[Espanha] Nem Mulá, nem Xá! Pão e Liberdade!

Nas últimas semanas, assistimos a uma revolta da população trabalhadora iraniana contra o governo da República Islâmica do Irã, na forma de greves, manifestações e, finalmente, até mesmo a proclamação de conselhos operários em algumas zonas do território.

As causas deste levantamento, como em todas as rebeliões populares, são múltiplas e misturam-se as condições econômicas e materiais de vida da classe trabalhadora com a situação política do país, fruto da situação internacional, mas também das próprias lutas que a população iraniana vem acumulando nos últimos anos: desde a luta das mulheres, dos curdos ou das últimas greves em diversos setores, que se misturam com a situação política da região.

Não podemos ignorar que esta situação se está a desenvolver num clima de guerra crescente a nível mundial, mas especialmente nesta região.

Desde o Secretariado Permanente do Comitê Confederal da CNT, com base nos princípios internacionalistas e libertários que inspiram esta organização, queremos expressar nosso apoio à luta que a classe trabalhadora do Irã está travando. Da mesma forma, denunciamos a repressão do governo iraniano contra os protestos e denunciamos também as interferências imperialistas de Israel, dos Estados Unidos e da União Europeia, que estão tentando aproveitar a ocasião para tentar retornar ao antigo regime monárquico criminoso do Xá, derrubado há décadas pelo povo.

Não podemos ignorar que tudo isso acontece num contexto internacional de intensificação dos conflitos armados nas mãos de governos de todos os tipos, numa deriva totalitária de todas as formas de Estado, incluindo aquelas que se apresentam como democracias parlamentares, e que a crise mundial que o capitalismo atravessa está se acelerando.

Diante dessa situação, a classe trabalhadora deve lembrar que devemos lutar em todos os países contra todos os governos, burguesias e classes dominantes que exploram o trabalho em benefício de minorias privilegiadas de qualquer natureza. Devemos lutar em nossos próprios territórios contra a exploração salarial, contra a destruição dos ecossistemas e contra todas as formas de dominação que oprimem os seres humanos em todos os cantos do planeta.

E, acima de tudo, devemos apoiar quando, em qualquer país do mundo, as classes trabalhadoras se opõem à barbárie e à destruição, lutando pela vida e pela liberdade, como acontece hoje no Irã.

Solidariedade com a revolta no Irã!

Nem Mulá, nem Xá! Pão e Liberdade!

Trabalhadores e trabalhadoras do mundo, unamo-nos!

Paz entre os povos, guerra entre classes!

cnt.es

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Frases compostas
no sol que passeia
sob minha caneta.

Jocelyne Villeneuve

Morreu o velho Frank | Até sempre companheiro!

No domingo passado, 18 de janeiro, apenas começando a escurecer o céu, se foi o querido companheiro Francisco Fernández (1932-2026). Paco, em seu entorno familiar e para os amigos próximos. Frank, nos avatares da luta desde espaços anarquistas na contramão dos autoritarismos, das fobias e dos exílios. Morreu em consequência de uma infecção perniciosa que o forçou a internar-se de urgência na Unidade de Cuidados Intensivos em um hospital do sul da Flórida (EUA). Sempre manteve que a Anarquia não era outra coisa que a luta constante pela vida. Consequentemente, se manteve nessa batalha até o último suspiro. Em seus 92 anos, os órgãos vitais deixaram de cumprir suas funções, razão pela qual foi desconectado de toda ajuda mecânica e transladado a «cuidados paliativos». De maneira incrível, com essa atitude quase obstinada que o caracterizava, sua tremenda fortaleza física lhe permitiu lutar contra a morte durante 72 horas.

Sem dúvida, seu falecimento nos deixa um vazio incômodo, desses que exigem preencher sua incomensurável estatura. Historiador do anarquismo em Cuba, Frank Fernández foi antes de tudo um autodidata comprometido com o ideal ácrata. Um incansável investigador que não se conformou nunca em repetir narrativas consagradas nem replicar as versões «maquiadas» dos vencedores. Suas colaborações historiográficas abriram novos caminhos – invariavelmente incômodos — que hoje resultam inevitáveis de transitar se queremos compreender o papel decisivo que desempenharam os anarquistas cubanos entre finais do século XIX e a primeira metade do século XX no desenvolvimento das lutas do movimento obreiro na Ilha. Jamais escreveu desde a distância asséptica da academia nem como exercício ególatra de erudição, mas desde a implicação vital de quem tem consciência de que a história é um potente campo de batalha e não um frio mausoléu.

Defendeu sem trégua os ideais de liberdade que guiaram sua vida e pelos quais sofreu um longo exílio. No entanto, nunca se vitimizou por isso. Seu prolongado exílio foi uma consequência assumida de forma coerente que jamais impactou sua integridade ácrata. Militou no Movimento Libertário Cubano no Exílio (MLC-E) e foi cofundador do coletivo editorial da revista anarquista Guángara Libertaria, trincheira na qual se manteve incólume durante treze anos (1979-1992), apesar «da indiferença ou a franca hostilidade de um lugar tão pouco apropriado como a Miami daqueles anos […] uma marca difícil de igualar se temos em conta o ambiente reacionário e violento que nos rodeava […] a pressão e a perseguição de nossos inimigos, tanto em Miami como em Havana.» [1]

Os que o conheceram recordarão que combinava com precisão de alquimista um humor sarcástico com a firmeza de princípios de quem não sabia ceder terreno. Talvez, a melhor descrição do caráter e da personalidade de Frank ficou registrada em uma entrevista que lhe realizaram M.G. Blázquez e F. Martín para o jornal anarcossindicalista CNT, por ocasião de sua visita «às ruínas do anarquismo espanhol» em Madrid: «Barba branca, ar quixotesco e com um charuto tão unido a ele como a ironia e o verbo fácil.»  Só lhes faltou enfatizar sua profunda obsessão por capturar esse «verbo fácil» [2] em nome de «a outra história». Quer dizer: «Não das guerras, não dos patriotas, mas a história dos escravos, a história das mulheres […] devemos escrever a história eliminando as epopeias, os líderes e divindades das estátuas.» [3]

Em essência, esse foi Frank Fernández, daí que insistisse uma e outra vez, às vezes brincando e outras com seu tom duro e inclusive agressivo, que a história do anarquismo em Cuba não poderia reduzir-se a uma nota de rodapé nos livros oficiais nem a uma coleção de anedotas românticas em torno de nossas derrotas, mas que requeria ser contada por seus protagonistas. Por isso, exigiu sempre a revisão minuciosa dos fatos a partir da leitura atenta das publicações anarquistas editadas com coragem e lucidez desde os tempos coloniais e no resgate da experiência dos fazedores da história: obreiros que abraçaram «a ideia” contra vento e maré; intelectuais que puseram sua pena à serviço das lutas, tipógrafos que deixaram a vida entre linotipos; sindicatos irredutíveis que se consolidaram sem hierarquias, mulheres anarquistas que não só confrontaram o Estado e a Igreja mas também o machismo de seus companheiros; grupos de afinidade que impulsionaram a insurreição contra todo poder até as últimas consequências; leitores de tabacaria que divulgaram a práxis anárquica entre os torcedores; ateneus que ensinavam a ler e a pensar ao mesmo tempo e internacionalistas que, consequentemente, deram sua vida em prol da emancipação. Essas histórias — de carne e osso — nutriram seu trabalho historiográfico.

Autor dos livros “La Sangre de Santa Águeda” [4] e “El anarquismo en Cuba” [5] (traduzido para o alemão, francês, inglês e italiano), assim como incontáveis artigos recolhidos nas páginas de Guángara Libertaria e outros meios anarquistas em castelhano e língua inglesa, Frank nos deixou um inestimável legado de investigação historiográfica e um convite preciso a continuar o caminho emancipador desde a intransigente reafirmação ácrata. Essa convocatória se expressa com singular clareza nos últimos parágrafos de “El anarquismo en Cuba“, uma de suas obras mais conhecidas. Ali deixou plasmado seus anseios para a Ilha cativa, mesmos que hoje ressoam com inquietante vigência: «É prematuro enterrar as ideias libertárias e declara-las mortas quando ainda tem vigência e sobretudo um campo próspero, abonado com sangue de várias gerações e onde de novo renascerão com mais força os pensamentos de um arquétipo elevado da condição humana e sobretudo da liberdade individual e coletiva de todo um povo.» [6]

Um velho adágio atribuído a Abraham Lincoln assinala: «dá-me seis horas para cortar uma árvore e passarei quatro afiando o machado». Essa também era a visão de Frank Fernández. Todos os seus textos foram redigidos com o esmero diligente de quem afia um machado, consciente que será usado uma infinidade de vezes. Agora, ante sua ausência, afastados de liturgias ocas e homenagens de ocasião, não cabe o consolo fácil. Nos fica o encargo, sim, de estar à altura de seu legado e assumir com coerência que sua obra não está fechada. Cada investigação que retome seu trabalho, cada leitura de seus textos, cada discussão em diálogo com suas reflexões «afia o machado» e prolonga de forma concreta sua memória. Talvez, essa seja a forma mais anárquica de se despedir dele e agradecer-lhe seu perene companheirismo.

Até sempre, companheiro Frank!

Até sempre, amigo Paco!

Saúde e Anarquia!

Gustavo Rodríguez,

20 de janeiro 2026.

