[EUA] Lançamento: Anarquia na Big Easy: Uma História de Revolta, Rebelião e Ressurgimento

Anarquia na Big Easy é uma história gráfica anarquista da busca pela liberdade na Nova Orleans radical e revolucionária.

A narrativa começa com as forças anárquicas da natureza criando a terra e as comunidades indígenas cooperativas que floresceram antes da conquista europeia. Em seguida, vemos a revolta contra a dominação por meio da Insurreição dos Povos Escravizados de 1811, o surgimento de comunidades quilombolas (maroons), o trabalho de figuras como o geógrafo anarquista Élisée Reclus e o revolucionário utópico Joseph Déjacque, além da comovente história da militância trabalhista, exemplificada pela Primeira Internacional, a Greve Geral de 1892 e a ascensão dos Industrial Workers of the World (IWW).

Também são explorados os aspectos anárquicos do jazz, incluindo seu local de nascimento, o famoso distrito de luz vermelha de Storyville. Outros episódios reconstituem a história dos Panteras Negras, incluindo o lendário tiroteio no Conjunto Habitacional Desire, e o papel fundamental que anarquistas desempenharam na reconstrução de base após o furacão Katrina. O frequentemente subversivo Carnaval Popular é retratado desde a história dos Mardi Gras Indians até as atuais *krewes* anarquistas que marcham hoje. O livro se encerra com a recente luta pela remoção dos monumentos confederados e o crescimento de um movimento descentralizado, autônomo, de ajuda mútua.

Essas histórias são narradas pelo escritor surregionalista Max Cafard e ganham vida de forma vívida por meio das imagens marcantes do artista de quadrinhos Vulpes.

Elogios

O amor que Max Cafard sente por sua cidade natal, Nova Orleans, é perceptível em cada página. (…) Ele encontra a fonte de toda grande ideia radical nos pântanos, riachos e ruas de seu território escolhido e reconhece a confluência entre a ideologia anarquista e o jazz inicial de Nova Orleans. Vulpes sustenta a narrativa de Cafard com uma arte surpreendentemente delicada. (…) Juntos, eles mostrarão a alguns de vocês um lado de Nova Orleans que nunca conheceram. Ou talvez mostrem uma Nova Orleans que vocês já viram, mas não com a profundidade e a beleza com que é apresentada aqui.”

– Seth Tobocman, autor de War in the Neighborhood, cofundador da World War 3 Illustrated

Sobre os colaboradores

Max Cafard é um habitante vitalício da ilha de Nova Orleans. Foi cofundador e editor das revistas Mesechabe e Psychic Swamp e é autor de The Surregionalist Manifesto and Other Writings, FLOOD BOOK, Surregionalist Explorations, Lightning Storm Mind e Poemics (no prelo).

Vulpes é uma pessoa ilustradora anarquista radicada no Sul do Golfo da Ilha da Tartaruga. Seus quadrinhos publicados pela JP Press incluem Naki, sobre o jogador de futebol curdo Deniz Naki, e Siege Engines, sobre a rota migratória de 2016 pelos Bálcãs. Seu trabalho já apareceu em The Nib, Commune e The Shotgun.

Anarquia na Big Easy: Uma História de Revolta, Rebelião e Ressurgimento

Autor: Max Cafard – Ilustrações: Vulpes

Série: PM Press

ISBN: 9798887441009

Páginas: 96

US$ 15,95

pmpress.org

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Sem pedir licença,
ocupamos a cidade
com corpos e danças.

Liberto Herrera

Breve manifesto dos amigos da liberdade e da anarquia

Consideramos como francos inimigos da natureza e da vida,

merecedores do nosso total desprezo e repulsa,

os apologistas da ordem estabelecida,

apoiadores de carrascos e genocidas,

defensores de todas as misérias,

fomes, guerras e exploração capitalista,

os amantes de impérios, metrópoles,

ricos e parasitas.

.

Não nos misturamos jamais com fascistas,

sionistas, racistas, elitistas e militaristas.

Pois, dentro de nós, nascem desde já outros mundos possíveis, novos dias, consagrados a igualdade e a justiça.

.

Somos, radicalmente, anarquistas e socialistas,

amantes da liberdade, da autonomia e da poesia,

francos inimigos do Estado, das ditaduras e patriarcados.

Carlos Pereira Junior

agência de notícias anarquistas-ana

Primavera-me
Borboleta anarca
Flui sem dizer nada

Nanû da Silva

Vrije Bond, a federação anarquista dos Países Baixos e Flanders

Sobre Vrije Bond

O Vrije Bond (União Livre) é um grupo de pessoas em busca de construir uma sociedade diferente: sem hierarquias, sem opressão e sem exploração de humanos, animais ou meio ambiente; uma sociedade anarquista na qual lidamos uns com os outros na base da igualdade. Os membros do Vrije Bond todos trabalham, à sua maneira, na própria cidade, bairro, trabalho ou grupo de ação, na criação dessa sociedade. Fazem isso por meio de ação direta, organizando discussões, escrevendo artigos ou fornecendo informações. O Vrije Bond serve como plataforma para encontros, trocas de experiências, desenvolver teorias e estratégias, bem como para organizar atividades e apoiá-las.

Anarquismo

Um mundo melhor, é isso que o anarquismo representa: um mundo sem dominação nem exploração, baseado na cooperação e na solidariedade. Um mundo em que todos possam decidir por si mesmos como moldar suas vidas, com base no princípio da igualdade e na liberdade de expressão e ação. Essa é uma ideia fantástica, mas não é fácil construir um mundo assim. No caso dessas mudanças, não podemos confiar na democracia representativa. A revolução necessária para tal mundo só pode ser atingida por meio da cooperação e da organização de baixo para cima. É por isso que, para nós, anarquistas, a organização é importante, porque juntos nos mantemos fortes.

Auto-organização

A Vrije Bond luta por uma sociedade em que todo o poder político e econômico de cima é substituído por estruturas de formas livres de cooperação. Nessas relações, a vida política e econômica será organizada coletivamente e todas as decisões serão tomadas coletivamente.

A Vrije Bond é uma dessas formas de cooperação: uma auto-organização anarquista. Isso significa que trabalhamos juntos quando necessário, mas que grupos e indivíduos afiliados mantêm a autonomia. Ao ter reuniões regulares (abertas), ações diretas e campanhas, um fundo de solidariedade, um site e a revista ‘Buiten de Orde’, a Vrije Bond, como estrutura organizacional, busca apoiar e fortalecer o movimento anarquista.

