[Itália] Feliz aniversário, Umanità Nova!

Em 11 de fevereiro de 1920, não nascia apenas um jornal, mas tomava forma o impossível tornado carne e tinta. Errico Malatesta, retornado do exílio com o coração ainda cheio de esperanças transoceânicas, depositou a primeira semente do Umanità Nova no solo inquieto de Milão. Não era um simples boletim de facção, era um desafio editorial de classe sem precedentes, um experimento único capaz de arrancar da resignação cinquenta mil cópias diárias. No auge do Biênio Vermelho, enquanto as fábricas rugiam com ocupações e os sonhos de revolução pareciam ao alcance das mãos, o diário tornava-se a bússola libertária de um proletariado que não pedia patrões, nem velhos nem novos.

Ao lado de Malatesta, mentes afiadas como navalhas e corações ardentes como tochas: Gigi Damiani, Luigi Fabbri, a lucidez analítica de Camillo Berneri e a paixão indomável de Nella Giacomelli. Uma vanguarda sem hierarquias empenhada em tecer a trama de uma alternativa à sociedade burguesa. O Umanità Nova não se limitava a narrar o mundo, tentava subvertê-lo a cada dia, orientando a resistência contra a sombra negra do fascismo que começava a crescer nas praças.

O romantismo militante dessa empreitada reside na sua própria fragilidade: uma redação que era barricada de papel, um baluarte de liberdade que o poder não podia tolerar. Os ataques esquadristas, sistemáticos e ferozes, culminados na destruição de 1922, não atingiram apenas os prelos e as rotativas, mas tentaram silenciar a voz daqueles que ousaram imaginar um amanhã horizontal. No entanto, entre os escombros daquela sede devastada, restava a marca de um fato consumado: a demonstração de que a anarquia sabe fazer-se cotidiano, organizada e com afeto coletivo. 100 anos destes dias, Umanità Nova! Muitos parabéns a você! Um caro abraço, um ser humano que te lê desde 2006.

www.militanzagrafica.it

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

A rua apinhada
E nos passos apressados
As pessoas solitárias…

Débora Novaes de Castro

[Espanha] Mulheres em luta, rompendo fronteiras

Frente ao fascismo, o racismo e o colonialismo

Este 8 de março saímos juntas porque o avanço do fascismo, do racismo e do  colonialismo já está afetando nossas vidas. Não é uma ameaça longínqua: se expressa em guerras, ocupações, fronteiras cada vez mais violentas, políticas de expulsão e detenção, perda de direitos e controle social, a serviço de um sistema capitalista e patriarcal que necessita a desigualdade para sustentar a exploração.

Este avanço golpeia de forma específica as mulheres. Em contextos de guerra, ocupação e militarização, nossos corpos e nossas vidas se convertem em território de violência, pobreza e desapropriação, reforçando as violências machistas e limitando nossa autonomia.

Desde um feminismo internacionalista, denunciamos as consequências deste sistema sobre as mulheres em diversos lugares do mundo: a situação que vivem as mulheres na Síria; a resistência cotidiana das mulheres saharauis e palestinas frente ao colonialismo e o deslocamento forçado; e a perseguição que sofrem hoje as mulheres kurdas por sustentar projetos de autonomia e emancipação feminista. Do mesmo modo, denunciamos as políticas de detenção, deportação e separação de famílias que golpeiam especialmente as mulheres migrantes, gerando sofrimento, medo e desenraizamento. Não são realidades alheias, mas expressões de uma mesma estrutura de dominação que atravessa fronteiras.

Aqui e agora, a perda de direitos e a deterioração dos serviços públicos avançam pela mão dos governos de direita, com ataques diretos à autonomia das mulheres. Questionam-se conquistas básicas como o acesso ao aborto, a educação em igualdade ou a liberdade sexual e reprodutiva, enquanto se reforçam o controle, a desigualdade e a exclusão.

As consequências são visíveis na vida cotidiana: precariedade, dificuldade de acesso a uma moradia digna, empobrecimento e um aumento da violência machista em todas as suas expressões — físicas, sexuais, econômicas e institucionais —, que segue custando vidas.

Frente a este contexto, nossas reivindicações não são abstratas: são respostas concretas para defender vidas dignas e livres de violências.

EXIGIMOS:

• O fim de todas as violências machistas, incluídos os feminicídios, a violência vicária e os assassinatos de caráter machista, com políticas reais de prevenção, proteção, reparação e recursos suficientes.

• O fim da precariedade estrutural, da divisão sexual do trabalho e da diferença salarial e de pensões que condena as mulheres à desigualdade durante toda sua vida.

• Um sistema público de cuidados, comunitário, universal e gratuito, junto com condições laborais dignas no setor, com salários justos, estabilidade, convênios coletivos e acesso à greve.

• O direito a uma moradia digna e aos suprimentos básicos, frente à especulação, os desalojos e a precariedade habitacional.

• Proteção efetiva ante qualquer crise, porque suas consequências recaem de forma desproporcional sobre mulheres e pessoas em situação de vulnerabilidade.

• A erradicação de todas as violências e discriminações para com as mulheres, pessoas dissidentes e LGTBIQA+, assim como dos preconceitos de gênero na saúde.

• O fim da violência institucional, que criminaliza, desprotege e vulnera direitos, especialmente contra mulheres, pessoas migrantes e coletivos em luta.

• A revogação da reforma laboral e das reformas de pensões que nos condenam a vidas esgotadas e precárias.

• A revogação da lei mordaça, que criminaliza e castiga com sanções e cárcere o protesto social, utilizando-se para perseguir e reprimir coletivos feministas, sindicais e movimentos sociais críticos.

• Uma renda básica igualitária e a redução da jornada laboral a 30 horas.

Visibilidade e representação equitativa de mulheres e pessoas não binárias em todos os âmbitos.

• Uma sociedade não capacitista, inclusiva com a diversidade funcional e os corpos não normativos.

• Políticas reais de coeducação, formação e sensibilização em igualdade.

• A regularização de todas as pessoas migrantes, a revogação da lei dos estrangeiros, o fim dos CIE e o fim das deportações.

• Medidas urgentes frente à emergência climática, desde a justiça social.

Frente ao fascismo não há neutralidade.

Nossa resposta é coletiva, feminista e sem fronteiras, nas ruas, nos centros de trabalho e em todos os espaços da vida.

Mulheres em luta, rompendo fronteiras

Nos vai a vida, nos vão as liberdades

cgt.es

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Folhas no chão —
A piscina de bolinhas
do gato brincalhão.

Cristina Chinen

Um novo livro sobre cinema e cosmologias ameríndias

Está no ar a campanha de financiamento coletivo do livro Cosmologias ameríndias em movimento no cinema de ficção, de Juliano Gonçalves da Silva. A obra investiga como o cinema latino-americano mobiliza cosmologias ameríndias e como imagens, narrativas e personagens indígenas tensionam estereótipos históricos ainda presentes na linguagem cinematográfica.

Ao tratar o cinema como espaço de produção de sentidos, memória e disputa simbólica, o livro propõe uma leitura crítica e sensível sobre representação, decolonialidade e modos de imaginar o mundo. É uma pesquisa que dialoga com quem se interessa por cinema, estudos indígenas, imagem e pensamento latino-americano.

O livro está disponível por valor promocional durante o financiamento coletivo, e a campanha também reúne outras obras do autor, além de opções com múltiplos exemplares para compartilhar, presentear ou dividir com amizades.

Apoiar esta campanha é contribuir para a circulação de pesquisas independentes, para o fortalecimento da edição autônoma e para a ampliação de debates sobre representação e cosmologias ameríndias no cinema.

>> Conheça as recompensas e apoie o projeto em: https://catarse.me/cosmologias-amerindias

agência de notícias anarquistas-ana

Vermelho céu manchado
Sombras em seus lugares
Lua aparece.

Chang Yi Wei

[EUA] Terceira Feira Anarquista do Livro do Upstate nos dias 2 e 3 de maio de 2026.

Reserve a data! As inscrições para expositores já estão abertas para a Terceira Feira Anarquista do Livro do Upstate, nos dias 2 e 3 de maio de 2026, em Binghamton, NY, realizada no armazém da PM Press. Saiba mais, participe e inscreva-se em breve em upstateanarchistbookfair.com.

Sobre
O armazém da PM Press, localizado na 21 Emma Street, em Binghamton, NY, sediará a Terceira Feira Anarquista do Livro do Upstate nos dias 2 e 3 de maio de 2026.

Em celebração ao Dia Internacional dos Trabalhadores, a feira de dois dias contará com expositores de livros e zines, uma liquidação de armazém, organizações comunitárias, dois dias inteiros de mesas e debates, música ao vivo a partir da doca de carregamento e muito mais. Todas as pessoas são bem-vindas para se juntar a nós na criação de comunidade, no compartilhamento de saberes e paixões e no debate sobre a melhor forma de derrubar o sistema capitalista (patriarcal, racista, cis-hetero).

A feira do livro é uma oportunidade não apenas para vender e divulgar, mas para criar comunidade. Você não precisa se identificar como anarquista para participar ou frequentar a feira!

Por que uma Feira Anarquista do Livro do Upstate em Binghamton, NY?

