[Argentina] Dos anarquistas fundadores até os sócios detidos-desaparecidos na democracia | Club Libertad: o sonho anarquista dos anos 1900

Pioneiro no país e primeiro em Salta, hoje o Club Atlético Libertad tem 122 anos de existência. Fundado em 1901 por um grupo de anarquistas em uma cidade quase como uma vila, a história do clube sempre esteve próxima aos movimentos políticos e sociais, e é possível traçar um paralelo entre a história da região e a do próprio clube.

Por Facundo Sinatra Soukoyan| 23/03/2023

Nas ruas poeirentas de uma cidade de Salta, com uma aparência de vila, apenas um punhado de habitantes, desenvolvimento incipiente e as primeiras tentativas de construir uma ideia de Nação que lentamente permearia o território argentino, um clube atlético estava sendo concebido no norte do país.

Seriam os anarquistas, mais uma vez, que assumiriam a liderança na ideia de fomentar agrupamentos sociais por trás dos ideais do socialismo libertário, reunindo trabalhadores de todos os ramos e camaradas de ideias, a fim de gerar um movimento coletivo que lhes permitisse fomentar um espírito esportivo e discussões políticas. Sob este impulso, nasceu o Club Atlético Libertad.

Vermelho e preto seriam as cores escolhidas como insígnia, numa clara manifestação política que se referia, segundo as versões mais difundidas, ao preto como representação da anarquia e ao vermelho como expressão do sindicalismo e da tradição socialista. Muitos clubes pelo país foram fundados sob esta combinação, como um claro sinal da ideologia que moveu a maioria das classes trabalhadoras naqueles anos.

Expandindo a situação na cidade, o historiador de Salta especializado em esporte, Fernando Cáseres, diz: “em Salta por volta de 1901 a luz elétrica tinha acabado de chegar, lembremos que em 1896 chegou a primeira bicicleta e em 1905 o primeiro automóvel. Era um vilarejo, era muito pequeno. Entre 1902 e 1903, a água começou a ser instalada”.

Cáseres salienta que os poucos coletivos sociais existentes estavam ligados a grupos de poder dominantes, ou a grupos étnicos, como ele mesmo os caracteriza, “havia o Club 20 de Febrero, fundado em 1858, pertencente à elite; havia a Sociedad Italiana, a Sociedad Española e o Centro Argentino. Todos eles tinham um selo específico, não havia organização dos setores de trabalho”.

O historiador de Salta sublinha: “Salta, como todo o país, foi influenciada pela imigração, e com esta influência vieram os ideais políticos trazidos da Europa com a pregação do sindicalismo, do socialismo e do anarquismo… e foi assim que nesta Salta, quase uma aldeia, foi fundado um clube anarquista”.

12 de março de 1901

Antes do Boca, River e a grande maioria dos clubes mais populares da Argentina de hoje, o Club Atlético Libertad iniciou sua atividade social e esportiva quase sozinho na realidade do norte da Argentina.

“O clube foi construído na área do atual Paseo Güemes, que naqueles anos era o limite da cidade, onde havia apenas uma ou duas casas antigas e ranchos com animais de granja (…) Naqueles anos havia um grupo de jovens que jogavam futebol e decidiram fundar um clube para se encontrar e se organizar, não apenas para o esporte, mas com um objetivo político, ideológico e de reivindicação social, de extração anarquista. Em resumo, uma associação de luta para conseguir melhorias reais (…), era formada por pessoas humildes e trabalhadoras de diferentes ramos, artesãos e trabalhadores. O clube nasceu na serraria dos irmãos Durán (…), os fundadores tinham uma orientação política libertária. Eles eram conhecidos como vizinhos calmos, solidários e respeitosos que nunca baixaram as bandeiras das exigências sociais”, diz Miguel Ángel, um veterano dirigente do clube em um testemunho extraído do livro “La historia contada por sus protagonistas”, dos historiadores Miriam Corbacho e Raquel Adet.

No mesmo texto, destaca-se o testemunho em primeira pessoa de Felipe Eduardo: “Lembro-me de Riera, Cardozo, a galega Lara e os irmãos Durán. O Club Libertad tem suas origens nessas pessoas”. Eles eram homens de pensamento (…) Eu conheci e falei com os anarquistas do Libertad. Por exemplo, eles fizeram trabalhos de construção, começaram a reunir alguns pedreiros, ensinaram-lhes a manusear a colher, a pintar, a ladrilhar, e com isso melhoraram e avançaram no ofício. Todos os pedreiros e pintores em Salta eram do Libertad”.

Um fato marcante e peculiar é que este clube foi fundado um ano antes do tradicional Club de Gimnasia y Tiro. O historiador Cáseres comenta sobre o assunto: “Estes trabalhadores se encontraram e Manuel Anzoátegui e Victorino de la Vega, que mais tarde se tornariam figuras de destaque no desenvolvimento do Club Atlético Salteño, mais tarde rebatizado Gimnasia y Tiro, também participaram das reuniões. Mas esta situação é notada pelos anarquistas, e temendo que eles pudessem “assumi-los”, porque Manuel Anzoátegui era um homem que pertencia ao poder econômico da oligarquia, não está muito claro se eles foram expulsos ou se foram embora, o que é certo é que eles não puderam participar e no ano seguinte fundaram o que conhecemos hoje como Gimnasia y Tiro”.

Tempos esportivos dourados

Além de sua marcada gênese social, o Libertad começará a formar uma parte fundamental da vida esportiva de Salta, um clube que combinaria ideais políticos com conquistas atléticas sustentadas, “o Libertad, juntamente com a Juventud Antoniana, foram os que na década de 30 e 40 tiveram maior destaque nos torneios locais”, diz Cáseres, e acrescenta: “o Libertad ganhou um campeonato em 1936 e outro em 1941. Estamos falando de um poder claro”. Além disso, em 1947, o clube mudou-se para sua sede na Rua Deán Funes, 535, em uma área central”, uma situação que lhe permitiria impulsionar ainda mais o ramo social.

Quanto aos altos e baixos políticos, que sempre tiveram Libertad como protagonista, o historiador de Salta assinala que a década de 1940 foi uma época em que a figura de Juan Cornejo Linares, deputado e proprietário de um dos jornais peronistas da época, ganhou destaque no clube. E esta situação é possivelmente uma das razões pelas quais jovens figuras foram formadas na Libertad que, no futuro, marcariam um horizonte na política local e nacional.

Um deles será Miguel Ragone, que será um jogador e mais tarde um dirigente. Sua filha Clotilde disse: “Meu pai foi presidente do Club Libertad nos anos 50 e 60. Naquela época eles estavam na Rua Deán Funes e como o clube já era muito central, eles o venderam e o levaram para onde ele está agora. Esse era o trabalho dele. A localização privilegiada, em termos de localização e terreno, a que se refere a filha do ex-governador de Salta, é a que permanece até hoje na Rua Talavera 50, uma área muito próxima ao terminal de ônibus.

