[Itália] Sole ainda arde

11 de julho de 1998.
 
Maria Soledad Rosas (foto), para todos Sole, tira a vida com um lençol em uma comunidade na região de Cuneo. Tem vinte e quatro anos. É argentina. Anarquista. Rebelde.
 
Quatro meses antes, na prisão das Vallette, havia tirado a vida seu companheiro, Edoardo Massari, Baleno. Também ele acusado de ecoterrorismo. Também ele atropelado por uma investigação que, anos depois, se dissolveria.
 
Primeiro Baleno. Depois Sole.
 
Em 5 de março de 1998, os ROS invadem o antigo necrotério do manicômio de Collegno. Ali vivem Sole, Baleno e Silvano Pelissero. As prisões são deflagradas. As manchetes estouram.
 
“Ecoterroristas.”
“Anarco-insurrecionistas.”
“Lobos Cinzentos.”
 
Em 2002, a Corte de Cassação reverte o caso: as acusações desmoronam, as provas não se sustentam, os crimes imputados deixam de existir. Mas essa verdade chega tarde. Tarde demais. Absolvidos quando já não podiam mais ouvir a sentença.
 
Também esta não é apenas a história de uma investigação equivocada. É a história de uma engrenagem que gira sempre do mesmo jeito. Primeiro precisa-se de um culpado. Batiza-se o monstro. Oferece-se à opinião pública. Depois vêm os anos. Os papéis mudam de peso. As acusações se esfacelam. Os processos terminam. Mas a essa altura não interessa mais a ninguém. Porque o alvo já havia cumprido o seu papel.
 
As palavras deixadas por Sole após a morte de Baleno continuam sendo um dos testemunhos mais duros sobre a prisão. Ela escreve que ali dentro você não pode decidir nada. Nem mesmo quando ver o sol. A prisão, ela relata, não te mata de uma vez. Te consome aos poucos. Te rouba o fôlego, a linguagem, a confiança.
 
Quando decide ir embora, deixa poucas linhas. “Não conheço outra maneira de ser livre.”
 
Mudam os governos. Mudam os rótulos. O roteiro continua o mesmo: pelourinho, criminalização, isolamento.
 
Sole, porém, continua a arder. Arde nas pichações nos muros. Nas manifestações. Porque há fogos que o tempo não apaga. Nós os guardamos.
 
Alfredo Facchini
 
Tradução > Liberto
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
No oco da árvore
Os filhotes da coruja
Já querem voar.
 
Amanda Onisko – 10 anos

[Espanha] 19 de julho / Jornada de Homenagem pelo 90º Aniversário da Revolução Social Espanhola (1936-2026)

Desde o Sindicato Único de Ofícios Vários de Albacete, da Associação Internacional dos Trabalhadores, organizamos uma jornada de comemoração do 90º aniversário da Revolução Social Espanhola na cidade de Albacete.
 
Vale lembrar que no próximo dia 18 de julho se completarão 90 anos da revolta militar facciosa contra a Segunda República, mas, acima de tudo, contra o movimento operário revolucionário, representado principalmente pela CNT e pela FAI e, em menor medida, pela UGT.
 
No entanto, nós, anarcossindicalistas, não celebramos nem comemoramos o dia 18 de julho. Os anarquistas e anarcossindicalistas comemoramos o dia 19 de julho de 1936; pois é nessa data que se completam 90 anos da vitória do movimento operário contra o Exército faccioso, a Guarda Civil e o fascismo espanhol nas ruas de Barcelona e de outras cidades, como Valência.
 
Desse confronto vitorioso, onde as barricadas foram erguidas e onde o povo armado conseguiu fazer o exército se render nas ruas. Uma cidade que se tornou o epicentro de uma revolução social e proletária: Barcelona. Rapidamente, a partir das barricadas, dos Comitês de Defesa e dos sindicatos, surgiram as primeiras colunas de milicianos e milicianas operárias que correram em auxílio de Zaragoza e, ao passarem por Aragão, realizaram a revolução que tanto ansiavam.
 
No entanto, o dia 19 de julho em Albacete teve um significado diferente, pois durante todos aqueles dias alguns municípios e a cidade de Albacete estiveram sob o controle do Exército, da Guarda Civil e dos falangistas. Foi somente no dia 25 de julho de 1936 que as milícias operárias antifascistas chegaram à cidade, vindas de Chinchilla e, por sua vez, de Hellín, Múrcia e Cartagena, e de Almansa, Valência e Alicante.
 
A vitória proletária frente à revolta militar e fascista não se limitaria apenas ao sucesso sobre o exército, nem à reconstrução do Estado republicano que havia perdido sua força. Os operários e camponeses viram uma clara oportunidade para implementar muitas das conquistas econômicas e revolucionárias que há anos almejavam. Esse fato fez com que a revolução social se expandisse e se desenvolvesse principalmente no âmbito econômico: nos campos, nas fábricas e nas oficinas; dando origem a uma economia fundamentada na autogestão operária, sob diversas formas.
 
Com esse objetivo, nosso sindicato organizou diversas atividades no âmbito dessa mesma jornada para comemorar esses acontecimentos.
 
>> Confira a programação da Jornada aqui:
 
https://cntaitalbacete.es/2026/07/cultura-19-julio-jornada-de-homenaje-por-el-90-aniversario-de-la-revolucion-social-espanola-1936-2026/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Borboleta grande
Balançando comigo
Na rede do quintal.
 
Letícia Carlim de Oliveira – 9 anos

[São Paulo-SP] Por quê Piotr Kropotkin segue marginalizado na história do pensamento evolutivo?

Enquanto predominam na história do pensamento evolutivo alguns pensadores, outros como Piotr Kropotkin seguem marginalizados, por quê?