O motivo prático: a PM Press comprou um armazém de 17.000 pés quadrados em Binghamton em 2021. Também adquirimos uma livraria de usados (Autumn Leaves) em Ithaca, NY. Ao longo dos últimos anos, enchemos o armazém com prateleiras e mais prateleiras de literatura de esquerda (tanto da PM Press quanto de outras editoras camaradas). Hoje, ele é certamente um dos maiores repositórios de literatura de esquerda do mundo. Também contamos com um grande estacionamento, um espaço de eventos em desenvolvimento e conexões com uma comunidade local DIY com as habilidades necessárias para organizar um evento divertido, produtivo e reflexivo.

O motivo político: Binghamton é a cratera pós-industrial deixada por belicistas paternalistas e anti-sindicais como a IBM e a Endicott-Johnson Shoe Company. Antiga sede da KKK do estado de Nova York e atual epicentro do encarceramento em massa no interior do estado, Binghamton é, como muitas pequenas cidades do Rust Belt, governada por reacionários que cresceram na “era de ouro” da cidade e estão convencidos de que bastam alguns incentivos fiscais e batidas policiais contra drogas para voltarmos a 1959. Também temos uma pequena, porém dedicada, comunidade de ativistas lutando para libertar Binghamton desses senhorios de cortiço/policiais/empresários pequeno-burgueses oportunistas/elite política. Esperamos que eventos como a UABF reúnam camaradas e coletivos de toda a região para compartilhar conhecimentos, habilidades e alegria, expandindo nossas pequenas redes de agitação radical em uma força coletiva capaz de desafiar o capitalismo no condado, no estado e além.

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

na ordem alfabética
conseguir captar
a desordem poética

Jandira Mingarelli

[Espanha] 8M | Mulheres livres. Contra toda autoridade

Não viemos pedir nada. Não viemos implorar direitos nem mendigar compreensão. Viemos exigir-nos a nós mesmas, a sacudir a preguiça mental.

Frente ao avanço do fascismo, do patriarcado e de um sistema que pretende governar-nos com medo, disciplina e obediência, afirmamos o mesmo que ontem e que hoje volta a ser urgente: não aceitamos tutelas. Nem a do Estado, nem a do homem, nem de partidos, nem de hierarquias que falam em nosso nome enquanto decidem por nós.

Somos feministas porque combatemos todas as violências.

Somos antifascistas porque o autoritarismo sempre começa controlando corpos e silêncios.

Somos anarquistas porque cremos na ação coletiva, no apoio mútuo e na autogestão e na horizontalidade.

Queremos mudar tudo. Queremos vidas dignas, livres e sem medo. Mulheres que não obedeçam cegamente, que não repitam bandeiras alheias.

Não queremos disciplina que anule a iniciativa, nem hierarquias que convertam a umas em mandos e a outras em obedientes. Queremos responsabilidade livremente assumida e cooperação.

Nossa luta não é contra o homem, mas contra tudo o que oprime: a ignorância, a miséria, a exploração e a autoridade imposta.

Por isso saímos à rua.

A luta é agora. A fazemos nossas.

Nos organizamos porque a vida não se delega.

CNT-AIT

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

sob o último sol,
ave beija a face do lago;
o espelho trêmulo se arrepia.

Alaor Chaves

Nasce o Livro Livre: Um Ponto de Resistência Anarquista no Sul do Espírito Santo

A cidade de Cachoeiro de Itapemirim, berço de uma cultura muitas vezes aprisionada pelas elites, ganha um sopro de liberdade e resistência. A União Anarquista Federalista (UAF), em parceria com a Federação Anarquista Capixaba (FACA), lança o projeto Livro Livre: um ponto físico de troca de livros baseado no mais puro princípio do apoio mútuo. Aqui, não há moeda, não há patrão, não há catraca. Deixe um livro, leve outro. É um ato simples, mas profundamente subversivo em um mundo que tenta mercantilizar cada aspecto de nossas vidas e conhecimentos.

Este espaço é mais do que uma estante; é um marco territorial da cultura libertária na cidade. É um convite para que a classe trabalhadora, os estudantes, os artistas e todos os inconformados ocupem esse pedaço da cidade com ideias que o sistema quer ver esquecidas. Ao colocar em circulação livros sobre anarquismo, anticapitalismo, feminismo, ecologia social e história vista de baixo, estamos construindo as trincheiras ideológicas da nossa luta. Cada livro retirado é uma semente plantada; cada livro doado é um tijolo no muro da resistência popular.

Funciona pela solidariedade e pela confiança, valores que o capitalismo tenta destruir diariamente. Se você tem livros pegando poeira em casa, traga-os para ganharem vida nova nas mãos de outros combatentes. Se você busca conhecimento para entender o mundo e transformá-lo, venha buscar. Não se trata de caridade, mas de responsabilidade coletiva com a formação da nossa classe. O projeto Livro Livre vive pela comunidade e para a comunidade, sendo um exercício prático de autogestão e horizontalidade, mostrando que podemos organizar nossa cultura e nossa educação sem esperar permissão do Estado ou dos empresários.

Por isso, conclamamos todos os moradores de Cachoeiro e região: venham conhecer, participem, doem, levem, divulguem. Apoiem essa iniciativa que aquece nossos corações e mentes para a batalha das ideias. O futuro que queremos construir, sem exploração e sem opressão, passa também por gestos como esse. O Livro Livre é nosso, é de quem o fizer. Ocupe a cultura, liberte-se! Viva a UAF! Viva a FACA! Pelo apoio mútuo e pela revolução social!

União Anarquista Federalista – https://uafbr.noblogs.org/

Federação Anarquista Capixaba – https://federacaocapixaba.noblogs.org/

agência de notícias anarquistas-ana

tão longa a jornada!
e a gente cai, de repente,
no abismo do nada

Helena Kolody

[Uruguai] O problema não é Chomsky, somos nós

Por Raúl Zibechi – Kaosenlared (18.02.2026)

A adoração de personagens públicos, aos quais se atribuem enormes méritos, chegando a transformá-los em “quase deuses”, é um problema que se arrasta desde muito tempo atrás nas esquerdas e nos movimentos emancipatórios. Exaltam-se virtudes, mas nunca defeitos. Inventa-se uma realidade em tons de branco ou preto, excluindo matizes, os cinzas e tudo aquilo que possa ofuscar o personagem endeusado.

A própria palavra cinza é usada como adjetivo. “Uma pessoa cinza” é entediante, sem méritos, incapaz de nos atrair ou chamar nossa atenção, menos ainda algum tipo de admiração. No entanto, a realidade é pintada em múltiplas cores e é muito mais rica que o binário branco-preto. Com essa clivagem, na maioria das vezes pretendemos acalmar nossas incertezas, fugindo dos incômodos matizes que tanta insegurança nos provocam. Porque, admitamos, o ser humano branco e ocidental busca desesperadamente a segurança.

Muitas pessoas de esquerda admitem que o culto à personalidade de Stalin foi algo negativo, mas aceitam o culto a Lênin ou a Marx, por exemplo. Creio que neste ponto a cultura “emancipatória” das esquerdas é herdeira do caudilhismo e do culto aos reis tão presentes na história da humanidade, desde as primeiras sociedades até hoje. Com o agravante de que os cultos atuais se disfarçam de emancipação, mas no fundo são tão absurdos quanto a submissão aos reis e rainhas.

Ainda hoje vemos como esse culto continua fazendo seu tremendo trabalho de paralisia das sociedades, seja no apoio acrítico a Evo Morales ou Hugo Chávez, para citar apenas dois exemplos. Os processos progressistas da América Latina estiveram, todos eles, ligados a um caudilho, desde Néstor Kirchner até Lula, passando por Correa e os já mencionados.

No caso de Chomsky, sobressai a gravidade de seu estreito vínculo com o pedófilo-criminoso e milionário Epstein, mesmo depois de ele ter sido condenado e de se conhecerem suas façanhas. No entanto, se Epstein não fosse pedófilo-criminoso, algo teria mudado? Podemos validar que um personagem público das esquerdas tenha estreitos vínculos com um milionário? Não vale qualquer amizade, com qualquer pessoa, passando por cima das classes, das posições políticas e do status das pessoas. Sem esquecer que Chomsky cometeu outros pecados, como trabalhar para programas militares.

Uma pessoa como nós, os leitores desta página, pode relacionar-se com qualquer pessoa, com um Berlusconi, um Bolsonaro ou um Putin? Não me refiro a gente de baixo que tenha apoiado esses personagens, mas às relações com as elites dominantes, um estilo que se cultiva nos parlamentos de todo o mundo, quando deputados que estão em posições políticas opostas comem na mesma mesa e acabam se socializando nos mesmos espaços.

O caso de Chomsky é simplesmente repugnante. Mais grave ainda por se tratar de uma personalidade pública que deve dar o exemplo e pedir perdão quando erra. O que pretendo com estas linhas é pôr um espelho coletivo, como costumam dizer os zapatistas, para nos perguntarmos: E nós, o quê?

Quantos Chomsky existem em nossos cérebros e corações? Colocar toda a maldade no linguista é igual a colocar todos os méritos num caudilho, como Pepe Mujica, por exemplo. Sendo uruguaio, sofro cada vez que gente de baixo em algum canto do planeta me diz maravilhas de um personagem que, neste país, conhecemos e não admiramos, pelo menos quem isto escreve e grande parte de seus amigos.

