[Grécia] Café Antimilitaire: Avançando a Inteligência Artificial (de Guerra)

Domingo, 7 de junho, às 18h, no espaço de expressão, solidariedade e conflito “Parodos” (P. Tsaldari 173, Nice)

Como qualquer inovação tecnológica, a inteligência artificial é ora elogiada como “progresso revolucionário”, ora demonizada como o “fim do mundo”. Na realidade, trata-se de mais uma tecnologia tangível para aprofundar e reestruturar as relações de poder com aceleração rápida e fronteiras inexploradas.

Na “arte da guerra”, a IA significa aprimorar a violência militar e repressiva, com Estados, patrões e exércitos abdicando da responsabilidade por suas atrocidades. Significa fortalecer a máquina de guerra e minar a resistência social contra ela. A IA não “nos liberta”, mas nos acorrenta ainda mais às classes dominantes.

Iniciativa pela recusa total do serviço militar (Atenas)

olikiarnisi.espivblogs.net

agência de notícias anarquistas-ana

Chuva de granizo —
Compartilho com os pássaros
A minha varanda

Tony Marques

[República Tcheca] A história sem fim do caso Fênix 2

Por Lukáš Borl | 03/06/2026
 
A próxima audiência pública no caso Fênix 2 ocorrerá em 9 de junho de 2026, às 8h15, no Tribunal Regional de Ústí nad Labem. Como um dos réus neste caso, gostaria de fazer algumas breves observações.
 
Fontes públicas indicam que, desde 2010, ocorreram pelo menos 17 ataques incendiários contra propriedades na República Tcheca, pelos quais anarquistas reivindicaram publicamente a autoria. Especificamente, houve dois ataques incendiários a praças de pedágio, um à Embaixada da Grécia, nove a viaturas policiais, quatro a carros pertencentes a capitalistas e um a uma loja de câmeras de segurança…
 
No total, os danos materiais foram estimados em dezenas de milhões de coroas, mas, apesar de anos de investigação e processos judiciais, ninguém foi condenado.
 
A polícia e os tribunais têm tecnologia, recursos e pessoal de sobra à sua disposição, mas alguém está deliberadamente incendiando carros e outras propriedades bem debaixo do seu nariz, sem que ninguém consiga provar quem está por trás disso. Mesmo assim, eles continuam tentando e se recusam a desistir. O julgamento do caso Fênix 2 ainda está em andamento. Eles continuam tentando me ligar, a mim e aos meus amigos, a alguns dos ataques a propriedades mencionados, para nos condenar e nos punir. Eles ainda se apegam à fantasia de que as ações diretas dos anarquistas acontecem porque alguém os está incitando ou promovendo algo. Mas, como é sabido, os anarquistas não precisam nem querem líderes que lhes digam o que fazer e como fazer. Se os anarquistas realizam ações diretas ofensivas, certamente têm suas próprias razões e considerações para fazê-lo. Acredito que eles são mais motivados pela visão da polícia assediando, espancando, torturando ou enviando alguém para a prisão do que pelo que alguém escreve, diz ou publica.
 
Fonte: https://lukasborl.noblogs.org/nekonecny-pribeh-kauzy-fenix-2/
 
Conteúdo relacionado:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/16/republica-tcheca-finalmente-a-fenix-esta-morta/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
O céu da tarde.
Como é belo quando os mosquitos
Começam a zumbir.
 
Issa

[Galícia] CSOA A Miñoca: criando bairro contra a especulação imobiliária

Um novo centro social autogestionado, o único ocupado da Galícia, abre suas portas em Santiago de Compostela para responder à necessidade de vida comunitária sem consumo.

Por Elena Martín | 27/05/2026

Poucas criaturas são tão importantes para a saúde dos ecossistemas quanto as minhocas. Pequenas e rosadas, muitas vezes definidas como feias e desagradáveis, as minhocas são as engenheiras silenciosas dos nossos solos. Ao arejar o chão, melhorar a retenção da água ou ajudar a fertilizar as plantas, esses seres vivos sustentam, sem que se lhes dê valor, parte da vida do planeta.

Os centros sociais nas nossas vilas e cidades fazem um trabalho semelhante. Criam espaços de encontro onde a vizinhança pode tecer comunidade e resistir diante de uma lógica que já não vê os bairros como espaços de vida e cuidados, mas sim de produtividade econômica. Por isso, faz todo o sentido que o novo centro social ocupado de Santiago de Compostela se chame assim: A Miñoca (A Minhoca).

Um ponto de encontro no coração de Compostela

O Centro Social Ocupado Autogestionado Anarquista A Minhoca está localizado naqueles edifícios que os vizinhos de Compostela conhecem, ainda que de ouvido. Este galpão fica muito perto da Sala Capitol e da livraria e sala de cinema Numax, e fez parte, durante anos, da vida do bairro de Sar.

“É um espaço histórico para o bairro, todo mundo conhecia este galpão. Antes foi uma empresa de construção e depois ficou uns dez anos vazio”, contam do CSOA. “Depois tentou-se fazer um projeto de teatro, a Sala Montiel, mas acabou fechando em 2017”. Agora o galpão é propriedade de um construtor, Jorge Devesa, que quer derrubá-lo para construir apartamentos turísticos. Para o coletivo, isso implica mais cimento e menos bairro, uma amostra de como os espaços históricos e coletivos acabam a serviço de interesses individuais.

“Ocupamos este edifício porque ele é um exemplo do que está acontecendo com Compostela. Não estamos entrando no espaço de um vizinho, mas sim de um especulador que quer ganhar dinheiro à base de expulsar a vizinhança do bairro”, alegam as pessoas que fazem parte do coletivo A Minhoca. “Queremos criar um espaço onde os vizinhos, a garotada e pessoas de toda a cidade possam vir, se encontrar e criar comunidade sem necessidade de consumir. Buscamos dar resposta a essa necessidade”, afirmam em conversa com O Salto.

Desde A Minhoca lembram que Compostela não tem muitos lugares onde seus habitantes possam se divertir sem gastar dinheiro. Os poucos lugares coletivos que ainda havia, como a Casa do Peixe e a Casa Encantada no mesmo bairro de Sar, ou Matadouro e o CSOA Eskarnio e Maldizer, estão fechados, sendo este último tapado há poucos meses.

Portas abertas para todo mundo que quiser se aproximar

Durante a entrevista, um vizinho se aproxima do local para avisar, preocupado, que ontem alguém do coletivo deixou as chaves na porta do lado de fora e que tomem cuidado. Não é o único que parece querer que o projeto funcione. Desde A Minhoca fazem um trabalho muito ativo para se dar a conhecer no bairro, perguntando aos vizinhos o que pensam e garantindo que não há opacidade em torno do centro.

De fato, quando o coletivo saiu pelas ruas do bairro para se apresentar, de cada quinze portas que batiam, catorze se abriam com um sorriso. Uma realidade que pouco tem a ver com o discurso que está sendo construído por alguns meios de comunicação. “Outro dia havia uma jornalista da TVG que parecia querer forçar que a senhora que estava sendo entrevistada dissesse que os ocupas estão errados, mas ela não conseguiu”, comentam. “Mais do que isso, hoje de manhã, por exemplo, estávamos tomando sol na porta e uma mulher de uns sessenta anos passou na nossa frente. Ao nos ver, disse que estava encantada e que podíamos contar com todo o apoio dela. É possível que esta acolhida seja em parte porque aqui permanece a lembrança de outros centros como a Casa do Peixe, que fizeram muita vida de bairro”.

A cada dia entram pelo menos duas pessoas novas para conhecer o centro, perguntar sobre o projeto ou oferecer ajuda. O coletivo diz que sempre aprendem os nomes das pessoas que se aproximam até lá ou com quem falam. Também procuram perguntar sobre seus ofícios e há quantos anos moram no bairro. “Temos que nos lembrar delas, que são nossas vizinhas”, dizem com um sorriso.

Para o coletivo, também é importante que o espaço seja realmente intergeracional, com pessoas de todas as idades se sentindo à vontade nele. Que o centro seja composto por todos os tipos de pessoas é o que lhes dá esperança de fazer bairro.

“Outro dia, por exemplo, foi muito legal porque uma mãe entrou com a filha dela, que deve estudar na escola que fica em frente. A mãe nos contou que a menina tinha interesse em saber o que estava acontecendo aqui, então ela decidiu se aproximar com a menina para que ela observasse por si mesma”, explicam. “E foi incrível porque desconstruímos totalmente a imagem de ocupas violentos que passam nos meios de comunicação. Estávamos lanchando no meio de uma assembleia”.

