[Espanha] Meia centena de livrarias declaram guerra à guerra

A campanha ‘Mais livros: é a guerra!’, apoiada por livrarias e editoras, propõe desmilitarizar o pensamento e defende o direito “à crítica, à dissidência e a uma informação rigorosa, veraz e independente”.

Meia centena de livrarias, editoras e agentes do mundo do livro lançaram a campanha “Mais livros: é a guerra!” com a qual se posicionam frente à escalada bélica desatada após a invasão da Ucrânia por parte da Rússia no final de fevereiro de 2022.

Os projetos aderidos à campanha explicam que seu propósito é transformar sua “dor e impotência” em ação, para dessa maneira “ser parte responsável de uma mudança cultural que contribua para a eliminação das causas que provocam as guerras e a erradicação da violência, e sua mercantilização, como forma de relação entre as pessoas e os povos”.

A campanha desenvolverá ações em forma de atividades, mesas redondas, palestras, conferências, itinerários de livros contra a cultura da guerra e pela eliminação de todos os conflitos armados. “Nos comprometemos a compartilhar atividades e difundir todos aqueles livros que possam ajudar a desmilitarizar nosso pensamento para animar-nos a desertar da barbárie”, se lê no manifesto, que também aponta à responsabilidade cultural destas livrarias em um momento como o presente: “Abrir linhas de fuga para desaprender a guerra e defender o direito à crítica, à dissidência e a uma informação rigorosa, veraz e independente”.

Em seu manifesto, “Mais livros: é a guerra!” propõe três demandas concretas: apoiar a deserção e a objeção de consciência na Ucrânia, Rússia e Bielorrússia; a paralisação do envio de armamento à Ucrânia e que o gasto militar espanhol designado ao conflito Ucraniano se dirija às organizações independentes que trabalham sobre o terreno, atendendo vítimas desta e outras guerras; e, por último, a potencialização de políticas europeias de negociação, conciliação e convivência entre as populações enfrentadas, assim como a reconstrução da Ucrânia se leve a cabo com o orçamento militar europeu, sem custo para a sociedade Ucraniana nem negócio para as multinacionais ocidentais.

“Não queremos — resume o comunicado das livrarias — mal viver entre suas trincheiras, nem apoiar o patriotismo nacional ou o supremacismo imperialista de um ou outro bando. Não seremos cúmplices de sua carnificina e sua devastação. Nos negamos a qualquer forma de colaboração com esta injustiça e nos declaramos livrarias, editoras e bibliotecas insubmissas à guerra e à militarização social”.

Para as livrarias e editoras signatárias, o discurso de mandar armas à Ucrânia e de ganhar a guerra “por meio de uma vitória impossível, desprezando medidas de diálogo e negociação e aos que as defendem, prioriza o enriquecimento criminoso de uma minoria e joga com o destino e a sobrevivência da população Ucraniana”.

Mais livros: é a guerra! conta com a imagem gráfica desenvolvida pela artista Emma Gascó e a página web livroscontralaguerra.org.

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

sol poente
numa ruela
menino corre das sombras

Rod Willmot

[EUA] O preso político anarquista Dan Baker precisa de apoio!

Chamada da Cruz Negra Anarquista de Nova York (NYC-ABC) para apoiar o prisioneiro anarquista e antifascista Daniel Baker.

Daniel Baker é um ativista antifascista que foi preso em 15 de janeiro de 2021 por postagens nas redes sociais que pediam defesa contra possíveis ataques de extrema direita após os distúrbios de 6 de janeiro. Daniel estava enfrentando até 10 anos por duas acusações de transmissão de comunicação no comércio interestadual contendo ameaças de sequestro ou agressão. Em 12 de outubro de 2021, ele foi condenado a 44 meses de prisão e 3 anos de liberdade condicional.

Recentemente, Dan passou por um momento excepcionalmente difícil e iniciou uma greve de fome em março para protestar contra suas condições. Ele está atualmente no SHU, foi atacado por um fanático de direita, seu direito de transferência oportuna para uma casa de recuperação está sendo negado e o contato com seu advogado foi limitado. Aqui¹ está um pedido de cartas para que o BOP saiba que Dan tem pessoas do lado de fora e que queremos que ele seja tratado com humanidade e liberado logo.

Por favor, verifique a lista de livros de Dan aqui² para enviar-lhe algo para ler.

Apoiar presos políticos como Dan é vital, especialmente em momentos como este. Nas palavras do próprio Dan:

“…por favor, não se assuste com o número de camaradas na prisão. Em vez disso, reserve 5 minutos todos os dias para escrever para um prisioneiro político diferente e responda quando ele responder. Seus esforços para iluminar nossa situação como prisioneiros políticos é tudo o que impede que os policiais nos matem impunemente.”

NYC-ABC está pedindo que você se junte a nós escrevendo ao preso político Daniel Baker. Envie-lhe livros. Preste atenção na campanha dele. Envie-lhe um pouco de amor e mostre seu apoio a um camarada!

Daniel Baker nº 25765-509

FCI Memphis

Caixa Postal 34550

Memphis, TN 38184

EUA

[1] https://actionnetwork.org/letters/dan-baker-needs-our-help/

[2] https://www.amazon.com/hz/wishlist/ls/XVSE0XEP9TJM/ref=nav_wishlist_lists_1

Fonte: https://itsgoingdown.org/anarchist-political-prisoner-dan-baker-needs-support/

Tradução > Contrafatual

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/04/07/eua-greve-de-fome-dia-1-por-dan-baker/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/12/20/eua-um-anarquista-condenado-fala-a-verdade-sobre-a-injustica-por-dan-baker/

agência de notícias anarquistas-ana

De que árvore florida
chega? Não sei.
Mas é seu perfume…

Matsuo Bashô

[Joinville-SC] De 2013 pra cá: as Jornadas de Junho e a memória das ruas

No dia Primeiro de Maio de 2023, aconteceu em Joinville (SC) o IX Sarau 1º de Maio, realizado pelo Coletivo Anarquista Bandeira Negra (CAB). A seguir, leia a carta de abertura do evento.

Carta de Abertura do IX Sarau 1º de Maio (2023)

Compas de luta, sintam-se convidados ao 9° Sarau de Primeiro de Maio, dia de luta da classe trabalhadora em todo o mundo.

O Coletivo Anarquista Bandeira Negra (CABN), integrante da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), celebra com toda a companheirada mais um ano de nosso sarau. Agradecemos à Associação dos Moradores e Amigos do Bairro Itinga (Amorabi), que mais uma vez nos acolhe, e também à comunidade do bairro Itinga, território de luta com quem aprendemos por toda sua história de organização de base. São nove anos de construção do sarau com muito amor e rebeldia, em que nos reunimos para relembrar a história das lutas de nossa classe, festejar a vida de nossa gente que segue de pé e compartilhar nossa arte – ou como dizem nossas companheiras zapatistas: CompArte!

Gente trabalhadora reunida, compartilhando caminhos e sonhos, incomoda e assusta o patrão. Cada direito que temos foi arrancado pela força das ruas, das greves, do apoio mútuo entre a companheirada e da nossa organização enquanto classe, com o compromisso de quem deu a vida pela luta do povo. 1º de Maio marca o assassinato cometido pelos patrões e pelo Estado contra os mártires de Chicago: Albert Parsons, Louis Lingg, Adolph Fischer, George Engel, August Spies, Michael Schwab, Samuel Fielden e Oscar Neebe. Rememoramos também nesse dia todas as pessoas assassinadas, torturadas, presas e perseguidas por sua peleia em busca de uma vida digna, na cidade, no campo e na floresta.

Por isso, o 1º de Maio, como já cantamos antes nesse palco, “não é dia do trabalho. Dia 1º de Maio é dia de quem trabalha”. Marcando essa data de nosso calendário rebelde, queremos hoje rememorar também mais um marco de nossa história: as manifestações que tomaram as ruas em 2013, as Jornadas de Junho.