[1] Fernández, Frank. Memorias de Guángara Libertaria. Revista Cuba Encuentro, núm. 40, primavera 2006, p. 145. Disponible en línea: https://www.cubaencuentro.com/revista/revista-encuentro/archivo/40-primavera-de-2006/memorias-de-guangara-libertaria-29667

[2] Blázquez, M.G. y, Martín, F. Entrevista con el historiador cubano Frank Fernández. CNT, noviembre 2004. Disponible en línea: https://web.archive.org/web/20080313234756/http://www.periodicocnt.org/306nov2004/16 /

[3] Id.

[4] Fernández, Frank (1994). La Sangre de Santa Águeda: Angiolillo, Betances y Cánovas. Miami: Ediciones Universal.

[5] Fernández, Frank (2000). El anarquismo en Cuba. Madrid: Fundación de Estudios Libertarios Anselmo Lorenzo. Colección Cuadernos Libertarios/6. Disponible en línea: https://anarquia.info/wp-content/uploads/2021/08/frank-fernc3a1ndez-el-anarquismo-en-cuba.pdf

[6] Ibidem, p. 134.

Tradução > Sol de Abril

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Limpo o rosto na camisa –
O vento começa a trazer
As primeiras gotas de chuva

Paulo Franchetti

2026: Educação anarquista para a transformação social

Nós, da Editora Monstro dos Mares, entendemos a educação anarquista como uma prática essencial para a transformação social. Acreditamos que ela é um caminho para ampliar a liberdade, fortalecer a autonomia e promover relações solidárias. A educação não deve ser reduzida a modelos tradicionais que reforçam hierarquias, obediências e estruturas de dominação. Deve ser vivida como um processo permanente de construção coletiva, presente no cotidiano das pessoas e dos movimentos que lutam por um mundo mais justo. Essa compreensão inclui as vivências e resistências das comunidades LGBTQIAPN+, das pessoas queer, dos povos originários, das comunidades indígenas e quilombolas, cujas trajetórias colocam em evidência a urgência de uma educação libertária.

Nossa visão sobre educação anarquista rompe com a lógica de transmissão unilateral do conhecimento. Defendemos um processo de aprendizagem baseado na colaboração e no respeito à autonomia de cada pessoa. Os saberes precisam circular de maneira horizontal, criando espaços onde todos possam ensinar e aprender, valorizando a diversidade e construindo ambientes realmente inclusivos. A educação libertária é inseparável da pluralidade de identidades, culturas e experiências que compõem nossas comunidades.

A educação precisa ser prática e transformadora. Em nossas publicações, buscamos estimular o pensamento crítico e fomentar reflexões que atravessam dimensões sociais, políticas, ambientais e identitárias. A educação anarquista acontece nos livros, mas também nas ruas, nas praças, nas bibliotecas comunitárias, nos espaços autogestionados e em qualquer lugar onde o aprendizado seja livre e espontâneo. A ação direta é parte desse processo. Ela surge como expressão concreta do conhecimento compartilhado e das mudanças que desejamos construir, ampliando e acolhendo especialmente as vozes e experiências marginalizadas.

Criticamos com firmeza o sistema escolar tradicional que reproduz desigualdades, restringe o acesso a saberes diversos e organiza a vida a partir da obediência a normas e autoridades. Defendemos uma educação inclusiva, participativa e emancipadora, capaz de fortalecer a autonomia e a consciência crítica de cada pessoa. Nosso compromisso é fomentar caminhos que permitam participação ativa na construção de um futuro mais igualitário, onde ninguém seja excluído por sua origem, gênero, orientação, identidade ou território.

As raízes da educação anarquista remontam ao início do século passado, quando pensadores e militantes libertários desenvolveram experiências pedagógicas que marcaram profundamente os debates educacionais. Francisco Ferrer y Guardia, com a Escola Moderna, inspirou escolas racionalistas em diversos países, inclusive no Brasil. No contexto brasileiro, diversos grupos anarquistas ligados ao movimento operário organizaram escolas livres, cursos noturnos, universidades populares e práticas educativas voltadas à emancipação da classe trabalhadora. Suas iniciativas defendiam a coeducação, a laicidade, a autonomia e o combate às estruturas autoritárias que moldavam a escola tradicional. Esses esforços mostram que a educação anarquista é uma prática histórica, coletiva e profundamente transformadora.

A educação libertária deve se refletir em todos os aspectos da vida social. Promovemos práticas educativas autônomas, que não dependem do mercado ou do Estado para existir. Nosso papel é contribuir para uma sociedade onde o conhecimento seja ferramenta de resistência e libertação, capaz de enfrentar as estruturas opressivas e ampliar a autonomia das pessoas sem qualquer forma de discriminação. A educação anarquista é um instrumento de subversão criativa, acolhendo as especificidades de cada comunidade e fortalecendo redes de solidariedade.

Seguimos firmes no compromisso com a produção e disseminação de ideias que questionam as convenções educacionais. Construímos alternativas que inspiram caminhos decoloniais, autônomos e transformadores, capazes de reconhecer e valorizar identidades, saberes e experiências diversas. Nosso trabalho busca um futuro em que a liberdade, a igualdade, a solidariedade e o respeito às múltiplas expressões da vida sejam pilares de uma sociedade baseada em conhecimento compartilhado e práticas verdadeiramente livres.

Feliz 2026
Felipe Siles, Caronte Mayer e Baderna Jaime.

monstrodosmares.com.br

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Sopra o vento
Segura-te borboleta!
Na pétala da flor.

Rodrigo de Almeida Siqueira

Daniel Colson (1943-2026).

Pensador anarquista singular e generoso, sua obra traçou linhas vivas de revolta e criação

Por David Berry | 11/01/2026

Daniel Colson, teórico anarquista e historiador do movimento operário, faleceu no dia 9 de janeiro em Lyon (França). Tinha 82 anos.

Colson foi um membro ativo do movimento anarquista em Lyon desde o início dos anos 1970. Fez parte do coletivo que dirigiu a livraria anarquista da cidade ‘La Gryffe’ desde sua criação em 1978 e foi membro do coletivo editorial da revista anarquista Réfractions desde 1997. Professor de sociologia na Universidade de Saint-Étienne, publicou extensivamente sobre história operária, sindicalismo revolucionário, anarquismo e, recentemente, filosofia.

Colson mudou-se para Lyon, a segunda maior cidade da França, em 1966, onde estudou sociologia, após passar dois anos estudando filosofia em um seminário perto de Clermont-Ferrand. Na universidade, descobriu a política revolucionária e logo se envolveu no movimento estudantil, dominado no final dos anos 1960 por maoístas, trotskistas e outros grupos de gauchistes (esquerdistas, termo pejorativo usado originalmente pelo Partido Comunista Francês para se referir aos estudantes revolucionários de 1968, em referência à obra de Lenin “O Comunismo de Esquerda: Uma Doença Infantil”).

Graças à sua amizade com o comunista libertário Michel Marsella, Colson também conheceu o anarquismo, o grupo Socialisme ou Barbarie em torno de Cornelius Castoriadis, o situacionismo, os espartaquistas, etc. Como muitos de seus contemporâneos, participou da campanha contra o imperialismo estadunidense, em particular contra a guerra do Vietnã, e foi o principal impulsor do “Comitê do Vietnã” no centro histórico de Lyon. O grupo publicou um boletim, Informations rassemblées à Lyon (IRL), e após a repressão e o colapso do movimento de 1968, o “Comitê do Vietnã” transformou-se no “Comité de quartier du Vieux-Lyon” (Comitê do Bairro do Centro Histórico de Lyon).

Quando anos depois lhe perguntaram quais haviam sido os objetivos desse comitê, Colson respondeu: “Nada menos que criar o embrião de uma insurreição a nível local”. Influenciado pelos trabalhadores da indústria automobilística que ocupavam as fábricas locais da Berliet, o grupo decidiu ocupar a Maison des jeunes, centro juvenil local, onde o comitê se reunia nos meses anteriores. “Éramos muito ambiciosos. Esperávamos seriamente, quando dadas as condições adequadas, tomar a delegacia local, incluindo seu arsenal”. Esse plano nunca se materializou, embora o grupo tenha ocupado brevemente a prefeitura.

Colson também se inspirou em 1968 e, especialmente, em sua experiência de “espontaneidade na ação e na organização”, incluindo a ampla cooperação entre estudantes e trabalhadores. Para ele foi de suma importância a descoberta de três obras: a história em quatro volumes da Primeira Internacional, escrita pelo anarquista suíço James Guillaume; A revolução desconhecida, do anarquista russo Voline (publicada originalmente em francês em 1947, mas reeditada após 1968 por Daniel Guérin e pelo artista anarquista Jean-Jacques Lebel); e O Anti-Édipo: Capitalismo e esquizofrenia (1972), de Gilles Deleuze e Félix Guattari.

Não que ele entendesse absolutamente o Anti-Édipo quando tentou lê-lo pela primeira vez (na verdade, achou-o “bastante indigesto”) e mesmo dez anos depois, quando tentou novamente, só conseguiu entender o primeiro capítulo: para Colson, aquele capítulo demoliu com sucesso o “enorme aparato teórico marxista” que dominava a esquerda francesa naquele momento, e deixou claro “não apenas o poder teórico, mas também o emancipador, ético, filosófico e prático do anarquismo”.

