O rompimento de Murray Bookchin com o anarquismo

Se você se politizou nas alas mais à esquerda da esquerda, entre o final dos anos 1990 e o início dos 2000, é provável ter ouvido falar de Murray Bookchin.

Ele apareceu para mim, ao lado de pensadores como Noam Chomsky e David Graeber, como aqueles que estavam dando vida ao anarquismo no cenário político contemporâneo.

Já nos anos 2010, tomei contato com a informação de que Bookchin havia rompido com o anarquismo.

Isso foi pouco antes de seu nome ganhar mais um fôlego nas esquerdas devido à associação com  Abdullah Öcalan.

Öcalan é uma liderança da histórica luta curda, proponente do confederalismo democrático, um projeto socialista para o Oriente Médio e explicitamente inspirado na ecologia social de Bookchin.

Contudo, ontem, foi esclarecido de uma vez por todas para mim como se deu esse rompimento com o anarquismo.

Isso ocorreu por meio de uma obra póstuma que estou entendendo ser quase uma espécie de testamento político.

Social ecology and communalism é uma ótima porta de entrada para conhecer o pensamento de Murray Bookchin, um dos mais criativos e longevos socialistas norte-americanos do século XX.

O livro é uma coletânea de ensaios organizada por Eirik Eiglad e foi publicado em 2007, um ano após o falecimento de Bookchin.

A obra oferece um ótimo panorama do desenvolvimento de sua ecologia social e a culminância dela no que ele nomeou de comunalismo.

A introdução escrita por Eiglad apresenta uma breve, mas sólida biografia do autor.

Também consegue organizar os ensaios de maneira a fazer o leitor entender diferentes etapas do desenvolvimento teórico de Bookchin.

Em determinado momento do texto, o apresentador da obra afirma: “Ele (Murray Bookchin) rompeu abertamente com o anarquismo na segunda Conferência Internacional sobre Municipalismo Libertário, em Vermont, em 1999, e deixou claro que sua teoria da ecologia social precisa ser incorporada à ideologia que denominou comunalismo”.

Eiglad aponta os desacordos de Bookchin com o anarquismo.

Alguns me pareceram bastante válidos, como a crítica à falta de uma teoria do poder, baseada no caso histórico da Guerra Civil Espanhola.

Contudo, acusações de niilismo e individualismo extremo no anarquismo me soaram como uma descrição circunscrita do cenário anarquista dos EUA entre o final dos anos 90 e início dos 2000.

Bookchin parece ter ignorado, por desconhecimento, talvez, que os plataformistas russos e ucranianos do final dos anos 1920 já haviam realizado essa crítica interna ao campo. Contudo, entenderam o individualismo como um “desvio” do anarquismo histórico, e não como a sua “essência”.

Já li em fóruns de internet, em tempos passados, que Bookchin simplesmente estava puto com toda a contaminação dos anarquistas pelo “anarquismo de estilo de vida” e resolveu “chutar o pau da barraca”, jogando fora o bebê junto da água suja.

Entretanto, não parece justo reputar isso a uma espécie de estado emocional ranzinza, atribuído ao pensador em sua velhice.

A verdade é que, se você for uma leitora ou leitor atento de Bookchin, verá que o pensamento dele foi atravessado por um “ecletismo” teórico.

Este, muitas vezes, criativo, não confuso, uma mescla de anarquismo (antiestatismo, federalismo, autogestão), feminismo (crítica ao patriarcado, reconhecimento de hierarquias para além da classe social), marxismo (influência da Escola de Frankfurt) e ecologia (que deu o sabor especial ao seu pensamento).

Tudo fica mais compreensivo quando o próprio Bookchin escreve em Social ecology and communalism sobre ter aproveitado as melhores partes do marxismo e do anarquismo durante o desenvolvimento de seu próprio pensamento político.

De todo modo, entre os anos 1980 e 1990, quando amadurece sua proposta do municipalismo libertário, Bookchin já havia rompido com a estratégia anti-estatista do anarquismo. Optando, em minha humilde avaliação, por uma contraditória e confusa construção estatista do poder popular.

O programa do municipalismo baseia-se na estratégia eleitoral de tomar prefeituras nos EUA, para impulsionar assembleias populares, confederá-las e criar um duplo poder frente ao Estado-nação. Algo, ao meu ver, não livre de alguma confusão política para alguém tão versado na história do socialismo e dos movimentos sociais.

Se isso poderia fazer algum sentido na região da Nova Inglaterra, local onde Bookchin se estabeleceu e militou, não sei como poderia ser útil ou praticável em outros lugares, particularmente nas periferias do capitalismo.

Aqui cabe um ponto interessante sobre a apropriação curda da ecologia social.

O povo curdo teve que travar uma guerra para conseguir a administração autônoma de certos territórios. Isso não foi conquistado por meio de eleições, até onde eu sei.

De certa forma, no Oriente Médio, se deu o oposto da aposta estratégica de Bookchin: lá, primeiro se fez a guerra para conquistar a administração autônoma e assim organizar eleições locais, já sem a presença do Estado-nação.

Na proposta original do municipalismo libertário, primeiro se candidata em eleições, conquista-se prefeituras, cria-se assembleias populares para administrar a localidade ao invés do corpo profissional prefeitural.

Em seguida, confedera-se essas assembleias e, então, o Estado-nação, ao perder poder, desencadeia uma guerra com os municipalistas confederados.

O vislumbre de uma guerra entre o Estado e os municipalistas é uma etapa posterior no esquema de Bookchin. Na vida do povo curdo, foi a etapa inicial.

Agora, voltemos aos desacordos de Murray Bookchin com o anarquismo.

Outro rompimento anterior, mas no nível teórico, é quando ele abandona a centralidade da classe trabalhadora na construção de uma sociedade socialista.

Graham Purchase, em Anarchism and social ecology: a critique of Murray Bookchin (1993), oferece um bom comentário sobre como a crítica específica do autor ao anarco-sindicalismo entre o fim dos anos 1970 e início dos 1980, já era um rompimento com o anarquismo em geral.

Ao final, me parece ter sido um processo gradual o afastamento de Bookchin do anarquismo. O que acabou por levar a defesa do autor da associação da ecologia social com o comunalismo.

Ainda assim, Bookchin merece ser lido e estudado com atenção e respeito por novas gerações de anarquistas. Principalmente pela abordagem dialética de base ecológica que ele oferta para entender as questões sociais e ambientais como indissociáveis para a construção do socialismo no século XXI.

Raphael Cruz

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agência de notícias anarquistas-ana

manhã de sol
sombra do pardal no poste
primeira visita do dia

Alonso Alvarez

Notícias sobre prisioneiros políticos anarquistas na Bielorrússia, outubro–dezembro de 2025

Em setembro, Aliaksei Halauko teve seis meses acrescentados à sua pena de seis anos com base no Artigo 411 (desobediência à administração prisional). Essa informação só se tornou pública em outubro. Em outubro, sob o mesmo Artigo 411, a pena de Aliaksandar Kazlianka foi aumentada em 1,5 ano, a de Pavel Shpetny em 2 anos e a de Jauhen Rubashka em 1 ano.

Em outubro, tornou-se conhecido que Ihar Alinevich estava em uma cela punitiva na IK-20. Em agosto, o prazo de sua pena havia terminado e ele foi enviado para uma colônia, mas durante dois meses não se sabia para qual. Ocultar informações sobre o paradeiro de prisioneiros políticos é uma forma de pressão sobre eles e seus familiares. Após dois meses na cela punitiva, Ihar foi transferido para uma instalação de tipo prisional. Mais tarde, soube-se que, ao chegar à colônia, Ihar entrou em greve de fome por um mês.

