Houve um tempo em que a soberania tecnológica estava no centro das nossas preocupações. Penso nisso agora, escrevendo no LibreOffice, um dos poucos vestígios de software livre que ainda resistem no meu computador, e até me dá uma certa vergonha alheia. Tínhamos o N-1 como rede social, o guifi.net para nos conectar, Raspberry Pis para mexer e brincar. Tínhamos hacklabs, install parties e alternativas livres para quase tudo o que quiséssemos fazer. Em que momento perdemos o rumo e nos jogamos nos braços do Google e do Instagram?
Foi um desgaste devagarzinho. Primeiro veio a plataformização da internet e as redes sociais comerciais nos comeram o juízo. Os movimentos sociais optaram (optamos) por “estar onde está a gente” e abrimos perfis no Facebook na resistência, com ressalvas e contradições, sem ter certeza se estávamos nos apropriando da tecnologia ou se eram as empresas de tecnologia que se apropriavam de nós e dos nossos dados.
Cada vez era mais difícil convencer as pessoas a usar software livre. “É que isso só é usado por quatro gatos pingados”, “já te enviei para um Drive”, “odt, o que é isso?”. As plataformas tornaram tudo mais cômodo, mais rápido e mais fechado. Há alguns anos, um companheiro dizia que as redes e a economia da atenção tinham gentrificado a internet, assim como os gringos gentrificam os nossos bairros. E quando parecia que já tínhamos entregado definitivamente nossa alma ao Google Workspace, eis que a Europa se dignifica e começa a falar em soberania tecnológica.
O Trump deu uma ajudinha, verdade. Não por ideologia, mas por geopolítica: a Europa depende maciçamente das grandes empresas de tecnologia dos EUA para infraestruturas críticas, desde o armazenamento em nuvem até o software cotidiano das administrações públicas.
Nesse contexto, países como a Alemanha estão começando a se mexer: fundos públicos para sustentar software livre, planos de migração institucional para soluções abertas e novas estratégias para reduzir a dependência tecnológica. A própria União Europeia já fala em autonomia digital e propõe instrumentos para financiar infraestruturas abertas.
Coletivos como o Xnet vêm desenvolvendo, há anos, alternativas concretas à dependência do Google e da Microsoft em escolas e instituições públicas. Na nossa terra, têm seguido na luta iniciativas como o OpenSouthCode, reunindo anualmente desenvolvedores, ativistas e curiosos em torno da cultura livre, e também o Escritório de Software Livre da Universidade de Granada.
Talvez o software livre já não tenha a épica dos anos 2000, nem os pendrives com Ubuntu passem de mão em mão, mas ainda há gente se organizando para que a internet volte a se parecer mais com uma pracinha e menos com um shopping center.
Encontro ecoanarquista, oficinas e interação entre diferentes movimentos de luta!
Peak District, perto de Sheffield, Reino Unido
12 a 17 de agosto de 2026
Atenção, atenção! Vocês estão convidados para cinco dias de troca de ideias e solidariedade entre movimentos, com oficinas, compartilhamento de habilidades, artesanato, jogos e educação política. Esses encontros são um espaço para aqueles que acreditam na libertação de toda a vida unirem forças e idealizarem novos mundos. Venham aprender sobre lutas ambientais do passado e vitórias de movimentos, biocentrismo, anarquia verde, ações diretas e campanhas por justiça social, e vamos descobrir juntos como podemos desmantelar o sistema capitalista.
Um ambiente lindo, espaço para crianças, música ao vivo e jams até altas horas, comida vegana deliciosa e muito mais, tudo a um pulo de Sheffield! Traga suas botas de caminhada e seus sapatos de dança, vai ser incrível!
Mais informações, incluindo sobre acessibilidade e transporte, bem-estar e COVID-19, serão compartilhadas perto da data. Não é necessário se inscrever, basta aparecer e trazer seus amigos. Se precisar entrar em contato, tiver uma proposta ou alguma dúvida, envie um e-mail para earthfirst.uk@proton.me.
agência de notícias anarquistas-ana
Flores no jardim. Uma abelha pousa aqui e depois se vai.
As condenações de oito ativistas pelos eventos ocorridos em frente ao campo de concentração de imigrantes Prairieland representam um dos episódios mais significativos da escalada repressiva que atravessa os Estados Unidos. Sob a linguagem da “guerra contra o terrorismo”, o Estado ampliou as ferramentas com as quais historicamente persegue aqueles que desafiam a ordem política, econômica e policial.
O estopim foi o confronto de 4 de julho de 2025, durante um protesto em frente a um centro de detenção do ICE no Texas. Um policial ficou ferido por disparos, um fato grave que deu início a uma investigação federal de enormes proporções. O Ministério Público sustentou que os acusados integravam uma “célula Antifa” e que haviam organizado um ataque contra instalações federais. A defesa respondeu que o governo construiu um caso de conspiração que misturou fatos criminosos com afinidades políticas, relações pessoais e atividades protegidas pela liberdade de expressão.
As condenações foram extraordinárias: 450 anos de prisão no total. Benjamin Hanil Song recebeu uma sentença de 100 anos, enquanto o restante dos acusados foi condenado a penas entre 30 e 70 anos. Além do resultado judicial, o processo abriu um debate sobre o uso da legislação antiterrorista para perseguir movimentos políticos internos.
Mas Prairieland não começou em 2025. Tem uma história muito mais longa.
A repressão das correntes revolucionárias faz parte da história do Estado estadunidense. No início do século XX, anarquistas como Emma Goldman e Alexander Berkman foram presos e deportados por organizarem campanhas contra o alistamento militar. Durante as chamadas Palmer Raids, milhares de sindicalistas, imigrantes e militantes radicais foram detidos sem garantias processuais. Décadas mais tarde, o programa COINTELPRO do FBI infiltrou, vigiou e desarticulou organizações como o Partido Panteras Negras, o Movimento Indígena Americano, grupos socialistas e organizações contra a guerra por meio de espionagem, campanhas de desinformação e processos judiciais.
Após o 11 de setembro de 2001, a expansão da legislação antiterrorista concedeu ao Estado novas faculdades de vigilância, inteligência e persecução penal. Diversas organizações dissidentes têm alertado há anos que essas ferramentas, concebidas para combater ameaças violentas, poderiam acabar sendo utilizadas também contra movimentos sociais e organizações de protesto.
Prairieland parece se inscrever nessa continuidade histórica.
Durante as operações de busca, o FBI apreendeu uma prensa tipográfica artesanal, fanzines, publicações antifascistas, literatura anarquista, materiais contra o ICE e documentos elaborados por um clube de leitura dedicado a Emma Goldman. Também foram confiscados escritos pessoais e um caderno de poemas. Segundo a própria acusação, esses materiais ajudavam a demonstrar a existência de uma organização coordenada. No entanto, um agente do FBI reconheceu durante o julgamento que o conteúdo dos fanzines não era ilegal.
A pergunta que este caso deixa é inevitável:
Em que momento uma biblioteca militante, uma gráfica comunitária ou um clube de leitura deixam de ser espaços de organização política para se tornarem, aos olhos do Estado, indícios de terrorismo?
Para aqueles que defendem o veredito pró-fascista, a resposta é simples: um agente foi ferido por disparos e o Estado tem a obrigação de perseguir a violência política. Para aqueles que resistem às políticas totalitárias, o problema é mais amplo: eles sustentam que o julgamento também transformou as ideias, a organização e a cultura política radical em parte da acusação.
Prairieland faz parte de uma tendência mais ampla de totalitarismo do aparato de segurança, expansão das faculdades policiais e endurecimento das respostas penais diante de determinadas formas de protesto. A dissidência interpreta essa evolução como uma expressão de uma ordem cada vez mais autoritária, especialmente no tratamento de movimentos anarquistas, antifascistas, antirracistas e de solidariedade com as pessoas migrantes.