O culto à personalidade revela, além disso, nosso proverbial individualismo, já que colocamos todos os valores positivos numa pessoa, mas não num coletivo. Fazem bem os zapatistas em cobrir o rosto, em igualar-se todos e todas com o passamontanhas e o paliacate. Observemos que toda a cultura capitalista gira em torno de pessoas, desde Messi até Trump, seja para endeusar ou reprovar. Mesmo no caso do zapatismo, não são iguais as atitudes que temos em relação ao subcomandante Marcos ou a qualquer uma das comandantas, incluindo quem isto escreve.

Talvez a lição que possamos aprender do caso Epstein-Chomsky é que devemos ser mais cuidadosos, mais moderados na hora de mitificar personagens. Mas, sobretudo, ser mais comunitários, destacar o coletivo e o simples, a inocência das meninas e meninos antes que o sistema os conduza à adoração das celebridades.

Fonte: https://redeslibertarias.com/2026/02/26/el-problema-no-es-chomsky-somos-nosotros/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

horizonte esmeralda
uma vela voga
em direção ao céu

Rogério Martins

Tu – o pronome neutro em português

Nas minhas vivências de punk bem velho e anarquista, quando a rapaziada me ensinou sobre a vida não ser binária, sobre sexo ser diferente de sexualidade, que também são, os dois, diferentes de gênero, que posso ter um gênero tal, e uma sexualidade outra, e que tudo isso eram espectros, igual a como se compreende o autismo, isso foi uma reviravolta fundamental na minha maneira de pensar e agir.

Nunca havia me identificado como homem hétero, cis gênero, mas também não me identificava como mulher. Essas novas ferramentas da linguagem, essa nova tecnologia que eu, velho ranzinza, aprendia agora, me caiu como um bálsamo. As pessoas já haviam me falado de disforia de gênero, mas nunca de euforia de gênero. Quando me compreendi e me afirmei não binário, eludelu, senti enorme alívio e grande felicidade (se é que isso se refere a algo na vida), muita alegria e bem-estar de estar e ser eu mesmo, como sempre me senti.

Só que, nos meus restritos círculos sociais, encontrei dificuldade em que as pessoas compreendessem e me tratassem por “elu” e “delu”. Em inglês, “they” é usado para neutro, e isso é da gramática do inglês, desde época medieval. No português, ainda mais com a idade aparentando bem, me chamam de “senhor”. Eu brigava, “senhor, não, você, pô“. “Ah, mas é por respeito.” Eu retrucava que, “se é por respeito, tenho título, é Professor Doutor, então, me chame de professor, mas não me chame de senhor“.

Minha pinimba com a palavra “senhor” é antiga, não quero ser senhor de nada nem ninguém. Acredito numa Terra sem senhores.

Hoje, do nada, veio o “tu”. O “tu” é neutro! Ou deveria dizer “tu és neutro”? Enfim, nas diversas regionalidades do português, usamos o “tu” conjugando de maneira correta ou não. Mesmo havendo discrepância na conjugação, não me parece difícil que se use o “tu” por todos os lugares onde se usa o português. Eu não me sentirei mais um extraterrestre nesses momentos em que me canso de “educar” as pessoas sobre a vida não ser binária, eu não quero mais ser professor de ninguém, não leciono, não quero avaliar nem ser avaliado! “Tu”, pronto. Neutro. Neutrinho da Silva.

Este é o meu manifesto individual pelo uso do “tu” como pronome neutro, por uma Terra sem Senhores!

CF Puig

Carly Puig é tradutor, filósofo e historiador das ciências, escritor, editor e tem militado no anarquismo, principalmente em produção de textos, desde 1986. Punk velho, tem um “jardim suspenso” dentro de casa: uma caixa d’água cheia de plantas e peixes, num ecossistema funcional, sem limpeza nem trocas de água nem produtos químicos. Também tem sido ativista pela libertação animal e no salvamento dos oceanos.

agência de notícias anarquistas-ana

O vento é o tempo:
sopra varre levanta lambe
desfaz o que foi feito.

Thiago de Mello

[Indonésia] Yogyakarta em chamas novamente – Libertem os prisioneiros

24 de fevereiro de 2026

A Polícia Regional de Yogyakarta recebeu a visita de estudantes e residentes de Yogyakarta. A multidão exige a libertação de TODOS os detidos remanescentes da revolta de agosto de 2025.

Centenas de estudantes e moradores realizaram um protesto em frente à sede da Polícia Regional de Yogyakarta na terça-feira (24 de fevereiro). A manifestação foi motivada pela indignação com a morte de um estudante de 14 anos em Maluku, agredido por membros da Brigada Móvel (Brimob).

Os manifestantes marcharam da UPN até a sede da Polícia Regional sem nenhuma reivindicação por escrito ou palco. O protesto foi descrito como espontâneo e uma expressão de raiva e decepção.

Observações no local revelaram que a cerca no lado leste da sede da Polícia Regional havia desabado. Os policiais ficaram de guarda atrás de arame farpado para impedir que a multidão entrasse na área da delegacia. Vários policiais ficaram feridos. As pessoas atearam fogo no complexo policial, lançaram fogos de artifício e entraram em confronto com a polícia, denunciando o terror policial e o regime de Prabowo.

Vingança pelos prisioneiros, pelos torturados, pelos mortos e pelos desaparecidos.

Destruam todos os Estados – Destruam todas as polícias e carcereiros.

>> Vídeohttps://www.youtube.com/watch?v=Vz0LJzA1Q4g

Tradução > Reno Moedor

agência de notícias anarquistas-ana

As flores na árvore
Esperam de branco
O fruto

Eugénia Tabosa

[Espanha] Lançamento: Bakunin e Japón

A vida de Mijail Bakunin (1814-1876), uma das figuras fundacionais do anarquismo, esteve marcada por um rastro de aventura incandescente que o acompanhou até o final de seus dias. Propagandista, agitador, homem de ação e teórico revolucionário, seu compromisso com a causa dos mais humildes o levou à prisão e, pouco depois, ao desterro nos confins da Sibéria.

Este pequeno texto, publicado pela primeira vez em 1978 no número 5 da revista Libero Internacional, se aproxima a uma das etapas mais desconhecidas da biografia do anarquista russo: sua passagem pelo Japão após fugir da Rússia czarista. Um episódio que, ademais, os autores utilizam para submergir-nos na história contemporânea do país do sol nascente.

Bakunin y Japón

Autor / es: Libero Internacional

Editorial: Piedra Papel Libros

ISBN: 979-13-990905-3-6

Páginas: 48

7,00 €

piedrapapellibros.com

agência de notícias anarquistas-ana

Sou peixe e sou pássaro
quando me afogo em teus seios
em vôo para os sonhos

Evandro Moreira

Ataque à Venezuela: um olhar horizontal e antimilitarista

Por Rafael Uzcátegui

Caracas acordou antes do tempo no dia 3 de janeiro. O som de aeronaves militares e as detonações dispersas quebraram a rotina noturna da cidade. Horas depois, a notícia da detenção de Nicolás Maduro e Cilia Flores por forças estadunidenses confirmaria que não se tratava de um episódio isolado, mas sim de uma virada histórica com consequências que transbordam as fronteiras venezuelanas.

O ocorrido na Venezuela durante aquela madrugada não pode ser lido unicamente como uma operação militar nem como uma mudança de liderança. Foi, antes de tudo, a constatação de um fracasso acumulado: quando as vias políticas se fecham durante anos e a comunidade internacional — incluindo os movimentos sociais — não exige uma resolução pacífica do conflito, a violência acaba ocupando o seu lugar.

Antes de começar o desenvolvimento da nossa argumentação, queremos deixar claramente expressa a nossa rejeição taxativa à intervenção armada dos Estados Unidos na Venezuela. O uso da “diplomacia da força”, armada e econômica, gerou um precedente preocupante para toda a América Latina, um continente que acreditava ter superado a época da Doutrina Monroe e o intervencionismo. No entanto, não estaríamos diante de uma “Invasão do Panamá” segunda parte, mas sim de algo mais turvo: uma detenção negociada, por parte de um governo autoritário, para se manter no poder. Numa perspectiva pacifista, o limite não é apenas político, mas também jurídico: a proteção da população civil. Nenhuma ação armada — por mais seletiva que se proclame — pode introduzir o medo e a violência na vida cotidiana de milhões de pessoas sem corroer, desde a sua origem, qualquer promessa de normalização ou estabilidade.

Geralmente, os conflitos desta natureza são compreendidos mediante um olhar vertical: o que fizeram ou o que disseram os principais atores políticos em disputa. Nós, por outro lado, propomos um olhar horizontal: entendê-los a partir das aspirações, demandas e desejos das pessoas que os sofrem.

O 3 começa no 28

A história do 3 de janeiro de 2026 começa em 28 de julho de 2024. Nesse dia, as autoridades venezuelanas ignoraram a vontade popular ao declarar fraudulentamente Nicolás Maduro como vencedor das eleições. Embora tenham se negado a dar os resultados detalhados até hoje — algo que era tradicional nos pleitos do país —, apesar de todos os obstáculos e da exclusão dos eleitores no exterior, teria participado 60% do eleitorado, com 7.443.584 votos para Edmundo González e 3.385.155 votos para Nicolás Maduro. A estratégia da oposição para demonstrar sua vitória — liderando um fenômeno político de fervor popular que lembrava a primeira candidatura de Hugo Chávez — foi acumular as atas de votação que cada mesa eleitoral entregava como comprovante dos votos emitidos.

