[França] Chamada de trabalhos para o colóquio internacional Sacco e Vanzetti 1927-2027 em Montpellier

Université de Montpellier Paul-Valéry

ReSO (Recherches sur les Suds et les Orients)

Colóquio internacional

Julho de 2027

Sacco & Vanzetti 1927-2027

Entre 1920 e 1927, Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, dois imigrantes destinados a permanecer anônimos, como milhões de italianos que emigraram para os Estados Unidos, alcançaram fama mundial. Sua prisão, julgamento e execução mobilizaram a opinião pública internacional. Os pedidos de clemência por Nick e Bart chegaram de todos os lados: organizações políticas de todos os tipos – o próprio Benito Mussolini fez um pedido –, círculos intelectuais – Simone de Beauvoir relata que um de seus primeiros atos políticos foi assinar o apelo – e movimentos sociais em geral. Até o dia da execução, manifestações encheram ruas e praças em todo o mundo. Depois, o caso desapareceu gradualmente da memória coletiva, exceto nos círculos libertários. Um ponto de virada ocorreu na década de 1970 com o filme de Giuliano Montaldo, Sacco e Vanzetti (1971), cujo sucesso trouxe o caso de volta à atualidade, levando à reabilitação de Sacco e Vanzetti por Michael Dukakis, governador de Massachusetts (1977). Chegou-se até a estabelecer um paralelo com o caso Dreyfus, devido à forma como os dois italianos ficaram presos na engrenagem do sistema judicial e político norte-americano. Hoje, o interesse por Sacco e Vanzetti permanece vivo. Dos quadrinhos à ópera, não há campo da criação artística que não se tenha apropriado do caso – música, teatro, canção, literatura, caricatura, quadrinhos, artes plásticas. Observa-se também que, mesmo na grande imprensa, o caso Sacco e Vanzetti se tornou um “clássico jornalístico”, revisitado todo ano por volta de 23 de agosto, data do aniversário da execução.

As propostas de comunicação para o congresso internacional poderão se inserir em diferentes áreas disciplinares, privilegiando uma abordagem comparativa e transnacional, e poderão focar na mobilização de um século atrás, assim como na “memória construída” do caso Sacco e Vanzetti. As contribuições poderão tratar da mobilização que ocorreu há um século e/ou sobre a “memória” do caso Sacco e Vanzetti. Poderá ser abordada, por exemplo, a dinâmica de organização da campanha de apoio, que pode ter variado de um país para outro, e até de uma região para outra; a forma como a presença ou ausência de uma forte imigração italiana pode ter influenciado o desenvolvimento da campanha; as modalidades de construção da campanha, que pode ter seguido esquemas sociais e políticos de uma tradição já estabelecida ou, ao contrário, encontrado formas inovadoras. Também poderá ser tratada a imprensa, militante e não militante, nas diferentes fases do caso (prisão, julgamento, campanha, execução) e, no campo artístico, as formas que a campanha e a “memória” do caso adquiriram, ao longo do tempo e de acordo com os espaços. Por fim, poderemos nos perguntar sobre o peso da questão política em relação à questão judicial e se, para além da execução de dois militantes anarquistas, as criações artísticas que participaram de sua “memória” repolitizaram questões vinculadas ao anarquismo ou se seu alcance político tendeu a evoluir, ou mesmo a se diluir.

> Mais infos aquihttps://reso.www.univ-montp3.fr/fr/actualit%C3%A9s/appel-%C3%A0-communication-colloque-international-juillet-2027

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Fundo de quintal…
Silêncio. No velho muro,
uns cacos de sol…

Jorge Fonseca Jr.

[Rússia] Parabenize o prisioneiro político anarquista Danil Chertykov pelo seu aniversário!

Em 8 de fevereiro, Danil Chertykov completa 32 anos. Ele está comemorando seu aniversário em cativeiro pela quarta vez.

Danil Chertykov é um anarquista e antifascista de Yekaterinburg. Ele trabalhava como veterinário e, em seu tempo livre, dedicava-se à música, tocando guitarra na banda folk Rocker Balboa.

Em 31 de agosto de 2022, Danil estava jantando em um restaurante com amigos e sua companheira. Quando saíram para um passeio noturno pela cidade, foram detidos e espancados por homens armados e mascarados que se revelaram policiais. Danil foi torturado e posteriormente acusado de participação em uma organização terrorista e preparação de um ato terrorista.

Apesar das condições adversas de prisão, Danil permanece forte em espírito. Enquanto já estava sob custódia, ele registrou oficialmente seu casamento com sua companheira Alyona, que se tornou sua defensora pública. Danil também começou a desenhar, lê muitos livros e continua a se manter fisicamente ativo.

Parabenize nosso companheiro pelo seu aniversário — apoie-o com uma carta ou um cartão postal!

Endereço para correspondência — deve ser escrito em russo:

620024, Екатеринбург, Елизаветинское шоссе 19, СИЗО-5, Чертыков Данил Германович 1994 г.р.

As cartas também devem ser escritas em russo, você pode usar ferramentas de tradução online.

Cruz Negra Anarquista de Moscou

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agência de notícias anarquistas-ana

Lá na cerca
coruja imóvel e atenta
só mexe os olhos.

Maria Fernanda dos Santos Rebouças

[Espanha] Morreu o anarquista cubano Frank Fernández

Conhecemos Frank Fernández através de Lily Litvak nos anos noventa do século passado. O companheiro cubano perguntou à autora de “Musa libertaria” por uma editora espanhola que pudesse publicar seu texto “El anarquismo en Cuba”, e Lily lhe deu o endereço da Fundação Anselmo Lorenzo. Nos remeteu o manuscrito à FAL e começou o lento e longo processo que é para uma pequena e modesta editora publicar uma obra ‒ Enrique, Miguel Ángel, Alicia, Manuel Carlos e Ignacio a deixaram pronta. Saiu impressa na coleção “Cuadernos Libertarios” no ano 2000, com um prefácio de Litvak e um prólogo de Francisco Olaya. O texto trata de resgatar do esquecimento a homens e mulheres anônimos que lutaram pela liberdade e a justiça social.

Descendente de uma família espanhola nasceu em Cuba em 1932. Sua vida transcorre relativamente cômoda, pelos negócios que mantêm. A Revolução cubana truncou seu destino; sai da Ilha e se estabelece em Miami. É aqui, nos Estados Unidos, onde começa a conhecer o anarquismo e a vincular-se ao mundo das ideias libertárias. Escreveu muito na revista “Guángara libertaria” e foi um membro muito ativo do Movimento Libertário Cubano no Exílio.

Durante sua visita à Espanha para apresentar o livro, uma vez editado, percorreu a Península de um extremo a outro, com seus correspondentes debates; alguns amargos, e incompreendida sua mensagem por certos grupos de esquerda. Para estes, criticar Castro só podia se fazer desde uma posição capitalista e de direita, ignorando que existem propostas mais avançadas e liberadoras. Ainda que o olho humano unicamente aprecie umas quantas cores do arco íris, isso não quer dizer que não existam mais; não se veem, mas estão.

O valor de Frank Fernández foi o de defender a liberdade e a justiça social frente a qualquer tirano, fosse do signo que fosse. E o advertiram, não é bem visto criticar as ditaduras de esquerda. Esta atitude também a tiveram outros companheiros antes dele. Quando Ángel Pestaña regressou de sua viagem à Rússia não defendeu a revolução que acabava de triunfar e se atreveu a dizer que o que acontecia no país de Tolstoi, Kropotkin e Bakunin era uma mudança de tirano. O tempo lhe deu razão. Também Albert Camus sofreu as investidas subsequentes por apoiar os perseguidos do estalinismo enfrentando-se com Sartre. Não é fácil atrever-se a denunciar os novos opressores.

Durante sua estadia em Madrid sucederam uma série de anedotas, algumas das quais nomeamos aqui, para divulgar sua personalidade, algo de sua vida e da situação em Cuba.

No transcurso das variadas conversações que tivemos, pudemos apreciar que era um homem afável, afeito ao diálogo, transigente, respeitoso, irônico, e que não se calava se tinha que dizer algo, sempre com educação. Um primeiro e pequeno incidente surgiu antes de nos conhecermos pessoalmente. Ao corrigir as provas de impressão do livro vimos que, segundo entendíamos, alguma palavra não tinha o significado que lhe atribuía. O fizemos saber em uma carta. Nos respondeu muito amavelmente anexando fotocópia do dicionário da RAE na qual nos ressaltava a aceitação que lhe dava ao vocábulo, que era correta, e que nós havíamos interpretado como um americanismo que os leitores espanhóis não entenderiam.