A história demonstra que as leis de exceção raramente permanecem limitadas aos casos para os quais foram criadas. Quando a organização política, a edição de fanzines, a solidariedade e a dissidência passam a fazer parte do processo penal, o debate deixa de ser unicamente jurídico. Torna-se uma disputa sobre quem pode se organizar, quem pode dissentir e quanto espaço o poder está disposto a tolerar para aqueles que questionam a ordem estabelecida.
Solidariedade e apoio aos nossos companheiros sequestrados por combater políticas fascistas contemporâneas.
Dizem que somos “desajustados”, “vândalos”, que “não aceitamos a democracia”. Estão mentindo! Entendemos perfeitamente o que essa “democracia” podre realmente é: a ditadura do capital disfarçada cinicamente de supostos direitos. Cospem em nossas caras falando de “liberdade” e “participação”, mas por trás de seus discursos cínicos só há roubo e opressão. Não há nada para entender, apenas uma farsa para destruir!
Decidir a cada quatro anos não é decidir nada! Eles querem que sejamos dóceis na fila de votação, escolhendo cegamente nosso próximo executor do capital a partir de uma lista cinicamente pré-aprovada pelos empresários e pela oligarquia que financia suas campanhas. Farsa eleitoral! Circo democrático! A verdadeira decisão, aquela que faz o poder tremer, não é tomada em uma urna burguesa; É feita à força em assembleias de bairro, aos gritos nas ruas, nos territórios autogeridos que construímos fora do Estado.
De que tipo de liberdade eles falam cinicamente? A liberdade que nos vendem é a sufocante liberdade de consumo. Você é “livre” para escolher entre marcas enquanto está acorrentado a dívidas intermináveis, salários miseráveis e à obrigação de enriquecer o patrão dia após dia. A democracia podre deles é a liberdade absoluta do mercado para nos sufocar e saquear nossos territórios sem piedade.
Não entendemos como eles falam descaradamente sobre o “Estado de Direito” quando a única face que o Estado mostra em nossos bairros e comunidades é a brutalidade da polícia assassina! Cada vez que a polícia covardemente aperta o gatilho contra o nosso povo, a sua “democracia” podre morre um pouco mais, revelando sua verdadeira natureza.
Cínicos! Não conseguimos entender por que a resposta covarde a um protesto social justo são balas e tortura sufocante. Se a sua democracia decadente é defendida com cegueira e derramamento de sangue, ela não passa de puro fascismo com um verniz cínico de legitimidade institucional.
Não pedimos permissão para sermos livres!
Que o fogo das barricadas organizadas ilumine o caminho para a verdadeira libertação!
Em resposta a um chamado autônomo continental aqui de Abya Ayala, marchamos contra a cooptação e sequestro do orgulho LGBTQIAPN+.
Fúria Dissidente é a revolta contra a lavagem rosa que tomou conta do movimento cuir. Uma dissidência da ideia falida de reformar esse sistema que já sabemos que existe para controlar e explorar nossos corpos, mentes e o ambiente em que vivemos e que não nos comporta em toda nossa diversidade. Entendemos que nos incluir nessa máquina como consumidorys não nos empodera, assim como performar “representatividade democrática” nos cargos de poder não vai acabar com racismo e a transfobia inerentes às instituições patriarcais do Estado e do capital.
Entendemos que se rebelar é necessário. Traz teu cartaz, tua voz, tua faixa, tua raiva para manifestar contra essa festa de consumo e palanque politico que mancham o movimento que nasceu da revolta contra repressão policial.
Somos kontra empresas privadas y partidos políticos terem um papel central no movimento LGBTQIA+, em detrimento de frentes autônomas, gerando alienação y a comercialização da nossa história de luta por quem só quer lucrar com a gente.
É o cistema capitalista e progressista o maior responsável pelo esvaziamento da nossa existência dissidente. É esse cistema que transforma em produto nossos corpos, em palanque nossas manifestações e esgota nossos rios – tudo pelas promessas de uma vida artificial pintada de rosa, banhada em purpurina e recheada de frases de efeito e falsas promessas.
Nossa promessa não é tão vendável, mas sem dúvida será cumprida: jamais nos dobraremos. Seremos a quebra, a rachadura no muro branco, o incômodo disruptivo e a alegria de saber-se livre.
Em resposta ao avanço do fascismo e seus mestres capitalistas, fazemos um chamado para pessoas dissidentes trans, travas, não bináries, sapatões, transmascs, travestis, monstres, bixas, intersexos, assexuays, bis, pans, polis, cuir que rejeitam essas dinâmicas e buscam trazer a revolta de volta ao orgulho.
A saída que acreditamos é coletiva, comunitária, popular, antiautoritária, autônoma, autogestionada, antifascista, antirracista, antissexista, anticapacitista, anticarcerária y contra todo tipo de opressão.
Convocamos afinidades para conspirar formas independentes de manifestar nosso “orgulho”, raiva y todos os sentimentos possíveis que nos atravessam nessa sociedade heterocisnormativa e patriarcal.
Recentemente, a atriz Fernanda Torres, indicada ao Óscar, pediu desculpas por um episódio racista em que foi protagonista tempos atrás. Torres participou de um quadro no Fantástico onde praticava Black Face.
Para quem não sabe ainda, a prática do Black Face nasceu nos EUA e é um tipo de artifício racista usado por brancos para ridicularizar jeitos e costumes dos povos negros. As primeiras manifestações ocorreram no teatro, depois migraram para as revistas e também ao cinema.
A prática era vista como algo inofensivo e engraçado por muitos. Enquanto brancos pintavam a cara pra debochar, ofender e humilhar, mulheres, homens e crianças negras eram presas, perseguidas e linchadas nas cidades dos EUA. Só recentemente é que a prática deixou de ser “normal” e “engraçada”.
Pois bem. No nosso país, esta prática é bastante difundida e naturalizada, tida ainda como brincadeira e fantasia. No Carnaval é possível encontrar aos montes versões brasileiras do Black Face. Pessoas vestidas de “índio” e “nega maluca”. Mas a prática é antiga. Teatros revistas, espetáculos, novelas, filmes e, principalmente, programas de “humor” utilizaram Black Face. Na teledramaturgia brasileira, um dos exemplos mais antigos foi a novela A Cabana do Pai Thomas (1969). A trama foi filmada com um ator branco pintado de negro. Como se não bastasse, as atrizes e atores negros da novela sofreram inúmeras ofensas racistas.
Mas é no “humor brasileiro” que o racismo camuflado de piada se propaga entre velhas e novas gerações: Casseta E Planeta, Zorra Total, Tv Pirata, Hermes e Renato, Os Trapalhões, Chico Anysio, Pânico, Shaolin, etc. As grandes emissoras que tiveram e ainda têm um papel fundamental na disseminação dos estereótipos raciais nunca se pronunciaram sobre o assunto: MTV, SBT, GLOBO, BAND, Rede TV, RECORD.
Abaixo, segue uma breve lista de atores, cantores, atrizes e programas humorísticos brasileiros que praticaram Black Face:
Casseta e Planeta (Vários Personagens/GLOBO)
Chico Anysio (diversos personagens/Globo)
Danillo Gentilli (SBT)
Diogo Vilela (Tv Pirata/Globo)
Eduardo Sterblitch (o africano/BAND)
Escola do Professor Raimundo (GLOBO)
Fernanda Torres (Fantástico/GLOBO)
Felipe Torres (Hermes e Renato/MTV)
Hermes e Renato (vários personagens/MTV)
TV PIRATA (vários personagens/GLOBO)
Jô Soares
Léo Lins (SBT)
Luiz Fernando Guimarães (TV PIRATA)
Marco Nanini (Globo)
Marvio Luvio, o Carioca.Jovem Pan,Pânico/BAND)
Mendigo (Pânico/BAND)
Michel Teló
Ney Latorraca (TV PIRATA)
Pânico (Band/Rede Tv/Jovem Pan)
Paulo Gustavo (empregada doméstica/GLOBO)
Regina Casé (TV PIRATA)
Rodrigo Sant’anna (Zorra/GLOBO)
Sérgio Cardoso (Novela/GLOBO)
Shaolin (Tv Borborema)
Tom Cavalcante (sai de baixo/GLOBO)
Trapalhões (vários personagens/Globo)
Xuxa (boneca de pixe/GLOBO)
Zorra Total (Globo)
> Imagem em destaque: foto do ator Paulo Gustavo praticando o Black Face.
CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).
agência de notícias anarquistas-ana
O pássaro procura os filhotes, o ninho. Galho caído…
Jovens e controladas por oligarquias, as repúblicas sul-americanas na virada do século 19 para o 20 ainda pisavam em ovos buscando uma estabilidade.
Em 1897, um militante do partido de oposição assassinou o presidente do Uruguai Juan Idiarte Borda (1844-1897). No mesmo ano, o presidente brasileiro Prudente de Morais (1841-1902) foi vítima de um atentado. Ele sobreviveu ao episódio.
O clima político na região começava a ficar mais tumultuado com a chegada daquilo que se convencionou chamar de “novas ideias” — uma ideologia de esquerda, principalmente ligadas ao anarquismo, que muitos dos imigrantes italianos, espanhóis e portugueses que se instalaram na América Latina naquele época trouxeram consigo.
Em 1905, um anarquista catalão tentou matar o então presidente argentino, Manuel Quintana (1835-1906). No ano seguinte, seu sucessor, José Figueroa Alcorta (1860-1931) também sobreviveria a uma emboscada anarquista.
Para o historiador e jornalista Rômulo Dias, professor de política internacional no Espaço Zeitgeist e autor do podcast ZGCast, a vinda maciça dos imigrantes, munidos de ideologias diversas, acabou sendo o ingrediente que faltava para a instabilidade política na região.
Ergamos bem alto a bandeira negra do apoio mútuo, esse fator de evolução que Kropotkin desenterrou das entranhas da vida para demolir a mentira da competição como destino.
O anarquismo não é uma doutrina empoeirada à espera do grande terremoto redentor: é uma ética insurreta que se prova no calor de cada gesto, no aqui-agora das relações. Transbordar o apoio mútuo para o cotidiano é arrancar o anarquismo dos livros e das declarações solenes e fazê-lo pulsar na rua, na cozinha coletiva, na oficina compartilhada, no cuidado com a vizinhança. É declarar, sem pedir licença, que a solidariedade não é caridade — é luta, é tecido conjuntivo de uma humanidade que se recusa a ser lobo de si mesma.
Romper as amarras do individualismo canibal que o capital nos enfia goela abaixo exige que cada relação seja minada pela lógica da horizontalidade radical. No trabalho, quebremos a hierarquia gerencial com autogestão real: decisões em assembleia, rotação de tarefas, renda partilhada. Na casa, desintegremos o patriarcado com a socialização do cuidado — creches autogeridas, marmitas comunitárias, mutirões de reparos que não distinguem gênero. Na rua, disputemos cada metro quadrado com hortas rebeldes, bibliotecas livres, saraus de ocupação. Tudo isso é apoio mútuo em ato, é a pré-figuração da sociedade sem Estado que começa a ser construída agora, nas brechas, sem esperar a licença de nenhum comitê central ou a promessa de um amanhã que nunca vem.
Transformar relações é o coração da contracultura anarquista, pois o poder se esgueira pelos vínculos que reproduzem submissão, machismo, racismo, transfobia. O apoio mútuo, quando vivido com intencionalidade revolucionária, desata esses nós. Uma escuta atenta num coletivo que acolhe a fala de uma pessoa trans sem interrompê-la, uma rede de economia solidária que prioriza produtoras negras, um sarau onde a palavra da quebrada ecoa mais alto que a do acadêmico — isso não é detalhe, é programa. A amizade como aliança política, o amor livre como força antiautoritária, o prazer compartilhado como sabotagem ao produtivismo. Cada vínculo refeito nessa base é uma fagulha de utopia queimando a velha ordem na esfera mais íntima do cotidiano.
Materializar utopias não é delírio de quem ignora a dureza da realidade; é a teimosia lúcida de quem sabe que a sociedade futura não cairá pronta do céu. Ela se ensaia, se erra e se corrige nas ocupações de imóveis vazios, nas cozinhas solidárias que enfrentam a fome enquanto o Estado desvia verba, nos bancos comunitários que subvertem a finança predatória, nas brigadas de defesa territorial contra a milícia e a polícia. O apoio mútuo é a argamassa que une esses pedaços de mundo novo — é ele que transforma um galpão abandonado num centro social autogerido, uma praça esquecida num jardim de ervas medicinais livres, um grupo de pessoas precarizadas numa cooperativa de resistência. Utopia concreta se faz com as mãos enlameadas de presente, não com a testa franzida de quem só repete versículos.
Fazer o anarquismo vivo é declarar guerra ao dogmatismo que mumifica a revolta e a transforma em seita. Não existe “O” anarquismo: existem anarquismos, tantos quantas forem as constelações de apoio mútuo que se armam contra a tristeza capitalista. A ação direta que supre um telhado sem pedir autorização à prefeitura, a rede de apoio a pessoas em situação de rua que opera na margem da lei, a cadeia de solidariedade que se forma em minutos num desastre enquanto o governo só envia repressão — são manifestações dessa anarquia viva, que não é desordem, mas ordem voluntária e insurgente. Contra a frieza burocrática das esquerdas estatólatras, a ternura combativa de quem cuida das feridas da companheirada enquanto destrói as cercas do mundo.
Portanto, que cada manhã seja uma assembleia cotidiana onde decidimos, na prática, viver como se a anarquia já fosse realidade. Não peça, faça; não delegue, organize-se; não espere, estenda a mão. O apoio mútuo não é adereço poético de um manifesto, é a respiração de um corpo coletivo que aprende a andar com as próprias pernas, sem patrão, sem Estado, sem deus. Companheirxs, a revolução não está marcada no calendário — ela brota no instante em que você oferece o que sabe, partilha o que tem e cuida de quem está ao lado. Sejamos a anarquia que nos habita: viva, insubmissa, solidária. Nem deus, nem patrão, nem estado: vida. E vida em abundância, transbordada, tecida nos fios quentes do apoio mútuo.
Após mais de sete meses em prisão preventiva, T. foi finalmente libertado da prisão de Haren. Ele foi condenado por incêndio criminoso em propriedade alheia com agravantes (o crime foi cometido à noite) a 40 meses de prisão, com os meses restantes suspensos durante o primeiro ano, e a uma multa de € 1.600.
Isso equivale a um ano de prisão efetiva e 28 meses de pena suspensa. Tendo já cumprido mais de um terço da pena, ele está em liberdade sem quaisquer restrições. Tanto a acusação quanto a defesa têm um mês para recorrer.
Abaixo a justiça, a polícia e as prisões! Liberdade para todos!
Ainda nos resta a noite – Apontamentos escritos a partir das fissuras e dos desacordos compartilhados por corações antiautoritários do território dominado pelo Estado Colombiano.
“Há derrotas que chegam pela força. E há derrotas mais profundas: aquelas que aprendem a falar a linguagem da resistência”.