Colson participou ativamente de vários jornais anarquistas: os Cahiers de mai, lançados em junho de 1968 e que foram a voz dos Comitês de Ação que haviam surgido por toda a França; ICO (Informations et Correspondences Ouvrières), centrado nas lutas operárias autônomas, fora de sindicatos e partidos; e IRL (Informations rassemblées à Lyon), literalmente notícias reunidas em Lyon, que publicava relatos de testemunhas oculares e documentos sobre as lutas sociais na área de Lyon que não apareciam na imprensa convencional nem nos principais jornais de esquerda. O IRL, que Colson ajudou a criar, interessava-se pelas lutas operárias, mas também pelo não legalismo e outras formas de resistência, e discutia uma variedade de movimentos: anarquismo, conselhismo, feminismo, ecologia, antimilitarismo, liberação sexual, etc.

Após retornar ao mundo acadêmico, Colson doutorou-se em 1983 com uma tese – posteriormente publicada como livro – sobre o anarcossindicalismo e o comunismo no movimento operário de Saint-Étienne, 1920-1925. (Se você já teve dúvidas sobre a diferença entre os termos “sindicalismo”, “sindicalismo revolucionário” e “anarcossindicalismo”, e sobre como o outrora sindicalista revolucionário movimento operário francês veio a ser dominado pelo comunismo, este livro é para você). Em 1998, publicou um segundo livro histórico-sociológico sobre a indústria siderúrgica – e seus donos, os famosos “barões do ferro” ou mestres ferreiros – em Saint-Étienne desde meados do século XIX até a Primeira Guerra Mundial.

Em 1978, Colson fez parte do grupo original de ativistas anarquistas que fundou a livraria La Gryffe em Lyon, coletivo que permanece ativo. Além de vender seu habitual catálogo de obras anticapitalistas e antiautoritárias, La Gryffe também conta com uma sala de reuniões onde regularmente acontecem debates, exposições, projeções de filmes, etc. Quando Colson publicou um livro sobre o coletivo em 2020, teve cuidado de não oferecer uma visão idealizada de um grupo anarquista bem-sucedido, mas destacou também a longa e por vezes difícil história sobre a qual se construiu La Gryffe, incluindo sérias diferenças de opinião e conflitos dentro do coletivo, conflitos que foram resolvidos de acordo com os princípios anarquistas.

Colson explicou certa vez, em uma palestra sobre “Proudhon e a relevância contemporânea do anarquismo”, cujo principal objetivo era defender a reabilitação de Proudhon, que ainda era impopular nos círculos anarquistas, que havia descoberto Proudhon aproximadamente ao mesmo tempo, nos anos setenta, em que descobriu o “nietzschianismo de esquerda” de Foucault e, especialmente, de Deleuze. Deleuze, argumentou, desenvolveu um pensamento emancipador que tinha muito em comum com Proudhon.

De fato, afastando-se de seu trabalho sociológico anterior, e depois de escrever livros sobre Proudhon e Malatesta, Colson concentrou-se cada vez mais na filosofia, e estava especialmente interessado em Spinoza, Leibniz, Nietzsche, Deleuze e Guattari (entre outros) e em como seus pensamentos se relacionavam com o anarquismo. Isso resultou em uma série de palestras em congressos, artigos de revistas e livros sobre esses temas. Em 2022, por exemplo, ele publicou um livro sobre ” anarquismo da classe trabalhadora e filosofia”. Infelizmente, apenas um de seus livros foi traduzido para o inglês (por Jesse Cohn): o Pequeno Léxico Filosófico do Anarquismo. De Proudhon a Deleuze — “uma exploração provocativa de afinidades e genealogias ocultas no pensamento anarquista“.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2026/01/11/daniel-colson-1943-2026/

Tradução > Liberto

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os olhos parados
na cortina da varanda –
brasas da tarde

Alexandre Pasqual

Lançamento: “Anarquismo e Sindicalismo em Santos vol. 1”, de Marcolino Jeremias

A Biblioteca Terra Livre (BTL) e o Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri (NELCA) têm a alegria de anunciar que o livro Anarquismo e Sindicalismo em Santos vol. 1 está à venda.

O livro de 416 páginas, dividido em 37 capítulos, foi escrito por Marcolino Jeremias, membro do NELCA e do CCS (Centro de Cultura Social), e apresenta a luta dos oprimidos durante os fins do século XIX e início do XX, período no qual a cidade de Santos (SP) foi frequentemente mencionada como a Barcelona Brasileira pela efusão de lutas sociais e de sociabilidade trabalhadora.

O presente livro resgata esse período de maneira singular, pormenorizada e com riqueza de fontes documentais pouco estudadas pela historiografia sobre o tema. O livro conta com grande quantidade de documentos raros como fotografias, manuscritos e imagens de jornais e livros da época. Já em sua introdução e primeiros capítulos é possível observar a cidade como centro de resistência às desigualdades e aos contextos históricos e políticos estabelecidos.

O livro conta com apresentação da historiadora Samanta Colhado Mendes.

Anarquismo e Sindicalismo em Santos vol. 1

Autor: Marcolino Jeremias

Edição: Biblioteca Terra Livre e o Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri

Páginas: 416

Preço: R$ 80,00

Contato: bibliotecaterralivre@gmail.com ou  nelca@riseup.net

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não tenho país
nem casa nem riqueza
e como me sinto bem!

Rogério Martins

[Argentina] A xenofobia virou de esquerda?

Se ainda é possível falar em direita e esquerda, vale este título. O mesmo sustentávamos no início do artigo “O pós-moderno virou de direita?” (nº 99), onde fazíamos um jogo em relação ao livro intitulado A rebeldia virou de direta?.

O patriotismo exacerbado já não é tanto um sinal de identidade da direita, mas sim da esquerda. Uma derivação possível é o anti-imperialismo anti-EUA, que supõe que não há outros países imperialistas, ou em todo caso que são menos ruins, aliados necessários. Todas as formas de anti-imperialismo nos vêm dizer que não há classes, mas países opressores e oprimidos; que a burguesia local nos explora porque estaria a serviço, não do lucro, mas de interesses ianques; que já não seriam exploradores, mas cipaios. É uma maneira de preservar intocável o modo de produção capitalista, muito eficaz porque sequer o reconhece.

Se seguirmos essa lógica, também há explorados cipaios; em resumo, aqueles que não se identificam com as políticas progressistas. Se algo caracteriza o grande e difuso campo da esquerda argentina é que ele define de acordo com sua moral e não com considerações materiais de existência. Um trabalhador é “povo” se pensa como eles; caso contrário, sua participação nessa categoria entra em risco.

Geral e lamentavelmente, o proletariado não se mobiliza por causas profundas, mas parciais. Isso não é propriedade exclusiva da esquerda. Muitos migrantes venezuelanos anti-Maduro comemoraram a queda do sucessor de Chávez. Isso liberou muitos “progressistas” para poder externar sua xenofobia sem culpas nem considerações: nas redes sociais abundaram comentários violentos contra os migrantes, exortando-os a voltar para seu país, zombando de seus trabalhos precários (imaginando-os como entregadores de aplicativo, fazendo também outra discriminação). Emitiram essas agressões como se não fosse evidente que a Venezuela está mergulhada na miséria e que por isso um quinto de sua população emigrou nos últimos anos, como se ser entregador de aplicativo fosse uma opção do amplo mercado de trabalho.

Mas, o que é xenofobia? É a rejeição e hostilidade contra pessoas estrangeiras ou percebidas como diferentes por sua nacionalidade, cultura ou etnia. Tem pouco de “fobia” (medo), já que é originada por preconceitos e estereótipos negativos sobre o estrangeiro, o desconhecido. Trata-se, no fim das contas, da competição entre proletários que vivem num mesmo país: os locais presumem ter mais direito ao trabalho e a ajudas sociais do que os estrangeiros. Será, por acaso, a competição entre precários do mesmo nível? É por isso o estranhamento argentino com os “venezuelanos”?

Patriotismo progressista

O patriotismo ganha força quando, nos sucessivos ajustes, em vez de confrontar o Capital em seu conjunto, a raiva se dirige apenas aos grandes capitais e, portanto, à defesa dos pequenos. Pequenos, mas capitais, no fim das contas.

O que é, senão o desespero diante das importações? Uma defesa indireta da indústria local com preços que pulverizam nossos salários diante do perigo iminente da pulverização de postos de trabalho. Encontrarmo-nos numa encruzilhada não significa ter de tomar partido por estes ou aqueles capitalistas. No mínimo, temos que compreender em que encruzilhada nos encontramos e quais são suas características; não recorrer automaticamente ao nacionalismo para sofrer patrioticamente.

O nacionalismo, já não exclusivo dos conservadores, tornou-se um credo progressista. Até a esquerda acusa a direita de traição à pátria. Os nacionalistas de esquerda insistem em que seus nacionalismos nada têm a ver com o nacionalismo dos fascistas ou dos nacional-socialistas, e que o deles é um nacionalismo dos oprimidos que oferece não apenas a libertação individual, mas também cultural. Para refutar essas pretensões é necessário compreender a divisão de classe da sociedade capitalista, o absurdo e a arbitrariedade das fronteiras nacionais, e partir do mercado mundial para compreender os desastres locais.

O povo argentino

Pode-se agrupar “os venezuelanos” de acordo com preconceitos e experiências, assim como se pode fazer com “os argentinos”, mas sabemos que muitas vezes o único que temos como denominador comum é o RG (Registro Geral).

