbanos e as prisões em massa de ativistas, até o acampamento de forças repressivas em praças, parques e colinas, a agora constante invasão do asilo social das universidades e as conspirações estatais que estão sendo armadas contra os ativistas pelos centros de poder.

Por nossa parte, a partir do território ocupado há 37 anos, em Lela Karagianni 37, não podemos deixar de nos solidarizar com os moradores e membros da Comunidade de Refugiados Ocupada. Manifestamos nossa solidariedade à sua luta para defender seus lares e estruturas auto-organizadas contra a barbárie do capitalismo de Estado e apoiamos a greve de fome de Aristóteles Hatzis, exigindo o atendimento de todas as suas reivindicações. Diante da agressão estatal, não nos rendemos, lutamos. Com a solidariedade e a auto-organização como nossas armas, continuaremos a resistir à opressão e à injustiça, sabendo que nossas lutas não têm nada a temer. Seguimos com a mesma intensidade e vontade a organizar o contra-ataque social na perspectiva da Revolução Social, pela criação de um mundo de igualdade e liberdade.

SOLIDARIEDADE COM A COMUNIDADE DE REFUGIADOS OCUPADA E A GREVE DE FOME DE ARISTOTELIS HADZHI

10 – 100 – MILHARES DE OCUPAÇÕES, CONTRA UM MUNDO DE PODRIDÃO ORGANIZADA

Manifestação: 14/03, 13h00, Universidade Técnica, Portão Patission

Assembleia aberta da Ocupação Lela Karagianni 37

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Chuva cai lá fora
No batuque das goteiras.
Eu durmo tranqüilo.

Natacha Lemes Batistão

[Alemanha] Vídeo: Free Maja nas ruas de Bremen

LIBERDADE PARA TODOS OS ANTIFAS!!!

Em 2023, houve uma marcha nazista na Hungria em homenagem à Waffen-SS. Nesse contexto, fascistas foram espancados.

Isso foi seguido por uma onda incrível de repressão contra antifascistas em toda a Europa. O regime de extrema-direita na Hungria emitiu mandados de prisão internacionais contra antifascistas, ocorreram caçadas humanas públicas e muitos antifascistas se esconderam.

Alguns antifascistas foram detidos pela polícia; uma dessas pessoas é Maja.

Maja foi extraditada para a Hungria em uma operação clandestina. Foi um sequestro pelas autoridades; Maja jamais deveria ter sido extraditada. Foi ilegal, inclusive segundo o Tribunal Constitucional Federal.

Maja está em confinamento solitário há dois anos, sob condições desumanas.

Revistas íntimas, violência, comida mofada…

Desde o início, não se podia esperar um julgamento justo. Muito pelo contrário! Foi um julgamento espetáculo.

Maja foi trazida com as mãos e os pés acorrentados, com uma coleira na cintura e tratada como terrorista.

Exatamente um mês atrás, em 4 de fevereiro de 2026, Maja foi condenada a oito anos de prisão em Budapeste.

É por isso que estamos nas ruas hoje (04/03), sem aviso prévio e da maneira que achamos melhor. Como resposta ao veredicto e para mostrar que estamos pensando em Maja.

Que se fodam os policiais e as autoridades alemãs e húngaras!

Não descansaremos enquanto não tivermos Maja de volta!

Liberdade para todos os presos políticos!!! Nazistas levam um soco na cara!!! Vocês os chamam de terroristas, nós os chamamos de amigos!!!

>> Link para o vídeo: 

https://sendvid.com/s5pw01tj

Fonte: https://de.indymedia.org/node/715444

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Chapéu
divide a cabeça
do céu

Cláudio Fontalan

[Reino Unido] Bristol: Quarenta fascistas, 200 policiais e uma cidade que não aceitou isso

Um grupo embaraçoso de cerca de 40 ativistas de extrema direita convocados pelos “Patriotas” de Bristol tentou marchar pelo centro da cidade ontem (08/03/2026), mas foi superado em número pelos contra-manifestantes antirracistas e teve que ser protegido durante todo o trajeto por uma grande operação policial.

A marcha fascista, ridiculamente chamada de “Marcha pela Unidade”, reuniu-se no Cenotáfio em St Augustine’s Parade antes de tentar marchar por Broadmead, Cabot Circus e Castle Park.

No entanto, sua mobilização atraiu forte oposição de ativistas antirracistas e antifascistas locais, que organizaram uma contra-manifestação no centro da cidade e os perseguiram durante toda a tarde.

A polícia destacou mais de 200 policiais, incluindo unidades montadas, para proteger os fascistas, e uma força considerável foi usada contra os antifascistas que tentavam bloquear o caminho dos fascistas.

Cerca de 200 contra-manifestantes tentaram repetidamente confrontar a marcha, gritando “Bristol é antifascista” e “os refugiados são bem-vindos aqui” enquanto os “Patriotas” se moviam lentamente pelo distrito comercial.

Seu pequeno contingente fez com que a polícia tivesse que formar um cordão de proteção ao redor deles durante grande parte da tarde.

De acordo com a Polícia de Avon e Somerset, seis pessoas foram presas sob suspeita de crimes que incluem distúrbios violentos, agressão e obstrução de um policial.

Cotoveleiras e cavalos foram usados para empurrar a multidão para trás quando o trajeto dos fascistas foi bloqueado.

A marcha avançou apenas uma curta distância antes que repetidos impasses forçassem a polícia a redirecionar o trajeto.

Por fim, a manifestação foi escoltada de volta ao Cenotáfio, onde ambos os grupos se dispersaram no meio da tarde.

Apesar da forte presença policial, a tentativa de marcha mais uma vez destacou a capacidade da ampla mobilização antifascista em Bristol de superar significativamente em número e desafiar as atividades da extrema direita nas ruas.

Fonte: https://darknights.noblogs.org/post/2026/03/09/bristol-uk-forty-fascists-200-cops-and-a-city-that-wasnt-having-it/

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/11/24/reino-unido-antifascistas-humilham-os-patriotas-de-bristol/

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pequena abelha
deixa em mim
a sua dor

Alexandre Brito

[Espanha] Jornada de arrecadação para Mumia Abu-Jamal e Prision Radio

Mumia Abu-Jamal é um jornalista, revolucionário e preso político que está encarcerado desde dezembro de 1981. Condenado à morte, os esforços na luta por sua liberdade foram conseguindo adiar sua execução, até que em 2011 sua pena foi modificada para prisão perpétua sem liberdade condicional. Mumia foi detido e condenado pelo assassinato do policial Daniel Faulkner, fato do qual sempre se declarou inocente. A participação política de Mumia não foi freada por seu encarceramento nem pelas constantes ameaças à sua vida, mantendo-se sempre ativo e se conectando com as resistências de dentro e de fora das prisões.

Organizamos esta jornada para arrecadar fundos para seu grupo de apoio e para Prison Radio, o projeto no qual participa há vários anos. Teremos três espaços: em um, projetaremos “Revolucionário de longa distância. Uma viagem com Mumia Abu-Jamal” (2013). O segundo espaço será mais relaxante, com merenda e bebidas, espaço para falar e um local de apoio. O terceiro espaço estará preparado para escrever cartas a Mumia.

Local Anarquista Magdalena

localanarquistamagdalena.org

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vermelho relâmpago
irrompe do capim seco:
a cobra coral.

Anibal Beça

[Alemanha] Vá filmar os policiais

Uma das razões para fotografar e filmar em protestos é documentar a brutalidade policial quando ela ocorre, como é previsível.

Josie Ó Súileabháin ~

No final do verão, me vi no chão, cercada por 15 policiais alemães. Recebi um ultimato: ou entregava meu celular à polícia voluntariamente ou eles chamariam um “advogado ou juiz” para ver se poderiam tirá-lo de mim à força. Não fui detida por nenhum crime, segundo me disseram, mas eu tinha potencialmente sido testemunha de um.

O que era verdade. Durante a última hora, eu tinha filmado cinco policiais oprimindo um homem acusado de realizar uma reunião política. Ele segurava uma bandeira palestina e estava andando de patinete elétrico no momento da prisão. Comecei a filmar porque percebi que isso era um pretexto para assédio racial. Observei enquanto os policiais o cercavam e provocavam.