Existindo sem pedir permissão

O discurso contra a ocupação de imóveis tem sido muito barulhento há anos. Os meios de comunicação repetem a palavra “ocupa” como se fosse sinônimo de ameaça, mas as pessoas que abriram A Minhoca sabem que a realidade é outra. “No final das contas, o que estão fazendo é criminalizar a pobreza”, dizem. “Enquanto alguém com um chaveiro cheio pode ser proprietário de meia cidade sem que isso apareça nos telejornais como um escândalo, nós temos vinte e dois anos, estudamos uma faculdade, temos trabalho e precisamos de três meses de caução e um fiador para conseguir um apartamento por mil euros, e disso não se fala como algo terrível”.

Diante dessa situação, a ocupação, explicam, não é só uma necessidade prática, mas também uma posição política. Na Galícia, existe uma tradição de propriedade comunitária no rural, como são os montes em mão comum, e desde a Minhoca se perguntam por que não pode existir isso nos espaços urbanos. “Por que temos que reduzir tudo à propriedade privada ou à propriedade pública, ambas sujeitas à permissão de alguém?”, questionam-se no CSOA. “Reivindicamos uma forma diferente de propriedade, realmente autogestionada e nas mãos da nossa classe social. Porque nós não vivemos do suor dos outros, vivemos enriquecendo os outros para poder sobreviver neste sistema, e por isso precisamos de espaços onde tecer redes de resistência diante de um sistema que é muito desumano”.

Por isso, este centro também se define como anarquista, porque não concebem outra forma de estar no mundo e acreditam que outras formas de se organizar são possíveis para além das estruturas hierárquicas, autoritárias e conformistas com o sistema.

“Acreditamos que as propostas que o anarquismo traz ajudam justamente a criar toda essa comunidade que estamos falando, a criar essas redes, a confrontar diretamente o capital através de uma vizinhança organizada, forte e empoderada”, alegam.

Tecer comunidade num bairro ameaçado

Os bairros de Santiago se esvaziam à força de sua essência. O turismo em excesso, o Caminho como indústria, os apartamentos turísticos… tudo aponta na mesma direção: o desaparecimento da vida em comunidade, trocada por cidades onde as pessoas já não podem mais se dar ao luxo de viver.

Nesse contexto, A Minhoca não é só um centro social, é uma demanda de que os bairros são para quem os habita. Num tempo em que a tecnologia digital colonizou os espaços de sociabilidade, o coletivo reivindica o encontro físico, o conhecer-se de verdade. Sair da vida digital para voltar a nos encontrar cara a cara.

Na quinta-feira passada, fizeram uma abertura de portas onde incentivavam as pessoas a se aproximarem para conhecer o centro, ajudar nos reparos que o galpão precisa e trazer qualquer coisa que acharem que pode ser útil no espaço. A intenção é arrumar A Minhoca em comunidade e, de quebra, aprender entre todos sobre marcenaria ou como consertar uma tomada. “Não é só reabilitar o espaço, é aprender também. Talvez você não tenha outro momento na vida em que precise cimentar um chão, mas são coisas práticas”, refletem.

Em junho está prevista a primeira assembleia aberta, e já têm em mente uma programação que inclua teatro, circo, dança, cursos e oficinas. Quanto ao futuro legal, são realistas. O proprietário apresentou denúncia, embora até a data desta reportagem não tenha chegado notificação formal ao espaço. Os prazos jurídicos falam de uns dois anos até uma possível resolução.

“Temos exemplos de outros centros sociais ocupados que duraram muito mais. Acreditamos que há possibilidades”, comentam. “Mas temos clara uma coisa: se nos tirarem deste espaço, abrimos outro até que Santiago tenha lugares onde possamos estar em comunidade sem necessidade de consumir”.

A minhoca habita a terra, move-a, abre caminhos no chão, invisíveis mas infinitos. Se para uma minhoca fecharem uma saída, ela logo cria outra. Esses seres são inofensivos, mas indispensáveis para a existência de muitos seres vivos. “Somos a imagem oposta à dos ocupas violentos e agressivos, aquela imagem em que os meios de comunicação insistem”, explicam no CSOA. “Por isso escolhemos esse nome”.

Dessa forma, como as pequenas criaturas que ajudam nossos ecossistemas, desde este centro social continuarão fazendo um trabalho imprescindível para os nossos bairros. Aprendendo a construir um lugar para todos, com paciência e em comunidade.

Fonte: https://www.elsaltodiario.com/santiago-de-compostela/csoa-minoca-creando-barrio-especulacion-inmobiliaria

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Lindas joaninhas,
voam pelo quintal
trazendo alegria!

João Márcio da Cunha Lopes Filho

[Rússia] Tortura de um fora da lei

O anarquista e matemático russo Azat Miftakhov afirma ter sido torturado na prisão. Seu caso exemplifica o tratamento dado aos dissidentes do regime autoritário russo.
 
Por Katja Voronina | 25/05/2026
 
Assassinos em série, reincidentes, neonazistas: a colônia penal russa IK-18, localizada ao norte do Círculo Polar Ártico e eufemisticamente chamada de “Coruja Polar”, também abriga prisioneiros cumprindo penas de prisão perpétua. E desde 20 de abril, é o lar do matemático e anarquista Azat Miftakhov (também grafado Asat Miftachow). Segundo seu próprio relato detalhado, ele foi torturado lá no dia seguinte à sua chegada. No início de maio, o portal de notícias russo The Insider, especializado em jornalismo investigativo, publicou uma reportagem completa baseada no depoimento de Miftakhov.
 
Os detentos passam suas primeiras semanas em uma nova colônia penal em quarentena. De acordo com a reportagem, Miftakhov foi então levado de lá para o bloco administrativo, uma seção do presídio conhecida como “Lubyanka”, uma referência à sede do FSB em Moscou, a agência de inteligência russa anteriormente conhecida como KGB. Dois prisioneiros o obrigaram a limpar o banheiro.
 
Quando Miftakhov se manteve firme mesmo depois de conversar com um funcionário da colônia penal, Mikhail Sobolev, foi submetido a uma violência brutal: Sobolev e outro detento o jogaram no chão, amarraram seus membros com fita adesiva e golpearam repetidamente os calcanhares do anarquista indefeso com um martelo de madeira até que ele perdesse a consciência. Após mais espancamentos, ameaçaram estuprar Miftakhov. Abaixaram suas calças e Sobolev começou a aplicar lubrificante em seu ânus com os dedos.
 
Depois que outro funcionário chegou, continua o relatório, arrastaram Miftakhov para o corredor, removeram a tampa de um bueiro e aproximaram seu rosto quase das fezes no esgoto; mais espancamentos se seguiram. No andar de cima, seus algozes amarraram seus dedos dos pés com cabos e lhe aplicaram choques elétricos. Música pop alta abafava os gritos de Miftakhov. Qualquer recusa em cumprir as regras degradantes da administração era punida com mais choques elétricos, disse ele. Até o final do seu turno.
 
A menos de um quilômetro de distância fica a colônia penal IK-3, “Lobo Polar”, onde o político da oposição Alexei Navalny teria sido assassinado em fevereiro de 2024. O fato de Miftakhov, como prisioneiro político, ter sido banido para uma das colônias penais mais notórias e remotas representa mais uma escalada em uma longa série de represálias direcionadas. A polícia considerava Miftakhov membro do grupo anarquista Autodefesa Popular. Quando foi preso em 1º de fevereiro de 2019, o neto de um escritor, nascido no Tartaristão em 1993, estava preparando sua tese de doutorado em matemática na Universidade Estatal de Moscou.
 
Fotos íntimas compartilhadas
 
De acordo com a acusação inicial, Miftakhov teria fabricado um dispositivo explosivo para um ataque. Poucos dias após sua prisão, ele foi libertado e imediatamente preso novamente, desta vez por suposto envolvimento em um ataque no ano anterior a um escritório do partido Rússia Unida, do Kremlin, que resultou em pequenos danos materiais. Uma testemunha de acusação, que preferiu não ser identificada, afirmou ter reconhecido Miftakhov por suas “sobrancelhas expressivas”. Isso foi suficiente para uma sentença de seis anos de prisão.
 
Assim que Miftakhov deixou a colônia penal, foi preso novamente e, posteriormente, condenado a mais quatro anos por “justificar o terrorismo”. Um colega de cela o denunciou. Na prisão, Miftakhov enfrentou pressão constante. Segundo sua esposa, Yelena Gorban, o FSB compartilhou fotos íntimas do anarquista bissexual com outros presos.
 