O Centro de Cultura Social (CCS) convida todos, todas e todxs para debater esse tema com Claudio Ricardo Martins dos Reis, biólogo, professor e pesquisador em Filosofia, História e Sociologia da Ciência na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Quando? Sábado, dia 18 de julho de 2026, às 16hs.

Centro de Cultura Social (CCS)

Rua General Jardim, 253, sala 22 (interfone)

Vila Buarque, Praça da República, São Paulo (SP)

agência de notícias anarquistas-ana

No céu azul
parecendo pequenina
a grande gaivota.

Paula Lima Castanheira – 13 anos

Espanha 1936–2026: O Fogo que a História Não Conseguiu Apagar

Noventa anos. Noventa primaveras desde que a chama da insurreição libertária varreu a Península Ibérica com a força de um furacão consciente. Não se trata de um fóssil histórico para contemplação acadêmica, mas do eco pulsante dos passos das milícias, do rumor ensurdecedor das fábricas autogeridas e do sopro do vento livre sobre os campos outrora cercados de latifúndios. A Revolução Espanhola de 1936 não foi uma simples rebelião; foi o despertar furioso de um povo que, cansado de séculos de grilhões, decidiu com as próprias mãos forjar o seu céu na terra, recusando-se a esperar por salvadores ou messias de gabinete.
 
Esqueçam as narrativas dos mansos e dos historiadores de serviço. A Espanha daqueles dias provou, com fatos concretos e números irrefutáveis, que os explorados e oprimidos não precisam de patrões, nem de burocratas, nem de tiranos. Em Barcelona, os bondes eram dos trabalhadores; as minas, das comunidades; a terra, de quem a suava com as próprias costas. A produção industrial não apenas se manteve – ela floresceu sob a lógica da solidariedade e da necessidade, destruindo para sempre o mito cínico de que a “natureza humana” é egoísta. Foi a comprovação material, palpável, de que a ordem pode nascer do caos criativo, e que a justiça social é filha legítima da livre associação, não da caridade estatal.
 
E fizeram tudo isso diante do inferno. Com o fascismo batendo às portas, com a penúria de armas, o bloqueio internacional e a espinha dorsal do mercado capitalista latejando contra eles, os anarquistas não apenas resistiram: construíram. A viabilidade do anarquismo não se provou nos livros de Kropotkin ou Bakunin, mas no fragor da batalha e no suor da jornada de trabalho coletiva. Em Aragão, o sonho libertário tornou-se pão e vinho, distribuídos pela régua da justiça e não pela ganância dos abutres; nas cidades, os comitês de bairro eram escolas vivas de autogoverno, onde cada decisão era debatida, suada e executada horizontalmente. A Revolução mostrou que, mesmo diante da escassez e da guerra, a cooperação vence a competição – e vence produzindo vida, não lucro.
 
Claro, os dogmáticos de todas as estirpes – os stalinistas que nos apunhalaram pelas costas e os democratas burgueses que nos temeram mais que a Franco – lembram-nos constantemente da derrota militar. Que lembrem. Mas a derrota dos corpos não é a derrota da ideia; a queda de uma experiência histórica não é a falência de um princípio. Se a Revolução foi esmagada pelas balas e pela traição, o legado que nos deixou é indestrutível. Ela provou, diante da história, que existe uma alternativa real à barbárie do Estado e do capital. A lição não está na efemeridade da vitória tática, mas na eternidade do exemplo: quando o povo age por si, sem tutelas ou vanguardas iluminadas, a história se curva – ainda que por um instante glorioso – à vontade coletiva.
 
Noventa anos depois, enquanto o mundo regurgita as mesmas velhas receitas de exploração, guerras imperialistas e crise ecológica, a Revolução Espanhola permanece como uma estrela-guia do horizonte libertário. Não como um fetiche empoeirado do passado, mas como uma ferramenta viva em nossas mãos, um manual prático de como se organizar sem chefes. Cada greve horizontal, cada ocupação de terra, cada mutirão comunitário e cada movimento autogestionário que brota hoje é a continuidade daquela primavera vermelha e negra. Recordar é reavivar a chama; celebrar os 90 anos é reafirmar, com a certeza de quem já viu o impossível acontecer, que sim, é possível. E mais: é urgentemente necessário.
 
Liberto Herrera.
 
Fonte: https://libertoherrera.noblogs.org/2026/07/13/espanha-1936-2026-o-fogo-que-a-historia-nao-conseguiu-apagar/  
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
Me estremeço –
O cantar da araponga
atrás dos montes!
 
Isabely Marques de Melo – 9 anos

[Canadá] Rumo a uma coordenação de solidariedade com a Cuba libertária!

Há cinco anos, neste mesmo dia (11 de julho), em Cuba, pequenos grupos de manifestantes saíram às ruas para exigir melhores condições de vida. Nos dias seguintes, milhares de cubanos de dezenas de outras cidades uniram espontaneamente suas vozes a esse movimento de protesto.
 
O dia 11 de julho de 2021 não foi apenas um grito contra a fome ou a escassez; foi o momento em que milhares de pessoas descobriram que, diante de um Estado transformado em um capataz sufocante, a única saída é deixar de olhar para o poder. Os protestos em Cuba nos deixaram a lição mais antiga e esquecida do anarquismo: que toda autoridade, quaisquer que sejam as aparências ideológicas que ostente, só se mantém através da obediência e da repressão.
 
E os anarquistas cubanos ainda estão lá, organizando diversos coletivos independentes, dando visibilidade à realidade dos presos políticos, mantendo uma postura de rejeição ao autoritarismo estatal, promovendo a autogestão, a ajuda mútua e a soberania popular real.
 
Aos anarquistas de todo o mundo!
 
A todos os militantes operários sedentos de liberdade para a classe trabalhadora!
 
Vamos lutar para acabar com o apoio ao PCC dentro de nossas organizações sindicais e operárias! Nossa solidariedade como classe não tem nada a ver com o poder de nenhum partido, seja ele qual for!
 