Estas reflexões não pretendem proclamar verdades absolutas nem erguer novas fronteiras. Não foram escritas para fundar mais uma igreja sobre as cinzas das anteriores nem para distribuir certificados de coerência entre nós, que caminhamos pelo vale das mesmas derrotas. Se algo necessita esta geografia fragmentada de anarquismos, autonomias e rebeldias asfixiadas sob o céu da nossa terra, é precisamente o contrário: debates ferrenhos, autocrítica mordaz, ideias incômodas e perguntas capazes de tornar suspeitas as nossas próprias certezas e impedir que nossas convicções se transformem em refúgios. Porque as ideias também envelhecem e uma práxis que deixa de se questionar acaba se convertendo em uma identidade cultural. E toda identidade cultural, cedo ou tarde, aprende a coexistir com aquilo que dizia combater. Porque as revoluções não morrem apenas sob as botas ou nas prisões. Às vezes morrem de certezas e às vezes morrem quando deixam de fazer perguntas.
O frenesi dos períodos eleitorais se assemelha a uma moeda girando ao vento no sentido de todas as contradições. Há quem promulgue a autonomia enquanto organiza e participa de campanhas eleitorais, outrxs que citam Bakunin em seus textos para terminar pedindo melhores administradores para a governabilidade. Há quem afirme com veemência que nenhum governo trará liberdade e, em seguida, corra desesperadamente para proteger a legitimidade das instituições. Esta não é uma simples contradição moral, é política. Porque o horizonte nunca foi a pureza da nossa práxis, mas sim a sua direção.
Atualização sobre Pietro, e sobre Bibi, Stefano e Toni, presxs no âmbito da operação antianarquista do último dia 16 de junho e transferidos para outras prisões.
Pietro foi transferido na terça-feira, dia 23, de Forlì para a seção As2 de Terni.
Os advogados reapresentaram o pedido para as visitas aos familiares e na próxima semana irão visitá-lo. Após alguns atrasos devidos à burocracia interna (requerimentos, etc…), consegui falar com ele por telefone. Ele está bem.
Família e companheiros continuam enviando telegramas e na sexta-feira, dia 26, enviaram também aquele pacote de emergência com itens essenciais que não havia sido aceito na segunda-feira em Forlì.
Para quem quiser escrever para ele ou enviar um telegrama, o novo endereço é:
– Pietro Rosetti Casa de Detenção de Terni, Strada delle Campore n. 32, 05100 Terni (TR).
Bibi também foi transferido.
Para escrever para ele, o novo endereço é:
– Francesco Benedetti Casa de Detenção de Rossano, Contrada Ciminata, 87064 Rossano (CS)
No dia 27 de junho, Stefano e Toni também foram transferidos.
Compartilhamos os endereços atualizados:
– Stefano Marri Casa de Detenção de Terni, Strada delle Campore 32 05100 Terni (TR)
– Andrea Toniolo Casa de Detenção de Rossano, Contrada Ciminata, 87064 Rossano (CS)
Ainda não há notícias certas sobre Nico e Arnau.
Micol permanece no AS2 em Rebibbia.
– Micol Marino CC Rebibbia feminina, via Bartolo Longo, 92 00156 Roma
A eles a nossa solidariedade, com raiva e amor, pela anarquia!
Recuperar a via proudhoniana não é mera nostalgia ideológica, é reconhecer que a soberania económica não se constrói nem pela abdicação ao capital, nem pela hipertrofia do Estado, mas pela associação consciente de produtores, instituições públicas e comunidades, capazes de governar o crédito como função social.
Por Abel Pereira Costa | 27/05/2026
Quando Pierre‑Joseph Proudhon escreveu que “a propriedade é roubo”, não pretendia lançar um slogan incendiário para consumo retórico, mas sim nomear um problema estrutural da economia política moderna: a capacidade do capital de se autonomizar da produção e gerar rendimento sem trabalho, através da renda, do juro e da especulação.
O alvo da crítica não era a posse enquanto relação funcional entre o produtor e os meios de vida, mas a propriedade enquanto poder absoluto de extrair rendimento de terceiros. Neste ponto, o pensamento proudhoniano afasta-se tanto do liberalismo económico como das variantes estatistas do socialismo, abrindo a via própria para um socialismo sem Estado, fundado na reforma do crédito, na associação e na autogovernação económica.
Ao contrário dos socialistas utópicos, cuja crítica ao capitalismo industrial permanecia ancorada sobretudo na reorganização moral da produção, Proudhon desloca o centro da análise para a esfera da circulação. Identifica no crédito e na usura o verdadeiro “pecado original” da economia política. Enquanto o dinheiro puder gerar mais dinheiro independentemente da produção, a economia tenderá a reproduzir desigualdade, dependência e bloqueio da circulação efetiva da riqueza. Em consequência desta análise, surgiu porventura a sua proposta mais ousada: a criação do Banco do Povo, uma instituição mutualista assente na gratuitidade do crédito, onde o juro seria reduzido a um resíduo administrativo, incapaz de sustentar a acumulação rentista.
Defensores dos direitos civis soam o alarme após zines serem usados como prova para condenar manifestantes por acusações de terrorismo relacionadas ao protesto de 2025 em um centro de detenção do ICE no Texas.
Por Lex McMenamin | 24/06/2026
É o dia seguinte ao Dia das Mães, o primeiro que Elizabeth Soto passa longe de seus três filhos. Sentada na prisão em Wichita Falls, no Texas, seu rosto parece desbotado sob a luz fluorescente do teto, enquanto seu macacão gasto se mistura às paredes de blocos de concreto ao seu redor.
Falando através de uma divisória de vidro, ela conta que comemorou a data com os filhos pelo sistema de videochamadas da prisão, enquanto eles jantavam na casa da avó. “Fui mãe em tempo integral durante toda a vida deles”, disse. “Nunca fiquei longe deles.”
Os filhos de Soto ainda não a visitaram na prisão, localizada no norte do Texas, perto da fronteira com Oklahoma, a horas de distância da casa da família, na região de Dallas-Fort Worth. Elizabeth Soto viu seu marido, Ines Soto, apenas uma vez durante o último ano, o maior período em que ficaram separados desde que começaram a namorar, há mais de vinte anos. Ele está detido em um presídio federal a mais de 160 quilômetros dali.
Na terça-feira, Elizabeth foi condenada a 50 anos de prisão federal; a sentença de Ines está marcada para 1º de julho. Tudo porque, como ela resume: “Eles não gostaram do meu clube do livro.” Ela ri, mas o sorriso não chega aos olhos.
No Dia da Independência dos Estados Unidos do ano passado, um pequeno grupo da região de Dallas-Fort Worth realizou uma manifestação noturna com fogos de artifício em frente ao centro de detenção do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) de Prairieland, ao sul da região metropolitana, em solidariedade às pessoas detidas. Alguns manifestantes se afastaram do grupo principal e picharam carros de funcionários e um posto de segurança, furaram os pneus de uma van do governo e quebraram uma câmera de vigilância. Os seguranças do centro ordenaram que os manifestantes se dispersassem, e a maioria obedeceu. Quando uma policial chegou ao local empunhando sua arma, uma manifestante armada disparou seu rifle, atingindo a policial no ombro. A policial sobreviveu.
Após um julgamento de três semanas, um júri considerou oito dos nove manifestantes culpados de “fornecer apoio material a terroristas”, entre outras acusações. No caso dos Soto, esse “apoio material” incluía possuir uma “gráfica” utilizada para imprimir zines anarquistas e participar de um clube do livro de esquerda, segundo sustentou o governo federal. O casal já havia deixado o local quando as armas foram sacadas. Os oito réus condenados até agora receberam penas extraordinariamente severas, de 30 a 100 anos de prisão, o equivalente, na prática, à prisão perpétua.
Os advogados anunciaram que recorrerão da decisão, mas muitos apoiadores acreditam que apenas um perdão presidencial concedido por um futuro governo poderá libertá-los.