‘Buiten de Orde’

A Vrije Bond publica a revista trimestral ‘Buiten de Orde’ (Fora da Ordem). Repleto de informações, entrevistas e discussões sobre anarquismo, autogestão, lutas dos trabalhadores, direitos humanos, antifascismo, antimilitarismo, ações ambientais, resistência e cultura independente, entre outros. A revista é gratuita para membros do Vrije Bond e fica disponível à venda aos outros.

Fundo solidário

Outra atividade importante da Vrije Bond é o Fundo de Solidariedade. Por meio desse fundo, os membros da Vrije Bond apoiam as ações e atividades uns dos outros, como ações (diretas) de grupos da Vrije Bond, como piquetes, inspeções civis e campos de ação. Iniciativas como uma biblioteca anarquista ou uma loja de informações também são apoiadas. Organizações irmãs no exterior ou não membros também podem fazer uso do fundo.

Seja membro de Vrije Bond!

A Vrije Bond, Livre União, está crescendo, então junte-se agora! Inscreva-se e ajude a construir movimento anarquista forte nos Países Baixos e na Bélgica.

Vrije Bond

Postbus 16521

1001 RA Amsterdam

Países Baixos

E: secretariaat@vrijebond.nl

I: www.vrijebond.org

Tradução > CF Puig

agência de notícias anarquistas-ana

Limpo o rosto na camisa –
O vento começa a trazer
As primeiras gotas de chuva

Paulo Franchetti

[Espanha] Homenagem e entrega dos restos mortais de quatro novas vítimas do fascismo identificadas no Barranco de Víznar (Granada)

Os restos mortais de Carmen Rodríguez Parra, José Raya Hurtado, Francisco Soriano López e José García, as últimas quatro pessoas identificadas no Barranco de Víznar, foram entregues aos seus familiares no passado dia 19 de dezembro no Albergue Municipal de Víznar, numa cerimónia aberta ao público. Esta atividade encerra a quinta campanha do projeto “Barranco de Víznar, lugar de memória”. Durante a reta final da mesma, foi exumada a maior fosa comum encontrada até à data nesse local. Desde o início dos trabalhos no barranco em 2021, foram recuperadas 194 vítimas assassinadas.

Espera-se que, no início de 2026, a Universidade de Granada realize uma nova campanha de trabalhos em Víznar.

Carmen Rodríguez Parra, Madre Carmela

Natural e residente de Granada, nasceu em 13 de maio de 1884. Morava na rua Elvira, 40, era casada com Antonio López Capel e tinha duas filhas, chamadas Nieves e Carmen López Rodríguez. Junto com o marido, administrava a Taberna Carmela, um estabelecimento no térreo do prédio onde moravam. Mulher politizada e ativa, era membro da CNT-AIT de Granada. Sua taberna seria um local de encontro e reunião para os movimentos de esquerda da cidade, especialmente dos grupos anarquistas granadinos.

Profundamente comprometida contra as injustiças, era conhecida por ajudar os desamparados e perseguidos politicamente. A partir de sua taberna, apoiava economicamente um grande número de causas, como a arrecadação de dinheiro para a filha do militante da CNT-AIT Miguel Illescas, assassinado pela polícia na rua Elvira quando colava cartazes para convocar uma greve geral em julho de 1931, ou o apoio às famílias dos presos e mortos após a tentativa de golpe militar de Sanjurjo no verão de 1932.

Após a sanjurjada, a taberna foi fechada, permanecendo assim até novembro de 1932, quando o movimento operário da cidade conseguiu sua reabertura, em um contexto de agitações e greves convocadas pela CNT-AIT. Mas, a partir desse momento, a taberna sofrerá um assédio policial constante, com vigilância, batidas e detenções. Nas eleições de fevereiro de 1936, em que a CNT-AIT não propôs uma abstenção ativa, a taberna se tornou o escritório eleitoral da Frente Popular e, com a repetição das eleições em Granada, Carmen atuará como interventora em maio de 1936.

Após o início da revolta militar, Carmen foi detida e encarcerada. A 15 de agosto de 1936, foi transferida para Víznar, onde será fuzilada no barranco de Víznar num grupo formado por quatro mulheres. Tinha 52 anos. 

Que estas palavras sobre Carmen Rodríguez Parra, publicadas em abril de 1933 no jornal La Tierra, sirvam como homenagem à sua figura: “Receba, Madre Carmela, a homenagem da minha profunda admiração, pois vejo em você um dos maiores focos de bondade e luz, necessários para nos iluminar nestes tempos de trevas e maldade”.

A família da Madre Carmela pediu à CNT-AIT de Granada que estivesse presente no ato, que terminou com o canto de “A las barricadas”, deixando a família muito emocionada com a homenagem à Madre Carmela tantos anos depois.

Fonte: https://www.cntait.org/homenaje-y-entrega-de-los-restos-de-cuatro-nuevas-victimas-del-fascismo-identificadas-en-el-barranco-de-viznar-granada/

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tão longa a jornada!
e a gente cai, de repente,
no abismo do nada

Helena Kolody

[Espanha] Ursula K. Le Guin, realista de outra realidade

Artigo publicado em Rojo y Negro nº 397, fevereiro de 2025

Hoje, 22 de janeiro de 2025, data em que escrevo isto, completam-se exatamente sete anos da ocultação – para dizê-lo à maneira dos patafísicos – da escritora estadunidense Ursula K. Le Guin. Três anos antes, quando já se encontrava no último trecho de sua vida, Le Guin havia sido agraciada com a Medalha da Fundação Nacional do Livro por sua Destacada Contribuição às Letras Norte-americanas. No dia 19 de novembro de 2014, ela proferiu o discurso de aceitação do prêmio, que durou apenas uns cinco minutos, mas que, como reconheceu mais tarde, lhe custou um par de meses para redigir, tudo com o único objetivo de torná-lo o mais conciso possível. O resultado é uma pequena obra-prima, um alegato claro e incisivo em favor do poder transformador da escrita.

Le Guin começou reivindicando o lugar de seus colegas escritores de fantasia e ficção científica. “Escritores da imaginação – disse –, que durante cinquenta anos viram esses belos prêmios irem parar nas mãos dos chamados realistas”. Depois, alertou sobre os tempos difíceis que estavam por vir e lançou um desafio às novas gerações de literatos: precisamos de escritores – acrescentou – dotados de imaginação e memória, cujas vozes sejam capazes de encontrar alternativas à forma como vivemos hoje e, ao mesmo tempo, possam recordar o que é, o que era, a liberdade. “Poetas, visionários, realistas de uma realidade mais vasta”, os chamou.