Vamos ouvir e divulgar as vozes dos sindicalistas independentes em luta e dos anarquistas cubanos, estejam eles na ilha ou em outro lugar! Não deixemos que suas vozes sejam silenciadas!
 
Vamos nos informar sobre a história do movimento operário e anarquista cubano! Lembrar o passado anarquista da ilha é a melhor maneira de mantê-lo vivo!
 
Juntos, formemos uma coordenação internacional em solidariedade a uma Cuba libertária! Quebremos o isolamento e ajudemo-nos mutuamente além das fronteiras!
 
Talvez hoje sejamos apenas algumas poucas pessoas aqui e acolá, mas sabemos que nossa classe é a força do mundo e que o desejo de liberdade sempre alimentará as revoltas do amanhã.
 
Círculo de Amigos da AIT – Canadá
 
cercleait.org
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
Tarde de sol –
O canário alegra
O boteco vazio.
 
Rafael Oliveira dos Santos – 12 anos

[Áustria] Elogio aos Desertores – Abaixo o Capitalismo Arco-Íris

O capitalismo pode transformar qualquer coisa em uma mercadoria vendida no mercado para maximizar o lucro. Até mesmo aspectos da nossa sexualidade e do nosso gênero tornam-se parte de um grande plano de negócios. Podemos ver isso em diversos festivais e paradas do “orgulho” patrocinados por corporações ou partidos políticos, que funcionam como campanhas publicitárias para empresas que tentam nos convencer de que, desde que seus negócios sujos operem sob a bandeira do arco-íris, está tudo bem.

Em junho de 2026, participamos de um evento do “Orgulho” em Graz com o nosso “bar pirata”. Antes disso, alguém havia expropriado bebidas alcoólicas e não alcoólicas dos templos capitalistas do consumismo e as levado para a ocupação Lotta Occupato, onde o bar móvel foi decorado e montado. Coquetéis e outras bebidas foram então servidos em troca de contribuições voluntárias. Com esse pequeno gesto subversivo, desviamos uma parte da receita dos “capitalistas arco-íris”. No entanto, não investimos o dinheiro arrecadado na expansão do nosso negócio, como teriam feito os figurões* por trás das campanhas de pinkwashing. Os 320 euros arrecadados foram transferidos para o fundo da rede de solidariedade “Solidarity is the Way”, que utilizará os recursos para organizar assistência prática a desertores e refugiados da zona de guerra na Ucrânia.

Agradecemos a todas as pessoas que tomaram uma bebida, fizeram uma contribuição voluntária e/ou discutiram por que o capitalismo (arco-íris) não pode trazer libertação às pessoas queer nem a quaisquer outros grupos e indivíduos oprimidos.

Fonte: https://antimilitarismus.noblogs.org/post/2026/07/09/praise-for-the-deserters-down-with-rainbow-capitalism/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Luz do luar –
As águas brilhando
no véu da cachoeira!

Bruno Mateus Castanheira – 10 anos

[Itália] Operação 16 de junho: Todos os companheiros alvos da investigação foram libertados!

Temos o prazer de informar que Micol, Nico, Bibi, Arnau, Stefano, Luna e Giulia, os companheiros presos ao abrigo do Artigo 270-bis durante a operação antianarquista de 16 de junho, foram libertados da prisão pelo Tribunal de Apelação, que considerou as acusações de conspiração inconsistentes.
 
Aguardamos notícias sobre Toni e Pietro, cuja situação é diferente, uma vez que não foram alvo de medidas cautelares, mas foram detidos sob a acusação de “terrorismo de discurso” (270 quinquies terceiro parágrafo) na sequência da apreensão de alguns panfletos encontrados com eles durante a busca na casa.
 
Entretanto, vamos celebrar o retorno dos sete companheiros às ruas!
 
Mais informações em breve.
 
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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/07/02/italia-atualizacao-sobre-pietro-e-companheirxs-presxs-em-16-de-junho/
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/06/18/italia-em-tempos-de-guerra-sobre-a-batida-anti-anarquista-de-16-de-junho/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Fundo do jardim
Borboletas coloridas
Fotografo da janela.
 
Threicy de Oliveira – 9 anos

Às Armas! o Levante de Manoel Bernardino no Maranhão (1921)

Manuel Bernardino de Oliveira foi um agricultor, professor e revolucionário brasileiro que liderou grupos armados contra latifundiários da região de Mata, perto de Codó, no Maranhão, durante a década de 1920. Jornais conservadores e a elite agrária o chamavam de Lênin maranhense, maximalista, fanático e diziam que Bernardino pretendia montar um soviete no interior do Maranhão. As principais fontes sobre a atuação de Manoel Bernardino são os jornais: A Pacotilha, Diário de São Luiz e o Diário Oficial do Maranhão. Bernardino chegou a dar entrevistas a alguns dos periódicos citados acima relatando fatos sobre a sua vida, suas ideias e planos.

Biografia: Manoel Bernardino (1882-1942)

Bernardino nasceu no Piauí em 1882. Viveu no Ceará e no Pará, onde trabalhou nos seringais. Morou em Belém e em São Luiz, onde travou contato com as ideias socialistas, mas sem detalhar em que situações. Como lavrador, já na região de Codó, Bernardino dedicou-se a lavoura de algodão. O estado só se fazia presente na região através da polícia e dos cobradores de impostos. Nesta mesma época, Bernardino e outros camponeses formaram a Liga de Defesa, com cerca de cem pessoas. A Liga de Defesa era um grupo de autodefesa dos agricultores como também um grupo de combate a roubos e estupros.

