[EUA] Vingança de Oakland – Viva Tortuguita!

Na noite de 20 de janeiro de 2023, 30 anarquistas de luto tomaram uma ação vingativa contra nossos inimigos pelo assassinato de Cami/Tortuguita na Floresta de Atlanta dois dias antes. Quebramos dezenas de janelas ao longo da fachada de vidro de um prédio do Bank of America no centro de Oakland, destruímos os caixas eletrônicos e repintamos as paredes com mensagens de amor, memória, solidariedade e raiva pelo assassinato de nosso camarada antes de iluminar o local com coquetéis molotov.

O Bank of America é um inimigo do povo e da própria vida. Atualmente, eles financiam a construção da cidade policial em Atlanta, o mesmo projeto que ameaça a floresta que Tortuguita morreu defendendo. Eles não merecem lugar em nossa paisagem. Destruímos rapidamente, mas incansavelmente. Como os camponeses da Jacquerie, os destruidores luditas ou os revolucionários haitianos, buscamos a libertação da maneira mais óbvia: a destruição do que sabemos ser a causa de nosso sofrimento. E se destruímos muito, é porque sofremos muito. “Vingança! Vingança!” é o nosso grito de guerra.

Aos nossos inimigos que procuram liquidar nossas vidas e a terra: vocês não vão nos matar impunemente! Nós vamos contra-atacar, cada vez mais ferozmente do que antes. Quanto mais você tira de nós, mais temos pelo que lutar – menos temos a perder.

Aos nossos camaradas caídos: suas mortes nunca serão em vão! Nós vamos vingar você mil vezes! Seu sangue é nosso sangue. Suas vidas iluminam o caminho de nossa luta, e isso é apenas o começo.

Apoiamos Tortuguita, quer eles tenham atirado nos porcos ou não. Um tiro disparado contra a polícia é um ato de libertação.

TORTUGUITA VIVE, A VIDA SEGUE
OS MÁRTIRES NUNCA MORREM
A CHAMA DA ANARQUIA QUEIMA BRILHANTE
A CIDADE POLICIAL NUNCA SERÁ CONSTRUÍDA
POR UM MUNDO LIVRE DE DINHEIRO, POLÍCIA E PRISÃO
POR UM MUNDO CHEIO DE ÁRVORES, ANIMAIS E VIDA
FLORESTA POPULAR DE WEELAUNEE PARA SEMPRE

Fonte: https://scenes.noblogs.org/post/2023/01/21/vengeance-from-oakland-viva-tortuguita/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

O rio de verão —
Que alegria atravessá-lo
De sandálias à mão.

Buson

[EUA] Tortuguita: Descanse em poder

23 de abril de 1996 – 18 de janeiro de 2023
Assassinade pela patrulha estadual da Geórgia
Anarquista indígena não-binárie, companheire amável, amigue queride, defensore da floresta, médique treinade, alma corajosa e muito mais.
Tort morreu uma morte revolucionária. não morreu em vão, mas pelo movimento para acabar com a militarização policial e proteger nossa floresta. em nome de tort, continuamos a lutar para defender a Floresta de Weelaunee e parar Cop City. com amor, fúria e um compromisso com a segurança e o bem-estar de todos.
Justiça por Tortuguita
Lutando sem cessar pelos vivos e mortos
Em Atlanta ou não, somos todos defensores da floresta
defendtheatlantaforest.com

agência de notícias anarquistas-ana

Virada do morro:
Ipê e seu grito amarelo
perpendicular.

Eolo Yberê Libera

 

[EUA] Solidariedade com o Movimento Para Barrar “Cop City” e Defender a Floresta Weelauneeent

Pedimos a todas as pessoas de boa consciência que se solidarizem com o movimento para barrar o projeto Cop City (Cidade da Polícia) e defender a Floresta Weelaunee em Atlanta.

Em 18 de janeiro, durante sua última incursão militarizada na floresta, a polícia de Atlanta atirou e matou uma pessoa. Esta é apenas a mais recente de uma série de violentas retaliações policiais contra o movimento. A narrativa oficial é que Cop City é necessária para tornar Atlanta “segura”, mas esse assassinato brutal revela o que eles querem dizer quando usam essa palavra.

As florestas são os pulmões do planeta Terra. A destruição das florestas afeta a todos nós. O mesmo acontece com a gentrificação e a violência policial que a demolição da floresta de Weelaunee facilitaria. O que está acontecendo em Atlanta não é uma questão local.

Políticos que apoiam a Cidade da Polícia tentaram desacreditar os defensores da floresta como “agitadores vindos de fora”. Essa difamação tem uma história vergonhosa no Sul estadunidense, onde as autoridades a usaram contra abolicionistas, sindicalistas e o Movimento pelos Direitos Civis, entre outros. O objetivo de quem espalha essa narrativa é desestimular a solidariedade e isolar as comunidades umas das outras, ao mesmo tempo em que oferece um pretexto para trazer as forças estaduais e federais, que são os verdadeiros “agitadores de fora”. A consequência dessa estratégia fica óbvia na tragédia de 18 de janeiro.

Substituir uma floresta por um centro de treinamento policial apenas criará uma sociedade mais violentamente policiada, na qual os recursos dos contribuintes enriquecem a polícia e as empresas de armas, em vez de atender às necessidades sociais. O encarceramento em massa e a militarização da polícia não conseguiram reduzir o crime nem melhorar as condições das comunidades pobres e da classe trabalhadora.

Em Atlanta e nos Estados Unidos todo, o investimento nos orçamentos da polícia ocorre às custas do acesso à alimentação, educação, assistência infantil e assistência médica, moradia estável e acessível, parques e espaços públicos, trânsito e livre circulação de pessoas e estabilidade econômica para muitos. A concentração de recursos nas mãos da polícia serve para defender o acúmulo extremo de riqueza e poder por parte das corporações e dos muito ricos.

O que os policiais fazem com seus orçamentos aumentados e sua carta branca dos políticos? Eles matam pessoas todos os dias. Eles encarceram e traumatizam crianças em idade escolar, pais, entes queridos que estão simplesmente lutando para sobreviver. Não devemos nos contentar com uma sociedade organizada de forma imprudente sobre os valores da violência, racismo, ganância e indiferença descuidada com a vida.

A luta que está acontecendo em Atlanta é uma disputa pelo futuro. À medida que os efeitos catastróficos da mudança climática atingem nossas comunidades com furacões, ondas de calor e incêndios florestais, os riscos deste concurso estão mais claros do que nunca. Isso determinará se aqueles que vierem depois de nós herdarão uma Terra habitável ou um pesadelo de estado policial. Cabe a nós criar uma sociedade pacífica que não trate a vida humana como dispensável.

Os defensores da floresta estão tentando criar um mundo melhor para todos nós. Devemos isso ao povo de Atlanta e às gerações futuras em todos os lugares para apoiá-los.