Em novembro, surgiu a informação de que Siarhej Ramanau havia sido hospitalizado e submetido a uma cirurgia. A operação foi planejada e ocorreu sem complicações. O diagnóstico de Siarhej é desconhecido para nós.

Em 22 de novembro, Maryja Misiuk, integrante do grupo Black Nightingales que havia sido condenada a 13 anos por “terrorismo”, foi “perdoada” e deportada para a Ucrânia. Ela tinha 16 anos na época de sua prisão. Em dezembro, tornou-se conhecido que outros membros do grupo receberam longas penas: Trafim Barysau e Siarhej Zhihaliou, 12 anos, Dzmitry Zakharoshka, 10 anos e meio, Aliaksandra Rulinovich, 10 anos e 3 meses.

Fonte: https://abc-belarus.org/en/2026/01/21/news-oct-dec-2025/  

Tradução > Contrafatual

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uma libélula
pousa em outra libélula
ah, o amor!

Sérvio Lima

[Espanha] Regularização. Próximo passo: abolir a lei de estrangeiros

A regularização extraordinária de pessoas migrantes aprovada pelo governo espanhol se apresenta como um gesto histórico, humanitário e progressista. No entanto, desde uma perspectiva anarquista, convém deslocar o olhar: não tanto para o que é concedido, mas para quem concede e sob qual lógica.

Que fique registrada a admiração e os aplausos a todas as organizações e coletivos de pessoas migrantes que trabalharam rua a rua e durante tantos anos para que esses direitos fossem reconhecidos. Aqui encontrarão uma mão amiga, com reconhecimento e admiração.

Ainda assim, o ponto de partida é incômodo para o discurso institucional: a chamada “irregularidade” não é uma condição natural, mas uma produção política. É o Estado que cria sujeitos ilegais por meio de leis de estrangeiros, controles administrativos e fronteiras armadas. Regularizar, então, não é um ato de generosidade, mas uma correção parcial de uma violência prévia exercida de forma sistemática.

A medida alivia, sem dúvida, a vida de centenas de milhares de pessoas. Reduz o medo cotidiano, permite o acesso a direitos básicos e abre espaços de defesa coletiva. De baixo, ter documentos importa. Negar isso seria uma abstração cruel. Mas esse alívio não deve ser confundido com emancipação. A regularização não desmantela o regime que produz a exclusão; o gerencia. Seleciona, filtra e decide quem merece ficar e quem continua sendo expulsável.

O discurso que acompanha a medida revela seu núcleo: a necessidade de mão de obra, a sustentabilidade do sistema, a escassez em determinados setores. O sujeito migrante aparece assim não como pessoa, mas como recurso econômico. A dignidade se torna condicional: existe na medida em que se trabalha, se contribui, se encaixa. A autorização de residência não reconhece uma vida; autoriza uma utilidade.

Desde um olhar anarquista, a regularização funciona também como um dispositivo de controle. A ilegalidade total se transforma em legalidade vigiada. Os direitos concedidos são reversíveis, as autorizações expiram, a ameaça de expulsão nunca desaparece totalmente. Substitui-se a perseguição aberta por uma dependência silenciosa. A mensagem é clara: você pode ficar, mas sob nossas regras.

E, no entanto, essa contradição não invalida as lutas que a tornaram possível. Historicamente, nenhum direito foi concedido sem pressão. A regularização não nasce da benevolência estatal, mas do conflito social, da resistência cotidiana, da impossibilidade de continuar sustentando um sistema que precisava de corpos invisíveis para funcionar. Nesse sentido, não é uma vitória do Estado, mas uma fissura arrancada de baixo.

O anarquismo não rejeita o alívio imediato nem romantiza a precariedade. Mas insiste em não confundir o remendo com a solução. Enquanto a liberdade de movimento continuar sendo um privilégio e não uma condição humana, enquanto os direitos dependerem de documentos e não da própria vida, qualquer regularização será sempre isso: um alívio dentro de uma gaiola.

A pergunta que fica não é se esta medida é suficiente, mas por que, em pleno século XXI, uma pessoa precisa de autorização para existir em um território. Enquanto essa pergunta permanecer aberta, a luta não terminou.

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/regularizacion-siguiente-paso-abolir-la-ley-de-extranjeria/  

Tradução > Liberto

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Suave impressão de asas
abrindo em tempo-semente
e pausa suspiro

Nazareth Bizutti

[Reino Unido] Noam Chomsky traiu tudo aquilo em que sempre acreditou ao manter sua amizade com Epstein

Por Ed Sykes | 04/02/2026

Os contatos ricos e famosos do falecido pedófilo Jeffrey Epstein não surpreendem ninguém. De um presidente dos EUA a outro, de bilionários a outros ainda mais ricos

O que sabemos sobre a relação de Chomsky com Epstein

Durante décadas, Chomsky criticou o imperialismo dos EUA e o seu apoio a um sistema colonialista “pior do que o apartheid” na Palestina ocupada.

Ele expôs a hipocrisia da propaganda da mídia ocidental.

As posições políticas de Chomsky podem levar a pensar que ele nunca se relacionaria com o pedófilo condenado Epstein. Mas a estreita amizade entre os dois é repugnantemente evidente. 

Chomsky manteve uma “amizade muito próxima” com Epstein mesmo após a prisão deste último em 2008. E o apoio do acadêmico à liberdade de expressão e o fato de ele ter “conhecido e se correspondido com todos” — incluindo criminosos de guerra — sem se desculpar por isso não explica o nível de cordialidade em suas interações.

Chomsky disse uma vez que suas relações com Epstein eram principalmente financeiras. Mas novas comunicações divulgadas mostram que:

• Os dois conversavam sobre planos para jantares e férias, enquanto trocavam piadas e demonstrações de afeto.

• Epstein servia como um conector social e político, ligando Chomsky a figuras proeminentes da extrema direita, como Steve Bannon e o criminoso de guerra israelense Ehud Barak.

• Epstein fez vários pagamentos a Chomsky e seus parentes. A esposa de Chomsky chamou Epstein de “amigo muito querido” e, em determinado momento, até mesmo de “herói”.

• Embora não haja evidências de que ele tenha ido à ilha de Epstein, Chomsky insistiu que estava “ansioso” para ir. E, em uma resposta a um convite, ele disse: “Estou realmente fantasiando com a ilha caribenha”.

• Chomsky deu conselhos a Epstein em 2019 sobre como lidar com as acusações de crimes sexuais contra ele. Sua resposta minimizou as acusações e tratou Epstein como a vítima. Chomsky descreveu “uma histeria que se desenvolveu sobre o abuso de mulheres” que poderia causar “tortura e angústia” a alguém como Epstein.

Inúmeros acadêmicos precisavam de dinheiro e se associaram a Epstein por motivos financeiros. O estuprador em série, por outro lado, colecionava conexões em troca de informações ou favores. Por sua vez, Epstein era um eugenista supremacista branco que dirigia uma rede de aliciadores, pedófilos e estupradores. Entre essa rede estavam pessoas como Chomsky, acadêmicos que legitimavam as ações repugnantes de Epstein.

Chomsky repetidamente e consistentemente escolheu não apenas se aliar a Epstein, mas também considerá-lo um amigo pessoal próximo, a quem frequentemente defendia, apesar do conhecimento público de sua depravação. Ao fazer isso, Chomsky escolheu espalhar mentiras hediondas sobre as mulheres e meninas que Epstein torturou.

E Chomsky não apenas ignorou Epstein.

O colega acadêmico Lawrence Krauss também enfrentou acusações de várias mulheres e pediu conselhos a Epstein sobre como lidar com elas. Ele disse que confiaria nas palavras de Epstein.

“Imperdoável”

O jornalista Matt Kennard, que entrevistou Chomsky em várias ocasiões:

Associar-se a Epstein é imperdoável.