Isso o tornou um “degradado” na hierarquia homofóbica do sistema prisional russo, um status equivalente ao de um fora da lei. A única proteção mínima que recebe são visitas regulares de um advogado, para as quais o comitê de apoio Solidarité Free Azat, fundado na França em 2023, arrecada fundos por meio de sua associação.
 
Não é um caso isolado
 
“Azat não é um caso isolado”, enfatiza Alexandra Zapolskaya, da Solidarité Free Azat, em entrevista ao Jungle World. Ele é um dos muitos que se opõem ao regime autoritário do presidente Vladimir Putin. Atualmente, o centro de direitos humanos Memorial classifica 1.573 presos na Rússia como presos políticos. Motivações políticas em processos judiciais são evidentes em mais de 5.000 casos no total.
 
Zapolskaya apoia Miftakhov desde o início, primeiro em Moscou e agora em Paris. Mesmo na prisão, ele não se esquiva de suas convicções anarquistas e continua a estudar matemática. “Recentemente, em uma troca de correspondências com um matemático francês, ele resolveu um problema matemático que não havia sido solucionado”, diz Zapolskaya.
 
Que Miftakhov está sendo perseguido por sua posição é, na opinião dela, indiscutível. “Eles estão tentando quebrá-lo, mas ele se recusa veementemente a aceitar isso”, afirma. A prisão não é punição suficiente para as autoridades, então elas recorrem à tortura. “Este caso específico, de forma alguma único, serve como exemplo de como um regime autoritário lida com dissidentes.”
 
A administração penitenciária agora exige que Miftakhov encubra o incidente. A Anistia Internacional pediu uma investigação completa sobre suas declarações a respeito da tortura.
 
Fonte: https://jungle.world/artikel/2026/21/russischer-anarchist-folter-eines-vogelfreien
 
Conteúdo relacionado:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/09/01/franca-comunicado-da-secretaria-de-relacoes-internacionais-da-fa-libertem-nosso-companheiro-azat-miftakhov/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
tuas mãos na minha pele
entre os raios de luar
fazem cinema
 
Lisa Carducci

O Estado italiano solicita a extradição do anarquista revolucionário Gabriel Pombo da Silva

Recordamos que, em dezembro de 2025, nosso camarada, que já passou mais de trinta anos em diversas prisões europeias, foi detido com base em um Mandado de Prisão Europeu (MPE) expedido pela Itália. Sua prisão, que durou cinco horas, terminou quando o juiz de instrução espanhol concedeu-lhe liberdade provisória, mediante assinatura de documento e proibição de deixar o território espanhol.
 
Este MPE é resultado da “Operação Scripta Manent” de 2016, uma das muitas operações repressivas da Itália, que culminou, para Gabriel, em 2022, com uma sentença de dois anos por “incitação ao crime”. Esta investigação resultou na acusação de 23 anarquistas, incluindo Anna Beniamino, condenada a 17 anos e 9 meses, Alfredo Cospito, condenado a 23 anos e atualmente preso sob o regime do Artigo 41 bis desde 2022, também em decorrência da chamada “Operação Sibilla”, e Alessandro Mercogliano, que faleceu tragicamente em ação juntamente com Sara Ardizzone em 19 de março de 2026. Todos os companheiros foram acusados de diversos crimes, com a agravante de intenção terrorista em relação à Federação Anarquista Informal e a diversas publicações anarquistas.
 
No final de novembro do ano passado, o tribunal supervisor de Turim anunciou que as medidas alternativas solicitadas pelo advogado de Gabriel não seriam aceitas devido à “falta de autocrítica em relação aos seus próprios valores” (uma metáfora para sublinhar a sua falta de arrependimento), permitindo assim a execução da sentença. Em 7 de dezembro, o juiz de instrução espanhol considerou o crime alegado pela Itália como um crime de opinião e, portanto, não ordenou sua prisão, solicitando uma série de documentos de ambas as partes.
 
Há alguns dias, chegou uma ordem assinada pelo mesmo juiz de instrução, decidindo em parte a favor de ambos os lados, permitindo a extradição de Gabriel para a Itália, caso certos requisitos sejam atendidos. Trata-se de uma ordem extremamente contraditória, repleta de mentiras, na qual a promotoria de Turim se valeu de psicologia propagandística, extrapolando palavras e conceitos da condenação de Gabriel para justificar seu pedido. Essa ordem conclui a fase de investigação preliminar, mas não é definitiva, e o advogado está recorrendo dela.
 
Mesmo que as condições legais para que Gabriel cumpra sua pena em prisões italianas não existam, não é difícil interpretar esse ato como mais uma das muitas manobras que o Estado italiano vem utilizando há anos (com a “Op. Ardire” de 2012, incorporada quatro anos depois à “Operação Scripta Manent”) para continuar prendendo prisioneiros de guerra.
 
Dentro de algumas semanas, o promotor e o advogado apresentarão seus argumentos em uma audiência na Audiência Nacional (o “TOP” – tribunal de ordem pública – da ditadura franquista, que julgava e condenava todos os inimigos da fé católica-fascista).
 
A mensagem é clara: aqueles que lutam incansavelmente devem ser punidos de forma exemplar.
 
Não estamos surpresos com a situação e estamos nos preparando para tudo, mais fortes do que nunca.
 
Vamos conversar sobre tudo isso e muito mais com Gabriel e Elisa por videoconferência.
 
Encontro no domingo, 7 de junho, às 18h, no Baracca Rossa,
Via Principe Amedeo 33, Cagliari.
 
Anarquistas contra a prisão e a repressão
 
Biblioteca Anarquista “G. Ciavolino”
 
Fonte: https://sardegnaanarchica.wordpress.com/2026/05/17/lo-stato-italiano-chiede-lestradizione-dellanarchico-rivoluzionario-gabriel-pombo-da-silva/
 
Conteúdo relacionado:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/05/15/espanha-nao-a-extradicao-para-a-italia-do-nosso-companheiro-gabriel-pombo-da-silva/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Estivesse meu pai aqui,
Contemplaríamos a aurora
Sobre os campos verdes.
 
Issa

8ª Transmissão Antifascista das Rádios Livres Ibéricas

Diversas Rádio Livres de diferentes territórios da Península Ibérica se unem, mais uma vez, para realizar uma transmissão conjunta com duração de 14 horas, desta vez com um claro sentimento de resistência antifascista.

Nestes tempos em que o discurso de ódio se infiltra pelas frestas de nossos bairros, nós, as Rádio Livres, queremos confrontar, através das ondas do rádio, as ações e os pensamentos que ameaçam os direitos humanos e que tentam nos vender mensagens autoritárias e excludentes como salvação, culpando grupos de migrantes, o feminismo ou a dissidência sexual ou de gênero, entre outros, por todos os males.

Diariamente, vemos como a grande mídia encobre as narrativas reacionárias da extrema direita, chegando a justificar atos fascistas violentos. Eles rotulam as tentativas de grande parte da sociedade de deter a extrema direita como “polarização”. É por isso que as emissoras de rádio independentes que participam desta 8ª Transmissão querem criar um espaço radiofônico no dia 6 de junho para amplificar as vozes dos diversos grupos e indivíduos que, em seu cotidiano, lutam para que o medo e o ódio não dominem nossas vidas. Queremos que o grito “NÃO PASSARÃO!” seja ouvido alto e claro em nossas emissoras.

Desde as 10h da manhã até a meia-noite, uma programação conjunta de programas antifascistas especiais será transmitida continuamente no site www.radioslibres.info e nos sites e estações de FM das emissoras de rádio e projetos radiofônicos participantes.

Rádios confirmadas:

10h00 – 11h00 Rádio Agora Sol

11:00 – 12:00 Rádio Argayo

12:00 – 13:00 Rádio Ruído Feminista

13h00 – 14h00 Rádio La Granja

14:00 – 15:00 Rádio Qk

15h00 – 16h00 Lanterna de Diógenes

16:00 – 17:00 Rádio RSK

17h00 – 18h00 Zintzilik Irratia

18h00 – 19h00 Contrabanda FM

19:00 – 20:00 Rádio Topo

20:00 – 21:00 Irola Irratia

21h00 – 22h00 Rádio Almaina

22h00 – 23h00 Rádio Temblor (Panamá)

23h00 – 00h00 Coletivo La Insurgente (Chiapas)

A emissão da 8ª Transmissão Antifascista das Rádios Livres inclui, entre outros, entrevistas com Ane Lindane e Nuria Alabao; leituras de biografias de companheiros assassinados por grupos fascistas; conteúdo sobre o antifascismo em bairros operários de Madri e a participação de rádios livres de Abya Yala, como a Rádio Temblor do Panamá ou o coletivo La Insurgente de Chiapas.