Os desaparecidos do Libertad

No início dos anos 70, a sociedade argentina estava lutando para transformar os projetos políticos, e Salta não era exceção à regra. O ex-jogador e dirigente do Libertad, Miguel Ragone, ganhou o cargo de governador em 1973, à luz da chamada Primavera Camporista.

No entanto, o golpe que seria desencadeado em 24 de março de 1976, teria o território do norte da Argentina como um campo de testes algum tempo antes. Salta sofreu em primeira mão o circuito repressivo organizado em 1975, quando foi lançada a Operação Independência na província vizinha de Tucumán. Mas mesmo antes disso, com a queda do governo Ragone em novembro de 1974, a repressão já havia sido desencadeada.

Dos presos, assassinados e/ou desaparecidos na província, pelo menos três estavam diretamente ligados ao clube fundado pelos anarquistas em 1901. Eles estão: Miguel Ragone, Rubén Yáñez Velarde e Santiago Arredes, todos os três assassinados ou desaparecidos antes do golpe de Estado de 24 de março de 1976.

Quanto a Miguel Ragone, após ser afastado de seu cargo de governador em novembro de 1974, e retomando sua profissão como médico, foi sequestrado em 11 de março de 1976, paradoxalmente, um dia antes do aniversário do clube que ele amava.

Por sua vez, o comerciante Santiago Arredes foi morto na mesma operação de sequestro que Ragone, quando ele estava deixando a loja que possuía. Arredes, que tinha vindo em defesa de Ragone diante da brutal operação de sequestro, foi morto na rua. Na época, Santiago Arredes era um dirigente do Club Libertad.

Rubén Yáñez Velarde, funcionário do Agua y Energía e militante do Sindicato de Luz y Fuerza, era um destacado esportista que combinava seu trabalho político com o atletismo, uma situação que o levou a jogar em diferentes clubes. Um deles era o Libertad. Yáñez foi sequestrado em 8 de novembro de 1975 e seus restos mortais foram encontrados em 2012, após árduo trabalho da equipe de antropologia forense.

Estes três apoiadores, dirigentes e esportistas do Club Atlético Libertad foram presos, desapareceram e/ou assassinados antes do golpe de Estado, mas quando o plano sistemático de eliminação de pessoas já estava sendo aplicado, três homens que, como aqueles pioneiros anarquistas que forjaram organização no norte da Argentina, sonhavam, em suas diferentes etapas e facetas históricas, com um mundo mais justo, mais livre e mais igualitário, onde o esporte e a organização comunitária seriam uma parte fundamental da mudança social.

Ao longo dos anos, o Clube vacilou em meio a uma gestão irregular e fantasmas que atacam ciclicamente a venda dos terrenos que foram ficando em local privilegiado na capital.

Hoje, um movimento social está encarregado de colocar em funcionamento suas instalações, uma característica que, com suas diferentes formas e formas de entender as construções políticas, poderia ser pensada como um legado organizacional, uma constante que atravessou o Club Libertad ao longo dos 122 anos de sua existência.

Será tarefa das gerações atuais e futuras assegurar que todo o patrimônio histórico, social e cultural que esta camiseta contém permaneça vivo e latente. Talvez transformando, mudando, reformulando, mas sempre, como marcado por sua história, imbuído de um compromisso que transcende as fronteiras individuais e contém projetos coletivos, com o objetivo de pensar e ser uma cadeia de transmissão de um novo mundo, um mundo onde muitos mundos se encaixam.

Fonte: https://www.pagina12.com.ar/530893-club-libertad-el-sueno-anarquista-del-1900

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

olhando para trás
meu traseiro cobria-se
de cerejeiras em flor

Allen Ginsberg

[Espanha] Lançamento: “O caso Scala. E outras legendas do anarcossindicalismo na transição”, de Héctor González

Já temos disponível o segundo livro da coleção “Libre Pensamiento”, coeditado entre Catarata e CGT.  Trata-se de “El caso Scala. Y otras leyendas del anarcosindicalismo en la transición”, escrito por Héctor González, historiador, sindicalista da CSI asturiana e membro do conselho de redação da revista.

O caso Scala. E outras legendas do anarco sindicalismo na transição

O livro estuda o papel da memória coletiva no desenvolvimento da CNT e da CGT desde a transição até nossos dias e em seguida analisa de forma crítica três mitos do anarcossindicalismo mais recente: o papel da CNT na transição, a montagem policial conhecida como o caso Scala e o papel dos infiltrados policiais no movimento libertário.

Todos estes temas são de atualidade e muito relevantes para refletir sobre a ação sindical e social da CGT.

Héctor González é um dos seis sindicalistas da CNT condenados a três anos e meio de cárcere pelo caso da confeitaria La Suiza. Como as outras suas companheiras, estão aguardando uma última decisão judicial iminente que muito possivelmente suponha sua entrada na prisão.

>> Aqui podes ver o vídeo de Rojo y Negro TV sobre este caso de perseguição ao sindicalismo de classe:

https://www.youtube.com/watch?v=Gv59iyuoPD8

Fonte: CGT Comunicação

agência de notícias anarquistas-ana

vento muda
ares de chuva
tua chegada

Camila Jabur

[Chile] Nova data para o julgamento oral contra xs companheirxs Mónica e Francisco

Acusadxs de enviar pacotes explosivos contra o ex-Ministro do Interior Rodrigo Hinzpeter e a 58º Delegacia, bem como pelo atentado explosivo do edifício Tanica, xs companheirxs Mónica Caballero e Francisco Solar estão prestes a enfrentar o julgamento por essas ações.

Embora o julgamento tenha sido originalmente marcado para 19 de maio de 2023, a pedido da defesa, ele foi remarcado para 18 de julho de 2023.

Cumplicidade com aqueles que atacam os poderosos e repressores!

Solidariedade com Mónica e Francisco!

Fonte: https://publicacionrefractario.wordpress.com/2023/05/11/nueva-fecha-para-el-juicio-oral-contra-lxs-companerxs-monica-y-francisco/

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/04/10/chile-palavras-de-monica-caballero-e-francisco-solar-sobre-o-julgamento-que-se-aproxima/

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Todos dormem.
Eu nado na noite que
entra pela janela.

Robert Melançon

[Rio de Janeiro-RJ] Teatro: “Eleitor, Escuta!” | “Um Homem sem importância”

Olá amigues!

Estou em cartaz, caminhando para as duas últimas apresentações, nos dias 17 e 24 de maio. Ficarei feliz em contar com a sua presença!