O chavismo, como haviam divulgado alguns de seus porta-vozes, contava com um “piso eleitoral” de cinco milhões e meio de sufrágios, o que significa que cerca de dois milhões de pessoas que haviam votado anteriormente no oficialismo optaram por uma mudança. Enquanto María Corina Machado, como líder da oposição, tentava que a pressão da comunidade internacional obrigasse a reconhecer o verdadeiro resultado, os setores empobrecidos do país protagonizaram uma rebelião popular nos dias 29 e 30 de julho, na qual destruíram símbolos do autoritarismo e atacaram sedes policiais e de governos locais. Nesses dias, foram derrubadas e vandalizadas nove estátuas de Hugo Chávez, o que demonstrava a ruptura política e emocional dos bairros com o imaginário bolivariano. A resposta do governo foi feroz. O próprio Nicolás Maduro ordenou, pela televisão, a detenção de duas mil pessoas, inaugurando uma etapa que foi qualificada pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) como de “terrorismo de Estado”.

Nesse momento, diferentes organizações sociais do país enviaram mensagens, por diferentes canais, aos governos do Brasil e da Colômbia. Acreditava-se que a pressão dos governos progressistas, especialmente o de Lula da Silva, geraria uma saída institucional e pacífica para a crise. Também foram feitos muitos esforços para sensibilizar os movimentos sociais sobre as aspirações democráticas do povo venezuelano. Com exceções, a resposta majoritária foi o silêncio.

A fraude eleitoral e a repressão posterior geraram uma nova onda migratória, que incorporou a saída de diversos ativistas políticos e sociais venezuelanos. Diferentes pesquisas estimaram que, nessa data, cerca de 90 defensores de direitos humanos, jornalistas, sindicalistas e membros de movimentos de base haviam se incorporado ao exílio.

Para julho de 2025, um ano após as eleições, as denúncias de fraude haviam desaparecido das manchetes internacionais. O próprio Lula havia declarado que “Maduro era um problema dos venezuelanos”. A nova estratégia de Machado foi convencer os Estados Unidos de que deveriam tomar ações diante de um governo que permitia que 20% da produção mundial de cocaína transitasse por seu território. A recompensa por informações sobre Nicolás Maduro foi aumentada para 50 milhões, o chamado “Cartel dos Sóis” — uma estrutura criminosa para o tráfico de drogas da qual participariam altos funcionários venezuelanos — foi designado como organização terrorista e, no início de setembro, foram destacados diversos navios de guerra norte-americanos no mar do Caribe.

No entanto, Machado não era a única que negociava com os Estados Unidos. Desde o mês de outubro, meios norte-americanos descreveram como, a partir do Catar, vinham sendo realizadas aproximações entre as autoridades estadunidenses e venezuelanas. A primeira reunião teria ocorrido em abril, meses antes do início da operação “Lança do Sul” no mar do Caribe. Lá, uma delegação do chavismo teria apresentado uma curiosa proposta: deslocar Nicolás Maduro da presidência, mantendo-o no país, e conservar Delcy Rodríguez, que atuava como vice-presidente, à frente do Executivo. O pacote incluía o acesso às indústrias petrolífera e mineira do país e que os fiscais estadunidenses retirassem as acusações penais contra Maduro. Rejeitada esta, uma segunda proposta tinha como principal novidade o exílio de Maduro num país aliado, como a Turquia. Os meios informaram que esta também teria sido desconsiderada.

Em 1º de dezembro de 2025, a agência Reuters informou sobre o conteúdo de uma conversa telefônica entre Trump e Maduro. Segundo a agência, o mandatário venezuelano estava disposto a abandonar o país, desde que ele e seus familiares obtivessem uma anistia legal completa, incluída a eliminação de todas as sanções estadunidenses e o encerramento do caso que enfrenta perante o Tribunal Penal Internacional. Além disso, teria solicitado a suspensão de sanções contra mais de cem funcionários de seu governo. A Reuters acrescentou: “Maduro pediu à vice-presidente Delcy Rodríguez que dirigisse um governo interino visando novas eleições (…) Trump rejeitou a maioria de seus pedidos na ligação”.

Um anti-imperialismo imperialista

Alguns analistas sugeriram a possibilidade de um terceiro e definitivo acordo. Embora não haja evidências a respeito, surpreendeu a atitude de colaboração entre Estados Unidos e Venezuela, após o ataque, para manter na presidência do país Delcy Rodríguez.

No último trimestre de 2025, foi evidente uma campanha de lobby e na mídia, nos Estados Unidos, para promover sua imagem como uma pessoa “eficiente” e “moderada”. Delcy Eloína Rodríguez Gómez (Caracas, 18 de maio de 1969) é advogada, diplomata e política venezuelana que tem sido uma figura central do chavismo por mais de uma década. Iniciou sua carreira política na administração de Hugo Chávez e ocupou cargos-chave como ministra da Comunicação e das Relações Exteriores, presidente da Assembleia Nacional Constituinte e depois vice-presidente executiva da Venezuela desde 2018, além de liderar áreas estratégicas como economia e petróleo nos governos de Nicolás Maduro. Em seu cargo como vice-presidente, coube-lhe supervisionar o Serviço Bolivariano de Inteligência (SEBIN), a polícia política apontada por organismos internacionais como responsável por graves violações de direitos humanos.

No entanto, um personagem ainda mais influente na história do chavismo é seu irmão, Jorge Rodríguez. Psiquiatra e dirigente político, foi presidente do Conselho Nacional Eleitoral (2006–2007), etapa na qual conduziu processos eleitorais decisivos e consolidou seu perfil como operador político chave e de confiança do Executivo. Posteriormente, foi prefeito do município Libertador de Caracas (2008–2017) e, sob o governo de Nicolás Maduro, assumiu um papel ainda mais central como ministro da Comunicação e Informação e, desde 2020, como presidente da Assembleia Nacional de maioria governista. Jorge esteve à frente de todos os espaços de negociação, incluído o que finalizou com o chamado “Acordo de Barbados”, e foi muito hábil em construir uma plataforma de apoio à figura de sua irmã entre universidades, empresários, alguns políticos não governistas e setores da sociedade civil.

Apesar de durante vários meses Donald Trump ter anunciado seu interesse em neutralizar Nicolás Maduro, há elementos do ataque de 3 de janeiro que dão verossimilhança à hipótese de uma detenção negociada. A jornalista Sebastiana Barráez, especialista no tema militar, assegurou que nesse dia 50% da tropa se encontrava de “licença natalina”, algo inaudito nesse contexto. A ausência de uma defesa efetiva é o segundo elemento. Mas se nos afastarmos da área militar, que não é nossa especialidade, politicamente foi surpreendente a mensagem de Delcy Rodríguez quando não haviam passado 48 horas do pior ataque ao solo venezuelano por parte de outro país e da detenção do “comandante em chefe” de suas forças armadas.

A reviravolta na tragédia venezuelana não deixa de ser surpreendente. Um movimento que fez do anti-imperialismo sua principal marca de identidade anunciava agora um acordo de cooperação com os Estados Unidos. Estará por ver se essa reviravolta evidencia tensões internas no universo bolivariano. Por outro lado, segundo as declarações de Marco Rubio, secretário de Estado da Casa Branca, a agenda dos Estados Unidos para a Venezuela neste momento cumpriria três fases: estabilização, recuperação e transição. O significado concreto destas três palavras ainda está por esclarecer.

Solidariedade com as pessoas, não com os Estados

O enfoque do movimento antimilitarista internacional deveria ser condenar simultaneamente a intervenção armada e o autoritarismo e a repressão existentes na Venezuela. Embora tenha sido anunciada a libertação de presos políticos, quando este artigo é escrito, apenas 10% teriam cruzado o umbral da cadeia, sem liberdade plena e com uma série de direitos restringidos.

Na Venezuela, esta violência não irrompeu como um acidente nem como um capricho externo. É o resultado de uma sequência prolongada de decisões que desmontaram, uma a uma, as vias pacíficas de resolução do conflito: eleições sem garantias, criminalização do protesto, encarceramento de dirigentes, destruição da mediação e uso sistemático do medo como ferramenta de governo. Reconhecer esta cadeia não implica distribuir responsabilidades de maneira simétrica: quem controlava o Estado e seus aparatos coercitivos tinha uma obrigação maior de preservar as saídas pacíficas. Quando esse processo se completa, a condenação abstrata da guerra chega tarde e corre o risco de se tornar um álibi.

Durante muitos anos, a sociedade venezuelana recorreu a estratégias não violentas para recuperar sua institucionalidade democrática. E, apesar dos mortos, feridos, detidos, torturados e pessoas em desaparecimento forçado, boa parte dos movimentos sociais progressistas internacionais optou por olhar para o outro lado. Os ativistas venezuelanos fizemos grandes esforços para que as evidências, presentes nos relatórios de organismos internacionais de direitos humanos — começando pelos do Alto Comissariado da ONU, dirigido então por Michelle Bachelet —, fossem suficientes para despertar a condenação, em setores de esquerda, sobre os excessos do governo venezuelano. No entanto, não o foram.

Nunca é tarde, no entanto, para solidarizar-se com as demandas das maiorias venezuelanas. Além da libertação plena de todos os presos políticos e do desmantelamento da estrutura repressiva, nenhuma transição real para a democracia pode ocorrer sem a participação da própria população e das organizações sindicais e sociais, hoje grandes ausentes do conflito devido à repressão e ao medo.

