Grécia em turbulência e dor – 8 dias de fúria, protestos e motim pelos 57 mortos do acidente de trem

Um país em luto, ainda em estado de choque, após a morte de 57 pessoas em um acidente de trem em Tempe, o mais mortal do país e um dos piores da Europa.

8 dias depois, os passageiros mortos, principalmente jovens estudantes, continuam sendo enterrados e a população continua protestando contra o crime perpetrado pelo governo neoliberal e uma empresa privada, que optou por sacrificar a segurança dos passageiros pelo lucro, resultando em um trem de passageiros, transportando mais de 350 pessoas, chocando-se contra um comboio de mercadorias, pouco antes da meia-noite de terça-feira, dia 28 de fevereiro de 2023, depois de terem percorrido a mesma via sobretudo por falta de equipamento técnico e incompetência do chefe da estação, fazendo os compartimentos da frente explodirem em chamas. Revelações contínuas de escassez de pessoal e equipamentos abaixo do padrão revelaram o estado perigoso da rede ferroviária privatizada. Foi realmente um acidente esperando para acontecer.

Há 8 dias, quase todos os protestos em Atenas foram brutalmente atacados pela chamada tropa de choque de “luto”, sob as ordens do governo de Mitsotakis que finge se importar, enquanto fecham todas as estações de metrô ao redor do ponto de partida de um protesto para dissuadir as pessoas de se juntarem a eles. Tal é a sinceridade e o arrependimento do governo pelo sangue de 57 pessoas em suas mãos.

A poucos meses das eleições parlamentares, a situação na Grécia é imprevisível, com um governo criminoso empregando policiais para atacar e invadir vigílias de luto, manifestações e protestos, em um lugar onde não há justiça nem paz.

* A maior parte das filmagens deste vídeo foi filmada no 5º dia de protestos em Atenas, no domingo, 5 de março de 2023.

>> Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=7sAH_7kN1Ho&t=533s

> Vídeo da sexta-feira, 3 de março de 2023, terceiro dia:

>> Vídeo: quinta-feira, 2 de março de 2023, segundo dia:

https://www.youtube.com/watch?v=vvINgN4j4AA

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

mostro o passaporte
minha sombra espera
depois da fronteira

George Swede

Lançamento | Rap combativo em Solidariedade ao preso anarquista italiano Alfredo Cospito

Ktarse e Marcos Favela – Em Solidariedade a Alfredo Cospito | Mix/Master: Home Estúdio Popular | Prod. Áudio e Vídeo: Marcos Favela

LETRA

Liberdade …anarquia!

Viva a combatividade contra os poderosos / Toda solidariedade ao Alfredo Cospito / Anarquista sequestrado pelo Estado / Isolado nas masmorras de concreto e aço

Acusado de associação ao terrorismo / De subversão com ataques a tiros / Contra o Estado e os capitalistas / Contra a indústria armamentista

Alfredo privado de sua liberdade / Enquanto passa veneno no cárcere / Os vermes nas ruas vão agindo / Na intensa criminalização do anarquismo

As operações em prol da classe dominante / Termina com a condenação de sete integrantes / Da federação anarquista informal / Insurgentes anti-estado, anti-capital

São acusados de organização terrorista / No qual Alfredo também entra pra lista / De massacre político e atentado / Mesmo sem provas de ter participado

E nenhuma pessoa ser ferida nesse ataque / A justiça burguesa é classista, covarde / Prisão perpétua é vingança dos poderosos / Toda solidariedade ao Alfredo Cospito

REFRÃO

Viva a combatividade contra os poderosos / Toda solidariedade ao Alfredo cospito / Anarquia não reconhece fronteiras / Abaixo todas as prisões do planeta

>> Letra e música aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=AlGihmYjDRs

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o sol inclinado
leva até minha parede
o gato do telhado

José Santos

[Espanha] Lançamento: “Utopías Concretas. El anarquismo trasatlántico de Giovanni Rossi”, de Juan Pro e Matteo Parisi

A publicação de Utopías Concretas. El anarquismo trasatlántico de Giovanni Rossi pretende reparar um esquecimento e uma injustiça. Traz à luz um texto que havia ficado inédito desde que em 1896 seu autor Giovanni Rossi, pseudônimo Cardias (1856-1943), terminou de redigi-lo, e que, no entanto, constitui um texto de importância para a história do anarquismo, das comunidades intencionais e dos movimentos sociais em geral. O texto, Socialismo pratico: note storiche (Socialismo prático: notas históricas) foi escrito como uma indagação retrospectiva sobre o comunitarismo, dos ensaios de vida em comunidade com os quais a humanidade havia experimentado ao longo dos séculos por todo o mundo. Com isso, Rossi tentava contribuir com um ingrediente original a propaganda em favor da fundação de comunidades alternativas, da qual ele se havia mostrado partidário muito ativo desde os Anos 1870.

Remontando aos precedentes mais remotos da Antiguidade e da Idade Média, e recolhendo exemplos dos cinco continentes, destaca sobretudo os exemplos de cooperativas e comunas socialistas e anarquistas da era moderna até final do século XIX. Sem ser historiador, Rossi compreendeu muito bem que reconstruir a história das experiências comunitárias era uma forma de legitimar a atividade de quem via nisso a ferramenta fundamental para mudar o mundo. As comunidades que formavam os militantes revolucionários eram uma utopia concreta, que não se projetava na imaginação nem na fantasia, mas que se construía sobre o terreno: uma via não violenta para mudar a sociedade, mostrando que outras formas de organizar-se e de viver eram possíveis e, sem dúvida, preferíveis ao modelo dominante de desigualdade, exploração, miséria e repressão.

O livro inclui como capítulo final o informe que o próprio Rossi elaborou sobre a Colônia Cecília, que havia fundado no Brasil em 1890, e que durante anos pôs em prática um modelo social alternativo baseado na igualdade, na autogestão, na propriedade coletiva e no amor livre.

Os historiadores Juan Pro e Matteo Parisi resgataram do arquivo este texto fundamental para a história do anarquismo e do socialismo, e o publicam com um estudo introdutório que o situa em seu contexto.

Juan Pro y Matteo Parisi, eds.

Utopías Concretas. El anarquismo trasatlántico de Giovanni Rossi

Acracia ediciones – Madrid, 2022

Primeira edição – 405 págs.