Em sua última entrevista, realizada em várias sessões ao longo de três anos com o jornalista David Streitfeld, ela esclareceria que, é claro, não estava prevendo o fenômeno Trump – “os escritores de ficção científica não somos bons em fazer previsões”. E, no entanto… “Por todos os santos, eu vinha dizendo há trinta anos que estamos tornando o mundo um lugar inabitável! Quarenta anos!”. Shelley estava certo ao afirmar que os poetas são os legisladores não reconhecidos do mundo, havia dito Le Guin algum tempo antes, mesmo que raramente vejam suas leis promulgadas e aceitas pela comunidade.

No momento atual, continuou dizendo em seu discurso, precisamos de escritores que conheçam a diferença entre a produção de uma mercadoria e a prática de uma arte. Os livros não são, ou não deveriam ser, simples mercadorias, e a arte não deveria se submeter sem mais à lógica do lucro. Vivemos no capitalismo – constatou –, e seu poder parece inexorável. “Mas também parecia o direito divino dos reis. Qualquer poder humano pode ser enfrentado e mudado pelos seres humanos. A resistência e a mudança frequentemente começam na arte. Muitas vezes em nossa arte, a arte das palavras”. Os escritores devem exigir o que lhes corresponde – concluiu –, mas o nome de “nossa bela recompensa não é lucro. Seu nome é liberdade”.

Quarenta anos atrás, em 1974, quando a literatura de gênero ainda não era considerada verdadeira literatura, Le Guin havia ganhado os prêmios Hugo e Nebula de ficção científica com um mesmo romance: “Os Despossuídos”. Antes – reconheceria em outra entrevista em 2015 –, ela havia passado um par de anos pesquisando sobre o anarquismo pacifista. Começou lendo os teóricos da não-violência, como Gandhi ou Luther King, e isso a levou a Kropotkin e companhia, “e fiquei fascinada”. Naquela época, em Portland, a cidade onde vivia, havia uma centena de livrarias independentes. Em uma delas, “bastante política”, se você conhecesse o livreiro, podia passar para o fundo da loja, onde havia material anarquista, “maravilhoso e muito difícil de encontrar naquela época”. Le Guin combinou a leitura dos clássicos anarquistas com a leitura de literatura utópica e descobriu que havia uma utopia para qualquer orientação política que se pudesse pensar, exceto para o anarquismo. “Bem, talvez eu devesse escrever uma – pensou –. Então, tive que reler e ler algumas coisas para planejar como diabos uma sociedade anarquista se organizaria, o que era muito divertido, mas também muito complicado”.

Em “Os Despossuídos”, Le Guin apresentava um pequeno planeta chamado Anarres, onde a utopia libertária finalmente se tornara realidade, onde o dinheiro e as leis haviam sido abolidos, onde não existiam mais prisões nem pronomes possessivos e onde a propriedade individual havia sido reduzida ao mínimo necessário. Seu oposto exato era o planeta Urras, a própria representação do Estado capitalista. No breve prólogo do conto “O Dia Antes da Revolução”, uma espécie de prequel do romance publicado no mesmo ano, Le Guin esclarecia: “Meu romance “Os Despossuídos” trata de um pequeno mundo povoado por pessoas que se chamam de odonianos. […] O odonianismo é o anarquismo. Não aquilo das bombas nos bolsos, que é terrorismo, independentemente do nome com que se tente dignificá-lo; tampouco o darwinismo social do ‘libertarianismo’ econômico da extrema direita; mas o anarquismo tal como aparece prefigurado na filosofia taoísta primitiva e exposto por Shelley e Kropotkin, Goldman e Goodman. O principal alvo do anarquismo é o Estado autoritário (capitalista ou socialista); seu objetivo prático-moral principal é a cooperação (solidariedade, ajuda mútua). É a mais idealista e, para mim, a mais interessante de todas as teorias políticas”.

“Os Despossuídos” logo se tornou uma obra de referência para o movimento libertário. No entanto, Le Guin sempre achou um pouco embaraçoso que os anarquistas a reconhecessem como uma deles. “Porque – desde que sejam dos meus, pacifistas – eu os amo, mas sou uma dona de casa burguesa, não pratico o anarquismo”. Parecia-lhe falso ou fácil demais descrever-se como anarquista porque lhe faltava o componente ativista. É como aquelas pessoas – observava – que dizem ser parte cherokee. Mas o que é um anarquista? A protagonista de “O Dia Antes da Revolução” oferecia a chave: “Alguém que, ao escolher, aceita a responsabilidade de sua escolha”.

Diego Luis Sanromán

Fonte: Rojo y Negro

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

sonho colorido
o sol dança com a lua
você comigo

Carlos Seabra

[EUA] Nova Zine: Anarquia e a Arte de Viajar de Carona

Introdução: Por Que Eu Amo Viajar de Carona

Os povos nômades têm historicamente representado as maiores ameaças e sido os mais difamados pelos poderes estatais. Piratas, bárbaros, ciganos e beduínos, entre outros grupos transitórios, têm estado historicamente em conflito com as forças civilizadoras e os sistemas de poder devido à sua ilegibilidade e à dificuldade em controlar essas populações. Viajar de carona não é apenas divertido, mas também uma estratégia para escapar das restrições do poder estatal e da repressão que é um componente intrínseco da sedentarização forçada. Quando aprendi a pedir carona, um mundo de possibilidades se abriu para mim. Aprender e abraçar essa modalidade me ajudou a ver que nenhum dos caminhos traçados para nós, que ditam como devemos navegar pelo mundo, é inevitável. Eu poderia transformar a vida em uma história do tipo “escolha sua própria aventura” ou RPG, em vez de ficar profundamente deprimido por estar confinado às trajetórias normativas que me foram impostas. No mundo das viagens, se viajar em trens de carga é uma ciência, então pegar carona pode ser considerado uma arte. Viajar de trem requer muita precisão e cálculos cuidadosos, enquanto pegar carona é profundamente complexo, inter-relacional e imprevisível. Também não há uma maneira objetivamente boa ou ruim de fazer isso. Assim como na arte, pedir carona tem muito a ver com estilo e preferência pessoais.