“Não tentamos ser violentos de forma alguma”, diz-me um agente da polícia, “mas se ele… estamos a verificar se estamos certos… temos que ver se há algum problema. OK, qual é a lei na Alemanha? Ele não está autorizado a andar com a bandeira. Obtemos a informação, dizemos-lhe e, neste momento, estamos a defender a lei. Se uma pessoa continuar a dizer que não, eu estou certo, então temos um problema.”

“E então talvez”, continua o policial, “se a pessoa ainda disser não, eu não vou fazer nada… temos que fazer isso com, como você chama? Com força. E segurando-o pelo braço… você entende por que fazemos isso?”, ele pergunta.

“Não”, respondo.

“Não, tudo bem. Então temos um problema”, diz o policial para mim.

Continuei a filmar quando me pediram repetidamente para me afastar. Observei através da lente do meu celular enquanto o homem era algemado e empurrado contra a parede. Observei-o cair no chão e continuei a filmar enquanto ele era segurado pelos braços para um “exame médico”. Foi nesse momento que a polícia se aproximou de mim

“Então, a questão é que ele está detido agora por resistir à lei e só porque você está filmando, você poderia ajudá-lo. Com o vídeo…”

“Claro, ele pediu o vídeo?”, pergunto. “Então, eu entrego o vídeo a este homem aqui?”

“Não, você vai enviar o vídeo para nós, para que possamos verificar se é verdade ou não”, diz o policial. “É uma prova, então temos que fazer isso por ele e também contra ele, entende?”

Como você pode imaginar, a polícia estava mentindo para mim. O que eles estavam exigindo era que eu entregasse meu celular. Eu tinha filmado a interação e, em vez de imagens do homem resistindo, tenho imagens de assédio racial por parte de uma força policial que claramente não conhecia a lei antes de aplicá-la.

Percebendo que são necessárias pelo menos duas pessoas para formar uma assembleia política, eles pareciam prendê-lo retroativamente por resistir à sua própria prisão.

As minhas razões para filmar a sua detenção eram simples. Nos últimos dois anos, tem havido uma escalada da violência sancionada pelo Estado contra o movimento de solidariedade com a Palestina na Alemanha, que apoia o silenciamento repressivo do meio acadêmico, das artes e da cultura, da liberdade de expressão e a criminalização das publicações nas redes sociais por parte de sucessivos ministros no sistema político em mudança da Alemanha.

Esta violência é denunciada diariamente por ativistas, jornalistas, cineastas e fotógrafos.

No entanto, há um silêncio mortal em toda a sociedade alemã e nos seus principais meios de comunicação social. Uma das razões para fotografar e filmar os protestos é documentar a brutalidade policial quando esta, como é previsível, ocorre, como um registro que contraria o que sempre se segue: reportagens diretas de fontes policiais, seguidas de uma verificação nula dos fatos e de uma suspeita quase religiosa em relação a qualquer relato ou fonte proveniente dos próprios protestos.

Após os protestos da 77ª comemoração da Nakba em Berlim, a mídia se limitou a repetir o depoimento de um policial berlinense que alegou ter sido “arrastado para dentro da multidão”, “deliberadamente atacado”, “derrubado no chão” e “chutado repetidamente” pelos manifestantes. Devido ao grande número de câmeras presentes no protesto, foi possível ver que, na verdade, ele entrou na multidão voluntariamente e repetidamente socou manifestantes na cabeça antes de imobilizar outro manifestante no chão.

Grupos como Counter Investigations e Forensis / Forensic Architecture reuniram várias fontes dentro da manifestação para provar os crimes deste policial, apoiando o Centro Europeu de Apoio Jurídico (ELSC) na apresentação de uma queixa criminal com base na violência policial e no falso testemunho. O dano já estava feito, no entanto, pois cinco pessoas tiveram seus apartamentos revistados após os protestos da Nakba em maio. Nenhum dos envolvidos foi acusado de ter agredido o policial.

A Forensic Architecture também esteve envolvida no julgamento de seis jovens sírios requerentes de asilo acusados de incendiar o campo de refugiados de Moria, na Grécia. Devido à sua vulnerabilidade em termos de idade, estatuto de asilo, apoio jurídico e idioma, parecia ser um caso fácil para o Estado grego levar a tribunal estes seis jovens. Através de vídeos gravados na noite do incêndio, os investigadores conseguiram reconstituir o movimento e a dimensão do incêndio,contradizendo fortemente o depoimento da única testemunha que levou à sua prisão.

E, no entanto! Este pequeno computador no meu bolso é um traidor para qualquer órgão policial de segunda categoria ou hacker adolescente que queira interceptar meus dados pessoais. As vantagens tecnológicas de poder filmar a polícia em tempo real vêm acompanhadas dos problemas adicionais de ter um dispositivo que pode ser usado para manipular vídeo, áudio, comunicações e localização para fins de repressão política.

O Conselho Europeu está debatendo a expansão de protocolos que levariam os prestadores de serviços de mensagens encriptadas de ponta a ponta, como o Signal e o Telegram, a analisar todos os textos, fotos e vídeos em busca de “material abusivo” através do que é conhecido como análise do lado do cliente. Conhecido como “controle de chat”, o protocolo funciona principalmente através do acesso a todo o material através da monitorização indiscriminada das comunicações.

Esta rede de vigilância generalizada tem apenas uma exceção. Em uma carta ao grupo de trabalho das autoridades policiais, o Conselho Europeu deixou claro que “a detecção não se aplica a contas utilizadas pelo Estado para fins de segurança nacional, manutenção da lei e da ordem ou militares”, de acordo com o artigo 7º do documento. No entanto, essa vigilância generalizada por meio de varredura tem seu custo final: a taxa de erro de um “falso positivo” é de 50 a 75%.

O governo do Reino Unido também está tentando quebrar a criptografia significativa de ponta a ponta por meio da Notificação de Capacidade Técnica (TCN) da Lei de Poderes Investigatórios, que exige que a Apple, neste caso, crie uma porta dos fundos para seus serviços de backup criptografados. Isso vem acompanhado de uma vigilância adicional proposta pelo governo trabalhista para criar um esquema de carteira de identidade digital sob o pretexto de prevenir o que eles chamam de “migração ilegal”, que tem contribuído para comportamentos coercitivos, violência doméstica e marginalização de idosos, pessoas com deficiência ou vulneráveis.

Por que isso é importante? Depois de filmar casos de assédio racial ou brutalidade policial – para a segurança de todos –, a comunicação com advogados, jornalistas e ativistas deve ser protegida e mantida em sigilo.

Na Alemanha, existe uma lei que protege os policiais da responsabilização enquanto são filmados. Ela é chamada de Verletzung der vertraulichtkeit des wortes, ou “palavras ditas em particular”, e pode ser estendida à filmagem de uma interação entre policiais. A lei não se refere à filmagem, mas sim à publicação de conversas entre os policiais. A única exceção a isso é se a filmagem for de interesse público.

É claro que nunca se sabe se a violência policial irresponsável na perseguição da repressão política e do assédio racial seria do interesse público. Isso se deve em grande parte a uma atmosfera de medo na sociedade alemã e na mídia em relação ao reconhecimento do papel ativo da Alemanha no genocídio do povo palestino por Israel. Ao ler as notícias, você poderia cometer o erro de acreditar que o aspecto mais violento da sociedade alemã é o próprio povo palestino e, por extensão, qualquer grupo migratório.

A polícia alemã tem um histórico comprovado de assédio racial sistêmico, níveis obscenos de brutalidade e um longo histórico de mortes sob custódia, com 287 mortes documentadas sob custódia policial de indivíduos racialmente oprimidos desde 1990. Recentemente, centenas de policiais invadiram o centro social Rigear94, ocupado ilegalmente, em preparação para um próximo processo judicial. Os policiais atacaram violentamente os moradores e destruíram suas casas com o objetivo declarado de identificar aqueles que viviam no conjunto habitacional.

É com os olhos abertos que enfrentamos o Estado e aqueles dentro de nossas próprias comunidades que optaram por representar suas estruturas repressivas contra seus próprios vizinhos. Assim, contra todos os conselhos para facilitar as coisas para mim, publiquei um relato da minha interação com a polícia quando a violência, como era de se esperar, se voltou contra mim. Fui detido como testemunha, minha saúde foi usada contra mim como um ato de tortura e minhas convulsões foram provocadas como punição por não entregar meu celular.