Manoel Bernardino integrou a Coluna Prestes no Maranhão e liderou cerca de 200 homens. Porém, entrou em conflito com lideranças da Coluna por defender a Reforma Agrária. Ele desertou em 1926. Ao voltar para o Maranhão em 1929, Bernardino havia se tornou um estrito vegetariano. Toda a comida que consumia era colhida do seu roçado. Segundo parentes, ele não consumia leite por ser “sangue de vaca” e não matava os insetos. Sua alimentação era a base de leite de coco.

Influências: Jesus, Kardec, Tolstoi e Zapata

Bernardino tinha uma modesta biblioteca em sua casa formada por livros e revistas enviadas de vários lugares. De acordo com seu sobrinho, Bernardino fazia parte da “Comunhão Esotérica do Pensamento“. Ele foi fortemente influenciado pelo espiritismo, por um cristianismo primitivo, hinduísmo, por religiões afro-indígenas e pelo Tolstoismo. O próprio Bernardino considerava Jesus Cristo um dos primeiros socialistas da História. Ele leu Kardec e Leon Denis, um socialista espírita. Nem todos os anarquistas da Primeira República eram ateus. Muitos anarquistas eram espiritualistas, tolstoianos, hinduísmo e espíritas: João Penteado, Edgar Leuenroth, Everardo Dias e Maria Lacerda de Moura (por alguns anos), por exemplo. Outros como José Oiticica e Everardo Dias eram de sociedades Maçônicas e Rosa Cruz.

Além das leituras religiosas, Bernardino assumiu ter sido influenciado pela Revolução Mexicana (1910-1920) e pelos jornais operários que traziam notícias das movimentações operárias como a Greve de 1917, em São Paulo, e a Insurreição Anarquista de 1918, no Rio de Janeiro. Provavelmente, Bernardino teve contato com a imprensa operária de São Luiz e de Codó. Os jornais elitistas do Maranhão, pelo contrário, o comparavam a Lenin, Antônio Conselheiro e aos cangaceiros.

Motivações

As causas apontadas para a insurreição em Mata foram a violência dos latifundiários, a desigualdade social, o descaso das autoridades e os impostos pesados. Os poetas cordelistas da região narraram que a luta de Bernardino foi motivada pela luta por construção de escolas na região. Na falta de escola, o próprio Bernardino deu aulas gratuitas na própria residência para lavradores e crianças da região em 1917.

As movimentações dos camponeses de Bernardino passaram a estar na mira das autoridades. Uma suposta carta de Bernardino foi interceptada pela polícia. A carta revelava um possível “batismo de sangue” do grupo armado de Manuel Bernardino. Um dos trechos da suposta carta de autoria de Bernardino interceptada pelas autoridades dizia: que o povo armado faça a Câmara! Às armas! Para Frente!

De acordo com as autoridades, Bernardino era um inteligente propagador do socialismo e defendia a derrubada dos governos para fundar um sistema em que vigorasse os interesses do povo. As autoridades afirmavam que Bernardino comandava um exército de cerca de mil lavradores.

Os boatos sobre uma revolução comandada pelos caboclos de Bernardino se espalharam pela região. Latifundiários montaram suas próprias milícias particulares. As autoridades oficiais também destacaram soldados para a região. Ao todo cerca de 600 homens armados foram mobilizados para combater o exército popular de Bernardino.

Os Fuzilamentos de Matta (1921)

Em 29 de julho de 1921, no distrito de Matta, Codó, o levante armado liderado por Bernardino foi duramente reprimido pelas forças militares do Maranhão. O destacamento liderado pelo tenente Henrique Dias foi enviado ao local. No local, o tenente encontrou, prendeu e “interrogou” velhos, crianças e mulheres, mas nenhuma revolta.

Alguns prisioneiros foram amarrados nas árvores para serem “interrogados”. O episódio terminou com a execução de pelo menos quatro pessoas, lavradores pobres caboclos e negros. Pelo menos duas vítimas eram filhos de Maria Paca, uma das integrantes do grupo de Bernardino.  Integrantes do próprio destacamento militar assumiram e denunciaram os fuzilamentos ordenados pelo Tenente Henrique Dias. Jornais oposicionistas afirmavam que mais de cem pessoas haviam sido executadas e que os corpos serviam de comida para os urubus. As notícias chegaram ao governador do Maranhão que abriu um inquérito para apurar os fatos.

O inquérito militar confirmou a execução de quatro pessoas. Elas foram assassinadas numa antiga estrada. Os corpos foram enterrados em valas comuns. Tempos depois, surgiram boatos de que mais 14 ossadas haviam sido encontradas. Os populares também denunciaram que alguns agricultores estavam desaparecidos desde o fatídico dia. Atualmente, o local onde os corpos dos quatro camponeses foram encontrados chama-se “O Cemitério dos Afuzilados”. Os culpados pela execução foram julgados e absolvidos por unanimidade.

Manoel Bernardino de Oliveira morreu em 1942, aos 60 anos.

FONTES:

ALMEIDA, Giniomar Ferreira: O Lenine Maranhense: fuzilamentos e cultura histórica no interior do Maranhão. (1921). UFPB-2010.

FERREIRA, John Kennedy.  ORGANIZAÇÃO DAS IDEIAS SOCIALISTAS NO MARANHÃO; Revista de Políticas Públicas, vol. 22, pp. 347-366, 2018. Universidade Federal do Maranhão.

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).

agência de notícias anarquistas-ana

Mesmo com neblina
O cantar dos passarinhos
Pertinho do rio.

Paloma Ferreira – 09 anos

[Espanha] Uma revolução que cruzou fronteiras: o internacionalismo proletário em 1936

A Revolução Social de 1936 não foi apenas um acontecimento nos territórios do Estado espanhol. Desde os primeiros dias após o golpe de Estado fascista, milhares de pessoas de todo o mundo chegaram à península ibérica convencidas de que ali se travava uma batalha decisiva para o futuro da Europa. Não vieram apenas para combater o fascismo: muitos vieram também para defender uma revolução social que demonstrava que outro modelo de sociedade era possível.
 