O caso de Prairieland foi o primeiro julgado e condenado sob as iniciativas de “contraterrorismo” do Departamento de Justiça do governo Trump voltadas contra a “antifa”, abreviação de antifascista, um movimento descentralizado que o governo classificou oficialmente como uma “organização terrorista doméstica”. O governo federal alegou que os acusados de Prairieland, descritos como uma “célula da Antifa do Norte do Texas”, haviam planejado a manifestação como uma tentativa de assassinato de um agente das forças de segurança. Essa suposta conspiração foi sustentada apesar de os acusados terem apenas vínculos superficiais entre si e de alguns participantes sequer se conhecerem antes do protesto.
A condenação dos acusados de Prairieland chocou especialistas em direito e em liberdades civis, que afirmam que o governo Trump está fazendo deles um exemplo e estabelecendo um precedente perigoso para o direito garantido pela Primeira Emenda de protestar e de produzir e distribuir informações.
“Não se trata apenas de uma tentativa de intimidar a liberdade de expressão”, afirmou Chip Gibbons, diretor de políticas da organização Defending Rights and Dissent, “mas de um indicativo de que o governo Trump pretende continuar reprimindo os protestos com extrema dureza.”
Ao todo, 22 pessoas foram acusadas em conexão com o protesto. Cinco fizeram acordos judiciais, outras cinco ainda respondem a acusações na esfera estadual e mais três foram denunciadas no mês passado. Aqueles que o governo federal descreve como “extremistas da antifa” são ativistas que poderiam ser encontrados em qualquer lugar dos Estados Unidos: pessoas trans, tatuadores, veganos e integrantes de redes comunitárias anti-ICE que praticam ajuda mútua. O foco do governo federal na posse de literatura de esquerda, incluindo zines, e em outras medidas básicas de segurança comuns atualmente, como possuir bolsas de Faraday destinadas a bloquear sinais sem fio para evitar vigilância, utilizar o aplicativo de mensagens criptografadas Signal ou vestir roupas inteiramente pretas, preocupa profundamente os ativistas.
“Os zines são um dos documentos fundadores da liberdade de expressão garantida pela Primeira Emenda, uma tradição que remonta aos Federalist Papers”, afirmou Xavier de Janon, diretor de defesa coletiva da National Lawyers Guild e advogado de Elizabeth em seu processo estadual. “Zines que discutem ideias de revolução, ajuda mútua ou um mundo pós-capitalista não deveriam poder ser criminalizados por si mesmos. Isso é perigoso para todos nós.”
O clube do livro Emma Goldman
As acusações contra os Soto derivam, em grande parte, de uma suposta “gráfica” que o FBI encontrou durante a primeira operação de busca em sua casa: uma impressora de escritório comum, um cortador de papel e uma encadernadora. Durante a operação, um dos filhos do casal contou à advogada de Elizabeth que policiais colocaram um saco sobre sua cabeça e o levaram para interrogatório; outro filho foi interrogado dentro da própria residência. Elizabeth só soube que seu filho havia sido levado para interrogatório ao ler um artigo publicado pelo coletivo anarquista CrimethInc, que posteriormente foi transformado em um zine. O Departamento de Justiça não respondeu ao pedido de comentários do Guardian sobre a operação na casa dos Soto, os ataques à Primeira Emenda ou o uso incomum da legislação antiterrorismo.
A acusação federal sustentou que os Soto utilizavam essa “gráfica” para produzir zines antigovernamentais destinados a um clube do livro do qual eles e alguns dos demais acusados faziam parte. O grupo recebeu o nome da célebre anarquista do século XX Emma Goldman, que, há 99 anos naquele mesmo mês, foi presa sob acusação de conspiração por organizar a oposição ao recrutamento militar durante a Primeira Guerra Mundial.
No clube do livro, o grupo lia zines políticos sobre temas como “um periódico de feminismo materialista” e “um chamado para a erradicação da inteligência artificial da face da Terra”. Um agente do FBI testemunhou em juízo que esses temas talvez fossem incomuns, mas não tinham nada de ilegal. Ainda assim, o FBI apreendeu esses zines, juntamente com a “gráfica” e uma coletânea de poemas sobre a perda de um irmão para o câncer.
Há décadas, os zines constituem uma importante fonte de informação para a organização comunitária da esquerda, em parte por serem publicações analógicas e poderem ser produzidas de forma anônima. Eles se tornaram ainda mais importantes durante o segundo governo Trump, em meio ao aumento da vigilância estatal sobre manifestantes e ao endurecimento da censura nas redes sociais. Em muitas livrarias independentes, bibliotecas e cafeterias dos Estados Unidos, é possível encontrar zines do tipo “conheça seus direitos”, explicando como observar legalmente agentes do ICE ou como preservar o anonimato durante um protesto.
“Parece claramente existir um projeto mais amplo para limitar a quantidade de informação à qual as pessoas têm acesso”, afirmou Dario Sanchez, outro acusado no caso de Prairieland, que sequer participou do protesto. Sanchez responde apenas a acusações estaduais, não federais, e seu julgamento ainda não foi marcado. Ele foi acusado de adulteração de provas por remover dois outros acusados de um grupo no aplicativo Signal após o tiroteio.
Durante o julgamento, os promotores federais argumentaram que a posse desses zines e de outros materiais de esquerda, como adesivos com a sigla “ACAB” (“All Cops Are Bastards”, ou “Todos os policiais são bastardos”) ou “Chinga La Migra” (expressão em espanhol equivalente a “Foda-se a polícia de imigração”), constituía prova da participação dos acusados em uma célula terrorista da “antifa”. Em diversos momentos, os promotores exibiram esses zines diante do júri para causar impacto.
Um dos zines encontrados em várias casas durante as operações do FBI era uma resenha, publicada em 2019, dos filmes Hereditary e Midsommar, escrita pela teórica feminista Sophie Lewis, intitulada “O culto satânico da morte é real”.
“Se você não estivesse chorando, estaria rindo, porque parece que eles não leram nada além do título”, disse Lewis. “É quase como uma confissão involuntária, como se o panfleto dissesse: ‘Nós adoramos o diabo. Assinado: Antifa’.”
A perseguição de Donald Trump à “antifa” começou em seu primeiro mandato e apenas se intensificou desde seu retorno ao poder. No mês passado, seu governo publicou uma nova “estratégia de contraterrorismo”, classificando “anarquistas e antifascistas” como “extremistas violentos de esquerda” e equiparando a “ideologia pró-transgênero” ao terrorismo. Essa estratégia ampliou as diretrizes estabelecidas pelo Memorando Presidencial de Segurança Nacional (NSPM-7), emitido em setembro, pouco depois do assassinato do comentarista de extrema direita Charlie Kirk, crime que setores da direita atribuíram, sem fundamento, a manifestantes de esquerda e pessoas trans. Pelo menos três dos nove condenados e cinco dos 22 acusados no caso de Prairieland são pessoas trans; muitas delas foram identificadas incorretamente nos documentos judiciais, apesar de já terem alterado legalmente seus nomes.
“Existe uma longa tradição nos Estados Unidos de tentar apresentar anarquistas, comunistas e outros movimentos de esquerda como participantes de conspirações criminosas, confundindo seu ativismo com essas supostas conspirações e ampliando artificialmente o alcance das acusações para equiparar discurso político à violência ou a atos criminosos”, afirmou Chip Gibbons, da organização Defending Rights and Dissent. Segundo ele, essa tradição remonta às acusações de conspiração contra Emma Goldman, passa pelas primeiras campanhas anticomunistas de Joseph McCarthy, pelo encarceramento político de integrantes dos Panteras Negras e do Movimento Indígena Americano, e chega às prisões de manifestantes que protestaram após o assassinato de George Floyd.