Unpublished é um projeto que ajuda a “preencher o vazio” deixado pelo silêncio da grande mídia sobre a violência policial e a solidariedade com a Palestina. O projeto também expôs a agressão policial contra Kitty, uma ativista irlandesa que exigia o fim dos assassinatos seletivos de jornalistas palestinos em Gaza. A polícia de Berlim lhe deu três socos no rosto e quebrou seu pulso.

Graças ao trabalho de ativistas e jornalistas comprometidos, conseguimos denunciar a violência sistemática e proteger os membros das nossas comunidades contra esse abuso de poder.

“Vocês não nos assustam, porra!”, gritou Kitty para a polícia.

Este artigo foi publicado pela primeira vez na edição de inverno de 2025/26 do jornal Freedom.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2026/02/22/go-film-the-police/

Tradução > Reno Moedor

agência de notícias anarquistas-ana

A lua minguante
procura com quem falar
na boca da noite

Ronaldo Bomfim

Entrevista com Rich Cross – autor do novo livro sobre as Poison Girls

Por Rich Cross
The Hippies Now Wear Black
14 de Fevereiro de 2026

O autor de This is a Message to Persons Unknown: The History of Poison Girls, Rich Cross (Esta é Uma Mensagem para Pessoas Desconhecidas: A História das Poison Girls), compartilha com o The Hippies Now Wear Black a história de como o livro foi concretizado, a história da banda que ele e seus colaboradores estavam ansiosos para explorar, as fontes que ele pôde utilizar e a poderosa dinâmica que se desenvolveu entre as palavras que ele escrevia e o design colorido do livro em evolução.

Você poderia apresentar e falar um pouco sobre o novo livro?

Com certeza. This is a Message to Persons Unknown: The Story of Poison Girls é uma história totalmente ilustrada, com 100 mil palavras, sobre a música, a prática, a arte e a política das Poison Girls. Ele começa na pré-história da banda, em meados da década de 1970, e acompanha o trabalho da banda por todas as diferentes fases da vida do grupo até a dissolução das Poison Girls em 1989. Em seguida, documenta novos projetos criativos que surgiram após o fim da banda, incluindo a reunião das Poison Girls em 1995.

O livro tem formato 8 x 10 polegadas, é totalmente colorido e tem 288 páginas. É publicado pela PM Press, no Reino Unido e nos Estados Unidos, e está disponível nos formatos brochura e capa dura.

Considerando a quantidade de textos já publicados sobre a história dos movimentos anarquista, punk e faça-você-mesmo no Reino Unido nas décadas de 1970 e 1980, por que nunca houve um livro dedicado à história das Poison Girls até agora?

Essa é uma ótima pergunta. E uma para a qual é difícil encontrar uma resposta convincente. Já deveria ter havido livros — vários livros — escritos sobre as Poison Girls há muito tempo. A música, a política, a prática e a arte distintas da banda merecem mais do que atenção. E as Poison Girls têm sido uma fonte de inspiração para muitos músicos e artistas nos anos desde que estavam em atividade.

Mas também são uma banda atípica, uma banda que sempre resistiu a ser categorizada e que atravessou diferentes gêneros musicais ao longo do tempo. O que significa que, como tema, não são um projeto fácil, mesmo para editoras não convencionais, que ainda querem ter certeza sobre o público que poderia se interessar por um livro que terão que financiar.

E, segundo a própria banda, a identidade das Poison Girls incluía uma veia contestatória que, por vezes, acabava por limitar o brilho dos holofotes que incidiam sobre elas. O fato de as Poison Girls terem acabado por ficar de fora do livro The Day the Country Died, de Ian Glasper — o almanaque anarco-punk marcante da época — simplesmente porque algo no processo de criação não funcionou bem sempre me frustrou — e a muitas outras pessoas. Mas, de alguma forma, isso é estranhamente condizente.

Nossa esperança é que This is a Message to Persons Unknown ajude a estimular um interesse renovado pelas Poison Girls dentre aqueles que estavam por perto na época e destaque o trabalho delas para públicos novos e mais jovens – interessados em expandir sua consciência sobre as práticas contraculturais das cenas musicais britânicas marginais das décadas de 1970 e 1980.

Com isso em mente, como este livro foi aprovado?

O livro existe graças à convicção e ao empenho de Ramsey Kanaan, da PM Press, que estava determinado a criar um livro que fizesse justiça ao legado das Poison Girls – e que reuniu um trio de pessoas que ele tinha a certeza que conseguiriam concretizar esse objetivo.

Em 2014, eu havia escrito uma história ilustrada da banda para a revista Punk & Post-Punk, que foi uma das primeiras – se não a primeira – tentativas razoavelmente substanciais de contar a história das Poison Girls, buscando posicionar sua história em um contexto cultural e político mais amplo. Esse artigo foi recebido positivamente pelos membros da banda Vi Subversa, Lance d’Boyle e Richard Famous, o que me encorajou a acreditar que estava no caminho certo.

Quando esse artigo foi publicado, eu já administrava o site The Hippies Now Wear Black há muitos anos e tinha apresentado e publicado muitos conteúdos sobre diferentes aspectos do punk anarquista, político e alternativo. Infelizmente, poucos anos depois, eu estava escrevendo longas homenagens à vida e obra de Vi Subversa e, em seguida, de Lance d’Boyle. Trabalhar nesses obituários me colocou novamente em contato com Pete Fender e Richard Famous, que forneceram comentários inestimáveis sobre meus rascunhos.

E enquanto continuava o trabalho de terminar o manuscrito incompleto de Lance Hahn para o livro Let the Tribe Increase, da PM Press, eu já havia esboçado um capítulo totalmente novo sobre o Poison Girls – uma das várias bandas que Lance ainda não havia contatado quando sua saúde precária o obrigou a interromper o trabalho no livro.

Ramsey, da PM Press, que conhecia todos os meus escritos, abordou o talentoso designer de livros Alec Dunn e a editora e experiente documentarista Erin Yanke para apresentar a ideia de publicar um livro sobre as Poison Girls. Ele sugeriu que eles entrassem em contato comigo para assumir parte ou todo o trabalho de redação. O fato de eles estarem na costa oeste dos Estados Unidos e eu estar em East Midlands, no Reino Unido, não parecia ser um obstáculo.

Erin e Alec estavam envolvidos na produção do inspirador e cauteloso estudo de caso antifascista It Did Happen Here (Isso Realmente Aconteceu Aqui), além de outros projetos para a PM Press. Ambos já conheciam bastante as Poison Girls, e Erin já havia escrito sobre elas para a revista Maximum Rock. Eles não tiveram que me perguntar duas vezes.

Foi então que começou uma colaboração transatlântica de muitos meses, com a troca de arquivos online e conversas pelo Zoom, que aconteciam no meio da manhã para eles e no início da noite para mim.

Quão prescritiva foi a orientação da PM Press sobre como o livro deveria ficar?

Desde o início, Ramsey e seus colegas da PM Press não poderiam ter sido mais encorajadores e solidários com nossos esforços. Eles nos deram uma enorme liberdade.

No início, ficou acordado que seria um livro de grande formato e totalmente colorido, que nos daria espaço e possibilidades de design para fazer jus à história das Poison Girls.

E à medida que surgiam novas ideias para o livro – coisas como os diários da turnê, as entrevistas em destaque, os artigos sobre The Impossible Dream – a PM Press continuou a nos apoiar, mesmo com o número de páginas aumentando cada vez mais! Foi um grande voto de confiança no que estávamos fazendo!

Como vocês fizeram a pesquisa para o livro? Com quem vocês conseguiram conversar e a quais materiais tiveram acesso?

Entre nós três, já tínhamos uma coleção considerável de materiais e objetos relacionados às Poison Girls – pôsteres, panfletos, folhetos, crachás, recortes, entrevistas em zines e coisas do gênero. Foi um ótimo começo. Então começamos a busca por mais. Entramos em contato com pessoas que sabíamos que tinham coisas incríveis em seus arquivos da época — como o excelente fotógrafo Ming DeNasty, que tinha fotos incríveis das Poison Girls tocando ao vivo; Simon Nolan, que reuniu uma reprodução autorizada de Words Written in Trust; e muitos outros — a quem agradecemos no livro.