2 SOLOS DOCUMENTAIS é composto pelos solos “Eleitor, Escuta!”, com criação e atuação de João Raphael Alves e direção de Bruno Peixoto; e “Um Homem sem importância”, criação e atuação de Bruno Peixoto.

ELEITOR, ESCUTA! parte do panfleto anarquista do ativista libertário e pedagogo Sébastien Faure. Neste documento de 1919, Faure problematiza a história das sociedades e dos limites da democracia representativa.

UM HOMEM SEM IMPORTÂNCIA é uma carta póstuma de Leo Lama para seu pai Plínio Marcos. Um acerto de contas pessoal, artístico e geracional que brinda esta figura ímpar do teatro brasileiro.

2 SOLOS DOCUMENTAIS

Só mais 2 apresentações, 17 e 24 de maio

19h, Teatro Dulcina, Cinelândia

“OCUPAÇÃO O TEATRO COMO DOCUMENTO”

2 Solos Documentais faz parte da ocupação O TEATRO COMO DOCUMENTO, realizada pela En La Barca – Jornadas Teatrais.

A Ocupação também conta com a apresentação do espetáculo “A Casa e o Mundo Lá Fora: Cartas de Paulo Freire para Nathaercinha”, com apenas mais 2 apresentações, dias 18 e 25 de maio, às 19h, no Teatro Dulcina. Compareça!

Ingressos: http://www.sympla.com.br/4criador

Foto: Marcelo Valle

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dia muito frio
o vento desalinha
a plumagem do passarinho

João Angelo Salvadori

Apoio Mútuo e Solidariedade: Bases Essenciais do Anarquismo!

Em entrevista realizada no ano de 1991, Carlo Aldegheri com sua didática peculiar, explicava porque a solidariedade e o apoio mútuo são princípios basilares do anarquismo: “Em São Paulo, uma metrópole com mais de dez milhões de habitantes, não se vê nenhuma iniciativa concreta dos anarquistas. Desistir das lutas? Não desisto não, não deixarei nunca o anarquismo! Não sou dos que falam, falam e não fazem nada. Semana passada mesmo eu mandei uma contribuição ao Centro de Cultura Social, para o Jaime Cubero.

Agora o Centro de Cultura Social está sem dinheiro para pagar seus aluguéis. Se as pessoas que o frequentam contribuíssem com um mínimo de seus rendimentos isto não ocorreria. Se ao invés de ficarem entulhando de badulaques eletrônicos as suas casas, sobraria algum para a causa social. É verdade que muitos companheiros ganham pouco, mas há outros que podem dar alguma coisa, e não dão nada. Ficam no terreno maravilhoso das ideias e de concreto nada, nada“.

Maiores informações no livro “Carlo e Anita Aldegheri: Vidas Dedicadas ao Anarquismo“, formato 14 x 21 cm, 115 páginas. Preço 40 reais, já incluindo as despesas postais. Após efetuar o pagamento, nos informar para qual endereço (com CEP) o livro deve ser enviado.

Pagamento pelo pix: nelca@riseup.net

# A venda desses livros ajuda na manutenção do espaço da Biblioteca Carlo Aldegheri no Guarujá (SP). Colabore adquirindo os livros e/ou compartilhando essa postagem!

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Encontro fugaz.
Neblina abraça o velho
lampião de gás.

Rogério Viana

[Dinamarca] Violência de gangues pode acabar com o comércio aberto de maconha na comuna anarquista de Christiania

Criminosos organizados tomaram conta do mercado ‘Pusher Street’ na capital dinamarquesa e estão disputando o domínio

Por Daniel Boffey Chief| 09/05/2023

A história de 40 anos do comércio aberto de cannabis na “Pusher Street”, no coração do bairro anarquista de Christiania, em Copenhague, pode acabar. A prefeita da cidade disse que estava disposta a fechá-lo devido aos temores da comuna sobre o aumento da violência das gangues.

Christiania é uma comuna autoproclamada autônoma na capital dinamarquesa que foi autorizada a funcionar efetivamente como um “experimento social” desde a década de 1970, apesar das ameaças periódicas de “limpeza” por parte dos governos nacionais.

Em seu centro está a Pusher Street, onde barracas operadas por moradores locais vendem maconha abertamente. Mas a violência cada vez pior no distrito da “luz verde”, à medida que gangues do crime organizado se mudaram e disputam o domínio, gera preocupações crescentes com a segurança dos moradores.

A prefeita de Copenhague, Sophie Hæstorp Andersen, já alertou em entrevista ao jornal Ekstra Bladet que a violência precisa acabar e se ofereceu para fechar o comércio de drogas da Pusher Street se as 1.000 pessoas que vivem na comuna de Christiania concordarem.

Andersen disse: “A violência e o crime em torno da Pusher Street atingiram um nível com o qual não podemos nem queremos lidar.”

“Em Copenhague, acredito que devemos ter espaço para Christiania. É um lugar diferente e alternativo. É criativo. Mas essa violência dura e organizada deve ser eliminada do futuro de Christiania.”

“É por isso que minha mensagem também é que, se os moradores deixarem, claro, estamos prontos para fechar a Pusher Street e substituí-la por outra coisa. Então nós, no município de Copenhague, estamos prontos para apoiar a elaboração de um plano para descobrir o que deve acontecer com a rua.”

Há mais de meio século, ocupantes derrubaram as barricadas da base militar de Bådsmandsstraede, na ilha de Amager, para formar uma comuna no centro de Copenhague. Em 1973, o governo social-democrata concedeu a Christiania o status temporário oficial de “experimento social”, permitindo-lhe autonomia informal.

Uma votação majoritária no parlamento em 1989 estabeleceu a Lei de Christiania, legalizando a ocupação e a prática de residentes que contribuem para os custos de funcionamento comunitário do serviço postal, coleta de lixo e creches de Christiania. A polícia de Copenhague não é bem-vinda e uma forma de justiça local é aplicada.

Os moradores se descrevem como “anarquistas com regras”, mas a porta-voz da comuna, Hulda Mader, falou nos últimos dias sobre receber ameaças de morte depois de tentar intervir em confrontos entre gangues de drogas. Houve uma onda recente de esfaqueamentos e, em outubro, um homem de 22 anos foi morto a tiros.

“Houve vários episódios violentos recentemente”, disse Mader. “Essas não são pessoas que conhecemos. Suspeitamos que sejam gangues. Temos medo de que a situação se transforme em uma guerra de gangues em Christiania.”

“Quando nós, moradores, tentamos deter as cobras do haxixe, fomos ameaçados de morte. Já é suficiente. Nós nos isentamos de responsabilidade pelo que acontece na Pusher Street.”