As pessoas costumam temer pela minha vida quando me veem pedindo carona na estrada, pois acham que minha morfologia e aparência me colocam em grande risco. Eu escolho pedir carona mesmo assim, por me recusar a desempenhar o papel de vítima, por meu compromisso em me defender e por um sentimento de rebeldia contra a ideia de que devo deixar o medo ditar como me movo no mundo. Acontece que a grande maioria das pessoas dispostas a correr o risco de dar carona a um pedestre está entre as pessoas mais gentis que já conheci. São quase sempre pessoas dispostas a correr um risco pessoal por um estranho. São pessoas com quem eu nunca teria interagido de outra forma, e aprendo muito com as pessoas que decidem me dar carona. Viajar dessa forma me ensinou muito mais do que qualquer aula jamais poderia ensinar. Pedir carona também teve alguns efeitos positivos inesperados, mas profundos, na minha vida, como superar um desejo intenso e duradouro de restringir a alimentação e perder peso.

O mundo da recuperação de distúrbios alimentares frequentemente afirma que esses diagnósticos têm a ver com controle, e não com estética. Por muito tempo, achei que havia algo errado com essa narrativa de controle e tinha um grande problema com a forma como o tratamento parecia se concentrar em dessensibilizar as pessoas para a realidade de não terem nenhum controle sobre suas próprias vidas. A maioria desses programas parece tratar mais da obediência à autoridade do que do cultivo da libertação corporal ou da alegria. Não era controle que eu desejava, era autodeterminação. Nenhuma quantidade de positividade corporal, amor próprio ou terapia aliviava as obsessões que me consumiam. Em vez disso, a primeira vez na vida em que não senti uma sensação perpétua de estresse e hipervigilância em relação ao meu corpo foi quando comecei a viajar de carona. Viver de forma nômade e de uma maneira que se desvia radicalmente dos roteiros sociais prescritos me permitiu relaxar e me sentir verdadeiramente livre. Aprender a transcender as regras sociais e quebrar ativamente a quarta parede da civilização me ajudou a exercitar o músculo mental que me permitiria quebrar minhas próprias regras também. Pedir carona e viver com uma mochila abriu portas que levaram a possibilidades completamente transformadoras. Pedir carona evoca uma sensação de ruptura em relação aos modelos normativos da dinâmica interpessoal. Permite conexões fugazes que muitas vezes inspiram uma maior sensação de autenticidade e abertura, devido à percepção de que será uma interação passageira (mas, de alguma forma, inerentemente íntima). O texto a seguir é um breve guia para encontrar formas anárquicas de liberdade e conexão através das caronas.

Faça o download da zine completa aqui: https://warzonedistro.noblogs.org/files/2025/12/Anarchy-the-Art-of-Hitchhiking.pdf

Tradução > transanark / acervo digital trans-anarquista

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Ainda que morrendo
o canto das cigarras
nada revela!

Matsuo Bashô

[Grécia] Cartaz | 10 anos de Organização Política Anarquista – Federação de Coletividades

10 anos de Organização Política Anarquista – Federação de Coletividades

Diante do ataque total e organizado do mundo podre do Estado e do capital, que local e internacionalmente não tem mais nada a prometer além de guerra e fascismo, a única esperança para as sociedades reside nas barricadas dos explorados e oprimidos e na organização política, social e de classe da luta na direção da revolução social e da emancipação.

A Organização Política Anarquista, desde a sua formação há 10 anos, continua a ser um apelo aberto aos anarquistas que se referem à luta organizada e coletiva e à revolução social, uma proposta constante para a formação ideológica, política e organizacional do movimento anarquista, uma posição de combate e coesão firme nas ruas ao lado daqueles que questionam a barbárie do poder. Com consistência e continuidade nas frentes de luta de classe e sociais que colocam barreiras à degradação contínua de nossas vidas no presente e tendo como perspectiva a conquista da única vida que vale a pena ser vivida: a vida nos conselhos populares da revolução social.

Organização e luta pela revolução social, anarquia e comunismo libertário

apo.squathost.com

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Sem rei, sem profeta,
a seara balança ao vento—
livre e desgrenhada.

Liberto Herrera

[Espanha] Lançamento: “Hilaria. Relatos íntimos para un feminismo revolucionario en el siglo XXI”, de Irene.

Desde suas origens, o feminismo insistiu na importância do relato íntimo ou, mais concretamente, na necessidade de conceber novos relatos onde o pessoal e o político, o cotidiano e o histórico se religuem e mudem nossa visão da sociedade e da luta necessária para sua transformação. Partindo desta premissa, Irene articula a escritura deste livro lúcido e valente a partir da vida de sua tataravó Hilaria, de modo que o que poderia parecer um exercício de recuperação da memória familiar se desdobra e, já desde as primeiras páginas, se converte, também, em um manifesto, uma reflexão e uma invocação para pensar e armar os movimentos feministas contemporâneos. Assim, descobrimos que Hilaria foi uma proletária basca, uma mulher forte que ficou viúva muito cedo e criou só seus filhos. Teve que confrontar a tragédia política e o caos social da Espanha dos anos trinta, mas nada de todo o vivido (incluído seu atroz encarceramento) minou seu entusiasmo ilimitado pela vida e seu desejo indomável de construir um mundo melhor.

Claro, o exemplo de Hilaria é uma inspiração necessária para nosso tempo, pois cada dia é mais urgente chamar as coisas por seu nome: o feminismo liberal daquelas que se contentam com ter uma chefe, uma presidenta do Governo e uma extensa coleção de brinquedos sexuais não és mais que uma manobra de distração. Neste sentido, todo feminismo que defende o capital é um feminismo contra as mulheres, pois o capitalismo é o responsável último de sua opressão. Portanto, devemos perder o medo de criticá-lo, pois a sororidade não pode ser incondicional. Não queremos um feminismo que reivindique a igualdade no seio de um sistema baseado na exploração. Hoje mais do que nunca, com o auge geral de todo tipo de autoritarismos, necessitamos voltar ao feminismo de Hilaria: um feminismo popular e radical, ao mesmo tempo antifascista e anticapitalista.

Hilaria. Relatos íntimos para un feminismo revolucionario en el siglo XXI

Autora: Irene

Tradução: Iballa López Hernández

Número de páginas: 176

19,00€ IVA incluído

erratanaturae.com

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A fúria é semente.
Da rachadura no asfalto,
nasce o novo trigo.

Liberto Herrera

[Espanha] Documentário: “Mi patria es la libertad”. El Cabrero

Comecei fazendo corridas

Por atalhos e veredas muito estreitas para mim, e diziam meus vizinhos que estava no caminho errado longe do rebanho.