E ficamos extremamente gratos por Richard Famous, Pete Fender e Gem Stone terem concordado em nos permitir digitalizar materiais do próprio arquivo das Poison Girls. Sabíamos que era um voto de confiança extraordinário.

Passei uma noite sem dormir enquanto esperava que os insubstituíveis diários de viagem manuscritos de Richard Famous chegassem pelo correio, torcendo para que não se perdessem no caminho desde Shetland. Eles chegaram sãos e salvos e foram uma leitura fascinante!

E ao longo de mais de um ano, entrevistei pessoas da família Poison Girls e pessoas próximas, além de pessoas cujos caminhos se cruzaram com a banda em diferentes momentos — que trouxeram insights realmente interessantes —, incluindo Heather Joyce, do Toxic Shock, Robert Lloyd, do The Nightingales, e Steve Ignorant, do Crass.

Você tinha uma boa ideia da história que queria contar quando começou a escrever?

Sabendo que tinha espaço, meu foco era tentar contar a história completa da banda, desde suas origens até seu fim – e o que veio depois.

Claramente, a persona da notável e formidável Vi Subversa – vocalista, guitarrista, letrista e compositora da Poison Girls – tinha que ser absolutamente central na história da banda.

Também era importante que a história não fosse apenas sobre o período de estreita colaboração da banda com o Crass. Essa foi claramente uma parte significativa da história da banda, mas é apenas parte de uma história muito mais longa – e eu tinha certeza de que essa não poderia ser a única lente através da qual a história fosse focada.

Há comparações esclarecedoras a serem feitas entre a prática das Poison Girls e a de outros artistas políticos e culturais – e uma dessas comparações pode ser legitimamente feita com Crass e a cena anarco-punk mais ampla. Mas é apenas um ponto de referência entre muitos outros.

Como o layout e o design do livro se desenvolveram ao longo do tempo?

O que geralmente acontece com um livro é que o manuscrito é escrito e finalizado e, em seguida, passado para o designer para elaborar o layout. A diferença neste caso foi que o trabalho de design começou quase imediatamente, assim que compartilhei o rascunho inicial do capítulo do manuscrito Tribe com meus colegas.

Isso significava que podíamos ver como as diferentes seções do livro ficariam, mesmo enquanto eu estava escrevendo. Significava que podíamos discutir as especificações do design e testar uma série de opções à medida que o texto continuava a crescer e evoluir. E isso, é claro, gerou uma série de ideias adicionais. É claro que ajuda o fato de Alec ser um designer gráfico e de livros ridiculamente talentoso e tão instintivamente colaborativo.

Foi uma forma muito inspiradora de trabalhar, que nos incentivou a fazer com que o design realçasse as palavras e as palavras realçassem o design. Adoraria trabalhar dessa forma em futuros projetos de livros.

A ideia da caixa com os CDs antológicos das Poison Girls surgiu em paralelo com o livro?

Sim, sem dúvida. Mais uma vez, Ramsey, da PM Press, estava realmente empenhado em não se limitar a reeditar a caixa com o CD Statement, lançada originalmente em 1995, mas em ir além, adicionando todos os lançamentos originais em vinil que não faziam parte da caixa e incluindo novas gravações em estúdio, ao vivo e demos, para criar a coleção “definitiva” das Poison Girls.

A forma como foi montada e embalada é realmente muito eficaz. Além de compilar todas as letras de mais de 100 músicas das Poison Girls, há uma mini-história ilustrada da banda – diferentemente das palavras no livro – e tudo foi novamente lindamente projetado por Alec.

A música das Poison Girls se tornou a trilha sonora para eu escrever o livro – e foi o catalisador glorioso e perfeito para escrever cada novo capítulo da vida da banda.

Você está satisfeito com o resultado do livro?

Nós três estamos muito orgulhosos do resultado final do livro. Ele ficou fantástico e reflete todas as épocas da vida e da obra da banda. Espero que o que escrevi – e, mais importante, as palavras das pessoas que fizeram parte da história – ajudem a capturar por que as Poison Girls foram tão importantes para as ambições contraculturais do underground britânico e por que seu trabalho e seu legado são tão significativos.

Quais são os principais pontos que você gostaria que os leitores aprendessem com o livro?

Estou bastante confiante de que mesmo os leitores mais familiarizados com o trabalho das Poison Girls descobrirão coisas sobre a banda que não sabiam. E para aqueles menos familiarizados, ou que estão a chegar agora, espero que a história da banda seja uma espécie de revelação sobre como é possível traçar um caminho distinto no mundo da cultura outsider – recusando-se a ser limitado pelas restrições dos dogmas da cena.

As Poison Girls eram uma banda notável em muitos aspetos — determinadas a enfrentar a misoginia e o preconceito etarista não apenas no mundo em geral, mas diretamente dentro da contracultura que exigiam que as reconhecesse e aceitasse. Eram ferozmente políticas em tudo o que faziam, mas queriam expressar a sua política de formas imprevisíveis e não convencionais — por isso, criaram música e arte extraordinárias e escreveram letras e poesia cativantes para expressar essas ideias.

Um ponto que eu destacaria é que a prática das Poison Girls desafia o mito frequentemente reciclado de que as forças fundadoras do que se tornou o “anarco-punk” não sabiam nada sobre a política do anarquismo no início. Coletivamente, as Poison Girls podiam recorrer a décadas de ativismo informado no movimento anarquista britânico. Seus esforços como banda punk emergente em 1977 começaram em um contexto de conhecimento, consciência e experiência — não de ignorância.

Qual é o seu próximo projeto depois deste?

Já tenho alguns projetos alinhados! Vou voltar a dedicar minha atenção ao projeto de concluir e lançar os escritos de Lance Hahn sobre o Tribe em formato de livro – novamente para a PM Press. Houve um grande progresso no manuscrito nos últimos anos, mas as coisas ficaram em espera novamente enquanto nos concentrávamos no livro e na caixa com CDs das Poison Girls.

Rich Cross, com Alec Dunn e Erin Yanke. 2025.  This is a Message to Persons Unknown: The Story of Poison Girls. Oakland, US: PM Press.

Compre em: PM Press (UK) | PM Press (US)

Fonte: https://blog.pmpress.org/2026/02/19/interview-with-rich-cross-author-of-the-new-book-on-poison-girls/

Tradução > transanark / acervo trans-anarquista

agência de notícias anarquistas-ana

vento muda
ares de chuva
tua chegada

Camila Jabur

[Itália] Fora Alfredo do 41 bis

Iniciativas em Carrara e em Pisa, 14 e 18 de março de 2026

Aos servos do poder digo uma só coisa: podem me manter na cadeia pelo resto da vida, mas conformem-se, não conseguirão tirar de mim a coerência e o respeito próprio, nem muito menos o prazer e a vontade de combatê-los. – Alfredo Cospito, 2021

O 41 bis empregado contra os revolucionários é uma das principais expressões da ofensiva repressiva iniciada pelos últimos governos. Alfredo Cospito, anarquista que foi parar na prisão em 2012 por ter atingido um dos responsáveis pelo desastre nuclear que virá, após quase 10 anos foi transferido para o regime de 41 bis e ao mesmo tempo colocado sob risco de uma condenação à prisão perpétua com obstáculos à liberdade condicional. A nova inquisição do Estado desejava um aniquilamento total.

No entanto, particularmente após o início de uma longuíssima greve de fome por parte de Alfredo, desenvolveu-se um grande movimento de solidariedade internacional, que rompeu a camada de silêncio que vigorava sobre um regime prisional até então inviolável e dificultou a máquina da repressão.

Remonta ao ano passado a sentença de arquivamento da acusação contra cerca de dez anarquistas, entre os quais Alfredo Cospito, investigados em Perúgia pela publicação de um jornal anarquista revolucionário. Uma investigação que havia sido um importante suporte para a transferência para o 41 bis.

Independentemente de condenações e absolvições, sabemos bem como o ministério da prisão é capaz de descobrir sempre novas motivações para manter Alfredo naquele túmulo para vivos. Assim como sabemos o quanto o 41 bis é um pilar fundamental no sistema carcerário. Vemos isso hoje com a reorganização do regime prisional a fim de concentrar uma parte consistente dos detentos em algumas prisões na Sardenha.