Em números atrás, propúnhamos desnaturalizar a população, porque a população não é um simples amontoado de seres humanos, não é um fato natural. A produção e reprodução da população são históricas, e cada modo de produção supõe um desenvolvimento particular de sua população, tanto em quantidade quanto em características.

Dado que não queremos fazer economia nem política, coincidimos com Marx em sua apreciação sobre a população publicada em Elementos fundamentais para a crítica da economia política (“Grundrisse”, 1857). Quando consideramos um país do ponto de vista econômico-político, começamos por sua população. Parece justo começar pelo real e pelo concreto. No entanto, a população é uma abstração se deixarmos de lado as classes que a compõem. Estas classes são, por sua vez, uma palavra vazia se desconhecermos os elementos sobre os quais repousam: o trabalho assalariado ou o Capital. Estes supõem troca, divisão do trabalho, preços, etc. Se começássemos, pois, pela população, teríamos uma representação caótica do conjunto e, precisando cada vez mais, chegaríamos analiticamente a conceitos cada vez mais simples: do concreto representado, chegaríamos a abstrações cada vez mais sutis até alcançar as determinações mais simples. Nesse ponto, teríamos que empreender a viagem de retorno até dar novamente com a população; mas desta vez não teríamos uma representação caótica de um conjunto, mas uma rica totalidade com múltiplas determinações e relações. (“Natalidade e Capital na Argentina”, nº 100)

Desse modo, um povo é algo construído e representado. Existe, porém, a forma de categorizá-lo não é natural, a maneira de designá-lo é política. Ele não existe à espera de ser reconhecido e ter significado; é algo totalmente construído. Sem o que “passionalmente” conhecemos como povo, a razão de Estado careceria de sentido. Os próprios limites geográficos, graças aos quais se pode definir “o povo argentino”, são estabelecidos a partir do Estado argentino. Primeiro o Estado, depois seu povo; jamais ao contrário. Em sua acepção mais corrente, para que exista um território determinado deve existir um Estado determinado. (“Ao grande povo argentino, saúde?”, nº 86)

“Fora ianques”

Quem vai pagar caro pela invasão estadunidense e pelo complexo industrial-militar são os próprios habitantes dos Estados Unidos. Um país com desemprego, uma saúde pública paupérrima, onde os viciados morrem nas ruas e o dinheiro é utilizado para maior lucro: um país capitalista como deve ser.

Mas então, por que a obsessão com a palavra de ordem “fora ianques da América Latina”? Por que reduzi-la a uma questão de países? Por que não se incomodar com os negócios chineses ou russos no mesmo território? Será uma tarraquice setentista ou simplesmente automatismo ideológico?

Se há algo que pode unir a esquerda, é essa imprecisa palavra de ordem: a seleção obsessiva de um inimigo, que é o Capital maior de uma comparação muito limitada e que nos diz: o capital estrangeiro não permite o desenvolvimento de “nossa América”. Então, o nacionalismo viria a ser aliado dos oprimidos. Isto não é simplesmente uma apologia da pátria e do Estado, mas principalmente do Capital e, especialmente, dos capitais ineficientes. O que ocorreu na Venezuela é uma repartição forçosa do butim, onde capitais mais desenvolvidos, portanto mais produtivos, impõem-se a capitais ineficientes.

Soma-se o curinga do antifascismo, que serve para designar tudo o que, desde a esquerda, não é amigo e, portanto, é inimigo; surge a figura do “facho pobre”, ou do “pobre de direita”. Para os herdeiros do socialismo do século XXI, são eles que merecem as zombarias quando sofrem ou ficam sem trabalho. Por sua vez, a ala mais à esquerda do progressismo (os trotskistas, por exemplo) também zomba ou os despreza. Não surpreende, pois, que, segundo sua leitura, quando os pobres votam num projeto nacionalista burguês, eles estão mais próximos deles do que quando não o fazem. Por isso, durante os últimos anos na Argentina, dedicam-se a seguir a agenda do peronismo e a convencer seus militantes de que as verdadeiras tarefas nacionais e democráticas serão feitas por eles.

Por nossa parte, insistimos com uma velha palavra de ordem: “o proletariado não tem pátria”. Trata-se de uma perspectiva de luta contra o nacionalismo, para evitar ser carne de canhão nas guerras, nas crises, na exploração cotidiana. É certo que não podemos fingir que os países não existem, e muito menos abstrair-nos das particularidades regionais. Mas, de modo algum, podemos esquecer que o modo de produção capitalista é mundial, e que um migrante nunca é nosso inimigo.

Fonte: https://boletinlaovejanegra.blogspot.com/2026/01/la-xenofobia-se-volvio-de-izquierda.html

Tradução > Liberto

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na blusa velha,
muitas borboletas –
ele adora tocá-las…

Rosa Clement

partimos, mas retornamos em fevereiro de 2026. | libres y salvajes! 

2 0 2 6 | Foda-se as eleições! | Continuaremos sendo ingovernáveis!

Sou a Anarquia | Émile Armand

Não preciso nem desejo a vossa disciplina. Quanto às minhas experiências, quero vivê-las por mim mesma.

É delas, e não de vós, que tirarei a minha regra de conduta. Quero viver a minha vida.

Os escravos e os lacaios inspiram-me horror.

Detesto quem domina e repudio quem se deixa dominar.

Aquele que consente em inclinar as costas sob o chicote não vale mais do que aquele que o chicoteia.

Amo o perigo e me seduz o incerto, o imprevisto. Desejo a aventura e não dou a mínima para o sucesso.

Odeio a vossa sociedade de funcionários e administrados, milionários e mendigos.

Não quero adaptar-me aos vossos costumes hipócritas nem às vossas falsas cortesias.

Quero viver os meus entusiasmos no meio do ar puro da liberdade.

Suas ruas traçadas com régua torturam meu olhar, e seus edifícios uniformes fazem ferver de impaciência o sangue de minhas veias. Ignoro para onde vou. E isso me basta.

Sigo em frente meu caminho, ao sabor de meus caprichos, transformando-me incessantemente, e não quero ser amanhã semelhante ao que sou hoje.

Vago sem rumo e não me deixo tosquiar pela tesoura de um único comentador. Sou amoral.

Sigo em frente, eternamente apaixonada e ardente, entregando-me ao primeiro homem que se aproxima de mim, ao caminhante esfarrapado, mas não ao sábio sério e presunçoso que gostaria de regulamentar o comprimento dos meus passos.

Nem ao doutrinário que gostaria de me fornecer fórmulas ou regras.

Não sou uma intelectual; sou uma mulher.

Uma mulher que vibra diante dos impulsos da natureza e das palavras amorosas.

Odeio todas as correntes e todos os obstáculos, adoro passear nua, deixando que os raios do sol voluptuoso acariciem minha pele.

E, ó ancião, pouco me importa que a sua sociedade se parta em mil pedaços, desde que eu possa viver a minha vida.

– Quem és tu, garota sugestiva como o mistério e selvagem como o instinto?

– Sou a Anarquia.

Émile Armand (1872-1962) foi um anarquista individualista francês. Fundou, junto com outros individualistas, a Ligue Antimilitariste e editou o jornal L’En-Dehors por 17 anos.

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Em cima da folha
Joaninha descansa
Que colorido!

Andréa Cristina Franczak

[Nova Zelândia] A captura liberal do anarquismo

Nos últimos anos, uma corrente peculiar varreu partes do meio anarquista, especialmente os cantos mais próximos da academia, do aparato das ONGs e dos amplos ecossistemas de “justiça social” da esquerda liberal. É algo assim, “não vivemos em tempos revolucionários”. A frase é sempre dita com uma espécie de resignação cansada, como se o orador tivesse se tornado sofisticado demais, experiente demais, traumatizado ou profissional demais para ainda acreditar em qualquer um dos velhos princípios.

Dizem que os anarquistas não podem rejeitar o eleitoralismo, seria “dogmático” ou “purista”. Não podemos manter um antimilitarismo de princípios diante de alinhamentos imperiais e tabuleiros geopolíticos, isso seria “ingênuo”, “privilegiado” ou simplesmente “não é assim que o mundo funciona”. Não podemos desafiar o nacionalismo, porque aparentemente até os anarquistas devem se ajoelhar diante do altar das bandeiras quando a guerra de direita estourar. Em Aotearoa, somos cada vez mais instruídos a que os anarquistas, de todas as pessoas, devem simplesmente se alinhar com o Labour, os Verdes ou o Te Pāti Māori, e que qualquer outra coisa equivale a ajudar a Direita, apoiar o fascismo ou não levar a sério as “consequências do mundo real”.

É uma notável contorção ideológica, que transformou grande parte dos autodeclarados anarquistas em adjuntos do liberalismo, parceiros menores do esquerdismo parlamentar e, em alguns casos, defensores barulhentos do poder militarizado do Estado. Esse colapso não é meramente deriva política; representa uma profunda recusa em defender os princípios mais básicos do anarquismo. É uma capitulação disfarçada de realismo, rendição disfarçada de nuances e medo de ser politicamente fora de moda mal embalado como maturidade.

Contudo, na essência, esse discurso expressa algo simples e corrosivo, a crença de que o anarquismo é incapaz de atuar como força revolucionária por si e, portanto, precisa terceirizar a sua agência a instituições liberais.

Não se pode entender o colapso atual da independência anarquista sem entender o ecossistema cultural que muitos na esquerda habitam atualmente. Em Aotearoa, como em todo o mundo ocidental, a energia política tem sido sistematicamente redirecionada para ONGs, consultorias, departamentos acadêmicos e instituições “progressistas”, financiadas publicamente e operando com conforto na infraestrutura capitalista. Esses espaços falam a linguagem do radicalismo, mas se comportam conforme os incentivos da burocracia.