ISBN: 978-84-09-47112-6

Mais informação: info@acraciaed.net

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tão longa a jornada!
e a gente cai, de repente,
no abismo do nada

Helena Kolody

[Espanha] Lançamento | Documentário: “Casilda. El eco de otros pasos”, de Juan Felipe

Casilda. El eco de otros pasos segue o caminho que nos foi traçado por Casilda Hernáez Vargas, uma donostiana de origem cigana e anarquista, muito popular em sua cidade na década de 1930. “La Llibertaria” ou “La Xica de les Bombes”, como a chamavam. Através destes ‘outros passos’ descobrimos uma Donosti desconhecida, a cidade rebelde e combativa, capaz de parar um golpe apenas com espingardas de caça e muito entusiasmo. Com Casilda vivemos as lutas trabalhistas e feministas na cidade de Urumea, o nascimento da ANB (nacionalismo de esquerda, operário e não confessional), a ascensão da CNT, seu sindicato. Em suma, uma fotografia inédita de San Sebastià que não deixa ninguém indiferente.

Casilda e seu companheiro de vida Felix Likiniano perderam a guerra, mas nunca foram derrotados. No seu exílio, em Biarritz, deram abrigo aos jovens antifascistas que atravessaram a “muga” para lutar contra o franquismo.

No documentário podemos ver como em Donosti, sua cidade, o eco desses passos ainda ressoa porque sempre há alguém que, como “La Casi”, se recusa a sucumbir.

Direção, roteiro e edição: Juan Felipe (2022)

Direção de fotografia: Ruben Marcilla

Locução: Tere Sarriguren

Música original: Unai Otegi

Entrevistas:

– Sobrinhos de Casilda: Marisol, Patxi e Martín Sansinenea

-Historiadores: Amaia Nausia, Begoña Gorospe, Iñaki Egaña, Juantxo Estebaranz e o escritor Luis Maria Aberasturi

– Pessoas: Nekane Tomasarena Nekazari, ecologista de Minas de Arditurri; Josetxo Etxeberría, da Dinamita Tour; Cristina Martínez Miñana, da livraria Kaxilda

Duração: 73′

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um atrás do outro
cactus florescem
enquanto a lua não vem

Nenpuku Sato

[França] Estátua de um colono esmagada e pintada de vermelho em Pontoise

Em 12 de fevereiro de 2023, após uma festa de pizza vegana no frio congelante, um “comando muito bem organizado” (obrigado, ‘ The Parisian’) atacou a estátua do General Leclerc com vista para a cidade de Pontoise (norte de Paris). Avaliação dos danos: espada, mãos e rosto quebrados, estátua completamente pintada de vermelho. Folhetos foram deixados no local contendo o seguinte texto…

Vamos descolonizar nossos bairros!

Esta estátua de Charles-Emmanuel Leclerc, uma figura colonial francesa, está orgulhosamente nas ruas de Pontoise desde 1869. Esta estátua representa o General Leclerc, que participou ao lado de Napoleão Bonaparte no restabelecimento da autoridade francesa e da escravidão nas colônias francesas, após as guerras e massacres. Esta estátua de 3 metros glorifica a história assassina do colonialismo francês no espaço público. Marca a continuidade do colonialismo nas cidades, o que contribui para a manutenção das estruturas racistas e imperialistas da atual sociedade francesa.

Em 2022, a “Pontoise à gauche vraiment” (partido municipal) abriu o debate sobre a história desta estátua sem nunca ter pedido a sua remoção. Não basta “debater” essas estátuas, elas devem ser destruídas! Vamos parar de glorificar esses horrores coloniais, vamos descolonizar nossos espaços.

Pegue suas melhores ferramentas, sua melhor tinta, coloque sua melhor camuflagem e vamos destruir esses símbolos coloniais!

Vamos descolonizar nossas lutas!

Solidariedade com todas as lutas descoloniais!

Abaixo a supremacia branca e o colonialismo!

Fogo aos estados imperialistas!

Assinado: Pontoise realmente extremamente hiper ultra muito de esquerda, nós juramos.

Fonte: https://attaque.noblogs.org/post/2023/03/03/pontoise-france-une-statue-de-colon-defoncee/

Tradução > Contrafatual

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Nuvens,
sem raízes
até que chova.

Werner Lambersy

[Grécia] Rouvikonas em julgamento por ocupar o Ministério do Meio Ambiente após os incêndios de 2021

No verão de 2021, a Grécia foi atingida por incêndios florestais devastadores. Somente na ilha de Evia, a região mais afetada, 50.000 hectares de floresta, terras agrícolas e casas foram arrasados. Milhares de pessoas foram evacuadas para evitar que o fogo ceifasse vidas humanas – mas uma vez apagadas as chamas, muitas encontraram suas casas e meios de subsistência destruídos.

Neste contexto, enquanto o governo grego em seus comunicados de imprensa celebrava as evacuações como uma estratégia bem sucedida para evitar a perda de vidas, em 7 de setembro de 2021 a organização anarquista Rouvikonas ocupou o Ministério do Meio Ambiente. Os 24 participantes da ação desfraldaram uma faixa com as palavras “Estado incendiário” e encheram os andares do edifício com panfletos com a mesma mensagem. “O combate a incêndios, a resposta a enchentes e até mesmo a proteção da saúde em uma pandemia NÃO são a primeira prioridade do Estado. “O estado não é incompetente. Pelo contrário, ele é extremamente capaz de fazer seu trabalho. O trabalho deles, não o nosso”, declararam, denunciando a falta de medidas de prevenção de incêndio, o orçamento insuficiente para o serviço de bombeiros e a negligência das vítimas de incêndio por parte das instituições.

A ação terminou com a prisão dos 24 ativistas. Esta semana, no dia 8 de março, eles serão julgados pela interrupção do funcionamento de uma instituição pública, um crime punível na Grécia com até 3 anos de prisão. Vinte dos réus foram acusados de desobediência por se recusarem a dar suas impressões digitais.

Em seus mais de 10 anos de atividade, o Rouvikonas passou por uma multidão de julgamentos por ações similares: ocupações de ministérios, grafites nas casas de políticos corruptos, intervenções nos escritórios de empresários exploradores… No entanto, o trabalho da organização não se limita a apontar os responsáveis pela desigualdade social. Fiel a seu apelo de auto-organização e apoio mútuo, o Rouvikonas mantém dois centros sociais auto-organizados em diferentes partes de Atenas, um dos quais abriga a “Estrutura de Saúde Auto-organizada de Exarchuia” (ADYE), que presta assistência médica gratuita e independente a migrantes indocumentados e a qualquer outra pessoa cujas necessidades não sejam cobertas pelo sistema de saúde oficial, cada vez mais privatizado. Durante a pandemia, a organização foi um dos principais motores de uma rede de cozinhas solidárias que hoje continua a servir centenas de refeições quentes aos desabrigados em Atenas todos os dias.