Aqui estão algumas maneiras de apoiar a defesa da floresta em Atlanta:

  • Doe para o Fundo de Solidariedade de Atlanta para apoiar os custos legais de manifestantes presos e ações legais em andamento.
  • Contacte os investidores do projeto para desinvestir da Cop City (lista de investidores da APF). Pressione os construtores do projeto que abandonem seus contratos de construção.
  • Organize fundos de fiança de solidariedade política, fundos de defesa florestal e comitês de defesa florestal onde você mora.
  • Organize ou participe de ações solidárias locais.
  • Endosse e divulgue esta declaração de solidariedade. E-mail defendweelaunee@riseup.net.

[Defend The Atlanta Forest, 19 de janeiro, 2023.]

agência de notícias anarquistas-ana

O luar no mar.
Um peixe salta, enlevado,
banhado de prata.

Jacy Pacheco

[Espanha] Gastos militares para escolas e hospitais

Em 30 de janeiro, as escolas celebrarão o Dia Escolar da Não-Violência e da Paz (DENYP), um evento que vem sendo comemorado há muitos anos para encorajar as comunidades educacionais a refletir sobre a paz e rejeitar a guerra e o militarismo.

Este 30 de janeiro de 2023 não deve se limitar a soltar pombas ou balões nos pátios das escolas: é um dia crucial para denunciar o vertiginoso aumento dos gastos militares em detrimento dos investimentos em educação, saúde, sociais…

Com a guerra na Ucrânia, a ascensão do militarismo a nível mundial é extremamente perigoso, e os trabalhadores da educação pública não podem olhar para o outro lado: não podemos falar em nossas escolas e institutos sobre uma Paz em abstrato: temos a obrigação moral de denunciar a guerra, o imperialismo, o uso de armamentos (incluindo tanques Leopard que custam 6 milhões de euros cada um, que poderiam ser usados para construir três hospitais), o patriotismo e o risco de guerra nuclear.

Vamos transmitir a ideia de que é necessário PARAR A GUERRA, e impedir que os pobres de ambos os lados se matem uns aos outros.

Para que nenhuma bomba possa destruir nossos ideais.

26 de janeiro de 2023 – Coordenadora Regional de Ensino e Intervenção Social Andaluzia – Murcia da CNT.

agência de notícias anarquistas-ana

o bambual se encantava
parecia alheio
uma pessoa

Guimarães Rosa

[EUA] Wadiya Jamal, minha amada

A seguinte mensagem de Mumia foi ao ar pela primeira vez na Rádio Prisão em 30 de dezembro de 2022.

Por Mumia Abu-Jamal

Ela era um bebê da primavera, nascido na primeira semana de abril de 1953 — uma garota da Filadélfia Ocidental, cuja beleza a fez brilhar em uma multidão. Ela amava ferozmente, como um leão. Esse amor abençoou a vida de cinco lindas crianças e me abençoou.

Como mãe e avó, ela irradiava como um sol sobre seu planeta; e quando alguém se perdia, seu amor poderoso era rachado por tal perda — sua mãe e pai, seu irmão Jimmy e, talvez mais profunda, a perda do bebê da família, Samiya, era a rachadura mais profunda, o passado mais profundo.

Depois disso, todo mês de dezembro era um martírio na escuridão. Estávamos todos esperando a primeira luz da primavera, para que essa névoa escura se rompesse. Mas não era para ser. Logo após as férias, seu coração, seu coração poderoso, desistiu. Ela amava como ninguém.

Eu te amo, eu sempre te amarei. Todos os filhos e netos te amam e sempre te amarão. Seu sorriso era o único raio de sol de que precisávamos, e precisamos dele agora. Nós te amamos, Wa-Wa. Sentimos sua falta.

Com amor, não com medo, este é Mumia Abu-Jamal. 

Tradução > abobrinha

agência de notícias anarquistas-ana

Quietos, no jardim,
mãos serenadas. Na tarde,
o som das cigarras.

Yberê Líbera

Vídeo | Enquanto houver vida, vai haver resistência

Enquanto a extrema-direita fica mais violenta e agressiva, enquanto o capitalismo e o colonialismo seguem explorando e exterminando a vida no planeta, vemos grande parte da pessoas seguirem passivamente suas vidas, colocando todas suas esperança nas instituições. Mas neste exato momento há pessoas lutando, construindo e vivendo mundos melhores! Enquanto houver vida, vai haver resistência!

>> Para ver o vídeo, clique aqui:

https://antimidia.org/enquanto-houver-vida-vai-haver-resistencia/

agência de notícias anarquistas-ana

Ah, a sensualidade…
palmeiras se abraçando
cúmplices do vento.

Anibal Beça

A aventura golpista bolsonarista e o reforço do Estado

União Popular Anarquista/UNIPA, 9 de janeiro de 2023.

Hoje o Brasil passou por uma aventura golpista. Articulada pela base social de Bolsonaro/PL, que fugiu para os EUA antes do final do seu mandato. A ação, coordenada por grupos que ocupavam portas de quartéis desde que Bolsonaro perdeu as eleições burguesas, já vinha sendo divulgada a alguns dias. Podemos observar a facilidade com a qual os bolsonaristas entraram nas sedes dos três poderes da República. Em muitos vídeos vemos policiais conduzindo os bolsonaristas para a Esplanada e facilitando as suas ações.

Bem diferente de manifestações populares, que mesmo com imensa força popular, como no 17 de junho de 2013 em Brasília, onde mesmo com 40 mil pessoas nas ruas, os insurgentes do levante popular, não conseguiram entrar nos prédios e se chocaram com a violência da polícia. Assim, é importante dissociarmos a violência conservadora da direita desde 2016, da insurgência popular antissistêmica do Levante de Junho de 2013.

Dos EUA, Bolsonaro e o seu ex-ministro e secretário de segurança do DF, Anderson Torres/União Brasil assistiram à ação da base social, insuflada por sua narrativa violenta e antipopular.

No campo da esquerda, do reformismo renovado ao degenerado [i], a proposta é, em maior ou menor medida, a defesa do Estado repressor, abstraindo as diversas formas de formação desse bolsonarismo, onde essas, sim, precisam ser combatidas.

A narrativa de “terroristas” por parte da esquerda reformista é perigosa e tende a atacar a todos os que questionem a ordem vigente, à esquerda e à direita. Assim, é uma narrativa que hoje ataca a direita, mas que em breve se voltará contra o povo em luta.

Identificamos alguns possíveis cenários: 1) fortalecimento da repressão à qualquer manifestação combativa. Incluímos aí a greve dos entregadores por aplicativos, marcada para o dia 25/01, e que já tem sido atacada por lulistas e petistas; 2) manutenção das mobilizações da extrema-direita. A repressão, se não desbaratar a organização, pode dar maior unidade interna e levar parte da militância a uma maior radicalização; 3) com a fuga da liderança carismática, abre-se um vácuo de liderança da extrema-direita, que pode ser preenchido por novas lideranças regionais, que ainda não conseguiram se construir como liderança nacional; 4) a possibilidade dessa direita conseguir construir um partido centralizado, que possa dar unidade e comando para essa base violenta.