Esta 8ª edição faz parte da iniciativa organizada pelas Rádios Livres desde 2020, durante o período de confinamento. As edições anteriores das transmissões também podem ser ouvidas no site www.radioslibres.info.

lazarzamora.cl

agência de notícias anarquistas-ana

peixes voadores
ao golpe do ouro solar
estala em farpas o vidro do mar

José Juan Tablada

O anarquismo negro na África do Sul (1910-1920)

Por Carlos Ferreira de Araujo JR.

Na África do Sul, o poder esteve nas mãos ensanguentadas de uma minoria branca por séculos. Diversas etnias originárias foram submetidas, segregadas e violentadas. O regime do Apartheid, oficialmente implantado em 1948, durou décadas e marcou negativamente a história da África do Sul.

Antes do Apartheid, porém, existiam outras formas/táticas de controle, como a Lei de Passes, onde as populações negras e indianas eram obrigadas a portarem passaportes com registros especificando lugares, horários e moradias das pessoas não-brancas. O segregacionismo era replicado pela maioria dos trabalhadores brancos pobres.

Os primeiros sindicatos da África do Sul, criados no fim do século 19, também eram restritos aos brancos. Os brancos pobres defendiam o trabalhismo restrito: bem estar social, direitos trabalhistas e reserva de trabalho para operários brancos. Esse quadro predominou até meados dos anos de 1910. O anarquismo na África do Sul surge num contexto de dominação colonial e de brutal segregação racial. Uma das associações mais radicais surgidas no período foi a International Social League (ISL) que tinha como:

objetivo declarado da ISL, de ser uma organização que atravessasse a linha de cor, era radical demais para a maioria dos trabalhadores brancos, que não reagiam bem às incessantes tentativas da ISL para reformar os sindicatos existentes. Na verdade, os oradores da ISL enfrentavam uma considerável e crescente violência no final da década de 1910.

Liga Internacional Socialista (ISL), criada na segunda metade dos anos de 1910 e de orientação sindicalista revolucionária, foi uma associação libertária e interracial, anti-capitalista e anti-segregacionista. Ao contrário do trabalhismo branco, ideologia dos sindicatos sul africanos restritos aos brancos, os sindicatos anarquistas defendiam além da filiação de negros e asiáticos nas associações o fim das leis de passes e o fim de outras formas de segregação racial.

O anarquismo sindicalista atraiu muitos operários negros e indianos: Fred Cetiwe, Johnny Gomas [foto], Hamilton Kraai, Bernard L. E. Sigamoney e T. W. Thibedi, para citar alguns.  O professor anarquista indiano Bernard Singamoney foi um militante bastante ativo na África do Sul na década de 1910. Foi filiado ao Sindicato Industrial dos Trabalhadores Indianos em Durban e a ISL. 

O militante Hamilton Kraai foi bastante ativo na ISL além de ser membro dos Trabalhadores Industriais da África. Organizou diversos protestos e atos de desobediência civil contra as leis do passe em 1919. Já Fred Cetiwe foi um dos mais radicais defensores do socialismo revolucionário da ISL. Ele pregava abertamente o fim do sistema capitalista e do segregacionismo.

Thibedi William foi um professor anarco-sindicalista sul africano nascido no ano de 1888. Na cidade de Johanesburgo, Thibedi ingressou na Liga Internacional Socialista, de orientação sindicalista revolucionária, em 1915. Esta associação era uma das maiores da África do Sul e Thibedi se tornou um dos mais carismáticos representantes anarquistas da Liga. A ISL chegou a ser atacada por hooligans brancos da África do Sul.   

Já Johnny Gomas nasceu em 1901, na cidade do Cabo. Gomas foi alfaiate e também ingressou na ISL. Também foi filiado ao Sindicato Industrial dos Têxteis de Kimberley. Em meados dos anos de 1920, Gomas fez parte do Partido Comunista na África do Sul. Ele morreu em 1979.

O anarquismo sindicalista das duas primeiras décadas do século 20, na África do Sul, desempenhou, portanto, um papel fundamental na luta contra o sistema colonial, o preconceito racial e as políticas segregacionistas. Comunistas, sindicalistas e libertários negros e indianos foram pioneiros na luta contra a opressão dos povos não-brancos na África do Sul.

[1] WALT, Lucien Van Der. Negro e Vermelho. anarquismo, sindicalismo revolucionário e pessoas de cor na África Meridional nas décadas de 1880-1920.

REFERÊNCIAS

WALT, Lucien Van Der. Negro e Vermelho. anarquismo, sindicalismo revolucionário e pessoas de cor na África Meridional nas décadas de 1880-1920.

CNT. (2011). “Zabalaza: A Voice for Organised Anarchism in South Africa”, Barcelona: CNT. Retrieved 4 January 2012.

“About Us”, Zabalaza Books. Retrieved 4 January 2012.

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).

agência de notícias anarquistas-ana

Nós contemplamos
Até mesmo os cavalos
Nesta manhã de neve! 

Bashô

[Itália] Meio século de barricadas culturais: o “Círculo Anarquista Ponte della Ghisolfa”

Por Luca Cappellini | 22/05/2026

Existem lugares que não são simplesmente endereços no mapa de uma metrópole que corre, apaga e cimenta. São nós de resistência, faróis teimosos que continuam a iluminar mesmo quando lá fora impera a noite mais escura dos poderes fortes. Em Milão, um desses postos avançados insubstituíveis completa um aniversário redondo e pesado como chumbo: já se passaram cinquenta anos desde que o Círculo Anarquista Ponte della Ghisolfa fincou raízes na Viale Monza, 255.

Meio século de autogestão, de cultura libertária arrancada das lógicas do lucro, de assembleias, contrainformação e solidariedade de base.

Das origens ao coração da tempestade

A história do Círculo começa antes de sua chegada ao Precotto. Fundado em maio de 1968 em um espaço na piazzale Lugano, próximo àquela ponte della Ghisolfa cantada por Testori que lhe dá o nome, o círculo nasce como um espaço de agregação para jovens anarquistas e trabalhadores do cinturão industrial milanês. É um momento de fermento extraordinário, mas também o início da temporada mais dura e dramática da história republicana.

É dessas primeiras salas que passa a história da Itália. Ali circula Giuseppe Pinelli, o ferroviário partisano, animador da Cruz Negra Anarquista e mensageiro de humanidade. Ali se respira o ar de uma mudança que assusta os palácios do poder. Um poder que, em 12 de dezembro de 1969, decide parar os ponteiros da história com o massacre de Estado da Piazza Fontana.

A máquina de lama e repressão cai imediatamente sobre os anarquistas. “Pino” Pinelli é detido ilegalmente na Delegacia e, na noite entre 15 e 16 de dezembro, “voa” pela janela do gabinete do comissário Calabresi. Poucos dias depois, outro militante ligado ao círculo, Pietro Valpreda, é jogado na primeira página como o “monstro”, o culpado perfeito construído sobre medida pelos serviços desviantes e por uma imprensa cúmplice.

Foram necessários anos de lutas ferozes, de investigações da contrainformação militante e de mobilizações operárias para gritar a verdade: Pinelli foi assassinado, Valpreda é completamente inocente, e as bombas foram colocadas pelos fascistas com a cobertura do Estado. O Ponte della Ghisolfa foi o epicentro dessa batalha pela verdade, pagando um preço altíssimo em termos de buscas, ameaças e vigilância.

1976–2026: cinquenta anos na Viale Monza, 255

Despejado da sede original, o Círculo não se curva. Entre 12 de dezembro de 1976 e os primeiros meses de 1977, encontra sua nova casa no número 255 da Viale Monza. Uma casa que, ano após ano, tijolo após tijolo, se tornou um monumento vivo da Milão antifascista e antiautoritária.

Nesses cinquenta anos, enquanto a cidade ao redor mudava de rosto — transformando-se de metrópole operária em vitrine reluzente para aperitivos e fundos imobiliários — o número 255 permaneceu idêntico a si mesmo em sua coerência. É aqui que nasceu a experiência histórica da A-Rivista Anarchica; é aqui que gerações de militantes aprenderam que a alternativa ao estado de coisas presente é possível, necessária, autogerida.

Entrar hoje na Viale Monza, 255, significa pisar no mesmo chão que viu Pietro Valpreda voltar a respirar a liberdade após a prisão política, significa cruzar o olhar com as placas que lembram Pino Pinelli, significa dar continuidade às batalhas de ontem contra as guerras de hoje, contra a destruição ambiental em nome do lucro e contra toda forma de autoridade.