Com a aproximação do fim dos primeiros quatro anos de aplicação deste regime contra Alfredo, voltamos às ruas contra o 41 bis.

No atual contexto de guerra, a tortura branca do 41 bis é um aviso contra aqueles que poderiam decidir acabar com o Estado e o capitalismo. Contra todos os senhores da guerra, da exploração e das tecno-ciências, continuaremos sempre a apoiar as razões da ação direta e revolucionária.

Atos Públicos

  • Sábado, 14 de março de 2026: Marina di Carrara, Praça Ingolstadt, às

17h30.

  • Quarta-feira, 18 de março de 2026: Pisa, Praça Vittorio Emanuele II, às

17h30.

Fonte: https://ilrovescio.info/2026/03/06/fuori-alfredo-dal-41-bis-iniziative-a-carrara-e-a-pisa-14-e-18-marzo-2026/

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

espelho d’água
o céu ouro-quase-jaspe
o louva-a-deus

Cláudio Daniel

“Anarquismo no Brasil: redes, lutas e trajetórias entre São Paulo, Santos e o Mundo”

No dia 14/03, às 15h, as editoras Faísca, Entremares, Biblioteca Terra Livre e Nelca participarão do evento “Anarquismo no Brasil: redes, lutas e trajetórias entre São Paulo, Santos e o Mundo”, com falas de Clayton Godoy, Kauan Willian e Marcolino Jeremias, que lançarão seus respectivos livros, com mediação de Davi Luiz Paulino.

O evento ocorrerá no Espaço Antônia e Angelina Soares, rua Major Diogo 219 – próximo ao metrô Anhangabaú e o Terminal Bandeira, São Paulo-SP.

agência de notícias anarquistas-ana

Asa quebrada
da triste gaivota
sonho de voar!

Rodrigo de Almeida Siqueira

Anarquistas “Eleitores”*

Por Errico Malatesta

Como não há e não pode ser uma lei ou autoridade que dê ou tire o direito de ser chamado de anarquista, somos verdadeiramente forçados, de tempos em tempos, a apontar a aparência de algum convertido ao parlamentarismo que continua, pelo menos por um certo tempo, declarando-se anarquista.

Não encontramos nada de ruim ou desonroso em mudar nossa mente, quando a mudança é motivada por convicções novas e sinceras e não por interesse pessoal; Gostaríamos, no entanto, de dizer com franqueza o que se tornou e o que deixou de ser, para evitar argumentos inúteis. Mas talvez isso não seja possível, porque quem muda suas ideias não sabe em geral, no começo, onde pousará. De resto, o que nos sucede acontece, em grande proporção, em todos os movimentos políticos e sociais. Os socialistas, por exemplo, tiveram que sofrer os exploradores do socialismo e os políticos de todos os tipos que se chamavam socialistas; e os republicanos hoje são igualmente obrigados a suportar que alguns, vendidos ao partido dominante, usurpam até mesmo o nome de mazzinianos.

Felizmente, o mal-entendido não pode durar muito tempo. Logo, a lógica das ideias e a necessidade de ação forçam os chamados anarquistas a renunciar espontaneamente a seu nome e tomar seu lugar de direito. Os anarquistas eleitorais, que em várias ocasiões se mostraram, todos eles, mais ou menos rapidamente, abandonaram o anarquismo, assim como os anarquistas ditatoriais ou bolchevizantes rapidamente se tornaram diretos e direitos bolcheviques que foram colocados a serviço do governo russo e de seus delegados.

O fenômeno ocorreu na França, por ocasião das eleições dos últimos dias. O pretexto é anistia. “Há milhares de vítimas em cárceres e prisões, um governo esquerdista lhes concede anistia, é dever de todos os revolucionários, todos os homens de coração fazem o que podem para que os nomes dos homens políticos que devem anistiar saiam das urnas.” Essa é a tendência dominante no raciocínio dos convertidos.

Os colegas franceses devem estar alertas.

Na Itália, houve uma agitação em favor de Cipriani, prisioneiro, que serviu de pretexto para Andrea Costa arrastar os anarquistas de Roma para as urnas, e assim começar a degenerar o movimento revolucionário criado pela Primeira Internacional, e acabar reduzindo o socialismo a um meio de entreter as massas e garantir a tranquilidade da monarquia e da burguesia.

Mas, na realidade, os franceses não têm necessidade de procurar exemplos na Itália, porque os têm muito eloquentes em sua própria história. Na França, como em todos os países latinos, o socialismo começou a decolar, se não como o anarquismo, sim, pelo menos, como anti-parlamentar; e a literatura revolucionária francesa da primeira década depois que a Comuna abunda em páginas eloquentes, devida, entre outros, à pena de Guesde e Brousse, contra a mentira do sufrágio universal e da comédia eleitoral e parlamentar.

Assim, como Costa na Itália, o Guesde, o Massard, o Deville e mais tarde Brousse em pessoa, eram muito apanhados pela fome de poder e talvez também pelo desejo de reconciliar a reputação do revolucionário com a vida tranqüila e as pequenas e grandes vantagens que são conquistadas por quem entra na vida política oficial, mesmo que seja por meio de oposição. E então toda a manobra começou mudando a direção do movimento e fazendo os camaradas aceitarem as táticas eleitorais. A nota sentimental também desempenhou um papel importante na época: foi solicitada anistia para os homens da Comuna, foi necessário libertar o velho Blanqui que morreu na prisão, e com cem pretextos e cem recursos para superar o desgosto que eles mesmos, os viracasacas, contribuíram para o nascimento dos trabalhadores contra a eleição e que, além disso, foi nutrido pela memória ainda viva do plebiscito napoleónico e os massacres perpetrados em junho de 1848 e maio de 1871 por vontade dos deputados fora do sufrágio universal. Foi dito que era necessário votar para contar, mas que um votaria no inelegível, pelo condenado, pelas mulheres ou pelos mortos; outros propuseram votar em branco ou com um slogan revolucionário; outros queriam que os candidatos colocassem cartas de demissão nas mãos dos comitês eleitorais, caso fossem eleitos … E então, quando o fruto estava maduro, isto é, quando as pessoas se deixavam convencer a ir votar, queriam ser um candidato e um deputado em sério: os condenados foram deixados apodrecendo na cadeia, o antiparlamentarismo foi negado e o anarquismo foi atormentado; e Guesde, depois de cem palinodias, terminou como ministro do governo da “União Sagrada”, Deville se tornou embaixador da República burguesa e Massard, penso eu, algo ainda pior.

Não queremos questionar antecipadamente a boa fé dos novos convertidos, e ainda mais porque, entre eles, há mais de um com quem mantemos laços pessoais de amizade. Em geral, essas evoluções – ou involuções, se quiserem – têm seu começo de boa fé, então empurra a lógica, mistura amor-próprio, supera o meio no que se move … e se torna o que antes era repugnante. Talvez no caso atual não haja nada que tenhamos medo, porque os neoconversos são muito poucos, e a probabilidade de encontrarem grandes adesões no campo anarquista é muito fraca, e esses camaradas, ou ex-companheiros, refletirão melhor ou reconhecerão seu erro. O novo governo que será instalado na França depois do triunfo eleitoral do bloco de esquerda os ajudará a convencer-se de que há pouca diferença entre ele e o governo anterior, porque ele não fará nada de bom – nem mesmo a anistia – se a massa não o impuser por sua agitação. Tentamos, do nosso ponto de vista, ajudá-los a encontrar o motivo com uma observação de que, para o resto, não deve ser novo para aqueles que já aceitaram a tática anarquista.

É inútil virmos dizer, como fazem esses bons amigos, que um pouco de liberdade vale mais que uma tirania brutal sem limite e sem restrição; que um horário de trabalho razoável, um salário que permite que você viva um pouco melhor que os animais, a proteção de mulheres e crianças, são preferíveis à exploração do trabalho até a completa exaustão do trabalhador; que a escola pública, por mal que seja, é sempre melhor, do ponto de vista do desenvolvimento moral da criança, do que aquela dirigida por padres ou monges … Muito de acordo com isso; e podemos até aceitar que pode haver circunstâncias nas quais o resultado das eleições em um Estado ou em uma Prefeitura possa ter boas ou más consequências e que esse resultado possa ser determinado pelo voto dos anarquistas, se as forças dos jogos em competição fossem iguais.