As lutas de 2013 iniciaram contra os aumentos da passagem de ônibus em várias cidades do país, ainda em janeiro. Quando recebemos cenas da brutalidade policial contra manifestantes em São Paulo, no início de junho, foi que as manifestações do Movimento Passe Livre (MPL), aliado às frentes populares de luta pelo transporte, se multiplicaram e reuniram centenas de milhares de pessoas nas ruas, com destaque para os dias 13 e 20 de junho. Houveram atos conectando a rebeldia contra a tarifa e a polícia em Joinville, Florianópolis, Porto Alegre, São Paulo, Brasília, Porto Velho, Maceió e centenas de outras cidades. É provável que 20 de junho tenha sido o dia em que mais gente saiu às ruas em um ato na história do Brasil. Por trás de tudo, havia o contraste entre demandas sociais urgentes do povo trabalhador e o dinheiro público utilizado para a realização dos megaeventos esportivos por parte do Partido dos Trabalhadores (PT), então à frente do Executivo nacional.

Após uma tentativa fracassada da mídia em criminalizar e deslegitimar os atos, houve um esforço coordenado e eficiente em disputar o sentido das ruas. Logo, as bandeiras contra a tarifa disputavam espaço com pautas genéricas contra a corrupção e a hostilidade a qualquer partido ou organização de esquerda. Na maioria das cidades, o bloco de esquerda se viu minoritário no final daquela disputa. Ainda assim, houve ganhos concretos da mobilização. Foi possível reduzir o valor da tarifa de ônibus em mais de 100 cidades ao mesmo tempo, conquista que teve impacto até nas estatísticas de inflação nacional de 2013.

Do ponto de vista político, também tiveram marcos importantes. As Jornadas de Junho inspiram uma geração de novos militantes a se organizar, incluindo parte de nossa organização atualmente. Dezenas de ocupações por moradia surgiram espontaneamente entre 2013 e 2014, se vinculando posteriormente ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e dando ao movimento a expressão e força que possui até hoje. As lutas contra as remoções dos megaeventos e as ocupações de escolas de 2015 e 2016, marco de combatividade do movimento estudantil, também tiveram influência decisiva desta luta.

Não podemos nos esquecer de Rafael Braga. Preso em 2013 por portar um Pinho Sol durante um ato, ele não era militante, apenas catava materiais recicláveis no Rio de Janeiro no momento da manifestação. Por ser negro e pobre, foi levado à prisão, incriminado falsamente pela polícia militar e depois adoecido pelo sistema carcerário. A campanha pela liberdade de Rafael Braga foi um grito motivado por 2013 contra as injustiças do sistema carcerário.

De 2013 pra cá, foram 10 anos em que continuamos enfrentando as investidas neoliberais; o capital agroexportador que engole nossas florestas e ameaça os povos que vivem nela; um período no qual presenciamos o avanço da extrema-direita, com quatro anos de um governo genocida e fascista. Vimos uma Copa do Mundo e uma Olimpíadas no Brasil projetadas sobre a expulsão forçada de milhares de pessoas pobres. Durante esses 10 anos, também testemunhamos o fortalecimento da ideia de que nossa única saída enquanto povo oprimido está na via eleitoral, na esperança de ser feliz depositada nas urnas. Há quem culpe 2013 por essa década, tentando jogar no colo do povo a culpa pelos golpes dados pela elite. Puxar o freio de mão da luta popular e responsabilizá-la por quaisquer resposta da direita, dos patrões ou do setor conservador presente entre o povo, é acreditar que recuando podemos vencer essa guerra, talvez sem incomodar tanto aqueles que nos exploram. Por tudo isso, é necessário afirmar: não conseguiremos construir um mundo novo sem destruir tudo o que nos oprime!

Como anarquistas, entendemos o Estado como nosso inimigo, como um instrumento de uma minoria que possui o monopólio da violência por meio das polícias para sustentar a riqueza de uma elite econômica. Não há perspectiva de construção de um Estado popular. Por isso, em 2013, não tivemos receio de apontar as contradições do governo do PT e nem de combater nas ruas suas medidas impopulares. Vale destacar que a direita neoliberal ou grupos fascistas não se fortaleceram através dos atos de 2013. Foram, na verdade, resultado de uma tentativa fracassada de lidar com as feridas escravocratas e da guerra de classes através de um pacto de conciliação.

Para garantir governabilidade, vimos anos de um governo federal progressista se curvando às demandas dos ricos, latifundiários e especuladores, culminando no golpe parlamentar sofrido em 2016 pela presidenta Dilma Rousseff (PT). Além disso, o esforço do Partido dos Trabalhadores para domesticar os instrumentos de classe e torná-los máquinas de campanha fez com que os sindicatos e movimentos sociais construídos pelo povo não tivessem mais força ou disposição para a luta popular, dando espaço para a direita na disputa ideológica.

Aqueles que hoje querem domesticar as ruas, tentam representar as Jornadas de Junho como um ato de grupelhos da direita ou uma armação da CIA. Esses grupelhos pró fascistas, que nem existiam em 2013, teriam lutado para baixar o preço da tarifa e ocupado a Assembleia Legislativa? Teriam enfrentado e feito correr o caveirão da polícia racista, como aconteceu no Rio de Janeiro? Uma análise honesta sobre 2013 não deveria nos fazer temer as ruas, mas reafirmar nossos caminhos fora da democracia burguesa, na autonomia de nossa gente e em sua auto-organização.

Não há saída para o povo fora da luta popular. É o que nos ensina o 1º de Maio, assim como é o legado de 2013. Existem críticas e aprendizados a serem feitos neste balanço de 10 anos, mas eles não têm nada a ver com abandonar as ruas e atos autônomos. Em 2013, identificamos que não tínhamos força para enfrentar ao mesmo tempo a violência do Estado, a disputa ideológica da ação coordenada das mídias empresariais e a enrolação dos políticos profissionais. E por quê? Porque não havia organização popular suficiente.

Cada coração que bate por um mundo livre precisa ser, também, uma mão e um ombro dentro de um movimento social, de um sindicato ou de outro organismo de luta de nossa classe. Cada ato de rua deve servir também para trazer mais pessoas para nossos movimentos. Nossa vitória não será por acidente. Ela precisa ser construída com estratégia coletiva e trabalho cotidiano, desde hoje, desde baixo e à esquerda.

Que mais uma década de sonhos, peleia e organização se inicie. Que sejamos fortes para seguir tomando as ruas, lutando pela vida e por nossos territórios. Venceremos, companheiros e companheiras. Que o sarau de hoje possa festar nossos corações rebeldes. CompArte!

Viva a classe trabalhadora. Viva a luta de rua. Viva o anarquismo. Viva o 1º de Maio!

www.cabn.libertar.org

agência de notícias anarquistas-ana

lerdamente,
a água empurra a água
e o rio flui

Alaor Chaves

Livro “Amor Libre”

O livro “Amor Libre: discursos anarquistas sobre la unión libre y la libertad de los cuerpos” já está disponível em nossa livraria.

Publicado pela editorial Eleuterio (eleuterio.noblogs.org) em março de 2023, este terceiro volume da série Libertarias reúne 18 mulheres libertárias, pioneiras em evidenciar a opressão da mulher e estabelecer debates em torno do amor, maternidade, contracepção, desejo sexual feminino, monogamia, entre outros temas. Elas colocam em debate a dimensão pessoal e afetiva, denunciando a subordinação entre os sexos e afirmando que a emancipação humana só seria alcançada com a emancipação completa da mulher. Por isso, propunham relações afetivas e sexuais que tivessem como principal premissa a afinidade e a liberdade dos sujeitos.

Para saber mais acesse: https://livrariaterralivre.minhalojanouol.com.br/amor-libre/p

São poucos exemplares disponíveis!

Outros títulos de editoras parceiras: https://livrariaterralivre.minhalojanouol.com.br/editoras-parceiras/c

agência de notícias anarquistas-ana

lerdamente,
a água empurra a água
e o rio flui

Alaor Chaves

[EUA] A xenófoba “Title 42” termina, e a reforma da imigração de Biden não apareceu ainda

Relatório da Ação Indígena sobre o trabalho de ajuda mútua ao longo da chamada fronteira EUA/México, já que a “Title 42” está prestes a terminar.

