[Portugal] Socialismo sem Estado: de Proudhon à República Associativa

Recuperar a via proudhoniana não é mera nostalgia ideológica, é reconhecer que a soberania económica não se constrói nem pela abdicação ao capital, nem pela hipertrofia do Estado, mas pela associação consciente de produtores, instituições públicas e comunidades, capazes de governar o crédito como função social.
 
Por Abel Pereira Costa | 27/05/2026
 
Quando Pierre‑Joseph Proudhon escreveu que “a propriedade é roubo”, não pretendia lançar um slogan incendiário para consumo retórico, mas sim nomear um problema estrutural da economia política moderna: a capacidade do capital de se autonomizar da produção e gerar rendimento sem trabalho, através da renda, do juro e da especulação.
 
O alvo da crítica não era a posse enquanto relação funcional entre o produtor e os meios de vida, mas a propriedade enquanto poder absoluto de extrair rendimento de terceiros. Neste ponto, o pensamento proudhoniano afasta-se tanto do liberalismo económico como das variantes estatistas do socialismo, abrindo a via própria para um socialismo sem Estado, fundado na reforma do crédito, na associação e na autogovernação económica.
 
Ao contrário dos socialistas utópicos, cuja crítica ao capitalismo industrial permanecia ancorada sobretudo na reorganização moral da produção, Proudhon desloca o centro da análise para a esfera da circulação. Identifica no crédito e na usura o verdadeiro “pecado original” da economia política. Enquanto o dinheiro puder gerar mais dinheiro independentemente da produção, a economia tenderá a reproduzir desigualdade, dependência e bloqueio da circulação efetiva da riqueza. Em consequência desta análise, surgiu porventura a sua proposta mais ousada: a criação do Banco do Povo, uma instituição mutualista assente na gratuitidade do crédito, onde o juro seria reduzido a um resíduo administrativo, incapaz de sustentar a acumulação rentista.
 
>> Leia o texto na íntegra aqui:
 
https://jornalmaio.org/socialismo-sem-estado-de-proudhon-a-republica-associativa/
 
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por entre as vinhas,
ele abraça mais forte
e beija mais doce…
 
Rosa Clement

[EUA] ‘Isto é uma injustiça’: como zines de esquerda foram usados para condenar manifestantes anti-ICE a décadas de prisão

Defensores dos direitos civis soam o alarme após zines serem usados como prova para condenar manifestantes por acusações de terrorismo relacionadas ao protesto de 2025 em um centro de detenção do ICE no Texas.
 
Por Lex McMenamin | 24/06/2026
 
É o dia seguinte ao Dia das Mães, o primeiro que Elizabeth Soto passa longe de seus três filhos. Sentada na prisão em Wichita Falls, no Texas, seu rosto parece desbotado sob a luz fluorescente do teto, enquanto seu macacão gasto se mistura às paredes de blocos de concreto ao seu redor.
 
Falando através de uma divisória de vidro, ela conta que comemorou a data com os filhos pelo sistema de videochamadas da prisão, enquanto eles jantavam na casa da avó. “Fui mãe em tempo integral durante toda a vida deles”, disse. “Nunca fiquei longe deles.”
 
Os filhos de Soto ainda não a visitaram na prisão, localizada no norte do Texas, perto da fronteira com Oklahoma, a horas de distância da casa da família, na região de Dallas-Fort Worth. Elizabeth Soto viu seu marido, Ines Soto, apenas uma vez durante o último ano, o maior período em que ficaram separados desde que começaram a namorar, há mais de vinte anos. Ele está detido em um presídio federal a mais de 160 quilômetros dali.
 
Na terça-feira, Elizabeth foi condenada a 50 anos de prisão federal; a sentença de Ines está marcada para 1º de julho. Tudo porque, como ela resume: “Eles não gostaram do meu clube do livro.” Ela ri, mas o sorriso não chega aos olhos.
 