Geralmente, é sobre uma ilusão; as eleições, quando são passivamente livres, não têm mais do que o valor de um símbolo: indicam o estado de opinião pública, uma opinião que seria melhor executada, com meios mais eficazes e com maiores resultados, se o truque que as eleições não lhe tivessem sido apresentado. Mas isso não importa: embora alguns pequenos progressos tenham sido a consequência direta de uma vitória eleitoral, os anarquistas não deveriam ir às urnas nem parar de pregar seu método de luta.

Desde que você não pode fazer tudo no mundo, você tem que escolher o seu próprio curso de ação.

Há sempre uma certa contradição entre pequenas melhorias, a satisfação de necessidades imediatas e a luta por uma sociedade verdadeiramente melhor do que existe.

Qualquer um que queira se dedicar à construção de mictórios ou fontes onde eles são necessários; Aqueles que querem sair de seu caminho para obter uma construção de rua, ou a instituição de uma escola municipal, ou qualquer outra lei de proteção trabalhista pequena, ou a remoção de um policial brutal, certamente, ele faz bem em usar sua cédula, prometendo seu voto para este ou aquele personagem poderoso. Mas, então, desde que você quer ser “prático”, você tem que ser completamente, e então, melhor esperar pelo triunfo do partido da oposição, é melhor votar no partido mais próximo, arrastar a ala para o partido dominante, servir o atual governo, tornar-se um agente do governador ou prefeito no cargo. E, de fato, o neoconverso de que falamos não pretendia votar no partido mais avançado, mas no partido com maior probabilidade de ser eleito: o bloco de esquerda.

Mas, então, onde isso vai parar?

Os anarquistas certamente cometeram mil erros, disseram centenas de coisas absurdas, mas eles sempre permaneceram puros e permanecem do lado revolucionário por excelência, a formação do futuro, porque eles souberam resistir à sirene eleitoral.

Seria verdadeiramente imperdoável ser levado pelo redemoinho quando nosso tempo estiver se aproximando rapidamente.

*Considerando o período eleitoral que se aproxima neste ano, nada mais pertinente do que recordar que tais ilusões eleitorais não são novas.

União Anarquista Federalista – UAF

uafbr.noblogs.org

Contato: uaf@riseup.net

agência de notícias anarquistas-ana

Choveu há pouco –
O sol baixa das nuvens
Finas cortinas de névoa.

Paulo Franchetti

[Holanda] Quatro anos de guerra na Ucrânia: Milhões de vítimas, mas uma festa para a indústria armamentista

Por Marc Vandepitte | 24/02/2026

A Ucrânia sangra, a Rússia resiste e a Europa paga a conta. Após quatro anos de guerra, impõe-se uma pergunta: continuar com a loucura bélica ou encontrar a coragem para buscar a paz?

De invasão rápida a guerra sem fim

Em 24 de fevereiro de 2022, Vladimir Putin deu a ordem de invadir a Ucrânia. A Rússia talvez esperasse uma vitória rápida; mas esta não chegou, em parte devido à forte resistência da Ucrânia, que Moscou havia claramente subestimado.

Na fase inicial da guerra, houve oportunidades reais para entabular negociações de paz. Segundo o ex-primeiro-ministro israelense Naftali Bennett, essas tentativas foram, no entanto, ativamente obstaculizadas pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha. O ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, Lloyd Austin, declarou sem rodeios que o objetivo era “enfraquecer a Rússia“.

A Ucrânia foi utilizada para eliminar ou enfraquecer um adversário estratégico sem ter que enviar tropas próprias. A partir desse momento, a guerra passou de um conflito sobre território ucraniano a um projeto geopolítico.

Devido à forte ingerência da OTAN, o que começou como um conflito entre dois países vizinhos se transformou em uma guerra por procuração. A Ucrânia atua tragicamente como carne de canhão para os interesses estratégicos do Ocidente.

O Ocidente forneceu maciçamente armas pesadas e impôs duríssimas sanções econômicas. Paralisou-se o comércio, cortaram-se os vínculos energéticos e congelaram-se os ativos russos no exterior. Era preciso colocar a economia russa de joelhos, mas não ocorreu.

A Rússia transformou com sucesso sua economia em um eficiente sistema de produção de guerra e encontrou saídas para seu comércio através de rotas alternativas, o que não significa que a Rússia não tenha experimentado uma forte pressão, mas a estratégia de ruptura econômica total não deu o resultado desejado. Moscou resistiu e continuou a guerra.

Tornou-se uma guerra total de desgaste. As linhas de frente quase não se moviam, mas cada mês trazia novas mortes. Em ambos os lados, acumularam-se as perdas. Segundo estimativas, 1,2 milhão de militares russos e quase 600.000 soldados cranianos morreram ou ficaram feridos. A Europa vive assim sua guerra mais mortífera desde a Segunda Guerra Mundial.

A guerra foi mais intensa do que nunca no ano passado. Em 2025, a Rússia lançou mais de 54.000 drones, cinco vezes mais que no ano anterior. Devido à escassez de mísseis de defesa antiaérea, impactaram mais projéteis e o número de civis mortos aumentou 30%.

Recentes ataques com mísseis hipersônicos Oreshnik, que mal podem ser interceptados, paralisaram a capital durante dias. A vida cotidiana é marcada por cortes de eletricidade e água, frio extremo e uma ameaça constante. As perdas também são enormes do lado russo; Moscou paga um alto preço por limitados ganhos territoriais.

Um alto preço

A Ucrânia paga o preço mais alto nesta guerra. As cidades estão em ruínas e milhões de pessoas foram deslocadas, tanto dentro quanto fora do país. A infraestrutura está destruída e a economia, desarticulada. O país se mantém de pé graças ao apoio estrangeiro; sem essa ajuda, desmoronaria a base social, econômica e militar.

A situação também não se vê bem no plano militar. Desde o segundo mandato de Trump, desapareceu por completo o apoio financeiro dos Estados Unidos. Outros aliados, como a UE e o Canadá, tentam compensá-lo, mas o total da ajuda militar comprometida caiu ao nível mais baixo desde o início da invasão.

Embora o exército russo tenha dificuldades com operações complexas, Putin dispõe de superioridade numérica. Kiev, além disso, enfrenta uma grave escassez de efetivos e deserções. Se as coisas não mudarem, existe a ameaça de que haja um cenário semelhante ao da Primeira Guerra Mundial, no qual as linhas defensivas podem colapsar repentinamente.

As pesquisas entre a população mostram um sentimento ambivalente. Uma maioria da população ucraniana quer resistir, mas 72% aceitaria um plano de paz que congele a linha atual do front, desde que existam garantias de segurança e não se reconheça oficialmente o território ocupado.

Do lado russo, a situação não é simples, mas é melhor que a da Ucrânia. Apesar das grandes perdas, Putin ainda pode contar com um apoio considerável entre sua população. Parece surtir efeito a propaganda de Putin, que apela à restauração do poder da Rússia. Além disso, o Kremlin tenta ocultar na medida do possível os verdadeiros custos da guerra, como o número de baixas.

Desde o início da invasão, seu índice de aprovação se manteve constantemente acima de 80%, embora se devam considerar com a devida cautela as pesquisas em um sistema político desse tipo. No entanto, pode-se assumir que Putin conta com um front interno relativamente estável.

Devido às sanções e aos grandes esforços bélicos, a economia russa não tem vida fácil mas, em qualquer caso, não se pode falar de uma queda livre. O Banco Mundial prevê para 2026 um crescimento de pouco mais de 1%, assim como em 2025. A médio prazo, no entanto, existe a ameaça de estagnação e danos duradouros.

A União Europeia também não sai ilesa. Enquanto a indústria armamentista registra lucros recordes, o resto da UE enfrenta as consequências da política de confronto. Dispararam-se os custos energéticos devido às sanções, o que solapa fundamentalmente a competitividade das empresas europeias. Trocamos nossa energia relativamente barata da Rússia pelo caríssimo gás natural liquefeito (GNL) procedente dos Estados Unidos. Passamos assim de uma dependência a outra. Além disso, a Europa fica com os custos exorbitantes de uma guerra que não pode vencer e que ajudou a prolongar.