Era alto e corpulento; um problema para poder dormir em uma cama de um metro e oitenta, que era a que tínhamos para os companheiros convidados. Fumava charutos, gostava de beber e lhe encantava conversar. Este último nos uniu muito. Comia bem, sem obstáculos ao que se oferecia. Em uma ocasião nos perguntou se sabíamos fazer sopa castelhana, da qual havia ouvido falar de forma elogiosa; o prato ficou em seu supremo ponto organoléptico e foi tema de elogio para a companheira que havia se esmerado em conseguir os melhores ingredientes e os havia cozido.

Durante um passeio familiar, sendo Frank adolescente, comentou o que via em um parque: “Olha, uns negritos jogando bola”. Um senhor que estava próximo, e escutou o comentário, esclareceu: “Não, não são uns negritos jogando bola, são uns meninos jogando bola”. Surpreendeu-se, mas captou o esclarecimento. O recordava como a primeira lição que recebeu sobre racismo interiorizado.

O livro foi apresentado no Ateneu de Madrid. Para difundir o evento se enviavam notas à imprensa com o fim de que se incluísse na seção de convocatórias e a intenção de que tivesse eco. Dias depois se apresentou na sede da Fundação um senhor cubano perguntando por Frank Fernández; viu a convocatória da apresentação do livro e desejava falar com o autor. Nesse momento estava em turnê peninsular. O senhor, do qual não recordamos o nome, nos contou o motivo pelo qual desejava conhecê-lo. Era sociólogo e tinha escrito um ensaio sobre Tarrida del Mármol e a sociologia quântica (não sabíamos o que era isso, ainda que tínhamos ouvido falar da física quântica). Sua história pessoal mostra o que era a vida no país caribenho. Deu-nos a conhecer sua situação. Parece que trabalhava como investigador na universidade cubana e teve referências de Tarrida del Mármol. Interessou-se por seus textos e quis conhecê-los melhor. Aí começaram os problemas. O Regime não permitia que passasse de certos limites. Comentamos-lhe que havia companheiros que haviam estado em Havana consultando arquivos históricos e não lhes haviam posto nenhum inconveniente. Dizia-nos que as restrições eram para os cubanos, não para os estrangeiros. Seguiu em seu empenho de investigação e o despediram. Para poder viver, se pôs a trabalhar de relojoeiro ‒ o Sistema já permitia certas atividades econômicas individuais, privadas, e assim poder manter sua família. Um dia lhe chegou um convite para dar uma conferência na Universidade de Salamanca, mas as autoridades não lhe permitiram sair do país. Tempo depois voltaram a convidá-lo, e então sim conseguiu autorização. Após aterrizar em Barajas solicitou asilo político. O acolheram na Cruz Vermelha à espera da resolução da solicitação. Nesse momento foi quando o conhecemos. Dias depois, quando Frank regressou da turnê de apresentação do livro, falou com ele sobre a possibilidade de que fosse acolhido nos EUA se o recusassem na Espanha o estatuto de refugiado político. Como necessitava recursos econômicos, nos ofereceu o ensaio sobre Tarrida para publicá-lo, mas a FAL não pagava por isso; nem os manuscritos nem os direitos de autor, tudo se faz voluntariamente para difundir as ideias. Não era anarquista, tampouco um homem de direita, mas o castrismo não lhe permitia indagar livremente nos arquivos para ampliar conhecimentos.

Prévio ao livro que publicamos, fruto de uma investigação anterior foi “La sangre de Santa Águeda”, na qual aborda o contexto que levou Angiolillo a assassinar Cánovas, máximo responsável das torturas do processo de Montjuic. Aproveitou sua viagem a Espanha para aproximar-se para conhecer o cenário dos fatos. Ao acessar o edifício do balneário, sua primeira surpresa foi ver umas escadas de madeira que ele descreve no livro como de luxuoso mármore. Preocupou-lhe e o anotou para corrigir em futuras edições.

Criticavam-se os exilados anarquistas cubanos que foram à Flórida, onde também se refugiaram os fazendeiros da época do ditador Batista. Por sua proximidade geográfica e clima, era também o lugar onde se assentavam os anarquistas perseguidos que haviam enfrentado a tiranos cubanos anteriores.

Morreu sem regressar a sua Cuba querida e em um país onde justo agora grupos de sicários, orquestrados pela Casa Branca, dirigida por um criminoso megalomaníaco, saem à caça do migrante e assassinam impunemente. Como nos recordava Frank em uma palestra de José Martí: “Os homens que cedem não são os que fazem os povos, mas os que se rebelam”. Seguimos adiante, companheiro, sendo conscientes de que “este caminho é de muitíssimas léguas”.

Saúde.

Ignacio Soriano, presidente da FAL desde 1992 até 2005.

Fonte: https://fal.cnt.es/ha-muerto-el-anarquista-cubano-frank-fernandez/

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Cercada de verde
ilha na hera do muro:
uma orquídea branca.

Anibal Beça

Pronunciamento de grupos, coletivos e pessoas, desde os distintos rincões em resistência e rebeldia no mundo. PELA VIDA E A DIGNIDADE DO POVO DO IRÃ

Vivemos uma tempestade. Não é nova nem passageira. É a tempestade do capitalismo, do imperialismo, do patriarcado e dos Estados que administram a morte enquanto falam de ordem, estabilidade ou segurança. Nessa tempestade, os de cima disputam territórios, recursos e poder; os de baixo oferecem os corpos, as vidas, o medo e a esperança.

No Irã, hoje, essa tempestade golpeia com especial crueza. O povo iraniano voltou a se mobilizar contra o regime da República Islâmica que não hesitou em realizar uma repressão violenta contra quem sai às ruas. Essas mobilizações não são um fato isolado nem uma reação momentânea: são o resultado acumulado de décadas de opressão política, exploração econômica, violência patriarcal, repressão sistemática e negação de direitos. São lutas que nascem de baixo, da vida cotidiana asfixiada, de quem já não pode nem quer continuar sobrevivendo em silêncio.

Lá em cima, os governos e as potências medem a situação em chave geopolítica. Calculam vantagens, equilíbrios regionais, rotas energéticas, alianças convenientes. Lá em cima, o crime se normaliza, se justifica ou se oculta com discursos de “estabilidade”, “segurança” ou “realismo político”. Lá em cima, inclusive aqueles que se apresentam como inimigos do regime iraniano não hesitam em legitimar o massacre, quando este serve aos seus interesses.

Em baixo, em contrapartida, o povo iraniano luta pela vida.

Em baixo estão as mulheres que desafiam cotidianamente o controle patriarcal.

Em baixo estão os trabalhadores e as trabalhadoras empobrecidos por políticas neoliberais.

Em baixo estão as dissidências sexuais, as minorias religiosas, os povos oprimidos, aqueles que habitam as periferias atingidas pela crise da água, da moradia e do emprego.

Em baixo estão aqueles que saíram às ruas uma e outra vez, muitas vezes com as mãos vazias, sem organizações amplas —destruídas pela repressão— e mesmo assim avançaram mais longe do que qualquer oposição institucional.

Denunciamos com firmeza a manipulação externa desses protestos. Nenhuma potência estrangeira, nenhum governo do norte global, nenhum projeto imperial tem o direito de usar o sofrimento do povo iraniano como peça em seu tabuleiro. Essa instrumentalização não só deturpa as lutas reais, como coloca em maior perigo aqueles que resistem, ao transformá-los em pretexto para uma repressão ainda mais brutal.

Reafirmamos o direito inalienável dos povos à autodeterminação. A liberdade não se exporta nem se negocia entre Estados. Nenhuma intervenção imperial jamais trouxe justiça nem dignidade aos povos que diz “libertar”. Sabemos disso pela história, e isso é confirmado uma e outra vez pelas ruínas que deixam em seu caminho.

Há aqueles que, de fora, olham para cima e não para baixo: aqueles que justificam o regime iraniano em nome de um suposto anti-imperialismo, ignorando que esse mesmo regime aplica contra seu povo lógicas de ocupação, apartheid, saque e neoliberalismo; e aqueles que promovem alternativas reacionárias, autoritárias e dependentes, que prometem salvação enquanto reproduzem a dominação.