Neste ponto, devemos fazer uma curta e enfadonha explicação jurídica. Delcy Rodríguez assume a presidência do país invocando que a ausência de Nicolás Maduro é uma “falta temporária”. Segundo o artigo 234 da Constituição, esta ausência temporária é suprida pela vice-presidência por um período de 90 dias, prorrogáveis por mais 90 dias. O artigo anterior, o 233, estabelece que quando ocorre a “falta absoluta”, a vice-presidência assume o controle do Executivo e é obrigada a convocar eleições num prazo de 90 dias.

É por isso que, embora Nicolás Maduro tenha sido objeto de uma entrega negociada, os Rodríguez manterão a campanha por sua libertação, na qual sugerem que haverá um breve regresso. Esta ficção lhes permite conservar o poder sem convocar eleições. Por isso, a possibilidade de uma consulta eleitoral — para que a população possa expressar, sem medo nem coação, sua opinião sobre quem deveria dirigir seus destinos — está no coração do conflito político iniciado após 3 de janeiro.

Mais de oito milhões de pessoas — quase um terço da população venezuelana — foram forçadas a abandonar seu país como consequência direta do colapso das condições de vida e da perseguição política sustentada. Diante desta realidade, o antimilitarismo não pode se confundir com a defesa abstrata de soberanias nem com a lealdade automática a governos que administram o medo e a expulsão. Seu lugar ético está ao lado das pessoas, não dos Estados. Praticar uma solidariedade verdadeiramente horizontal exige desprender-se das chantagens ideológicas que relativizam o sofrimento alheio em nome de causas geopolíticas. Caso contrário, o pacifismo corre o risco de degradar-se numa compaixão seletiva, mais próxima da caridade cristã do que de uma ética política da paz. Não pode haver mais comunicados sobre a intervenção armada em territórios sem incluir, no mesmo nível de importância, as demandas e aspirações de quem os habita.

Fonte: https://acracia.org/ataque-a-venezuela-una-mirada-horizontal-y-antimilitarista/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Na poça d’água
o gato lambe
a gota de lua.

Yeda Prates Bernis

[Japão] Anarquismo é como chamamos as coisas que fazemos

Quando me pediram para escrever este artigo, aceitei com entusiasmo e sem hesitar. Admito que adoro escrever e aproveitei a chance de trabalhar em algo que não fosse uma legenda de foto no Instagram. (Eu, é claro, busquei uma oportunidade de reflexão sobre o nosso trabalho). Reflexão é algo que fazemos todos os dias como uma pequena equipe de voluntários. À medida que ouvimos os comentários dos membros da comunidade, fazemos ajustes no fluxo de trabalho e construímos sistemas de organização mais eficientes, constantemente nas perguntas “o que funciona?” e “o que é ruim?” Ainda assim, essas são avaliações feitas em andamento, e recentemente temos tempo suficiente para pensar cuidadosamente sobre os aspectos ideológicos do trabalho. Vou ser honesto, acho a autocrítica de esquerda clichê, quase batida. Como estamos muito concentrados n’”aquilo que está mal”, permitimos aproveitar a chance de destacar coisas que não são mal. Se este artigo parecer doce demais, espero que seja moderado ao menos em comparação com a preponderância do oposto. Tenho dois objetivos para este artigo: Primeiro, espero refletir sobre o que sinto ser o (quase) anarquismo acidental do nosso espaço, e como se reflete na organização. Em segundo lugar, quero dar uma visão geral dos movimentos sociais dos depositantes atualmente ativos em Tóquio, com os quais colaboramos regularmente. Para isso, vou primeiro apresentar o Espaço NAMNAM. Fundado no verão de 2023, o NAMNAM é um espaço de arte comunitária Queer gerido com princípios anarquistas. Uma equipe inicialmente de três, o NAMNAM cresceu muito e bem rápido desde o início. Eu mesmo entrei no outono de 2023, a equipe agora é composta por 8 organizadores e diversos voluntários de apoio. Gerimos um pequeno espaço de galeria no lado oeste de Tóquio, no bairro chamado Koenji, onde fazemos praticamente de tudo, desde exposições até noites de karaokê. Sim, “funciona com princípios anarquistas” está em nossa assinatura, mas quando questionamos sobre o papel do anarquismo no trabalho, a minha ocorrência primeira foi minimizar os aspectos moldados por uma ideologia ideologia, me concentrando nas vibraçõesdos anarquistas que trazemos para o espaço. Sempre que algo quebra, ou que precisamos improvisar uma solução estilo Magaiver, ou quando precisamos flexibilizar algumas regras, ou quando improvisamos na hora, jogamos as mãos para alto e dizemos “somos anarquistas!” Nesse sentido, nossa abordagem na NAMNAM é descrita por uma atitude anárquica mais do que pela doutrina anarquista tradicional. No entanto, essa minha primeira ocorrência foi estúpida. Pensando no tema por mais de dois segundos, percebi que, embora o anarquismo não esteja explicitamente no centro de todas as decisões na NAMNAM, os princípios centrais do anarquismo permeiam praticamente tudo o que fazemos. Veja como: Primeiro, tomamos decisões baseadas no consenso. As decisões são tomadas coletivamente e o desacordo é respondido com discussão, em vez da regra da maioria. O consenso é uma armadilha clássica do anarquista, muitas vezes vista como uma abordagem mais quixotesca dentre as nossas abordagens.

Na NAMNAM, entretanto, o consenso parece funcionar (fato que me deixa constantemente perplexo). Tenho certeza de que os meus coorganizadores têm perspectivas diferentes sobre o funcionamento, e tenho certeza de que alguns deles apontaram que nem toda está decisão à altura desse padrão. Limitações de tempo, disponibilidade e energia significam que nem toda decisão é tomada com todas as partes presentes, nem tampouco todas as decisões são universalmente populares. Gostaria de pedir desculpas formalmente ao Calum por ter jogado o micro-ondas fora. No entanto, quando se trata de decisões importantes, como quais eventos realizados e quais projetos prioritários, seguimos em frente juntos.

Segundo, buscamos equilibrar os preços da justiça restaurativa com a nossa responsabilidade pela segurança comunitária. No outono do ano passado, codificamos nossa “política de segunda chance”. A política afirma que indivíduos que quebram as regras básicas têm uma chance de demonstrar crescimento e mudança. O erro é respondido com uma explicação clara das irregularidades, mas não com ostracismo imediato. No entanto, se alguém comete uma segunda infração, não é mais bem-vindo no espaço. Até agora, tivemos uma espécie. Ainda não há necessidade de aplicar essa política, pois ainda não houve nenhuma ocorrência que justificasse a intervenção. Esse está longe de ser um sistema perfeito. Discutimos longamente os prós e contras de estabelecer políticas mais longas e direcionadas, ou até mesmo fazer propostas específicas à regra para casos especiais. Por meio dessa discussão, percebemos que, como cada caso é único e requer sensibilidade específica para atender às necessidades específicas, uma política mais rígida acabaria prejudicando nossa capacidade de decisões tomadas no momento. Em vez disso, confiamos uns nos outros para abordar as situações no espaço com respeito e gravidade adequadas.

Terceiro, odiamos policiais

Por fim, o anarquismo fundamenta as decisões que tomamos em relação à programação. Temos um grande privilégio de consistência nos abordar, uma diversidade de pessoas e organizações trazem ao espaço projetos criativos, informativos e bem produzidos. Como gerimos um espaço físico, nós sedemos escritórios, exposições, arrecadações de fundos e reuniões. Assim, o espaço se tornou um elo de ligação para diferentes movimentos, alguns dos quais têm objetivos além dos nossos, mas aos quais servimos com alegria. Parafraseando Errico Malatesta, como anarquistas, reconhecemos que o poder não vem de cima na imposição da ideologia, mas de baixo, do encorajamento aos movimentos populares, e é esse imperativo que mais abraçamos com entusiasmo. Os eventos mensais do nosso espaço incluem: exibição de filmes indianos Queer e alternativos, arrecadação filantrópica para as famílias de Gaza em um café, um pop-up de venda de bolos para ajudar um membro da comunidade a economizar para adquirir sua própria loja, e uma noite de microfone aberto para poetas pretos. Também apoiamos uma campanha contínua pela liberdade de Chris Payne , injustamente presa em Tóquio. Além disso, durante todo o mês, ativistas locais e artistas visitantes fazem os próprios eventos no espaço NAMNAM. Em cada um desses eventos, cada vez mais pessoas se conectam umas às outras, expostas são a novas ideias e se comprometem cada vez mais com a comunidade. Vemos os frutos desse esforço no número crescente de pessoas que se voluntariaram tempo e recursos para dar apoio a campanhas locais e maiores.

Isso nos leva ao tema mais amplo da política de oposição em Tóquio. Sem dúvida, há estudiosos mais preparados do que eu para elucidar a dinâmica da atividade política de esquerda no Japão contemporâneo, mas farei o possível para dar uma visão geral. O anarquismo tem raízes profundas na história política japonesa, mas, junto com outros movimentos de esquerda adjacentes, teve acentuado declínio na segunda metade do século XX. Os movimentos sociais de oposição começaram a ressurgir lentamente após o terremoto de 11 de setembro e o desastre nuclear, mas nada atingido até agora patamares comparáveis ​​aos anos 1960 e início dos anos 1970. As razões desse declínio são múltiplas (e são tema contínuo de estudos), mas, entre elas, estão a violência entre facções e a estigmatização bem-sucedida das manifestações públicas a favor do governo. Como resultado, os movimentos sociais contemporâneos são bastante isolados. Assim, o espaço NAMNAM está posicionado de forma única para pelo menos ser ponto de contato para movimentos de outro modo isolados.