Esse internacionalismo proletário, que pela primeira vez adquiria uma dimensão massiva, deixou uma marca profunda na história da revolução. Livros como Papeles de PlomoViviendo la Revolución del 36 e Viure la Força resgatam algumas dessas trajetórias internacionais e mostram como homens e mulheres de origens muito distintas fizeram sua uma luta que entendiam como universal.
 
Quando a revolução falava todos os idiomas
 
Entre os que responderam ao chamado revolucionário estavam operários, jornalistas, intelectuais e militantes chegados de numerosos países. Papeles de Plomo reconstrói a participação dos voluntários uruguaios que viajaram à Espanha para combater o fascismo e apoiar o processo revolucionário. Suas cartas, artigos e testemunhos permitem compreender que a guerra e a revolução foram vividas, também do outro lado do Atlântico, como uma causa própria.
 
Além de sua participação militar, essas histórias mostram a existência de uma extensa rede de solidariedade internacional construída por sindicatos, organizações operárias e grupos libertários que entendiam a defesa da revolução espanhola como parte de uma mesma luta contra o avanço do fascismo.
 
Contar a revolução ao mundo
 
O internacionalismo também se expressou através daqueles que decidiram documentar o que estava ocorrendo. Viviendo la Revolución del 36 resgata a experiência de Clara e Pavel Thalmann, jornalistas e militantes suíços que chegaram a Barcelona atraídos pelo processo revolucionário.
 
Seu olhar combina o compromisso político com o testemunho direto. Percorreram a frente de batalha, conviveram com as milícias e observaram de perto as transformações sociais impulsionadas pelo movimento libertário. Ao mesmo tempo, difundiram internacionalmente o que estavam presenciando, tornando-se uma ponte entre a revolução espanhola e uma opinião pública europeia que acompanhava os acontecimentos com expectativa.
 
Suas memórias recordam que a revolução também se travou no terreno da informação, frente às simplificações e deturpações que logo começariam a se impor.
 
Simone Weil e a busca por uma revolução real
 
Poucas figuras representam melhor o encontro entre pensamento e ação que Simone Weil. Em Viure la Força, Xavier Artigas reconstrói a passagem da filósofa pela Espanha revolucionária e sua incorporação à Coluna Durruti durante os primeiros meses da guerra.
 
Antes de chegar à frente de batalha, Weil quis conhecer em primeira mão as fábricas coletivizadas, as indústrias sob controle operário e as comunidades camponesas onde o comunismo libertário começava a se tornar realidade. Não buscava confirmar uma teoria, mas verificar até que ponto era possível construir uma sociedade baseada na igualdade e na autogestão.
 
Sua experiência foi breve, mas profundamente transformadora. As reflexões que surgiram daquela viagem constituem um dos testemunhos mais lúcidos sobre as possibilidades e contradições da Revolução Social.
 
Uma luta compartilhada
 
Lidos em conjunto, esses três livros mostram que a Revolução de 1936 foi também uma experiência internacional. Milhares de pessoas cruzaram fronteiras para defender um projeto político que sentiam como seu, convencidas de que o destino da revolução espanhola estava ligado ao do movimento operário mundial.
 
Noventa anos depois, suas histórias seguem nos lembrando que o internacionalismo não foi uma consigna abstrata, mas uma prática concreta de solidariedade entre os povos. Uma convicção compartilhada por aqueles que entenderam que a luta contra o fascismo e a construção de uma sociedade mais justa não conheciam fronteiras.
 
Fonte: https://descontrol.cat/una-revolucion-que-cruzo-fronteras-el-internacionalismo-proletario-en-1936/
 
Tradução > Liberto
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
O pássaro azul
num galho dum ipê
canta o céu acima
 
Diogo Monteiro

[Reino Unido] Explorando o Anarquismo Africano e o Ujamaa com Stephanie Wanga

Neste episódio, conversamos com Stephanie Wanga, pesquisadora de história africana e anarquismo, que compartilha sua perspectiva singular sobre como as ideias anarquistas encontram ressonância em contextos africanos, especialmente a partir de seu trabalho sobre o Ujamaa. Exploramos as interseções entre o anarquismo, as filosofias sociais africanas e as práticas revolucionárias.
 
Link no Spotify: https://creators.spotify.com/pod/profile/little-bigger-anarchism/episodes/Exploring-African-Anarchism-and-Ujamaa-with-Stephanie-Wanga-e3kkeuu
 
Saiba mais sobre Stephanie Wanga e seu trabalho aqui: https://stephaniewanga.com/about/
 
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Tradução > Contrafatual
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Sobre verde imenso
um ponto saltitante
pássaro cantante
 
Winston

[França] Na praia: os paralelepípedos! Do vermelho ao preto!

No dia 19 de julho, “Era uma vez 1936/47”, vamos construir e participar da barricada de Chaucre, das 15h às 19h, na Allée de l’Angle. Uma barricada de madeira e papelão prestará uma homenagem simbólica àqueles que souberam dizer não ao franquismo e ao barulho das botas, ao mesmo tempo em que construíam uma sociedade igualitária e autogerida. Basta escrever nos papelões que vocês trouxerem nossos sonhos, nossas reivindicações, nossas esperanças…

A Editions Libertaires prestará homenagem àqueles e àquelas que lutam ou que publicam as histórias plurais dos revolucionários em torno de um piquenique compartilhado.

No dia 20 de julho, às 20h30, o cinema Eldorado — 5, rue de la République, 17310, em Saint-Pierre-d’Oléron — organiza um encontro cinematográfico em torno do documentário DIEGO, de Frédéric Goldbronn.

Myrtille Gonzalbo, do grupo de historiadores Les Giménologues, moderará o debate.