O julgamento sobre a ocupação do Ministério do Meio Ambiente coincide com uma época em que, após o devastador acidente ferroviário entre Atenas e Tessalônica, as ruas da Grécia estão mais uma vez cheias de raiva pela negligência do Estado na prevenção do desastre. Nesta situação, o Judiciário grego terá que pensar cuidadosamente se deve continuar no caminho da criminalização daqueles que exigem respeito pelas vidas humanas e pela natureza.

Solidariedade com os 24 réus do Rouvikonas!

Fonte: https://rouvikonas.gr/archives/5197

Tradução > Liberto

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a luz do poente
escala a alta montanha;
no cume será a noite.

Alaor Chaves

[Espanha] 11 de março de 2023. A CGT sai à rua contra o encarecimento da vida e dos produtos básicos

Manifestação estatal em Barcelona – sábado 11 de março às 11h. – Delegación del Gobierno (c/Mallorca, 278)

A guerra da Ucrânia fez com que o colapso do sistema econômico se acelere refletindo sua debilidade e a classe trabalhadora é quem está assumindo as consequências enquanto as grandes fortunas, bancos, etc. seguem mantendo seu nível de lucros inclusive dobrando-os. Estamos imersos em um sistema econômico com data de validade vencida.

Em paralelo, estamos sendo testemunhos de um ataque massivo contra os direitos e liberdades com o objetivo de que a maioria da população, tratada como meras máquinas de produção, não tenha a possibilidade de rebelar-se contra este império da economia que faz com que a vida seja menos possível.

A escalada de preços dos alimentos faz com que alguns sejam inacessíveis para grande parte da população empobrecida. Muitos lares não podem pagar os abastecimentos energéticos básicos. A privatização dos serviços públicos implica em cortes com o objetivo de torná-los ineficazes para sua função e com a consequência de deixar descuidadas as bases de uma sociedade crítica e forte: a Educação, com aulas massificadas e falta de recursos; e a Saúde, com suas listas de espera que dariam a volta ao Estado, são só dois exemplos. Vemos diariamente como famílias são desalojadas de seus lares ou como muitas pessoas não tem sequer acesso a uma moradia digna.

As condições laborais pioram: aumento da idade de aposentadoria ou do período de cálculo da prestação, uma “reforma laboral” que piora a situação naqueles setores mais precarizados e feminilizados: a taxa de desemprego cresceu (EPA do mês de novembro) 12,67%, sendo o país com o desemprego mais elevado de toda a UE. Nos preocupa e muito a realidade que sofrem mais de meio milhão de lares que seguem sem receber nenhum auxílio e que, por falta de recursos e instrumentos, ficam excluídos da sociedade.

Não podemos aceitar que um Governo chamado de esquerda recorra sistematicamente à política de ajudas mostrando sua covardia e cumplicidade com as elites e não proponha uma verdadeira política de equidade e distribuição da riqueza.

Não podemos manter o silêncio nem apoiar o chamado a uma paz social pactuada por “alguns” com o Governo. A CGT entende que é o momento de unificar as lutas e começar a dar o troco a todo o maltrato que sofre a classe trabalhadora dia a dia.

Contra a subida asfixiante de preços e a perda do poder aquisitivo.

Secretariado Permanente de Comitê Confederal

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

vento nas cortinas
fico atenta
ao que a manhã ensina

Camila Jabur

[Espanha] No próximo 10 de março se recorda o centenário do assassinato de Salvador Seguí

A toda a CGT:

Saudações, companheiras e companheiros: No próximo 10 de março se recorda o centenário do assassinato de Salvador Seguí, figura chave do anarcossindicalismo na Catalunha e no conjunto do Estado espanhol.

Após sua aprovação na plenária confederal do mês de setembro, a CGT junto à Fundação Salvador Seguí, organizamos uma série de atos (cartaz anexo) para render homenagem a Salvador Seguí e a todas as vítimas do pistoleirismo patronal.

Os principais atos serão os que vão se a realizar durante o dia 10 de março:

12:30h: Oferenda floral no cemitério de Montjuïc.

Pela tarde nos reuniremos na antiga Prisão Modelo de Barcelona para:

17:00h: Inauguração da exposição “El Universo de Salvador Seguí”.

19:00h: Estreia do documentário “Salvador Seguí: Historia de un anarcosindicalista”.

Desde este Secretariado Permanente entendemos que a presença da Confederação Geral do Trabalho tem que ser importante, tanto nos atos do dia 10 de março como nos outros atos que se celebrarão em dias posteriores, não só por ser parte organizadora dos mesmos, mas, sobretudo, porque como organização anarcossindicalista devemos apoiar com nossa participação as homenagens que enaltecem pessoas como Seguí, que foram fundamentais para o desenvolvimento de nossas ideias libertárias hoje em dia.

Esperamos que, na medida do possível, toda a filiação e militância da CGT participe nestes atos e naqueles que, durante este ano no qual recordamos Salvador Seguí, vão se desenvolver em diferentes pontos do Estado espanhol.

Saúde e anarcossindicalismo.

Secretariado Permanente do Comitê Confederal

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/04/27/espanha-videoclipe-o-assassinato-do-libertario-salvador-segui-atraves-da-lumpen-klass-blues/

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A cigarra canta
o anúncio de sua morte –
formigas na contra-dança.

Anibal Beça

[Espanha] 8M 2023. Unidas na ação, rompemos as fronteiras

Unidas na ação, tomamos as ruas para exigir que queremos uma verdadeira igualdade agora. A experiência nos ensina que juntas podemos fazer isso. Aprendemos com greves trabalhistas, protestos e cada vitória sindical. O capitalismo nos quer isoladas, silenciadas e obedientes, por isso o sindicato deve abraçar tanto a esfera privada quanto a pública: no cuidado e no trabalho remunerado. Exigimos o reconhecimento expresso dos direitos da mulher, em termos de igualdade, seja no mundo do trabalho ou em todas as áreas da vida.