A Ação Indígena recentemente apoiou @abolition.yumacounty (no Instagram) na fronteira “EUA-México”. São uma equipe de mulheres radicais e pessoas queer que fornecem suprimentos essenciais para indígenas e outras requerentes de asilo que são mantidas presas com nada além do que elas carregaram por milhares de quilômetros. Eles também oferecem suporte confidencial à liberação da gravidez. Por favor, apoie e seja voluntário se estiver na área de “Yuma”. Venmo: @ycabolition, Cash App: @YumaCountyAbolition

Com a “Title 42” terminando em 11 de maio (uma política xenófoba que deu ao governo o poder de expulsar rapidamente qualquer imigrante, sem dar a eles a chance de defender a travessia legal, inclusive para pedir asilo), Biden não fez nenhuma tentativa de reforma da imigração como ele prometeu durante a campanha, “só posso imaginar como é ver alguém da sua família ser deportado. Para mim, é tudo sobre família. Começo meio e fim. Isso não vai acontecer no meu governo. A ideia de que você não pode nem pedir asilo em solo americano. Quando isso aconteceu? Trump. Está errado.”

A mudança dessas políticas está ao alcance de Biden e, no entanto, ELE NÃO o fez. Ele teve 2 anos para se preparar para o final da “Title 42” e introduzir novas políticas que, segundo ele, “oferecem esperança e um porto seguro aos refugiados”.

O que estamos vendo agora na fronteira é hediondo. Abrigos e centros de detenção quase lotados. Centenas de pessoas são expulsas todos os dias. No mês passado, um incêndio em um centro de detenção matou 40 pessoas.

Em 2022, mais de 890 migrantes morreram ao atravessar a fronteira, e essas são as mortes registradas. Para pintar um quadro ainda mais amplo, desde 2021, houve 13.480 relatos de assassinato, tortura, sequestro, estupro e outros ataques violentos contra migrantes e solicitantes de asilo bloqueados ou expulsos para o México sob a “Title 42”.

Agora é a hora de enfrentar a xenofobia. Sejamos livres para vagar e livres para nos enfurecer onde quisermos!

Fonte: https://itsgoingdown.org/xenophobia-title-42-ends-bidens-immigration-reform-nowhere-to-be-found/

Tradução > Contrafatual

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/04/07/mexico-consideramos-isto-como-um-crime-de-estado/

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No parapeito
da velha janela
a gata espreita

Eugénia Tabosa

[França] Lançamento: “Uma breve história do anarquismo”, de Marianne Enckell

Os anarquistas gostam de contar lendas a si mesmos, inventar ancestrais e heróis. Mas a história do anarquismo é, acima de tudo, uma história muito real de homens e mulheres em luta, ávidos por conhecimento e mudança social, cultura e ideal. É também uma história de erros e fracassos, confrontos e avanços, e uma vontade nunca derrotada.”

Nesta caminhada na anarquia, Marianne Enckell, historiadora e facilitadora do Centro Internacional de Pesquisa sobre o Anarquismo em Lausanne, nos leva aos vestígios desse movimento desde suas origens até os dias atuais, abordando em particular seu aspecto internacional e sua dimensão cultural.

Une petite histoire de l’anarchisme

Marianne Enckell

ISBN : 9791092457605

128 p. – 11 x 17 cm –

10,00€

Nada Éditions

https://www.nada-editions.fr

agência de notícias anarquistas-ana

espuma do mar
adensa o voo das
gaivotas no ar

Carlos Seabra

[Chile] Santiago: explosões incendiárias no Liceo de Aplicación, Liceo Barros Borgoño, INBA, Liceo 1 e Liceo 4 para o “Día del Paco”

Na quinta-feira, 27 de abril, ocorreram manifestações maciças de violência de rua em escolas secundárias emblemáticas de Santiago, convocadas pela interrupção do “Dia do Carabinero (Paco)”, uma instituição com um histórico de corrupção, tortura, mutilações, desaparecimentos e assassinatos, desempenhando um papel fundamental por ser o braço armado do Estado.  Refrescando nossa memória, descobrimos que “(…) durante as décadas de 1930 e 1940, a forma como as manifestações eram reprimidas mudou, com o exército assumindo cada vez menos essa tarefa e os Pacos assumindo cada vez mais esse papel. Durante a década de 1930, as bombas de gás lacrimogêneo começaram a ser usadas e, em 1936, foi fundado o Grupo Móvel, um grupo especializado de policiais para reprimir protestos (mais tarde chamado de FFEE e agora COP). Na década de 1940, os pacos já eram os protagonistas de todos os protestos, realizando o massacre da Praça Bulnes em 1946, no qual mataram 6 pessoas, e a greve dos motoristas de ônibus de 1947, na qual mataram 4 pessoas” (La Rebelión del Matico, 2023).

Atualmente, no que conta como todo dia de manifestação e violência de rua, os estudantes secundaristas são respondidos pelo COP com a brutalidade que se caracteriza no uso de piquetes, carrinhos lançadores de gás (zorrillo) e canhões de água (guanaco), tendo sido feridos e detidos. Nesse dia, prenderam três estudantes do Liceu 1 e, no Liceu Barros Borgoño, um estudante foi atropelado por um desses carros lançador de gás, deixando-o com pequenas escoriações. Diante da situação de atropelamento, o Coletivo Matico y Ácrata emitiu o seguinte comunicado, cujo trecho é reproduzido abaixo:

“Com relação ao nosso companheiro atropelado pela polícia, à repressão dentro das escolas de ensino médio, ao uso criminoso de armas contra estudantes e às atuais mobilizações estudantis: a vingança é a única opção”.

 Os eventos ocorridos

No dia 27 de abril, por volta das 10h30, um grupo de 25 a 30 companheiros mobilizados bloqueou as ruas de San Diego em mais um ano contra a instituição bastarda da polícia. Tudo permaneceu normal, até o aparecimento dos corpos repressivos e o uso de seus métodos dissuasivos, onde todos nós, como comunidade e corpo estudantil, sofremos os efeitos do gás e da repressão na pele.

É preciso dizer que a repressão policial em todos os momentos foi brutal e com o objetivo de causar o maior dano possível ao corpo estudantil, chegando ao ponto de atropelar e colocar em risco a vida de um de nossos companheiros, apontando o jato do guanako diretamente para o corpo e gaseando os rostos dos companheiros à vista de todos.

Com relação ao nosso companheiro atropelado pelo carro de gás

Ontem sofremos um grave atropelamento intencional pelo zorrillo J-014 em um companheiro que naquele momento estava na rua, jogando-o cerca de um metro e meio na calçada em direção ao colégio e, por sua vez, jogando gás diretamente no corpo enquanto o companheiro estava atordoado e fugindo.

Como coletivo e estudantes do Liceu Manuel Barros Borgoño, criticamos fortemente o ato cometido pela polícia, já que o motivo desse ataque não foi outro senão causar ferimentos graves, contusões ou ser cruel com nosso companheiro. Por esse motivo, o apelo urgente é para que sejam tomadas medidas concretas e sérias diante dessa situação, que pode nos deixar com um companheiro morto e gravemente ferido.

Pedimos vingança com nossas mãos e um aviso de que esse ato não ficará impune. Como estudantes, coletivo e comunidade, rejeitamos e repudiamos as ações da polícia e de sua instituição historicamente repressiva e assassina.

Atualmente, o companheiro está sofrendo de ferimentos leves e contusões que continuam a causar dor ao toque ou ao movimento. Mesmo assim, se a reação de nosso companheiro não tivesse sido evasiva e rápida, ele teria sido atropelado por um carro com consequências graves ou afetando totalmente nosso companheiro, já que o zorillo estava se movendo em velocidade e com intenções de matar.