Muitos jovens anarquistas não se radicalizam mais por meio da luta, ocupações, organização no local de trabalho, resistência antimilitarista, brigas habitacionais ou ação contra a polícia. Em vez disso, são socializados em uma esfera profissional na qual o objetivo principal é garantir contratos, manter o capital social e evitar riscos políticos. O resultado é previsível: o anarquismo torna-se só estética de marca, em vez de compromisso com a ação revolucionária.

Dentro desses espaços institucionais, rejeitar o eleitoralismo é apresentado como infantil. Criticar partidos de esquerda é apresentado como sabotagem do “progresso”. Manter princípios antimilitaristas é apresentado como idealismo perigoso. Recusar-se a colapsar em um bloco eleitoral Trabalhista-Verde-Partido Māori é visto como traição à “comunidade”.

Só que não são julgamentos morais, são profissionais. Anarquistas que atuam em redes de ONGs e acadêmicas rapidamente internalizam que a sua sobrevivência material depende de se alinhar com o consenso de esquerda moderada. A crítica eleitoral corre o risco de contratos. O antimilitarismo coloca em risco a segurança da reputação. A política anti-Estado complica as relações com financiadores.

Assim, se desenvolve uma nova norma, os anarquistas devem evitar ser anarquistas demais. Retórica radical é permitida, até mesmo incentivada, desde que acabe reforçando a esquerda parlamentar. Qualquer coisa que ameace o monopólio do Estado sobre a legitimidade se torna indescritível.

O resultado é um anarquismo que fala fluentemente sobre “ajuda-mútua”, mas esquece que a ajuda mútua não é um serviço social, é uma arma contra a alegação de necessidade do Estado. Um anarquismo que condena o racismo e o colonialismo, mas canaliza toda resistência para instituições alinhadas ao Estado. Um anarquismo que defende a descolonização, mas recua diante de qualquer desafio à autoridade parlamentar em Aotearoa. Um anarquismo que apoia lutas no exterior, mas só quando se alinham com narrativas estratégicas ocidentais.

Em essência, é um anarquismo que perdeu a coragem, e racionalizou essa perda como sofisticação intelectual.

A deriva para o raciocínio eleitoral é um sintoma-chave desse colapso. Ele assume várias formas.

Às vezes é explícito: “Devemos votar no Labour/Verdes/TPM para manter a Direita fora.” Às vezes, disfarçado por retórica de justiça social: “Comunidades marginalizadas são prejudicadas quando a Direita vence, portanto os anarquistas têm a responsabilidade de votar.” Às vezes, ela é envolvida em fatalismo estratégico: “Votar não vai nos salvar, mas ajuda a ganhar tempo.”

Porém, por trás de tudo isso está a mesma suposição central de que o Estado deve continuar sendo o principal veículo para a mudança social, e os anarquistas precisam ajustar a sua política para acomodar essa realidade.

É extraordinário como anarquistas esquecem rapidamente que o Estado moderno, liberal ou conservador, é estruturalmente incapaz de abolir a exploração, as hierarquias e o aparato coercitivo que o definem. Mesmo quando governos de esquerda tentam reformas, eles o fazem fortalecendo a máquina que os anarquistas buscam desmontar: polícia, prisões, exércitos, fronteiras, burocracias de assistência social, tecnologias de vigilância, sistemas de extração de impostos.

Em Aotearoa, o Partido Trabalhista é um exemplo clássico. Toda vez que retorna ao poder, o meio anarquista se fragmenta. Os mais próximos das infraestruturas de ONGs começam a defender apoio estratégico. A retórica da “redução de danos” se torna usada como arma para calar críticas daqueles que insistem, com razão, que o Partido Trabalhista provou ser um servo confiável do capital, das alianças imperiais e do gerencialismo doméstico.

Essa dinâmica se intensificou durante a era Ardern. Muitos anarquistas que antes zombavam dos parlamentares se viram reduzidos a críticas tímidas ou silêncio completo, porque a atmosfera social de adoração liberal fazia a dissidência genuína parecer culturalmente tabu. Dentro dos círculos ativistas, o ardernismo era tratado como “bom o suficiente”, e anarquistas que discordavam eram retratados como encrenqueiros, misóginos ou puristas irreais.

Um movimento que se vê como revolucionário nunca deveria ser tão frágil. No entanto, o colapso foi generalizado e revelador: muitos anarquistas estavam mais comprometidos com o pertencimento social na classe cultural liberal do que com o próprio anarquismo.

Uma vez essa mudança cultural ocorre, a lógica fatal se instala: os anarquistas não devem rejeitar o eleitoralismo porque os seus aliados, muitas vezes os seus empregadores, dependem dele.

É assim que uma tradição revolucionária se transforma em um grupo de lobby.

A expressão mais alarmante dessa deriva tem sido o abandono do antimilitarismo anarquista. Por séculos, os anarquistas insistiram que a guerra não é uma aberração, mas um resultado previsível do sistema estatal capitalista. O militarismo é a expressão mais pura do poder hierárquico, da extração de recursos, do nacionalismo e da obediência. É a máquina que devora a juventude da classe trabalhadora para proteger os interesses das classes dominantes rivais.

No entanto, nos últimos anos, muitos autodenominados anarquistas adotaram uma lógica militar indistinguível do liberalismo ocidental. Torcem pela OTAN quando lhes convém. Falam com aprovação sobre enviar armas para conflitos por procuração. Amplificam a linguagem de “defesa”, “segurança” e “necessidade estratégica”. Envergonham os antimilitaristas por “não apoiarem o lado certo”.

Esta é a capitulação mais perigosa de todas.

Depois que anarquistas aceitam a legitimidade da guerra, entregam a última distinção significativa da esquerda estatista. O resultado é um anarquismo que segue obedientemente os ritmos emocionais dos ciclos midiáticos ocidentais, indignado quando instruído, solidário quando instruído, silencioso quando instruído, em vez de manter a própria bússola antimilitarista.

Parte desse colapso é ideológica. Parte é material. Mas uma parte significativa é psicológica.

Muitos anarquistas hoje têm medo de serem vistos como “irresponsáveis”. A cultura liberal-esquerda mais ampla enquadra a política sob a ótica da conformidade, da segurança e da minimização de danos. Qualquer coisa que desafie os arcabouços institucionais é vista como imprudente. Qualquer coisa que perturbe a normalidade política é perigosa. Qualquer coisa que mine o esquerdismo parlamentar está indiretamente “ajudando a direita”.

Isso cria um cenário moral paralisante, no qual o pior pecado que um anarquista pode cometer é não apoiar suficientemente o status quo. O medo de serem culpados por uma vitória da direita se torna tão avassalador que muitos deixam de imaginar a política fora do estreito horizonte das eleições. O medo de ser acusado de “não se importar” com comunidades marginalizadas torna-se uma arma usada para silenciar a política radical.

Nesse clima, o anarquismo se torna uma identidade, não uma práxis, uma forma de se sentir radical enquanto se comporta com segurança.

Essa política baseada na ansiedade produz um anarquista que:

·           em privado, concorda que o Estado não pode libertar ninguém, mas teme dizer isso publicamente;

·           em privado, sabe que as eleições não mudam nada fundamental, mas vota mesmo assim e pressionam outros a fazê-lo;

·           em privado, se opõe à guerra, mas compartilha pontos de vista liberais para não parecer insensível; e

·           em privado, quer resistir diretamente ao capitalismo, mas se contenta com ações simbólicas dentro do sistema.

O resultado é trágico: anarquistas radicais em todos os lugares, exceto onde realmente importa.

A situação em Aotearoa intensifica esse colapso porque a esquerda liberal é estruturada em torno de estruturas morais ligadas ao biculturalismo, ao discurso do Tratado e ao trabalho de justiça social baseado em ONGs. São terrenos importantes de luta, mas o Estado aprendeu a usá-los como arma para manter a legitimidade.

Isso produz um cenário político onde anarquistas são pressionados a tratar atores parlamentares, especialmente o Trabalhista, os Verdes e os Te Pāti Māori, como veículos centrais para o “progresso”, mesmo quando seu histórico está profundamente entrelaçado à administração colonial, ao policiamento, ao capitalismo de mercado e à política externa militarizada.

O Estado liberal em Aotearoa tornou-se habilidoso em realizar virtudes morais enquanto intensifica a violência estrutural. Utiliza o kupu Māori na reformulação enquanto expande as prisões. Financia “provedores comunitários” enquanto esmaga o padrão de vida da classe trabalhadora. Contrata consultores iwi enquanto promove a vigilância militarizada no Pacífico. Oferece reconhecimento simbólico enquanto evita a descolonização material.

Ainda assim, muitos anarquistas, imersos em ambientes de ONGs e oficinas do Tratado, lutam para criticar essa dinâmica sem serem acusados de ignorância cultural ou política reacionária. O resultado é silêncio, cautela ou apologismo, comportamentos totalmente incompatíveis com os compromissos anarquistas de enfrentar o poder do Estado, todo o poder do Estado, independente da retórica que envolva.

Assim o argumento retorna: os anarquistas devem apoiar partidos de esquerda; Os anarquistas não devem rejeitar o eleitoralismo; Os anarquistas não devem se opor a estruturas nacionalistas ou militarizadas quando são apresentadas como protetoras da soberania indígena ou comunidades marginalizadas.