O que resta da memória dessa aventura libertária de vários milhões de operários e camponeses? O que eles transmitiram aos seus filhos e netos? O que temos a aprender com esses depoimentos, à luz das sociedades autoritárias em que vivemos?

Esses eventos são organizados pela Editions Libertaires e pelo cinema Eldorado.

Não se bronzeiem apenas na praia, mas também nas barricadas! Não fiquem apenas comentando a final da copa dos bilionários que jogam bola, mas venham conosco depois do filme para compartilhar livros e um momento de convívio.

Vamos lá, mesmo nas férias a gente “cuida” do mundo!

Fonte: https://monde-libertaire.net/?articlen=9093&article=Sur_la_plage_:_les_paves_!_du_rouge_au_noir_!

agência de notícias anarquistas-ana

Como versos livres
– ao toque dos tico-ticos –
as flores que caem…

Teruko Oda

[Áustria] Ocupação Lotta occupato foi despejada

Na segunda-feira, 29 de junho, a ocupação “Lotta occupato”, em Graz, foi despejada. O despejo foi realizado por trabalhadores de uma empresa de construção, com o apoio da polícia. O proprietário dos edifícios e do terreno também compareceu e se comportou de maneira extremamente arrogante e agressiva.

Os ocupantes haviam reforçado portas e janelas com tábuas, mas os invasores conseguiram entrar mesmo assim. Ninguém foi preso nem acusado de qualquer crime. Pouco depois da desocupação, teve início a demolição dos edifícios para que mais apartamentos de luxo fossem construídos no local.

Eles tiraram nosso lar de nós. Destruíram um lugar que acolhia pessoas que fugiam da guerra. Agora haverá mais apartamentos estéreis aqui, acessíveis apenas aos ricos.

Perdemos uma batalha, mas nossa luta continua. Não reconhecemos o direito burguês à propriedade privada. Sabemos que o caminho da burguesia para a riqueza é pavimentado com o sofrimento da classe trabalhadora. Somos agitadores e faremos com que os ricos não tenham vida fácil. Toda vez que nos expulsam de nossa casa e nos lançam à rua, entramos pela janela de outra casa vazia na vizinhança.

Pessoas, cães, ouriços e ratos da casa ocupada,

2 de julho de 2026

lottaoccupato.noblogs.org

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Faço uma parada
A caminho da escola
Pica-pau na árvore!

Raíssa Bianca dos Santos – 08 anos

[Itália] Bolonha: resultado em primeiro grau do processo pela mobilização contra o 41 bis

Em 1º de julho de 2026, realizou-se em Bolonha a audiência conclusiva, com a respectiva sentença de primeiro grau, para o processo sobre a mobilização contra o 41 bis e em solidariedade à greve de fome de Alfredo. O resultado foi a absolvição de todas as pessoas ainda envolvidas e de todos os crimes imputados.
 
Sem fazer nenhuma enfadonha cronologia, lembramos apenas alguns passos relevantes. O procedimento, conduzido pelos carabinieri do ROS de Bolonha, tornou-se conhecido no verão de 2023 como uma investigação por associação com finalidade terrorista (270 bis) relativa a ações realizadas durante a mobilização (bloqueios, sabotagens e ocupações). No outono de 2023, a investigação se ampliou para um grupo maior de pessoas. Sob o pretexto do achado de um isqueiro contendo vestígios biológicos no local de um dos fatos investigados, no inverno de 2023, foi solicitada a coleta coercitiva de DNA para todas as pessoas envolvidas, independentemente dos fatos imputados a cada uma.
 
Durante o trâmite processual, o 270 bis caiu e prosseguiu-se apenas por alguns fatos específicos: a interrupção de uma missa, a ocupação de um guindaste com respectivo ato de solidariedade, e o incêndio de um repetidor. No decorrer da segunda audiência, Alfredo pôde falar como testemunha de defesa, fazendo sua voz sair da tumba de vivos em que ainda está enclausurado, após dois anos de silêncio.
 
Atualmente, dessa pomposa operação repressiva resta muito pouco, ainda que, como se sabe, a repressão nem sempre é aquela que deixa rastros nos papéis, mas atinge muitas vezes em seu desenrolar mais do que em seus resultados formais.
 
Embora tenhamos um pensamento a menos na cabeça, lembramos dos dois procedimentos ainda em curso em Bolonha relativos às quentes manifestações de solidariedade daquele inverno, que ainda envolvem diversas pessoas, às quais reiteramos nossa proximidade e solidariedade. Assim como nossa proximidade e solidariedade vão para aqueles que, na última operação antianarquista de 16 de junho, viram suas vidas cruzarem com as portas da prisão ou da prisão domiciliar, a desocupação de suas casas ou a enésima acusação de terrorismo.
 
Estamos com Giulia, Luna, Pietro, Tony, Bibi, Micol, Nico, Stefano e Arnau, com quem se revolta, se organiza e golpeia.
 
Anarquiques e anarquistas em Bolonha
 
Fonte: https://brughiere.noblogs.org/
 
Tradução > Liberto
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
Calçada da escola
Pombinhos comendo pipoca …
Bom dia, colegas!
 
Rodrigo Mikaro – 09 anos

A Vitrine Sangrenta, o Capital e sua Copa do Mundo: 60 Anos de Espetáculo, Censura e Controle Político no México (1968–2026)


  A história do capitalismo e do Estado no México vive na geografia do despojo e nas vitrines ensanguentadas de seus megaeventos corporativos. Os estádios de futebol são laboratórios sofisticados de controle político, limpeza social e pacificação das massas.
Quase sessenta anos após as primeiras Olimpíadas militarizadas, o fio condutor da dominação permanece intacto. A reflexão a seguir conecta os nós da infâmia — 1968, 1970, 1986 e o ​​atual 2026 — para demonstrar que uma crise estrutural nunca foi, mas a vontade de revolta tampouco.
 