No Dia da Independência dos Estados Unidos do ano passado, um pequeno grupo da região de Dallas-Fort Worth realizou uma manifestação noturna com fogos de artifício em frente ao centro de detenção do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) de Prairieland, ao sul da região metropolitana, em solidariedade às pessoas detidas. Alguns manifestantes se afastaram do grupo principal e picharam carros de funcionários e um posto de segurança, furaram os pneus de uma van do governo e quebraram uma câmera de vigilância. Os seguranças do centro ordenaram que os manifestantes se dispersassem, e a maioria obedeceu. Quando uma policial chegou ao local empunhando sua arma, uma manifestante armada disparou seu rifle, atingindo a policial no ombro. A policial sobreviveu.
 
Após um julgamento de três semanas, um júri considerou oito dos nove manifestantes culpados de “fornecer apoio material a terroristas”, entre outras acusações. No caso dos Soto, esse “apoio material” incluía possuir uma “gráfica” utilizada para imprimir zines anarquistas e participar de um clube do livro de esquerda, segundo sustentou o governo federal. O casal já havia deixado o local quando as armas foram sacadas. Os oito réus condenados até agora receberam penas extraordinariamente severas, de 30 a 100 anos de prisão, o equivalente, na prática, à prisão perpétua.
 
Os advogados anunciaram que recorrerão da decisão, mas muitos apoiadores acreditam que apenas um perdão presidencial concedido por um futuro governo poderá libertá-los.
 
O caso de Prairieland foi o primeiro julgado e condenado sob as iniciativas de “contraterrorismo” do Departamento de Justiça do governo Trump voltadas contra a “antifa”, abreviação de antifascista, um movimento descentralizado que o governo classificou oficialmente como uma “organização terrorista doméstica”. O governo federal alegou que os acusados de Prairieland, descritos como uma “célula da Antifa do Norte do Texas”, haviam planejado a manifestação como uma tentativa de assassinato de um agente das forças de segurança. Essa suposta conspiração foi sustentada apesar de os acusados terem apenas vínculos superficiais entre si e de alguns participantes sequer se conhecerem antes do protesto.
 
A condenação dos acusados de Prairieland chocou especialistas em direito e em liberdades civis, que afirmam que o governo Trump está fazendo deles um exemplo e estabelecendo um precedente perigoso para o direito garantido pela Primeira Emenda de protestar e de produzir e distribuir informações.
 
“Não se trata apenas de uma tentativa de intimidar a liberdade de expressão”, afirmou Chip Gibbons, diretor de políticas da organização Defending Rights and Dissent, “mas de um indicativo de que o governo Trump pretende continuar reprimindo os protestos com extrema dureza.”
 
Ao todo, 22 pessoas foram acusadas em conexão com o protesto. Cinco fizeram acordos judiciais, outras cinco ainda respondem a acusações na esfera estadual e mais três foram denunciadas no mês passado. Aqueles que o governo federal descreve como “extremistas da antifa” são ativistas que poderiam ser encontrados em qualquer lugar dos Estados Unidos: pessoas trans, tatuadores, veganos e integrantes de redes comunitárias anti-ICE que praticam ajuda mútua. O foco do governo federal na posse de literatura de esquerda, incluindo zines, e em outras medidas básicas de segurança comuns atualmente, como possuir bolsas de Faraday destinadas a bloquear sinais sem fio para evitar vigilância, utilizar o aplicativo de mensagens criptografadas Signal ou vestir roupas inteiramente pretas, preocupa profundamente os ativistas.
 
“Os zines são um dos documentos fundadores da liberdade de expressão garantida pela Primeira Emenda, uma tradição que remonta aos Federalist Papers”, afirmou Xavier de Janon, diretor de defesa coletiva da National Lawyers Guild e advogado de Elizabeth em seu processo estadual. “Zines que discutem ideias de revolução, ajuda mútua ou um mundo pós-capitalista não deveriam poder ser criminalizados por si mesmos. Isso é perigoso para todos nós.”
 