Um dos movimentos mais ativos e sonoros é o de solidariedade à Palestina. Embora as atividades tenham crescido dramaticamente após os acontecimentos de 7 de outubro de 2023, o movimento anarquista no Japão data dos anos 1960. Hoje, é um movimento diverso, multifacetado e difuso de modo singular. Não há organização no centro ou na cabeça do movimento, em vez disso funciona como rede informal de grupos e indivíduos. Apesar da falta de divisão de trabalho, os diversos grupos adotam organicamente diversas táticas, incluindo eventos culturais, arrecadação de fundos e ação direta. Embora os protestos em Tóquio não tenham atingido os mesmos números daqueles em cidades de outros países, a maior participação hoje foi de aproximadamente 2.000 pessoas, eu diria que é dividido em outras localidades, se não for mais consistente. Como a censura e a perseguição da polícia foram significativamente menos agressivas em comparação com outros locais, a comunidade de Tóquio teve relativa liberdade para fazer as suas exposições, palestras, atuações teatrais de rua, workshops e feira de segunda mão sem repressão. Isso não quer dizer que não haja repressão. Houve prisões e estudantes que enfrentaram a carga de reprimenda burocrática. No Japão, os antagonistas mais ameaçadores são a ignorância e a apatia.

O movimento pelos direitos LGBT, por outro lado, tem feito progresso, vagaroso, mas cada vez mais estável. O casamento entre pessoas do mesmo sexo continua sendo ilegal no Japão, embora a decisão tenha sido julgada como inconstitucional em número crescente de tribunais regionais. Infelizmente, houve retrocessos. Notavelmente, nossa camarada e fundadora da   WAIFU  (uma rave inclusiva Queer e Trans) recentemente perdeu o   processo   dela pela igualdade no casamento. Elin, mulher trans casada com outra mulher, pediu o reconhecimento pelos tribunais do seu casamento tanto como sendo gay quanto como sendo legítimo. Elin foi impedida de mudar seu nome legal em documentação oficial, enquanto sua esposa Midori era relacionada como “esposa”. O governo sugeriu mudar a condição de Midori para “membro da família”, então, o casal entrou com processo. Infelizmente, Elin e Midori perderam seu processo no início de 2025. O caminho para a mudança institucional no Japão é lento, árduo e, às vezes, impossível de se obrigações, especialmente sem recursos adequados. Entretanto, a mudança das instituições, como sabemos, não é a única medida de progresso. A solidariedade Queer com a Palestina reforçou a energia de ambos os movimentos, aumentando o número de pessoas Queer que encontraram o seu lar político na organização de apoio à Palestina. O espaço NAMNAM serve para acolher essa interseção.

Cada vez mais, nosso trabalho nos traz o contato infeliz com o sistema de justiça criminal japonês. Em vez do que se pode imaginar, na capital, Kawaii, o sistema carcerário japonês é desumano e grosseiramente sem escrutínio. Os cidadãos japoneses em geral têm o mínimo conhecimento das práticas de encarceramento e sua falta de direitos. Ao serem detidas, as pessoas podem ser mantidas presas sem sentença por até 23 dias, com possibilidade de prorrogação. A detenção preventiva é uma norma, incluindo imigrantes em busca de refúgio. As organizações de Tóquio, incluindo Migrante Japan, Kosaten, e No Detention Yes Life, são incansáveis ​​na defesa dos detentos. Como eu disse, nossos membros também estão envolvidos na campanha pela liberdade de Chris Payne, preto sendo detido em confinamento sozinho por um crime que ele não cometeu. As condições da sua detenção são aberrantes, e os tribunais, os policiais e os guardas aproveitam a elegância do sistema opaco não qual opera .

Agora, o que tudo isso tem a ver com o anarquismo? Como é o caso em quase todo o mundo, o Japão passa pela preocupação liderada pelo fascismo de direita. Na última eleição, Sanseito, partido antes marginal de extrema-direita, conquistou um tremendo número de quinze cadeiras no parlamento. Essa presença crescente, sua visibilidade e o arrebatamento da ideologia fascista são previsíveis em uma onda de aparente aumento da imigração e de queda econômica. O público japonês, há tempos considerado apolítico, ou politicamente apático, está mobilizado em torno da retórica anti-imigração, e das promessas de colocar “o povo japonês em primeiro lugar”. Enquanto isso, o genocídio israelense na Palestina continua com impunidade, enquanto as crianças no Congo trabalham nas minas para a Apple, comunidades inteiras no Sudão enfrentam a aniquilação, e o rico fica mais rico enquanto o planeta sofre. Em tempos como estes, embora seja difícil dizer o quanto “este tempo” é diferente dos tempos “do passado”. Eu mesmo me peguei pensando sobre os anarquistas antigos. Os elementos mais militarizados do movimento, os guerrilheiros que lutaram contra Franco, os camponeses de arroz que combateram Mussolini, e outros incontáveis ​​que jogaram pedras na repressão. Isso pode fazer o cotidiano parecer sem cor em comparação. Postamos mensagens diretas no Instagram. Divergimos sobre o posicionamento do texto em um panfleto. Projetamos filmes ao ar livre para arrecadar dinheiro para uma ou outra causa. As microtarefas do dia a dia são tão inativas que as fazem, especialmente para uma comunidade cuja ética, linguagem e missão proposta é o legado de uma história de sangue. Como podemos ser anarquistas?

Acredito que, por princípio, o anarquismo é somente um nome para as coisas que já fazemos. As opiniões dos outros já são importantes para nós, então, nos governamos por consenso. Acreditamos no poder redentor da comunidade, por isso, adotamos práticas de justiça restaurativa em nosso espaço. Sabemos que não podemos fazer a diferença sozinhos, então nos juntamos a outros grupos, organizações e movimentos, formando uma gota em um balde que vai enchendo devagar, devagar demais. Odiamos a polícia. Vemos as injustiças no mundo e os nossos corações se partem, então, damos uma mordida. Uma mordida. No buraco que fica, construímos um espaço para nós e convidamos outros a entrar. Nós nos comprometemos. Não recuamos diante do pacto da comunidade. Aparentemente, isso nos torna anarquistas. O espaço NAMNAM é o que você obtém quando coloca as pessoas acima da ideologia, por isso, sei que a comunidade que construímos em torno desse espaço é robusta o suficiente para resistir a tudo o que vier.

Hana B

Fonte: https://organisemagazine.org.uk/2025/12/10/anarchism-is-what-we-call-the-things-we-do/

Tradução > CF Puig

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/02/07/japao-namnam-renasce-um-espaco-queer-e-anarquista-se-instala-em-koenji-toquio/

agência de notícias anarquistas-ana

Amanhece em flor
e noite pelo chão
— efêmero ipê

Marba Furtado

8 de Março: A Classe Trabalhadora em Luta contra a Exploração e o Machismo!

A Federação Anarquista Capixaba (FACA) convoca todas as mulheres trabalhadoras, transmasculinas, não-binárias e homens que se colocam ao lado da classe para ocupar as ruas no próximo 8 de Março. O Dia Internacional da Mulher Trabalhadora não é um dado comercial para flores e parabéns vazios; é um dia de luta, de denúncia e de combate! Lutamos contra um sistema que explora duplamente a mulher: na fábrica, no escritório, no campo e dentro de casa. O capitalismo se alimenta do nosso trabalho precarizado e o Estado, com sua estrutura patriarcal, criminaliza nossas existências e mantém as engrenagens da opressão girando. Por isso, neste 8 de março, nossa resposta será com os punhos cerrados e os gritos de quem não aceita ser subjugada!

Em breve divulgaremos os detalhes do Ato que sacudirá a passividade e denunciará o machismo estrutural que mata, violentada e silenciado. Lutamos contra o feminicídio, contra a misoginia, contra a desigualdade salarial e contra a exploração do nosso corpo e do nosso trabalho. Não aceitamos migalhas! Não aceitaremos políticas paliativas de um governo que defenda os interesses dos patrões! A libertação das mulheres será obra das próprias mulheres em aliança com toda a classe trabalhadora organizada, derrubando não apenas o patriarcado, mas o sistema que o sustenta: o capital e seu Estado.

Traga sua raiva, sua coragem, suas faixas e sua disposição para construir, desde já, o poder popular que enterrará este mundo de misérias. Que o 8 de Março seja mais um passo na nossa organização e na nossa luta diária por uma sociedade sem patrões, sem Estado e sem opressão de gênero. A FACA estará na linha de frente, porque sabemos que a luta das mulheres é uma luta de todos os explorados. A nossa liberdade será conquistada na rua, lado a lado, com a força de quem não teme a batalha. Até que todas sejamos livres!

Federação Anarquista Capixaba – FACA

fedca@riseup.net

@FacaBrasil

federacaocapixaba.noblogs.org

agência de notícias anarquistas-ana

um tufo de algodão
flutuando na água
uma

Rogério Martins

[Itália] “Operação Cidade”, uma repressão à mobilização contra o regime prisional 41bis na Itália e em solidariedade ao camarada anarquista Alfredo Cospito

De outubro de 2022 a abril de 2023, um forte movimento de solidariedade acompanhou a greve de fome de Alfredo Cospito, um prisioneiro anarquista no 41bis, o regime prisional mais severo do sistema penitenciário italiano, um regime de extrema dureza e isolamento, um túmulo onde se passa 22 horas em uma cela, sem quase nenhuma possibilidade de se comunicar com o mundo exterior (censura em todas as comunicações e apenas uma hora de uma hora por mês a uma visita da família ou uma chamada telefônica de dez minutos, também por mês).