São falsos binarismos. Cima contra cima. Poder contra poder. Em baixo fica o povo, preso entre duas forças que se dizem opostas, mas agem alinhadas.

Nossa posição é clara: não estamos com os governos, estamos com os povos. Não com os Estados, mas com quem resiste. Não com as elites, mas com quem luta para viver.

Hoje, enquanto o povo iraniano enfrenta o corte das comunicações, o estado de sítio e a militarização da vida cotidiana, fazemos um chamado para escutar os alertas de nossos companheiros zapatistas: a tempestade é global; quem acredita que não lhe atinge, que não é com ele ou com ela, se engana. Diante desta tempestade, não há salvadores nem soluções de cima. O que há é a possibilidade —urgente— de unir as lutas de baixo, de nos reconhecermos no destino compartilhado de quem resiste ao capital, ao imperialismo e a todas as formas de dominação.

Estendemos nossa mão ao povo iraniano.

Não para tutelá-lo.

Não para falar por ele.

Mas para dizer: vocês não estão sozinhos.

Porque a luta no Irã é também a luta pela vida em toda parte. E porque somente de baixo, juntas e juntos, poderemos enfrentar a tempestade e imaginar o dia seguinte.

Para adicionar sua assinatura, escreva para declaracion.iran@gmail.com

Fonte: https://enlacezapatista.ezln.org.mx/2026/01/29/por-la-vida-y-la-dignidad-del-pueblo-de-iran-pronunciamiento-de-grupos-colectivos-y-personas-desde-los-distintos-rincones-en-resistencia-y-rebeldia-en-el-mundo/   

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Lentos dias se acumulam –
Como vão longe
Os tempos de outrora.

Buson

[Rússia] Prorrogação da campanha de financiamento coletivo para a publicação do livro de Petr Ryabov “Três palestras sobre Mikhail Bakunin: personalidade, obra e legado”

A editora Directio Libera decidiu prolongar o financiamento coletivo para o novo livro da série schemata — Petr Ryabov, “Três palestras sobre Mikhail Bakunin: personalidade, obra e legado”. Falta muito pouco para atingir a meta — apenas 8.900 rublos de 200.000.
 
Quem é Petr Ryabov?
 
Petr Ryabov é um anarquista russo, filósofo, pesquisador da história e das ideias do anarquismo, doutor em filosofia e professor adjunto do departamento de filosofia da Universidade Pedagógica Estatal de Moscou Lenin. Seu livro contém uma transcrição editada das palestras do autor sobre Mikhail Bakunin.
 
Por que todo mundo que pensa livremente deveria ler esse livro?
 
Nela, Bakunin aparece não como uma figura clássica, mas como um pensador cuja filosofia era inseparável da prática da luta revolucionária. Opondo-se à ideia de reformar as instituições existentes, Bakunin apelava à sua completa abolição. As ideias que provocavam a rejeição dos governantes da sua época continuam a ser objeto de debate animado ainda hoje.
 
O arco de palestras que serviu de base para este livro foi um fenômeno notável no meio intelectual de Moscou. Agora, os leitores têm a oportunidade de conhecer sua versão impressa.
 
O que é necessário para isso?
 
Para publicar o livro, é necessário fechar completamente o financiamento coletivo. A meta é de 200.000 rublos, dos quais 190.100 rublos já foram arrecadados. Isso representa 95% do valor declarado. Falta arrecadar apenas 8.900 rublos.
 
Você pode apoiar o financiamento coletivo neste link:
 
https://planeta.ru/campaigns/petr_ryabov
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
O coração da aranha
se desfaz em geometria
de seda e mandala.
 
Yeda Prates Bernis

Para Além da Exploração: Saúde, Liberdade e Ação Direta no Novo Ano

Camaradas, trabalhadoras e trabalhadores de todos os cantos,

Que 2026 encontre-nos com os punhos cerrados e o olhar voltado para o horizonte da libertação. A União Anarquista Federalista (UAF) saúda a chegada deste novo ano não como uma simples mudança de data, mas como mais uma trincheira no longo combate histórico contra todas as formas de dominação. Aos explorados pelo capital, oprimidos pelo Estado, marginalizados pelo patriarcado e pela hierarquia social, nosso chamado se renova: não há futuro a ser esperado, há um mundo a ser construído pelas nossas próprias mãos, a partir de baixo. Que este ano seja de organização crescente, de solidariedade ativa e de recusa intransigente.

O sistema que nos esmaga não descansa. Enquanto celebrarmos a passagem do tempo, os donos do poder contabilizam seus lucros extraídos do nosso suor e planejam novas formas de controle. A fome, a precariedade, a violência estatal e a destruição ambiental não são acidentes; são produtos diretos de uma máquina social que privilegia a propriedade sobre a vida e o autoritarismo sobre a liberdade. Em 2026, que nossa resposta seja a ampliação da ação direta, o fortalecimento dos núcleos de apoio mútuo e a construção de redes autônomas que possam sustentar nossas comunidades, tornando-nos cada vez menos dependentes das estruturas que nos oprimem.

Convidamos a todas e todos que carregam o fardo da exploração a se unirem a esta luta que não é de um partido ou de uma vanguarda, mas do povo organizado. A UAF, enquanto proposta de federação libertária, acredita na força da união voluntária, na democracia direta dos coletivos e no federalismo como caminho para uma sociedade verdadeiramente livre. Em seus bairros, locais de trabalho, escolas e campos, tomemos o ano que começa como oportunidade para semear a autonomia: criando assembleias populares, difundindo conhecimento livre, ocupando espaços e resistindo a cada golpe do capital e do Estado.

Que 2025 tenha terminado com nossas bandeiras negras e vermelhas hasteadas nas ruas, e que 2026 as veja fincadas em terrenos férteis de novas relações sociais. Não lutamos por um governo melhor, mas por um mundo onde os governos sejam desnecessários; não por migalhas, mas pelo pão inteiro e pela rosa de que falavam as companheiras. Avante, pois! Que a saudação anarquista – “saúde e liberdade!” – ecoe forte em nossos encontros. Que cada aperto de mão, cada decisão coletiva e cada ato de rebeldia em 2026 seja um passo firme rumo à sociedade futura, que já vivemos em embrião cada vez que nos organizamos sem chefes e sem senhores. Um ano de luta, de construção e de esperança combativa a todos os explorados!

União Anarquista Federalista – UAF

Contato: uaf@riseup.net

Blog: uafbr.noblogs.org

agência de notícias anarquistas-ana

tarde dourada
dança sob mar de prata
doces risadas

Civana

[Joinville–SC] Ambiente Arejado, Livraria de Bairro | Breve informativo sobre os 16 meses

Por 16 meses, ocupamos e sustentamos uma sede física como espaço de encontro, escuta e construção coletiva. Nesse período, realizamos 16 encontros do grupo de escuta para mulheres cuidadoras, organizamos clubes do livro, promovemos encontros formativos e garantimos o acesso a livros novos e usados a preços populares. Construímos atividades públicas de história do bairro e afirmamos, na prática, a socialização dos saberes acadêmicos e populares.

Nossa experiência demonstrou que cultura, educação e cuidado são práticas políticas. No entanto, também escancarou os limites materiais impostos a iniciativas comunitárias que resistem fora da lógica do lucro, com autonomia do Estado e iniciativa privada. As dificuldades financeiras para manter o espaço e seguir com a militância comunitária nos convocaram a repensar caminhos, sem abrir mão dos princípios que nos movem.

Em outubro de 2025, iniciamos o diálogo com o espaço de economia solidária Jacatirão, no bairro Burarein, território vizinho ao Floresta e marcado pela intensa circulação de trabalhadores e trabalhadoras, imigrantes, estudantes de escolas públicas e pessoas em situação de rua. Um território vivo, atravessado por desigualdades, mas também por potências coletivas.

Aproximar-nos do Jacatirão é aprender com quem há anos constrói alternativas, fortalecer redes de apoio e seguir apostando na cultura de bairro como ferramenta de resistência, autonomia e transformação social.

Ambiente Arejado

R. Inácio Bastos, 211 – Bucarein, Joinville – SC

Instagram @ambiente_arejado 

agência de notícias anarquistas-ana

minhas mãos te olham
estranha fotografia
onde meus olhos te tocam

Lisa Carducci

Frank Fernández (1932–2026). Historiador do anarquismo cubano, militante libertário e intelectual no exílio

Por Daniel Pinós | 25/01/2026

Francisco Fernández, conhecido em círculos ativistas e intelectuais como Frank Fernández, faleceu em Miami, Flórida, no dia 18 de janeiro de 2026, aos 92 anos, devido a complicações infecciosas após sua hospitalização em cuidados intensivos. Sua morte representa uma perda importante para a historiografia do anarquismo cubano e, em geral, para a história social e política do Caribe.