Filósofo Émile Torres:

Chomsky demonstrou um padrão claro de mau julgamento e baixos padrões morais.

O autor Vijay Prashad, por sua vez, disse:

Na minha opinião, não há defesa para isso, nenhum contexto que possa explicar essa indignação.

Ele também esclareceu que, além de Epstein ser um criminoso sexual, ele:

era um homem de extrema direita e sionista.

A conexão de Epstein com Israel é clara, embora não saibamos todos os detalhes. Não é apenas que o pai de sua cúmplice, Ghislaine Maxwell, era supostamente um “superespião” israelense. Várias fontes destacam suas próprias conexões aparentes com Israel e seus interesses.

O trabalho de Epstein no comércio de armas supostamente o levou a trabalhar com vários governos. E ele frequentemente se gabava de como aconselhava regimes duvidosos em todo o mundo, enquanto:

Ganhava uma fortuna com armas, drogas e diamantes.

Epstein representava muito do que Chomsky passou grande parte de sua vida pública criticando. Sua longa associação mudará para sempre qualquer reputação que ele possa ter tido como um acadêmico sério que se opõe à injustiça para alguém que defendia e apoiava o estupro, o abuso e a terrível tortura de meninas e mulheres.

Afinal, de que adiantam grandes declarações em relação ao capitalismo, ao colonialismo e ao sionismo se as escolhas de alguém repetidamente apoiam e protegem um supervisor de uma rede de abuso?

Fonte: https://www.thecanary.co/opinion/2026/02/03/chomsky-epstein/

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tomando banho só
no riacho escondido –
cantos de bem-te-vis

Rosa Clement

Noam Chomsky, de ícone intelectual da esquerda a conselheiro de um predador sexual

Mensagens e repasses financeiros revelados reacendem questionamentos sobre a postura do linguista

As revelações nos Arquivos Epstein, divulgadas ao público pelo Departamento de Justiça dos EUA, prejudicaram a reputação de um dos intelectuais de esquerda mais renomados e críticos do capitalismo: o linguista, ativista e filósofo americano Noam Chomsky, de 97 anos. Em correspondências com Jeffrey Epstein, acusado de abuso e tráfico de menores (entre outras acusações), Chomsky aparece como conselheiro em meio ao escândalo que envolve as alegações.

Em um e-mail de fevereiro de 2019, o autor de Quem Manda no Mundo? (um livro recomendado pelo presidente venezuelano Hugo Chávez) a aconselhou a “não reagir”, insinuando que o movimento #MeToo era responsável por criar “histeria sobre o abuso de mulheres”. Em junho daquele ano, Epstein foi encontrado morto em sua cela no Centro Correcional Metropolitano de Nova York.

Nas redes sociais, Chomsky passou de ser apelidado de “pai” da gramática gerativa para “pai” da gramática degenerativa, imitando suas descobertas científicas que ainda são ensinadas em todas as universidades, devido à sua controversa amizade com Epstein.

Em 2023, o The Wall Street Journal revelou que Chomsky havia recebido US$ 270.000 de uma conta ligada a Epstein, embora ele tenha negado que o dinheiro tivesse sido enviado diretamente por seu amigo. De acordo com arquivos desclassificados, com um novo lote de documentos divulgado no fim de semana, esse não é o único favor que ele supostamente recebeu.

Em 2019, quando o financista já havia sido acusado de tráfico de crianças e estupro, Chomsky escreveu um e-mail para seu amigo: “Tenho visto o tratamento horrível que você está recebendo da imprensa e do público. É doloroso dizer isso, mas acho que a melhor coisa a fazer é ignorar. Tenho bastante experiência, embora, é claro, não nessa escala. Uma busca no Google mostrará muitas acusações histéricas de todos os tipos, até mesmo de grupos dedicados a me difamar. Não dou atenção a menos que me contatem para comentar sobre um assunto específico. É um incômodo, mas é a melhor maneira. As mesmas conclusões podem ser tiradas das experiências de outras pessoas, em alguns casos, amigos próximos.”

Para Chomsky, a melhor estratégia era o silêncio. “O que os abutres desejam desesperadamente é uma resposta pública, que por sua vez proporciona uma oportunidade pública para uma avalanche de ataques venenosos, muitos deles vindos de meros caçadores de publicidade ou lunáticos de todos os tipos, que são impossíveis de responder (como provar que você não é um neonazista que quer matar judeus, ou um estuprador, ou qualquer outra acusação que lhe seja feita?)”, argumenta ele em seu e-mail.

“Isso é particularmente verdadeiro agora com a histeria que se desenvolveu em relação ao abuso de mulheres, que chegou ao ponto em que até mesmo questionar uma acusação é um crime pior do que assassinato. Para praticamente todos que veem algo disso, a reação será ‘onde há fumaça, há fogo, talvez um fogo descontrolado’ (sejam quais forem os fatos, que poucos se darão ao trabalho de investigar).”

E ele insiste: “Em geral, acho melhor não reagir a menos que sejamos questionados diretamente, principalmente no clima atual, que presumo que irá passar, mesmo que não há tempo de evitar muito sofrimento e angústia. É difícil dizer, mas é o melhor conselho que consigo pensar.”

Quando Epstein tentou reabilitar sua imagem pública após sua condenação em 2006 por aliciar uma menor para prostituição (um objetivo que ele conseguiu alcançar graças à sua rede de influência), ele divulgou uma carta de Chomsky. “Conheci Jeffrey Epstein há seis anos”, dizia a carta de apoio do linguista.

“Desde então, mantemos contato regular, com conversas longas e muitas vezes profundas sobre uma ampla gama de tópicos, incluindo nossas áreas de especialização e trabalho profissional, mas também sobre muitos outros em que compartilhamos interesses. Tem sido uma experiência muito valiosa para mim.”

Segundo Chomsky, Epstein o ensinou os meandros do sistema financeiro e ajudou sua segunda sócia, Valeria Wasserman Chomsky, que também trocou vários e-mails com Epstein e sua secretária entre 2015 e 2019.

Para seu crédito, ela não visitou a mansão de Epstein na “ilha dos milionários pedófilos” no Caribe. “Eu ainda quero ir para o Caribe, mas parece que teremos que esperar”, respondeu Chomsky em 2016; Epstein insistiu: “O Caribe é perto do Brasil. Se você quiser, será sempre bem-vinda, e Valeria pode encontrá-la lá”. No entanto, ela e sua parceira se hospedaram no “charmoso apartamento” de Epstein em Manhattan.

Chomsky também apoiou o astrônomo Lawrence Krauss, que foi acusado de abuso sexual e demitido da Universidade Estadual do Arizona em 2018. Krauss, por sua vez, defendeu Epstein, afirmando que sempre o via com mulheres “de 19 e 23 anos ao seu redor”.

Fonte: La Nacion— Buenos Aires

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vento nas cortinas
fico atenta
ao que a manhã ensina

Camila Jabur

[França] 1979-2026. 47 anos de cultura libertária

Devemos desejar-lhe que viva em um mundo melhor?

Com nossa energia e vontade inclassificáveis, desejamos isso a você desde 1979 e oferecemos todos os dias, por meio de nossa modesta e agora antiga editora, que já publicou mais de 260 títulos e distribuiu cerca de 150 mil obras. Dos quais em breve 15.000 para o Dicionário Anarquista Infantil, sempre bem exposto em muitas livrarias…

De nosso lado, continuaremos a trabalhar neste rico campo da cultura libertária e, esperamos, com vocês por muito tempo ainda.