As mulheres trabalhadoras, aquelas de nós que não herdam e têm que lutar para garantir sua sobrevivência e a de nosso ambiente, são confrontadas diariamente com o trabalho precário e empobrecido, assim como com a objetivação e a alienação em nossos locais de trabalho. Isto só fica pior se nascemos no Sul Global e migramos para o Norte em busca de alternativas. Um dos maiores exemplos desta perversão pode ser encontrado nas condições do trabalho doméstico, onde situações de verdadeira escravidão são ocultas, um reflexo do sistema sexista, racista e classista que o sustenta e que mantém estas trabalhadoras fora do quadro legal geral.

As trabalhadoras, e ainda mais se formos migrantes, são transformadas em objetos ou tornadas invisíveis a fim de nos espremer até as últimas consequências. A fronteira de classe é um limite que condiciona a vida de todas as mulheres da classe trabalhadora; e se você for uma migrante, este limite é ainda mais duro, mais alto e mais violento.

E se nosso corpo se rebela e nossa saúde física e mental sofre diante de tanta injustiça, somos medicalizadas, ignorando as causas que determinam a doença. Nosso ser é quebrado sob a opressão de classe, sob o racismo e o machismo que suportamos, mas nossos problemas são individualizados e somos estigmatizados como loucas, como frágeis, …

Não deixemos passar um dia sem reivindicar nossa aliança com mulheres de diferentes origens, expressando nossa consciência subversiva das diferentes desigualdades que elas sofrem simplesmente porque, neste pequeno mundo, existem fronteiras a serem atravessadas em busca de uma vida digna.

A situação das trabalhadoras migrantes é uma das piores vividas pela classe trabalhadora: violência extrema em suas viagens, exploração econômica e sexual, em muitos casos. Uma vez que elas têm acesso ao mundo do trabalho, superando todas as barreiras, são novamente discriminadas em suas demandas, assumindo os piores empregos porque os empregadores abusam desta situação, pois é mais fácil explorar uma mulher migrante do que uma mulher local.

Neste sentido, estendemos a mão às companheiras que lutam por seus direitos através de suas próprias associações e que raramente se sentem confortáveis nos sindicatos, pois a vitória excepcional com a assinatura da OIT 189 foi apenas um passo incompleto que continua deixando-as fora do Estatuto dos Trabalhadores, como se fossem trabalhadoras de segunda classe, e a luta deve continuar. A alta porcentagem de mulheres migrantes neste setor revela a urgência da luta, pois seu isolamento, precariedade e, muitas vezes, status temporário deixam estas mulheres à mercê não só da exploração do trabalho, mas também do assédio sexual.

E não pára por aí, a Lei dos Estrangeiros favoreceu a criação de CIEs (Centros de Internação de Estrangeiros), autênticas prisões racistas, nas quais a limitação anterior dos direitos humanos é levada a outro nível, tirando-lhes até mesmo a consciência de serem seres humanos e iguais em direitos e perante a lei. Privadas de sua liberdade, elas são forçadas a realizar atividades determinadas por papéis de gênero, sofrem maior medicalização, exploração do trabalho e o risco de assédio sexual enquanto estão na prisão. As mulheres migrantes são inseguras nas CIEs, privadas de sua liberdade, sem receber a proteção de que elas e seus filhos, muitas vezes tirados delas, necessitam. Estas mulheres trabalhadoras devem assim aceitar a violência institucional que, através de uma simples irregularidade administrativa, as leva a estas prisões seletivas.

O sistema penitenciário torna as mulheres invisíveis, nos torna mais vulneráveis às sentenças e nos estigmatiza socialmente de uma maneira mais cruel do que os homens. A prática do sindicalismo combativo e da solidariedade de nossos camaradas da CNT Xixón, as colocou diante de sentenças de três anos e meio de prisão e uma compensação de 150.428 euros por um conflito marcado principalmente pelo gênero. Como o sindicalismo não é um crime, nem apoia as trabalhadoras que sofrem assédio no trabalho, mais uma vez gritamos alto e claro ABSOLUÇÃO PARA AS COMPANHEIRAS NO CASO ‘LA SUIZA’.

Denunciamos que existem muitos setores e empregos nos quais somente as mulheres são contratadas, e elas o fazem como uma atração para vender mais: impõem-nos como usar maquiagem ou vestir-se para certas profissões. Como aeromoças, domésticas, terapeutas de spa, … estamos travando uma batalha para sermos tratadas igualmente: como operárias e não como um objeto a ser vendido. Nós, como colegas mulheres, não devemos ceder a estas exigências das empresas, nem permitir que este problema permaneça camuflado dentro das engrenagens dos empregadores, descobrindo este assédio silencioso.

Cientes de que a violência contra as mulheres trabalhadoras é transversal e herdada de um sistema heteropatriarcal ultrapassado, não podemos esquecer a situação de repressão e abuso sofridos pelas mulheres trans. A violência do patriarcado já é visível na infância, onde a divisão binária deixa para trás todos aqueles que não se identificam com seu gênero. Se a repressão social e paternalista estatal é aplicada a todas as trabalhadoras, para as mulheres trans assume a forma de pura humilhação.

Aquelas que decidem a transição passam por uma provação que começa por ser rotulada como “disfórica de gênero”. Uma vez feita a transição, se decidirmos fazê-lo, recebemos uma estigmatização que leva à insegurança no trabalho, com desculpas como não saber como lidar administrativamente com nossa situação de identidade legal.

Para as mulheres na prostituição, o risco de sofrer tratamento cruel e degradante, não só por parte dos “clientes”, mas também por parte das próprias “forças de segurança”, se traduz em ser considerado como um mero corpo a ser atacado impunemente, pois não há nem mesmo dados oficiais atualizados.

Enquanto a mídia educada baba sobre as ações “filantrópicas” da família Ortega, a Inditex – que registra lucros este ano de 8.000 milhões, 41% a mais que no ano passado – não consegue encontrar o dinheiro para pagar suas “meninas”, como a própria empresa chama as trabalhadoras da loja. Com o que os principais acionistas ganham em um dia, eles teriam dinheiro suficiente para pagar aos seus 165.000 trabalhadores globais um aumento. Em suas greves e protestos, eles estão exigindo um aumento de 500 euros por mês, o que significaria apenas 250 milhões de euros por ano para a empresa, mesmo que fosse aplicado a todos os 46.000 funcionários na Espanha. Ao invés disso, o empregador “modelo” não divide dividendos com os trabalhadores que estão gerando essa riqueza. As assistentes de loja femininas, cujos salários são suficientes para garantir o sustento durante 15 dias, também não recebem os benefícios que o resto da força de trabalho recebe. A brutal brecha salarial na Inditex, emblemática dos setores feminizados, também viola a equiparação salarial na mesma categoria fora da Corunha, onde venceram o conflito.