Recebemos Frank em maio de 2004 na Maison de l’Amérique Latine de Paris para o lançamento de El anarquismo en Cuba, publicado pela CNT da região parisiense. Lembro-me de um momento intenso, marcado tanto pela força de suas palavras quanto pela hostilidade de um punhado de militantes do Partido Comunista do Chile, incapazes de aceitar as críticas que o livro dirigia contra a revolução castrista.

Em abril de 2015, em Santiago de los Caballeros, República Dominicana, reencontrei Frank no congresso fundacional da Federação Anarquista do Caribe e Centro-América, ao qual ele comparecia como delegado da IFA. Este reencontro, anos depois e em outro país, consolidou para mim a continuidade de seu compromisso e de nossa amizade.

Historiador autodidata, ativista libertário e intelectual no exílio, Frank Fernández dedicou a maior parte de sua vida à reconstrução crítica da história do movimento anarquista em Cuba, particularmente entre o final do século XIX e a primeira metade do XX. Sua obra se opõe explicitamente à historiografia oficial, seja ela liberal, nacionalista ou marxista-leninista. Rejeitando qualquer pretensão de neutralidade acadêmica abstrata, ele concebeu a escrita histórica como um campo de batalha, um espaço de confrontação política e memorial.

A originalidade de sua contribuição reside em seu método e sua postura epistemológica. Frank Fernández nunca se limitou a compilar fontes secundárias nem a reproduzir narrativas estabelecidas. Seu trabalho baseou-se em uma leitura minuciosa da imprensa anarquista cubana publicada desde a época colonial, em arquivos sindicais muitas vezes esquecidos e na reconstrução de experiências militantes apagadas pela repressão, pelo exílio ou pela marginalização política. Ele dedicou atenção especial às trajetórias de trabalhadores anônimos, mulheres anarquistas, intelectuais comprometidos, tipógrafos, leitores de fábricas de tabaco, ateneus populares e às formas de organização não hierárquicas que moldaram o movimento libertário cubano.

Essa perspectiva se sintetiza em sua obra principal, El anarquismo en Cuba (2000), traduzida para vários idiomas, que continua sendo uma referência essencial para qualquer estudo sério do movimento operário cubano. Nela, Fernández demonstra que o anarquismo não foi um fenômeno marginal nem um mero precursor ideológico, mas sim um ator central nas lutas sociais, trabalhistas e culturais da ilha. Ele desafia diretamente as narrativas teleológicas que subordinam a história do trabalho ao advento do Estado-nação ou à vitória do socialismo autoritário.

Sua outra obra importante, La Sangre de Santa Águeda (1994), ilustra seu interesse por acontecimentos traumáticos e pela violência estatal, analisados não como episódios isolados, mas como momentos reveladores das dinâmicas de poder social e político. Além dessas obras, publicou numerosos artigos na revista Guángara Libertaria, assim como em diversas publicações libertárias em espanhol e inglês, que constituem um corpus essencial para o estudo do anarquismo cubano no exílio.

Paralelamente ao seu trabalho historiográfico, Frank Fernández foi membro ativo do Movimento Libertário Cubano no Exílio (MLC-E). Participou da fundação e gestão da Guángara Libertaria entre 1979 e 1992, revista que desempenhou um papel central na reestruturação das redes anarquistas cubanas fora da ilha. Essa atividade se desenvolveu em um contexto particularmente hostil, marcado pelo predomínio de correntes políticas conservadoras e anticomunistas em Miami, assim como por pressões e ameaças provenientes tanto do exílio quanto do Estado cubano. No entanto, Fernández manteve-se fiel a uma postura libertária inflexível, rejeitando tanto o autoritarismo estatal quanto os compromissos ideológicos ditados pelo oportunismo político.

No plano intelectual, Frank Fernández defendeu uma história livre de figuras heroicas e narrativas épicas, centrada nas práticas sociais, nas subjetividades subalternas e nas formas concretas de emancipação. Insistiu na necessidade de escrever a história “de baixo para cima”, atento às dinâmicas de poder dentro dos próprios movimentos revolucionários, particularmente no que diz respeito às relações de gênero e às formas informais de poder.

A contribuição de Frank Fernández não se limita a um conjunto de textos. Reside também em um imperativo metodológico e ético: considerar a história como uma ferramenta viva, destinada a nutrir as lutas presentes em vez de santificar o passado. Nesse sentido, sua obra permanece aberta, convidando ao debate, à exploração e, por vezes, à crítica, em consonância com o espírito libertário que o animou.

O falecimento de Frank Fernández deixa um legado historiográfico considerável e um claro convite aos pesquisadores: continuar a exploração crítica da história social cubana sem sucumbir às narrativas hegemônicas e reconhecer plenamente o papel das tradições libertárias na formação dos movimentos de emancipação na ilha de Cuba e em sua diáspora.

Fonte: http://www.polemicacubana.fr/2026/01/frank-fernandez-1932%e2%80%932026-historien-de-l%e2%80%99anarchisme-cubain-militant-libertaire-et-intellectuel-de-l%e2%80%99exil/

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Girando em cores
Sobe a bolha de sabão
– Gritos também sobem.

Mary Leiko Fukai Terada

[Florianópolis-SC] II Colóquio Pesquisa e Anarquismo prorroga as inscrições

Estão prorrogadas as inscrições para o II Colóquio Pesquisa e Anarquismo que acontecerá na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) entre 8 e 11 de abril de 2026. O novo prazo para submissão de trabalhos é até dia 10 de março.

A P R E S E N T A Ç Â O

REVOLUÇÃO ESPANHOLA | 90 ANOS DE ANTIFASCISMO

O anarquismo e suas diferentes manifestações políticas, filosóficas, históricas e práticas têm sido objeto de estudos nas universidades brasileiras desde meados da década de 1970. Grande parte dos estudos sobre as origens da organização sindical no Brasil tiveram como base materiais preservados por militantes anarquistas, muitos hoje disponíveis para consulta em arquivos e instituições oficiais.

Com o passar dos anos houve um crescimento no interesse pela pesquisa sobre o anarquismo em diversas áreas do conhecimento, dando origem a uma gama de TCCs, dissertações de mestrado e teses de doutorado sobre o tema. Esse movimento fez com que muitas das perspectivas em relação ao papel dos anarquistas na história fossem revistas e alguns erros ou omissões cometidos por pesquisadores do passado pudessem ser questionados com base em novas abordagens e fontes que se tornaram acessíveis.

O surgimento de trabalhos científicos nas mais variadas áreas do conhecimento renovam o pensamento e arejam as estruturas acadêmicas, muitas vezes paralisadas pelo comodismo intelectual, pressionadas pela produtividade da universidade capitalista e viciadas pelas disputas pessoais e teóricas que engessam as possibilidades de produzir avanços e reflexões críticas e de qualidade.

Assim, propomos a realização do “II Colóquio Pesquisa e Anarquismo” com o objetivo central de possibilitar a aproximação de pesquisadoras/es que têm como tema de interesse o anarquismo ou que partem de teorias, abordagens e práticas anarquistas para embasar suas produções acadêmicas e militantes. A atual proposta é uma continuidade do I Colóquio realizado em Florianópolis no ano de 2018, e que reuniu pesquisadores e militantes de todo o país em uma intensa programação de atividades, contando com 6 mesas temáticas, 55 apresentações de trabalhos, aula-teatro, lançamentos de livros, apresentações e exposições culturais.

Nesta segunda edição, celebraremos os 90 anos da Revolução Espanhola (1936-1939), episódio de extrema importância para a consolidação das ideias e práticas anarquistas, sendo considerada tanto uma consequência da organização da classe trabalhadora ainda na segunda metade do século XIX, como uma inspiração para a ampliação das lutas sociais e movimentos por uma revolução social embasada nos princípios anarquistas: federalismo, ação direta e combate ao fascismo.

Ainda que rememorando este importante episódio histórico e sugerindo esta temática geral, o evento não será monotemático, se propondo a ser um espaço de diálogos acerca de pesquisas e iniciativas em diversas áreas do conhecimento e abordando diferentes períodos históricos e elementos constitutivos do anarquismo mundial.