E como se não bastasse a repressão policial, temos que levar em conta a repressão sistemática contra os estudantes dentro dos mesmos colégios, como comenta a Rede Anti-Repressão, que detalha que no Instituto Nacional houve citações por falsas acusações a um professor com histórico de violência, no L1 ameaças de tomar medidas contra os estudantes detidos e no Inba um esclarecimento da reitoria de que não cessariam as “pressões dos inspetores aos estudantes”.

Havia faixas, cartazes e panfletos: “Porque há muito o que mudar. Isaurinxs na rua para lutar”, “Feliz dia paco ctm. Não comemoramos bastardos”, “L4 à luta. Quem somos nós? Somos a base da L4 que está buscando a ativação e a rearticulação de nossa casa de estudos em 2023. Não somos, nem nos comprometemos e estamos completamente desligados de partidos políticos ou organizações similares, pois não estamos interessados em sua “institucionalidade”, já que sempre vimos um abandono daqueles que lutam nas ruas e diretamente”, “No auge de sua perseguição política dentro do establishment, fora você e seus capangas”, “Viva as mentes livres”, “Cumplicidade insurrecional com os camaradas Juan e Marcelo. A solidariedade é uma arma. Carreguem-na e atirem”, “Eles odeiam mais as feministas do que os estupradores”.

Mais fotos: https://informativoanarquista.noblogs.org/post/2023/05/04/salidas-incendiarias-en-liceo-de-aplicacion-liceo-barros-borgono-inba-liceo-1-y-liceo-4-por-dia-del-paco/

Tradução > Liberto

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O grito do faisão –
Que saudade imensa
De meu pai e minha mãe.

Matsuo Bashô

[Ga$to militar | Indú$tria da morte] Lula inaugura linha de produção do caça Gripen no Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou, nesta terça-feira (09/05), da inauguração da linha de produção do caça Gripen, na fábrica da Embraer, na cidade de Gavião Peixoto, interior de São Paulo. O ato é resultado do contrato da empresa sueca Saab com a Força Aérea Brasileira (FAB), que prevê a entrega de 36 caças Gripen até 2027.

O valor do contrato é de 39.882.335.471,65 Coroas Suecas. O preço em Dólar ou Real depende da cotação do dia, estando hoje, segundo o Banco Central, em 5,4 bilhões de dólares ou 30 bilhões de Reais.

O caça F-39 Gripen foi escolhido pelo programa FX-2, numa concorrência concluída na gestão de Dilma Rousseff, em 2013, destinada à substituição da frota de aeronaves de caça da Força Aérea Brasileira.

Para o ministro da Defesa, José Múcio, a parceria fortalece a indústria nacional e eleva o Brasil a patamares “cada vez mais amplos” no desenvolvimento tecnológico para defesa nacional.

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/04/27/industria-da-morte-com-aval-do-presidente-lula-embraer-assina-acordo-para-produzir-aviao-militar-em-portugal/

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cada haikai
uma nova peça
num quebra-cabeça sem fim

George Swede

[Espanha] Por um antibelicismo de classe

A guerra supõe o fracasso do espirito humano, o sofrimento dos setores mais vulneráveis, e o negócio dos poderosos. Se queres a paz prepara a paz, não a guerra. A paz é a revolução mundial do proletariado.

Por Alfonso Aramburu Suárez, Antimilitarista e Ex-membro do MOC, SOS Balkanes e Assembleia de Não Violência de Euskadi | 04/05/2023

Nas guerras de hoje, são as mulheres e homens da classe trabalhadora, uma vez mais, os que suportam em seus corpos, em sua economia e em suas condições de vida, o maior impacto do dano causado. Porque as guerras não são entre nações, nem entre culturas, mas entre interesses, fundamentalmente de ordem econômica: a guerra não é um método de resolução de conflitos, mas uma arma de subjugação das pessoas e espolio dos povos.

Na atualidade, a guerra é inerente ao sistema neoliberal capitalista, que expolia o planeta e impõe desigualdades cada vez maiores entre os seres humanos. A economia de guerra, global e permanente, supõe – entre outras calamidades – o aumento da transferência da riqueza das maiorias às elites, como estamos vendo com os obscenos benefícios declarados das multinacionais e os menos conhecidos do complexo militar-industrial, que se converte em um dos setores mais rentáveis de uma economia capitalista caída que, como vemos, recorre à morte e à destruição para manter a alta dos lucros das elites.

Por tudo isso, neste Primeiro de Maio, a classe trabalhadora reivindicamos, além das exigências clássicas da data assinalada, também o cessar das hostilidades armadas e a não colaboração com os que estimulam, legitimam e ordenam as matanças. Reivindicamos, também, a reconversão da indústria armamentista para fins de caráter civil e ambiental.

No entanto, desde certo sindicalismo cada vez mais corporativistas – incluídos muitos dos sindicatos que ainda se proclamam de classe – segue se colocando como prioridade a manutenção do emprego acima de qualquer outra consideração.

Nos dizem desde estas forças sindicais – e também políticas –, que seria suicida para seus interesses corporativos invocar qualquer mudança que possa supor pôr em perigo os postos de trabalho, incluída a conversão da indústria militar. Há quem recorre ao velho argumento das famosas condições objetivas, que segundo dizem não se dão neste momento para reivindicar este tipo de coisas – que o pobre obreiro não entenderia…–  para acusar de utópicos a nós que as defendemos.

Na realidade, isto não é nem um pouco novidade. Uma parte do movimento obreiro sempre se alinhou com seus Estados-nação correspondentes, priorizando sua vinculação nacional a seu pertencimento de classe em situações de guerra, com os mesmos argumentos falaciosos que esgrimem agora.

Talvez não seja tão conhecida essa outra parte da classe trabalhadora organizada que se opôs firmemente ao belicismo, inclusive declarando greves nas fábricas de armas e chamando à deserção dos soldados-obreiros nas guerras interimperialistas, como a que vivemos agora mesmo, ou frente às guerras imperialistas contra os povos oprimidos.

O movimento espartaquista alemão ou os Industrial Workers of the World nos Estados Unidos, assim como o anarcossindicalismo ibérico se posicionaram claramente contra a guerra, e deixaram bem claro a origem capitalista-imperialista de guerras às quais se opuseram com todas as suas forças.

Também o feminismo anticapitalista se vinculou logo à luta contra as guerras, e o congresso de Haya contra a Primeira Guerra Mundial iniciou um caminho de feminismo antimilitarista que ainda perdura.

De maneira que quem ontem e hoje defendem, desde a esquerda, a indústria militar como fator de desenvolvimento e criação de postos de trabalho, na realidade estão comprando seus argumentos do inimigo de classe e do patriarcado, que é quem sai realmente favorecido da economia de guerra.

A guerra em primeira linha a leva majoritariamente a classe trabalhadora, com armas fabricadas pela classe trabalhadora, sob as ordens de governos eleitos, em ocasiões, pela mesma classe trabalhadora que a sofre. Nos matamos seguindo as ordens e acatando decisões políticas emitidas desde cômodos escritórios longe dos lugares de destruição.

A classe trabalhadora majoritariamente é a que compõe as massas de pessoas refugiadas expulsas de suas vidas e trabalhos, convertidas em exiladas forçadas ou em carne de canhão. Os exércitos, as armas, não garantem a paz  e a segurança, pelo contrário. Por isso nos opomos ao comércio e ao envio de armas a qualquer país, assim como aos envios de forças militares aos cenários bélicos.

Por outro lado, a respeito do incremento do gasto militar aprovado nos parlamentos e imposto pela OTAN, não podemos senão rechaçá-lo, e propor que essa grande quantidade de capital se destine a fins sociais (pensões, saúde, educação, etc.) junto ao apoio social e institucional a insubmissos e desertores de todas as guerras.

Não há nenhuma lei econômica que negue a possibilidade da conversão da indústria militar em civil, pelo menos se temos uma concepção saudável da economia como a fórmula para manter o sustento da humanidade e não como uma teologia de mercado em benefício dos poderosos.

Existem numerosos exemplos de conversão. Por exemplo, no início do século passado, se deu a exitosa conversão de parte da indústria armamentista basca em fábricas de bicicletas, como a prestigiada marca ORBEA, quando alguém se deu conta de que sua experiência em fabricar tubos para escopetas e revólveres poderia servir igualmente para fabricar bicicletas ou carrinhos para bebês.