As tarefas para o povo continuam sendo as mesmas apontadas por nós. Como afirmamos no comunicado 79:

1) Retomar e fortalecer as instâncias básicas de luta e organização da classe trabalhadora, tais como assembleias, reuniões, agitação, propaganda, protestos, greves e redes de solidariedade para construção da FOB e do Congresso do Povo;

2) Combater o protofascismo nos setores mais difusos e desorganizados do povo e a ideologia lulista no movimento popular-sindical: tais combates devem combinar as lutas por reivindicações imediatas concretas e a luta ideológica em defesa da independência de classe, da greve geral e do boicote eleitoral. O lulismo e o bolsonarismo são duas formas históricas da negação da capacidade política autônoma da classe trabalhadora, portanto, o princípio da independência de classe sem uma luta ideológica claramente definida contra essas duas tendências não passa de fraseologia oca, e esta luta ideológica produzirá mais efeito em movimentos reivindicativos reais;

3) Construção e fortalecimento de novas ferramentas de luta do proletariado e dos povos (sob a estratégia do sindicalismo revolucionário), tais como movimentos e sindicatos autônomos, oposições combativas, grupos de apoio mútuo, assembleias populares, cooperativas, etc.;

4) O desenvolvimento de uma linha de massas revolucionária que articule a tarefa de oposição às burocracias e de organização autônoma de massas, ou seja, que tenha flexibilidade tática para disputar o curso das lutas como Oposição e como Movimentos Independentes.

Notas

[i] https://uniaoanarquista.wordpress.com/2023/01/07/as-eleicoes-burguesas-e-a-violencia-de-classe-nao-temos-uma-democracia-a-defender-mas-uma-tirania-a-combater/#_ftn14

https://uniaoanarquista.wordpress.com

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na boca da fornalha
labaredas
dançam Falla

Eugénia Tabosa

O 8 de Janeiro no Brasil | A Escalada Fascista do Capitólio ao Planalto

Em 8 de janeiro de 2023, manifestantes apoiadores do ex-presidente derrotado Jair Bolsonaro invadiram prédios do governo em Brasília, numa imitação grotesca do fiasco que os eleitores de Donald Trump fizeram na capital dos EUA, Washington, no 6 de janeiro de 2021 . No relato a seguir, camaradas no Brasil detalham a trajetória que levou a esses eventos e discutem o que antifascistas enfrentam por lá como consequência desses protestos.

Estas ações da extrema-direita brasileira coloca questões que anarquistas e outros antifascistas devem enfrentar em todo o mundo.

Quem está conduzindo os esforços da extrema-direita para escalar o conflito civil e transformar as instituições estatais em um campo de batalha? Embora muitos nos Estados Unidos tenham sugerido o envolvimento de Steve Bannon, o Brasil e a América Latina em geral têm uma longa história de golpes liderados por militares locais e forças de direita e apoiados por centristas e conservadores dentro do governo dos Estados Unidos. Ao contrário de Trump, o próprio Bolsonaro esteve ausente do Brasil durante o assalto aos prédios, tendo fugido antes do fim de seu mandato presidencial. Provavelmente é um erro reduzir esses eventos às maquinações de alguns autocratas.

Quem quer que esteja por trás da incursão, por que o desastre de 6 de janeiro de 2021 foi considerado bem-sucedido o suficiente para valer a pena ser repetido? O objetivo dos participantes era tomar o poder, exercer pressão sobre o novo governo ou provocá-lo a uma reação exagerada, legitimar táticas extralegais como um passo para a construção de um movimento fascista? Ou não há objetivo racional aqui, apenas os efeitos colaterais das estratégias de campanha dos demagogos de extrema-direita, a crescente polarização de uma sociedade fragmentada e a atração irresistível dessas táticas meméticas?

Como as populações marginalizadas que são alvo dos movimentos fascistas podem se mobilizar para se defender sem legitimar as mesmas instituições de Estado que tanto fascistas quanto centristas empregam contra elas? Como os anarquistas e outros que investem em mudanças sociais profundas podem impedir que os “rebeldes” de extrema-direita monopolizem a maneira como o público em geral vê as táticas que nós também precisaremos usar, embora em busca da libertação?

Esperamos que a seguinte contribuição ajude nossos camaradas a refletir sobre essas questões.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://es.crimethinc.com/2023/01/12/o-8-de-janeiro-no-brasil-a-escalada-fascista-do-capitolio-ao-planalto-1

agência de notícias anarquistas-ana

arco-íris no céu.
está sorrindo o menino
que há pouco chorou

Helena Kolody

Por que anarquistas votaram em 2022?

Durante a eleição presidencial brasileira de 2022 houveram alguns argumentos sobre porque anarquistas deveriam votar. Em 6 de setembro, a Jacobin Brasil publicou um texto chamado “Anarquistas em defesa do voto em Lula“, assinado por “Anarquistas mascarados” que se descreveram como “um grupo anarquista autônomo formado por radicais de vários lugares”. O texto foi respondido num outro texto publicado também na Jacobin Brasil, no dia 30 do mesmo mês, desta vez assinado por pesquisadores do Instituto de Teoria e História Anarquista (ITHA).

Em resumo, os “anarquistas mascarados” defenderam que o que impedia os anarquistas de votar era um “ideal de coerência” que precisava ser abandonado diante de uma ameaça fascista. Anarquistas brasileiros deveriam votar em 2022 por motivos semelhantes aos que fizeram os anarquistas espanhóis votarem nos anos 30. A resposta do ITHA foi uma defesa da coerência anarquista em oposição ao reformismo. Além de demonstrar que não se pode defender uma estratégia somente pelo que aconteceu no passado, os pesquisadores também argumentam que: “Se o anarquismo tivesse hoje uma força relevante a ponto de influenciar decisivamente essa eleição, a menor preocupação das classes dominantes seria com nossa ‘possibilidade’ de voto, mas sim com a ameaça real a esse sistema de dominação”.

Eu gostaria de expandir esse argumento agora que os ânimos eleitorais se acalmaram. Acredito que a abstenção eleitoral no sentido mais amplo pode ser pensada para além da questão da coerência com os princípios historicamente defendidos pelo movimento anarquista. O argumento principal a favor da não abstenção do voto foi que esta eleição não seria uma eleição normal, e sim uma eleição que definiria a sobrevivência da democracia e, por consequência, das populações periféricas. Se abster seria irresponsável.

Esse argumento parte do pressuposto de que a crítica à democracia representativa, mesmo sendo válida, precisa ser relativizada quando a própria democracia está em risco. Como se a abstenção fosse um capricho que só pode ser assumido em condições plenamente democráticas. Isso implica em pensar no voto como tendo um poder insubstituível e imprescindível. A abstenção seria uma perda de poder político, o equivalente a se isentar de uma esfera da ação política.

A crítica à democracia representativa não é exclusiva do anarquismo. Marxistas e pós-estruturalistas também a fazem. Embora seja um assunto “espinhoso”, não podemos deixar de discutir a crítica à democracia representativa, a crítica ao governo e a crítica à representação política numa sociedade de classes.

Outro argumento a favor do voto anarquista é que deixar de votar implica em desconsiderar a diferença entre a conciliação de classes e o fascismo. Novamente, esse argumento toma como pressuposto que o voto tem poder político real. Para que esse pressuposto possa ser aceito como verdadeiro, é preciso que o problema levantado pela crítica à representação política seja devidamente resolvido. Isso significa que devemos responder à problematização não apenas do voto de grupos minoritários, mas também do voto popular.