Tendo o governo mais progressista da história:

  • Uma em cada duas mulheres trabalhadoras em nosso país recebe apenas o salário mínimo.

  • Nosso direito a uma pensão pública é retirado através de uma combinação de Ley Escrivá e pseudo negociação coletiva.

  • O dinheiro está sendo tirado de nosso acordo de negociação coletiva para planos de pensão privados.

  • Não nos é garantido o direito à interrupção voluntária da gravidez em nosso centro público de referência.

  • Enquanto os lucros e dividendos corporativos estão crescendo, os salários das trabalhadoras estão caindo.

  • Temos que gastar cada vez mais de nossos salários em produtos farmacêuticos, saúde, moradia, educação, alimentação e energia.

  • Quando nosso direito à liberdade de associação e o direito de nos defendermos contra o assédio é violado, o executivo olha para o outro lado e o judiciário nos castiga.

Em face de sua violência, União e Ação.

Organiza-te na CNT, feminismo de classe e combativo.

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/8m-2023-unidas-en-la-accion-rompemos-las-fronteras/

Tradução> Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

chuva lá fora –
os pássaros, molhados,
foram embora

Carlos Seabra

[Itália] Alfredo Cospito última atualização – 04/03/2023

Há manifestações por toda a Itália. Em Turim há uma grande marcha de solidariedade, com o slogan principal ‘A luta não acaba’, assim como houve manifestações em Milão. Florença, na praça central D’Azeglio, marcha antifascista com um grupo de manifestantes cantando Bella Ciao e entoando palavras de ordem pela libertação de Alfredo do 41bis. Estamos falando de milhares de pessoas (estimadas em 20.000), incluindo estudantes, com um exemplo brilhante sendo a diretora do ensino médio Annalisa Savino, que enviou a mensagem ‘O fascismo nasceu da indiferença’.

Esta manhã foi realizado o exame médico de rotina por médico de confiança da escolha do advogado F. Rossi Albertini, segundo o qual o estado de saúde de Alfredo é irreversível.

Após a decisão de não revogar o 41bis, Alfredo – como ele havia dito – automaticamente deixou de tomar os suplementos de potássio que deveria tomar pouco antes da decisão, para ter tempo de ouvi-la. Ele perdeu mais um quilo, está com uma atrofia muscular muito perceptível e cólicas abdominais. A situação em que ele se encontra é extremamente dolorosa. Ele está caminhando para uma morte lenta e dolorosamente agonizante. Aguardamos os resultados dos exames bioquímicos de uma amostra colhida esta manhã. O médico solicitou que os próximos exames fossem feitos no hospital, não no hospital da prisão para onde ele foi levado às pressas na semana passada. Esta é uma semana crítica.

Não esqueçamos que o governo italiano foi agora convidado pela ONU para fornecer informações sobre as condições em que Alfredo está detido.

Além das manifestações, a polícia prendeu e detém atualmente de 30 a 40 pessoas em operações de varredura.

Os velhos saíram às ruas e estão gritando sobre Alfredo e contra a polícia.

TURIM, neste momento ouvem-se os cânticos de PAIXÃO PELA LIBERDADE, libertem Alfredo do 41bis.

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Chuva de verão
perna de garça
então se torna curta.

Bashô

[Colômbia] A antecipada: Blanca de Moncaleano, anarquia e feminismo no início do século XX.

Por Lina Vargas Fonseca | 06/12/2022

De Blanca de Moncaleano não se sabe muito — ao menos não em termos biográficos—, mas sim o suficiente para dizer que foi uma pioneira do anarquismo e do feminismo na Colômbia.

Um livro, recém-publicado por La Valija de Fuego Editorial, reúne pela primeira vez seus textos mais incendiários contra a autoridade eclesiástica, estatal e patriarcal.

Quem era essa mulher que em 1912 escreveu isto:

“Não esqueceis que a mulher tem seus direitos assim como os homens, que não chegou ao mundo tão somente para multiplicar a humanidade, soprar o fogão, lavar roupa, esfregar pratos, manter e vestir o cura e aguentar os ultrajes que o inconsciente marido lhe faz em nome de sua falsa autoridade: Não!”

E isto:

“O rico aproveitando-se de seu dinheiro e poder não vê no obreiro o fator principal de suas enormes riquezas, mas o escravo obrigado a trabalhar a qualquer preço”.

E isto:

“Mulheres, unamo-nos como se unem os átomos para formar as miríades de universos que flutuam nas regiões celestes”.

E isto:

“Minha religião é a do trabalho, meu templo é o universo, meu sacerdote o proletário, meu Deus é o infinito, meu conselheiro a consciência e meu redentor o anarquismo”.

Se chamava Blanca. É possível que seu sobrenome de nascimento fosse Lawson, ainda que ela assinasse como Blanca de Moncaleano, o sobrenome de seu esposo. É possível que tenha nascido na Colômbia — se desconhece em que cidade e quando — ou que tenha chegado ao país sendo muito menina. Não há certidão de nascimento. Se sabe que viveu na Colômbia, Cuba, México e Estados Unidos. Que ao menos desde 1910 publicou textos no jornal bogotano Ravachol, dirigido por seu esposo Juan Francisco Moncaleano. Que esse jornal foi censurado e o casal excomungado. Que até 1912 e 1913 Blanca publicou em jornais como Tierra!, de Cuba, e Regeneración, do México. Que desses países ela e Juan Francisco foram expulsos. Que tinham quatro filhos. Que Blanca se instalou em Los Angeles onde fundou, dirigiu e editou o jornal anarquista Pluma Roja. Que enviuvou em 1916 e morreu em 1928.

Não existe, por enquanto, nenhuma foto dela. Foi descrita como anarquista, feminista e pedagoga. Como uma pioneira. É também, um pouco, um espectro.

Isso dizem Amadeo Clavijo, Omar Ardila e Marco Sosa, investigadores e editores de Blanca de Moncaleano y el triunfo de la anarquia, o livro que acaba de publicar La Valija de Fuego Editorial como parte de sua Coleção Ramal dedicada a resgatar histórias dos anarquismos na Colômbia entre 1850 e 1942. Este — o segundo título da coleção — é a primeira compilação da obra de Blanca que, até o momento, havia sido estudada só de maneira fragmentada em outros países e nunca na Colômbia.