Iniciativas, manifestações e ações diretas marcaram na Itália, e em muitas outras partes do mundo, os passos de um movimento heterogêneo que cresceu para dar força ao protesto de Alfredo. Um protesto que não só sofreu a transferência do próprio Alfredo do regime 41bis, mas também sofreu a abolição dessa tortura legalizada, juntamente com a prisão perpétua ostensiva, ou seja, penas perpétuas sem possibilidade de acesso à liberdade condicional ou benefícios, com as quais o Estado italiano condena hoje quase 1300 prisioneiros a morrer na prisão.

Um governo que caracteriza fortemente sua política pelo endurecimento e agravamento das leis e sentenças, obviamente não teve problema em ignorar, e às vezes mistificar, essa luta que destacou a verdadeira face torturadora do Estado e certamente não teria cedido, se Alfredo, após seis meses de luta, não tivesse interrompido sua greve de fome. Mas os objetivos do protesto e da mobilização continuam na mesa das causas pelas quais vale a pena lutar. Obviamente, esse mesmo governo, que provavelmente teria deixado nosso companheiro morrer de fome, não demorou em apresentar o projeto de lei com investigações e julgamentos em vários territórios e cidades onde as mobilizações solidárias daqueles meses se espalharam como fogo.

Na cidade de Turim, essa contraofensiva do governo se manifesta principalmente por meio da chamada “Operação Cidade”, uma investigação que examinou um bom número de medidas preventivas (como prisão domiciliar, obrigações de se apresentar diariamente em delegacias de polícia, fiscalização de acesso a certas cidades, obrigações de não sair da cidade de residência, etc.) e levou a vários julgamentos cujas audiências estão sendo realizadas no momento. Os crimes contestados referem-se a diferentes momentos da mobilização, mas a maioria dos companheiros julgados é acusada em relação aos acontecimentos ocorridos durante a manifestação internacional que teve lugar em Turim, em 4 de março de 2023, quando Alfredo entrou em greve de fome há quase cinco meses, com um agravamento progressivo das suas condições físicas. Os eventos ocorridos durante a manifestação são classificados sob a acusação de “cumplicidade em devastação e saques”. “Devastação e saques” é o crime mais grave que pode ser contestado no âmbito da ordem pública segundo a legislação italiana, que prevê penas elevadas (de 8 a 15 anos); “cumplicidade”, por outro lado, não exige que o réu tenha praticado uma “ação criminosa” em si, mas é a sua mera presença na manifestação que constitui um crime de “cumplicidade” com qualquer ação criminosa que tenha ocorrido durante uma manifestação. A contestação da acusação de “cumplicidade” revela o objetivo político para o qual ela é utilizada: assustar e dissuadir as pessoas de se manifestarem, pois a tolerância pode afetar qualquer um que decida sair às ruas. Por isso, o conceito jurídico de “cumplicidade” deve ser combinado com o objetivo de não ceder espaço à criminalização e desmobilização do conflito de rua, elemento decisivo em qualquer caminho de crítica real às ordens políticas e econômicas.

Não que nos diz respeito, as práticas inovadoras durante essa manifestação nada mais são do que a resposta à violência que o Estado queria exercer contra seus inimigos mais uma vez, num momento em que sua intenção de aniquilar psicológica e fisicamente nosso companheiro Alfredo Cospito era clara. Da mesma forma, acreditamos que a autodefesa das manifestações é essencial para proteger a segurança da própria manifestação e dificultar a identificação dos manifestantes. São práticas que pertencem ao patrimônio de todo movimento que se posicionam em oposição ao Estado – práticas cada vez mais ridicularizadas, criminalizadas e desprovidas de seu significado político, para reduzir sua presença nas manifestações públicas a um mero problema de “ordem pública”.

Nossas considerações sobre a manifestação internacional de 4 de março de 2023 são poucas, mas imutáveis: a importância de ter estado presente naquele momento específico e crucial da mobilização, a expressão de raiva diante de uma sentença de morte anunciada, o carinho e a gratidão para com um companheiro que arriscou sua para lutar contra um mundo de exploração e abuso autoritário. No momento, os julgamentos envolveram mais de 60 pessoas; portanto, as despesas legais são altas e todas as contribuições são bem-vindas. Para qualquer contribuição, escreva para: operazionecity@anche.no

Hoje, como sempre, ao lado de Alfredo, contra o regime 41bis e a prisão perpétua sem liberdade condicional, contra todas as prisões e todos os governos! A única resposta à repressão é continuar lutando!

Algumas camaradas acusadas

Fonte: https://darknights.noblogs.org/post/2026/02/16/italy-operation-city-a-crackdown-on-the-mobilization-against-41bis-prison-regime-in-italy-and-in-solidarity-with-anarchist-comrade-alfredo-cospito/

Tradução > Reno Moedor

agência de notícias anarquistas-ana

para onde
não.
o azul?

Guimarães Rosa

[Indonésia] Repressão em Yogyakarta

Olá, meu nome é Joe Hill e estou arrecadando fundos para ajudar meus bons amigos e companheiros em Java, que foram obrigados a deixar suas casas devido ao seu trabalho político e comunitário decolonial – publicando literatura anarquista, realizando oficinas contra a violência doméstica e apoiando agricultores em lutas por direitos à terra.

Da PATM Indonésia:

Em dezembro de 2025, um organizador e editor anarquista sedado em Yogyakarta, Indonésia, foi sujeito a intimidação, vigilância e introdução após impor uma série de acusações falsas espalhadas envolvendo a polícia indonésia e as autoridades de imigração. A editora PATM (Page Against the Machine) é uma editora independente dedicada à tradução de textos anarquistas e descoloniais indonésios para o inglês, com o objetivo de alcançar um público global mais amplo. O último lançamento , Anarchy in Alifuru: The History of Stateless Societies in the Maluku Islands (Anarquia em Alifuru: A História das Sociedades Sem Estado nas Ilhas Maluku, escrito por Bima Satria Putra), foi publicado no Reino Unido em agosto de 2025 pela Minor Compositions. Outros três títulos estão atualmente em processo, cujo sucesso depende da estabilidade no trabalho e em casa.

O começou quando um amigo estrangeiro em visita, legalmente presente na Indonésia, documentou brevemente um evento público de murais em comemoração ao Dia Internacional dos Direitos Humanos. Embora o evento não tenha sido uma manifestação — portanto, ele não esteve envolvido em nenhum protesto — e nenhuma lei foi violada, ele foi acusado de participar de uma “manifestação” e rotulado como parte de uma “rede anarquista internacional”. Seu passaporte foi confiscado e tanto quanto seu hospedado foram submetidos a interrogatórios prolongados pelas autoridades de imigração. Nenhuma das acusações foi comprovada e o passaporte foi devolvido após alguns dias.

Em seguida, informações falsas foram divulgadas pela polícia no bairro. As autoridades locais e o proprietário do imóvel foram informados de que a moradora/anfitriã estaria hospedada em um estrangeiro “problemático” e fazendo uso indevido da residência. Como resultado, a anfitriã, que mora com seu filho e utiliza sua residência como local de trabalho para o PATM, foi obrigada a deixar sua casa.

Este não é um caso isolado. Essa forma de repressão — usando pressão administrativa, mecanismos de imigração e vigilância de bairro — reflete um padrão mais amplo e contínuo de paranóia e repressão estatal na Indonésia após os protestos em massa de agosto de 2025. Ativistas, artistas, pesquisadores, trabalhadores, organizadores e a sociedade civil têm enfrentado intimidação crescente e perturbação de seus espaços de vida e de trabalho, muitas vezes sem acusações formais. Isso inclui perseguir indivíduos considerados críticos ou ligados a redes internacionalistas.

Devido a essa mudança causada, a família precisa urgentemente de apoio para garantir uma moradia segura e estável, bem como para continuar as atividades de publicação da PATM. Após opções limitadas, uma nova residência foi encontrada. O custo é de 13,5 milhões de IDR por ano, pago antecipadamente por dois anos, ou 15 milhões de IDR, pago apenas por um ano. Já foi feito um pagamento inicial de 6 milhões de IDR, mas o saldo pendente de 9 milhões de IDR deverá ser pago até o final de março de 2026.

Esta campanha solidária de arrecadação de fundos busca apoio para cobrir dois anos de aluguel (390 libras esterlinas autorizadas antes de 20 de março de 2026 e mais 525 libras esterlinas para o ano seguinte) (cerca de 915 libras esterlinas), garantindo segurança e estabilidade básica para um pai e um filho, e continuidade para pesquisas independentes e trabalhos de publicação anarquista.

Este é um apelo à solidariedade e ao apoio mútuo contra a repressão e em resposta à redução do espaço para o engajamento crítico na Indonésia.

>> Para apoiar, clique aqui : https://www.gofundme.com/f/PATM-housing-support

Fonte: https://darknights.noblogs.org/post/2026/02/18/repression-in-yogyakarta-indonesia/

Tradução > Reno Moedor

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/09/08/reino-unido-pre-venda-anarquia-em-alifuru-a-historia-das-sociedades-sem-estado-nas-ilhas-maluku-de-bima-satria-putra/

agência de notícias anarquistas-ana

Nas bodas de prata
retornando à terra natal –
flor de laranjeira!