“Não é algo que nós, como indivíduos, possamos nos opor. Agora houve repetidos episódios de violência e simplesmente pensamos que se tornou muito perigoso para nós”.

Andersen disse que um fórum para discussão sobre um novo plano local foi estabelecido entre a fundação Fristaden Christiania, que administra a área, e o município e a polícia de Copenhague.

Ela disse: “Esta é uma proposta que estou fazendo em parte porque estou conversando com moradores que querem o fim da Pusher Street e da violência crua que vemos nas gangues. E em parte porque a violência atingiu um nível em que não podemos nem queremos nos encontrar enquanto cidade”.

Fonte: https://www.theguardian.com/world/2023/may/09/gang-violence-could-end-open-cannabis-trade-in-anarchist-commune-christiania

Tradução > Contrafatual

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espiral de sol –
luz nas frestas da
escada em caracol

Carlos Seabra

[França] Lançamento: “Geopolítica do Anarquismo | Rumo a um novo momento libertário”, de Édouard Jourdain

O anarquismo, apesar da multiplicidade de teorias que o podem reivindicar, baseia-se em vários princípios que podem constituir alguns denominadores comuns: a rejeição da autoridade coercitiva que exige a livre associação ou federação de indivíduos entre si; a rejeição do capitalismo e da exploração que induz à reorganização da produção; A rejeição da alienação que leva ao desenvolvimento do pensamento crítico, o primeiro passo para romper a servidão voluntária…

Diante das crises que atualmente assolam o mundo (crise do capitalismo, da representação, do meio ambiente…), o anarquismo está se tornando uma atualidade candente. As múltiplas correntes que a alimentam estão, assim, unidas em batalhas travadas em conjunto para construir a sociedade futura. O anarquismo tem hoje uma dimensão internacional marcada por experiências e ações diversas, de diferentes escalas e modalidades, mas cujo impacto está longe de ser desprezível.

De movimentos alterglobalistas a experiências revolucionárias como Chiapas ou Rojava, passando por hackers ou pelos comuns, o anarquismo exerce uma influência política que deve ser compreendida para compreender as novas dinâmicas geopolíticas.

Especialista em pensamento libertário, história do anarquismo e, em particular, Pierre-Joseph Proudhon, Édouard Jourdain é professor pesquisador em teoria política e pós-doutorando na École Polytechnique.

Resumo

– Genealogia de um movimento global

– A subversão da globalização

– A emergência de uma cultura libertária internacional

Géopolitique de l’anarchisme | Vers un nouveau moment libertaire

Édouard Jourdain

13 de abril de 2023

EAN : 9791031805856

13 x 20,5 – brochura – 176 páginas

20,00 €

www.lecavalierbleu.com

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figos pretos
em farrapos nas figueiras
chuva de outono

Rogério Martins

[Suíça] Solidariedade, não deslocamento — juntos contra a gentrificação capitalista de nossas cidades!

Evento de networking, Winterthur, 26 a 29 de maio de 2023

Em maio de 2021, a administração municipal de Winterthur lançou um plano de desenvolvimento em toda a cidade chamado “Winterthur 2040”. Este plano promove Winterthur como um lugar atraente para os chamados altos salários. A maioria dos antigos locais industriais já foram transformados em lofts chiques e shoppings. Agora, o próximo passo do plano é colocado em ação, a gentrificação dos distritos acessíveis de Winterthurs.

A SKKG, a Fundação para Arte, Cultura e História (Stiftungfür Kunst, Kulturund Geschichte), possui mais de 1700 apartamentos baratos em toda Winterthur. A SKKG promove um plano de dez anos para renovar e/ou demolir todos os apartamentos, a fim de aumentar o aluguel. Muitos que vivem nas chamadas “casas Stefanini”, de propriedade do SKKG, não podem pagar um aluguel maior; eles serão deslocados. Algumas das “casas Stefanini” são ocupadas ou autogovernadas pelos habitantes. Eles também estão ameaçados pelo despejo.

Resistiremos a essa “modernização da cidade” anti-pobre e orientada para o lucro (como eles chamam) com uma perspectiva anticapitalista vinda de baixo. É por isso que convidamos você a vir a Winterthur no Pentecostes de 2023 para um evento interregional. Ao longo de três dias (26 a 29 de maio), queremos compartilhar nossas experiências com as lutas contra a gentrificação, o deslocamento, a escassez de moradia e a comercialização do espaço público. Queremos aprender, fazer networking e conectar a luta contra a exploração capitalista.

Este evento é organizado pela Housing Network Winterthur, uma coalizão formada por assentados, casas autogovernadas, grupos anticapitalistas e ativistas. Juntos, lutamos contra a “modernização da cidade” capitalista para salvar a moradia a preços acessíveis para todos.

Embarque nessa!

Queremos nos conectar com pessoas interessadas em política habitacional, habitantes afetados pela gentrificação, ativistas, inquilinos, assentados… de todas as partes da Suíça e do exterior. Queremos nos concentrar na crise habitacional, discutir-la de um ponto de vista de esquerda e anticapitalista e construir uma solidariedade interregional.

Neste evento, você conhecerá grupos e projetos, discutirá questões urgentes, comerá e beberá, planejará alguma ação direta etc. Para que isso aconteça, precisamos da sua ajuda! Quanto mais pessoas e grupos participarem da preparação do evento, mais interessante será.

Estamos aguardando sua resposta!

Se você estiver interessado, entre em contato conosco via e-mail: haeuservernetzung-winti@riseup.net

Ou junte-se a nós em nossa reunião mensal no Old Bus Depot, Tösstalstrasse 86, 8400 Winterthur, todo terceiro domingo do mês às 13h00.

Por favor, compartilhe este convite com seus amigos. Mais informações: wohnraumverteidigen.noblogs.org

Tradução > abobrinha

agência de notícias anarquistas-ana

sob o sol se pondo
como alfinete no lago
descansa a garça

Marcelo Santos Silvério

Origens do 1º de Maio: Passado & Presente!

Como parte da programação do mês do trabalhador, a Biblioteca Municipal Alberto Sousa, exibirá o documentário “1917: A Greve Geral” de Carlos Pronzato, e em seguida haverá uma roda de conversa sobre a origem do sindicalismo no Brasil e as lutas dos trabalhadores na atualidade com a presença de membros do NORT (Núcleo de Resistência dos Trabalhadores) & do Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri (NELCA). Imperdível!

DATA: 20 de Maio de 2023 (Sábado), às 15 horas;

LOCAL: Biblioteca Municipal Alberto Sousa

ENDEREÇO: Praça José Bonifácio, número 58 – Centro – Santos/SP

ENTRADA GRATUITA!!!

FORTALEÇA A CULTURA LIBERTÁRIA (A)!!!

agência de notícias anarquistas-ana

A abelha tristonha,
fauna e flora devastadas,
produz mel amargo.