Obrigado e que nossas palavras e ações sejam mais fortes e belas nestes tempos sombrios e trágicos.

www.atelierdecreationlibertaire.com

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folhas no quintal
dançam ao vento
com as roupas do varal

Carlos Seabra

[EUA] Sobre os e-mails entre Jeffrey Epstein e Noam Chomsky

Por Vijay Prashad | 03/02/2026

Estou desconsolado. Quando era criança, sofri uma terrível violência sexual, sobre a qual já escrevi anteriormente e que continua me marcando mesmo décadas depois. Isso significa que não posso tolerar ninguém que explore crianças pequenas, não apenas do ponto de vista moral, mas também físico: me repugno profundamente com qualquer pessoa que faça mal a crianças e fico arrepiado ao ouvir que alguém pune uma criança. Dois dos meus filhos são adultos e dois ainda são crianças, e com cada um deles senti e sinto profundamente sua fragilidade e seu futuro. Para mim, não há segunda chance para uma pessoa que viola uma criança.

Li sobre o caso de Jeffrey Epstein porque me dói muito ler sobre a violência perigosa infligida a crianças e jovens. Mas, claro, era impossível ignorar os e-mails entre meu amigo e colaborador Noam Chomsky e Epstein. Li o que pude e vi o que precisava ver. Noam tem sido um grande mentor para mim e escrevemos dois livros juntos (o último, seu livro mais recente). Ambos os livros foram escritos na época em que ele mantinha correspondência com Epstein. Mas em nossas inúmeras conversas, nenhum desses temas da correspondência ou o fato de ele se encontrar com Epstein foi mencionado. Noam e eu falamos do imperialismo dos EUA e seus crimes, e depois sobre Cuba. A única coisa pessoal de que falávamos, além desses temas políticos, era nosso amor por cachorros e pela língua árabe.

Dado que Noam não pode falar nem escrever para explicar sua relação com Epstein, o assunto é delicado. Não há nada a dizer em sua defesa. Quando apareceram as fotos e os e-mails, imediatamente me repugnei com a pedofilia de Epstein e, portanto, com a amizade de Noam com ele. Em minha opinião, não há defesa possível para isso, nenhum contexto que possa explicar essa atrocidade.

Perguntei a Jeffrey St. Clair, editor do CounterPunch, o que nosso amigo em comum Alexander Cockburn teria pensado sobre essas revelações. “Acho que Alex teria se preocupado”, escreveu Jeffrey, “com o fato de Noam ter um relacionamento tão próximo com um sionista extremista e provável agente israelense… Um grave erro de julgamento por parte de alguém que geralmente toma decisões tão ponderadas e razoáveis”.

Epstein era um homem de extrema-direita e sionista, um acumulador de homens poderosos e influentes que querem transformar o mundo em seu paraíso e nosso inferno. Ele apresentou Noam a Ehud Barak, um homem que havia enfrentado acusações de corrupção no início dos anos 2000 e que cometeu crimes de guerra durante seu mandato como primeiro-ministro de Israel. Em 2009, Barak travou uma guerra terrível contra os palestinos em Gaza, assassinando a sangue frio cerca de 1.500 palestinos. A comissão de investigação das Nações Unidas, presidida por Richard Goldstone, concluiu em seu relatório que o governo israelense, liderado por Barak, havia cometido crimes de guerra.

Quando Barak visitou o Reino Unido naquele ano, vários advogados apresentaram uma ação na cidade de Westminster para solicitar uma ordem judicial nos termos da Lei de Justiça Criminal de 1988, que estabelece jurisdição universal em casos de crimes de guerra. Tal ordem judicial nunca se materializou.

Por que Noam se encontrou com um criminoso de guerra em 2015, seis anos depois desses eventos? Quando perguntei a Noam em 2021, para nosso primeiro livro, The Withdrawal, se ele teria ido se encontrar com Henry Kissinger, ele riu e disse que não. No entanto, anteriormente, sem que eu soubesse, ele havia se encontrado com um criminoso de guerra. Por que se relacionar tão livremente com uma pessoa desse tipo? Por que oferecer consolo e conselho a um pedófilo por seus crimes?

Pela minha parte, estou horrorizado e chocado.

Vijay Prashad

Santiago, Chile

O livro mais recente de Vijay Prashad (com Noam Chomsky) é The Withdrawal: Iraq, Libya, Afghanistan and the Fragility of US Power (New Press, agosto de 2022).

Fonte: https://www.counterpunch.org/2026/02/03/on-the-emails-between-jeffrey-epstein-and-noam-chomsky/

Tradução > Liberto

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Arrastar espantalhos pelo chão
é o que a tempestade
faz primeiro.

Kyoroku

[França] Chamada de trabalhos para o colóquio internacional Sacco e Vanzetti 1927-2027 em Montpellier

Université de Montpellier Paul-Valéry

ReSO (Recherches sur les Suds et les Orients)

Colóquio internacional

Julho de 2027

Sacco & Vanzetti 1927-2027

Entre 1920 e 1927, Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, dois imigrantes destinados a permanecer anônimos, como milhões de italianos que emigraram para os Estados Unidos, alcançaram fama mundial. Sua prisão, julgamento e execução mobilizaram a opinião pública internacional. Os pedidos de clemência por Nick e Bart chegaram de todos os lados: organizações políticas de todos os tipos – o próprio Benito Mussolini fez um pedido –, círculos intelectuais – Simone de Beauvoir relata que um de seus primeiros atos políticos foi assinar o apelo – e movimentos sociais em geral. Até o dia da execução, manifestações encheram ruas e praças em todo o mundo. Depois, o caso desapareceu gradualmente da memória coletiva, exceto nos círculos libertários. Um ponto de virada ocorreu na década de 1970 com o filme de Giuliano Montaldo, Sacco e Vanzetti (1971), cujo sucesso trouxe o caso de volta à atualidade, levando à reabilitação de Sacco e Vanzetti por Michael Dukakis, governador de Massachusetts (1977). Chegou-se até a estabelecer um paralelo com o caso Dreyfus, devido à forma como os dois italianos ficaram presos na engrenagem do sistema judicial e político norte-americano. Hoje, o interesse por Sacco e Vanzetti permanece vivo. Dos quadrinhos à ópera, não há campo da criação artística que não se tenha apropriado do caso – música, teatro, canção, literatura, caricatura, quadrinhos, artes plásticas. Observa-se também que, mesmo na grande imprensa, o caso Sacco e Vanzetti se tornou um “clássico jornalístico”, revisitado todo ano por volta de 23 de agosto, data do aniversário da execução.

As propostas de comunicação para o congresso internacional poderão se inserir em diferentes áreas disciplinares, privilegiando uma abordagem comparativa e transnacional, e poderão focar na mobilização de um século atrás, assim como na “memória construída” do caso Sacco e Vanzetti. As contribuições poderão tratar da mobilização que ocorreu há um século e/ou sobre a “memória” do caso Sacco e Vanzetti. Poderá ser abordada, por exemplo, a dinâmica de organização da campanha de apoio, que pode ter variado de um país para outro, e até de uma região para outra; a forma como a presença ou ausência de uma forte imigração italiana pode ter influenciado o desenvolvimento da campanha; as modalidades de construção da campanha, que pode ter seguido esquemas sociais e políticos de uma tradição já estabelecida ou, ao contrário, encontrado formas inovadoras. Também poderá ser tratada a imprensa, militante e não militante, nas diferentes fases do caso (prisão, julgamento, campanha, execução) e, no campo artístico, as formas que a campanha e a “memória” do caso adquiriram, ao longo do tempo e de acordo com os espaços. Por fim, poderemos nos perguntar sobre o peso da questão política em relação à questão judicial e se, para além da execução de dois militantes anarquistas, as criações artísticas que participaram de sua “memória” repolitizaram questões vinculadas ao anarquismo ou se seu alcance político tendeu a evoluir, ou mesmo a se diluir.