Nesse sentido, o colóquio visa garantir espaço para a apresentação de trabalhos concluídos ou em desenvolvimento, a troca de experiências, divulgação de novos estudos, socialização de fontes de pesquisa, exposição de grupos de pesquisa, editoras, livros, revistas e arquivos, e a participação de interessados no anarquismo, militantes e apoiadores destas pesquisas no ambiente acadêmico ou fora dele.

Deixamos o convite à todas as pessoas interessadas em participar!

>> Mais infos, inscrições: pesquisaeanarquismo.wordpress.com

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Na flor premiada
Uma mutuca agitada
Disputa olhares.

Mary

[Espanha] Nem Mulá, nem Xá! Pão e Liberdade!

Nas últimas semanas, assistimos a uma revolta da população trabalhadora iraniana contra o governo da República Islâmica do Irã, na forma de greves, manifestações e, finalmente, até mesmo a proclamação de conselhos operários em algumas zonas do território.

As causas deste levantamento, como em todas as rebeliões populares, são múltiplas e misturam-se as condições econômicas e materiais de vida da classe trabalhadora com a situação política do país, fruto da situação internacional, mas também das próprias lutas que a população iraniana vem acumulando nos últimos anos: desde a luta das mulheres, dos curdos ou das últimas greves em diversos setores, que se misturam com a situação política da região.

Não podemos ignorar que esta situação se está a desenvolver num clima de guerra crescente a nível mundial, mas especialmente nesta região.

Desde o Secretariado Permanente do Comitê Confederal da CNT, com base nos princípios internacionalistas e libertários que inspiram esta organização, queremos expressar nosso apoio à luta que a classe trabalhadora do Irã está travando. Da mesma forma, denunciamos a repressão do governo iraniano contra os protestos e denunciamos também as interferências imperialistas de Israel, dos Estados Unidos e da União Europeia, que estão tentando aproveitar a ocasião para tentar retornar ao antigo regime monárquico criminoso do Xá, derrubado há décadas pelo povo.

Não podemos ignorar que tudo isso acontece num contexto internacional de intensificação dos conflitos armados nas mãos de governos de todos os tipos, numa deriva totalitária de todas as formas de Estado, incluindo aquelas que se apresentam como democracias parlamentares, e que a crise mundial que o capitalismo atravessa está se acelerando.

Diante dessa situação, a classe trabalhadora deve lembrar que devemos lutar em todos os países contra todos os governos, burguesias e classes dominantes que exploram o trabalho em benefício de minorias privilegiadas de qualquer natureza. Devemos lutar em nossos próprios territórios contra a exploração salarial, contra a destruição dos ecossistemas e contra todas as formas de dominação que oprimem os seres humanos em todos os cantos do planeta.

E, acima de tudo, devemos apoiar quando, em qualquer país do mundo, as classes trabalhadoras se opõem à barbárie e à destruição, lutando pela vida e pela liberdade, como acontece hoje no Irã.

Solidariedade com a revolta no Irã!

Nem Mulá, nem Xá! Pão e Liberdade!

Trabalhadores e trabalhadoras do mundo, unamo-nos!

Paz entre os povos, guerra entre classes!

cnt.es

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Frases compostas
no sol que passeia
sob minha caneta.

Jocelyne Villeneuve

Morreu o velho Frank | Até sempre companheiro!

No domingo passado, 18 de janeiro, apenas começando a escurecer o céu, se foi o querido companheiro Francisco Fernández (1932-2026). Paco, em seu entorno familiar e para os amigos próximos. Frank, nos avatares da luta desde espaços anarquistas na contramão dos autoritarismos, das fobias e dos exílios. Morreu em consequência de uma infecção perniciosa que o forçou a internar-se de urgência na Unidade de Cuidados Intensivos em um hospital do sul da Flórida (EUA). Sempre manteve que a Anarquia não era outra coisa que a luta constante pela vida. Consequentemente, se manteve nessa batalha até o último suspiro. Em seus 92 anos, os órgãos vitais deixaram de cumprir suas funções, razão pela qual foi desconectado de toda ajuda mecânica e transladado a «cuidados paliativos». De maneira incrível, com essa atitude quase obstinada que o caracterizava, sua tremenda fortaleza física lhe permitiu lutar contra a morte durante 72 horas.

Sem dúvida, seu falecimento nos deixa um vazio incômodo, desses que exigem preencher sua incomensurável estatura. Historiador do anarquismo em Cuba, Frank Fernández foi antes de tudo um autodidata comprometido com o ideal ácrata. Um incansável investigador que não se conformou nunca em repetir narrativas consagradas nem replicar as versões «maquiadas» dos vencedores. Suas colaborações historiográficas abriram novos caminhos – invariavelmente incômodos — que hoje resultam inevitáveis de transitar se queremos compreender o papel decisivo que desempenharam os anarquistas cubanos entre finais do século XIX e a primeira metade do século XX no desenvolvimento das lutas do movimento obreiro na Ilha. Jamais escreveu desde a distância asséptica da academia nem como exercício ególatra de erudição, mas desde a implicação vital de quem tem consciência de que a história é um potente campo de batalha e não um frio mausoléu.

Defendeu sem trégua os ideais de liberdade que guiaram sua vida e pelos quais sofreu um longo exílio. No entanto, nunca se vitimizou por isso. Seu prolongado exílio foi uma consequência assumida de forma coerente que jamais impactou sua integridade ácrata. Militou no Movimento Libertário Cubano no Exílio (MLC-E) e foi cofundador do coletivo editorial da revista anarquista Guángara Libertaria, trincheira na qual se manteve incólume durante treze anos (1979-1992), apesar «da indiferença ou a franca hostilidade de um lugar tão pouco apropriado como a Miami daqueles anos […] uma marca difícil de igualar se temos em conta o ambiente reacionário e violento que nos rodeava […] a pressão e a perseguição de nossos inimigos, tanto em Miami como em Havana.» [1]

Os que o conheceram recordarão que combinava com precisão de alquimista um humor sarcástico com a firmeza de princípios de quem não sabia ceder terreno. Talvez, a melhor descrição do caráter e da personalidade de Frank ficou registrada em uma entrevista que lhe realizaram M.G. Blázquez e F. Martín para o jornal anarcossindicalista CNT, por ocasião de sua visita «às ruínas do anarquismo espanhol» em Madrid: «Barba branca, ar quixotesco e com um charuto tão unido a ele como a ironia e o verbo fácil.»  Só lhes faltou enfatizar sua profunda obsessão por capturar esse «verbo fácil» [2] em nome de «a outra história». Quer dizer: «Não das guerras, não dos patriotas, mas a história dos escravos, a história das mulheres […] devemos escrever a história eliminando as epopeias, os líderes e divindades das estátuas.» [3]

Em essência, esse foi Frank Fernández, daí que insistisse uma e outra vez, às vezes brincando e outras com seu tom duro e inclusive agressivo, que a história do anarquismo em Cuba não poderia reduzir-se a uma nota de rodapé nos livros oficiais nem a uma coleção de anedotas românticas em torno de nossas derrotas, mas que requeria ser contada por seus protagonistas. Por isso, exigiu sempre a revisão minuciosa dos fatos a partir da leitura atenta das publicações anarquistas editadas com coragem e lucidez desde os tempos coloniais e no resgate da experiência dos fazedores da história: obreiros que abraçaram «a ideia” contra vento e maré; intelectuais que puseram sua pena à serviço das lutas, tipógrafos que deixaram a vida entre linotipos; sindicatos irredutíveis que se consolidaram sem hierarquias, mulheres anarquistas que não só confrontaram o Estado e a Igreja mas também o machismo de seus companheiros; grupos de afinidade que impulsionaram a insurreição contra todo poder até as últimas consequências; leitores de tabacaria que divulgaram a práxis anárquica entre os torcedores; ateneus que ensinavam a ler e a pensar ao mesmo tempo e internacionalistas que, consequentemente, deram sua vida em prol da emancipação. Essas histórias — de carne e osso — nutriram seu trabalho historiográfico.