Sempre fui essa ovelha negra que soube se esquivar das pedras que lhe atiravam, e quanto mais passam os anos mais me separo do rebanho

Porque não sei aonde vai.

.

Letra de Como o vento oeste (1996)

José Domínguez Muñoz, mais conhecido como El Cabrero (Aznalcóllar, província de Sevilha, 19 de outubro de 1944), cantor flamenco…

“Mi patria es la libertad” é o retrato de um artista que transcendeu sua arte, de um ícone imperecível, de raivosa atualidade. A história de uma das carreiras artísticas mais fulgurantes e atípicas de um cantor flamenco clássico e retumbante em suas convicções. É impossível separar o que canta do que é e vice-versa.

A sua não só era, e é, uma voz necessária porque o que reclama é uma vida justa e humana, mas que, também, sua integridade e honestidade se manteve impoluta, negando-se a servir de alto falante de outros interesses ou rechaçando reconhecimentos com os que pretendiam comprá-lo.

Tão grande era sua figura que não é de estranhar que agora sintam sua falta em milhares de lugares: no prado e na trincheira, no auditório, nas convicções e na alma.

Por isso, ouçamos sua voz porque é o grito do povo.

Fonte: https://loquesomos.org/documental-mi-patria-es-la-libertad-el-cabrero/

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Disseram-me algo
a tarde e a montanha.
Já não lembro mais.

Jorge Luis Borges

[Indonésia] Declaração dos presos anarquistas da FAAF (Associação Livre de Fogos Autônomos)

ACENDENDO UMA CHAMA NA ESCURIDÃO

Nós, anarquistas da Indonésia, enfrentamos uma grande tempestade. Mais de uma dúzia de anarquistas foram presos e torturados, e o Estado tenta nos disciplinar instilando medo. Mas para nós, tudo isso não é nada, porque nós mesmos somos a tempestade, a catástrofe personificada. Aqui estão os companheiros do BlackBloc Zone, Palang Hitam Anarkis Indonesia, Contemplative, Katong Press e outros coletivos.

Nossos companheiros têm a forma de tempestades envoltas em chamas. Alguns consideram este momento o clímax, mas não é nem o começo nem o fim. Estamos reunindo todas as chamas que nos cercam, as chamas que o Estado tentou extinguir.

Quantas vezes precisamos repetir? “Podemos viver sem o Estado!” Dane-se a sociedade! A sociedade é a ferramenta mais preciosa do Estado para preservar sua própria existência. Odiamos a sociedade com todo o nosso coração.

Acreditamos que o amanhecer da fome chegará mais cedo ou mais tarde, e isso marcará o início da era da destruição do Estado.

Para aqueles que estão fora: resistam, reúnam todas as faíscas que puderem. E para aqueles que estão atrás das grades ou se sentem prisioneiros, vocês não estão sozinhos.

Lutem! Lutem! Dane-se a vitória ou a derrota! O importante é que nossos olhos continuem brilhando em cada batalha.

A todos: espalhem a notícia! Morte ao Estado! Viva a anarquia!

FAAF (Associação Livre de Fogos Autônomos)

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Carro em chamas—o fogo
limpa a peste do luxo
que o povo sustentou.

Liberto Herrera

[Uruguai] O vermelho e preto das ruas: alguns apontamentos sobre território e imaginário

Todo projeto anarquista é territorial. Isto no sentido de que é situado, que se planeja sobre um território específico, com sua história, cultura, momento político, condições materiais, relação de forças, etc. Nós, anarquistas, agimos baseando-nos, para a ação, na análise prévia e surgida da prática e do projeto concreto que desejamos realizar em um terreno específico. Seja uma ação em particular, uma sabotagem qualquer, uma ação propagandística ou um jornal virtual, há sempre uma “adaptação territorial” necessária. Assim, as características de cada intervenção dependem das forças próprias, dos princípios e, obviamente, também do contexto e da oportunidade. Neste sentido, a interpretação vinculada ao imaginário desempenha seu papel inevitavelmente.

É certo que muitas vezes a coisa começa por um símbolo; o símbolo costuma ser mais ou menos geral, e quando se aposta em projetos amplos e ambiciosos, mais ainda. As assembleias anarquistas de tal ou qual lugar não tentam impor um signo ideológico a todo o território, mas utilizam conscientemente o nome territorial para mostrar suas intenções projetuais. Isto não é obrigatório, mas tampouco representa algo ruim; ruim (fraco) é agir sem projeto. Uma e outra vez temos falado sobre a importância de uma projeção para uma zona e a necessidade de “fazê-lo bem”. Os projetos propriamente territoriais costumam gerar mais frustrações nos militantes do que ganhos, se realizados pela metade ou como repetição inconsciente. Pensar global e agir local implica um equilíbrio difícil, mas possível. Além disso, toda ação é sempre, de alguma maneira, localizada.

Neste ponto, quero ser muito cauteloso; não creio que haja uma regra, cada companheiro, cada grupo e cada projeto concreto deve definir seus limites e as tensões internas e externas que seu projeto pode assumir. Agora, apenas tento falar de diretrizes gerais. Neste caso, a diretriz é a da necessidade dos símbolos na luta pelo imaginário social. Não apenas para o grupo de companheiros, mas para a sociedade, esvaziada de sentidos coletivos e atomizada por simbologias capitalistas e governamentais. Parto de algo simples: são necessários símbolos, o movimento anarquista deve recuperar a primazia social onde a tinha ou criá-la onde não a tinha. Não há possibilidade de pensar sequer na insurreição, na revolução, sem um imaginário insurrecional ou revolucionário, anarquista, antiautoritário, transformador. Quem não consegue dar nomes, história, materialidade, tensões, às suas ideias, lutará por um fantasma, e ao primeiro sinal de mudança, quando a realidade se mostrar mais complexa, se retirará ou escolherá negá-la. Outra coisa muito diferente é a explosão social, inevitável e imprevisível, talvez, mas todo anarquista sabe que o combate se trava desde antes.

O paradoxo atual do crescimento das ideias antiautoritárias e a perda da rua

Atualmente, desde, pelo menos, a queda do chamado socialismo real, o antiautoritário ganhou muito terreno, sobretudo na academia e no mundo da cultura, mas também nos movimentos sociais. Desde os anos sessenta e setenta, o antiautoritário em sentido amplo (talvez muito amplo) impôs-se nos movimentos sociais, que se tornaram relutantes com mesas executivas ou com a anulação da horizontalidade em prol da antiga postulada “eficácia marxista”. Exemplo disso são os descentralizados movimentos ecologistas e feministas. No entanto, este crescimento, salvo exceções, não se traduz na influência dos grupos ou organizações anarquistas na rua, uma e outra vez arrasados pela recuperação politicista ou pela repressão.