“Eleva-te, mulher, e caia como o raio a destruir quanto a tua passagem se oponha”

A equipe editorial começou a trabalhar em maio, ainda que, a sua maneira, cada integrante está a décadas investigando sobre anarquismos no país. Na introdução ao livro, Amadeo Clavijo, filósofo e professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Pedagógica Nacional, conta que descobriu o Ravachol faz 35 anos na biblioteca Luis Ángel Arango, mas que então não percebeu a figura de Blanca de Moncaleano porque os primeiros textos escritos por ela saíam sem assinatura. Blanca apareceu quase por acaso quando os investigadores estavam atrás da pista de seu esposo, mas graças ao contato que estabeleceram com Nicolás Kanellos, editor e professor de Literatura Hispana na Universidade de Houston, encontraram um texto que definiu o rumo: Manifiesto a la mujer.

Manifiesto a la mujer foi publicado em 1915 na revista Fraternidad de Boston e assinado por Blanca de Moncaleano. Como outros textos da autora, o manifesto faz um chamado à emancipação feminina e destaca o ódio à autoridade eclesiástica, estatal e patriarcal: “A ti, a quem os padres da igreja negavam ter alma; a ti, fonte inesgotável da vida, chave de todo o existente; a ti, escrava do frade, do governante e do rico, vão minhas palavras”.

O traço anticlerical está presente em quase toda sua obra. Blanca não poupa opróbrios contra os clérigos: os qualifica como “répteis”, “zangões” e “farsantes”; diz que o arcebispo primado da Colômbia é um “marrano”; os acusa de encerrar as mulheres na obscuridade.

Manifiesto a la mujer começa com uma apelação — a ti — que provavelmente imprima a quem o leia ou escute — posto que há uma intenção de ser lido em voz alta — uma sensação de proximidade. Ao referir-se a seu estilo, Kanellos fala de “arenga política”, “invocação apaixonada”, “tom declamatório” e “diatribe”. De Moncaleano emprega frases longas, repletas de adjetivos e metáforas. Anuncia que examinará a história do cativeiro ao qual as mulheres foram submetidas: “O Estado imitou a igreja e hoje ambos te vendem qual ovelha”, escreve, e percorre os preceitos de “ódio e morte” lançados desde diversos púlpitos que serviram para oprimir e explorar a humanidade. Ao final, convoca as leitoras: “Ajuda-me a destruir palácios e tiranos, cárceres, quartéis, igrejas e conventos”.

Quando descobriram esse texto, os editores de Blanca de Moncaleano y el triunfo de la anarquia pensaram publicá-lo só, mas depois Kanellos lhes enviou exemplares do jornal Pluma Roja e isso, mais o material que haviam conseguido recuperar dos jornais Ravachol, ¡Tierra!, Regeneración e Aurora Social, da Costa Rica, os levou a ampliar o livro. Ali estão artigos como “La religión del porvenir“, “Atrás farsante“, “Mujeres avanzando” e “Hacia los tiranos“, nos quais De Moncaleano insiste em certos assuntos: a confiança na ciência e o conhecimento; o sem sentido da hierarquia e a inutilidade dos curas católicos; a convicção de que melhores tempos se avizinham; o chamado à ação direta (“Elévate, mujer, y desciende como el rayo a destruir cuanto a tu paso se oponga”); a importância da educação racional de meninas e meninos (“Enseñadles que la hoja del árbol se mueve por ley natural y no por la voluntad de un ser invisible“).

Apesar da falta de mais dados biográficos, os editores tem várias certezas: que Blanca, além de ser uma pensadora, foi uma mulher de ação; que parte dessa ação se processou na via das publicações, ainda que também dava conferências e participava de comícios; que sua vocação foi pedagógica; que foi uma mulher instruída, provavelmente de classe média-alta; que escreveu com veemência; que a ideia libertária marcou sua obra e que essa ideia, no contexto no qual ela escreveu, se alinha com o pensamento anarquista.

“Não há nada no mundo mais belo e que melhor possa encher toda a aspiração libertária que a anarquia”

Em 1915 Blanca escreveu isto em um texto chamado “Luchas del anarquismo“:

“Não há nada no mundo mais belo e que melhor possa encher toda a aspiração libertária que a anarquia”. Ali faz uma distinção entre socialistas, sindicalistas, liberais e anarquistas.

Para ela os três primeiros “não encarnam o ideal da liberdade humana” como sim o fazem as e os anarquistas, que lutam contra toda autoridade imposta e buscam abolir as que consideram causas da escravidão: religião, governo e capital. O texto foi importante para os editores do livro porque lhes permitiu deduzir que para a época na Colômbia sim havia certa clareza sobre as ideias anarquistas e inclusive grupos formados sob esse conceito. Em sua investigação encontraram menções em jornais nacionais a postulados e figuras anarquistas desde fins do século XIX, ainda que às vezes com o rótulo de “liberais” e com frequência para censurá-los.

De qualquer forma, parece que muitas dessas figuras foram apagadas dos arquivos, documentos e debates da história nacional.

Quando o livro estava em marcha, a equipe somou outra integrante, a historiadora e doutora em Estudos Interdisciplinares de Gênero, Sonia Torres. Para Torres, ainda que em seus textos Blanca não se assume estritamente como feminista — recém nas décadas de 40 e 50 as discussões da primeira onda do feminismo europeu como a reivindicação pelo sufrágio das mulheres chegaram à Colômbia — sua postura antipatriarcal a situa como um cimento dos feminismos populares na América Latina. Com isto Torres se refere a aspectos que foram subestimado desde um olhar hegemônico, mas que vistos desde outro enfoque adquirem um caráter político: em particular a maternidade.

“[Muitos homens] falam dos direitos da mulher em todas as partes menos em sua casa”.

“A palavra maternidade foi tão profanada como a palavra liberdade“, escreveu De Moncaleano, e Torres explica: “Para os feminismos populares e latino americanos a maternidade não é uma condição de opressão, mas que permite às mulheres serem reconhecidas como sujeitos políticos, interatuar com o Estado e organizar-se para exigir direitos”. Ali estão como exemplo as Madres de Soacha. Blanca também reivindica a maternidade como uma forma de emancipação. “Ela está dizendo que nossos filhos são os filhos da revolução. Está dizendo: ‘Mães há que educá-los, liberá-los do jugo confessional e do capitalismo'”. Torres acha isso revolucionário, diz que Blanca é “uma mulher de outro momento”.