> Mais infos aquihttps://reso.www.univ-montp3.fr/fr/actualit%C3%A9s/appel-%C3%A0-communication-colloque-international-juillet-2027

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Fundo de quintal…
Silêncio. No velho muro,
uns cacos de sol…

Jorge Fonseca Jr.

[Rússia] Parabenize o prisioneiro político anarquista Danil Chertykov pelo seu aniversário!

Em 8 de fevereiro, Danil Chertykov completa 32 anos. Ele está comemorando seu aniversário em cativeiro pela quarta vez.

Danil Chertykov é um anarquista e antifascista de Yekaterinburg. Ele trabalhava como veterinário e, em seu tempo livre, dedicava-se à música, tocando guitarra na banda folk Rocker Balboa.

Em 31 de agosto de 2022, Danil estava jantando em um restaurante com amigos e sua companheira. Quando saíram para um passeio noturno pela cidade, foram detidos e espancados por homens armados e mascarados que se revelaram policiais. Danil foi torturado e posteriormente acusado de participação em uma organização terrorista e preparação de um ato terrorista.

Apesar das condições adversas de prisão, Danil permanece forte em espírito. Enquanto já estava sob custódia, ele registrou oficialmente seu casamento com sua companheira Alyona, que se tornou sua defensora pública. Danil também começou a desenhar, lê muitos livros e continua a se manter fisicamente ativo.

Parabenize nosso companheiro pelo seu aniversário — apoie-o com uma carta ou um cartão postal!

Endereço para correspondência — deve ser escrito em russo:

620024, Екатеринбург, Елизаветинское шоссе 19, СИЗО-5, Чертыков Данил Германович 1994 г.р.

As cartas também devem ser escritas em russo, você pode usar ferramentas de tradução online.

Cruz Negra Anarquista de Moscou

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agência de notícias anarquistas-ana

Lá na cerca
coruja imóvel e atenta
só mexe os olhos.

Maria Fernanda dos Santos Rebouças

[Espanha] Morreu o anarquista cubano Frank Fernández

Conhecemos Frank Fernández através de Lily Litvak nos anos noventa do século passado. O companheiro cubano perguntou à autora de “Musa libertaria” por uma editora espanhola que pudesse publicar seu texto “El anarquismo en Cuba”, e Lily lhe deu o endereço da Fundação Anselmo Lorenzo. Nos remeteu o manuscrito à FAL e começou o lento e longo processo que é para uma pequena e modesta editora publicar uma obra ‒ Enrique, Miguel Ángel, Alicia, Manuel Carlos e Ignacio a deixaram pronta. Saiu impressa na coleção “Cuadernos Libertarios” no ano 2000, com um prefácio de Litvak e um prólogo de Francisco Olaya. O texto trata de resgatar do esquecimento a homens e mulheres anônimos que lutaram pela liberdade e a justiça social.

Descendente de uma família espanhola nasceu em Cuba em 1932. Sua vida transcorre relativamente cômoda, pelos negócios que mantêm. A Revolução cubana truncou seu destino; sai da Ilha e se estabelece em Miami. É aqui, nos Estados Unidos, onde começa a conhecer o anarquismo e a vincular-se ao mundo das ideias libertárias. Escreveu muito na revista “Guángara libertaria” e foi um membro muito ativo do Movimento Libertário Cubano no Exílio.

Durante sua visita à Espanha para apresentar o livro, uma vez editado, percorreu a Península de um extremo a outro, com seus correspondentes debates; alguns amargos, e incompreendida sua mensagem por certos grupos de esquerda. Para estes, criticar Castro só podia se fazer desde uma posição capitalista e de direita, ignorando que existem propostas mais avançadas e liberadoras. Ainda que o olho humano unicamente aprecie umas quantas cores do arco íris, isso não quer dizer que não existam mais; não se veem, mas estão.

O valor de Frank Fernández foi o de defender a liberdade e a justiça social frente a qualquer tirano, fosse do signo que fosse. E o advertiram, não é bem visto criticar as ditaduras de esquerda. Esta atitude também a tiveram outros companheiros antes dele. Quando Ángel Pestaña regressou de sua viagem à Rússia não defendeu a revolução que acabava de triunfar e se atreveu a dizer que o que acontecia no país de Tolstoi, Kropotkin e Bakunin era uma mudança de tirano. O tempo lhe deu razão. Também Albert Camus sofreu as investidas subsequentes por apoiar os perseguidos do estalinismo enfrentando-se com Sartre. Não é fácil atrever-se a denunciar os novos opressores.

Durante sua estadia em Madrid sucederam uma série de anedotas, algumas das quais nomeamos aqui, para divulgar sua personalidade, algo de sua vida e da situação em Cuba.

No transcurso das variadas conversações que tivemos, pudemos apreciar que era um homem afável, afeito ao diálogo, transigente, respeitoso, irônico, e que não se calava se tinha que dizer algo, sempre com educação. Um primeiro e pequeno incidente surgiu antes de nos conhecermos pessoalmente. Ao corrigir as provas de impressão do livro vimos que, segundo entendíamos, alguma palavra não tinha o significado que lhe atribuía. O fizemos saber em uma carta. Nos respondeu muito amavelmente anexando fotocópia do dicionário da RAE na qual nos ressaltava a aceitação que lhe dava ao vocábulo, que era correta, e que nós havíamos interpretado como um americanismo que os leitores espanhóis não entenderiam.

Era alto e corpulento; um problema para poder dormir em uma cama de um metro e oitenta, que era a que tínhamos para os companheiros convidados. Fumava charutos, gostava de beber e lhe encantava conversar. Este último nos uniu muito. Comia bem, sem obstáculos ao que se oferecia. Em uma ocasião nos perguntou se sabíamos fazer sopa castelhana, da qual havia ouvido falar de forma elogiosa; o prato ficou em seu supremo ponto organoléptico e foi tema de elogio para a companheira que havia se esmerado em conseguir os melhores ingredientes e os havia cozido.

Durante um passeio familiar, sendo Frank adolescente, comentou o que via em um parque: “Olha, uns negritos jogando bola”. Um senhor que estava próximo, e escutou o comentário, esclareceu: “Não, não são uns negritos jogando bola, são uns meninos jogando bola”. Surpreendeu-se, mas captou o esclarecimento. O recordava como a primeira lição que recebeu sobre racismo interiorizado.

O livro foi apresentado no Ateneu de Madrid. Para difundir o evento se enviavam notas à imprensa com o fim de que se incluísse na seção de convocatórias e a intenção de que tivesse eco. Dias depois se apresentou na sede da Fundação um senhor cubano perguntando por Frank Fernández; viu a convocatória da apresentação do livro e desejava falar com o autor. Nesse momento estava em turnê peninsular. O senhor, do qual não recordamos o nome, nos contou o motivo pelo qual desejava conhecê-lo. Era sociólogo e tinha escrito um ensaio sobre Tarrida del Mármol e a sociologia quântica (não sabíamos o que era isso, ainda que tínhamos ouvido falar da física quântica). Sua história pessoal mostra o que era a vida no país caribenho. Deu-nos a conhecer sua situação. Parece que trabalhava como investigador na universidade cubana e teve referências de Tarrida del Mármol. Interessou-se por seus textos e quis conhecê-los melhor. Aí começaram os problemas. O Regime não permitia que passasse de certos limites. Comentamos-lhe que havia companheiros que haviam estado em Havana consultando arquivos históricos e não lhes haviam posto nenhum inconveniente. Dizia-nos que as restrições eram para os cubanos, não para os estrangeiros. Seguiu em seu empenho de investigação e o despediram. Para poder viver, se pôs a trabalhar de relojoeiro ‒ o Sistema já permitia certas atividades econômicas individuais, privadas, e assim poder manter sua família. Um dia lhe chegou um convite para dar uma conferência na Universidade de Salamanca, mas as autoridades não lhe permitiram sair do país. Tempo depois voltaram a convidá-lo, e então sim conseguiu autorização. Após aterrizar em Barajas solicitou asilo político. O acolheram na Cruz Vermelha à espera da resolução da solicitação. Nesse momento foi quando o conhecemos. Dias depois, quando Frank regressou da turnê de apresentação do livro, falou com ele sobre a possibilidade de que fosse acolhido nos EUA se o recusassem na Espanha o estatuto de refugiado político. Como necessitava recursos econômicos, nos ofereceu o ensaio sobre Tarrida para publicá-lo, mas a FAL não pagava por isso; nem os manuscritos nem os direitos de autor, tudo se faz voluntariamente para difundir as ideias. Não era anarquista, tampouco um homem de direita, mas o castrismo não lhe permitia indagar livremente nos arquivos para ampliar conhecimentos.