Teruko Oda

Rio não é mercadoria: a vitória indígena contra o Decreto 12.600 e o que ela ensina sobre ação direta

24/02/2026

Ontem à noite, depois de semanas de mobilização indígena e popular no Tapajós e em outras frentes solidárias pelo país, o governo anunciou a revogação do Decreto nº 12.600/2025 — decreto que abriu caminho para puxar rios amazônicos para a lógica de “corredores logísticos” e concessões, com dragagens e obras incluídas, sem regulamentação dos povos que vivem e existem com esses rios. A publicação no Diário Oficial da União (DOU) ocorreu hoje de manhã — e a luta, por isso mesmo, não terminou no anúncio de ontem: terminou só quando a revogação esteve formalmente publicada e seus efeitos, garantidos. Mas ficamos em alerta permanente, o Capital e os governos que fazem as leis para ele não costumam desarmar facilmente e voltam sempre a cometer os mesmos crimes nos mesmos lugares.

O que importa aqui — e o que o CCLA (Centro de Cultura Libertária da Amazônia) quer registrar com toda explicação — é que essa vitória não veio de gabinete, nem de promessas de ministro, nem de “mesa de negociação” montada para conflito frio. Veio do que sempre vem quando povos oprimidos enfrentam megaprojetos: organização autônoma, coragem, ação direta e capacidade de sustentar pressão real.

O que estava no jogo: quando o Estado chama “hidrovia”, os povos enxergam território e vida

O Decreto nº 12.600/2025, publicado em 28 de agosto de 2025, tratou de incluir empreendimentos do setor hidroviário no Programa Nacional de Desestatização (PND). Traduzindo o jurídico: é a porta administrativa para colocar rios e “hidrovias” na rota de concessões/privatizações, com tudo o que isso implica em obras, operações e reordenamento do território para atender cadeias de exportação.

No Tapajós, a denúncia dos povos foi direta: “rio não é mercadoria”. O que para o governo e o agronegócio aparece como “rota fluvial”, para quem vive do rio é água, comida, deslocamento, memória, espiritualidade, reprodução da vida. É também proteção contra máquinas de destruição que avançam com portos, grilagem, garimpo, contaminação e violência.

Havia um ponto jurídico-político que é, ao mesmo tempo, simples e explosivo: não existe consulta “livre, prévia e informada” se a decisão já foi tomada por decreto. Por isso, desde o início, a mobilização bateu em dois critérios inseparáveis: parar dragagens e revogar o decreto.

O protagonismo indígena: o que segurou a luta foi quem conhece o rio por dentro

A cobertura do conflito no Tapajós mostra algo que o Brasil insiste em esquecer: os povos originários não são “parte específica” como qualquer outro. Eles são assuntos políticos e guardiões de uma relação com o território que não cabe no mapa do mercado.

Desde 22 de janeiro de 2026, povos indígenas de mais de 14 povos do Baixo e Médio Tapajós sustentaram mobilizações prolongadas em Santarém (PA), com bloqueios e ocupações ligadas ao polo de exportação (incluindo a área portuária), direcionando diretamente um ponto nevrálgico: a logística do agronegócio. Isso não é “protesto simbólico”. É real interferência na engrenagem.

Ao longo de fevereiro, a pressão cresceu: mais gente, mais apoios, mais atos em outras cidades, mais repercussão. A mensagem também se sofisticou: não se tratava de um “problema local” — era uma disputa sobre o destino político da Amazônia e sobre quem decide o que é um rio.

É importante dizer sem rodeio: quando o Estado tenta importar megaprojeto, ele aposta no cansaço. A tática do poder costuma ser sempre a mesma:

• prometer reunião,

• mandar nota ambígua,

• “suspender” um edital (sem anular),

• anunciar “diálogo” (sem decisão),

• e, se a pressão diminuir, retome tudo depois.

Os povos do Tapajós enfrentam isso com a maturidade política: “suspensão não é anulação” — e a exigência de revogação contínua sendo condição para qualquer conversa séria.

A ação direta como método: por que ela funciona quando “pedir” não funciona

Ação direta não é “radicalismo por estética”. É uma política de tecnologia construída por quem sabe, pela experiência histórica, que o direito escrito não se cumpre sozinho.

No caso do Tapajós, a sequência é quase didática:

1. O governo empurra a política (decreto + agenda de concessões/dragagens).

2. Os povos denunciam (sem consulta, com risco ambiental e territorial).

3. A denúncia privada não basta — porque o capital tem pressa.

4. Vem a ação direta: ocupação, bloqueio, pressão no ponto certo (a logística).

5. Só então o governo recua: primeiro com medidas parciais (suspensões), depois com o anúncio de revogação.

A lição é objetiva: o Estado e as corporações recuperam quando o custo político e econômico fica maior do que o lucro esperado. E quem produz esse custo é organização coletiva sustentada no tempo — não “apelo” a boa vontade.

“Não confiar nos políticos” não é cinismo: é memória social

Quando o CCLA insiste que não deve depositar esperança em política, não é porque “tanto faz”. É porque, estruturalmente, a máquina do Estado é pressionada por interesses empresariais, por lobbies e por uma visão de desenvolvimento que trata a Amazônia como corredor de exportações.

A própria disputa em torno do decreto expõe isso: por semanas, a revogação apareceu como reivindicação central, mas o que vinha do outro lado eram movimentos de controle do conflito — notas, reuniões, “mediações” — enquanto o decreto continuava de pé.

Por isso, a postura correta é a que os povos praticaram na vida real:

• negociar sem desmobilizar;

• não trocar luta por promessa;

• não confundir anúncio com vitória;

• e manter a autonomia para, se necessário, manter a pressão.

Hoje o governo anunciou a revogação. Ótimo. Mas o movimento está certo em tratar isso como resultado da luta, não como presente de autoridade. A caneta só mudou de direção porque havia gente segurando a linha de frente.

O que a revogação significa (e que ela não resolve)

A revogação do Decreto 12.600/2025 — agora que foi publicada no DOU — é uma barreira importante contra a tentativa de institucionalizar a privatização/”concessionação” de rios amazônicos como política pública de infraestrutura.

Mas duas advertências são essenciais:

(a) A lógica do megaprojeto continua viva.

Hidrovia, porto, corredor de expedições — esses nomes voltam com novos decretos, novas portarias, novos estudos “técnicos”, novos editais. A forma muda; o conteúdo permanece.

(b) A vitória só será consolidada com vigilância e continuidade.

Se a publicação no DOU sai “daqui a dois ou três dias”, é exatamente nesse intervalo que o poder aposta para desinflar a mobilização e controlar a narrativa. A resposta precisa ser a mesma do Tapajós até aqui: permanecer mobilizado até a confirmação formal e até que os efeitos práticos sejam garantidos.

Por que essa luta diz respeito a todo o mundo

É tentador tratar isso como pauta “regional”. Não é.

A tentativa de transformar rios em “infraestrutura de mercado” é uma peça de um modelo maior: privatizar o comum (água, floresta, energia, conhecimento), quebrar resistências locais e importar “governança” empresarial em nome do crescimento.

Quando os povos originários derrotam um decreto desses, eles não defendem apenas suas aldeias. Eles defendem a ideia de que a vida vale mais que lucro e de que existem territórios que não serão convertidos em planilha. É uma luta que interessa a trabalhadores urbanos, ribeirinhos, quilombolas, estudantes, pesquisadores, movimentos sociais e qualquer pessoa que não aceite ver a Amazônia virar apenas rota de exportação.

O que o CCLA afirma, com os pés no chão: ação direta, autonomia e solidariedade

O CCLA não está aqui para romantizar o sofrimento. Você está considerando método e estratégia.

• Ação direta: quando atinge o ponto certo, muda a clareza de forças.

• Autonomia: sem ela, a luta vira escada para carreiras políticas e acordos por cima.

• Não confie em políticos: significa que não depende deles. A direção da luta deve permanecer nas mãos de quem está na linha de fogo.

• Solidariedade concreta: divulgar, apoiar financeiramente quando possível, participar de atos, produzir material, empresas e autoridades, defender lideranças ameaçadas.

E, acima de tudo, registrar o essencial: essa revogação foi arrancada, não concedida. Foi fruto de resistência prolongada — e isso precisa entrar na memória coletiva como exemplo de que é possível vencer.

Pós-escrito: sobre o “hoje” e o DOU

No momento em que escrevemos, a revogação foi anunciada, e saiu no Diário Oficial nas primeiras horas da manhã de hoje, assinado pelo vice-presidente da república, Geraldo Alckmin. O decreto original está disponível no Planalto, e a luta pela revogação foi registrada amplamente por veículos e organizações que acompanharam a mobilização no Tapajós. Quando a revogação se encontra publicada, ela passa a ser o documento definitivo para fechar o ciclo jurídico… mas a nossa vigilância tem que ficar sempre ao nível mais alto para combater de novo nas possibilidades de retomada dessa batalha.

cclamazonia.noblogs.org

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/11/05/santarem-pa-nota-de-repudio-do-movimento-tapajos-vivo-a-presenca-de-lula/

agência de notícias anarquistas-ana

olhando para
meu brea-se
de cerejeiras em flor

Allen Ginsberg