Leila Míccolis

[Portugal] Mulheres, Unir Fileiras

Autor: Júlia Cruz | Data: 20 de janeiro de 1918 | Fonte: A Greve, N.º 23 – Ano 1 (2.ª Série)

No presente momento em que as grandes nações se batem por uma luta de interesses, as classes produtoras morrem pelas ruas de fome e frio. Que situação horrorosa a da classe trabalhadora, criada por indivíduos que nenhum respeito nutrem pela existência dos que tudo produzem. Donde provém este mal? Da desorganização da classe operária, e sobretudo da má educação que existe no elemento feminino que este período tem um papel importante a desempenhar na momentosa questão da carestia da vida.

Há uma necessidade absoluta de se organizarem os trabalhadores dentro dos seus sindicatos profissionais, ás mulheres se reconhece as mesmíssimas necessidades de se organizarem para a grande luta de amanha em face da situação desgraçada em que se encontra a sociedade atual.

A mulher tem um papel importante a desempenhar, e como tal, tem-se de lhe fazer sentir de que ela não deve ser a besta de carga no lar, uma boneca de cordelinhos, que se mexe para todos os lados, que o homem entende que a deve levar.

As classes dominantes têm conservado sempre a mulher na maior ignorância para mais facilmente a poderem dominar; têm procurado mantela sempre na escravidão, e para impedir que saia da sua condição, triste rodearam-na de ridículas preocupações, menosprezaram o seu trabalho, a sua influência na sociedade; anularam-na na família e colocaram-na em segundo lugar: criaram a honra para que não queira ser escrava, a sociedade a vilipendie. Estou certa que muitas das minhas companheiras de infortúnio ao lerem isto deixarão assomar aos lábios um sorriso de desdém; parecer-lhes-á que digo um absurdo ou uma loucura; mas se se detiverem a reflexionar compreenderão que o que lhes digo não é nenhuma invenção minha, mas o reflexo do que se passa na sociedade.

A nós que nos querem senão pelo proveito que podemos dar, ora satisfazendo os caprichos dos imbecis, ora para que trabalhemos sem descanso, sem se lembrarem jamais que nós também temos um coração capaz de sentir generosos impulsos e um cérebro que pode conceber e assimilar ideias científicas e nobres.

A nós obrigam-nos brutalmente a seguir a vontade de outro… a esposa do burguês pode gozar as caricias do amor. A mulher do trabalhador apenas tem tempo para ouvir os toeses insultos que este no seu desespero lhe dirige. Terá o inefável consolo de que se seu filho é soldado e seu esposo está em greve, faça fogo sobre ele; em troca poderá, para compensar estes benefícios, morrer de fome sem maldizer os causadores da sua desgraça, porque então seria uma má patriota.

Companheiras: visto que todos são contra nós, visto que sobre nós querem desafogar as suas iras e fazer-nos alvo das suas infâmias, unamo-nos, mas duma maneira enérgica, que não de azo a que nos continuem considerando como essas débeis e incapazes. Não sejamos por mais tempo ruins e cobardes; e para nos libertar do jugo capitalista e da escravidão do homem bestializado pelo meio social existente unamo-nos todas numa só força, para assim levarmos a cabo a nossa emancipação. O momento aproxima-se da grade hecatombe burguesa, e nós mulheres preparemo-nos numa só força, para quando for preciso vira á rua protestar contra a especulação dos capitalistas, as mulheres sejam o porta-voz da sua libertação moral e material.

Fonte: https://ultimabarricada.wordpress.com/2023/04/06/mulheres-unir-fileiras/

agência de notícias anarquistas-ana

Branco instante
entre verde e azul:
garça ou pensamento.

Yeda Prates Bernis

[EUA] Defensores da Stop Cop City espalham o nome de policial assassino e agora enfrentam 20 anos

Três pessoas envolvidas no movimento Defend Atlanta Forest estão enfrentando acusações de intimidação criminal de um oficial do estado e contravenção por colocar panfletos em caixas de correio em um bairro no Condado de Bartow, Geórgia, cerca de 40 milhas de Atlanta. Os detidos foram mantidos em confinamento solitário por dias, disseram um advogado que trabalha no caso e um parente de um dos ativistas.

O panfleto, de acordo com o advogado, nomeou um policial que mora na área onde os ativistas foram presos e o identificou como ligado ao assassinato em janeiro de Manuel “Tortuguita” Terán durante uma operação de várias agências no acampamento de protesto em defesa da Floresta de Atlanta.

Um relatório forense do Georgia Bureau of Investigation sobre armas disparadas durante o assassinato de Tortuguita nomeou seis patrulheiros estaduais: Bryland Myers, Jerry Parrish, Jonathan Salcedo, Mark Jonathan Lamb, Ronaldo Kegel e Royce Zah. De acordo com registros públicos, um dos policiais citados mora na área onde os ativistas postaram panfletos. O relatório foi obtido pelo Atlanta Community Press Collective, um grupo de mídia abolicionista sem fins lucrativos, por meio de uma solicitação de registros abertos.

Julia Dupuis, Charley e Wednesday foram presos em um posto de gasolina fora da cidade de Cartersville na sexta-feira. De acordo com sua advogada, Lyra Foster, eles dirigiram pelo bairro e colocaram panfletos em várias caixas de correio sem sair do veículo ou abordar qualquer morador. Foster disse que Wednesday era uma passageira no carro e não estava postando panfletos.

Se forem considerados culpados, cada um deles pode pegar até 20 anos de prisão.

“Eles não estavam distribuindo panfletos, na verdade foram extremamente cuidadosos ao tentar evitar fazer qualquer coisa ilegal”, disse Foster. “Eles colocaram os panfletos nas caixas de correio, nem saíram da van para colocar os panfletos nas portas e não abriram as caixas de correio porque pensaram que isso era potencialmente ilegal”.

Todos os três detidos estão na Cadeia do Condado de Bartow; todos tiveram a fiança negada por um juiz magistrado na segunda-feira. Nenhum dos réus tem antecedentes criminais, nem há qualquer alegação de violência nas acusações atuais. “Negar a fiança deles foi extremo”, disse Foster.

De acordo com Foster e também com o irmão de Dupuis, Nicholas Kees Dupuis, os ativistas foram mantidos em confinamento solitário até terça-feira; nenhuma razão foi dada pela prisão, de acordo com o advogado.

No mês passado, um relatório oficial da autópsia revelou que Tortuguita, 26, foi baleade pelo menos 57 vezes quando a polícia invadiu o acampamento de protesto. O policiamento repressivo aumentou nos últimos meses contra o movimento para impedir que um centro de treinamento policial de US$ 90 milhões – “Cop City” – seja construído na floresta de Atlanta. Quarenta e dois participantes do movimento atualmente enfrentam acusações estaduais de terrorismo doméstico por supostamente se envolverem em pequenos danos à propriedade – cujas evidências são tão frágeis quanto a polícia citando que havia lama nos sapatos dos manifestantes.