A criatividade humana é perfeitamente capaz de levar a cabo a conversão da indústria militar se há vontade para fazê-lo. A ciência econômica e a política deveriam dedicar-se a facilitá-la e possibilitá-la em vez de pôr obstáculos e desculpas para não levá-la a cabo.

Faz tempo que deveríamos ser conscientes de que não se trata só de distribuir a riqueza e o trabalho, mas que também há que questionar para que serve esse trabalho e essa riqueza. Para a morte ou para a vida?

Se queres a paz prepara a paz, não a guerra. A paz é a revolução mundial do proletariado.

Fonte: https://www.elsaltodiario.com/antimilitarismo/antibelicismo-paz-clase-proletariado-patriarcado

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

casca oca
a cigarra
cantou-se toda

Matsuo Bashô

[Espanha] VI Encontro Anarquista contra o Sistema Tecno-Industrial e seu mundo

Durante os dias 26, 27 e 28 de maio será realizado o “VI Encontro Anarquista contra o Sistema Tecno-Industrial e seu mundo”, no CSO La Enredadera (Madri). Um lugar onde poderemos nos encontrar, nos conhecer, debater, difundir e afiar nossas ideias contra a organização técnica do mundo. Pretendemos que o encontro seja mais uma ferramenta de luta contra o sistema tecnocientífico-industrial, pois acreditamos que o campo de confronto deve se concentrar no campo do progresso tecnológico, já que é e será ele que traçará a dinâmica atual e futura de dominação sobre todos e cada um dos aspectos de nossas vidas: social, político, econômico e ambiental. Durante toda a conferência, haverá um espaço para distribuidores (aqueles que desejarem instalar uma banca no espaço deverão confirmar sua presença com antecedência) e cantinas 100% vegetarianas. Nos próximos dias, publicaremos o programa completo do Encontro.

Estamos caminhando para o abismo. Após dois séculos de envenenamento industrial, o planeta está agonizando, a nocividade envenenou ou aniquilou todos os seres vivos do planeta. O sistema técnico exterminou qualquer forma de vida e qualquer forma de comunidade refratária à eficiência e à otimização… devemos nos preocupar? Vamos nos tranquilizar, pois aqueles que implementaram esse sistema de terror, miséria e devastação se oferecem como nossos “salvadores”. Transformar, reiniciar este mundo é o projeto da tecnocracia, neste momento todos os seus projetos estão direcionados para o mesmo ponto: reconstruir o mundo a partir de suas fundações, esse trabalho de reconstrução do mundo será realizado por engenheiros, biólogos moleculares e tecnocratas, cujo objetivo é artificializar o mundo e tudo o que nele habita. Essa grande transformação, na qual estamos imersos atualmente, não se limitará a uma série de mudanças superficiais, mas penetrará profundamente no metabolismo da Terra e de todos os seres vivos. As tecnologias disruptivas já estão transformando a natureza e todos os seus processos, bem como o ser humano em todas as suas dimensões, e a vida será cada vez mais projetada nos laboratórios da racionalidade tecnocrática. Substituir os organismos por algoritmos, o vivo pelo mecânico, o natural pelo artificial, a intuição pelo cálculo e a espontaneidade pelo método é o projeto tecnocrático.

Nesta conferência, pretendemos fazer uma crítica a esse mundo tecno-totalitário que está sendo criado. Afiar nossas ideias e nossas ações para confrontar a racionalidade tecnocrática.

MORTE AO PROGRESSO! VIVA A ANARQUIA!

Contra toda a Nocividade

Tradução > Liberto

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dia muito frio
o vento desalinha
a plumagem do passarinho

João Angelo Salvadori

[Espanha] Comunicado da CGT contra o acordo entre a CCOO e a UGT e o Sindicato dos Empregadores

Sexta-feira, 5 de maio de 2023

A CCOO e a UGT fazem outro pacto vazio com os patrões, a ser pago pela classe trabalhadora.

A CCOO e a UGT fizeram isso novamente. Depois de mais de um ano anunciando greves, elas finalmente assinaram um pacto muito favorável aos patrões sem ativar a mobilização.

Com uma inflação anual de 6,1% em 2021 e 5,9% em 2022, a CCOO e a UGT assinaram um acordo que recomenda aos empregadores um aumento de 4% em 2023, 3% em 2024 e 3% em 2025, com a possibilidade de aumentar essas porcentagens em mais 1% se a inflação exceder os aumentos acordados.

A CCOO e a UGT vêm anunciando mobilizações há mais de um ano para forçar os empregadores a aumentar os salários, com slogans como “Salário ou conflito” e “outono quente”. Tudo isso foi uma zombaria para a classe trabalhadora.

Mais uma vez, eles assinaram um pacto vazio, com aumentos abaixo da inflação e que nem sequer obriga os empregadores a respeitar esses aumentos. Em outras palavras, a CCOO e a UGT assinaram um pacto que, na realidade, é uma declaração de intenções sem qualquer obrigação de traduzi-lo em acordos coletivos. Em cada empresa e em cada setor, os empregadores decidirão se seguirão ou não as recomendações desse pacto.

A CCOO e a UGT mais uma vez renunciam à mobilização e voltam a fazer pactos sem pressionar por greves, o que é uma garantia de derrota, entregando aos patrões um acordo que parece ter sido feito sob medida para eles.

Essa nova traição à classe trabalhadora do Estado espanhol põe fim à recuperação do poder de compra pela qual esses “sindicatos” diziam estar lutando no 1º de maio, há apenas quatro dias.

O verão e o outono quentes que eles vinham anunciando há meses se transformaram em uma primavera traiçoeira, ao chegarem a um acordo que não está vinculado ao aumento dos preços inflacionários e que, a pedido dos patrões, abole o aumento retroativo para 2022.

Esse acordo, somado às melhorias nulas que a última reforma trabalhista significou para a maioria dos trabalhadores, significa que a situação trabalhista e social está piorando contínua e sistematicamente, sem que o governo, ou aqueles que se dizem representantes dos trabalhadores, apresentem soluções reais para uma realidade cada vez mais crítica.

Diante disso, a CGT convoca toda a classe trabalhadora e o sindicalismo combativo a sair às ruas de forma contundente, denunciando esse novo ataque aos direitos dos trabalhadores e exigindo medidas urgentes para que o sustento não seja uma agonia para milhões de famílias.

Secretariado Permanente do Comitê Confederal

Fonte: https://cgt.org.es/comunicado-de-cgt-contra-el-acuerdo-entre-ccoo-y-ugt-y-la-patronal/

Tradução > Liberto

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velha na fonte –
os cântaros se enchem
o sol se esconde

Carlos Seabra

[México] Encontro Internacional “O Sul Resiste”: Reflexões Essenciais para o Nosso Tempo

Cartas náuticas para tempos tempestuosos. Não há dúvida de que as palavras compartilhadas no Encontro Internacional “Capitalismo corporativo global, patriarcado planetário, autonomias em rebelião”, realizado no Caracol Jacinto Canek, em San Cristóbal de Las Casas, nos dias 6 e 7 de maio, são exatamente isso. Reflexões indispensáveis que nos ajudam a navegar nos tempos conturbados em que vivemos.

Durante dez dias, a Caravana do Sul Resiste percorreu os territórios onde os megaprojetos do Corredor Transistêmico e do Trem Maia estão sendo construídos, visitando as comunidades afetadas por eles, olhando e ouvindo atentamente para entender o que esses projetos realmente significam para as pessoas e para o país. Com esse acúmulo de dores e lutas, cerca de 1.200 pessoas se reuniram no Jacinto Canek Caracol para pensar sobre o que haviam vivido e para juntar isso às reflexões de outros pensadores. Durante dois dias, um total de 940 pessoas do Congresso Nacional Indígena, pertencentes a 38 povos indígenas; ativistas e pensadores de várias partes do país; e visitantes internacionais de El Salvador, Estados Unidos, Alemanha, Espanha, Argentina, Áustria, Catalunha, Bélgica, Porto Rico, Colômbia, Brasil, Canadá, Chipre, Bolívia, Costa Rica, Cuba, Equador, Euskal Herria, Itália, França, Finlândia, Suíça, Grécia, Honduras, Curdistão, Reino Unido, Suécia, Guatemala, Uruguai, Venezuela e Wallmapu, reuniram as muitas histórias de desapropriação e resistência em tantas geografias para formar um quadro do momento histórico em que vivemos.