Autor dos livros “La Sangre de Santa Águeda” [4] e “El anarquismo en Cuba” [5] (traduzido para o alemão, francês, inglês e italiano), assim como incontáveis artigos recolhidos nas páginas de Guángara Libertaria e outros meios anarquistas em castelhano e língua inglesa, Frank nos deixou um inestimável legado de investigação historiográfica e um convite preciso a continuar o caminho emancipador desde a intransigente reafirmação ácrata. Essa convocatória se expressa com singular clareza nos últimos parágrafos de “El anarquismo en Cuba“, uma de suas obras mais conhecidas. Ali deixou plasmado seus anseios para a Ilha cativa, mesmos que hoje ressoam com inquietante vigência: «É prematuro enterrar as ideias libertárias e declara-las mortas quando ainda tem vigência e sobretudo um campo próspero, abonado com sangue de várias gerações e onde de novo renascerão com mais força os pensamentos de um arquétipo elevado da condição humana e sobretudo da liberdade individual e coletiva de todo um povo.» [6]

Um velho adágio atribuído a Abraham Lincoln assinala: «dá-me seis horas para cortar uma árvore e passarei quatro afiando o machado». Essa também era a visão de Frank Fernández. Todos os seus textos foram redigidos com o esmero diligente de quem afia um machado, consciente que será usado uma infinidade de vezes. Agora, ante sua ausência, afastados de liturgias ocas e homenagens de ocasião, não cabe o consolo fácil. Nos fica o encargo, sim, de estar à altura de seu legado e assumir com coerência que sua obra não está fechada. Cada investigação que retome seu trabalho, cada leitura de seus textos, cada discussão em diálogo com suas reflexões «afia o machado» e prolonga de forma concreta sua memória. Talvez, essa seja a forma mais anárquica de se despedir dele e agradecer-lhe seu perene companheirismo.

Até sempre, companheiro Frank!

Até sempre, amigo Paco!

Saúde e Anarquia!

Gustavo Rodríguez,

20 de janeiro 2026.

[1] Fernández, Frank. Memorias de Guángara Libertaria. Revista Cuba Encuentro, núm. 40, primavera 2006, p. 145. Disponible en línea: https://www.cubaencuentro.com/revista/revista-encuentro/archivo/40-primavera-de-2006/memorias-de-guangara-libertaria-29667

[2] Blázquez, M.G. y, Martín, F. Entrevista con el historiador cubano Frank Fernández. CNT, noviembre 2004. Disponible en línea: https://web.archive.org/web/20080313234756/http://www.periodicocnt.org/306nov2004/16 /

[3] Id.

[4] Fernández, Frank (1994). La Sangre de Santa Águeda: Angiolillo, Betances y Cánovas. Miami: Ediciones Universal.

[5] Fernández, Frank (2000). El anarquismo en Cuba. Madrid: Fundación de Estudios Libertarios Anselmo Lorenzo. Colección Cuadernos Libertarios/6. Disponible en línea: https://anarquia.info/wp-content/uploads/2021/08/frank-fernc3a1ndez-el-anarquismo-en-cuba.pdf

[6] Ibidem, p. 134.

Tradução > Sol de Abril

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Limpo o rosto na camisa –
O vento começa a trazer
As primeiras gotas de chuva

Paulo Franchetti

2026: Educação anarquista para a transformação social

Nós, da Editora Monstro dos Mares, entendemos a educação anarquista como uma prática essencial para a transformação social. Acreditamos que ela é um caminho para ampliar a liberdade, fortalecer a autonomia e promover relações solidárias. A educação não deve ser reduzida a modelos tradicionais que reforçam hierarquias, obediências e estruturas de dominação. Deve ser vivida como um processo permanente de construção coletiva, presente no cotidiano das pessoas e dos movimentos que lutam por um mundo mais justo. Essa compreensão inclui as vivências e resistências das comunidades LGBTQIAPN+, das pessoas queer, dos povos originários, das comunidades indígenas e quilombolas, cujas trajetórias colocam em evidência a urgência de uma educação libertária.

Nossa visão sobre educação anarquista rompe com a lógica de transmissão unilateral do conhecimento. Defendemos um processo de aprendizagem baseado na colaboração e no respeito à autonomia de cada pessoa. Os saberes precisam circular de maneira horizontal, criando espaços onde todos possam ensinar e aprender, valorizando a diversidade e construindo ambientes realmente inclusivos. A educação libertária é inseparável da pluralidade de identidades, culturas e experiências que compõem nossas comunidades.

A educação precisa ser prática e transformadora. Em nossas publicações, buscamos estimular o pensamento crítico e fomentar reflexões que atravessam dimensões sociais, políticas, ambientais e identitárias. A educação anarquista acontece nos livros, mas também nas ruas, nas praças, nas bibliotecas comunitárias, nos espaços autogestionados e em qualquer lugar onde o aprendizado seja livre e espontâneo. A ação direta é parte desse processo. Ela surge como expressão concreta do conhecimento compartilhado e das mudanças que desejamos construir, ampliando e acolhendo especialmente as vozes e experiências marginalizadas.

Criticamos com firmeza o sistema escolar tradicional que reproduz desigualdades, restringe o acesso a saberes diversos e organiza a vida a partir da obediência a normas e autoridades. Defendemos uma educação inclusiva, participativa e emancipadora, capaz de fortalecer a autonomia e a consciência crítica de cada pessoa. Nosso compromisso é fomentar caminhos que permitam participação ativa na construção de um futuro mais igualitário, onde ninguém seja excluído por sua origem, gênero, orientação, identidade ou território.

As raízes da educação anarquista remontam ao início do século passado, quando pensadores e militantes libertários desenvolveram experiências pedagógicas que marcaram profundamente os debates educacionais. Francisco Ferrer y Guardia, com a Escola Moderna, inspirou escolas racionalistas em diversos países, inclusive no Brasil. No contexto brasileiro, diversos grupos anarquistas ligados ao movimento operário organizaram escolas livres, cursos noturnos, universidades populares e práticas educativas voltadas à emancipação da classe trabalhadora. Suas iniciativas defendiam a coeducação, a laicidade, a autonomia e o combate às estruturas autoritárias que moldavam a escola tradicional. Esses esforços mostram que a educação anarquista é uma prática histórica, coletiva e profundamente transformadora.

A educação libertária deve se refletir em todos os aspectos da vida social. Promovemos práticas educativas autônomas, que não dependem do mercado ou do Estado para existir. Nosso papel é contribuir para uma sociedade onde o conhecimento seja ferramenta de resistência e libertação, capaz de enfrentar as estruturas opressivas e ampliar a autonomia das pessoas sem qualquer forma de discriminação. A educação anarquista é um instrumento de subversão criativa, acolhendo as especificidades de cada comunidade e fortalecendo redes de solidariedade.

Seguimos firmes no compromisso com a produção e disseminação de ideias que questionam as convenções educacionais. Construímos alternativas que inspiram caminhos decoloniais, autônomos e transformadores, capazes de reconhecer e valorizar identidades, saberes e experiências diversas. Nosso trabalho busca um futuro em que a liberdade, a igualdade, a solidariedade e o respeito às múltiplas expressões da vida sejam pilares de uma sociedade baseada em conhecimento compartilhado e práticas verdadeiramente livres.

Feliz 2026
Felipe Siles, Caronte Mayer e Baderna Jaime.

monstrodosmares.com.br

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Sopra o vento
Segura-te borboleta!
Na pétala da flor.

Rodrigo de Almeida Siqueira

Daniel Colson (1943-2026).

Pensador anarquista singular e generoso, sua obra traçou linhas vivas de revolta e criação

Por David Berry | 11/01/2026

Daniel Colson, teórico anarquista e historiador do movimento operário, faleceu no dia 9 de janeiro em Lyon (França). Tinha 82 anos.

Colson foi um membro ativo do movimento anarquista em Lyon desde o início dos anos 1970. Fez parte do coletivo que dirigiu a livraria anarquista da cidade ‘La Gryffe’ desde sua criação em 1978 e foi membro do coletivo editorial da revista anarquista Réfractions desde 1997. Professor de sociologia na Universidade de Saint-Étienne, publicou extensivamente sobre história operária, sindicalismo revolucionário, anarquismo e, recentemente, filosofia.

Colson mudou-se para Lyon, a segunda maior cidade da França, em 1966, onde estudou sociologia, após passar dois anos estudando filosofia em um seminário perto de Clermont-Ferrand. Na universidade, descobriu a política revolucionária e logo se envolveu no movimento estudantil, dominado no final dos anos 1960 por maoístas, trotskistas e outros grupos de gauchistes (esquerdistas, termo pejorativo usado originalmente pelo Partido Comunista Francês para se referir aos estudantes revolucionários de 1968, em referência à obra de Lenin “O Comunismo de Esquerda: Uma Doença Infantil”).