Essas últimas prisões fazem parte de um padrão de extremo exagero e esforços para silenciar a indignação com o assassinato de Tortuguita.

“Desde que a polícia estadual matou Tortuguita, sua principal prioridade tem sido manter a situação em silêncio. Agora que o público está chamando a atenção para isso, a polícia está dobrando os esforços”, disse Marlon Kautz, um organizador do Atlanta Solidarity Fund, que fornece fundos de fiança e apoio jurídico aos manifestantes em Atlanta. “É exatamente a mesma estratégia que eles usaram antes contra os manifestantes do Stop Cop City: acenar com acusações extremas, jogar ativistas na prisão sem fiança e esperar que o problema desapareça.”

Nicholas Dupuis disse que sua família soube da prisão de sua irmã de 24 anos ao receber uma ligação do controle de animais em Cartersville, explicando que eles estavam com o cachorro dela, pois ela havia sido presa. Embora Julia Dupuis, uma escritora freelancer e ativista antirracista, esteja morando principalmente em Massachusetts, ela passou vários meses em Atlanta como parte do movimento Stop Cop City.

No mês passado, o Atlanta Community Press Collective divulgou os nomes dos seis policiais identificados pelo Georgia Bureau of Investigation como tendo conexão com o assassinato de Tortuguita e publicou um link para o relatório GBI. A porta-voz da GBI, Nelly Miles, disse que a agência não divulgou os nomes dos policiais e citou uma isenção sob a lei estadual de registros públicos usada para censurar documentos. Os nomes não foram censurados na versão do relatório obtido pelo Atlanta Community Press Collective, que disse ter obtido o documento do Dekalb County Medical Examiner’s Office.

Tradução > Contrafatual

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agência de notícias anarquistas-ana

Tarde de sol,
o armador da rede
range devagar.

Luiz Bacellar

[Colômbia] Fúria Anarquista do Livro e da Cultura

13-21 de maio: Bogotá

A Fúria Anarquista é um espaço de encontro e difusão da cultura libertária, auto-organizado como uma interzona: uma colaboração entre diferentes grupos e indivíduos, que torna possível a construção da feira. A Fúria Anarquista de Bogotá é um eco de outras Fúrias que aconteceram em cidades latino-americanas e das Feiras de Livros Anarquistas que aconteceram na última década em Bogotá e Medelim.

Nesta versão, A Fúria Anarquista conta com cerca de 40 eventos culturais e artísticos, incluindo palestras, oficinas, concertos, lançamentos de livros, performances, teatro, encontros de poesia, exposições de arte, entre outros, com início no dia 10 de abril.

A semana principal da Fúria será de 13 a 21 de maio e os eventos acontecerão em vários locais que apoiam a feira: La Redada – Miscelânea cultural, Teatro Acto Latino, Casa de Educación Codema, Rojinegro Distribuidora Libertaria, Librería La Valija de Fuego, Librería Prosa del Mundo, La Corriente, La Hoguera, Teatro La Libélula Dorada, Parque Entre Nubes e Bosque Okupa.

Nos dias 18, 19 e 20 de maio, haverá uma feira de livros, da qual participarão cerca de trinta editoras. Esse será um espaço para o encontro com diferentes tipos de textos, em uma ampla variedade de pensamentos ácratas.

Este ano, coletivos, pessoas e projetos se juntam A Fúria vindos de Bogotá, Pereira, Cali, Popayán, Chile, México, Peru, Argentina, Cuba, Itália, Venezuela, Áustria e Espanha.

Nos encontramos no A Fúria!

Siga A Fúria em: https://www.instagram.com/lafuriaanarquista/

agência de notícias anarquistas-ana

minha sombra
com pernas mais longas
não me afasta

André Duhaime

[Espanha] O pragmático e rebelde abstencionismo

As pessoas ao meu redor, mais ou menos carinhosas, tão francas quanto bem-intencionadas, me reprovam por minhas constantes críticas, bem temperadas com sarcasmo saudável, da esquerda parlamentar com intenções supostamente transformadoras. Já prevejo que a coluna lúcida de hoje não vai ser, por qualquer trecho da imaginação, algo como uma retração, nem mesmo um passo atrás em meu niilismo ácrata! Retórica e brincadeira à parte, e sem qualquer condescendência, uma parte de mim, insondável se você quiser, entende estas pessoas que continuam teimosamente confiando na chamada democracia representativa para tentar mudar as coisas, mesmo que apenas um pouco. Na verdade, até eu, em um certo dia de eleição, fui tentado a colocar uma cédula de voto nas urnas, não tanto porque confiei em um político profissional, mas simplesmente para ver como era. Na vida você tem que tentar coisas diferentes! Em todo caso, que todos assumam a responsabilidade por seus próprios motivos, mas o que me farta ao ponto de me cansar são as razões dadas para me repreender quando exerço a abstenção, aquela chamada abstenção ativa, de uma forma nobre e perspicaz. O tipo minoritário de ser humano que normalmente me critica é aquele que considera, simplesmente, que você tem que votar como uma participação política no sistema em que vivemos, o único verdadeiro, e que, se você não o faz, não pode protestar ou fazer exigências.

Não há muito terreno intelectual para esta reflexão e, sem entrar em muita profundidade, pode-se dizer que é o contrário; se você exerceu seu direito de voto, você delegou seu poder de ação política e é difícil para você exigir qualquer coisa. No entanto, reconheço que há alguma retórica nesta argumentação, uma vez que requer mais considerações, mas certamente não é a simplicidade comum de “se você não votar, você não pode protestar”. As críticas generalizadas a este sistema “democrático” incluem a falta de cultura política entre a grande maioria das pessoas, a preguiça intelectual para ler o programa de cada força política (para que não tenham sequer que disfarçar o não cumprimento), a personalização do partido no topo da lista (para que o voto seja dirigido ao carisma do político em questão, algo abertamente aterrador) e, em geral, o circo midiático no qual cada opção eleitoral compete no mercado como apenas mais um produto (é o mercado, meus amigos!). Toda esta argumentação poderia ser mais do que suficiente para mandar o sistema político em que vivemos para o inferno, o que, deve ser explicado, não significa renunciar a toda ação política (dizer “não”, para começar, me parece ser uma ação política mais do que saudável); mas deixemos as críticas genéricas e vamos, como ele disse, aos detalhes da dica de uma possível transformação social através das urnas.