Prévio ao livro que publicamos, fruto de uma investigação anterior foi “La sangre de Santa Águeda”, na qual aborda o contexto que levou Angiolillo a assassinar Cánovas, máximo responsável das torturas do processo de Montjuic. Aproveitou sua viagem a Espanha para aproximar-se para conhecer o cenário dos fatos. Ao acessar o edifício do balneário, sua primeira surpresa foi ver umas escadas de madeira que ele descreve no livro como de luxuoso mármore. Preocupou-lhe e o anotou para corrigir em futuras edições.

Criticavam-se os exilados anarquistas cubanos que foram à Flórida, onde também se refugiaram os fazendeiros da época do ditador Batista. Por sua proximidade geográfica e clima, era também o lugar onde se assentavam os anarquistas perseguidos que haviam enfrentado a tiranos cubanos anteriores.

Morreu sem regressar a sua Cuba querida e em um país onde justo agora grupos de sicários, orquestrados pela Casa Branca, dirigida por um criminoso megalomaníaco, saem à caça do migrante e assassinam impunemente. Como nos recordava Frank em uma palestra de José Martí: “Os homens que cedem não são os que fazem os povos, mas os que se rebelam”. Seguimos adiante, companheiro, sendo conscientes de que “este caminho é de muitíssimas léguas”.

Saúde.

Ignacio Soriano, presidente da FAL desde 1992 até 2005.

Fonte: https://fal.cnt.es/ha-muerto-el-anarquista-cubano-frank-fernandez/

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Cercada de verde
ilha na hera do muro:
uma orquídea branca.

Anibal Beça

Pronunciamento de grupos, coletivos e pessoas, desde os distintos rincões em resistência e rebeldia no mundo. PELA VIDA E A DIGNIDADE DO POVO DO IRÃ

Vivemos uma tempestade. Não é nova nem passageira. É a tempestade do capitalismo, do imperialismo, do patriarcado e dos Estados que administram a morte enquanto falam de ordem, estabilidade ou segurança. Nessa tempestade, os de cima disputam territórios, recursos e poder; os de baixo oferecem os corpos, as vidas, o medo e a esperança.

No Irã, hoje, essa tempestade golpeia com especial crueza. O povo iraniano voltou a se mobilizar contra o regime da República Islâmica que não hesitou em realizar uma repressão violenta contra quem sai às ruas. Essas mobilizações não são um fato isolado nem uma reação momentânea: são o resultado acumulado de décadas de opressão política, exploração econômica, violência patriarcal, repressão sistemática e negação de direitos. São lutas que nascem de baixo, da vida cotidiana asfixiada, de quem já não pode nem quer continuar sobrevivendo em silêncio.

Lá em cima, os governos e as potências medem a situação em chave geopolítica. Calculam vantagens, equilíbrios regionais, rotas energéticas, alianças convenientes. Lá em cima, o crime se normaliza, se justifica ou se oculta com discursos de “estabilidade”, “segurança” ou “realismo político”. Lá em cima, inclusive aqueles que se apresentam como inimigos do regime iraniano não hesitam em legitimar o massacre, quando este serve aos seus interesses.

Em baixo, em contrapartida, o povo iraniano luta pela vida.

Em baixo estão as mulheres que desafiam cotidianamente o controle patriarcal.

Em baixo estão os trabalhadores e as trabalhadoras empobrecidos por políticas neoliberais.

Em baixo estão as dissidências sexuais, as minorias religiosas, os povos oprimidos, aqueles que habitam as periferias atingidas pela crise da água, da moradia e do emprego.

Em baixo estão aqueles que saíram às ruas uma e outra vez, muitas vezes com as mãos vazias, sem organizações amplas —destruídas pela repressão— e mesmo assim avançaram mais longe do que qualquer oposição institucional.

Denunciamos com firmeza a manipulação externa desses protestos. Nenhuma potência estrangeira, nenhum governo do norte global, nenhum projeto imperial tem o direito de usar o sofrimento do povo iraniano como peça em seu tabuleiro. Essa instrumentalização não só deturpa as lutas reais, como coloca em maior perigo aqueles que resistem, ao transformá-los em pretexto para uma repressão ainda mais brutal.

Reafirmamos o direito inalienável dos povos à autodeterminação. A liberdade não se exporta nem se negocia entre Estados. Nenhuma intervenção imperial jamais trouxe justiça nem dignidade aos povos que diz “libertar”. Sabemos disso pela história, e isso é confirmado uma e outra vez pelas ruínas que deixam em seu caminho.

Há aqueles que, de fora, olham para cima e não para baixo: aqueles que justificam o regime iraniano em nome de um suposto anti-imperialismo, ignorando que esse mesmo regime aplica contra seu povo lógicas de ocupação, apartheid, saque e neoliberalismo; e aqueles que promovem alternativas reacionárias, autoritárias e dependentes, que prometem salvação enquanto reproduzem a dominação.

São falsos binarismos. Cima contra cima. Poder contra poder. Em baixo fica o povo, preso entre duas forças que se dizem opostas, mas agem alinhadas.

Nossa posição é clara: não estamos com os governos, estamos com os povos. Não com os Estados, mas com quem resiste. Não com as elites, mas com quem luta para viver.

Hoje, enquanto o povo iraniano enfrenta o corte das comunicações, o estado de sítio e a militarização da vida cotidiana, fazemos um chamado para escutar os alertas de nossos companheiros zapatistas: a tempestade é global; quem acredita que não lhe atinge, que não é com ele ou com ela, se engana. Diante desta tempestade, não há salvadores nem soluções de cima. O que há é a possibilidade —urgente— de unir as lutas de baixo, de nos reconhecermos no destino compartilhado de quem resiste ao capital, ao imperialismo e a todas as formas de dominação.

Estendemos nossa mão ao povo iraniano.

Não para tutelá-lo.

Não para falar por ele.

Mas para dizer: vocês não estão sozinhos.

Porque a luta no Irã é também a luta pela vida em toda parte. E porque somente de baixo, juntas e juntos, poderemos enfrentar a tempestade e imaginar o dia seguinte.

Para adicionar sua assinatura, escreva para declaracion.iran@gmail.com

Fonte: https://enlacezapatista.ezln.org.mx/2026/01/29/por-la-vida-y-la-dignidad-del-pueblo-de-iran-pronunciamiento-de-grupos-colectivos-y-personas-desde-los-distintos-rincones-en-resistencia-y-rebeldia-en-el-mundo/   

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Lentos dias se acumulam –
Como vão longe
Os tempos de outrora.

Buson

[Rússia] Prorrogação da campanha de financiamento coletivo para a publicação do livro de Petr Ryabov “Três palestras sobre Mikhail Bakunin: personalidade, obra e legado”

A editora Directio Libera decidiu prolongar o financiamento coletivo para o novo livro da série schemata — Petr Ryabov, “Três palestras sobre Mikhail Bakunin: personalidade, obra e legado”. Falta muito pouco para atingir a meta — apenas 8.900 rublos de 200.000.
 