Ao paradoxo anterior – de que, em termos gerais, haja muito mais espaço para as ideias antiautoritárias em certos âmbitos enquanto a influência de rua quase não existe –, devemos somar a expansão de uma revolução autoritária e neoconservadora bombeada a partir das redes capitalistas. A rua é nosso lugar e, como aconteceu outras vezes, as ideias antiautoritárias, se não criarem raízes, logo são arrasadas pelo poder. A luta pelo imaginário é parte do confronto geral de forças contra o capitalismo. As potências da auto-organização, do apoio mútuo e da solidariedade estão aí, mas também precisam circular pela imaginação das pessoas para se instalarem fortalecidas como uma opção quando o imposto se enfraquece. Em definitivo, os símbolos devem ser mantidos, encarnados e fortalecidos pelas práticas concretas. O que em algum momento é apenas imaginário um dia se converte em senso comum, mas para que isso aconteça são necessárias práticas concretas e sua inteligibilidade em símbolos.

Um problema que muitos companheiros têm colocado é o da recuperação pelo reformismo de nossos símbolos. Como se trata de uma relação de forças, muitas vezes isso poderá acontecer, mas também o contrário. Em muitos lugares, Barcelona por exemplo, “o antifa” (que não vem do anarquismo) não tem um signo revolucionário claro, e muitas vezes (embora nem sempre) quando se vê uma bandeira vermelha e preta antifa, quase com certeza se trata de um lugar reformista ou de um partido político de fato. Podem usar o ACAB, o 1312 ou o que seja, mas depois tentam ter, ou já têm, representantes que pactuam com as forças da ordem. No entanto, em Atenas, por exemplo, ainda que possa haver por trás algum grupo mais partidário-político, também o movimento anarquista impulsiona bastante a questão antifascista e seus símbolos, tornando muito mais possível que, se você encontrar uma bandeira vermelha e preta antifa, não haja especuladores políticos por trás. Não há uma essência nos símbolos, não há uma maldição stalinista da frente única ligada à simbologia antifascista, mas sim uma relação de forças concretas que une setores mais ou menos antiautoritários e ideias emancipatórias versus ideias de recuperação. Não é minha ideia recomendar, como já disse, o que cada grupo deve fazer em seu território, apenas refletir acerca da necessidade de símbolos claros atados às práticas.

Tentativas de trabalhar sobre o imaginário social anarquista na sociedade houve muitas nos últimos tempos, sem dúvida. Como anarquistas, nunca marcharemos atrás de uma única cor ou sigla, o que vem de nosso ser refratário. No entanto, acreditamos que se deve tentar, em cada lugar onde for possível, criar pontes para que as pessoas, fora de nossos âmbitos, possam unir signo à prática. No final das contas, signo significa comunicação. Não se trata de agir unidos à força ou mostrar uma falsa ideia de unidade, mas de ampliar a capacidade de influência em tempos de fragmentação criada pelas redes capitalistas. Contrariamente ao que creem vários companheiros, o territorial não deveria necessariamente significar a redução da intervenção anárquica. Estratégica e taticamente seria um erro agir apenas em um local, isso é certo, mas o erro é confundir difusão com atuação ou reduzir intervenção a localismo. A difusão é apenas uma parte da ação e nem toda ação é difusão; sempre se baseia na ética, sim, mas nem sempre se faz com fins de difusão.

Arquipélagos, não ilhas

Diante da necessidade de unir simbolicamente nossas ações à ideia (dizemos simbolicamente pois ação e ideia são a mesma coisa), da necessidade de impulsionar o anárquico como resposta concreta, acessível, e de povoar o imaginário com as práticas reais e possíveis do anarquismo, temos que conseguir transcender nossas redes. Não digo nada que muitos companheiros já não façam, mas quero chegar àqueles que não o consideraram. O erro histórico da organização de síntese, como modo organizativo, talvez, foi querer unir o que era demasiado desigual. Cada tentativa de unir tudo o que não está pronto, ou é antagônico, sempre fracassará. O movimento anarquista deve aprender a lidar com a diversidade, pois a própria ideia anárquica trata da generalização possível das relações sociais não dominadas, portanto, diversas. A união anárquica é voluntária, como nossa ideia de comunidade de luta, mas é preciso conseguir que o diferente se potencialize. Não significa que todos devemos ser amigos, ou nos enquadrarmos numa mesma estratégia, mas sim impulsionar a ideia social por excelência, a anarquia, para além de nossos círculos. O erro histórico da tática da sigla de ataque, talvez, foi assumir a generalização mecânica e não prever ou analisar as diferenças dos territórios de ação, a relação movimento específico e social, repressão, etc.

Outrora, os movimentos anarquistas disputavam o imaginário social com o mundo instituído. Em alguns lugares, os companheiros chegaram a publicar jornais que influenciavam mais do que a mídia burguesa sobre uma população que não havia sido inserida no consumo aparatoso de hoje. O poder foi se adaptando, mudou, obrigado pela luta social, mas o que não mudou foi o domínio que exerce sobre a população e a devastação que provoca sobre o vivo. Propomos, para começar, mudar a atitude de derrota, mesma atitude que se espalhou sobre nossas populações.

Quando analisamos algo, no nosso caso, é para transformá-lo.

R.

Fonte: https://periodicoanarquia.wordpress.com/2025/08/26/el-rojo-y-negro-de-las-calles-algunos-apuntes-sobre-territorio-e-imaginario-2/

Tradução > Liberto

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Borboleta branca
Pousa em minha janela —
Dou-lhe cores vivas

Tony Marques

[Espanha] Lançamento: “Demonios y nihilistas. El Dostoyevski político”, de Costas Despiniadis

Este livro aborda um tema bastante complexo e muito demandado, o Dostoyevski político, se centra principalmente em sua obra Os Demônios. Para esclarecer o caótico mundo de Dostoyevski, examinam-se em detalhe dados fáticos, personagens e acontecimentos históricos e todos os processos revolucionários subjacentes à sociedade russa que desencadearam, junto com a febril trajetória política do autor, a escritura da novela.