Como eu disse, esta crítica a minha atitude lúcida e honesta de abstenção é exercida apenas por uma minoria; para eles, o voto parece mais uma obrigação cívica e não parece importar a quem ele é feito, então temos que incluir aqui forças políticas que têm pouco ou nada a ver com democracia. Entretanto, os opositores mais veementes da abstenção tendem a ser pessoas de esquerda (o que quer que seja hoje em dia) que esperam uma nova opção transformadora, esta de verdade, ou pelo menos consideram que a direita iníqua (ou ultra-direita, que neste país inefável são coisas muito semelhantes) deve ser detida. Estes progressistas, e uso o termo sem a menor intenção pejorativa, tendem a ser particularmente obstinados e até mesmo nos demonizam e lançam acusações quando a ala direita vence nas urnas. Pouco importa que as taxas de abstenção permaneçam estáveis, neste país indescritível, onde tudo está empatado de forma limpa, e que mesmo quando desce, a “esquerda” não ganha necessariamente. Talvez isso devesse nos convidar a fazer perguntas sobre o sistema em que vivemos. Resta ver, em todo caso, que se a não participação nas urnas subisse significativamente, isso traria mudanças sociais; isso também porque nunca fui a favor de convencer ninguém, muito menos de fazer campanha por isso, como se isso nos trouxesse a mais alta expressão de ordem na forma de anarquia (uma ideia clássica anarquista que, por sinal, sempre vi como algo oximorônico). Se alguém quer votar, porque quer impedir outros que considera pior, ou porque seu próprio povo conseguiu aumentar o salário mínimo, ou porque não sei que leis trarão justiça, bem, tudo bem. Mas, por favor, que outros nos deixem em paz em nosso pragmático e rebelde abstencionismo. E, é claro, vamos usar nossa imaginação, não é a única maneira de não apoiar este mundo político que também não nos agrada.

Juan Cáspar

Fonte: http://acracia.org/el-pragmatico-y-rebelde-abstencionismo/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

sinto um agudo frio:
no embarcadouro ainda resta
um filete de lua

Buson

[Grécia] Cartaz | Greve eleitoral

As sucessivas crises sistêmicas e os “estados de emergência” impostos que as acompanham como forma de as gerir e de fazer avançar a reestruturação estatal-capitalista assentam no nosso permanente empobrecimento. O Estado e o capital, para manter seu domínio e lucratividade, vão desde a desvalorização de nossas vidas até a desvalorização total, como ficou evidente após o recente assassinato em Tempe.

Todas as partes estão tentando explorar a situação a seu favor. Apresentam o processo eleitoral como a única opção de sobrevivência e melhoria do nosso padrão de vida. Convidam-nos a escolher dentro de um quadro pré-determinado que estabelecem e que só lhes convém e à perpetuação do regime a que servem. Os nossos pretensos “salvadores” visam suprimir e/ou assimilar toda a resistência, canalizar a raiva social para vias eleitorais inofensivas de delegação e integração que conduzam, em última instância, ao reforço do sistema de dominação.

Recusamo-nos a confiar as decisões relativas às nossas vidas a qualquer especialista político ou tecnocrata.

Criemos no aqui e agora grupos, coletivos, comunidades de luta com base em relações fortes de liberdade, igualdade e solidariedade, em todos os campos de nossa vida cotidiana.

Enfrentemos todos os administradores do sistema de exploração e opressão, pela libertação individual e social.

Abstenção ativa

Luta pela destruição do Estado, do capital

E qualquer relação de autoridade

Coordenação de coletivos anarquistas contra as eleições

>> Nota: As eleições legislativas na Grécia acontecerão em 21 de maio.

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/04/19/grecia-cartaz-antieleitoral-atenas-tessalonica/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/04/05/grecia-abstencao-nas-eleicoes-revolucao-social-e-a-unica-solucao/

agência de notícias anarquistas-ana

Tens frio nos meus braços
Queres que eu aqueça
O vento

Jeanne Painchaud

[Espanha] Apoie a distribuição de cultura anarquista

No ano 2.000 um grupo de pessoas filiadas à CNT Cornellà começamos a dar forma a uma loja e distribuidora de material anarquista dentro do sindicato; que chamaríamos “El Grillo libertário” em reconhecimento ao ateneu libertário que compartilhava espaço então com o sindicato.

Nestes 20 anos o projeto foi crescendo e consolidando-se. Nos consideramos o braço cultural da CNT de Cornellà e comarca, sendo nossos 2 objetivos principais a difusão da cultura crítica e a autogestão da CNT.

Atualmente o projeto tem como pilares:

  • Loja física: Aberta cada tarde de segunda à sexta-feira na calle Florida nº 40 de Cornellà.
  • Distribuidora: Deixamos em depósito nosso material a iniciativas e coletivos afins, ajudando a autogestão através da cultura crítica.
  • Editoria: Graças a pessoas criativas que contatam conosco, publicamos obra inédita, assim como reedição de clássicos.
  • Loja virtual: Desde a rede fazemos chegar nosso material a toda a península e mais além. Contatando e tecendo rede com pessoas e coletivos de todo o planeta.
  • Solidariedade: Desde 2006 o benefício econômico que geramos o destinamos à causas solidárias como apoio a pessoas presas, lutas obreiras e autogestão da CNT de Cornellà. Publicamos em nossa web todos os donativos.

Queremos avançar o projeto e dotá-lo de uma web que melhore a atual. Que seja acessível a todos, de fácil gestão e manutenção.

Desgraçadamente nós não dispomos dos conhecimentos necessários, por isso decidimos pedir suporte a profissionais da área (cooperativa Jamgo e Explotación web) que nos acolheram e assessoraram.

Sabemos que a nova web nos permitirá seguir distribuindo cultura crítica, editando livros e permitindo dar suporte econômico às múltiplas causas do entorno libertário. Ao mesmo tempo, alcançar nosso objetivo em coletividade dá um sentido profundo ao projeto, fortalecendo assim nossos laços.

Em 9 de maio iniciamos uma campanha de co-financiamento através do GOTEO, lhes pedimos que façamos de novo realidade que A SOLIDARIEDADE É nossa MELHOR ARMA.

>> Clique aqui para apoiar:

https://goteo.org/project/encarem-juntes-una-nova-etapa-el-grillo-libertário

>> Pode nos encontrar em:

https://www.instagram.com/elgrillolibertário/?hl=es

www.elgrillolibertário.org

elgrillolibertário@nodo50.org

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

no outono nos separamos
como as duas conchas
de uma ostra

Matsuo Bashô

[Itália] O atentado contra Mussolini de Gino Lucetti

[…] O anarquista Gino Lucetti, com sua visão individualista, é uma figura destacada do antifascismo de Avenza, e não só daí.