O clube do livro Emma Goldman
 
As acusações contra os Soto derivam, em grande parte, de uma suposta “gráfica” que o FBI encontrou durante a primeira operação de busca em sua casa: uma impressora de escritório comum, um cortador de papel e uma encadernadora. Durante a operação, um dos filhos do casal contou à advogada de Elizabeth que policiais colocaram um saco sobre sua cabeça e o levaram para interrogatório; outro filho foi interrogado dentro da própria residência. Elizabeth só soube que seu filho havia sido levado para interrogatório ao ler um artigo publicado pelo coletivo anarquista CrimethInc, que posteriormente foi transformado em um zine. O Departamento de Justiça não respondeu ao pedido de comentários do Guardian sobre a operação na casa dos Soto, os ataques à Primeira Emenda ou o uso incomum da legislação antiterrorismo.
 
A acusação federal sustentou que os Soto utilizavam essa “gráfica” para produzir zines antigovernamentais destinados a um clube do livro do qual eles e alguns dos demais acusados faziam parte. O grupo recebeu o nome da célebre anarquista do século XX Emma Goldman, que, há 99 anos naquele mesmo mês, foi presa sob acusação de conspiração por organizar a oposição ao recrutamento militar durante a Primeira Guerra Mundial.
 
No clube do livro, o grupo lia zines políticos sobre temas como “um periódico de feminismo materialista” e “um chamado para a erradicação da inteligência artificial da face da Terra”. Um agente do FBI testemunhou em juízo que esses temas talvez fossem incomuns, mas não tinham nada de ilegal. Ainda assim, o FBI apreendeu esses zines, juntamente com a “gráfica” e uma coletânea de poemas sobre a perda de um irmão para o câncer.
 
Há décadas, os zines constituem uma importante fonte de informação para a organização comunitária da esquerda, em parte por serem publicações analógicas e poderem ser produzidas de forma anônima. Eles se tornaram ainda mais importantes durante o segundo governo Trump, em meio ao aumento da vigilância estatal sobre manifestantes e ao endurecimento da censura nas redes sociais. Em muitas livrarias independentes, bibliotecas e cafeterias dos Estados Unidos, é possível encontrar zines do tipo “conheça seus direitos”, explicando como observar legalmente agentes do ICE ou como preservar o anonimato durante um protesto.
 
“Parece claramente existir um projeto mais amplo para limitar a quantidade de informação à qual as pessoas têm acesso”, afirmou Dario Sanchez, outro acusado no caso de Prairieland, que sequer participou do protesto. Sanchez responde apenas a acusações estaduais, não federais, e seu julgamento ainda não foi marcado. Ele foi acusado de adulteração de provas por remover dois outros acusados de um grupo no aplicativo Signal após o tiroteio.
 
Durante o julgamento, os promotores federais argumentaram que a posse desses zines e de outros materiais de esquerda, como adesivos com a sigla “ACAB” (“All Cops Are Bastards”, ou “Todos os policiais são bastardos”) ou “Chinga La Migra” (expressão em espanhol equivalente a “Foda-se a polícia de imigração”), constituía prova da participação dos acusados em uma célula terrorista da “antifa”. Em diversos momentos, os promotores exibiram esses zines diante do júri para causar impacto.
 
Um dos zines encontrados em várias casas durante as operações do FBI era uma resenha, publicada em 2019, dos filmes Hereditary e Midsommar, escrita pela teórica feminista Sophie Lewis, intitulada “O culto satânico da morte é real”.
 
“Se você não estivesse chorando, estaria rindo, porque parece que eles não leram nada além do título”, disse Lewis. “É quase como uma confissão involuntária, como se o panfleto dissesse: ‘Nós adoramos o diabo. Assinado: Antifa’.”
 