Integrantes do clube do livro e ativistas locais familiarizados com o caso afirmam que a literatura e outras expressões políticas de esquerda foram apresentadas como prova de criminalidade a um júri pouco familiarizado, ou mesmo hostil, à diversidade cultural e intelectual da região de Dallas-Fort Worth. Eles também afirmam que as autoridades do condado de Johnson, onde fica o centro de detenção de Prairieland e onde os acusados permaneceram inicialmente presos, trataram-nos de forma hostil, mantendo-os durante semanas em confinamento solitário, submetendo-os repetidamente a revistas íntimas e negando-lhes restrições alimentares, ao mesmo tempo em que os retratavam como terroristas violentos vindos da grande cidade.
As acusadas Autumn Hill e Meagan Morris, ambas mulheres trans, estão presas em unidades masculinas, onde permanecem vulneráveis a estupros e abusos sexuais, contrariando decisões federais recentes que determinam que mulheres trans devem ser mantidas em unidades femininas por razões de segurança. Segundo Lydia Koza, esposa de Hill, Morris também foi privada de tratamento hormonal enquanto esteve presa no condado de Johnson, o que poderia ter causado graves consequências médicas. O departamento do xerife do condado de Johnson não respondeu ao pedido de comentários do Guardian sobre o tratamento dispensado às acusadas.
Hill e Morris foram condenadas a 50 anos de prisão por conspiração para promover um motim e emboscar um agente das forças de segurança, embora não estivessem presentes quando os disparos ocorreram.
“A acusação simplesmente explorou o fato de que isso não parece ‘normal’ para a maioria das pessoas. Se você não reconhece algo, então deve ser algo sinistro”, disse Koza. “Há também um forte anti-intelectualismo. É como se dissessem: ‘Esses acusados leem livros. Que assustador. Não se pode confiar em pessoas que leem. Elas podem estar escrevendo coisas perigosas para você.'”
Quando agentes do FBI chegaram equipados como uma equipe da SWAT para realizar uma operação na casa de Koza e Hill, onde elas viviam com vários colegas de moradia, três cães e cinco gatos, lançaram granadas de efeito moral pela janela da frente, deixando marcas de queimadura no piso da residência.
Daniel “Des” Sanchez-Estrada, artista, tatuador e residente permanente nos Estados Unidos, não participou do protesto, mas sua esposa, Maricela Rueda, participou. Depois de ser presa, ela telefonou para ele e pediu que rebocasse seu carro e verificasse sua casa. O governo gravou essa conversa. Pouco depois, Sanchez-Estrada foi abordado pela polícia enquanto transportava uma caixa de zines para fora de sua residência. Diversas de suas ilustrações, na forma de adesivos e modelos de tatuagem criticando o ICE e a polícia, foram incluídas como provas no processo. Sua prisão deu origem ao lema que passou a aparecer em zines, bordados em patches e divulgado pela internet: “Zines não são crime!”
Sanchez-Estrada foi condenado por “ocultação dolosa de documento ou registro” e por “conspiração para ocultar documentos”, recebendo uma pena de 30 anos de prisão federal.
“Trabalhei duro todos os dias neste país e acredito nos direitos humanos e em ajudar quem precisa. Faço doações de dinheiro e de arte para ajudar animais e outras pessoas”, declarou ao tribunal antes da sentença. “Sou pai, marido e professor. Mas não sou terrorista.”
O precedente estabelecido
A condenação obtida pelo Departamento de Justiça com base na posse de literatura de esquerda, anti-Trump ou anti-ICE pode ser inédita, mas faz parte da repressão mais ampla do governo Trump contra os protestos. Trata-se, porém, de uma estratégia que tem obtido pouco sucesso nos tribunais.
Uma investigação da ProPublica e da Frontline, publicada no início deste ano, concluiu que mais de um terço dos mais de 300 processos relacionados a protestos anti-ICE “desmoronaram”. Em Chicago, manifestantes anti-ICE foram acusados de conspirar para obstruir operações das forças de segurança. No mês passado, o caso foi arquivado em razão de suposta má conduta da promotoria, e os acusados, conhecidos como os Broadview Six, agora pedem uma investigação sobre a condução do processo.
Depois da condenação no caso Prairieland, entretanto, os promotores federais obtiveram pelo menos outra vitória. Em Spokane, no estado de Washington, três pessoas foram condenadas no mês passado por conspiração para impedir a atuação de um agente federal durante um protesto que bloqueou um veículo do ICE que transportava dois migrantes. E o Departamento de Justiça não demonstra qualquer intenção de interromper essa estratégia. Na semana passada, outras 15 pessoas, em Minneapolis, Minnesota, foram acusadas do mesmo crime de conspiração para obstruir operações do ICE e de integrarem grupos “antifa” que “se opõem violentamente à aplicação das leis de imigração”.
Segundo especialistas em direito, o que diferencia Prairieland de muitos outros processos federais relacionados a protestos que fracassaram é o fato de uma policial ter sido baleada. De acordo com Shayana Kadidal, advogado sênior do Center for Constitutional Rights, foi a combinação entre danos ao patrimônio e o ferimento de uma agente que permitiu ao Estado construir a tese de conspiração.
Embora o governo tenha afirmado que a manifestante Benjamin “Champagne” Song disparou diretamente contra a policial com intenção de matá-la, sua advogada apresentou imagens do tiroteio que sugerem que Song atirou contra o chão, como disparo de advertência ou para distrair a policial, levantando dúvidas sobre a alegação de que pretendia atingi-la. Os apoiadores dos acusados contrataram um investigador para analisar mais detalhadamente as provas divulgadas sobre o tiroteio.
Durante o julgamento, o juiz recusou-se a permitir que os acusados apresentassem uma tese de legítima defesa. Song, ex-fuzileira naval dos Estados Unidos, foi a única condenada por tentativa de homicídio de um servidor público federal e por disparo de arma de fogo.
Em uma declaração divulgada após ser condenada a 100 anos de prisão federal, Song escreveu que levou sua arma por temer que agentes das forças de segurança ferissem ou matassem manifestantes, como ocorreu com Renee Good e Alex Pretti, manifestantes mortos a tiros por agentes de imigração em Minnesota no início daquele ano.
“Isso é errado”, escreveu ela sobre as acusações contra os outros 21 réus. “Isto é punição em massa. Isto é punição coletiva. Isto é culpa por associação. Isto é uma injustiça.”
Alguns dos acusados, incluindo Song, pertenciam à Socialist Rifle Association e possuíam armas legalmente registradas, fato que o governo federal apresentou como prova de intenção violenta. Nos últimos anos, muitas comunidades marginalizadas, especialmente pessoas trans, passaram a exercer o direito garantido pela Segunda Emenda em resposta ao aumento dos crimes de ódio. Kits caseiros de primeiros socorros levados pelos manifestantes de Prairieland também foram apresentados como evidência de que planejavam atos violentos.
Sanchez afirmou que a produção desses kits de primeiros socorros era “algo de que tínhamos muito orgulho”. Professor, ele passou a carregar um desses kits para poder improvisar um torniquete em caso de um tiroteio em sua escola.
“É normal apresentar acusações de terrorismo em um contexto como este?”, questionou Kadidal. “Isso me parece excessivo, e acredito que pareceria excessivo para qualquer cidadão comum que acompanhasse esta conversa.”
Savanna Batten, outra integrante do clube do livro Emma Goldman, foi condenada a 50 anos de prisão federal. O oitavo condenado, Zachary Evetts, também recebeu uma pena de 50 anos. Quando a visitei na prisão de Wichita Falls, em maio, ela mantinha o bom humor apesar das circunstâncias. Pensei em perguntar o que ela estava lendo, mas hesitei, imaginando se ela teria medo de responder.
“É absurdo viver em um mundo onde não é seguro perguntar quais livros uma pessoa está lendo”, disse ela.
Batten, vegana e frequentemente obrigada a passar fome na prisão, contou que sua vida antes da prisão girava em torno da natureza e de seus “animais companheiros”: uma gata chamada Garfielda, que ela levava para trilhas usando coleira, e seis caranguejos-eremitas resgatados, os dois primeiros encontrados em uma caçamba de lixo. Na prisão, ela está lendo um livro sobre a história natural dos caranguejos e conta que caranguejos-eremitas podem viver até quarenta anos quando não são mantidos em cativeiro.