Em sua gesta antipatriarcal, De Moncaleano lança outro dardo, ainda mais insólito, esta vez para seus próprios companheiros. Em 1914 escreveu isto:

“Muitos homens chamando-se conscientes se creem emancipados pelo fato de ter lido tal ou qual livro de sociologia ou ajudar com algumas pesetas a manutenção de algum jornal ácrata (…) mas se penetramos nas interioridades de sua vida, vemos que o livro e o periódico são lidos por ele sem preocupar-se de convidar sua companheira para tomar parte na leitura. Fala dos direitos da mulher em todas as partes menos em sua casa”.

E isto:

“É assim como ouvimos a muitos dizer ‘somos livres’ quando na realidade não são mais que escravos de seus vícios e vitimizadores libertinos de sua companheira e seus filhos”.

E isto:

“Este modo de proceder insano de alguns homens que chamam a si mesmos defensores da liberdade, causa com seu mal exemplo em nossas fileiras mais estragos que os mesmos frades e burgueses”.

Na opinião de Torres, Blanca se antecipa ao lema feminista de que o pessoal é político. Ainda hoje, diz, há uma dívida histórica das correntes revolucionárias com as mulheres, ao ter situado durante anos o discurso da emancipação no âmbito público, esquecendo o privado. De Moncaleano questiona isso: a transformação ocorre também das portas para dentro, proclama. E, ainda que no começo do século XX houve mulheres anarquistas e feministas como a ativista e escritora russa Emma Goldman, a dirigente obreira estadunidense Lucy Parsons, ou as combatentes da Guerra Civil Espanhola, Torres lamenta que recentemente a historiografia anarquista se preocupe em reconhecer as mulheres como sujeitas históricas e não só como escudeiras do heroísmo masculino.

Talvez também tenha tido outras como Blanca na Colômbia.

O texto que fecha o livro se intitula “Solidariedade”. Sua autora não é De Moncaleano. Foi publicado em outubro de 1916 no jornal Cultura Obrera, de Nova York, e nele se conta que Blanca, recentemente viúva, passa por uma situação amarga. Diz que há planos para “fazê-la claudicar de seus firmes ideais, intimidando-a com ameaças e cárcere”, que está em Los Angeles com seus quatro filhos, que está enferma.

Até sua morte, 12 anos depois, é o último que se sabe dela.

Fonte: https://cerosetenta.uniandes.edu.co/la-anticipada-blanca-de-moncaleano-anarquia-y-feminismo-a-comienzos-del-século-xx/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

sobre a cerca,
os mais novos girassóis –
ninguém à vista

Rosa Clement

[Reino Unido] Lançamento: “Anarquia ou Caos | M. P. T. Acharya e a luta indiana pela liberdade”, de Ole Birk Laursen

A primeira biografia de um extraordinário pensador político no centro das lutas da Índia contra a opressão colonial e doméstica.

Descrição

Nesta fascinante biografia do revolucionário indiano M. P. T. Acharya (1887-1954), Ole Birk Laursen revela as notáveis redes, movimentos e atividades transnacionais do anarquista anticolonial mais importante da Índia no século XX.

Impulsionado pelo desejo de total liberdade do colonialismo, autoritarismo, fascismo e militarismo, que estão enraizados na ideia e na política do estado-nação, Acharya lutou por uma visão internacional de socialismo e liberdade. Durante as tumultuadas décadas iniciais de 1900 – marcadas pela globalização de lutas inter-revolucionárias radicais, guerras mundiais, ascensão do comunismo e fascismo e crescimento dos movimentos de independência colonial – Acharya aliou-se a pacifistas, anarquistas, socialistas radicais e guerreiros anticoloniais no exílio, defendendo um futuro livre de qualquer forma de opressão, seja por governantes coloniais ou mestres nativos. Baseando-se em uma riqueza de material de arquivo, correspondência privada e outras fontes primárias, Laursen demonstra que, entre seus contemporâneos, a virada de Acharya para o anarquismo foi única e pioneira na luta pela independência indiana.

Anarchy or Chaos é o primeiro estudo abrangente de M. P. T. Acharya. Ele oferece uma nova compreensão da história global e emaranhada do anarquismo e do anticolonialismo na primeira metade do século XX.

Autor:

Ole Birk Laursen é Pesquisador Afiliado do Leibniz-Zentrum Moderner Orient, Berlim. Sua pesquisa se concentra na história do sul da Ásia, anticolonialismo e anarquismo nos séculos XIX e XX. Ele é o editor de uma coleção de ensaios de M. P. T. Acharya, We Are Anarchists.

Fonte: https://www.hurstpublishers.com/book/anarchy-or-chaos/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

as pálpebras do gato
ao ritmo das gotas
do candelabro

Valentin Busuioc

Sobre o Apagamento da História do Anarquismo

Quando o tema é o apagamento da história do anarquismo, essa é uma das primeiras imagens que surge na minha mente. ‘A Revolta!‘, sem dúvida alguma, foi o periódico anarquista mais importante da Baixada Santista [litoral do estado de São Paulo].

Somente no ano do seu surgimento (1912), foram publicados 4 números desse jornal. Nos arquivos especializados: AEL UNICAMP, CEDEM/ASMOB, Biblioteca Digital da UNESP, International Institute of Social History (IISH / IISG) da Holanda, nos demais arquivos digitais que estão surgindo ultimamente na internet e nos arquivos conhecidos, nenhum deles possui nenhuma das primeiras cópias publicadas desse jornal.

Na foto em destaque, é possível ver a única cópia existente (que se tenha conhecimento) do número 3, do periódico ‘A Revolta!‘, publicado em Santos, em 27 de outubro de 1912 e, infelizmente, esse é o estado do que sobrou do jornal. Para não dizer que a tragédia é completa, no CEDEM ainda existe uma cópia do jornal de 1913 e outra de 1914.

Esse tipo de situação sempre me reforça a ideia da importância da existência de bibliotecas e de centros de documentação geridos pelas companheiras e pelos companheiros anarquistas. É fundamental que essa história seja preservada e que seja preservada por quem entende a importância desses documentos: nós mesmos!

Marcolino Jeremias

Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri (NELCA) / Guarujá-SP

agência de notícias anarquistas-ana

no muro o caracol
se derrete nos rabiscos
da assinatura prateada

Dalton Trevisan

Kropotkin e a atualidade de seu pensamento

Piotr Kropotkin (1842-1921) foi um importante cientista e pensador anarquista russo que desenvolveu ideias influentes sobre a organização social e a luta por uma sociedade mais igualitária e livre. Embora suas ideias tenham surgido em um contexto específico do final do século XIX e início do XX, a maioria delas permanecem relevantes na atualidade, especialmente em um mundo marcado pela desigualdade econômica e social no qual a luta por justiça e a busca por novas formas de organização política e econômica são urgentes.