Graças à sua amizade com o comunista libertário Michel Marsella, Colson também conheceu o anarquismo, o grupo Socialisme ou Barbarie em torno de Cornelius Castoriadis, o situacionismo, os espartaquistas, etc. Como muitos de seus contemporâneos, participou da campanha contra o imperialismo estadunidense, em particular contra a guerra do Vietnã, e foi o principal impulsor do “Comitê do Vietnã” no centro histórico de Lyon. O grupo publicou um boletim, Informations rassemblées à Lyon (IRL), e após a repressão e o colapso do movimento de 1968, o “Comitê do Vietnã” transformou-se no “Comité de quartier du Vieux-Lyon” (Comitê do Bairro do Centro Histórico de Lyon).

Quando anos depois lhe perguntaram quais haviam sido os objetivos desse comitê, Colson respondeu: “Nada menos que criar o embrião de uma insurreição a nível local”. Influenciado pelos trabalhadores da indústria automobilística que ocupavam as fábricas locais da Berliet, o grupo decidiu ocupar a Maison des jeunes, centro juvenil local, onde o comitê se reunia nos meses anteriores. “Éramos muito ambiciosos. Esperávamos seriamente, quando dadas as condições adequadas, tomar a delegacia local, incluindo seu arsenal”. Esse plano nunca se materializou, embora o grupo tenha ocupado brevemente a prefeitura.

Colson também se inspirou em 1968 e, especialmente, em sua experiência de “espontaneidade na ação e na organização”, incluindo a ampla cooperação entre estudantes e trabalhadores. Para ele foi de suma importância a descoberta de três obras: a história em quatro volumes da Primeira Internacional, escrita pelo anarquista suíço James Guillaume; A revolução desconhecida, do anarquista russo Voline (publicada originalmente em francês em 1947, mas reeditada após 1968 por Daniel Guérin e pelo artista anarquista Jean-Jacques Lebel); e O Anti-Édipo: Capitalismo e esquizofrenia (1972), de Gilles Deleuze e Félix Guattari.

Não que ele entendesse absolutamente o Anti-Édipo quando tentou lê-lo pela primeira vez (na verdade, achou-o “bastante indigesto”) e mesmo dez anos depois, quando tentou novamente, só conseguiu entender o primeiro capítulo: para Colson, aquele capítulo demoliu com sucesso o “enorme aparato teórico marxista” que dominava a esquerda francesa naquele momento, e deixou claro “não apenas o poder teórico, mas também o emancipador, ético, filosófico e prático do anarquismo”.

Colson participou ativamente de vários jornais anarquistas: os Cahiers de mai, lançados em junho de 1968 e que foram a voz dos Comitês de Ação que haviam surgido por toda a França; ICO (Informations et Correspondences Ouvrières), centrado nas lutas operárias autônomas, fora de sindicatos e partidos; e IRL (Informations rassemblées à Lyon), literalmente notícias reunidas em Lyon, que publicava relatos de testemunhas oculares e documentos sobre as lutas sociais na área de Lyon que não apareciam na imprensa convencional nem nos principais jornais de esquerda. O IRL, que Colson ajudou a criar, interessava-se pelas lutas operárias, mas também pelo não legalismo e outras formas de resistência, e discutia uma variedade de movimentos: anarquismo, conselhismo, feminismo, ecologia, antimilitarismo, liberação sexual, etc.

Após retornar ao mundo acadêmico, Colson doutorou-se em 1983 com uma tese – posteriormente publicada como livro – sobre o anarcossindicalismo e o comunismo no movimento operário de Saint-Étienne, 1920-1925. (Se você já teve dúvidas sobre a diferença entre os termos “sindicalismo”, “sindicalismo revolucionário” e “anarcossindicalismo”, e sobre como o outrora sindicalista revolucionário movimento operário francês veio a ser dominado pelo comunismo, este livro é para você). Em 1998, publicou um segundo livro histórico-sociológico sobre a indústria siderúrgica – e seus donos, os famosos “barões do ferro” ou mestres ferreiros – em Saint-Étienne desde meados do século XIX até a Primeira Guerra Mundial.

Em 1978, Colson fez parte do grupo original de ativistas anarquistas que fundou a livraria La Gryffe em Lyon, coletivo que permanece ativo. Além de vender seu habitual catálogo de obras anticapitalistas e antiautoritárias, La Gryffe também conta com uma sala de reuniões onde regularmente acontecem debates, exposições, projeções de filmes, etc. Quando Colson publicou um livro sobre o coletivo em 2020, teve cuidado de não oferecer uma visão idealizada de um grupo anarquista bem-sucedido, mas destacou também a longa e por vezes difícil história sobre a qual se construiu La Gryffe, incluindo sérias diferenças de opinião e conflitos dentro do coletivo, conflitos que foram resolvidos de acordo com os princípios anarquistas.

Colson explicou certa vez, em uma palestra sobre “Proudhon e a relevância contemporânea do anarquismo”, cujo principal objetivo era defender a reabilitação de Proudhon, que ainda era impopular nos círculos anarquistas, que havia descoberto Proudhon aproximadamente ao mesmo tempo, nos anos setenta, em que descobriu o “nietzschianismo de esquerda” de Foucault e, especialmente, de Deleuze. Deleuze, argumentou, desenvolveu um pensamento emancipador que tinha muito em comum com Proudhon.

De fato, afastando-se de seu trabalho sociológico anterior, e depois de escrever livros sobre Proudhon e Malatesta, Colson concentrou-se cada vez mais na filosofia, e estava especialmente interessado em Spinoza, Leibniz, Nietzsche, Deleuze e Guattari (entre outros) e em como seus pensamentos se relacionavam com o anarquismo. Isso resultou em uma série de palestras em congressos, artigos de revistas e livros sobre esses temas. Em 2022, por exemplo, ele publicou um livro sobre ” anarquismo da classe trabalhadora e filosofia”. Infelizmente, apenas um de seus livros foi traduzido para o inglês (por Jesse Cohn): o Pequeno Léxico Filosófico do Anarquismo. De Proudhon a Deleuze — “uma exploração provocativa de afinidades e genealogias ocultas no pensamento anarquista“.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2026/01/11/daniel-colson-1943-2026/

Tradução > Liberto

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os olhos parados
na cortina da varanda –
brasas da tarde

Alexandre Pasqual

Lançamento: “Anarquismo e Sindicalismo em Santos vol. 1”, de Marcolino Jeremias

A Biblioteca Terra Livre (BTL) e o Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri (NELCA) têm a alegria de anunciar que o livro Anarquismo e Sindicalismo em Santos vol. 1 está à venda.

O livro de 416 páginas, dividido em 37 capítulos, foi escrito por Marcolino Jeremias, membro do NELCA e do CCS (Centro de Cultura Social), e apresenta a luta dos oprimidos durante os fins do século XIX e início do XX, período no qual a cidade de Santos (SP) foi frequentemente mencionada como a Barcelona Brasileira pela efusão de lutas sociais e de sociabilidade trabalhadora.

O presente livro resgata esse período de maneira singular, pormenorizada e com riqueza de fontes documentais pouco estudadas pela historiografia sobre o tema. O livro conta com grande quantidade de documentos raros como fotografias, manuscritos e imagens de jornais e livros da época. Já em sua introdução e primeiros capítulos é possível observar a cidade como centro de resistência às desigualdades e aos contextos históricos e políticos estabelecidos.

O livro conta com apresentação da historiadora Samanta Colhado Mendes.

Anarquismo e Sindicalismo em Santos vol. 1

Autor: Marcolino Jeremias

Edição: Biblioteca Terra Livre e o Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri

Páginas: 416

Preço: R$ 80,00

Contato: bibliotecaterralivre@gmail.com ou  nelca@riseup.net

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não tenho país
nem casa nem riqueza
e como me sinto bem!

Rogério Martins

[Argentina] A xenofobia virou de esquerda?

Se ainda é possível falar em direita e esquerda, vale este título. O mesmo sustentávamos no início do artigo “O pós-moderno virou de direita?” (nº 99), onde fazíamos um jogo em relação ao livro intitulado A rebeldia virou de direta?.