“A ironia não me escapa…”, disse Batten, interrompendo a frase ao perceber que descrevia a vida e a dignidade dos caranguejos-eremitas enquanto estava presa em uma cadeia onde o único pedaço de céu que conseguia ver aparecia através das grades. “Eu entendo que viver em cativeiro é, por si só, algo terrível.”
O que vem a seguir
Especialistas em direito afirmam que o precedente estabelecido pelas condenações no caso Prairieland terá inúmeras consequências para a organização de movimentos sociais e para o direito de protesto, incluindo as plataformas das quais os organizadores dependem para atuar com segurança, como o aplicativo de mensagens criptografadas Signal. Depois que o Departamento de Justiça utilizou o aplicativo para obter provas contra os acusados de Prairieland, a Apple corrigiu uma falha de segurança que permitia ao governo acessar mensagens já apagadas.
Um núcleo local do movimento 50501, um dos grupos responsáveis pelos protestos No Kings, também foi implicado no julgamento de Prairieland. Uma testemunha da acusação, que afirmou fazer parte desse movimento descentralizado, depôs para a promotoria dizendo que havia colaborado com as forças de segurança durante um protesto realizado no mesmo local, no início do Dia da Independência. No entanto, Hunter Dunn, coordenador nacional de imprensa do 50501, afirmou que não conseguiu entrar em contato com essa pessoa e que ela não fala em nome do movimento. “Um grupo típico do 50501 não mantém qualquer relação com as forças de segurança”, declarou Dunn.
Outro grupo local ligado ao 50501 também foi citado na recente denúncia relacionada aos protestos de Minneapolis. Citando o Brennan Center for Justice, Dunn afirmou que o FBI está utilizando o memorando NSPM-7 do governo Trump para classificar qualquer protesto de esquerda como “terrorismo doméstico”. Segundo ele, o governo está “utilizando essa descrição vazia e sem significado para justificar a perseguição a manifestantes que lhes causam desconforto pessoal ou que temem que possam contribuir para o eventual fim de seu governo por meios não violentos”.
Dunn acredita que o ataque do governo federal ao direito de protestar terá um efeito intimidatório, mas também poderá produzir o efeito contrário, incentivando mais pessoas a se engajarem.
Enquanto aguarda seu julgamento na esfera estadual, Sanchez passou a frequentar almoços comunitários semanais realizados em uma igreja unitarista universalista em Fort Worth. Organizados por membros da igreja e pelo comitê de apoio aos acusados de Prairieland, esses encontros reúnem voluntários que escrevem cartas de referência em favor dos acusados enquanto compartilham uma refeição. Em um desses encontros, realizado em maio, os organizadores distribuíram zines sobre os acusados, ilustrados com retratos coloridos, sobre a mesa do jantar comunitário. No dia das sentenças, realizaram uma manifestação diante do tribunal de Fort Worth e organizaram novos encontros para as noites seguintes.
Desde a criação do comitê de apoio, a comunidade formada em torno do caso apenas se fortaleceu. Novas pessoas passaram a participar, entre elas Amber Lowrey, ativista ligada ao conselho escolar e irmã de Savanna Batten. Antes das acusações, Lowrey disse que não entendia quem eram os anarquistas e não conhecia pessoas trans. Segundo ela, participar do comitê transformou completamente sua visão de mundo. Hoje, produz vídeos sobre o caso para as redes sociais. Em uma declaração conjunta com o Dallas-Fort Worth Support Committee, Lowrey prometeu lutar para reverter as condenações. “Não descansaremos enquanto eles não forem libertados.”
Os acusados e seus apoiadores entrevistados pelo Guardian afirmam que o caso retrata pessoas de esquerda, pessoas trans e qualquer pessoa que critique o governo Trump como ameaças à sociedade texana, grupos que, segundo eles, já vinham sendo alvo do Estado havia anos. Lydia Koza e Autumn Hill mudaram-se para o Texas em 2023, justamente quando projetos de lei contra pessoas trans se multiplicavam pelo país, contrariando essa narrativa. Elas tinham familiares no Texas e pessoas que as acolhiam e apoiavam.
A solidariedade aos acusados de Prairieland também apareceu em uma livraria local, que distribuiu gratuitamente zines explicando o caso e vendeu patches serigrafados com as frases “Song não fez nada de errado” e “Zines não são crime”, destinando a arrecadação ao pagamento das despesas judiciais dos acusados. O comitê de apoio incentiva qualquer pessoa interessada no caso a criar seu próprio clube do livro Emma Goldman. Outras pessoas viajaram até a região para participar das ações de ajuda mútua, protestar diante do tribunal e apoiar os acusados. Um distribuidor de zines passou a vender um conjunto das publicações que foram incluídas como provas pelo governo, para arrecadar recursos destinados à defesa dos réus. A coletânea recebeu o título “O governo não quer que você leia estes zines”.
Os acusados e seus apoiadores sabiam que a maioria receberia as penas mais severas possíveis. O que lhes dá forças para continuar é a convicção de que nada dura para sempre.
Alguns dos poemas escritos por Song durante o inverno, enquanto permanecia em confinamento solitário, já foram reunidos em um zine. O último deles se intitula “tudo de uma vez”:
O tempo é um círculo Não uma linha reta Nosso abraço mais caloroso Acontecendo ontem Ainda acontecendo hoje Continuará acontecendo amanhã
Introdução: Howard Zinn. Prólogo e tradução: Ana Muiña. Imagens de Herbert Bayer
Herbert Read (1893-1968) é uma das personalidades mais instigantes do pensamento contemporâneo. Publicou inúmeros trabalhos sobre literatura, história da arte, artes visuais contemporâneas e educação criativa.
“Anarquia e ordem. Ensaios sobre política, arte e poesia” reúne todos os textos que este influente filósofo, poeta e crítico literário inglês escreveu especificamente sobre anarquismo. Nesta cuidadosa tradução da La linterna sorda, Herbert Read expõe que a arte e a política são manifestações da consciência humana interligadas. O Estado-nação moderno é uma forma de controle social que reprime o desenvolvimento natural e “orgânico” das relações humanas e do potencial individual. A sociedade pode se organizar com a ordem harmoniosa de uma comunidade cooperativa sobre uma base federativa, ecológica e local. Sua filosofia singular conecta o artista rebelde à necessidade de uma “atitude libertária” para potencializar a criatividade. “A arte é um modo de expressar a vida da imaginação”.
“O que a civilização moderna, com seu ‘Estado de direito’, suas gigantescas empresas industriais e sua ‘democracia representativa’, trouxe de contribuição? Mísseis nucleares já apontados e prontos para destruir o mundo, e populações — alfabetizadas, bem alimentadas e que votam constantemente — dispostas a aceitar essa loucura. A civilização fracassou em dois aspectos: perverteu os recursos naturais da terra, que têm a capacidade de tornar nossas vidas felizes, e também os recursos naturais das pessoas, que têm o potencial do talento e do amor. Para romper esses limites, para estender a razão em direção ao futuro, precisamos de paixão e instinto, que emergem das profundezas do sentimento humano que escapa aos limites de um período histórico. Quando Herbert Read falou em Londres em 1961, antes de participar de um ato massivo de desobediência civil em protesto contra os submarinos nucleares e os mísseis Polaris, defendeu romper os limites da ‘razão’ por meio da ação”. Introdução de Howard Zinn
O Museu Mundaneum, em Mons, inaugurou uma nova exposição que explora a história e as ideias do anarquismo. Ela permanecerá aberta até 9 de maio de 2027.
Intitulada “Tons de Preto – Histórias e Ideias do Anarquismo“, a exposição reúne arquivos e documentos que raramente são disponibilizados ao público.