A perseguição de Donald Trump à “antifa” começou em seu primeiro mandato e apenas se intensificou desde seu retorno ao poder. No mês passado, seu governo publicou uma nova “estratégia de contraterrorismo”, classificando “anarquistas e antifascistas” como “extremistas violentos de esquerda” e equiparando a “ideologia pró-transgênero” ao terrorismo. Essa estratégia ampliou as diretrizes estabelecidas pelo Memorando Presidencial de Segurança Nacional (NSPM-7), emitido em setembro, pouco depois do assassinato do comentarista de extrema direita Charlie Kirk, crime que setores da direita atribuíram, sem fundamento, a manifestantes de esquerda e pessoas trans. Pelo menos três dos nove condenados e cinco dos 22 acusados no caso de Prairieland são pessoas trans; muitas delas foram identificadas incorretamente nos documentos judiciais, apesar de já terem alterado legalmente seus nomes.
 
“Existe uma longa tradição nos Estados Unidos de tentar apresentar anarquistas, comunistas e outros movimentos de esquerda como participantes de conspirações criminosas, confundindo seu ativismo com essas supostas conspirações e ampliando artificialmente o alcance das acusações para equiparar discurso político à violência ou a atos criminosos”, afirmou Chip Gibbons, da organização Defending Rights and Dissent. Segundo ele, essa tradição remonta às acusações de conspiração contra Emma Goldman, passa pelas primeiras campanhas anticomunistas de Joseph McCarthy, pelo encarceramento político de integrantes dos Panteras Negras e do Movimento Indígena Americano, e chega às prisões de manifestantes que protestaram após o assassinato de George Floyd.
 
Integrantes do clube do livro e ativistas locais familiarizados com o caso afirmam que a literatura e outras expressões políticas de esquerda foram apresentadas como prova de criminalidade a um júri pouco familiarizado, ou mesmo hostil, à diversidade cultural e intelectual da região de Dallas-Fort Worth. Eles também afirmam que as autoridades do condado de Johnson, onde fica o centro de detenção de Prairieland e onde os acusados permaneceram inicialmente presos, trataram-nos de forma hostil, mantendo-os durante semanas em confinamento solitário, submetendo-os repetidamente a revistas íntimas e negando-lhes restrições alimentares, ao mesmo tempo em que os retratavam como terroristas violentos vindos da grande cidade.
 
As acusadas Autumn Hill e Meagan Morris, ambas mulheres trans, estão presas em unidades masculinas, onde permanecem vulneráveis a estupros e abusos sexuais, contrariando decisões federais recentes que determinam que mulheres trans devem ser mantidas em unidades femininas por razões de segurança. Segundo Lydia Koza, esposa de Hill, Morris também foi privada de tratamento hormonal enquanto esteve presa no condado de Johnson, o que poderia ter causado graves consequências médicas. O departamento do xerife do condado de Johnson não respondeu ao pedido de comentários do Guardian sobre o tratamento dispensado às acusadas.
 
Hill e Morris foram condenadas a 50 anos de prisão por conspiração para promover um motim e emboscar um agente das forças de segurança, embora não estivessem presentes quando os disparos ocorreram.
 
“A acusação simplesmente explorou o fato de que isso não parece ‘normal’ para a maioria das pessoas. Se você não reconhece algo, então deve ser algo sinistro”, disse Koza. “Há também um forte anti-intelectualismo. É como se dissessem: ‘Esses acusados leem livros. Que assustador. Não se pode confiar em pessoas que leem. Elas podem estar escrevendo coisas perigosas para você.'”
 
Quando agentes do FBI chegaram equipados como uma equipe da SWAT para realizar uma operação na casa de Koza e Hill, onde elas viviam com vários colegas de moradia, três cães e cinco gatos, lançaram granadas de efeito moral pela janela da frente, deixando marcas de queimadura no piso da residência.
 