No texto “Cinco lições de história para antifascistas”, Mark Bray nos lembra que, historicamente, os fascistas chegaram ao poder pelas vias legais e que a esquerda partidária privilegia as vias legais como meio para combater o fascismo. “A essência dessa fórmula é a crença no debate racional para se contrapor às ideias fascistas, na polícia para se contrapor à violência fascista, e nas instituições republicanas para se contrapor às tentativas fascistas de tomar o poder”, diz ele.

O motivo pelo qual não é possível debater com fascistas é que eles rejeitam os termos do debate racio­nal por princípio. A principal condição tanto para a democracia quanto para um debate honesto é a igual consideração entre adversários, o que contradiz o princípio de superioridade que é fundamental para o fascismo. O poder político fascista se foca na mobilização irracional das massas, e não na reflexão crítica. A base do fascismo é o anti-intelectualismo, a teoria da conspiração, a negação da história, da ciência e do conhecimento verificável em nome de uma paixão coletiva. Embora essas características não sejam exclusivas da direita, historicamente houve uma estreita relação entre fascistas e a extrema direita, seja essa a direita conservadora ou neoliberal. Por isso o antifascismo é neces­sariamente anticapitalista. Enquanto houver sociedade de classes, diferentes formas de fascismo (ou neofascismo) permanecerão como opção em caso de levante popular contra a classe dominante.

A ideia de proteger a democracia por meio de um instrumento democrático parece contraditória. Se os inimigos da democracia não têm o poder de rejeitar uma decisão democrática, como poderiam ter o poder de colocar a democracia em risco? Se eles têm esse poder, então como o resultado de uma eleição poderia derrubá-los? O anarquismo historicamente argumentou que as pessoas comuns podem se organizar sem governos, e que isto não depende de condições especiais criadas pelo estado. Pode acontecer aqui e agora, e as dificuldades para isso não poderiam ser muito maiores do que as dificuldades de organizar uma campanha para eleger um candidato “do povo” em meio a uma onda fascista.

Desde sempre, os anarquistas criticaram o governo e privilegiaram outras formas de organização política, como a organização comunitária, apoio mútuo, autogestão e ação direta. Entre essas pessoas estão Michael Bakunin, Peter Kropotkin, Lucy Parsons, Emma Goldman, Élisée Reclus, Errico Malatesta e Voltairine De Cleyre.

O ponto central é que se o voto tivesse algum poder real enquanto ação política, então ele não seria permitido numa sociedade com estado. O estado só pode aceitar o voto da classe trabalhadora na medida em que a mantém sob controle, seja pelo monopólio do uso da violência ou pela ideologia dominante. A práxis da abstenção se baseia na revolta contra o voto enquanto mecanismo de controle do poder popular. O poder político numa democracia representativa não é de fato concedido a uma maioria, nem sequer no campo restrito das eleições. Ele permanece sendo de uma minoria capaz de influenciar a maioria ou reprimi-la caso não aceite sua decisão. A eleição, nesse sentido, não dá poder ao povo. Ela apenas justifica a perda de poder político ou perda de autonomia que é inerente ao governo. Anarquistas em geral enxergam as eleições como um espetáculo criado para fazer o povo crer que tem um poder que na realidade não tem, e assim conceder seu poder a representantes que não o representam.

Logo, para argumentar não apenas a favor do voto anarquista, mas do sentido político do voto em si, seria preciso mais do que demonstrar as diferenças entre dois projetos políticos. Se o fascismo pode de fato ser derrubado pelo voto, então temos apenas duas opções:

  1. A crítica à política representativa está fundamentalmente errada. Isso significa que a abstenção nunca fez sentido. De Bakunin a Voltairine, todo mundo que criticou o voto estava ERRADO, dado que estavam se abstendo de um poder político real.
  2. Que certas condições específicas não permitem aplicar as mesmas estratégias defendidas historicamente pela crítica à representação política, e nessas condições não resta nenhuma outra saída viável senão a eleição de outro governante.

A primeira opção exige uma validação definitiva da política representativa, o que implica numa reconsideração completa da crítica a essa teoria política.

A segunda opção não compromete a teoria como um todo, mas exige a demonstração de um fato. Que condições justificam o voto como ação antifascista? Se a crítica à representação precisa ser deixada de lado em condições específicas, então o voto só tem poder real nessas condições específicas? Se isso fosse verdade, então não apenas anarquistas deveriam votar, como antifascistas também deveriam se candidatar e debater com candidatos fascistas, como exigem os valores democráticos. Afinal, se o voto anarquista faz sentido num certo contexto, a candidatura anarquista também faria. Essa opção exigiria uma reconsideração completa das práticas anarquistas e antifascistas.

A análise comum da própria esquerda partidária é que a democracia se encontra em crise. Mas se o voto anarquista não era tão necessário quando a democracia estava mais forte, porque seria agora que a democracia se enfraquece? O contrário pareceria mais provável: o voto teria ainda menos poder quanto maior for a crise das instituições democráticas.

A afirmação de que o voto é mais importante nas atuais condições precisa ser demonstrada com evidências. Se for demonstrada a importância estratégica concreta de uma candidatura de resistência, então o debate se encerra: não faria sentido abster-se da política eleitoral nessa situação só por ser anarquista, e não faria sentido para antifascistas deixarem de se candidatar só porque isso exige que eles debatam com fascistas. Isso não é algo pequeno: um argumento contundente a favor do voto não poderia ser ignorado, e uma candidatura anarquista, assim como o debate com fascistas, se tornaria coerente nessas condições.

Mas onde, exatamente, estão essas evidências? Deixemos de lado a questão da coerência teórica levantada pelo ITHA por um momento. Apenas me mostre evidências de que o voto, normalmente sem poder real, adquire poder real quando fascistas se candidatam. “Tirar o fascista do poder” não é possível por meio do voto a não ser que o voto efetivamente seja capaz de eleger alguém que não apenas não é fascista, como tem poder para governar APESAR da ameaça fascista. O que temos são evidências de que o fascismo permanecerá no poder independente do resultado das eleições, principalmente se o governo eleito permanecer negociando com ele.

Outro argumento bastante usado para defender o voto anarquista é o de que precisamos “escolher nossos oponentes”. Obviamente, esse argumento também parte do pressuposto de que o voto é um instrumento do povo para mudança política, mais do que das classes dominantes. Este argumento recai nos mesmos problemas apontados no argumento anterior.

É possível argumentar pelo poder simbólico do voto. Mas aí não se pode negar também o poder simbólico da abstenção. Além disso, o pressuposto de que a política representativa é válida, desde sempre ou numa determinada condição, precisa demonstrar que a abstenção é uma perda de poder, e não uma outra forma de poder. Partindo do pressuposto de que o poder representativo nem sempre existiu, é quem acredita no voto que precisa demonstrar que ele tem poder real. Exigir que a pessoa que não vota demonstre que ela exerce outras formas de poder é uma inversão do ônus.