Muitos dos que o conheceram o recordam sempre pensativo, com um livro debaixo do braço, passeando na beira do rio. De origem obreira, foi praticamente autodidata e sobre a base dessa educação participou nas lutas sociais dos anos vinte, enfrentando os fascistas em numerosas ocasiões.

Durante um enfrentamento, mais violento do que o habitual, no popular “Café Napoleón” foi ferido de bala no pescoço após uma troca de disparos com um fascista (um tal Perfetti) que recebeu um tiro na orelha. Caiu perto de Montignoso, ao não encontrar um médico disposto a extrair-lhe a bala. Ao cabo de uns dias foi embarcado clandestinamente para a França, onde finalmente recebeu tratamento.

Ali planejou o atentado contra Mussolini que o faria famoso, apesar de estar sem dinheiro (uma companheira sua, Lina Squassoni, que vivia em Aubagne, perto de Marselha, lhe emprestou dinheiro para a viagem), regressou a Roma para atentar contra o Duce em 11 de setembro de 1926.

Quando o famoso carro Lancia que transportava Benito Mussolini se aproximou, Lucetti lançou uma granada que estourou contra o pára-brisas. Mas não explodiu, ricocheteou no estribo e só explodiu estando a uns metros, na calçada.

Na confusão que seguiu, Lucetti se refugiou no portal número 13 de Via Nomentana, mas os guarda costas do Duce não tardaram em alcançá-lo para golpeá-lo com chutes e socos. Levava uma segunda bomba, um revólver com seis balas envenenadas com ácido muriático, e um punhal.

Na delegacia, foi submetido a um feroz interrogatório, disse chamar-se Ermete Giovanni, de Castelnuovo Garfagnana. Graças a esta história falsa, confundiu o regime, cujas investigações se centraram unicamente em descobrir os cabeças da conspiração da qual supostamente fazia parte, em Garfagnana e em nenhum outro lugar! Bloquearam estradas e detiveram dezenas de pessoas: quando Lucetti deu por fim seus verdadeiros dados, toda a investigação caiu no ridículo.

Ao final do processo, em 1927, foi condenado a 30 anos de prisão. Outras duas pessoas, consideradas seus cúmplices, Leandro Sorio e Stefano Vatteroni, foram condenados a 20 anos, e 19 anos 9 meses respectivamente.

Lucetti foi recluso na prisão de Santo Stefano, onde passou quase 17 anos antes de ser transladado a Ischia, onde morreu em 15 de setembro de 1943, segundo algumas fontes em um bombardeio da aviação estadunidense. Outros afirmam (e entre eles Mauro Cacurna que recuperou seu cadáver e obteve informação no lugar) que os projéteis que o mataram haviam sido disparados pelos alemães que seguiam ocupando Procida, nas proximidades.

Há que recordar que faz alguns anos o L’Unita [periódico leninista] publicou um artigo no qual se afirmava, baseando-se no testemunho de um dos presos que o acompanharam, que Gino Lucetti se tornara comunista em seus últimos anos. Mas os anarquistas de Carrara o negam rotundamente e se apoiam no testemunho do irmão de Lucetti e de sua prometida, que o visitaram até o final.

Até aqui a história geral, extraída de diversos textos e provas. Ainda que em base a declarações feitas a quem isto escreve por Ugo Mazzuchelli de Carrara, sustentadas por sua vez em testemunhos de Stefano Vatteroni, se podem acrescentar detalhes interessantes.

Digamos em primeiro lugar que o plano do assassinato foi urdido no ambiente dos círculos antifascistas de italianos exilados no sul da França… não unicamente anarquistas, mas também membros dos grupos “Giustizia e Liberta” do Partido de Ação e outros, de diversas tendências mas todos convencidos da necessidade de eliminar fisicamente o líder fascista.

Isto contribui para dar ao plano urdido por Lucetti conotações diferentes de outras ações anarquistas, como o atentado de Gaetano Bresci contra a vida do rei Umberto; neste caso, o impulso de matar Mussolini foi a expressão de uma convergência de opiniões entre outras agrupações políticas de representação popular sobre o que naquele momento se percebia comumente como uma necessidade: assim, o método também difere em alguns aspectos do espírito individualista com o qual haviam levado a cabo outros assassinatos anarquistas anteriormente.

De fato, ainda que no exílio, Lucetti nunca perdeu o contato com seus camaradas de Carrara e regressou duas vezes para realizar reuniões clandestinas com eles. Outra reunião, na qual se decidiu o assassinato, se celebrou em Livorno, obviamente com o máximo segredo, a bordo de um barco em alto mar. Mazzuchelli escoltou Lucetti até Gênova antes de que este regressasse à França para combinar os detalhes com os companheiros exilados. Ali se organizou o melhor que pôde e ao chegar a Roma recorreu ao apoio do camarada Stefano Vatteroni, que trabalhava na capital como funileiro.

De fato, o papel de Vatteroni na organização do atentado foi crucial; na realidade, Vatteroni, aproveitando sua amizade com o secretário da biblioteca de Mussolini, um antigo colega seu, proporcionou todos os detalhes essenciais, até a rota que seguiria o carro do Duce em 11 de setembro. Errico Malatesta, informado do plano, lhe deu sua aprovação.

Vatteroni fez consideráveis sacrifícios, sem dizê-lo a ninguém devido a sua típica modéstia, e chegou a vender um terreno de sua mãe em Avenza para financiar o que estava se organizando.

Também se ocupou da questão do apoio logístico e chegou a um acordo com o anarquista de Reggio Leandro Sorio, garçom de uma pousada na qual o proprietário também era colaborador do grupo, até o ponto de que inclusive se ofereceu para dar o dinheiro para tirá-los do país após o atentado. Vatteroni, no entanto, declinou da oferta, porque os organizadores haviam acordado entre eles que todos deviam deixar-se deter para serem julgados… prova extrema da solidariedade e determinação dos anarquistas. Se supõe que Gino Bibbi, outro anarquista de Arenza cuja casa foi destroçada e sua moto incendiada por fascistas, também fazia parte da organização.

Após a sentença ao finalizar o julgamento, Vatteroni cumpriu os três primeiros anos de sua condenação em completo isolamento e a única companhia que tinha era a de um pardal que visitava sua cela.

Deste testemunho surge o retrato de um lutador pela liberdade menosprezado pelos historiadores oficiais e ao qual os anarquistas de Carrara quiseram honrar junto aos grandes anarquistas da região… Lucetti, Meschi e o milanês Giuseppe Pinelli. Nele seus camaradas vem alguém que empreendeu a luta pela liberdade e a verdade, como se desprende dos versos de Edgar Lee Masters colocados em seu monumento.

Pietro de Piero

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

sob o último sol,
ave beija a face do lago;
o espelho trêmulo se arrepia.

Alaor Chaves