Daniel “Des” Sanchez-Estrada, artista, tatuador e residente permanente nos Estados Unidos, não participou do protesto, mas sua esposa, Maricela Rueda, participou. Depois de ser presa, ela telefonou para ele e pediu que rebocasse seu carro e verificasse sua casa. O governo gravou essa conversa. Pouco depois, Sanchez-Estrada foi abordado pela polícia enquanto transportava uma caixa de zines para fora de sua residência. Diversas de suas ilustrações, na forma de adesivos e modelos de tatuagem criticando o ICE e a polícia, foram incluídas como provas no processo. Sua prisão deu origem ao lema que passou a aparecer em zines, bordados em patches e divulgado pela internet: “Zines não são crime!”
 
Sanchez-Estrada foi condenado por “ocultação dolosa de documento ou registro” e por “conspiração para ocultar documentos”, recebendo uma pena de 30 anos de prisão federal.
 
“Trabalhei duro todos os dias neste país e acredito nos direitos humanos e em ajudar quem precisa. Faço doações de dinheiro e de arte para ajudar animais e outras pessoas”, declarou ao tribunal antes da sentença. “Sou pai, marido e professor. Mas não sou terrorista.”
 
O precedente estabelecido
 
A condenação obtida pelo Departamento de Justiça com base na posse de literatura de esquerda, anti-Trump ou anti-ICE pode ser inédita, mas faz parte da repressão mais ampla do governo Trump contra os protestos. Trata-se, porém, de uma estratégia que tem obtido pouco sucesso nos tribunais.
 
Uma investigação da ProPublica e da Frontline, publicada no início deste ano, concluiu que mais de um terço dos mais de 300 processos relacionados a protestos anti-ICE “desmoronaram”. Em Chicago, manifestantes anti-ICE foram acusados de conspirar para obstruir operações das forças de segurança. No mês passado, o caso foi arquivado em razão de suposta má conduta da promotoria, e os acusados, conhecidos como os Broadview Six, agora pedem uma investigação sobre a condução do processo.
 
Depois da condenação no caso Prairieland, entretanto, os promotores federais obtiveram pelo menos outra vitória. Em Spokane, no estado de Washington, três pessoas foram condenadas no mês passado por conspiração para impedir a atuação de um agente federal durante um protesto que bloqueou um veículo do ICE que transportava dois migrantes. E o Departamento de Justiça não demonstra qualquer intenção de interromper essa estratégia. Na semana passada, outras 15 pessoas, em Minneapolis, Minnesota, foram acusadas do mesmo crime de conspiração para obstruir operações do ICE e de integrarem grupos “antifa” que “se opõem violentamente à aplicação das leis de imigração”.
 
Segundo especialistas em direito, o que diferencia Prairieland de muitos outros processos federais relacionados a protestos que fracassaram é o fato de uma policial ter sido baleada. De acordo com Shayana Kadidal, advogado sênior do Center for Constitutional Rights, foi a combinação entre danos ao patrimônio e o ferimento de uma agente que permitiu ao Estado construir a tese de conspiração.
 
Embora o governo tenha afirmado que a manifestante Benjamin “Champagne” Song disparou diretamente contra a policial com intenção de matá-la, sua advogada apresentou imagens do tiroteio que sugerem que Song atirou contra o chão, como disparo de advertência ou para distrair a policial, levantando dúvidas sobre a alegação de que pretendia atingi-la. Os apoiadores dos acusados contrataram um investigador para analisar mais detalhadamente as provas divulgadas sobre o tiroteio.
 
Durante o julgamento, o juiz recusou-se a permitir que os acusados apresentassem uma tese de legítima defesa. Song, ex-fuzileira naval dos Estados Unidos, foi a única condenada por tentativa de homicídio de um servidor público federal e por disparo de arma de fogo.
 
Em uma declaração divulgada após ser condenada a 100 anos de prisão federal, Song escreveu que levou sua arma por temer que agentes das forças de segurança ferissem ou matassem manifestantes, como ocorreu com Renee Good e Alex Pretti, manifestantes mortos a tiros por agentes de imigração em Minnesota no início daquele ano.
 