I. 1968–1970: A Origem da Blindagem Política e a Paz dos Sepulcros
 
A genealogia do espetáculo esportivo como arma do Estado mexicano se consolida entre 1968 e 1970. O regime de Gustavo Díaz Ordaz percebeu que sua maior vulnerabilidade era a interrupção do material da narrativa de modernidade e progresso que representava a realização dos XIX Jogos Olímpicos no México. A resposta do Estado diante da tentativa de boicote do grupo CAOS (Comitê Antiolímpico de Subversão) e da interferência do Movimento Estudantil foi o terrorismo aberto, que resultou no autoexílio desse grupo e na repressão e posterior massacre de 2 de outubro em Tlatelolco. Foi o batismo de sangue necessário para garantir o fluxo mercantil da tocha olímpica.
 
Apenas vinte meses depois, em 1970, o aparelho estatal utilizou a primeira Copa do Mundo de Futebol no México como uma gigantesca cortina de fumaça para camuflar o início da Guerra Suja. Enquanto a Federação de Futebol e o monopólio televisivo vendiam uma festa de fraternidade global, a Direção Federal de Segurança (DFS) e grupos paramilitares perseguiam, torturavam e desapareciam com a dissidência radicalizada na clandestinidade, de quais elementos anarquistas passavam a absorver as fileiras do então nascente movimento armado. Decretou-se a desapropriação restrita de bolsas de hectares de terras ejidais em Santa Úrsula Coapa. O solo não foi usado apenas para o polígono que hoje ocupa o estádio e seus enormes estacionamentos privados, mas também para abrir as grandes vias arteriais indispensáveis ​​para que o turismo e a televisão internacional circulem sem problemas: a Calçada de Tlalpan, o Anel Periférico Sul e o Circuito Azteca. O protesto aberto foi sufocado por uma censura de imprensa absoluta e até mesmo no áudio das tendências. Em 13 de setembro de 1966, a polícia, junto com o corpo de granadeiros, entrou à força nas terras ejidais, acompanhadas de tratores (escavadeiras), casas demolidas de madeira, adobe e zinco, expulsando imediatamente algumas famílias para a rua, para limpar os terrenos das obras complementares do estádio.
 
II. 1986: Uma Necropolítica sobre os Escombros
 
Dezesseis anos depois, a receita da dominação se aperfeiçoou sob o amparo da tragédia. O terremoto de 1985 expôs a paralisia total do governo de Miguel de la Madrid, forçando o nascimento de uma sociedade civil auto-organizada por meio da solidariedade e da ajuda mútua. Diante do perigo de perder o controle da narrativa pública, o Estado e a máfia transnacional da FIFA, em cumplicidade econômica com o “soldado do PRI” Emilio Azcárraga Milmo e seu império, decidiram que a Copa de 1986 seria realizada sobre as valas comuns e as ruínas ainda quentes do centro da cidade.
 
Milhões de pesos de um erário público quebrado e inflacionário foram canalizados para a logística do futebol, ignorando os milhares de desabrigados sem moradia. Mais uma vez, a maquinaria midiática e os engenheiros de som da televisão censuraram o descontentamento. O futebol operou, mais uma vez, como uma anestesia obrigatória para processar uma crise econômica e social asfixiante.
 
III. 2026: A Gentrificação Militarizada
 
Hoje, quarenta anos após a farsa de 86, 56 anos após o despojo de 70 e quase sessenta anos após o terror de 68, a Cidade do México volta a ser o epicentro da rapina corporativa da FIFA — a bola volta para casa. Uma crise estrutural não se foi; ela é sofisticada. O pretexto atual já não é a conclusão pós-terremoto nem o “Milagre Mexicano”, mas o mito do progresso imobiliário e da turistificação em massa. A Copa de 2026 consagra o despojo habitacional por meio da gentrificação.
 
Este novo megaevento é uma extensão da guerra do Estado contra o povo que ainda não se aquieta pelo espetáculo futebolístico. Os netos dos antigos ejidos, hoje as colônias populares que circundam o “colosso” de Santa Úrsula (Santa Úrsula Coapa, Huipulco, Pedregal de Carrasco), a Copa significou o encarecimento da vida, o isolamento ou a expulsão de suas moradias devido ao aumento das hospedagens digitais de curto prazo e ao roubo sistemático da água (como em 1970). As ruas da cidade encontram-se sob um estado de sítio político não oficial: câmeras de reconhecimento facial, cordões policiais e patrulhamentos militares destinados a “limpar esteticamente” o espaço público de trabalhadores informais, mendigos e, sobretudo, de manifestantes.
 
4. Romper a Normalidade do Espetáculo. À Ação Insurreta
 
O fio histórico que em 1968, 1970, 1986 e 2026 demonstra que o Estado é o administrador violento dos recursos em favor da burguesia transnacional, e que o espetáculo exige obrigatoriamente o silêncio e a deslocação dos oprimidos.
 
O boicote e a sabotagem são uma ação a ser exercida nas ruas: a intervenção na propaganda oficial, o bloqueio de vias nevrálgicas de transporte e o ataque direto às marcas e infraestrutura das corporações patrocinadas. O Capital e o Estado negam a moradia, a água e a vida nos nossos próprios bairros; nossas obrigações políticas é negar a paz à sua festa bilionária.
 
Diante da bola do Capital, guerra aos templos do consumo e solidariedade ativa com os companheiros e companheiras em luta e resistência!!!
 
Carlos (anemias)
Julho de 2026
 
Tradução > Liberto
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
Da minha janela
Vejo pequenas borboletas
Voando sem metas!
 
Bárbara Mendes da Silva – 10 anos

[Indonésia] Bandung: Carta Aberta dos Prisioneiros Anarquistas do Primeiro de Maio de 2026

Como vocês estão, LBH Bandung?
 
Ainda estamos vivos aqui. Ainda estou falando. Ainda estou esperando.
 