O patriotismo exacerbado já não é tanto um sinal de identidade da direita, mas sim da esquerda. Uma derivação possível é o anti-imperialismo anti-EUA, que supõe que não há outros países imperialistas, ou em todo caso que são menos ruins, aliados necessários. Todas as formas de anti-imperialismo nos vêm dizer que não há classes, mas países opressores e oprimidos; que a burguesia local nos explora porque estaria a serviço, não do lucro, mas de interesses ianques; que já não seriam exploradores, mas cipaios. É uma maneira de preservar intocável o modo de produção capitalista, muito eficaz porque sequer o reconhece.

Se seguirmos essa lógica, também há explorados cipaios; em resumo, aqueles que não se identificam com as políticas progressistas. Se algo caracteriza o grande e difuso campo da esquerda argentina é que ele define de acordo com sua moral e não com considerações materiais de existência. Um trabalhador é “povo” se pensa como eles; caso contrário, sua participação nessa categoria entra em risco.

Geral e lamentavelmente, o proletariado não se mobiliza por causas profundas, mas parciais. Isso não é propriedade exclusiva da esquerda. Muitos migrantes venezuelanos anti-Maduro comemoraram a queda do sucessor de Chávez. Isso liberou muitos “progressistas” para poder externar sua xenofobia sem culpas nem considerações: nas redes sociais abundaram comentários violentos contra os migrantes, exortando-os a voltar para seu país, zombando de seus trabalhos precários (imaginando-os como entregadores de aplicativo, fazendo também outra discriminação). Emitiram essas agressões como se não fosse evidente que a Venezuela está mergulhada na miséria e que por isso um quinto de sua população emigrou nos últimos anos, como se ser entregador de aplicativo fosse uma opção do amplo mercado de trabalho.

Mas, o que é xenofobia? É a rejeição e hostilidade contra pessoas estrangeiras ou percebidas como diferentes por sua nacionalidade, cultura ou etnia. Tem pouco de “fobia” (medo), já que é originada por preconceitos e estereótipos negativos sobre o estrangeiro, o desconhecido. Trata-se, no fim das contas, da competição entre proletários que vivem num mesmo país: os locais presumem ter mais direito ao trabalho e a ajudas sociais do que os estrangeiros. Será, por acaso, a competição entre precários do mesmo nível? É por isso o estranhamento argentino com os “venezuelanos”?

Patriotismo progressista

O patriotismo ganha força quando, nos sucessivos ajustes, em vez de confrontar o Capital em seu conjunto, a raiva se dirige apenas aos grandes capitais e, portanto, à defesa dos pequenos. Pequenos, mas capitais, no fim das contas.

O que é, senão o desespero diante das importações? Uma defesa indireta da indústria local com preços que pulverizam nossos salários diante do perigo iminente da pulverização de postos de trabalho. Encontrarmo-nos numa encruzilhada não significa ter de tomar partido por estes ou aqueles capitalistas. No mínimo, temos que compreender em que encruzilhada nos encontramos e quais são suas características; não recorrer automaticamente ao nacionalismo para sofrer patrioticamente.

O nacionalismo, já não exclusivo dos conservadores, tornou-se um credo progressista. Até a esquerda acusa a direita de traição à pátria. Os nacionalistas de esquerda insistem em que seus nacionalismos nada têm a ver com o nacionalismo dos fascistas ou dos nacional-socialistas, e que o deles é um nacionalismo dos oprimidos que oferece não apenas a libertação individual, mas também cultural. Para refutar essas pretensões é necessário compreender a divisão de classe da sociedade capitalista, o absurdo e a arbitrariedade das fronteiras nacionais, e partir do mercado mundial para compreender os desastres locais.

O povo argentino

Pode-se agrupar “os venezuelanos” de acordo com preconceitos e experiências, assim como se pode fazer com “os argentinos”, mas sabemos que muitas vezes o único que temos como denominador comum é o RG (Registro Geral).

Em números atrás, propúnhamos desnaturalizar a população, porque a população não é um simples amontoado de seres humanos, não é um fato natural. A produção e reprodução da população são históricas, e cada modo de produção supõe um desenvolvimento particular de sua população, tanto em quantidade quanto em características.

Dado que não queremos fazer economia nem política, coincidimos com Marx em sua apreciação sobre a população publicada em Elementos fundamentais para a crítica da economia política (“Grundrisse”, 1857). Quando consideramos um país do ponto de vista econômico-político, começamos por sua população. Parece justo começar pelo real e pelo concreto. No entanto, a população é uma abstração se deixarmos de lado as classes que a compõem. Estas classes são, por sua vez, uma palavra vazia se desconhecermos os elementos sobre os quais repousam: o trabalho assalariado ou o Capital. Estes supõem troca, divisão do trabalho, preços, etc. Se começássemos, pois, pela população, teríamos uma representação caótica do conjunto e, precisando cada vez mais, chegaríamos analiticamente a conceitos cada vez mais simples: do concreto representado, chegaríamos a abstrações cada vez mais sutis até alcançar as determinações mais simples. Nesse ponto, teríamos que empreender a viagem de retorno até dar novamente com a população; mas desta vez não teríamos uma representação caótica de um conjunto, mas uma rica totalidade com múltiplas determinações e relações. (“Natalidade e Capital na Argentina”, nº 100)

Desse modo, um povo é algo construído e representado. Existe, porém, a forma de categorizá-lo não é natural, a maneira de designá-lo é política. Ele não existe à espera de ser reconhecido e ter significado; é algo totalmente construído. Sem o que “passionalmente” conhecemos como povo, a razão de Estado careceria de sentido. Os próprios limites geográficos, graças aos quais se pode definir “o povo argentino”, são estabelecidos a partir do Estado argentino. Primeiro o Estado, depois seu povo; jamais ao contrário. Em sua acepção mais corrente, para que exista um território determinado deve existir um Estado determinado. (“Ao grande povo argentino, saúde?”, nº 86)

“Fora ianques”

Quem vai pagar caro pela invasão estadunidense e pelo complexo industrial-militar são os próprios habitantes dos Estados Unidos. Um país com desemprego, uma saúde pública paupérrima, onde os viciados morrem nas ruas e o dinheiro é utilizado para maior lucro: um país capitalista como deve ser.

Mas então, por que a obsessão com a palavra de ordem “fora ianques da América Latina”? Por que reduzi-la a uma questão de países? Por que não se incomodar com os negócios chineses ou russos no mesmo território? Será uma tarraquice setentista ou simplesmente automatismo ideológico?

Se há algo que pode unir a esquerda, é essa imprecisa palavra de ordem: a seleção obsessiva de um inimigo, que é o Capital maior de uma comparação muito limitada e que nos diz: o capital estrangeiro não permite o desenvolvimento de “nossa América”. Então, o nacionalismo viria a ser aliado dos oprimidos. Isto não é simplesmente uma apologia da pátria e do Estado, mas principalmente do Capital e, especialmente, dos capitais ineficientes. O que ocorreu na Venezuela é uma repartição forçosa do butim, onde capitais mais desenvolvidos, portanto mais produtivos, impõem-se a capitais ineficientes.

Soma-se o curinga do antifascismo, que serve para designar tudo o que, desde a esquerda, não é amigo e, portanto, é inimigo; surge a figura do “facho pobre”, ou do “pobre de direita”. Para os herdeiros do socialismo do século XXI, são eles que merecem as zombarias quando sofrem ou ficam sem trabalho. Por sua vez, a ala mais à esquerda do progressismo (os trotskistas, por exemplo) também zomba ou os despreza. Não surpreende, pois, que, segundo sua leitura, quando os pobres votam num projeto nacionalista burguês, eles estão mais próximos deles do que quando não o fazem. Por isso, durante os últimos anos na Argentina, dedicam-se a seguir a agenda do peronismo e a convencer seus militantes de que as verdadeiras tarefas nacionais e democráticas serão feitas por eles.

Por nossa parte, insistimos com uma velha palavra de ordem: “o proletariado não tem pátria”. Trata-se de uma perspectiva de luta contra o nacionalismo, para evitar ser carne de canhão nas guerras, nas crises, na exploração cotidiana. É certo que não podemos fingir que os países não existem, e muito menos abstrair-nos das particularidades regionais. Mas, de modo algum, podemos esquecer que o modo de produção capitalista é mundial, e que um migrante nunca é nosso inimigo.

Fonte: https://boletinlaovejanegra.blogspot.com/2026/01/la-xenofobia-se-volvio-de-izquierda.html

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

na blusa velha,
muitas borboletas –
ele adora tocá-las…

Rosa Clement

partimos, mas retornamos em fevereiro de 2026. | libres y salvajes!