Nesta primeira de duas edições do Encontro, tentamos sintetizar as análises compartilhadas no primeiro dia, nas vozes do pensador uruguaio Raúl Zibechi; da ativista colombiana Vilma Almendra, do povo Nasa da região do Cauca; das mulheres do Curdistão; da pensadora Ana Esther Ceceña; e do advogado Carlos González, do Congresso Nacional Indígena.

Também compartilhamos os áudios completos das apresentações, bem como o resumo do que a Caravana descobriu em sua jornada e, finalmente, o pronunciamento final da Caravana e do Encontro, que, embora tenha sido lido no último dia, incluímos aqui devido à sua importância.

Continue lendo e ouvindo mais na Rádio Zapatista

Fonte: https://cgt.org.es/encuentro-internacional-el-sur-resiste-reflexiones-imprescindibles-para-nuestros-tiempos/

Tradução > Liberto

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Na noite sem lua
o mar todo negro
se oferece em espuma

Eugénia Tabosa

[Itália] Que internacional? Esta internacional!

Considerações sobre a greve de fome de Alfredo Cospito contra o 41 bis, a prisão perpétua e a mobilização de solidariedade internacional (20 de outubro de 2022 – 19 de abril de 2023)

Em 19 de abril, após 182 dias, a longa greve de fome iniciada em 20 de outubro do ano passado pelo companheiro anarquista Alfredo Cospito contra o 41 bis e a prisão perpétua chegou ao fim.

Nesses seis meses, Alfredo manteve o caráter combativo e a dignidade que sempre o caracterizaram – particularmente durante sua prisão – abrindo contradições dentro dos órgãos de poder, dando força à ação revolucionária internacional e visibilidade à propaganda de ideais antiautoritários, usando seu corpo e sua própria vida para denunciar com um eco sem precedentes a máquina de aniquilação sobre a qual o sinistro aparato político do regime italiano é governado.

Para os anarquistas, a responsabilidade é sempre individual. Esse aspecto distingue historicamente o anarquismo de outras tendências da luta de classes. Uma decisão tão radical como uma greve de fome por tempo indeterminado nunca pode ser o resultado de ordens de um partido, não nasce de uma diretriz externa e não é superada pelas deliberações de um sujeito político que pesa os resultados da disputa e, em caso favorável, pede ao prisioneiro que suspenda a luta.

Desde o início, Alfredo quis dar um valor coletivo à sua iniciativa, pedindo a abolição do 41 bis e do ergastolo ostativo (prisão perpétua) para todos. A decisão do Tribunal Constitucional de 18 de abril passado estabelece que, para todos os crimes para os quais a pena fixa é o ergastolo, a partir de agora sempre será possível aplicar circunstâncias atenuantes, evitando que o acusado seja condenado à prisão perpétua. Não apenas para Alfredo Cospito e Anna Beniamino no julgamento da Scripta Manent. Não se trata da abolição da prisão perpétua, mas pelo menos a obrigação de aplicar o ergástulo, prevista até agora para determinados crimes, foi abolida. No dia seguinte, portanto, o companheiro decidiu interromper sua greve de fome.

Durante esses meses, Alfredo resistiu de forma consistente e obstinada às tentativas de assassiná-lo ou de fazê-lo desistir. Ele resistiu a inúmeras recusas expressas pelo Tribunal de Supervisão de Roma, pela Cassação, pelo Ministro da Justiça do Nordio em relação ao pedido de desclassificação do regime 41 bis; resistiu ao pedido de ergastolo do promotor público de Turim: interrompeu a greve de fome somente depois de ter conseguido algo concreto de uma de suas exigências. Alfredo deu muito de si. Provando o quão poderoso pode ser o ideal de liberdade que o impulsiona na luta, sua vida ainda está em perigo e ele pode ter que suportar danos permanentes nos longos anos de prisão que ainda o aguardam.

Respeitamos as decisões do companheiro e somos gratos a ele pela força que deu a todos nós. Nesses seis meses, o anarquismo internacional conseguiu expressar energia e radicalismo em torno dessa questão. O movimento de solidariedade, com a gama de práticas implementadas, tanto em manifestações coletivas quanto em ações individuais, tem sido uma questão de ordem pública que impôs as razões dessa luta no centro do debate. Em particular, no que diz respeito ao 41 bis, nunca antes foi dedicada tanta atenção a esse infame regime de aniquilação. Nunca o caráter sagrado da antimáfia, cuja crítica sempre foi tabu na Itália, ainda mais nos círculos de esquerda, foi tão questionada. Uma ferida aberta que, temos certeza, continuará a sangrar mesmo a longo prazo. Isso aconteceu não graças a acrobacias políticas ou comunicativas, mas à onda de iniciativas radicais que foram tomadas pouco a pouco.

A decisão perversa tomada pelo presidente do governo da Unità Nazionale, com Mario Draghi à frente e a então ministra Marta Cartabia, de prender um anarquista no 41 bis acabou se tornando um bumerangue. Se o objetivo declarado do 41 bis é impedir a comunicação com o mundo exterior, ele não apenas falhou, mas produziu exatamente o efeito oposto: os escritos de Alfredo nunca foram tão conhecidos, a disseminação das ideias anarquistas teve uma visibilidade sem precedentes nos tempos contemporâneos. A advertência do 41 bis não produziu a regressão que muitos de nós temíamos, pelo contrário, provocou raiva e multiplicou as iniciativas.

A linha firme do novo governo de direita não levou em conta a falta de vontade do anarquismo de aceitar compromissos com a dialética política. Nas decisões estratégicas, desde a guerra até a economia, o governo de Giorgia Meloni está em perfeita continuidade com o anterior. Também nessa questão, ele não só não conseguiu evitar cair nos mesmos erros de seus antecessores, como também, com sua retórica de “lei e ordem” típica da extrema direita, exacerbou o conflito e prolongou sua duração.

Temos que responder à reação repressiva que já está aqui – entre denúncias, buscas, medidas cautelares e medidas preventivas – defendendo a gama de práticas realizadas nos últimos meses como um patrimônio coletivo. Sentimos que cada uma das ações realizadas nesse período é nossa.

Entretanto, rejeitamos com repulsa qualquer retórica de uma “solução política” para a greve de fome de Alfredo Cospito. O companheiro não interrompeu sua greve de fome para dar a palavra à sociedade civil ou porque conseguiu abrir um debate democrático sobre o 41 bis. Quem afirma isso não leva em conta a natureza fundamentalmente antipolítica do anarquismo. A greve de fome de Alfredo está em uma lógica totalmente diferente, e nas poucas vezes em que ele pôde falar (como na audiência em Perugia, em 14 de março), ele disse muito claramente: “os únicos lampejos de luz que vejo são os gestos de rebelião de meus irmãos e irmãs revolucionários em todo o mundo”.

Tentativas de reconciliação democrática que, embora marginais, foram tentadas nos últimos meses pela escória que se reúne em torno do partido radical. A associação Resistência Radical Não-Violenta ofereceu a Alfredo a presidência ad honorem. Seu conselheiro regional na Lombardia, Michele Usuelli, foi visitar Alfredo na prisão em 1º de fevereiro para pedir-lhe que condenasse as ações violentas que estavam ocorrendo do lado de fora e que abandonasse a greve de fome em protesto contra elas. Trata-se de uma iniciativa covarde contra um prisioneiro em 41 bis, submetido à tortura da privação sensorial, que está em greve de fome há mais de três meses e, ainda por cima, tem de suportar a visita de alguém que finge ser seu amigo e tenta arrastá-lo para o caminho da dissociação.