Quem é Petr Ryabov?
 
Petr Ryabov é um anarquista russo, filósofo, pesquisador da história e das ideias do anarquismo, doutor em filosofia e professor adjunto do departamento de filosofia da Universidade Pedagógica Estatal de Moscou Lenin. Seu livro contém uma transcrição editada das palestras do autor sobre Mikhail Bakunin.
 
Por que todo mundo que pensa livremente deveria ler esse livro?
 
Nela, Bakunin aparece não como uma figura clássica, mas como um pensador cuja filosofia era inseparável da prática da luta revolucionária. Opondo-se à ideia de reformar as instituições existentes, Bakunin apelava à sua completa abolição. As ideias que provocavam a rejeição dos governantes da sua época continuam a ser objeto de debate animado ainda hoje.
 
O arco de palestras que serviu de base para este livro foi um fenômeno notável no meio intelectual de Moscou. Agora, os leitores têm a oportunidade de conhecer sua versão impressa.
 
O que é necessário para isso?
 
Para publicar o livro, é necessário fechar completamente o financiamento coletivo. A meta é de 200.000 rublos, dos quais 190.100 rublos já foram arrecadados. Isso representa 95% do valor declarado. Falta arrecadar apenas 8.900 rublos.
 
Você pode apoiar o financiamento coletivo neste link:
 
https://planeta.ru/campaigns/petr_ryabov
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
O coração da aranha
se desfaz em geometria
de seda e mandala.
 
Yeda Prates Bernis

Para Além da Exploração: Saúde, Liberdade e Ação Direta no Novo Ano

Camaradas, trabalhadoras e trabalhadores de todos os cantos,

Que 2026 encontre-nos com os punhos cerrados e o olhar voltado para o horizonte da libertação. A União Anarquista Federalista (UAF) saúda a chegada deste novo ano não como uma simples mudança de data, mas como mais uma trincheira no longo combate histórico contra todas as formas de dominação. Aos explorados pelo capital, oprimidos pelo Estado, marginalizados pelo patriarcado e pela hierarquia social, nosso chamado se renova: não há futuro a ser esperado, há um mundo a ser construído pelas nossas próprias mãos, a partir de baixo. Que este ano seja de organização crescente, de solidariedade ativa e de recusa intransigente.

O sistema que nos esmaga não descansa. Enquanto celebrarmos a passagem do tempo, os donos do poder contabilizam seus lucros extraídos do nosso suor e planejam novas formas de controle. A fome, a precariedade, a violência estatal e a destruição ambiental não são acidentes; são produtos diretos de uma máquina social que privilegia a propriedade sobre a vida e o autoritarismo sobre a liberdade. Em 2026, que nossa resposta seja a ampliação da ação direta, o fortalecimento dos núcleos de apoio mútuo e a construção de redes autônomas que possam sustentar nossas comunidades, tornando-nos cada vez menos dependentes das estruturas que nos oprimem.

Convidamos a todas e todos que carregam o fardo da exploração a se unirem a esta luta que não é de um partido ou de uma vanguarda, mas do povo organizado. A UAF, enquanto proposta de federação libertária, acredita na força da união voluntária, na democracia direta dos coletivos e no federalismo como caminho para uma sociedade verdadeiramente livre. Em seus bairros, locais de trabalho, escolas e campos, tomemos o ano que começa como oportunidade para semear a autonomia: criando assembleias populares, difundindo conhecimento livre, ocupando espaços e resistindo a cada golpe do capital e do Estado.

Que 2025 tenha terminado com nossas bandeiras negras e vermelhas hasteadas nas ruas, e que 2026 as veja fincadas em terrenos férteis de novas relações sociais. Não lutamos por um governo melhor, mas por um mundo onde os governos sejam desnecessários; não por migalhas, mas pelo pão inteiro e pela rosa de que falavam as companheiras. Avante, pois! Que a saudação anarquista – “saúde e liberdade!” – ecoe forte em nossos encontros. Que cada aperto de mão, cada decisão coletiva e cada ato de rebeldia em 2026 seja um passo firme rumo à sociedade futura, que já vivemos em embrião cada vez que nos organizamos sem chefes e sem senhores. Um ano de luta, de construção e de esperança combativa a todos os explorados!

União Anarquista Federalista – UAF

Contato: uaf@riseup.net

Blog: uafbr.noblogs.org

agência de notícias anarquistas-ana

tarde dourada
dança sob mar de prata
doces risadas

Civana

[Joinville–SC] Ambiente Arejado, Livraria de Bairro | Breve informativo sobre os 16 meses

Por 16 meses, ocupamos e sustentamos uma sede física como espaço de encontro, escuta e construção coletiva. Nesse período, realizamos 16 encontros do grupo de escuta para mulheres cuidadoras, organizamos clubes do livro, promovemos encontros formativos e garantimos o acesso a livros novos e usados a preços populares. Construímos atividades públicas de história do bairro e afirmamos, na prática, a socialização dos saberes acadêmicos e populares.

Nossa experiência demonstrou que cultura, educação e cuidado são práticas políticas. No entanto, também escancarou os limites materiais impostos a iniciativas comunitárias que resistem fora da lógica do lucro, com autonomia do Estado e iniciativa privada. As dificuldades financeiras para manter o espaço e seguir com a militância comunitária nos convocaram a repensar caminhos, sem abrir mão dos princípios que nos movem.

Em outubro de 2025, iniciamos o diálogo com o espaço de economia solidária Jacatirão, no bairro Burarein, território vizinho ao Floresta e marcado pela intensa circulação de trabalhadores e trabalhadoras, imigrantes, estudantes de escolas públicas e pessoas em situação de rua. Um território vivo, atravessado por desigualdades, mas também por potências coletivas.

Aproximar-nos do Jacatirão é aprender com quem há anos constrói alternativas, fortalecer redes de apoio e seguir apostando na cultura de bairro como ferramenta de resistência, autonomia e transformação social.

Ambiente Arejado

R. Inácio Bastos, 211 – Bucarein, Joinville – SC

Instagram @ambiente_arejado 

agência de notícias anarquistas-ana

minhas mãos te olham
estranha fotografia
onde meus olhos te tocam

Lisa Carducci

Frank Fernández (1932–2026). Historiador do anarquismo cubano, militante libertário e intelectual no exílio

Por Daniel Pinós | 25/01/2026

Francisco Fernández, conhecido em círculos ativistas e intelectuais como Frank Fernández, faleceu em Miami, Flórida, no dia 18 de janeiro de 2026, aos 92 anos, devido a complicações infecciosas após sua hospitalização em cuidados intensivos. Sua morte representa uma perda importante para a historiografia do anarquismo cubano e, em geral, para a história social e política do Caribe.

Recebemos Frank em maio de 2004 na Maison de l’Amérique Latine de Paris para o lançamento de El anarquismo en Cuba, publicado pela CNT da região parisiense. Lembro-me de um momento intenso, marcado tanto pela força de suas palavras quanto pela hostilidade de um punhado de militantes do Partido Comunista do Chile, incapazes de aceitar as críticas que o livro dirigia contra a revolução castrista.

Em abril de 2015, em Santiago de los Caballeros, República Dominicana, reencontrei Frank no congresso fundacional da Federação Anarquista do Caribe e Centro-América, ao qual ele comparecia como delegado da IFA. Este reencontro, anos depois e em outro país, consolidou para mim a continuidade de seu compromisso e de nossa amizade.

Historiador autodidata, ativista libertário e intelectual no exílio, Frank Fernández dedicou a maior parte de sua vida à reconstrução crítica da história do movimento anarquista em Cuba, particularmente entre o final do século XIX e a primeira metade do XX. Sua obra se opõe explicitamente à historiografia oficial, seja ela liberal, nacionalista ou marxista-leninista. Rejeitando qualquer pretensão de neutralidade acadêmica abstrata, ele concebeu a escrita histórica como um campo de batalha, um espaço de confrontação política e memorial.