Esse raciocínio confunde o Estado com o povo, um erro contra o qual os anarquistas passaram 150 anos alertando.

A alegação de que os anarquistas “não podem” rejeitar o eleitoralismo, ou “não podem” se opor a partidos de esquerda é, em última análise, uma alegação sobre a impossibilidade da imaginação política. Pressupõe que o Estado é o único terreno disponível, que nada significativo pode ser feito fora dele, e que os anarquistas precisam se alinhar à esquerda gerencial porque a alternativa é irrelevante.

Isso, contudo, só é verdade se aceitarmos as premissas do fatalismo liberal. Toda a tradição anarquista existe porque gerações anteriores recusaram essas premissas. Emma Goldman não olhou para o início do século XX e decidiu que os anarquistas deviam apoiar prefeitos progressistas. Kropotkin não concluiu que a classe trabalhadora deveria votar em reformadores liberais. Radicais Māori na década de 1970 não decidiram que a libertação passasse pelo Parlamento. A CNT espanhola não acreditava que a emancipação exigisse alianças com partidos burgueses, até que a captura interna dos liberais os enfraqueceu com consequências desastrosas.

O anarquismo sempre insistiu que política é algo para muito além dos ciclos eleitorais. As crises da nossa época, o colapso climático, o colapso habitacional, os alinhamentos imperiais militarizados, a infraestrutura social em colapso provam, tão somente, que a organização anarquista não é só viável, mas necessária. O Estado não é o único local de ação política. Nem é o mais eficaz. É só o único que os liberais conseguem imaginar.

Se o anarquismo quiser se recuperar da captura liberal, precisa reafirmar algumas verdades básicas e intransigentes.

Os anarquistas rejeitam o eleitoralismo não porque as eleições sejam moralmente impuras, mas porque a participação eleitoral mina ativamente o desenvolvimento do poder autônomo da classe trabalhadora. Cada hora investida em campanha é uma hora que não é dedicada à organização. Todo argumento sobre votação estratégica é uma distração do verdadeiro trabalho de construir alternativas. Cada segundo gasto defendendo partidos de esquerda é um segundo gasto normalizando a ideia de que a libertação flui para baixo a partir do Parlamento, em vez de para cima a partir da luta.

Os anarquistas se opõem a todo militarismo, não seletivamente, não só quando se alinha aos interesses ocidentais, não só quando os liberais aprovam, porque toda guerra fortalece o Estado, intensifica o nacionalismo e expande o aparato repressivo que, em última análise, será usado contra nós.

Os anarquistas rejeitam a noção de que partidos de esquerda representam “a comunidade”. O Labour não representa os trabalhadores. Os Verdes não representam resistência ecológica. Te Pāti Māori não representa descolonização. Os partidos representam a si mesmos, a sua liderança, os seus financiadores, os seus incentivos institucionais, as suas carreiras.

Os anarquistas recusam a política de culpabilização do liberalismo, a ideia de que somos responsáveis pelas vitórias da direita se recusarmos nos alinhar à esquerda parlamentar. Essa lógica é chantagem emocional usada para disciplinar a dissidência.

Mais importante ainda, os anarquistas precisam redescobrir a confiança de que podemos agir, podemos nos organizar e podemos construir poder político fora do Estado. Precisamos parar de acreditar que autonomia é impossível. O futuro não pertence aos eleitores, mas àqueles que correm o risco de criar algo fora dos sufocantes quadros da governança capitalista.

O discurso liberal que infecta o anarquismo contemporâneo acaba se reduzindo a uma frase lamentável:

“O anarquismo não pode fazer tudo, então os anarquistas devem ajudar os liberais.”

É um credo derrotista disfarçado de pragmatismo. É o sussurro de um movimento que perdeu a fé em si mesmo. É a ideologia de um anarquismo que esqueceu a própria história, as próprias vitórias, a própria capacidade de aterrorizar os poderosos.

Quando os anarquistas argumentam que não podem rejeitar o eleitoralismo, estão abandonando o princípio de que a libertação cresce de baixo. Quando os anarquistas argumentam que não podem se opor a partidos de esquerda, estão entregando a independência às próprias instituições criadas para neutralizar movimentos sociais. Quando os anarquistas argumentam que não podem manter o antimilitarismo, estão aceitando a lógica do império. Quando anarquistas argumentam que não podem agir sem permissão estatal, deixam de ser anarquistas.

Estamos em um momento em que o capitalismo está se desfazendo, o clima desmorona, o militarismo global acelera e as velhas categorias políticas colapsam. Não é um momento para recuar no pragmatismo exausto da esquerda liberal. É o momento de resgatar a audácia e a clareza do anarquismo: a crença de que a classe trabalhadora pode se organizar, que as comunidades podem se governar, que a solidariedade pode substituir a coerção, e que os Estados, todos os Estados, são obstáculos à liberdade, e não são veículos para ela.

Devemos ao mundo algo melhor do que nos tornarmos a ala auxiliar do liberalismo.

Fonte: https://thepolarblast.wordpress.com/2025/11/22/the-liberal-capture-of-anarchism/

Tradução > CF Puig

agência de notícias anarquistas-ana

A virgindade, mito
para vender corpos
no mercado nupcial.

Liberto Herrera

[EUA] ‘Limpeza doméstica’ é uma metáfora principalmente política

de Noah Siela | 14/11/2025

Suze apareceu com um balde e esfregão e aquele tipo de equilíbrio que vem de viver sem rede de segurança. Com uma mão na maçaneta, a outra segurando sprays e trapos, subiu os meus degraus congelados como quem resolveu problemas mais difíceis do que a gravidade. Por dentro, ela se movia como alguém entrando num mundo que já havia decidido o seu valor.

Por alguns meses no último inverno, ela limpou a casa, a restaurando para algo no qual pudéssemos morar. A minha esposa e eu trabalhamos demais. Três filhos adotivos, uma pilha de contas, a correria de sempre. Eu me convencia de que estávamos ganhando tempo, mas nunca parecia certo.

Uma tarde, ao sair, ela notou o adesivo no para-choque no meu carro. A ação direta traz resultados.

“É o seu?” perguntou, com a mão no puxador, o balde do esfregão ao lado.

Era. Foi assim que a conversa começou.

Suze era anarquista. Não do tipo de desenho animado, nem de caos ou bombas de fumaça. Anarquista autodidata, o que seria mais puro do que descobrir Chomsky em um dormitório e citá-lo como se fosse uma escritura. Falava sobre a anarquia como uma forma de viver desafiando hierarquias invisíveis: o chefe, o senhorio, o porteiro, o burocrata. Ela disse que era sobre desaprender obediência antes da obediência desaprender você.

Teria sido mais fácil se ela fosse ingênua ou séria, mas não era. Suze era afiada, engraçada, ancorada no real. A política não era um hobby. Era uma forma de sobrevivência.

O que ainda me incomoda é o quanto eu concordava com ela. Eu acreditava que o sistema deveria ser desmontado, que reformas eram só atrasos. Porém, também passei a vida dentro do sistema, ajudando a funcionar, me convencendo de que o incrementalismo era sanidade.

Nove meses após o início desse governo, já parece que esquecemos o que o último devia ter ensinado. As pessoas que prometeram estabilizar o navio estão se parabenizando por não virarem, como se simplesmente não ser monstruoso contasse como progresso moral. O combate ao extremismo endureceu, se tornando um tipo de calma gerencial que confunde competência com mudança. Para o resto de nós, pessoas como eu, chamamos isso de progresso porque estamos cansados demais para chamar pelo nome: sobrevivência disfarçada de virtude.

Suze não tinha paciência para nada disso. Ela disse que confundimos ordem com paz. Que o país continuava confundindo silêncio com justiça. Que o poder depende da nossa disposição de acreditar que nada pode mudar.

Eu apoiei políticos que tentaram tirar os tradicionais do torpor. Torci por eles, fiz doações, me senti justo por uma semana e depois os vi serem esmagados. Foram financeiramente sufocados, zombaram deles ou foram transformados em histórias de advertência. O que eu fiz, então? Suspirei, racionalizei e fui votar na ilusão que a MSNBC vinha vendendo desde que chegou a Iowa com câmeras e uma costeleta de porco no espeto. A alternativa era fascismo ou fascismo leve, e votar na ilusão parecia responsável.

Só que foi esse tipo de responsabilidade que abriu caminho para o fascismo para começo de conversa. Pessoas como eu continuaram escolhendo a opção segura até que a própria segurança se tornasse vazia o suficiente para algo cruel atravessar e se chamar de renovação.

Nove meses depois, não consigo dizer se algo está sendo consertado ou se estamos só aprendendo a conviver com o barulho novamente. O mercado imobiliário continua sendo um cassino. Escolas desmoronando sob guerras falsas sobre livros. O custo de permanecer na classe média parece uma assinatura vitalícia do cansaço. O movimento que deveria corresponder ao momento parece se preocupar principalmente com a civilidade, como se a educação fosse um plano político.

A civilidade não importava para Suze. Estava ocupada demais em sobreviver para precisar de permissão. Limpava as casas para pessoas que tinham o luxo do cansaço. Ela nunca suavizava a sua raiva para algo controlável. Continuava acreditando em derrubar tudo. Acreditando em quebrar aquilo que está te quebrando. Toda vez que saía de casa, eu a via descendo os degraus e pensava: lá vai alguém que ainda não se rendeu à mentira do equilíbrio, que se recusa a chamar o cansaço de sabedoria.