É por isso que a mobilização dos anarquistas e as práticas de conflito expressas têm sido de grande importância. Essas ações mantiveram a porta da política fechada, colocaram-se em um terreno irrecuperável, conseguiram se comunicar, não apenas com muitos explorados, mas também com o próprio Alfredo, fazendo com que o companheiro soubesse, em um momento de grande sofrimento, que havia aqueles que ainda erguiam a bandeira do conflito, ajudando-o a resistir às provocações dos inimigos e às tentações dos falsos amigos. Devemos nos orgulhar de tudo o que foi feito.

Apesar de tudo isso, consideramos o fato de Alfredo permanecer no 41 bis como uma derrota. Ficamos com raiva ao pensar em nosso companheiro ainda nesse regime de aniquilação, talvez com problemas de saúde permanentes causados pela longa greve de fome. Se por um lado isso nos impulsiona a continuar a luta, para fazer com que o Estado continue pagando pelas contradições dessa decisão, por outro lado também representa perigos.

O principal perigo é ficar preso em uma luta sem fim no terreno específico da prisão. Sempre fomos e continuamos céticos em relação a qualquer forma de especialização antiprisional. Porque a prisão não pode ser o centro de uma luta. Porque no centro estão as razões pelas quais as pessoas acabam na prisão. Os motivos que levaram Alfredo à prisão e pelos quais ele corre o risco de prisão perpétua são mais relevantes do que nunca: a exploração, o racismo, o imperialismo, o nuclear.

Alfredo foi parar no 41 bis porque, uma vez na prisão, continuou a contribuir para o debate, comunicando seu impulso revolucionário para o exterior. Com Alfredo, nestes últimos anos, fizemos a nós mesmos uma pergunta: Qual internacional?  Se quisermos evitar o caminho que está nos levando, ao mesmo tempo, à Terceira Guerra Mundial e à catástrofe climática, chegou a hora de responder a essa pergunta com urgência. O movimento que se desenvolveu nesses seis meses certamente nos dá uma indicação. Esta é a nossa internacional.

Anarquistas em Foligno

3 de maio de 2023

Fonte: https://alasbarricadas.org/noticias/node/52137

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquista-ana

Recanto úmido.
A pedra
e seu delicado capote verde.

Yeda Prates Bernis

[EUA] Lançamento: “Queer Tolstoy | Uma psicobiografia”, de Javier Sethness Castro

Queer Tolstoy é uma obra multidimensional que combina psicanálise, história política, estudos LGBTQ+, sexologia, ética e teologia para explorar a vida e a arte do Conde Lev Nikolaevich Tolstoy.

Usando uma estrutura psicobiográfica, Sethness Castro revela dimensões profundamente estranhas nas experiências de vida e na arte de Tolstoy. Contribuindo habilmente para a análise progressiva e radical de gênero e sexualidade, este livro examina como a dissidência erótica de Tolstoy influenciou sua política anarquista, seus ideais antimilitaristas e sua volumosa produção literária. Sethness Castro analisa a influência de Buda, Sócrates, Jesus, Cervantes, Rousseau, Kant, Herzen, Proudhon, Chernyshevsky e sua mãe Marya Volkonskaya nos escritos do artista. Além disso, ele detalha a emblemática ligação que Tolstoy faz entre o desejo LGBTQ+ e a autodeterminação moral e erótica de resistência ao despotismo czarista – especialmente em Guerra e Paz.

Este livro é uma leitura vital para pessoas interessadas na intersecção entre literatura, psicanálise, estudos queer e história russa.

O capítulo 2 deste livro está disponível gratuitamente em formato PDF como Open Access na página individual do produto em www.taylorfrancis.com. Ele foi disponibilizado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International.

Queer Tolstoy | A Psychobiography
Javier Setness Castro
ISBN 9781032342559
272 páginas 12 ilustrações em preto e branco
Publicado em 16 de fevereiro de 2023 por Routledge
$ 33,71
www.routledge.com

Tradução > Contrafatual

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um longo suspiro –
o luar brilha sobre
seios intumescidos

Suezan Aikins

[Espanha] Maciça manifestação do Primeiro de Maio pelos sindicatos de classe

Por CNT de Valladolid

O encontro da CNT e da CGT, juntamente com as organizações que apoiaram essa convocação, consolida-se como um ponto de referência de luta no Primeiro de Maio. Sob o slogan “Nem a guerra nem a pandemia justificam a miséria”, uma manifestação ruidosa e combativa exigiu condições de vida decentes para todas as pessoas.

A manifestação foi apoiada pelas organizações: Parados en Movimiento, COESPE, Casa Feminista, Coordinadora Antifascista de Valladolid, o Sindicato de Vivienda, Juventudes Comunistas e Manada Queer. A marcha começou na Plaza de la Libertad e atravessou o centro da cidade para terminar no bairro de Rondilla. Ao longo do percurso, os manifestantes tomaram a palavra para exigir a absolvição das 6 de Xixón, condenadas por sindicalismo, expuseram a situação precária que vivem a maioria dos aposentados e denunciaram o alto número de mortes e acidentes de trabalho.

Durante a marcha, não cessaram os gritos contra os banqueiros e os planos do capital, em apoio à classe trabalhadora, aos migrantes, às pessoas trans e contra qualquer discriminação.

No final da marcha, foi lido o comunicado das organizações convocantes, enfatizando que a piora das condições de trabalho, a perda do poder aquisitivo, o aumento dos acidentes de trabalho, a dificuldade de acesso à moradia, a piora dos serviços públicos, a falta de liberdades etc… não é uma situação temporária. Essa é a luta de classes, na qual as elites impõem seus planos e as políticas antitrabalhadores apoiadas por sindicatos vendidos, que tornam tudo possível.

Diante disso, nossas organizações estão se levantando cada vez com mais força e, como muitas outras, estamos fartos da facilidade com que estamos perdendo o terreno que foi conquistado com tanto esforço por aqueles que vieram antes de nós. Os mártires de Chicago a quem prestamos homenagem hoje mostram como foi difícil a batalha para termos as condições de vida que temos hoje. É por isso que a CNT e a CGT trabalharão juntas para que as classes privilegiadas não atinjam seus objetivos e, ao contrário, possamos propor um modelo de vida em que a exploração seja coisa do passado.

Após os atos políticos, os companheiros da CGT organizaram uma paellada popular, onde não faltaram barracas de propaganda e uma atmosfera agradável no Parque Ribera de Castilla.

>> Mais fotos: https://www.cntvalladolid.es/masiva-manifestacion-por-el-1o-de-mayo-de-los-sindicatos-de-clase/

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Num banco de praça
a sombra de um velho assombra
o vento que passa.

Luciano Maia

[Espanha] Memória | Assim os comunistas assassinaram 12 anarquistas em Barcelona

Por Manuel Aguilera Povedano

O juiz Josep Vidal recebeu um caso complicado em 10 de maio de 1937. Haviam aparecido vários cadáveres não identificados em um vinhedo nas imediações de Barcelona e ele, com apenas 30 anos, era o eleito para investigá-lo. Naquela mesma tarde chegou a Cerdanyola com três agentes e o médico forense. Não ia ser nada fácil. Anotou em sua caderneta que havia “doze cadáveres, com as caras muito sujas, e começando a se decompor, apresentando, aparentemente, sinais externos de violência”.

A coisa estava feia. Em plena guerra contra o fascismo, comunistas e anarquistas acabavam de se enfrentar nas ruas de Barcelona nos chamados Feitos de Maio e agora, quando parecia que a situação se acalmasse, aparecia isto. Os corpos estavam de boca para cima e ao longo do caminho e vários apresentavam tiros na cabeça feitos a pouca distância. Estava claro que haviam sido executados em outro lugar e abandonados ali. Se não, algum vizinho teria escutado disparos. “Aqui há marcas de pneus. Parecem de caminhonete”. Era a primeira pista. Se via claramente como um veículo havia manobrado para dar a volta. Não havia nada mais importante. Só um pacote de cigarros e um pedaço de corda manchados de sangue.