Como estão as coisas aí fora? O trabalho está indo bem? As agendas continuam avançando como de costume?
 
Enquanto isso, permanecemos aqui. Dez pessoas no centro de detenção da Polícia Regional de Java Ocidental. Vivendo dia após dia com uma pergunta que continua voltando:
 
Ainda existem aos seus olhos?
 
Ouvimos com frequência que toda pessoa tem direito à assistência jurídica. Que o acesso à justiça não deveria ser determinado pela política de origem, pela filiação organizacional ou pelo estigma atribuído a alguém.
 
Mas, quando o rótulo de “anarquista” é colocado sobre nós, esse princípio ainda se aplica?
 
Quando alguém é rotulado como autor de violência, perde automaticamente o direito à defesa? O direito de ser ouvido? O direito de ser tratado como um ser humano?
 
Não vamos pedir para sermos justificados.
 
Estamos apenas perguntando: o princípio da assistência jurídica continua valendo quando o caso é impopular?
 
Se tiverem tempo, venham nos visitar.
 
Terça e quinta-feira são os nossos dias de visita.
 
Ou entrem em contato com nosso advogado, caso desejem ouvir diretamente sobre nossa situação.
 
Porque, por trás dos processos, das reportagens e dos rótulos que circulam, ainda existem seres humanos esperando por um sinal do mundo exterior.
 
Obrigado aos companheiros e companheiras de toda a Indonésia e do mundo inteiro que continuam se lembrando de nós, enviando apoio e garantindo que nossos nomes não desapareçam simplesmente.
 
Talvez nem sempre estejamos certos.
 
apenas nem sempre vemos.
 
Mas mesmo aqueles que são acusados, odiados ou abandonados ainda possuem os mesmos direitos perante a lei.
 
E, por isso, continuaremos lembrando a todos:
 
Uma justiça que só aparece para quem se gosta não é justiça.
 
Nem sempre vencemos.
 
Mas estamos sempre presentes.
 
Viva a Anarquia!
 
Prisioneiros Anarquistas do Primeiro de Maio de 2026
 
Tradução > Contrafatual
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
no mesmo banco
dois velhos silêncioam
no parque deserto
 
Carol Lebel

[Internacional] Chamado para um “Agosto Negro” em memória dos companheiros Lupi, Tortuga e Belén

AGOSTO NEGRO 2026
Chamado ao Mês de ação e propaganda pelos companheiros Lupi, Tortuga e Belém

 
“Não há luta sem sangue, sem prisão, sem clandestinidade, sem mortos… É preciso ter essa clareza sempre. (…) Falar da morte e não se isolar na tristeza, falar da vida daqueles que partiram, saber que com eles, com seu sangue, fomos regando a trilha do combate, e que continuar é a melhor homenagem para todos aqueles que não estão mais… O resto são só pretextos.”
Marcelo Villarroel, preso anti autoritário

(Entrevista publicada no decorrer do chamado pelo Agosto Negro de 2025)

 
“Na maior parte das jornadas que tiveram violência (…) foram organizadas por panfletos ou faixas vinculadas a causas anarquistas.
No protesto de ontem, encapuzados levaram uma faixa com os dizeres: “Agosto Negro” e os nomes de três pessoas vinculadas com fatos violentos, inclusive com a colocação de artefatos explosivos.”
El Bastardo J. Bellolio.

(Fazendo referência à saída incendiária desde o Lucro Lastarria no dia 13/08/2025)

 
Em agosto de 2024, três companheiros anarquistas morreram em situações diferentes, de forma repentina e acidental, depois desses fatos, nos colocamos no desafio de multiplicar suas ideias, suas histórias de combate, aquelas contribuições óbvias que assumiram na vida com compromisso, solidariedade, seriedade e vontade.
 
Eis por isso que mais uma vez lançamos o chamado por um Agosto Negro. Queremos que Luciano Balboa “Lupi”, Luciano Pitronello “Tortuga” e Belén Navarrete continuem presentes na ação e na propaganda, como serviram nas respostas dadas no ano passado por pessoas anônimas e com ideias semelhantes em diferentes territórios.
 
Esse chamado surge, por sua vez, com a intenção de (re)revitalizar campanhas anárquicas, em tempos de avanços ferozes e devastadores do capital, sentenças mais severas contra nossos companheiros que foram presos, de companheiros em busca e captura, e do poder tentando engolir nossas vidas de diferentes maneiras dia após dia. Não baixar a guarda, não desistir, não parar, continuar contra todas as probabilidades, são e sempre serão as opções que vale a pena tomar.
 
Desde diferentes rincões, lugares e prisões, os companheiros nos mostram que isso é sempre possível e que, como o que se têm à mão, busca a destruição deste mundo como o encontros, junto com seus valores podres e relações de dominação.
 
Com o autocuidado e o temperamento necessários, sozinho e/ou com seus afins e cúmplices, não fique fora desse chamado! Esse pode ser um bom momento para o que fazer anárquico! Todo dia pode ser.
 
Que a morte de nossos companheiros seja mais um impulso em nossas vidas, em nossas próprias decisões e vontade, que estão em conflito contra este mundo podre.
 
POR UM AGOSTO NEGRO!
LUPI, TORTUGA E BELÉN APRESENTAM NO CAOS E ANARQUIA!
NADA ACABOU, TUDO CONTINUA!
 
Fonte: 
https://es-contrainfo.espiv.net/2026/07/08/estado-chileno-llamado-por-un-agosto-negro-en-memoria-de-lxs-companerxs-lupi-tortuga-y-belen-es-en-pt-de/
 
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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/07/15/chile-chamado-para-um-agosto-negro-em-memoria-dxs-companheirxs-lupi-tortuga-e-belen/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
olhando para
meu traseiroa-se
de cerejeiras em flor
 
Allen Ginsberg