Além das muralhas: um posto de resistência cultural em movimento

O “Ponte” nunca foi um museu da memória nem uma fortaleza isolada. Ao contrário, a Viale Monza, 255, se confirma dia após dia como um posto de resistência cultural permanente e ativíssimo, aberto ao bairro e à cidade. Suas salas são um laboratório contínuo de ideias: desde frequentes lançamentos de livros até assembleias públicas, passando por encontros de discussão onde se analisam as contradições do presente e se imaginam práticas de libertação.

Porque a cultura anarquista está viva apenas se sabe dialogar com as novas gerações e utilizar as linguagens da contemporaneidade. É com esse espírito que nasceu “La cassetta degli attrezzi” (A caixa de ferramentas), o podcast mensal autoproduzido pelo Círculo. Um espaço digital de aprofundamento, análise política e entrevistas que, fiel ao seu nome, se propõe a fornecer instrumentos teóricos e práticos a quem não pretende se resignar ao pensamento único dominante, levando a voz do Ponte muito além dos limites físicos de Milão.

Memória de papel: dois livros para compreender

Para quem quer se aprofundar na história daqueles anos, na contrainformação e nas vidas humanas partidas pela estratégia da tensão, eis duas leituras fundamentais que desmontam os teoremas dos poderes fortes.

1. Eduardo M. Di Giovanni, Marco Ligini, Edgardo Pellegrini – La strage di Stato (O massacre de Estado)

Lançado poucos meses depois da Piazza Fontana (em 1970), este texto é a obra-prima absoluta da contrainformação operária e estudantil milanesa. Escrito “a quente” por um coletivo de militantes e advogados, o livro tem o imenso mérito histórico de ter virado a verdade oficial do avesso no momento em que o Estado e os grandes jornais acusavam Pietro Valpreda e os círculos anarquistas.

Através de uma densa rede de testemunhos, verificações de horários e análises políticas, o texto demonstra como a bomba da Piazza Fontana não foi um ato isolado de um grupo de loucos, mas um plano orquestrado por facções dos serviços secretos, aparelhos de Estado e mão de obra neofascista (a pista vêneta da Ordem Nova) para deter as conquistas do Outono Quente. Uma leitura militante, tensa, densíssima, que restitui a honra a Valpreda e grita a verdade sobre o fim de Pinelli quando fazê-lo custava a prisão ou espancamentos. É o livro que mudou a percepção de uma geração inteira.

2. Paolo Pasi – Pinelli. Uma história

Uma biografia indispensável que realiza um trabalho de reconstrução extraordinário, subtraindo Giuseppe Pinelli à única e trágica dimensão de “vítima” para lhe restituir a complexidade e a dignidade de toda a sua existência. Paolo Pasi, com uma escrita rigorosa mas profundamente empática, reconstrói a vida de Pino: o ferroviário, o esperantista, o militante da Cruz Negra Anarquista, o homem dos livros e do diálogo.

Através da voz de quem o conheceu, o livro desnuda não apenas o absurdo da tese do “mal-estar ativo” e a injustiça da máquina judiciária que tentou abafar a verdade sobre sua morte, mas mostra sobretudo a humanidade luminosa de um homem que fez da solidariedade a bússola de sua própria vida. Uma peça fundamental para compreender não apenas a Milão dos anos 1960 e as dinâmicas do Ponte della Ghisolfa, mas para captar o legado moral que Pinelli deixou a todos os movimentos libertários.

Um posto de resistência contra os “poderes maus” e um olhar para o futuro.

Celebrar os cinquenta anos do Ponte na Viale Monza não é um exercício de nostalgia estéril. A memória libertária é uma arma para o presente. O Círculo continua sendo um grão de areia nas engrenagens daqueles “poderes maus” que hoje, exatamente como cinquenta anos atrás, usam a guerra, a repressão ao dissenso e o controle social para manter seus privilégios.

Mas olhar para esse meio século significa sobretudo lançar um desafio ao amanhã. Em uma Milão cada vez mais atomizada, onde os espaços sociais são cancelados e as relações humanas são submetidas à lógica do consumo, o Ponte projeta sua visão para o futuro. Cinquenta anos na Viale Monza são apenas a corrida de aproximação: o objetivo continua sendo o mesmo de sempre, imutado e urgente. Continuar a ser um incubador de utopias concretas, um lugar onde as novas gerações possam se encontrar, se organizar e descobrir que um mundo novo é possível, porque já o estamos construindo, dia após dia, pedaço por pedaço.

Enquanto houver um canto de Milão onde tremula a bandeira vermelha e preta, enquanto houver salas onde a cultura não se compra e as ideias são discutidas sem hierarquias, a Resistência não será um capítulo fechado nos livros de história. Feliz aniversário à Milão rebelde, feliz aniversário ao Ponte della Ghisolfa. Com Pietro e Pino no coração, o olhar no futuro e sempre do mesmo lado da barricada.

Fonte: https://librotilovvo.com/2026/05/22/mezzo-secolo-di-barricate-culturali-il-circolo-anarchico-ponte-della-ghisolfa/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Havia o escuro
mas eu não sabia onde;
teu rosto era sol.

Eolo Yberê Libera

[México] Jalapa | Teatro Anarquista Disruptivo | MⒶNIFESTO DO ABISMO SORRIDENTE

Cidadãos da Cidade que não ri:

O tempo dos avisos acabou. O colapso não é uma notícia do futuro; é a paisagem que pisamos hoje. O silêncio que percorre nossas ruas não é paz, é o sintoma de uma cidade que foi anestesiada pelo medo e pela apatia.

Se não nos organizarmos para gritar agora, o silêncio será permanente.

Não viemos oferecer esperança barata nem falsos consolos. Viemos dizer que o teatro de rua é a última sabotagem que nos resta. Se o mundo vai pro caralho, que seja sob nossas condições: com uma sátira tão ácida que consiga corroer as engrenagens do poder antes do impacto final.

NOSSAS TAREFAS:

O RISO COMO ÚLTIMA BALA: O poder se sustenta na solenidade. Quando rimos do tirano, tiramos-lhe o oxigênio. Nossa sátira é o veneno para sua arrogância; um povo que recupera o riso é um povo que recupera a liberdade.

ORGANIZAÇÃO OU EXTINÇÃO: Sozinhos somos vítimas; em Crew somos uma interferência. A organização coletiva não é um sonho romântico, é uma estratégia de sobrevivência. Ou criamos uma rede de apoio mútuo através da arte crítica, ou deixamos que o vazio nos engula separadamente.

TEATRO DE TRINCHEIRA: A rua não é um palco, é o campo de batalha pela consciência. Cada função é um ato de recuperação do que nos roubaram. Atuamos para despertar a raiva necessária que detenha a inércia do desastre.

ESTÉTICA DO ENTULHO: Construímos a partir do que resta. Não precisamos de orçamentos, precisamos de visão e corpos dispostos a desafiar a autoridade em cada esquina. A arte é a única coisa capaz de hackear o destino que nos impuseram.

O PANO ESTÁ CAINDO. VOCÊ VAI ASSISTIR OU VAI SEGURAR AS CORDAS?

Procuramos atores, palhaços, músicos e mentes rebeldes que entendam que esta é a nossa última função. Se não há arte crítica nesta cidade, a cidade está morta. Ajude-nos a mantê-la viva antes que seja tarde demais.

Quando a tirania é lei, a arte crítica é a primeira linha de defesa.”

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Com o pôr-do-sol
A vida se vai,
Fico só.

Augusto Menezes

[Grécia] Atualização sobre uma marcha de motocicletas em solidariedade às vítimas da expropriação do banco em Kato Tithorea

No dia 24/05, um grande número de companheiros e simpatizantes realizou uma marcha de motocicletas em solidariedade às 8 pessoas perseguidas pela expropriação bancária em Kato Tithorea. Partindo da estação de metrô Syngrou-Fix, fechamos a avenida Syngrou e seguimos para o sul, fazendo paradas nas emissoras centrais de notícias 24media e SKAI, gritando palavras de ordem, acendendo tochas e lançando fogos de artifício. Uma parada semelhante também foi feita na sede do partido Nova Democracia (em Moschato). A marcha de motocicletas terminou com palavras de ordem na feira de livros da Praça Mercouri, em Ano Petralona.
 
Desde o momento da prisão dos companheiros, a mídia, utilizando uma linguagem carregada de canalhices, procurou apresentá-los como “delinquentes arruaceiros, criminosos comuns em posse de narcóticos e hooligans”, acreditando que essas caracterizações soariam negativas ao leitor médio, desviando a atenção do ato em si para a identidade dos participantes e atribuindo uma conotação negativa a toda a situação. Seu objetivo é evitar a conexão e a identificação da sociedade como um todo com nossos companheiros e sua luta, que nos diz respeito a todos.
 