Saída

Putin persegue neste momento dois grandes objetivos. Em primeiro lugar, manter a Ucrânia fora da OTAN. Essa é uma linha vermelha estratégica e um motor por trás da lógica de desgaste. Em segundo lugar, um “grande acordo” com os Estados Unidos. Quer fechar um grande pacto no valor de centenas de bilhões de dólares sobre a exploração de petróleo e metais raros, entre outras coisas. A Europa fica à margem e observa impotente.

Para manter aberta a margem de negociação com os Estados Unidos, Moscou evita por enquanto uma escalada extrema. A guerra não se resolve, mas se gerencia, enquanto a Rússia aposta no tempo e na superioridade numérica.

Uma possível saída é o “cenário coreano“, que significaria não uma paz real, mas um conflito congelado. A atual linha de frente se converteria então em uma linha de demarcação. Ambas as partes se retirariam alguns quilômetros para formar uma zona desmilitarizada de amortecimento. As garantias de segurança deveriam impedir uma nova escalada. Não é em si mesma uma solução “justa”, mas em uma guerra sem um cenário realista de vitória, pode ser uma maneira de deter o derramamento de sangue.

A Europa em uma encruzilhada

Ao seguir docilmente os Estados Unidos, a Europa deixou de construir uma estrutura de segurança equilibrada na qual a Rússia também pudesse ter um lugar após a queda da União Soviética. Agora que está sendo abandonada por Washington, surge uma oportunidade histórica de seguir um rumo próprio e independente.

A Europa enfrenta assim uma escolha histórica. Trump e o complexo militar-industrial impulsionam a militarização do continente europeu. Por enquanto obtêm eco: a maioria dos líderes europeus continua apostando na dura política de confronto com Moscou, enquanto que Washington já a deixou de lado.

Esse caminho de guerra não fará senão aumentar as tensões no continente europeu e, além disso, solapa nossa prosperidade. Os esforços bélicos previstos custarão aos países europeus centenas de bilhões de euros, em detrimento das pensões, da saúde, da educação e da transição ecológica da economia.

Será a Europa finalmente capaz de seguir um rumo próprio e independente à margem dos Estados Unidos e escolher a prosperidade e uma estrutura de segurança equilibrada no continente, ou nos deixaremos arrastar pela febre de guerra? A resposta a esta pergunta é crucial para o futuro que nos espera.

Marc Vandepitte é membro da Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade (REDH).

Fonte: https://www.dewereldmorgen.be/artikel/2026/02/24/vier-jaar-oorlog-in-oekraine-miljoenen-slachtoffers-maar-wapenindustrie-viert-feest

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

O mar, sempre desperto,
na verde espera
da barca mensageira.

Thiago de Mello

[Alemanha] Dias de (re)construção de Hambi

A megamáquina precisa expandir ou então colapsa. Assim foi que a Floresta de Hambacher, já remanescente de uma muito mais vasta e antiga extensão de mata, foi quase que completamente destruída pela expansão de uma imensa mina de carvão, a maior da Europa. Apenas uma pequena porção deste habitat foi poupada, devido à resistência feroz centrada ao redor de numerosas ocupações na floresta, iniciadas em 2012.

Hambi tem sido um ponto de foco para a luta anticapitalista e ecológica radical na Europa. A zona de autonomia aberta aqui é dividida em tamanho às ZAD¹ de Notre-Dame-des-Landes [França] e Exarchia em Atenas [Grécia]. Hambi também serviu como antecessora de muitas outras lutas pela terra na Alemanha, sendo como de Lützerath e Dannenröder Wald os exemplos mais conhecidos.

No entanto, todos os locais de resistência explicitamente mencionados aqui, foram despejados. E ainda Hambi se mantém independente até o dia de hoje, um lugar sem leis onde podemos fazer o que quisermos. Ao invés de ser totalmente esmagado, Hambi foi principalmente esquecido – tanto por companheirxs como pela ampla sociedade – desde que a suposta saída-de-carvão foi anunciada. Seria uma estranha conclusão para esta luta que enfraquecesse até a irrelevância.

A Hambi nunca foi “salva”. Ao invés de ser diretamente afetado, foi sentenciado à morte-lenta de ter sua água subterrânea roubada por um poço tóxico que continua a se expandir. Existem planos futuros para explorar a região transformando-a em um resort turístico eco-yuppie, completo com porto para iates. E em tempos de militarização e aumento da escassez de recursos, o estado está apenas a uma eleição de distância de esquecer a saída-de-carvão e terminar com o que resta da mata.

Ainda por cima, a Mina de Hambach não está no centro da restrição do poder, em suas próprias palavras “do carvão para IA”. A Microsoft está construindo vários centros de dados na parte leste da mina, tentando estabelecer o que alguns estão chamando de “Vale do Silício da Europa”. No lado oeste, em Jülich, foi instalado o computador mais poderoso da Europa, simbolizando a entrada da Alemanha na corrida armamentista da IA. Inclusive mais perto da ocupação, em Morschenich-Alt, o prefeito local faz barulho sobre construir “a vila do futuro”, um hotspot para empresas tecnológicas neocoloniais.

Agora não é o momento de esquecer de Hambi. Esperamos axs amigxs, antigxs e novxs para que se juntem a nós aqui, que se estabeleçam, e participem na regeneração desta ocupação. Existem desafios no viver por temporadas na floresta. Mas também é uma oportunidade única de vivência, na qual as estruturas –   estruturas sociais assim como infraestruturas físicas – podem ser construídas livres das regras impostas pelo mundo de fora.

A porta está sempre aberta para forasteirxs. Através desta chamada convidamos vocês para um evento específico nesta Primavera. Seria um grande momento para renovar estruturas, desconstruir aquilo que o necessário, e talvez também construir algo novo, dependendo de nossas prioridades no momento. Tem também muito lixo pra ser recolhido, inclusive de árvores que foram ocupadas anteriormente.

Haverá também um momento para propor escritórios e outros acontecimentos, como já fizemos outras trocas de conhecimento tantas vezes antes. Seria uma boa oportunidade para falar sobre visões para o futuro da ocupação. E no dia 14 de Abril, teremos o 14º aniversário da ocupação para comemorar.

Doações de material de construção seriam ótimas, especialmente lonas (lonas de caminhão, que não sejam lonas trançadas, que contaminam a floresta). Doações de ferramentas também seriam ótimas. Sintam-se livres para trazer comida vegana para a cozinha coletiva.

Pela anarquia e alta-traição!

estoxs moradorxs da

hambacherforst.org

mail[at]hambacherforst.org

[1] Zona a ser defendida; do francês zona de defesa.

Tradução > Emilio Henrique

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/08/14/alemanha-chamada-para-defender-sundi-e-hambi/

agência de notícias anarquistas-ana

Rastros de vento,
escuridão de brasas,
um salto suave.

Soares Feitosa

[Espanha] Campanha de Financiamento do Ateneu Lumbre Libertaria da CNT-AIT Villarrobledo

POR UM ESPAÇO OPERÁRIO E ANARQUISTA EM VILLARROBLEDO

Desde o Sindicato de Ofícios Vários da CNT-AIT de Albacete temos o prazer de anunciar a iniciativa do nosso Núcleo de Villarrobledo para conseguir um Ateneu nesta localidade.

E para isso, lançaram um financiamento coletivo (crowdfunding) que ajude a custear as despesas do primeiro ano. A ideia é que, com esse impulso inicial para começar, se possa desenvolver ao longo do primeiro ano uma comunidade suficiente e estável que consiga manter no tempo um espaço físico que se transforme em ferramenta para o fortalecimento da classe operária local, através da autocapacitação sindical e do desenvolvimento da consciência de classe antiautoritária, promovendo a cultura proletária e humanista, sob os princípios da Ajuda Mútua, da Solidariedade e da Ação Direta, e com a autogestão como motor organizativo.

Um espaço aberto para agregar inquietudes e lutas regionais em defesa da liberdade, da justiça social e do meio ambiente. Um espaço sem hierarquias e antiautoritário de encontro, análise e deliberação coletiva.