A grande incógnita era saber quem eram. Não havia nenhum documentos nos bolsos nem nada identificativo. Os camponeses da região não tinham nem ideia. Tampouco os cinquenta curiosos que observavam a cena com cara de espanto. Em Barcelona havia nesse momento um caos de denúncias de desaparecidos porque comunistas e anarquistas estavam ainda liberando os prisioneiros. Durante os combates houve 218 mortos, mas isto era outra coisa. Estes não tinham caído em um combate de rua, tinham sido selvagemente torturados e executados. “Como são da CNT vão nos foder bem”, comentou um dos agentes. Outro se aproximou de um dos cadáveres e mostrou aos demais o bordado da camisa: “CNT”. “Vão nos foder bem”, murmurou o juiz.

O juiz ordenou fotografar os cadáveres e transladá-los ao depósito judicial de Barcelona. Cedo ou tarde alguém viria reclamá-los e poderiam identificá-los. Assim seria com todos menos com dois. Mesmo 83 anos depois, ainda não se sabe seus nomes.

Em 12 de maio Solidaridad Obrera publicou que em Cerdanyola “uma misteriosa ambulância da saúde abandonou os cadáveres, barbaramente massacrados, de 12 militantes das Juventudes Libertárias”. A autopsia determinou que haviam sido “golpeados, maltratados ou torturados antes de seus fuzilamentos”. A instrução do caso estava pondo o jovem juiz em um terrível compromisso. Os assassinos pareciam estar bastante claros e tinham muito poder. PSUC e PCE mandavam mais que nunca nos governos catalão e central. Os testemunhos iam esclarecendo uma história que poderia derrubar a retaguarda republicana.

Uma semana antes, em 4 de maio de 1937, as seis da tarde, cinco jovens anarquistas se reuniram no bairro de Sant Andreu. Levavam alguns fuzis e queriam somar-se à luta contra o PSUC e ERC que havia começado no dia anterior. O mais jovem, Joan, de 20 anos, dirigia. O maior, Jose, de 33, ia a seu lado. Atrás se sentaram Francisco, César e Juan Antonio. “Por onde vamos? Está tudo cheio de barricadas”, perguntou um. Transitar por Barcelona era um suicídio. Uma rua era anarquista e outra comunista. “Vamos à Casa CNT-FAI, não? Melhor evitar o centro. Eles controlam o Paseo de Gracia”.

O destino era a Vía Laietana assim que preferiram dar uma volta pelo Parc da Ciutadella. Ignoravam que ali haviam se instalados milicianos da Coluna Carlos Marx e todos os acessos eram uma armadilha. Quando iam pela rua Pujades ouviram uns disparos e uma barricada lhes impediu a passagem. Em seguida se viram rodeados por “uns indivíduos que usavam boina com uma estrela vermelha”. “Cinco golpistas!”, gritou um dos comunistas. “Levem-nos ao quartel e que confessem”.

Ali, em umas celas do Quartel Carlos Marx, estiveram golpeando-os de um em um. Nas horas seguintes chegaram mais cenetistas detidos nas imediações. Agustín, ferroviário; Santos, curtidor com quatro filhos; e Carles, um tenente da Coluna Durruti que estava de licença. Logo chegou Joaquín, de apenas 18 anos, militante ativo das Juventudes Libertárias de Gracia. O dia acrescentou mais dois detidos, de 18 e 55 anos. O jovem levava as siglas “CNT” bordadas na camisa. No total, eram onze nas celas.

Em Sant Andreu se inquietavam porque não sabiam nada de seus companheiros. No dia seguinte, quatro anarquistas saíram em sua busca. Realizaram o mesmo trajeto que eles até que em Poble Nou uns vizinhos lhes avisaram de que seguir em carro era um suicídio. Decidiram continuar a pé, com o fuzil bem preparado, mas não evitaram a emboscada. Houve um tiroteio e um caiu ferido de morte: Toni, de 20 anos. Outro ficou detido: Lluís, de 19.

Os 12 detidos do Quartel Carlos Marx sofreram maltratos durante três dias. Golpearam-nos com culatras de fuzil, lhes cortaram com facas… Até que chegou a paz em 7 de maio. Os carcereiros tiveram que decidir: liberá-los e arriscar-se a uma denúncia por tortura ou desfazer-se deles. Os fuzilaram nesse mesmo dia e levaram os corpos a Cerdanyola.

A mãe do mais jovem, Joaquín, estava movendo céus e terra buscando seu filho. As pistas a levaram até o Quartel e ali se apresentou. Lhe responderam que se equivocava, que seu filho não estava ali. E era verdade. Seu corpo jazia já em Cerdanyola. Também o buscava seu irmão maior, Alfredo, que era um conhecido dirigente das Juventudes Libertárias. Como podia dar muitos problemas, também o assassinaram e seu cadáver ainda não apareceu.

O juiz Josep Vidal desistiu de avançar na investigação. Não se atreveu a mandar a polícia ao quartel comunista. Sem provas conclusivas, a Audiência encerrou o caso mas a CNT não estava disposta a esquecer. Empreendeu sua própria investigação secreta e identificou os supostos assassinos. Existe um informe manuscrito no Arquivo de Salamanca* com o nome dos culpados, seu cargo e seu domicílio. Não se sabe se sofreram represálias. A CNT preparou também um plano de vingança pelos Fatos de Maio, mas essa é outra história.

Estes são os 12 mártires de Sant Andreu:

  1. Joan Calduch Novella. 20 anos. Natural de Arenys de Mar. Solteiro. Vivia em San Andrés, rua Bartrina 31, bajos.
  2. José Villena Alberola. 33 anos. Vivia com seus pais e irmão na rua Estevanes 14, principal primera, do bairro de A Sagrera de Barcelona.
  3. Francisco Viviana Martínez. 27 anos. Natural de Valência. Casado com Montserrat Uch Moré e com dois filhos: Josefa e Francisco.
  4. César Fernández Pacheco. 25 anos. Natural de Barcelona. Solteiro. Vivia com sua irmã e cunhado na rua Montepellier, 32 bajos.
  5. Juan Antonio Romero Martínez. 24 anos. Natural de Águilas (Murcia). Solteiro.
  6. Agustín Lasheras Cosials. 25 anos. Natural de O Vendrell. Solteiro. Ferroviário. “Desconhecido número 6”.
  7. Santos Carré Poblet. 30 anos. Casado. Quatro filhos. Curtidor. Vivia em Passatge Serrahima, 4, 2º (Poble Sec).
  8. Carles Alzamora Bernad. 27 anos. Natural de Cuba. Solteiro. Ferroviário. Tenente da Coluna Durruti. “Desconhecido número 1”.
  9. Joaquín Martínez Hungría. 18 anos. Dependente em uma loja. Militante das Juventudes Libertárias de Gràcia. “Desconhecido número 4”.
  10. Lluís Carreras Orquín. 19 anos. Natural de Barcelona. Solteiro. Sargento de Milícias.
  11. Desconhecido. 18 anos. “Desconhecido número 3”. Levava o bordado da CNT.
  12. Desconhecido. 55 anos. “Desconhecido número 2”.

Como dissemos, outros dois implicados no relato foram assassinados: Antoni Torres Marín (20 anos) e Alfredo Martínez Hungría (uns 24 anos).

Agradeço a Agustín Guillamón que me facilitou o informe judicial que publicou em seus livros La represión contra la CNT y los revolucionarios (2015) e Insurrección (2017). Agradeço também a Jordi Bigues suas investigações a respeito. Publicou suas conclusões neste artigo¹ de 2018.

*”Os indivíduos que executaram os 12 companheiros de Sardañola e seus prêmios”. Centro Documental da Memória Histórica. Salamanca. PS Barcelona. Caixa 178 nº 49.

[1] https://directa.cat/dotze-joves-llibertaris-assassinats-per-lestalinisme/

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Este caminho!
sem ninguém nele,
escuridão de outono.

Matsuo Bashô