Se consideramos o volume de literatura secundária que temos sobre Fiódor Dostoyevski, a primeira vista pode parecer supérfluo mais um livro sobre o grande novelista russo, um dos escritores mais lidos e comentados dos últimos cento e cinquenta anos.

Ademais, sua capacidade única para cativar inclusive o leitor mais elementar – não se pode esquecer que a maioria de seus livros se publicavam em um princípio por entregas em revistas de circulação relativamente massiva na Rússia – pode levar a concluir que nem sequer necessita comentários ou análise de seus livros.

No entanto, como qualquer grande escritor, Dostoyevski tem múltiplas facetas. Se deixamos de lado o primeiro nível de compreensão de leitura, que concerne à trama de cada livro, há em sua escritura muitas “correntes subterrâneas”, multidão de “capas geológicas”, dados históricos e factuais, correntes filosóficas e políticas, debates ideológicos da época, observações psicológicas e questões religiosas que se mesclam habilmente no forno de seu gênio literário e que são tudo menos fáceis de decodificar.

Portanto, desde esta perspectiva, este livro ao centrar-se em Os Demônios, reflete sobre a complexa questão do Dostoyevski “político” e sobre os pressupostos para que os leitores possam compreender o contexto histórico no qual se desenvolve a novela: as pessoas reais que inspiraram o autor para modelar seus personagens, as querelas políticas da época, a relação do próprio autor com a questão da política e das ideias revolucionárias e, em última instância, o complexo mundo de ideias através das quais se cria a novela.

Costas Despiniadis (1978) é editor, tradutor e escritor grego. Conhecido por suas obras que exploram temas políticos e filosóficos, especialmente desde perspectivas do anarquismo e da teoria crítica. Seus livros e textos foram traduzidos a dez línguas. Em castelhano foram publicadas outras obras suas como Noches que olían a muertePrometeo contra LeviatánFranz Kafka. El anatomista del poder.

Demonios y nihilistas. El Dostoyevski político.

Costas Despiniadis

Calùmnia, Garaje, FAL-Aranjuez, Piedra Papel Libros, Volapük

138 páginas, 22×15, rústica con solapas. Madrid, diciembre 2025.

978-84-129699-6-2, 13 euros

volapukediciones.blogspot.com

Tradução > Sol de Abril

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No azul do mar
golfinhos saltam –
parecem brincar

Eugénia Tabosa

[EUA] Católicos podem ser anarquistas?

Neste episódio do podcast, a jornalista e trabalhadora católica Renée Roden discute a história do anarquismo cristão.

Para muitas pessoas, o termo “anarquia” remete a caos, desordem, até violência. No entanto, alguns anarquistas são pacifistas. E alguns são, inclusive, cristãos. As primeiras comunidades cristãs, segundo alguns estudiosos, apresentavam certas tendências anarquistas, como a tomada de decisões por consenso do grupo, em vez de uma hierarquia vertical. Mais tarde, é claro, a Igreja tornou-se mais estruturada e hierárquica. Mas esses fios anti-institucionais da tradição nunca desapareceram completamente. Nos séculos XIX e XX, quando o conceito de anarquia foi formalizado, surgiram diversos grupos que se identificavam explicitamente como anarquistas cristãos, na Rússia, na Europa e nos Estados Unidos.

Embora o anarquismo possa funcionar para grupos cristãos menos estruturados, como anabatistas ou quakers, ele parece se encaixar de forma desconfortável no catolicismo, dada a ênfase da Igreja em regras e hierarquia. Isso significa, então, que católicos não podem ser anarquistas? E como seria, afinal, um anarquismo católico?

Neste episódio de Glad You Asked, os apresentadores conversam com a jornalista e trabalhadora católica Renée Roden sobre a possibilidade de católicos serem anarquistas. Roden escreveu extensivamente sobre o movimento Catholic Worker, bem como sobre movimentos econômicos e trabalhistas. Ela é colaboradora frequente da U.S. Catholic, além de publicar em The Nation, Religion News Service, The Associated Press, Washington Post, Commonweal, Sojourners, America e Notre Dame Magazine. Ela também escreve regularmente para o site catholicworker.org e para seu boletim, Roundtable.

Você pode aprender mais sobre este tema e ler alguns textos de Roden nos links a seguir:

• “O anarquismo cristão é tão antigo quanto o próprio cristianismo”, de Renée Roden

• “O anarquismo do Catholic Worker”, de Renée Roden

• “Uma breve história do anarquismo religioso”, de Kevin Daugherty

• “A revelação divina leva à revolução”, de Alice Camille

>> Escute o podcast aquihttps://uscatholic.org/articles/202510/can-catholics-be-anarchists-renee-roden/

Tradução > Contrafatual

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Uma cigarra
Embala meu sono.
Mas se forem dez…

Ailton Bedani

Romper com a conciliação!

ÀS RUAS PELOS DIREITOS DO POVO E CONTRA OS TRÊS PODERES DOS PATRÕES!

A extrema direita é um desdobramento radicalizado do Estatismo. O bolsonarismo expressou esse desdobramento em especial quando esteve no poder de Estado, buscando aprovar leis que subsidiassem a violência do Estado sobre o povo.

As manifestações do domingo (07/12) contra a violência patriarcal e misógina colocaram na rua milhares de mulheres contrárias ao conservadorismo da extrema direita e à violência misógina a qual as mulheres em geral são vítimas, mas em especial as mulheres trabalhadoras. Em que pese a característica policlassista em geral destes atos, a FOB levantou a pauta em defesa da mulher trabalhadora, principal vítima da opressão machista e exploração capitalista.

Nos dias que se seguiram o Congresso Inimigo do Povo entrou em contraofensiva aprovando o PL da dosimetria e o Marco Temporal, garantindo tratamento privilegiado aos golpistas do 8 de janeiro de 2023 e atacando frontalmente o direito ao território dos Povos Originários.

A esquerda governista, renovada (PSOL/UP) ou degenerada (PT/PcdoB/PDT) rapidamente convocou novas manifestações para o dia 14/12, desta vez com a palavra de ordem “SEM ANISTIA”. Entendemos que esta palavra de ordem é o reforço do Estado burguês, em especial, da repressão estatal. É de fundo, defender o recrudescimento das instituições burguesas sobre o povo, que de acordo com a correlação de forças e avanço das lutas do povo pobre e explorado, se voltará contra as camadas populares em luta e contra os revolucionários.