A postura de nossos companheiros e do espaço anarquista em solidariedade a eles destaca a posição digna dos companheiros que, apesar das circunstâncias adversas, se colocam como iguais por escolha própria, assumindo sua responsabilidade política, ao mesmo tempo que a postura destemida dos solidários que, ignorando qualquer narrativa estatal, se posicionam abertamente ao lado dos companheiros, transformando sua voz em um escudo para proteger a ação, sinalizando a continuidade das lutas apesar das ameaças do Estado.
 
JORNALISTAS, CORJA DE RUFIÕES
SOLIDARIEDADE E FORÇA AOS NOSSOS COMPANHEIROS E COMPANHEIRAS
​​CRIMINOSOSS SÃO OS BANCOS
 
Assembleia aberta de solidariedade aos detiidos pela expropriação do banco em Kato Tithorea
 
>> Mais fotoshttps://athens.indymedia.org/post/1641441/
 
Conteúdos relacionados:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/05/28/grecia-atenas-instalacao-de-um-enorme-faixa-na-universidade-panteion-como-sinal-de-solidariedade-aos-detidos-no-caso-de-11-de-maio/
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/05/21/grecia-tessalonica-faixa-de-solidariedade-no-parque-pausilypo-aos-oito-companheiros-pelo-assalto-a-um-banco-em-tithorea/
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/05/20/grecia-o-que-e-roubar-um-banco-comparado-a-fundar-um-banco/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Rosto no vidro
uma criança eterna
olha o vazio
 
Alphonse Piché

[França] A Comuna não está morta

Paris, 30 de maio de 2026. Como todos os anos, o Grupo da Comuna de Paris marchou até o Muro dos Federados, onde os últimos combatentes da Comuna foram executados em 1871. Às 10h30, nós — o Grupo da Comuna de Paris, Pierre Besnard e Salvador Segui — nos reunimos para montar a mesa de imprensa da [editora] Público [da Federação Anarquista Francófona]. Cerca de dez outras mesas também foram montadas: Livre Pensamento, Amigos da Comuna de Paris, Solidaires, CNT-Bâtiment e os esquerdistas de sempre, sempre prontos para assinar documentos e marcar presença. Na praça, ocorreu uma reunião festiva, com apresentações de coros como “Les Pétroleuses” e “L’Ut en chœur”, além de leituras de poesia em um ambiente caloroso e acolhedor.

Às 14h30, um cortejo de aproximadamente mil ativistas partiu em direção ao Cemitério Père-Lachaise. Ao chegarmos ao Muro dos Federados, um membro da associação Amigos (Bélgica) relembrou o papel dos anarquistas na grande revolta de Liège de 1886, que levou à adoção das primeiras leis sociais. Em seguida, foi lida a declaração conjunta das 64 “associações” que apoiavam a manifestação. Para concluir, o coral “Les Brigades Louise Michel” nos conduziu no canto de canções como “Le Temps des Cerises” e “L’internationale“, entre outras.

Um belo dia ensolarado, sem incidentes, exceto por um ataque de dois velhos stalinistas que, ao verem as bandeiras da FA [Federação Anarquista Francófona], empurraram um de nossos jovens ativistas e agrediram verbalmente um jovem Colete Amarelo. Portanto, ainda existem alguns crocodilos velhos cujos dentes precisam ser afiados.

Hugues, Grupo da Comuna de Paris

Fonte: https://monde-libertaire.net/?articlen=9024&article=La_Commune_nest_pas_morte

agência de notícias anarquistas-ana

Não há céu nem terra,
apenas a neve
caindo sem parar.  

Hashin

[Grécia] Faixa de solidariedade à Comunidade Ocupada de Prosfygika e aos grevistas de fome

Na noite de quinta-feira, 28 de maio, uma faixa de solidariedade foi afixada na Praça Parkou pelo Coletivo Autogerido de Lamia, em apoio aos grevistas de fome e à luta coletiva da Comunidade Ocupada de Prosfygika e contra a tentativa de evacuação.
 
Os grevistas de fome, A. Hatzis desde 5 de fevereiro, já com graves problemas de saúde e em perigo iminente de vida, e S. Doppagne desde 1º de maio, continuam incansavelmente, com seus próprios corpos como arma, a luta para defender a comunidade de mais de quatrocentas pessoas que vivem, agem e se organizam coletivamente na Comunidade Ocupada de Prosfygika.
 
Dezenas de ações e intervenções de solidariedade ocorreram em Atenas, outras cidades e no exterior, demonstrando a amplitude do movimento solidário que se desenvolveu em torno da luta dos refugiados da Comunidade Ocupada de Prosfygika e dos grevistas de fome, uma luta que deve continuar e ser vencida contra a tentativa de “reestruturação” e a anunciada operação de evacuação da Comunidade sob a responsabilidade do Ministério da Proteção ao Cidadão e da Prefeitura de Atenas.
 
As reivindicações desta greve de fome são:
 
1) O cancelamento imediato do contrato pela região da Ática
2) Que todos os moradores de Prosfygika permaneçam em suas casas, no local e na área onde vivem e estabeleceram laços sociais, culturais e orgânicos
3) Garantias concretas para a restauração de Prosfygika pela sociedade civil sem fins lucrativos “Katoikoi kai Filoi Prosfygikon L. Alexandras”, com autofinanciamento! – Nada de fundos públicos para a “requalificação” de Prosfygika!
 
Vitória na greve de fome de A. Hantzis e S. Doppagne
Vitória na luta dos refugiados da Comunidade Ocupada de Prosfygika
Cidades abertas aos seus moradores
 
Coletivo Autogerido de Lamia
 
Conteúdo relacionado:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/04/16/grecia-apoie-e-participe-da-defesa-da-comunidade-ocupada-de-prosfygika-em-atenas-e-da-restauracao-auto-organizada-do-bairro/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
É quase nada
a cara da libélula:
somente olhos. 
 
Chisoku

A história do Food Not Bombs

Por Nwnda | 03/03/2026
 
Na primavera de 1980, à medida que as ansiedades da Guerra Fria se aprofundavam e os Estados Unidos se preparavam para expandir seu arsenal nuclear, um pequeno grupo de ativistas antiguerra em Cambridge, Massachusetts, realizou um ato de dissidência silencioso, mas incisivo. Em vez de apenas entoar slogans, eles serviram sopa.
 
O coletivo logo passaria a se chamar Food Not Bombs (“Comida, Não Bombas”), um nome que funcionava menos como marca e mais como acusação.
 
Origens em uma era de escalada
 
O fim dos anos 1970 e o início dos anos 1980 foram marcados por tensões renovadas entre as superpotências. O governo dos Estados Unidos aumentou os gastos militares, citando a agressão soviética. Ao mesmo tempo, as cidades americanas enfrentavam uma crise crescente de pessoas em situação de rua e um aumento da desigualdade econômica.
 
Entre os perturbados por essa contradição estava Keith McHenry, um dos primeiros organizadores. Ele e outros ativistas formularam uma questão moral que definiria o movimento:
 
“Por que sempre há recursos para armas, mas nunca o suficiente para comida?”
 
A resposta deles foi de uma praticidade desarmante. Recuperavam alimentos excedentes: itens que supermercados e feiras de mercado, de outro modo, descartariam. Preparavam refeições vegetarianas simples e as serviam gratuitamente em parques públicos. O ato era intencionalmente público, enquadrado como teatro político. Atrás de mesas dobráveis e panelas de sopa, faixas declaravam sua mensagem: os recursos deveriam alimentar pessoas, não financiar a guerra.
 
Estrutura sem centro
 
Ao contrário de instituições de caridade tradicionais, o Food Not Bombs nunca se constituiu como uma organização sem fins lucrativos centralizada. Não há sede emitindo diretrizes, nem hierarquia formal distribuindo recursos.
 
Em vez disso, os capítulos se formam de maneira autônoma. Voluntários se organizam por meio de tomada de decisão por consenso, refletindo princípios comumente associados à filosofia política anarquista. A estrutura descentralizada do movimento permitiu sua proliferação.
 
Na década de 1990, já existiam capítulos por todo os Estados Unidos e também no exterior; hoje, grupos do Food Not Bombs atuam em dezenas de países.
 
Essa ausência de autoridade central mostrou-se tanto uma força quanto um ponto de atrito. Ela torna a rede resiliente e difícil de desmantelar. Também significa que cada capítulo interpreta os princípios do movimento de forma independente.
 
Comida pública como desobediência civil
 
O Food Not Bombs se distingue de muitas organizações de combate à fome por insistir em servir refeições em espaços públicos visíveis, muitas vezes sem autorização formal. Mesmo na Indonésia, muitos anarquistas se reúnem para fazer Food Not Bombs como movimento.
 