Pedir que anarquistas votem é como pedir que ateus orem. Ateus podem participar de uma oração sem necessariamente acreditar em Deus. Anarquistas podem votar sem necessariamente acreditar no poder real do voto. Podem votar por conveniência, por exemplo, ou apenas para não serem excluídos de um grupo social. O voto anarquista não pode combater o fascismo se a política representativa em si é um problema. A abstenção não perde o sentido quando o fascismo avança, pelo contrário, ela se torna ainda mais poderosa como afirmação de que o fascismo não vem de uma pessoa ou de um governo específico, mas de uma estrutura política dominante. São as ações antifascistas que realmente combatem o fascismo.

Ao invés de uma bifurcação entre democracia representativa e fascismo, temos uma complementaridade. A oposição ao fascismo não necessariamente exclui a crítica radical à democracia representativa.

Se for demonstrado que o voto anarquista é, excepcionalmente ou não, uma ação significativa para combater o fascismo, não há motivo nenhum para anarquistas deixarem de votar. Mas se isso não for demonstrado, não faz sentido nenhum votar, sendo você anarquista ou não. Os argumentos que eu conheço, sem exceção, partem do pressuposto que o voto tem poder. Eles nunca demonstram que esse poder é real, porque isso sequer é colocado em questão para a maioria das pessoas.

Por exemplo, a afirmação de que a abstenção é um privilégio de quem não está diretamente ameaçado pelo regime fascista pressupõe o que deveria ser demonstrado: que as vias legais são eficazes para nos proteger contra o fascismo. Não faz sentido votar em nome da “esperança” de um futuro melhor se essa esperança não tem conexão com a realidade. Se ela é somente uma crença num fato não verificável, não faz sentido tentar convencer outra pessoa a crer. E se há um fato verificável, basta apresentar o fato.

A validade da abstenção como estratégia política é real até que se prove o contrário, pois o ônus da prova cabe a quem afirma a validade da política representativa em relação à que prevaleceu desde sempre: uma política sem representação, de relações diretas e autônomas. A crítica à política representativa precisa ser respondida com argumentos válidos, ou então o que se pede não é apoio político contra o fascismo e sim uma crença dogmática na política representativa. Sem uma demonstração de equívoco ou limitação da crítica à representação política, também não é possível invalidar a tese de que a participação em ações diretas antifascistas é mais relevante do que a participação em processos eleitorais, e que a escolha de não votar não representa necessariamente uma perda de poder político, mas uma escolha por outras formas de exercer poder político.

Contraciv

agência de notícias anarquistas-ana

fecho um livro
vou à janela
a noite é enorme

Carol Lebel

Nos vemos em 2023!

Vamos fazer uma pausa, retornaremos às nossas postagens no dia 1° de fevereiro de 2023. LIVRES e SELVAGENS!!!

agência de notícias anarquistas-ana

Primeiro sonho do ano —
Sem contar a ninguém
Sorrio em silêncio.

Shô-u

[Espanha] A anarquia não é utopia

Habitualmente as duas ideias mais difundidas e equivocadas sobre o que é a anarquia são as seguintes. A primeira é a que concebe a anarquia como caos, desordem, violência, etc. e que unicamente reflete o desconhecimento de uma filosofia política que propõe um modelo de sociedade sem governo, baseado em uma convivência não forçada. A segunda é que a anarquia constitui uma utopia social e, portanto, uma aspiração muito desejável mas impossível de alcançar. As razões que se expõe para sustentar este ponto de vista são das mais variadas, e não são motivos de atenção neste artigo. Só cabe destacar que inclusive entre alguns anarquistas está bastante difundida a ideia de que a anarquia é uma utopia, algo que no fundo reflete uma falta de confiança na viabilidade do tipo de sociedade que propugnam.

Pelo contrário, neste breve texto se pretende demonstrar que a anarquia não é uma utopia, mas que sim é uma realidade tangível que é suscetível de ser difundida mais além dos âmbitos nos quais hoje permanece circunscrita, e passar a definir assim a ordem de uma sociedade sem governo nem relações de poder. Para demonstrar isto se propõe desenvolver uma análise em três níveis diferentes da realidade: o do indivíduo e das relações interpessoais; o da sociedade; e o da esfera internacional.

A anarquia significa a ausência de uma autoridade superior que regule e supervisione as relações das pessoas e os coletivos humanos, de forma que ditas relações se desenvolvem através do mútuo consentimento e a livre associação em um contexto de ausência de coerção. São relações nas quais não existe o poder, entendendo por poder qualquer relação social baseada na força ou na ameaça possível de utilizar a força para conseguir um determinado resultado no comportamento dos demais que de outro modo não se produziria.

No nível do individuo a anarquia está muito presente. Esta se manifesta nas relações interpessoais, tal e como ocorre com os laços de amizade, as relações afetivas no casal, o companheirismo no âmbito acadêmico, profissional, esportivo, etc., as relações de vizinhança e, em geral, em todas as relações que o individuo mantêm com outras pessoas de forma voluntária. Estas relações não estão supervisionadas nem reguladas, e a pessoa pode iniciá-las e finalizá-las quando achar oportuno. Neste sentido pode falar-se de anarquia no marco das relações interpessoais.

Certamente estes tipos de relações estão limitadas pelo contexto político e sociocultural no qual se desenvolvem. Assim, em Estados totalitários ou teocráticos, como China ou Irã, o controle sobre as relações interpessoais é maior devido às características destes regimes. Isto contrasta com os sistemas liberais democráticos onde o intervencionismo é menor, apesar do qual o Estado tenta monopolizar estas relações através de seus regulamentos, para o que promulga inumeráveis leis que abarcam todos os âmbitos da vida humana. Em outros contextos nos quais o Estado é débil ou tem pouca presença são outros atores os que desempenham um papel dominante como sucede com máfias, tribos, caciques, religiões, grupos armados, etc.

No nível da sociedade cabe dizer que a anarquia esteve mais presente no passado que na atualidade. Os exemplos de grupos humanos relativamente extensos que se organizavam em ausência de governo são muito numerosos, e existe conhecimento disto graças aos estudos antropológicos e etnográficos. Pedro Kropotkin deu devida conta deste fenômeno ao examinar as sociedades primárias em sua obra “O apoio mútuo”. Mas junto a seu trabalho estão as investigações de outros autores que abordaram casos concretos. Alguns exemplos são as investigações de David Graeber em Madagascar, as de Harold Barclay no Sudão, as de Pierre Clastres na Amazônia, as de James Scott no sudeste asiático, as de Brian Morris na África central e o sul da Ásia, etc. Ao fim e ao cabo não há que esquecer que o ser humano viveu a maior parte de sua existência em ausência de governos e Estados, pois estes são uma criação relativamente recente.

Atualmente todas as sociedades vivem dentro do território de algum Estado. Apesar disto existem sociedades primárias que têm uma existência à margem das regulações que impõem as autoridades estatais. Isto sucede em alguns lugares da América do Sul, África e Ásia. No entanto, estes casos são a exceção devido ao enorme poder que concentram os Estados atuais graças aos recursos que conseguem extrair da sociedade, assim como pelos avanços tecnológicos a sua disposição. Em qualquer caso ainda persistem âmbitos nos quais, apesar da grande quantidade de regulações e ingerências burocráticas, a sociedade desenvolve atividades de um modo mais ou menos anárquico. Isto é o que acontece no terreno dos intercâmbios, sejam estes de caráter comercial ou de outro tipo quando se transacionam ideias, informação, bens, serviços, etc. Este tipo de interações costumam produzir-se de forma consentida nos termos acordados pelas partes.