Esta leitura não significa que a FOB defende a pauta da anistia, pelo contrário. A ação do congresso expressa aquilo que o hino dos trabalhadores já denunciou há mais de um século “o crime do rico a lei o cobre, o Estado esmaga o oprimido, não há direitos para o pobre, ao rico tudo é permitido.” Que as elites realizam grandes acordos, e modificam as leis visando seus interesses, como o grande acordo que envolveu as frações do parlamento, judiciário e executivo na aprovação do PL da dosimetria. Ou seja, os interesses da extrema direita envolvem o recrudescimento do Estado penal apenas para a população pobre, não pros de “colarinho branco”, como a corja golpista.

Para virar o jogo nosso papel não deve ser reforçar o Estado repressor e construir manifestações visando apenas alterar o coeficiente eleitoral como vem fazendo as frações governistas, mas levar às ruas pautas concretas para a nossa classe como o combate ao marco temporal e contra a escala 6×1, defendendo a 4×3 com no máximo 30 horas semanais. Estas bandeiras atendem aos povos oprimidos e explorados pelo grande capital, em especial as mulheres que sofrem com a jornada de trabalho e a jornada do “cuidado” doméstico devido a tradição patriarcal.

Em algumas cidades os atos estão sendo convocados com shows, inviabilizando a possibilidade de manifestações combativas. Novamente a esquerda reformista repete a tentativa de controlar a fúria popular através de manifestações festivas. As manifestações são instrumentos de demonstração de insatisfação com algo, no caso, com a tentativa de salvar o bolsonarismo e atacar o acesso dos povos originários às suas terras. Portanto as manifestações são instrumentos de potencial explosão de indignação popular. Já as festas tem por objetivo agregar as pessoas pela música e sociabilidade.

Ao reformismo é interessante misturar ambas as coisas, pra tirar o possível caráter de combatividade e de autonomia popular de uma manifestação, conduzindo os afetos e interesses das massas para a sociabilidade festiva, apresentando como saída a disputa pela balança eleitoral que venha a desfavorecer a extrema direita mesmo que para isso setores da direita tradicional sejam favorecidos. Já para os revolucionários é um processo que deseduca às massas a lutar, entregando aos “políticos profissionais” a responsabilidade de representar o povo, cabendo a estes serem apenas massa de manobra das elites políticas.

Orientamos a denúncia e combate à lei da dosimetria e ao Marco Temporal. Combatemos a extrema direita com as armas do proletariado, com pautas que contestem o sistema econômico capitalista, como a escala 4×3 de no máximo 30h/s, o direito à terra dos povos originários. Estas pautas sendo arrancadas através de organização popular que vão amadurecendo e realizando manifestações que acumulem para uma Greve Geral que possa emparedar os capitalistas através do combate classista!

Camaradas, ao trabalho e às ruas!

Fim da escala 6×1. Em defesa da escala 4×3 de até 30 horas semanais!

Contra o Marco Temporal! Pelo direito à terra dos povos originários!

Construir a Greve Geral!

lutafob.org

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ao seu voo rápido
borboletinha amarela
o mais é cenário!

Gustavo Terra

[Espanha] Antonia Maymón. Anarquista, professora, naturista

Antonia Maymón (Madrid, 18 de julho de 1881 – Beniaján, Murcia, 20 de dezembro de 1959) foi uma pedagoga racionalista, militante naturista e anarcofeminista espanhola. Fez parte do Comitê Nacional contra a guerra do Marrocos. Dedicou sua vida à criação e promoção de escolas racionalistas e pôs toda sua energia em praticar uma docência de acordo com seus pensamentos. Escreveu em numerosas publicações tanto libertárias como generalistas.

Foi apontada, perseguida, desterrada e encarcerada, e apesar de exílios e prisões, nunca abandonou sua rebeldia nem sua vontade de acompanhar os mais jovens em sua formação como pessoas livres, autônomas e com espírito crítico.

Difundir a biografia e a obra de Antonia Maymón foi um projeto pessoal de Pilar Molina Beneyto. A redação deste livro estava finalizada nos últimos meses de 2007. Em fevereiro de 2008, a falta da correção definitiva, Pilar decidiu deixar-nos. Durante os anos transcorridos desde então, publicaram-se diferentes e valiosas obras que tratam sobre Antonia ou algum dos âmbitos de seu trabalho. Poderíamos ter modificado a redação, acrescentando novas citações, incorporando alguns dados ou mudando outros, isto teria sido possível, mas não seria já a obra que conheceu Pilar. Por isso, decidimos conservá-la tal e como ela a deixou. Agradecemos sua colaboração a todas as pessoas que se envolveram neste projeto.

Mª Carmen Agulló Díaz

M Pilar Molina Beneyto

>> Baixar o livro [PDF]https://www.solidaridadobrera.org/ateneo_nacho/libros/M%20C%20Agull%C3%B3%20y%20M%20P%20Molina%20-%20Antonia%20Maym%C3%B3n.pdf

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Família: prisão
com papel de parede
de flores falsas.

Liberto Herrera

[Espanha] Nova edição: Durruti na Revolução Espanhola, de Abel Paz.

Buenaventura Durruti é uma das principais figuras do anarquismo espanhol, o que equivale a dizer dos últimos cento e cinquenta anos da nossa história. Porque, apesar das tentativas de subestimar, desprezar, quando não ignorar, a extensão, persistência e enraizamento das ideias anarquistas em nossa sociedade, qualquer observador que se aproxime do nosso passado mais recente não poderá deixar de notar a presença de mulheres e homens que, a partir de diferentes organizações e abordagens, defenderam as ideias libertárias.

Esta biografia não pretende mitificar o militante ácrata, nem elevá-lo ao panteão dos filhos ilustres mortos pela pátria ou pela revolução.

Mas isso não significa que devemos jogar no esquecimento personagens que, por suas qualidades pessoais ou pelas circunstâncias concretas que lhes coube viver, podem representar outros milhares de homens e mulheres anônimos e sintetizar acontecimentos que devem ser lembrados além da história oficial, daquela elaborada pelo Poder. Como instrumento de luta, como elemento de resistência à desinformação imperante, reedita-se “Durruti na Revolução Espanhola”.

DURRUTI en la Revolución Española

Abel Paz

Madrid, 2025

ISBN: 978-84-127509-9-7

773 págs (+ 5 cadernos interiores com fotografias). PVP: 28 euros

fal.cnt.es

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Órgãos sem Estado,
prazer sem fronteiras—o corpo
é território livre.

Liberto Herrera