Aquele adesivo de para-choque do qual falamos não está em uma van enferrujada. Está em um Subaru mais novo, o veículo oficial das escolhas liberais habituais, o que me torna o clichê, o cara que fala sobre destruir sistemas enquanto dirige um símbolo de mantê-los confortavelmente intactos.

A piada amarga é que todo o arranjo, dois adultos trabalhando demais, três filhos, eu comprando tempo de alguém que não tinha nada para vender, nunca foi sobre luxo. Era sobre exaustão fingindo ser estabilidade.

Alguns meses de contadores brilhantes. Suze pagou. Eu, sentado aqui, agora, percebendo que, nove meses após o início do governo, a mulher com o esfregão é a única que continua dizendo a verdade.

Noah Siela foi criado em estradas rurais de cascalho, moldadas por uma cidade universitária do Meio Oeste e uma cidade da Costa Leste, EUA, e se interessa pelas pessoas que tornam esses lugares únicos. É diretor do Programa de Educação de Adultos e Alfabetização das Escolas Públicas de Columbia. Escreve uma coluna mensal para o Missourian.

Fonte: https://www.columbiamissourian.com/opinion/local_columnists/cleaning-house-is-mostly-a-political-metaphor/article_4e43cc19-c03c-4bca-8cd6-320383f5d43f.html

Tradução > CF Puig

agência de notícias anarquistas-ana

Janela fechada:
borboleta na vidraça
dá cor ao meu dia.

Anibal Beça

Clifford Harper, o poder das ilustrações anarquistas

Ao longo de muitas décadas de produção prolífica, as poderosas imagens de Clifford Harper (Chiswick, Londres, 1949) nos contam, juntas, uma história eloquente.

De Montserrat Álvarez

Recentemente, vi a foto de uma manifestação em Londres. Um grupo de manifestantes carregava uma faixa com um desenho de Clifford Harper chamado “Solidariedade”. Não é o primeiro nem o único caso de uso desses desenhos sem citar o autor, e geralmente sem saber disso. Talvez o instinto os conheça livres de lucro ou de reconhecimento. Sabe-se que o instinto não está errado. O reconhecimento, no entanto, é sempre justo.

Essas imagens poderosas começaram a aparecer em fanzines underground, cartazes e revistas anarquistas na década de 1970. O autor é autodidata, nascido em Chiswick em 1949, filho de cozinheira e carteiro, expulso da escola aos 13. Na década de 1960, tornou-se figura importante na cena dos squaters (ocupas) em Londres e, nas décadas seguintes, ilustrador para publicações radicais e também para jornais diários de grande circulação, notadamente o The Guardian, onde trabalhou de 1990 a 2014 e através do qual suas obras rapidamente se tornaram populares com um público mais amplo.

Uma das obras de Clifford Harper que ilustram esta página representa um sonho, o de outro possível mundo alternativo: seu título é “Sonho Alternativo”. Produzida em 1977 e publicada na edição 20 da revista Undercurrents, fundada por Godfrey Boyle, que desafiava os usos da tecnologia na sociedade moderna e defendia uma “ciência radical” para um futuro mais humano. No meio de um cenário sombrio, degradado por prisões, confrontos com a polícia, campos infestados de agrotoxinas, poluição, guerras, há uma estrada no final da qual o sol nasce vigorosamente, e ao lado da estrada uma placa de madeira nos recebe: Bem-vindos ao território libertado de Albion. “Bem-vindo à Terra Livre de Albion”.

O caminho para esse sonho, buscado, entre outras coisas, em comunas e ocupações, provou ser longo e difícil, cheio de obstáculos, confusões, inimigos abertos e falsos aliados. Harper já disse isso à sua maneira num dia de setembro de 1982, na entrevista memorável com Adam Cornford reunida no livro The Education of Desire. [Ilustrações Anarquistas de Clifford Harper], publicado em Londres em 1984:

 – Nas comunas e ocupações passavam hippies de classe média. Iam para a casa dos pais no fim de semana para tomar banho, lavar roupas e comer uma boa comida, e voltavam na segunda-feira de manhã para continuar lutando contra a ideologia dominante ou algo assim. Havia um que recebia um cheque semanal do pai, um milionário de Zurique. Ele me confessou em segredo. Era risível. Não sei onde estão esses desgraçados agora, mas tenho certeza de que nenhum deles está lutando para derrubar o Estado.

Existem várias fases no estilo gráfico de Clifford Harper. Desde a década de 1980, ele adquiriu uma força próxima de George Grosz ou Fernand Leger. Mas, como um todo, sua obra remete a uma tradição de xilogravura, a de Felix Vallotton e Frans Masereel e, também, de William Morris e Walter Crane. Só que as obras de Harper não são gravuras, mas desenhos feitos com caneta e tinta, que ele geralmente dá textura “raspando” o original: com orgulho de ser autodidata, Clifford Harper inventou a própria técnica.

Separadamente, a força de cada um desses desenhos difíceis, limpos de sentimentalismo, captura o olhar como um ímã. Ver vários juntos, por outro lado, adiciona algo misterioso. Sem saber, a mão seguiu um fio inconsciente ao longo de várias décadas e, hoje, todos esses desenhos nos contam uma história.

Uma história bela e desconfortável, ambientada em tempos implacáveis. Reconhecemos muitos dos protagonistas. Oscar Wilde, Kropotkin, Makhno, Emiliano Zapata, Durruti, Emma Goldman, Sacco e Vanzetti… Mas a maioria não tem nome. Lutam na Guerra Civil Espanhola e na Comuna de Paris, levantam as armas em motins, marcham nas ruas, resistem em greves, estão em navios piratas, em fábricas, nos campos, em gráficas, em tavernas, no fogo e barricadas de todas as revoltas.

É uma história de arados e rodovias, de enxadas de fazendeiros e fumaça de metrópoles, de minas de carvão e escritórios cinzentos. Isso acontece em vilarejos antigos de silêncio perigoso e no barulho e fúria das cidades modernas, enquanto gatos escalam paredes cheias de pichações punk nos cantos escuros do século XX. A mesma linha firme percorre perfeitamente tanto o mundo de hoje quanto o de ontem nas muitas obras dessa vasta galeria, porque a história que nos contam é tão antiga e nova quanto a humanidade.

Algumas ilustrações, especialmente as primeiras, são dinâmicas, com linhas diagonais violentas, cheias de movimento. Outras, as mais conhecidas, são sólidas, estáveis, com traços grossos como sulcos na terra, marcando traçado trágico ou momentos vibrantes de força e fraternidade. Outros traços são misteriosos. Na última, geralmente é crepúsculo ou noite. Às vezes, todas as pessoas parecem ter desaparecido e estamos completamente sozinhos no universo profundo e desabitado. Vemos o último casal, em intimidade sagrada, ou em uma comunhão silenciosa com a luz de uma vela. Há uma janela, um caminho que desaparece no horizonte, um pássaro que se afasta, uma saída de emergência impossível, a sombra da liberdade desejada e temida.

Fonte: https://www.abc.com.py/edicion-impresa/suplementos/cultural/2022/11/13/clifford-harper-la-potencia-de-la-grafica-anarquista/

Tradução > CF Puig

agência de notícias anarquistas-ana

Ilhotas boiando.
Sob um céu vasto e sereno
este mar tranqüilo.

Fanny Dupré

[EUA] Lançamento: Anarquia na Big Easy: Uma História de Revolta, Rebelião e Ressurgimento

Anarquia na Big Easy é uma história gráfica anarquista da busca pela liberdade na Nova Orleans radical e revolucionária.

A narrativa começa com as forças anárquicas da natureza criando a terra e as comunidades indígenas cooperativas que floresceram antes da conquista europeia. Em seguida, vemos a revolta contra a dominação por meio da Insurreição dos Povos Escravizados de 1811, o surgimento de comunidades quilombolas (maroons), o trabalho de figuras como o geógrafo anarquista Élisée Reclus e o revolucionário utópico Joseph Déjacque, além da comovente história da militância trabalhista, exemplificada pela Primeira Internacional, a Greve Geral de 1892 e a ascensão dos Industrial Workers of the World (IWW).

Também são explorados os aspectos anárquicos do jazz, incluindo seu local de nascimento, o famoso distrito de luz vermelha de Storyville. Outros episódios reconstituem a história dos Panteras Negras, incluindo o lendário tiroteio no Conjunto Habitacional Desire, e o papel fundamental que anarquistas desempenharam na reconstrução de base após o furacão Katrina. O frequentemente subversivo Carnaval Popular é retratado desde a história dos Mardi Gras Indians até as atuais *krewes* anarquistas que marcham hoje. O livro se encerra com a recente luta pela remoção dos monumentos confederados e o crescimento de um movimento descentralizado, autônomo, de ajuda mútua.

Essas histórias são narradas pelo escritor surregionalista Max Cafard e ganham vida de forma vívida por meio das imagens marcantes do artista de quadrinhos Vulpes.

Elogios

O amor que Max Cafard sente por sua cidade natal, Nova Orleans, é perceptível em cada página. (…) Ele encontra a fonte de toda grande ideia radical nos pântanos, riachos e ruas de seu território escolhido e reconhece a confluência entre a ideologia anarquista e o jazz inicial de Nova Orleans. Vulpes sustenta a narrativa de Cafard com uma arte surpreendentemente delicada. (…) Juntos, eles mostrarão a alguns de vocês um lado de Nova Orleans que nunca conheceram. Ou talvez mostrem uma Nova Orleans que vocês já viram, mas não com a profundidade e a beleza com que é apresentada aqui.”