Em último lugar se encontra o nível internacional. Neste âmbito não existe um governo mundial acima dos países que regule ou supervisione as relações que se desenvolvem entre estes. Na prática existe o que na disciplina de relações Internacionais se conhece como anarquia internacional. A anarquia opera aqui como um princípio ordenador devido à ausência de uma autoridade central. Isto não significa que o entorno internacional seja essencialmente caótico e desordenado, mas que se organiza de um modo no qual ninguém reclama, e ninguém reconhece tampouco, o direito a governar a todos os países do planeta.

A anarquia internacional não exclui a existência de normas internacionais que os países acordam entre eles, e cujo cumprimento depende exclusivamente de sua aplicação voluntária. Não existe nenhuma entidade superior com a capacidade e o direito de obrigar a um determinado país a cumprir ditas normas ou acordos subscritos. Este último só seria possível se um país ou grupo de países decidisse utilizar a força para obrigar a um terceiro a acatar ditas normas. Este tipo de cenário é pouco habitual, e o mais frequente é que se recorra a mecanismos de exclusão que impedem que quando um país não cumpre com as obrigações subscritas tenha acesso a determinados recursos, espaços de decisão e interlocução, etc. Portanto, o direito internacional é essencialmente voluntário, e unicamente vincula aos países na medida em que estes assim o desejam.

Por outro lado, as organizações internacionais são em sua totalidade instituições intergovernamentais nas quais as decisões são tomadas exclusivamente pelos países membros. Portanto, os órgãos executivos destas instituições carecem de poderes próprios e dependem em todo o essencial dos Estados membros que são os que estabelecem os mandatos sob os quais operam. As decisões que se tomam nestas instâncias costumam se concretizar em tratados, acordos, etc., que forma o direito internacional. Neste sentido as organizações supranacionais (ONU, UE, OTAN, OMC, FMI, etc.) não comprometem o caráter anárquico da esfera internacional.

À luz de tudo o antes exposto pode se concluir que a anarquia é uma realidade muito presente em diferentes níveis, o que demonstra que não se trata de uma utopia, apesar de que as condições nas quais acontecem a limitam consideravelmente. A existência de Estados, com seus correspondentes governos e instrumentos de dominação, constitui o principal impedimento para que a anarquia seja o princípio ordenador do conjunto da sociedade em todas as esferas da vida humana, tal e como propõe o anarquismo. No entanto, nada disto significa que a anarquia seja uma utopia, mas que, pelo contrário, é perfeitamente viável ao ser já parte da realidade.

As utopias são, em geral, um produto racionalista dos intelectuais completamente desconectados da realidade, o que explica em grande medida que sejam impossíveis de se materializar, ou que inclusive possuam um marcado caráter negativo que na prática as converte em distopias. A anarquia, pelo contrário, está apegada à vida ao manifestar-se nas práticas que articulam muitas relações sociais. O anarquismo unicamente da concretização teórica a esses aspectos anárquicos que estão imbricados na vida das pessoas e dos coletivos humanos, o que faz deste o farol da humanidade que ilumina o caminho para sua emancipação.

Esteban Vidal

Fonte: http://acracia.org/la-anarquia-no-es-utopia/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

no contorno do gato
um ponto negro no dorso
dorme –

Krzysztof Karwowski

[Espanha] Esta não é nossa guerra. Razões para a mobilização generalizada contra a guerra imperialista

Nos últimos meses estamos assistindo no leste da Europa a um confronto entre dois polos imperialistas em pugna por posições e recursos. A guerra na Ucrânia:

– Custou dezenas de milhares de vidas humanas desde fevereiro, produzindo morte, destruição e êxodo em sua passagem. Refugiados, exilados, mobilizações forçadas, desertores.

– A enorme mobilização militar está acelerando os graves problemas derivados da crise energética e eco-social à qual nos levou o capitalismo, o que repercute em altas de preços de produtos básicos que afetam (e afetarão mais) a amplas camadas da população.

– No Estado Espanhol, um Governo supostamente de esquerda vem desenvolvendo uma política claramente militarista, seguindo totalmente a linha da OTAN, encabeçada pelos EUA. Decisões perigosas que não respondem a outra coisa senão a manter os privilégios de sua oligarquia. O Governo da Espanha e a UE estão pondo em risco nossa vida para isso, pelas razões já mencionadas e por uma possível extensão do conflito. O chamado “Mecanismo Europeu para a Paz”, não é mais que um eufemismo para tapar a guerra. Aos olhos da sociedade civil, a rivalidade de ambos os lados se traduz em um exercício de avareza levado ao extremo em que os perdedores certos estão em ambos os grupos: mortos, mutilados, espoliados, vexados e empobrecidos. Guerra é oposto a Dignidade.

– Por outro lado, não podemos nos ver refletidos na defesa do Estado russo, ultraconservador e militarista que não respeita os direitos individuais e coletivos, que criminaliza o protesto e encarcera a dissidência. Aliado do Estado totalitário Chinês.

– É necessário pressionar na rua e nos centros de trabalho e estudo com o objetivo de eliminar o gasto militar e parar a guerra na Ucrânia e outras regiões do planeta.

Ante a situação atual vemos urgente gerar uma coordenação a nível do estado para:

– Promover mobilizações coordenadas para visibilizar uma crítica antimilitarista e anti-imperialista do conflito.

– Assinalar os responsáveis e estender a desobediência e o confronto frente à mobilização bélica de todos os estados.

– Boicotar as empresas que se beneficiam da guerra e nos opormos ativamente a qualquer envio de armas ou mercenários.

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

nadam no vento
como carpas douradas
folhas de bambu

Akatonbo

Festa de 90 anos do Centro de Cultura Social de São Paulo (SP)

No dia 14 de janeiro de 2023, o Centro de Cultura Social (CCS) de SP completa 90, sim, NO-VEN-TA ANOS!!! Isso merece uma celebração! Por isso, vamos abrir nosso salão para receber você que sempre andou com a gente, você que quer chegar junto, ou você que está perdido dando um rolê pelo centro! Convidamos todas as pessoas associadas ao CCS; os e as compas dos coletivos que sempre somam conosco; bem como as pessoas que frequentam nossas atividades, para que venham, no sábado, dia 14/01, às 15h, celebrar essa data.

Como toda boa festa, não pode faltar o apoio mútuo de cada um trazer algo para comer e/ou para beber. De preferência vegano ou vegetariano. E sinta-se à vontade para se expressar, trazer um poema, uma música, uma história que queira compartilhar. Ah! Vai ter bolo!

Viva o CCS-SP! Viva a anarquia!