Apresento, pois, uma rápida nuance de suas principais ideias, sem qualquer intenção de esgotá-las.

Um dos conceitos cardeais abordados e desenvolvidos por Kropotkin foi a importância do apoio mútuo, ou seja, da cooperação e da solidariedade na organização da sociedade. Ele argumentava que, ao contrário do que muitos pensadores da época acreditavam, a natureza humana não era intrinsecamente egoísta e competitiva, mas sim capaz de agir de forma colaborativa e altruísta quando as condições adequadas eram criadas. Kropotkin baseava-se em sua própria experiência como cientista, tendo estudado a vida animal e observado como animais diferentes colaboravam para sobreviver em seus ecossistemas, pontuando que os seres humanos poderiam aprender com esses exemplos de cooperação e criar novas formas de organização social baseadas em valores de solidariedade e ajuda mútua.

Essa ideia da ajuda mútua permanece relevante e urgente na atualidade, especialmente em um mundo fundado na desigualdade socioeconômica e que se encontra diante de uma irreversível catástrofe ambiental. Kropotkin ponderava que a cooperação era uma forma mais eficiente e justa de organização do que a competição, e que a criação de comunidades auto-organizadas combateria a dependência e existência de sistemas hierárquicos e opressivos, como o capitalismo. Hoje essa perspectiva é importante em uma conjuntura em que muitas pessoas estão desencantadas com as estruturas políticas e econômicas existentes e buscam alternativas mais democráticas e participativas.

Ademais, Kropotkin também desenvolveu ideias importantes que ressoam em temas ligados à ecologia e preservação ambiental. Ele argumentava que o capitalismo com sua exploração desenfreada dos recursos naturais nos leva à inevitável degradação do meio ambiente e a uma crescente crise ecológica, arrazoando que a sociedade deveria ser organizada de forma a promover a sustentabilidade e a preservação dos ecossistemas; assim, a luta por justiça e por uma sociedade mais igualitária e livre também guardaria um viés ambiental intrínseco.

Novamente tal perspectiva também é relevante na atualidade, quando o mundo enfrenta uma crise ambiental sem precedentes, com mudanças climáticas, desmatamento, poluição e perda de biodiversidade. Muitos ativistas e pensadores contemporâneos, especialmente aqueles envolvidos na luta por justiça ambiental, têm se inspirado, direta ou indiretamente, nas ideias de Kropotkin e em sua visão de uma sociedade radicalmente diferente, mais ecológica, sustentável e anticapitalista.

Finalmente, é relevante destacar que Kropotkin também cultivou ideias importantes sobre a organização política e a luta contra o Estado, o Capital, e outras formas de opressão.

Outra ideia valiosa no pensamento kropotkinano é a de que a descentralização do poder é fundamental para a construção de uma sociedade livre e justa. Ele argumentou que a centralização do poder nas mãos do Estado ou de outras instituições hierárquicas inevitavelmente leva à opressão e à exploração. O oposto de aludida centralização aponta para o comunismo libertário, ou comunismo anarquista, capaz de assegurar uma sociedade sustentável do ponto de vista político, econômico e ecológico.

Hoje em dia, muitas pessoas estão explorando novas formas de organização social que buscam descentralizar o poder. O confederalismo democrático em Rojava, em que os membros da comunidade têm voz e voto nas decisões, é um exemplo, dentre outros existentes, de sistema político que busca, em algum grau, implementar essa ideia. A autogestão de muitas organizações e empresas, com formas de gestão horizontal e participativa, que permitem que os trabalhadores tenham mais controle sobre suas vidas profissionais, vai na mesma direção.

Em síntese, as ideias de Kropotkin continuam sendo relevantes e inspiradoras nos dias de hoje. Seus princípios anticapitalistas e antiautoritários de cooperação e descentralização do poder são fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Embora ele tenha vivido em uma época muito diferente da nossa, seu legado ainda ressoa em muitas das lutas sociais e políticas que estamos enfrentando hoje. Derradeiramente, deixo o convite à leitura de suas obras, sendo certo que grande parte delas estão disponíveis gratuitamente na internet.

Liberto Herrera

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sol na janela
dorme gato no sofá
cor de flanela

Carlos Seabra

[Espanha] Lançamento HQ: ‘María la Jabalina’ de Cristina Durán e Miguel A. Giner Bou

María Pérez Lacruz, conhecida como María la Jabalina, foi a última mulher assassinada pelo franquismo na Comunidade Valenciana. Em 1942, com tão somente 25 anos, foi fuzilada no El Terrer, o tristemente conhecido muro de Paterna (Valência). A jovem anarquista das Juventudes Libertárias havia crescido ao redor da fábrica do Porto de Sagunto, onde se respirava o ambiente da luta obreira. Com apenas 18 anos teve o valor de alistar-se como miliciana na Columna de Hierro, onde exerceu como enfermeira. Foi provavelmente a primeira mulher ferida na guerra civil. Durante a repressão do pós guerra foi delatada, detida e acusada injustamente de delitos que nunca pode ter cometido.

Cristina Durán e Miguel Ángel Giner Bou, ganhadores do Prêmio Nacional de Cómic por ‘El día 3‘ (Astiberri, 2018), revivem uma das muitas histórias silenciadas de mulheres que lutaram pela paz e a liberdade e, também, fazem eco do desejo mais profundo da mãe da la Jabalina: que uma injustiça tão grande nunca caia no esquecimento. ‘María la Jabalina‘ se realizou graças à iniciativa e apoio da Concejalía de Memoria Histórica do Município de Sagunto e se publica tanto em castelhano como em valenciano.

María la Jabalina

Cristina Durán e Miguel A. Giner Bou

Págs. 176

25 Euros

www.astiberri.com

Tradução > Sol de Abril

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minha casa
o sapo já sabe
entrar e sair

Alice Ruiz

[Grécia] 8 de março – Dia de resistência e luta contra o mundo podre do poder

A liberdade não é agraciada nem dada, mas é conquistada através da luta

Derrubar o Estado, o capitalismo e o patriarcado

Pela emancipação e a anarquia

Todas nas manifestações

Atenas: Concentração 13.00, Klathmonos e passeata 18.30, Syntagma

Tessalônica: Passeata 18.00, Kamara

Grupo contra o patriarcado | Organização Política Anarquista -APO

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Salta uma truta —
Movem-se as nuvens
No fundo do rio.

Onitsura