Em cidades como San Francisco e Orlando, voluntários foram presos por violar regulamentações municipais que governam a distribuição pública de alimentos. As autoridades locais frequentemente citam preocupações com saúde e segurança. Os ativistas respondem que tais restrições criminalizam, na prática, a compaixão e protegem o espaço público contra a expressão política.
 
Para o Food Not Bombs, esses confrontos não são incidentais. Eles evidenciam a tese central do movimento: a fome persiste não por escassez, mas por prioridades políticas.
 
Veganismo e não violência
 
A maioria dos capítulos do Food Not Bombs serve refeições veganas ou estritamente vegetarianas. A escolha é pragmática e simbólica. Pratos vegetais são mais baratos, reduzem preocupações com segurança alimentar e evitam conflitos com restrições alimentares religiosas. Em um nível mais profundo, a decisão reflete um compromisso mais amplo com a não violência.
 
Ao rejeitar simultaneamente o abate de animais e a violência militar, o movimento vincula o consumo cotidiano aos sistemas globais de poder. O prato torna-se uma declaração política.
 
Ajuda mútua, não caridade
 
O Food Not Bombs enquadra seu trabalho como ajuda mútua, e não como caridade. Essa distinção é filosófica tanto quanto prática. Caridade implica hierarquia: doadores e recebedores, benfeitores e beneficiários. Ajuda mútua propõe solidariedade entre iguais.
 
O conceito remonta intelectualmente aos escritos de Piotr Kropotkin, que argumentava no início do século XX que a cooperação, e não a competição, sustenta a sobrevivência humana. O Food Not Bombs adota esse ethos ao se recusar a exigir documentação, identificação ou prova de necessidade. As refeições são oferecidas a qualquer pessoa que apareça.
 
Presença em movimentos de protesto
 
Ao longo das décadas, o Food Not Bombs apareceu onde quer que a dissidência política se reunisse. Durante o Occupy Wall Street, voluntários forneceram refeições diárias aos manifestantes no Zuccotti Park, em Nova York. Após desastres naturais, capítulos organizaram cozinhas comunitárias quando a resposta oficial demorou.
 
A portabilidade do movimento, sua capacidade de transformar alimentos excedentes em sustento imediato, o torna adaptável a crises. Sua mensagem política garante que essa ajuda nunca seja apresentada como neutra.
 
Críticas e debate
 
O Food Not Bombs não esteve isento de críticos. Alguns argumentam que a distribuição informal de alimentos pode contornar padrões de segurança ou enfraquecer serviços sociais coordenados. Alguns líderes municipais sustentam que reuniões não regulamentadas sobrecarregam os espaços públicos.
 
Os apoiadores respondem que o desperdício de alimentos nas economias industrializadas supera em muito os modestos volumes redistribuídos por cozinhas voluntárias. Eles veem suas ações menos como prestação de serviço e mais como demonstração moral.
 
O debate frequentemente gira em torno de interpretações diferentes da ordem pública. Alimentar quem passa fome é um ato de cuidado, de protesto, ou ambos?
 
Persistência pela simplicidade
 
Mais de quatro décadas após sua fundação, o Food Not Bombs persiste. Sua permanência decorre, em parte, de suas exigências mínimas: alimentos excedentes, uma panela, um espaço público e disposição para servir. Não há mensalidades, certificações oficiais nem equipe profissional necessárias para começar.
 
Em seu núcleo, o movimento transforma um ato cotidiano, compartilhar uma refeição, em crítica às prioridades globais. Ao fazê-lo, reduz a distância entre ajuda humanitária e resistência política.
 
A questão original formulada em Cambridge, em 1980, permanece sem resposta. As nações continuam a destinar somas vastas a orçamentos de defesa enquanto a fome persiste em cidades de todo o mundo. O Food Not Bombs não afirma resolver essa contradição.
 
Ele apenas insiste que ela seja vista.
 
Mais de quatro décadas após sua fundação, o Food Not Bombs (FNB) continua sendo um dos movimentos inspirados pelo anarquismo mais visíveis e duradouros a atuar no espaço público. Embora se apresente primariamente como uma rede que compartilha refeições gratuitas, sua identidade contemporânea está profundamente entrelaçada com a filosofia política anarquista, a organização por ajuda mútua e a crítica anticapitalista.
 
Hoje, o Food Not Bombs é menos uma tática de protesto e mais um modelo vivo de práxis anarquista.
 
Descentralização como estrutura política
 
O Food Not Bombs opera sem uma autoridade central de governo. Não há diretoria executiva, escritório nacional dirigindo a estratégia, nem manual operacional padronizado imposto de cima para baixo.
 
Cada capítulo local toma decisões por consenso, organiza-se autonomamente, define seu próprio tom político e nível de ativismo, e compartilha recursos horizontalmente com outros capítulos.
 
Essa estrutura reflete princípios clássicos do anarquismo, como rejeição da hierarquia, oposição à autoridade centralizada e, evidentemente, ênfase na cooperação voluntária.
 
Em vez de pressionar o Estado a resolver a fome, o Food Not Bombs busca contornar completamente as estruturas estatais. Sua mensagem está implícita em seu método: comunidades podem satisfazer suas próprias necessidades sem mediação burocrática.
 
Ajuda mútua no século XXI
 
Nos últimos anos, particularmente durante a pandemia de COVID-19 até o presente, o Food Not Bombs tem frequentemente se descrito como parte de um ecossistema mais amplo de ajuda mútua. A ajuda mútua difere da caridade porque enquadra a assistência como solidariedade, e não como prestação de serviço.
 
Durante a pandemia, muitos capítulos ampliaram a distribuição; alguns coordenaram entregas de mantimentos, e outros colaboraram com grupos de justiça habitacional. A crise reforçou uma reivindicação central do anarquismo: quando as instituições falham, redes descentralizadas podem responder com rapidez e localmente.
 
A crise reforçou uma afirmação central do anarquismo: quando as instituições vacilam, redes descentralizadas podem responder de forma rápida e local.
 
Alinhamento político e ativismo contemporâneo
 
Embora nem todo voluntário se identifique como anarquista, o alinhamento ideológico do movimento é claro em várias áreas:
 
Antimilitarismo: A crítica original aos gastos militares continua central. Muitos capítulos participam de manifestações antiguerra e conectam explicitamente a insegurança alimentar às prioridades orçamentárias do Estado.
 
Anticapitalismo: Os esforços de recuperação de alimentos evidenciam a superprodução e o desperdício sistêmicos. Ao redistribuir comida descartada, o FNB expõe contradições nas cadeias de abastecimento capitalistas, onde excedente e fome coexistem.
 
Solidariedade com movimentos sociais: Capítulos do Food Not Bombs aparecem com frequência em protestos por justiça climática, manifestações por direito à moradia, ações contra a brutalidade policial e greves trabalhistas.
 
Durante os protestos de 2011 associados ao Occupy Wall Street, cozinhas do Food Not Bombs tornaram-se pontos logísticos centrais para os manifestantes. Mais recentemente, forneceram refeições em acampamentos ambientais e contra despejos.
 
Conflito com autoridades municipais
 
As tensões com governos municipais persistem. Em municípios como Houston e Orlando, autoridades impuseram exigências de licença ou restrições ao compartilhamento de alimentos, levando a prisões ou disputas judiciais.
 
De uma perspectiva anarquista, esses confrontos não são periféricos; são diagnósticos. Eles ilustram como o espaço público, as normas sanitárias e as regras de propriedade podem ser mobilizados para regular práticas de cuidado de base comunitária.
 
Os críticos apresentam essas leis como necessárias à segurança pública. O Food Not Bombs as apresenta como instrumentos de controle social.
 
Veganismo como extensão ética
 
A predominância de refeições veganas continua significativa. Embora em parte prática, essa escolha reflete uma ética mais ampla de não violência, alinhando oposição à guerra com oposição à agropecuária animal industrial.
 
O prato, nesse contexto, torna-se terreno ideológico.
 
Food Not Bombs como práxis anarquista
 
Se o anarquismo pode ser definido não apenas como oposição ao Estado, mas como construção de relações sociais alternativas, então o Food Not Bombs representa uma de suas expressões contemporâneas mais duradouras.
 
Ele não faz campanha por reforma eleitoral. Não redige legislação. Não constrói instituições formais.
 
Em vez disso, realiza um ato simples à vista de todos: alimentar pessoas gratuitamente, coletivamente, sem permissão.
 