Os visitantes são convidados a mergulhar nas culturas anarquistas, questionando a percepção difundida de que o anarquismo está associado ao caos.
A mostra acompanha a influência histórica do movimento sobre as dinâmicas sociais, políticas e culturais desde o século XIX, por meio de cartazes, fotografias, jornais e outros materiais de arquivo.
Os movimentos anarquistas historicamente se envolveram com questões como a emancipação das mulheres, a contracepção, a educação livre, o vegetarianismo, a ecologia e as críticas ao capitalismo. Ideias que, desde então, passaram a fazer parte do debate público.
A exposição estabelece paralelos com as desigualdades, crises e conflitos da atualidade, explorando a renovada relevância desses temas.
O centro de arquivos enfatiza que o anarquismo vai além da simples rejeição da autoridade, oferecendo propostas ousadas de autonomia, igualdade, solidariedade e organização coletiva.
Também destaca que os ideais libertários influenciaram trabalhadores, intelectuais e artistas, dando origem a debates que continuam relevantes até hoje.
Os visitantes podem conhecer como práticas inspiradas pelo anarquismo ainda impulsionam iniciativas de base e novas formas de imaginar a convivência social.
A exposição é resultado de uma colaboração entre o Mundaneum, o Instituto de História Social, Econômica e do Trabalho (IHOES) e o Centro de História e Sociologia da Esquerda (CHSG) da Universidade Livre de Bruxelas.
Há quem sustente, ou pelo menos sustentava até não muito tempo atrás, que não se pode julgar o regime cubano apenas por ter visitado a ilha por um curto período como turista. Tal argumentação soava como um subterfúgio para continuar mantendo o mito da revolução cubana, ao que se somava o bloqueio estadunidense como motivo principal para a intolerável pobreza da população. O fato é que a primeira vez que visitei Cuba foi em meados dos anos 1990, estando a sociedade ainda sob as sequelas do denominado “período especial”, quando o colapso da União Soviética no início da década, da qual dependia economicamente em grande medida, levou a uma crise profunda. No entanto, décadas depois, não parece ter saído dessa etapa de profundas carências, enquanto o regime se fechava no autoritarismo com uma retórica persistente de defesa de uma suposta revolução estagnada (na verdade, fracassada e não apenas por fatores externos). Aquela minha estadia (sim, curta) foi talvez o ponto de inflexão para finalmente me desiludir sobre um sistema que, um dia, quis pensar que não era tão sangrento e repressivo quanto outros regimes, com alguma esperança de construir um verdadeiro socialismo, mas que na realidade escondia uma triste realidade muito similar. Já manifestei isso com frequência, como uma crítica devastadora, que se poderia resumir em uma intolerável falta de liberdades, uma alarmante ineficácia econômica do Estado e, apesar da propaganda do regime, uma ausência total de gestão pela sociedade civil em todas as esferas da vida. Não sei se, a esta altura, defensores da revolução cubana ainda sustentarão que minhas opiniões são as de alguém que não conhece aquela sociedade, que só a visitou como turista. O certo, sem querer me gabar de grandes conhecimentos, é que tenho parentes naquele país, conheço inúmeros cubanos com suas circunstâncias particulares e procuro, creio que sem qualquer suspeita de querer favorecer a predação capitalista, estar bem informado à margem de proclamas e simplificações.
O que observei em Cuba foi a mesma exploração e desigualdades que em qualquer sistema capitalista (aceitando, e isso já é muito aceitar, que o regime cubano não o é), ao que se somava a repressão e o controle social de um sistema totalitário. Por outro lado, tornar a revolução cubana, em suas origens, dependente e subsidiária da potência soviética dá uma ideia do fracasso econômico. Fracasso econômico, político, social, econômico e profundamente moral, tenho que dizê-lo sem rodeios. Sobre os supostos logros revolucionários, dos quais qualquer sistema autoritário se vangloria, seria preciso perguntar quão sólidos eles foram e a que preço foram obtidos. Lamento dizer essas palavras devastadoras, já que conheço boas pessoas que quiseram pensar que aquilo era diferente, mas a isso me vejo obrigado, justamente, para escapar dessa polarização irrefletida e tentar abrir um horizonte social um pouco melhor em alguma parte do mundo. Para isso, qualquer sistema deve deixar, ao menos, certa margem de liberdade à população para seus próprios projetos, à margem de tutelas estatais. Infelizmente, os movimentos sociais foram praticamente anulados em Cuba, já que a representação política está praticamente monopolizada pelo Partido Comunista e pela União dos Jovens Comunistas. E, como esperança para certo socialismo em liberdade, o anarquismo teve tradição na ilha, com certa atividade até bem entrado o século XXI, embora a repressão do regime tenha feito com que fossem muito intermitentes e, hoje em dia, tenham sérias dificuldades para se manter. Após o falecimento de Fidel Castro há uma década, e apesar de algumas reformas aparentemente liberais, houve certa continuidade, assegurando-se o controle estatal da economia, enquanto a população sofria uma crise atrás da outra e profundas carências de todo tipo. A retórica revolucionária do regime se mantinha, atribuindo os problemas, como em outros sistemas totalitários, a inimigos e fatores externos.
E, se é criminoso o bloqueio que o regime exerce sobre seu povo, não o é menos o que os Estados Unidos vêm praticando sobre Cuba há décadas, intensificado nos últimos tempos pelo iníquo Trump. Há poucos dias, neste mês de junho de 2026, foi anunciado que a pressão estadunidense deu resultado e a Assembleia Nacional do Poder Popular em Cuba autorizou inúmeras reformas, entre as quais estão a criação de bancos privados e a possibilidade de acionistas particulares dentro das empresas estatais, enquanto que, no âmbito trabalhista, os salários deixam de ter uma escala fixa e podem ser negociados com os trabalhadores. Em outras palavras, Cuba parece estar abrindo as portas para o capitalismo puro e duro. Entre as críticas que fiz ao regime cubano, supostamente revolucionário, esteve a de provocar nas pessoas que lhes seja difícil imaginar qualquer solução em nível econômico que não seja a entrada de investidores privados na ilha. Em outras palavras, trata-se de substituir o capitalismo de Estado, e não poderíamos chamá-lo de outra forma, pelo que ocorreu em Cuba durante as últimas décadas, por um capitalismo livre de barreiras para os que mais têm. Veremos se esse é o caminho final que se toma em Cuba, na mesma linha da China, embora o presidente Díaz-Canel tenha garantido que todas essas reformas não significam uma renúncia ao “socialismo”. É preciso verificar também se, dentro dessas transformações, está incluída a concessão de liberdades fundamentais ao povo cubano, tremendamente sufocado e mergulhado no desespero após um período infinito sofrendo uma tutela estatal repressiva e ineficaz. Infelizmente, como em tantos outros países onde se adotou a práxis marxista-leninista, autoritária, centralista e burocrática, as esperanças são depositadas no liberal-capitalismo e não em um horizonte autenticamente emancipador. Do nosso mais profundo desejo libertário (o verdadeiro, atenção), só podemos exigir, como já manifestou algum grupo anarquista, “todas as formas de autogestão daqueles que trabalham, convivem e criam em Cuba”, sem imposições autoritárias de nenhum tipo e com uma liberdade em todas as esferas da vida onde predomine a solidariedade.
Que isso, anarquia mesmo? Achei interessante esse ponto sobre a revolução espanhola, mas confesso que nunca tinha parado pra pensar…
O texto ficou bem natural, dá para sentir que veio de uma experiência real. Esses detalhes pequenos acabam prendendo mais…
Viva a revolução espanhola e viva a anarquia!
bom texto!
posição lúcida. organização anarquista com marca registrada? pedindo ação do estado contra trabalhadores? opa, pera lá caceta!