A originalidade de sua contribuição reside em seu método e sua postura epistemológica. Frank Fernández nunca se limitou a compilar fontes secundárias nem a reproduzir narrativas estabelecidas. Seu trabalho baseou-se em uma leitura minuciosa da imprensa anarquista cubana publicada desde a época colonial, em arquivos sindicais muitas vezes esquecidos e na reconstrução de experiências militantes apagadas pela repressão, pelo exílio ou pela marginalização política. Ele dedicou atenção especial às trajetórias de trabalhadores anônimos, mulheres anarquistas, intelectuais comprometidos, tipógrafos, leitores de fábricas de tabaco, ateneus populares e às formas de organização não hierárquicas que moldaram o movimento libertário cubano.

Essa perspectiva se sintetiza em sua obra principal, El anarquismo en Cuba (2000), traduzida para vários idiomas, que continua sendo uma referência essencial para qualquer estudo sério do movimento operário cubano. Nela, Fernández demonstra que o anarquismo não foi um fenômeno marginal nem um mero precursor ideológico, mas sim um ator central nas lutas sociais, trabalhistas e culturais da ilha. Ele desafia diretamente as narrativas teleológicas que subordinam a história do trabalho ao advento do Estado-nação ou à vitória do socialismo autoritário.

Sua outra obra importante, La Sangre de Santa Águeda (1994), ilustra seu interesse por acontecimentos traumáticos e pela violência estatal, analisados não como episódios isolados, mas como momentos reveladores das dinâmicas de poder social e político. Além dessas obras, publicou numerosos artigos na revista Guángara Libertaria, assim como em diversas publicações libertárias em espanhol e inglês, que constituem um corpus essencial para o estudo do anarquismo cubano no exílio.

Paralelamente ao seu trabalho historiográfico, Frank Fernández foi membro ativo do Movimento Libertário Cubano no Exílio (MLC-E). Participou da fundação e gestão da Guángara Libertaria entre 1979 e 1992, revista que desempenhou um papel central na reestruturação das redes anarquistas cubanas fora da ilha. Essa atividade se desenvolveu em um contexto particularmente hostil, marcado pelo predomínio de correntes políticas conservadoras e anticomunistas em Miami, assim como por pressões e ameaças provenientes tanto do exílio quanto do Estado cubano. No entanto, Fernández manteve-se fiel a uma postura libertária inflexível, rejeitando tanto o autoritarismo estatal quanto os compromissos ideológicos ditados pelo oportunismo político.

No plano intelectual, Frank Fernández defendeu uma história livre de figuras heroicas e narrativas épicas, centrada nas práticas sociais, nas subjetividades subalternas e nas formas concretas de emancipação. Insistiu na necessidade de escrever a história “de baixo para cima”, atento às dinâmicas de poder dentro dos próprios movimentos revolucionários, particularmente no que diz respeito às relações de gênero e às formas informais de poder.

A contribuição de Frank Fernández não se limita a um conjunto de textos. Reside também em um imperativo metodológico e ético: considerar a história como uma ferramenta viva, destinada a nutrir as lutas presentes em vez de santificar o passado. Nesse sentido, sua obra permanece aberta, convidando ao debate, à exploração e, por vezes, à crítica, em consonância com o espírito libertário que o animou.

O falecimento de Frank Fernández deixa um legado historiográfico considerável e um claro convite aos pesquisadores: continuar a exploração crítica da história social cubana sem sucumbir às narrativas hegemônicas e reconhecer plenamente o papel das tradições libertárias na formação dos movimentos de emancipação na ilha de Cuba e em sua diáspora.

Fonte: http://www.polemicacubana.fr/2026/01/frank-fernandez-1932%e2%80%932026-historien-de-l%e2%80%99anarchisme-cubain-militant-libertaire-et-intellectuel-de-l%e2%80%99exil/

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Girando em cores
Sobe a bolha de sabão
– Gritos também sobem.

Mary Leiko Fukai Terada

[Florianópolis-SC] II Colóquio Pesquisa e Anarquismo prorroga as inscrições

Estão prorrogadas as inscrições para o II Colóquio Pesquisa e Anarquismo que acontecerá na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) entre 8 e 11 de abril de 2026. O novo prazo para submissão de trabalhos é até dia 10 de março.

A P R E S E N T A Ç Â O

REVOLUÇÃO ESPANHOLA | 90 ANOS DE ANTIFASCISMO

O anarquismo e suas diferentes manifestações políticas, filosóficas, históricas e práticas têm sido objeto de estudos nas universidades brasileiras desde meados da década de 1970. Grande parte dos estudos sobre as origens da organização sindical no Brasil tiveram como base materiais preservados por militantes anarquistas, muitos hoje disponíveis para consulta em arquivos e instituições oficiais.

Com o passar dos anos houve um crescimento no interesse pela pesquisa sobre o anarquismo em diversas áreas do conhecimento, dando origem a uma gama de TCCs, dissertações de mestrado e teses de doutorado sobre o tema. Esse movimento fez com que muitas das perspectivas em relação ao papel dos anarquistas na história fossem revistas e alguns erros ou omissões cometidos por pesquisadores do passado pudessem ser questionados com base em novas abordagens e fontes que se tornaram acessíveis.

O surgimento de trabalhos científicos nas mais variadas áreas do conhecimento renovam o pensamento e arejam as estruturas acadêmicas, muitas vezes paralisadas pelo comodismo intelectual, pressionadas pela produtividade da universidade capitalista e viciadas pelas disputas pessoais e teóricas que engessam as possibilidades de produzir avanços e reflexões críticas e de qualidade.

Assim, propomos a realização do “II Colóquio Pesquisa e Anarquismo” com o objetivo central de possibilitar a aproximação de pesquisadoras/es que têm como tema de interesse o anarquismo ou que partem de teorias, abordagens e práticas anarquistas para embasar suas produções acadêmicas e militantes. A atual proposta é uma continuidade do I Colóquio realizado em Florianópolis no ano de 2018, e que reuniu pesquisadores e militantes de todo o país em uma intensa programação de atividades, contando com 6 mesas temáticas, 55 apresentações de trabalhos, aula-teatro, lançamentos de livros, apresentações e exposições culturais.

Nesta segunda edição, celebraremos os 90 anos da Revolução Espanhola (1936-1939), episódio de extrema importância para a consolidação das ideias e práticas anarquistas, sendo considerada tanto uma consequência da organização da classe trabalhadora ainda na segunda metade do século XIX, como uma inspiração para a ampliação das lutas sociais e movimentos por uma revolução social embasada nos princípios anarquistas: federalismo, ação direta e combate ao fascismo.

Ainda que rememorando este importante episódio histórico e sugerindo esta temática geral, o evento não será monotemático, se propondo a ser um espaço de diálogos acerca de pesquisas e iniciativas em diversas áreas do conhecimento e abordando diferentes períodos históricos e elementos constitutivos do anarquismo mundial.

Nesse sentido, o colóquio visa garantir espaço para a apresentação de trabalhos concluídos ou em desenvolvimento, a troca de experiências, divulgação de novos estudos, socialização de fontes de pesquisa, exposição de grupos de pesquisa, editoras, livros, revistas e arquivos, e a participação de interessados no anarquismo, militantes e apoiadores destas pesquisas no ambiente acadêmico ou fora dele.

Deixamos o convite à todas as pessoas interessadas em participar!

>> Mais infos, inscrições: pesquisaeanarquismo.wordpress.com

agência de notícias anarquistas-ana

Na flor premiada
Uma mutuca agitada
Disputa olhares.

Mary