Ao fazer isso, coloca uma questão que continua politicamente carregada:
 
Se comunidades podem organizar a comida, o que mais poderiam organizar sem hierarquia?
 
Essa pergunta, mais do que as próprias refeições, continua a definir o Food Not Bombs hoje.
 
Fonte: https://redandblackanarchists.com.au/the-history-of-food-not-bombs-2/
 
Tradução > Contrafatual
 
Conteúdo relacionado:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/10/05/eua-west-palm-beach-fl-food-not-bombs-protestam-contra-tentativas-de-criminalizar-o-apoio-mutuo-e-a-partilha-de-comida-gratuitamente/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Como que levada
pela brisa, a borboleta
vai de ramo em ramo.
 
Matsuo Bashô

[EUA] “Para se libertar, é preciso ter plena consciência de que se é um escravo”, por Malik Muhammad

Este ensaio de Malik foi escrito no final de março de 2026 enquanto estava detido no Eastern Oregon Correctional, pouco antes de ser transferido para a Carolina do Sul.
 
Há um padrão aqui: nos últimos três Ramadãs, eu tenho sido alvo. Sou retirado da ala comum e levado para a solitária sob a justificativa de “Investigação”. Acusam-me de alguma suposta “Organização Não Autorizada” e fico trancado na solitária pelo resto do ano. É comum que pessoas visadas na prisão, aquelas consideradas ativistas ou revolucionárias, sejam enviadas para a solitária não pelo que fizeram, mas pelo que a administração acredita que elas PODEM vir a fazer. Para eles, é melhor agir preventivamente. Não muito diferente dos ataques “preventivos” dos EUA e de Israel contra o Irã. É apenas uma desculpa para fazerem o que já queriam fazer de qualquer maneira.
 
Há três anos venho lidando com isso. Agora estou aqui novamente, passando mais um Ramadã na solitária por nada além da fragilidade branca. Do ego masculino branco. Ferido pela ideia de que eu não apenas não gosto nem respeito o Estado fascista, mas de que existe uma ampla rede de pessoas que também odeiam o Estado e não acreditam que o que ele faz seja um “bem público”, mas sim um genocídio. Escravidão sob outro nome.
 
Então fico na solitária por “Desrespeito”, por ter falado ao telefone com minha companheira sobre minhas frustrações com os agentes penitenciários. Recebi uma punição de 14 dias, que terminou em 16 de março. Eles se recusam a me devolver à ala comum, colocando-me em “retenção STM” por tempo indeterminado (Gestão de Ameaças à Segurança). Sem justificativa. Mas, afinal, o Estado não precisa de uma razão para nos reprimir, ele precisa de razões para não fazê-lo.
 
A verdadeira razão para tudo isso? Esclarecer as pessoas, transmitir conhecimento. Eu comprava livros para outras pessoas, estudava obras como Blood In My Eye, Settlers, As Veias Abertas da América Latina, estudava o pensamento anarquista negro, de Lucy Parsons a William C. Anderson, de Martin Sostre a Lorenzo Irvin e muitos outros. Esse foi meu verdadeiro crime.
 
Com a proibição de livros se espalhando pelo país, há uma repressão crescente à literatura. Oregon depende fortemente da divisão, do racismo, da política e das drogas para manter as pessoas alienadas. Então, quando veem um grupo multirracial de homens estudando junto, discutindo política global, a interseccionalidade das opressões, desconstruindo os sistemas que produzem nossas condições materiais, estudando a história dos movimentos e das pessoas que resistiram e desafiaram a ordem existente, isso os perturba.
 
Dê às pessoas oprimidas os livros com os quais elas podem libertar-se, EDUCAÇÃO, e eles enlouquecem. A verdade é simples: não se pode escravizar uma mente que conhece a si mesma. Para se libertar, é preciso ter plena consciência de que se é um escravo.
 
Portanto, a verdadeira razão pela qual estou novamente em segregação é a mesma de sempre: medo. Medo dos negros, medo do potencial desconhecido, medo daqueles que eles não conseguem controlar. Pedem que eu seja “amigável” e converse com os funcionários. Pedem que eu me desculpe pela minha conversa e que não “veja os funcionários como inimigos”.
 
Não vou fazê-lo.
 
Não vou me censurar. Não vou capitular. Sairei da prisão dizendo “Foda-se a polícia” da mesma forma que entrei. Porcos são porcos, não amigos. ACAB inclui os agentes penitenciários também. Não importa em que buraco me coloquem, não abandonarei meus princípios.
 
Vocês não podem suprimir o povo para sempre. Essa centelha de conhecimento crescerá e se espalhará, esteja eu na solitária ou não.
 
Amor, Raiva e Solidariedade,
 
– Malik
 
Você pode escrever para Malik em:
 
Malik Muhammed
#400523
Kirkland Reception and Evaluation Center
Unit F3A-203
4344 Broad River Rd
Columbia, SC 29210 – EUA
 
As comunicações de Malik estão atualmente muito restritas, mas, embora provavelmente ele não possa responder por escrito, apreciaria profundamente receber cartas.
 
Malik pediu que as pessoas incluam seu endereço nas cartas, pois a transferência fez com que ele perdesse o acesso ao seu caderno de endereços.
 
Ele também não tem permissão para possuir fotografias até que seja transferido novamente.
 
Fonte: https://www.abcf.net/blog/in-order-to-break-free-one-must-be-acutely-aware-of-being-a-slave-by-malik-muhammad/   
 
Tradução > Contrafatual
 
Conteúdo relacionado:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/04/20/eua-preso-anarquista-malik-muhammad-transferido-de-oregon-para-a-carolina-do-sul-em-rara-transferencia-interestadual/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Ventos nos umbrais
janelas antigas,
modernos varais.
 
Sandra Maria de Sousa Pereira

[Itália] Lançamento: “Convite para almoço com pistola. A história esquecida do primeiro sequestro político dos anos 1960”, de Leopoldo Santovincenzo

Milão, 28 de setembro de 1962, 12h15. Um pequeno grupo de estudantes anarquistas de vinte anos sequestra o vice-cônsul espanhol Isu Elias.

O artifício é um falso convite para almoço, o motivo: impedir a execução de um anarquista espanhol, preso e condenado à morte poucos dias antes na Espanha franquista.

Os sequestradores improvisados apressam-se em comunicar aos jornais que “o doutor não corre nenhum perigo”. Mas é ainda assim o primeiro sequestro político na Itália do pós-guerra e muitos rostos destinados a ter um papel na história política e cultural do nosso país fazem sua aparição na cena: o major dos carabineiros Carlo Alberto dalla Chiesa, que participa dos interrogatórios, Rossana Rossanda em missão espanhola pelo PCI, o “príncipe negro” Junio Valerio Borghese, o escritor Luciano Bianciardi que aparece na porta do bar Jamaica em Brera, o cardeal Montini (futuro papa), Pietro Valpreda, Pino Pinelli e muitos outros.

Leopoldo Santovincenzo reconstrói, com escrita ágil e montagem narrativa, a história fascinante de um fato de crônica tão incrível quanto esquecido e o faz recorrendo a documentos e testemunhos inéditos, desenhando com sabedoria o contexto político e cultural de um período de abertura ideal que precede as tramas negras e os anos de chumbo. Uma breve estação em que ainda era possível reconhecer em um ato de força “motivos de particular valor moral e social”.

Invito a pranzo con pistola. Storia dimenticata del primo sequestro politico degli anni Sessanta

Leopoldo Santovincenzo

Ed. Solferino

Páginas: 352

€ 19,48

Maio de 2026

www.ibs.it

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

cai junto com a flor
a mamangava peluda—
jardim outonal.

José Alberto Lopes

[Chile] Editorial Memoria Negra, 14 anos!

Há quatorze anos, em maio de 2012, publicamos nosso primeiro livro.

Antes disso, havíamos publicado alguns textos anônimos e dispersos, mas a partir de então, decidimos dar forma a este projeto.

De Colecciones Memoria Negra para Editorial Memoria Negra, algumas modificações no logotipo e uma mudança no formato de impressão foram apenas algumas das transformações pelas quais passamos até hoje. Ainda temos várias reimpressões pendentes de livros que foram descontinuados e algumas surpresas planejadas para o final do ano.

O projeto permanece essencialmente o mesmo: reconstruir o fio negro de nossos caminhos de negação, bem como contribuir com nosso próprio material ou com material descontinuado para reflexão, debate e aprofundamento de outras experiências.

Nada acabou, tudo continua.

www.editorialmemorianegra.noblog.org

editorialmemorianegra@riseup.net

agência de notícias anarquistas-ana

Varrendo folhas secas
lembrei-me do mar distante:
chuá de ondas chegando.

Anibal Beça