Fazemos, pois, um chamado à solidariedade de todas as pessoas críticas à ordem do privilégio capitalista e seus aparatos de concentração de poder, que fizeram do mundo um lugar corrupto, alienado e violento, onde a desesperança escurece o porvir. Recuperemos a utopia revolucionária como horizonte emancipador.

Vocês podem colaborar com esta iniciativa através deste link:

No link encontrarão toda a informação e os detalhes do projeto, que terá este nome: Ateneu Lumbre Libertaria.

Minha pátria é a liberdade,

Minha bandeira a razão.

Meu caminho a verdade.

Fonte: https://cntaitalbacete.es/2026/01/sindical-ateneo-lumbre-l

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

sob o sol se pondo
como alfinete no lago
descansa a garça

Marcelo Santos Silvério

[Itália] Sempre ao lado de Alfredo Cospito! Concentração em Spoleto no dia 9 de março

Na segunda-feira, 9 de março, será realizada em Spoleto uma audiência do processo que coloca no banco dos réus alguns daqueles que foram às ruas em 1º de novembro de 2022, acusados de participar de uma passeata espontânea que atravessou algumas ruas do centro histórico após um ato em frente ao presídio da cidade, em solidariedade ao companheiro anarquista Alfredo Cospito, que então estava no décimo segundo dia de sua longa greve de fome contra o regime 41 bis e a prisão perpétua restritiva (ergastolo ostativo). Um episódio certamente marginal, mas que representa mais uma vez uma oportunidade para manifestar contra a detenção do nosso companheiro neste regime de aniquilamento. Diante da possível renovação da medida, prevista para o final dos primeiros quatro anos no próximo mês de maio, é necessário voltarmos a nos mobilizar contra a extensão indefinida deste tratamento vingativo contra um prisioneiro que eles não conseguem dobrar.

Enquanto as tensões internacionais nos arrastam cada vez mais rapidamente para o abismo de um conflito bélico em escala mundial, com a Itália — capacete na cabeça — alinhada ao lado da OTAN, dos EUA e dos sionistas em todas as frentes, é bom lembrar que a repressão é desde sempre a expressão mais eloquente da guerra na frente interna, onde o Estado e os patrões fazem de tudo para combater os revolucionários e as classes oprimidas.

Paz entre os oprimidos, guerra aos opressores!

Sabotemos a frente interna apoiando os prisioneiros da guerra social!

O 41 bis é uma prisão de guerra. Queremos Alfredo Cospito fora do 41 bis!

Nos vemos na segunda-feira, 9 de março de 2026, em Spoleto, para uma presença nas proximidades do tribunal. Concentração na Piazza Pianciani às 08h30.

Fonte: https://ilrovescio.info/2026/03/05/sempre-al-fianco-di-alfredo-cospito-appuntamento-a-spoleto-il-9-marzo/

Tradução > Liberto

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/02/27/italia-operacao-cidade-uma-repressao-a-mobilizacao-contra-o-regime-prisional-41bis-na-italia-e-em-solidariedade-a-camarada-anarquista-alfredo-cospito/

agência de notícias anarquistas-ana

Me comovem
tuas mãos limpas
e tua boca suja

Eliane Pantoja Vaidya

[Itália] Sempre ao lado de quem deserta. Quatro anos após o início da guerra na Ucrânia – as manifestações

Em diversas cidades, por volta do dia 24 de fevereiro, houve manifestações e iniciativas antimilitaristas. Nesta data simbólica, quatro anos após a invasão da Ucrânia pela Federação Russa, realizaram-se iniciativas de rua contra todas as formas de imperialismo, contra o militarismo, em solidariedade aos desertores de todas as frentes. Respondendo ao chamado da Assembleia Antimilitarista, em Trieste, Livorno, Turim, Reggio Emilia e Palermo, houve manifestações nas praças e ações simbólicas em alguns dos locais que mais representam a corrida armamentista e a guerra, como fábricas de armas e monumentos belicistas.

Por ocasião deste “aniversário”, o governo italiano relançou a propaganda de guerra para estabelecer a corrida armamentista, aprovando um novo decreto para a cessão de armas à Ucrânia, o décimo terceiro desde 2022. Entre os temas que temperaram a retórica belicista das últimas semanas, ouvimos falar novamente de um novo avanço do exército ucraniano. Continuam a contar a guerra em termos heróicos, enquanto a Ucrânia e a Rússia se sofreram um grande matadouro para os proletários, com centenas de mortos por dia numa frente tão extensa quanto toda a península italiana. É este o futuro que perspectivam para as jovens gerações que querem alistar nas forças armadas, para a classe trabalhadora que quer na miséria, curvada e disciplinada, minimamente a lutar pelos seus patrões ou a produzir e transportar armas que matarão outros proletários. Diante deste cenário, a única possibilidade de salvação é desertar. Mas o que isso significa exatamente? Uma imagem concreta nos chega justamente da guerra no Leste Europeu.

Dados surgidos entre 2024 e 2025 permitem focar a situação. Na Ucrânia, cerca de 1,5 milhão de pessoas se tornaram incontactáveis ​​para os Centros de Recrutamento Territorial. Não comunicaram a nova residência à administração, não podendo, portanto, ser formalmente realizados pela convocação para o alistamento. Essas pessoas, se ainda estiverem no país, correm o risco de serem reconhecidas e detidas nas ruas e serem alistadas à força. Nos bairros das cidades, há grupos solidários que afastam as equipes de recrutadores para evitar que levem as pessoas que moram na área para alistá-las. Há também quase 290 mil processos penais abertos contra militares que abandonaram injustificadamente sua unidade. Destes, a maioria, cerca de 235 mil, não devolveram após uma licença ou saída temporária, enquanto 54 mil, segundo a lei, são “desertores”, ou seja, salvaram-se sem justificativa de sua unidade. Não parece muito diferente ser a situação na Rússia; Não haja dados comparáveis, sabe-se que de 2022 a 2025 cerca de 800 mil russos deixaram seu país. Excluindo outras causas de emigração, algumas fortemente influenciadas pela situação de guerra em que o país se libertou, muitos tentaram fugir da mobilização militar.

Fomos às ruas desde o início, não para apoiar um governo, não para escolher um campo imperialista, não para apoiar um nacionalismo, mas contra todos os exércitos e contra todas as guerras.

Não nos pertence à neutralidade dos estados ou à equidistância burguesa, estamos contra todos os governos, contra todos os estados e todos os imperialismos. Escolhemos um lado, o lado das classes oprimidas e exploradas, lançados no moedor de carne da guerra lá onde se combate, lançados na miséria e esmagadas pela repressão em todo o mundo. Por isso, somos solidários com os desertores, com aqueles que mostram como é possível subtrair-se ao massacre, à máquina militar. Mas não basta. Como destacou o grupo Assembly de Kharkiv em alguns artigos, é necessário que, na Ucrânia, a massa de refratários e desertores vá além de se esconder e derrube o seu governo. O mesmo deveria acontecer na Rússia, onde a pressão repressiva precisaria de um forte movimento de massa para desmantelar o estado policial e parar a guerra. Essa reflexão serve para nos lembrar que a deserção deve ser o primeiro passo e transformar-se em revolução. Não basta a escolha ética individual de subtrair-se ao massacre, que ainda assim deve ser aprimorada; É preciso que a escolha se torne coletiva, para construir um movimento de massa capaz de parar uma guerra e derrubar um governo.

No meio de uma guerra, porém, sob as bombas, no medo e no sofrimento, na fuga, sob uma lei marcial, colocar esses processos em movimento é extremamente difícil. É preciso agir antes. Por isso, temos que ter claro o que podemos fazer desde agora e ampliar o sentido da deserção. Nos locais de trabalho, na produção como na logística, assim como nas escolas e universidades, abandonar a guerra significa parar a produção de armas, bloquear os transportes militares, recusar a reintrodução do serviço militar em qualquer forma que se apresente, rejeitar a propaganda de guerra, trabalhar na construção de um movimento de massa antimilitarista que possa colocar em questão as políticas de guerra.

Dario Antonelli

Fonte: https://umanitanova.org/sempre-a-fianco-di-chi-diserta-a-quattro-anni-dalla-guerra-in-ucraina-le-manifestazioni/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Silêncio:
charros escutam
o canto das rochas

Matsuo Bashô