Centro de Cultura Social

Rua General Jardim, 253, Sala 22, 2° andar – Vila Buarque – São Paulo – SP | Próximo ao metrô República

Site: ccssp.com.br

FB: facebook.com/CCSSP33

E-mail: ccssp@ccssp.com.br

agência de notícias anarquistas-ana

canta bem-te-vi
sol por todo o lado
natureza sorri

Carlos Seabra

[Alemanha] Tão pouco capitalismo verde! Novas alianças de energia entre Hamburgo e a América do Sul

Solidariedade e luta internacionalista de Hamburgo a Buenos Aires, de Montevidéu a Santiago do Chile e vice-versa.

No final de agosto de 2022, o prefeito social-democrata e político de Hamburgo, Peter Tschentscher, viajou para Buenos Aires, Montevidéu e Santiago do Chile, juntamente com uma delegação empresarial de 20 membros.

Representantes de empresas comerciais de Hamburgo como Hamburg Energie (empresa de energia), Hochbahn Hamburg (empresa de transporte público), HPA (Autoridade Portuária de Hamburgo), Handelskammer Hamburg (representantes comerciais de Hamburgo), o grupo de cobre Aurubis, o grupo Lother (produtos petrolíferos e imóveis) e outros faziam parte deste grupo de viagens neo-coloniais. A agenda desta delegação foi diversificada e definitivamente merece atenção. A agenda central era estabelecer novas “parcerias energéticas”, ou seja, vários acordos comerciais. Além disso, a delegação também visitou uma escola alemã e representantes da atual cooperação internacional dos Carabineros chilenos e da polícia alemã.

A nova tradição eco-colonial

Estas delegações têm uma longa história e não são hoje um caso isolado. Elas fazem parte da longa tradição colonial que começou há mais de 500 anos com as “conquistas” coloniais e hoje aparecem com um novo disfarce de capitalismo sustentável. Uma das consequências da guerra na Ucrânia foi a redução radical do fornecimento de petróleo e gás russo para grande parte da Europa. Devido a esta situação, muitos políticos e industriais estão viajando pelo mundo em busca de novas “alianças energéticas”. O duplo padrão aqui é evidente: Há alguns meses, o Ministro Federal alemão para Assuntos Econômicos e Proteção Ambiental, Robert Habeck, membro do Partido Verde, viajou ao Golfo Pérsico para o Qatar e os Emirados Árabes Unidos para chegar a um acordo sobre novas importações de energia. Com ele viajou uma delegação econômica de alto nível; representantes de empresas de energia como RWE e E.On (ambas empresas de energia), a empresa de armamento Thyssen-Krupp, a gigante farmacêutica Bayer, bem como Aurubis, Commerzbank e Deutsche Bank, o fabricante de software SAP, Evonik, todos eles responsáveis pelo grande desastre ambiental que estamos sofrendo atualmente.

A composição da delegação de Hamburgo não é uma coincidência, pois diante do avanço do desastre ecológico, os delegados devem projetar uma imagem de capitalismo verde e sustentável. Um dos principais interesses desta viagem foi o negócio do “hidrogênio verde”, que é produzido principalmente no sul do Chile. Desta forma, o porto de Hamburgo (o terceiro maior da Europa) pretende se tornar o novo centro europeu para o fornecimento de hidrogênio a longo prazo. Como primeiro passo desta cooperação, um “Memorando de Entendimento” foi assinado em Santiago do Chile para o negócio do hidrogênio para os próximos anos.

O hidrogênio é necessário para muitas coisas, como substituto para o gás natural, para a produção de aço e para a indústria pesada em geral. É notável que esta delegação alemã goste de enfatizar o progressismo dos centros de negócios sul-americanos, sem renunciar a declarações racistas e relativizar a história do colonialismo e da exploração.

Neste contexto, o prefeito de Hamburgo, Peter Tschentscher, enfatizou publicamente que estava feliz por o povo do Chile não ser preguiçoso em nada, e que estava feliz por ter ouvido tantos nomes alemães. Mas ele nada disse sobre a fuga de numerosos nazistas de alto escalão para a América do Sul após o fim da Segunda Guerra Mundial, nada sobre as relações do primeiro-ministro bávaro Franz Josef Strauss e outros políticos alemães com a ditadura de Pinochet, intensificando assim as relações comerciais germano-chilenas. Nada foi dito sobre as visitas de representantes do estado alemão ao centro de tortura Colonia Dignidad.

De acordo com o relatório da comissão, haveria muito espaço para turbinas eólicas ao longo das costas das áreas dominadas pelos estados argentino e chileno. Em Montevidéu, a cooperação portuária é acordada entre a HPA (Autoridade Portuária de Hamburgo) e a ANP, a Autoridade Portuária Nacional de Montevidéu.

Para este fim, o porto uruguaio deverá ser significativamente ampliado e aprofundado até 2025. Além disso, foi feito um acordo entre a HIF[1] (produção de e-combustível na Patagônia) do Chile, que produz combustível hidrogênio, e o Grupo Lother, sediado em Hamburgo. O negócio da “energia verde” é em última análise pérfido e significa uma extensão do neo-extrativismo, ou seja, a exploração colonial dos recursos naturais nos países do Sul e a destruição de seu meio ambiente, já que uma empresa de cobre e aço como a Aurubis não pode se encaixar neste conto de fadas verde, seu papel poluidor nos discursos públicos é deliberadamente omitido.

Outro componente desta política e dos negócios é a opressão das comunidades indígenas.

A luta do povo mapuche vale a pena mencionar aqui: suas terras são roubadas, militarizadas e atacadas pelos estados chileno e argentino, geralmente para os interesses das grandes corporações internacionais.

Por exemplo, a Aurubis já tem acordos de fornecimento com projetos multinacionais de mineração de cobre, que junto com a indústria madeireira e de papel, em territórios ocupados pelo estado chileno, estão destruindo as vidas das comunidades Mapuche. Demonstra-se aqui que, quer o governo seja de direita ou de esquerda, o Estado lutará com todas as suas forças contra a resistência mapuche na busca de seus interesses econômicos. É por isso que sua luta digna merece nosso total apoio e solidariedade.

Como anarquistas, estamos cientes de que na área europeia está sendo construída uma necessidade energética, que se destina, em última instância, a satisfazer as necessidades da indústria de armamento alemã e europeia, da indústria automobilística e da indústria pesada em geral.

O discurso populista de escassez iminente de energia, reforçado por conflitos geopolíticos entre Estados, é uma boa oportunidade para fazer as pessoas temerem por seu próprio abastecimento energético, como o aquecimento. E aqui também não queremos ignorar o nível fundamentalmente estrutural e neocolonial das dependências internacionais. Pois estamos bem conscientes dos níveis pérfidos em que esses medos dos europeus ricos se movem no contexto global: inúmeras pessoas no Sul global vivem sem acesso regulamentado à eletricidade, água potável e outras infraestruturas, uma situação que se deteriora continuamente devido à superexploração dos mercados europeus.

Os governos vêm e vão, a polícia fica!