– Seth Tobocman, autor de War in the Neighborhood, cofundador da World War 3 Illustrated

Sobre os colaboradores

Max Cafard é um habitante vitalício da ilha de Nova Orleans. Foi cofundador e editor das revistas Mesechabe e Psychic Swamp e é autor de The Surregionalist Manifesto and Other Writings, FLOOD BOOK, Surregionalist Explorations, Lightning Storm Mind e Poemics (no prelo).

Vulpes é uma pessoa ilustradora anarquista radicada no Sul do Golfo da Ilha da Tartaruga. Seus quadrinhos publicados pela JP Press incluem Naki, sobre o jogador de futebol curdo Deniz Naki, e Siege Engines, sobre a rota migratória de 2016 pelos Bálcãs. Seu trabalho já apareceu em The Nib, Commune e The Shotgun.

Anarquia na Big Easy: Uma História de Revolta, Rebelião e Ressurgimento

Autor: Max Cafard – Ilustrações: Vulpes

Série: PM Press

ISBN: 9798887441009

Páginas: 96

US$ 15,95

pmpress.org

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Sem pedir licença,
ocupamos a cidade
com corpos e danças.

Liberto Herrera

Breve manifesto dos amigos da liberdade e da anarquia

Consideramos como francos inimigos da natureza e da vida,

merecedores do nosso total desprezo e repulsa,

os apologistas da ordem estabelecida,

apoiadores de carrascos e genocidas,

defensores de todas as misérias,

fomes, guerras e exploração capitalista,

os amantes de impérios, metrópoles,

ricos e parasitas.

.

Não nos misturamos jamais com fascistas,

sionistas, racistas, elitistas e militaristas.

Pois, dentro de nós, nascem desde já outros mundos possíveis, novos dias, consagrados a igualdade e a justiça.

.

Somos, radicalmente, anarquistas e socialistas,

amantes da liberdade, da autonomia e da poesia,

francos inimigos do Estado, das ditaduras e patriarcados.

Carlos Pereira Junior

agência de notícias anarquistas-ana

Primavera-me
Borboleta anarca
Flui sem dizer nada

Nanû da Silva

Vrije Bond, a federação anarquista dos Países Baixos e Flanders

Sobre Vrije Bond

O Vrije Bond (União Livre) é um grupo de pessoas em busca de construir uma sociedade diferente: sem hierarquias, sem opressão e sem exploração de humanos, animais ou meio ambiente; uma sociedade anarquista na qual lidamos uns com os outros na base da igualdade. Os membros do Vrije Bond todos trabalham, à sua maneira, na própria cidade, bairro, trabalho ou grupo de ação, na criação dessa sociedade. Fazem isso por meio de ação direta, organizando discussões, escrevendo artigos ou fornecendo informações. O Vrije Bond serve como plataforma para encontros, trocas de experiências, desenvolver teorias e estratégias, bem como para organizar atividades e apoiá-las.

Anarquismo

Um mundo melhor, é isso que o anarquismo representa: um mundo sem dominação nem exploração, baseado na cooperação e na solidariedade. Um mundo em que todos possam decidir por si mesmos como moldar suas vidas, com base no princípio da igualdade e na liberdade de expressão e ação. Essa é uma ideia fantástica, mas não é fácil construir um mundo assim. No caso dessas mudanças, não podemos confiar na democracia representativa. A revolução necessária para tal mundo só pode ser atingida por meio da cooperação e da organização de baixo para cima. É por isso que, para nós, anarquistas, a organização é importante, porque juntos nos mantemos fortes.

Auto-organização

A Vrije Bond luta por uma sociedade em que todo o poder político e econômico de cima é substituído por estruturas de formas livres de cooperação. Nessas relações, a vida política e econômica será organizada coletivamente e todas as decisões serão tomadas coletivamente.

A Vrije Bond é uma dessas formas de cooperação: uma auto-organização anarquista. Isso significa que trabalhamos juntos quando necessário, mas que grupos e indivíduos afiliados mantêm a autonomia. Ao ter reuniões regulares (abertas), ações diretas e campanhas, um fundo de solidariedade, um site e a revista ‘Buiten de Orde’, a Vrije Bond, como estrutura organizacional, busca apoiar e fortalecer o movimento anarquista.

‘Buiten de Orde’

A Vrije Bond publica a revista trimestral ‘Buiten de Orde’ (Fora da Ordem). Repleto de informações, entrevistas e discussões sobre anarquismo, autogestão, lutas dos trabalhadores, direitos humanos, antifascismo, antimilitarismo, ações ambientais, resistência e cultura independente, entre outros. A revista é gratuita para membros do Vrije Bond e fica disponível à venda aos outros.

Fundo solidário

Outra atividade importante da Vrije Bond é o Fundo de Solidariedade. Por meio desse fundo, os membros da Vrije Bond apoiam as ações e atividades uns dos outros, como ações (diretas) de grupos da Vrije Bond, como piquetes, inspeções civis e campos de ação. Iniciativas como uma biblioteca anarquista ou uma loja de informações também são apoiadas. Organizações irmãs no exterior ou não membros também podem fazer uso do fundo.

Seja membro de Vrije Bond!

A Vrije Bond, Livre União, está crescendo, então junte-se agora! Inscreva-se e ajude a construir movimento anarquista forte nos Países Baixos e na Bélgica.

Vrije Bond

Postbus 16521

1001 RA Amsterdam

Países Baixos

E: secretariaat@vrijebond.nl

I: www.vrijebond.org

Tradução > CF Puig

agência de notícias anarquistas-ana

Limpo o rosto na camisa –
O vento começa a trazer
As primeiras gotas de chuva

Paulo Franchetti

[Espanha] Homenagem e entrega dos restos mortais de quatro novas vítimas do fascismo identificadas no Barranco de Víznar (Granada)

Os restos mortais de Carmen Rodríguez Parra, José Raya Hurtado, Francisco Soriano López e José García, as últimas quatro pessoas identificadas no Barranco de Víznar, foram entregues aos seus familiares no passado dia 19 de dezembro no Albergue Municipal de Víznar, numa cerimónia aberta ao público. Esta atividade encerra a quinta campanha do projeto “Barranco de Víznar, lugar de memória”. Durante a reta final da mesma, foi exumada a maior fosa comum encontrada até à data nesse local. Desde o início dos trabalhos no barranco em 2021, foram recuperadas 194 vítimas assassinadas.

Espera-se que, no início de 2026, a Universidade de Granada realize uma nova campanha de trabalhos em Víznar.

Carmen Rodríguez Parra, Madre Carmela

Natural e residente de Granada, nasceu em 13 de maio de 1884. Morava na rua Elvira, 40, era casada com Antonio López Capel e tinha duas filhas, chamadas Nieves e Carmen López Rodríguez. Junto com o marido, administrava a Taberna Carmela, um estabelecimento no térreo do prédio onde moravam. Mulher politizada e ativa, era membro da CNT-AIT de Granada. Sua taberna seria um local de encontro e reunião para os movimentos de esquerda da cidade, especialmente dos grupos anarquistas granadinos.

Profundamente comprometida contra as injustiças, era conhecida por ajudar os desamparados e perseguidos politicamente. A partir de sua taberna, apoiava economicamente um grande número de causas, como a arrecadação de dinheiro para a filha do militante da CNT-AIT Miguel Illescas, assassinado pela polícia na rua Elvira quando colava cartazes para convocar uma greve geral em julho de 1931, ou o apoio às famílias dos presos e mortos após a tentativa de golpe militar de Sanjurjo no verão de 1932.

Após a sanjurjada, a taberna foi fechada, permanecendo assim até novembro de 1932, quando o movimento operário da cidade conseguiu sua reabertura, em um contexto de agitações e greves convocadas pela CNT-AIT. Mas, a partir desse momento, a taberna sofrerá um assédio policial constante, com vigilância, batidas e detenções. Nas eleições de fevereiro de 1936, em que a CNT-AIT não propôs uma abstenção ativa, a taberna se tornou o escritório eleitoral da Frente Popular e, com a repetição das eleições em Granada, Carmen atuará como interventora em maio de 1936.

Após o início da revolta militar, Carmen foi detida e encarcerada. A 15 de agosto de 1936, foi transferida para Víznar, onde será fuzilada no barranco de Víznar num grupo formado por quatro mulheres. Tinha 52 anos. 

Que estas palavras sobre Carmen Rodríguez Parra, publicadas em abril de 1933 no jornal La Tierra, sirvam como homenagem à sua figura: “Receba, Madre Carmela, a homenagem da minha profunda admiração, pois vejo em você um dos maiores focos de bondade e luz, necessários para nos iluminar nestes tempos de trevas e maldade”.

A família da Madre Carmela pediu à CNT-AIT de Granada que estivesse presente no ato, que terminou com o canto de “A las barricadas”, deixando a família muito emocionada com a homenagem à Madre Carmela tantos anos depois.

Fonte: https://www.cntait.org/homenaje-y-entrega-de-los-restos-de-cuatro-nuevas-victimas-del-fascismo-identificadas-en-el-barranco-de-viznar-granada/

agência de notícias anarquistas-ana

tão longa a jornada!
e a gente cai, de repente,
no abismo do nada

Helena Kolody