No contexto de tratados econômicos internacionais de longo alcance, a segurança interna e a estabilidade são de particular importância. Esta questão também desempenha um papel importante na visita da delegação de Hamburgo aos países da América do Sul. Aqueles que querem investir dinheiro na região e comprar matérias-primas esperam estabilidade social, e se esta não existir, terá que ser imposta. Isto se refere especificamente ao contexto chileno após a revolta social de 2019 e a presença de muitas lutas revolucionárias e sociais em geral. Neste contexto, os Carabineros do Chile são treinados e educados pela polícia alemã, mais precisamente pela polícia de Hamburgo e Renânia do Norte-Vestfália[2] em um processo de reforma. Trata-se principalmente de “comunicação e relações públicas” e “estratégias policiais de desescalonamento”. Assim, a polícia de Hamburgo está dando aos “pacos” chilenos lições de contrainsurgência, estratégias que têm sido utilizadas na Alemanha há anos e que foram implementadas e aprofundadas desde a cúpula do G20 em Hamburgo, em 2017. No futuro, a polícia no Chile provavelmente tentará disfarçar a violência do Estado ainda mais eficientemente em campanhas públicas que visem limpar sua imagem.

Auto-organização, solidariedade e ação direta contra estas condições e desenvolvimentos terríveis! Queremos ser claros e solidários com os combatentes nos territórios dominados pelos Estados do Uruguai, Argentina e Chile e deixar claro que para parar e dificultar os mecanismos e projetos de dominação que mencionamos requer lutas internacionalistas que são travadas em todos os lugares e inter-relacionadas. Os responsáveis pelo colapso ambiental são vulneráveis e podem ser encontrados em muitos lugares.

Nossa solidariedade vai para os revolucionários presos nas prisões. Solidariedade também com os prisioneiros chilenos da revolta de 2019. Uma saudação particularmente calorosa aos camaradas anarquistas Monica Caballero e Francisco Solar, para quem o Estado chileno está exigindo atualmente mais de 150 anos de prisão.

Não vamos deixar os prisioneiros sozinhos nas mãos do Estado!

Até que todos os muros da prisão caiam!

Solidariedade com as comunidades indígenas em luta!

Solidariedade com a luta mapuche!

Solidariedade com todas as lutas em defesa da terra!

Para a revolução social!

Alguns anarquistas, Hamburgo, Alemanha, setembro de 2022

[1] //hifglobal.com/hif-chile

[2] Na Alemanha, além da Polícia Federal, existem forças policiais em todas as 16 províncias.

Fonte: https://radio31deenero.org/index.php/2022/11/07/tampoco-un-capitalismo-verde-nuevas-alianzas-energeticas-entre-hamburgo-y-sudamerica/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

A sensação de tocar com os dedos
O que não tem realidade –
Uma pequena borboleta.

Buson

[Espanha] Comemorando 20 anos nas ondas livres!

ANARKUSTIKA, programa de contra-informação anti-repressivo/anti-prisão (Rádio RSK)

Olá a todos, Anarkustika completa 20 anos!

Em 2003 começamos na Molotoff Irratia em Hernani e depois a partir de 2009 na Zintzilik Irratia (Rentería-Orereta) até o final de 2010. A partir de 2011 o programa foi transmitido pela Radio Bronka (9 Barris/Bcn) e a partir de 2015 pela Radio RSK (9 Barris, Bcn) até hoje.

A contra-informação é o verdadeiro significado das rádios livres porque não são controladas pelo Estado e suas instituições e, portanto, a única fonte livre e atualizada da sociedade, além de algumas páginas anárquicas estabelecidas na Internet.

A rádio, além de sua presença na internet, é ouvida na FM que permite uma cobertura no bairro e em parte da cidade.

É uma de nossas armas mais poderosas contra um sistema corrupto e podre que tenta destruir nossas ideias, contra-culturas e/ou coletivos/comunidades, através da pura brutalidade, violência, repressão, prisão e morte.

A solidariedade com as vítimas desta segregação, não apenas física, mas também psicológica, não é necessária, mas indispensável e faz parte de nossa ideologia.

Ninguém será deixado sozinho nas mãos do Estado!

Mobilizações e a disseminação de informações confiáveis são a base para ações com todos os meios possíveis para destruir os bastiões do sistema, seus bancos e corporações multinacionais nos campos da eletrônica, produtos farmacêuticos, energia, carne, armas e assim por diante.

Nunca devemos esquecer nossos irmãos e irmãs que estão presos, perseguidos ou ameaçados, enjaulados e assassinados!

Continuaremos a dar voz a eles, vozes silenciadas pelo Estado!

Se tocam em um, tocam em todos nós!

Saúde, Solidariedade e Liberdade para todos!

Abaixo os muros da sociedade penitenciária!

Viva as rádios livres!

Pela Anarquia!

PS: Saudações fraternais a Gabriel, Thomas, Juan, Monica, Francisco, Giannis, Alfredo, Anna, Claudio, Andreas, Francesco, Toby, Ivan, Davide, Marcelo, e a todos os demais lutadores sequestrados pelo puto estado!

agência de notícias anarquistas-ana

o arrozal lindo
por cima do mundo
no miolo da luz

Guimarães Rosa

[Espanha] Lançamento: “Poesía del tango. Pasión, transtierros y pensamiento libertario en el siglo XX”, de Rafael Flores Montenegro

A rua, o porto, os cortiços, os curais, os cárceres eram o magma onde se forjou um dizer que logo se elevaria a canção nas primeiras décadas do século XX. Já os trovadores de La Pampa, os repentistas, e as pessoas da comédia depois, vinham introduzindo a fala popular em suas composições. O tango o fez em alguns títulos inaugurais, em refrões e quadras, precários, durante o tempo que levou para se  consolidar como música e dança. Os que o inventaram eram carreteiros, estivadores, pedreiros, pintores de casa, mecânicos… E as mulheres brilharam na interpretação cantada. Nesta obra se incluem as letras das canções tangueiras mais representativas de inspiração libertária, compostas por Pascual Contursi, José González Castillo, Celedonio Esteban Flores, Enrique Cadícamo, Francisco García Jiménez, Enrique Santos Discépolo, María Luisa Carnelli, Alfredo Le Pera, Homero Manzi, Jose María Contursi, Mario Batisttella, Cátulo Castillo, Homero Expósito, Eladia Blázquez. O tango visto por Borges e Carriego encerra as páginas belamente ilustradas por Nicoláas Picatto…

Rafael Flores Montenegro é considerado, internacionalmente, como um grande conhecedor desta música, sua canção e dança popular. É autor de originais ensaios literários sobre suas emblemáticas figuras.

Poesía del tango. Pasión, transtierros y pensamiento libertario en el siglo XX

Rafael Flores Montenegro

Ilustrado por Nicolas Piccatto

176 Páginas. Contiene imágenes inéditas de la época.

Precio 18 €

ISBN: 978-84-122547-7-8

www.lalinternasorda.com

ATENÇÃO: SÓ REALIZAMOS ENVIOS PARA O ESTADO ESPANHOL.

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/08/01/argentina-tango-e-anarquia-o-desafio-e-que-estes-dois-produtos-tao-genuinos-voltem-a-ter-sentido-aos-olhos-do-povo/

agência de notícias anarquistas-ana

Como versos livres
– ao toque dos tico-ticos –
as flores que caem…

Teruko Oda