“Isso é errado”, escreveu ela sobre as acusações contra os outros 21 réus. “Isto é punição em massa. Isto é punição coletiva. Isto é culpa por associação. Isto é uma injustiça.”
 
Alguns dos acusados, incluindo Song, pertenciam à Socialist Rifle Association e possuíam armas legalmente registradas, fato que o governo federal apresentou como prova de intenção violenta. Nos últimos anos, muitas comunidades marginalizadas, especialmente pessoas trans, passaram a exercer o direito garantido pela Segunda Emenda em resposta ao aumento dos crimes de ódio. Kits caseiros de primeiros socorros levados pelos manifestantes de Prairieland também foram apresentados como evidência de que planejavam atos violentos.
 
Sanchez afirmou que a produção desses kits de primeiros socorros era “algo de que tínhamos muito orgulho”. Professor, ele passou a carregar um desses kits para poder improvisar um torniquete em caso de um tiroteio em sua escola.
 
“É normal apresentar acusações de terrorismo em um contexto como este?”, questionou Kadidal. “Isso me parece excessivo, e acredito que pareceria excessivo para qualquer cidadão comum que acompanhasse esta conversa.”
 
Savanna Batten, outra integrante do clube do livro Emma Goldman, foi condenada a 50 anos de prisão federal. O oitavo condenado, Zachary Evetts, também recebeu uma pena de 50 anos. Quando a visitei na prisão de Wichita Falls, em maio, ela mantinha o bom humor apesar das circunstâncias. Pensei em perguntar o que ela estava lendo, mas hesitei, imaginando se ela teria medo de responder.
 
“É absurdo viver em um mundo onde não é seguro perguntar quais livros uma pessoa está lendo”, disse ela.
 
Batten, vegana e frequentemente obrigada a passar fome na prisão, contou que sua vida antes da prisão girava em torno da natureza e de seus “animais companheiros”: uma gata chamada Garfielda, que ela levava para trilhas usando coleira, e seis caranguejos-eremitas resgatados, os dois primeiros encontrados em uma caçamba de lixo. Na prisão, ela está lendo um livro sobre a história natural dos caranguejos e conta que caranguejos-eremitas podem viver até quarenta anos quando não são mantidos em cativeiro.
 
“A ironia não me escapa…”, disse Batten, interrompendo a frase ao perceber que descrevia a vida e a dignidade dos caranguejos-eremitas enquanto estava presa em uma cadeia onde o único pedaço de céu que conseguia ver aparecia através das grades. “Eu entendo que viver em cativeiro é, por si só, algo terrível.”
 
O que vem a seguir
 
Especialistas em direito afirmam que o precedente estabelecido pelas condenações no caso Prairieland terá inúmeras consequências para a organização de movimentos sociais e para o direito de protesto, incluindo as plataformas das quais os organizadores dependem para atuar com segurança, como o aplicativo de mensagens criptografadas Signal. Depois que o Departamento de Justiça utilizou o aplicativo para obter provas contra os acusados de Prairieland, a Apple corrigiu uma falha de segurança que permitia ao governo acessar mensagens já apagadas.
 
Um núcleo local do movimento 50501, um dos grupos responsáveis pelos protestos No Kings, também foi implicado no julgamento de Prairieland. Uma testemunha da acusação, que afirmou fazer parte desse movimento descentralizado, depôs para a promotoria dizendo que havia colaborado com as forças de segurança durante um protesto realizado no mesmo local, no início do Dia da Independência. No entanto, Hunter Dunn, coordenador nacional de imprensa do 50501, afirmou que não conseguiu entrar em contato com essa pessoa e que ela não fala em nome do movimento. “Um grupo típico do 50501 não mantém qualquer relação com as forças de segurança”, declarou Dunn.
 
Outro grupo local ligado ao 50501 também foi citado na recente denúncia relacionada aos protestos de Minneapolis. Citando o Brennan Center for Justice, Dunn afirmou que o FBI está utilizando o memorando NSPM-7 do governo Trump para classificar qualquer protesto de esquerda como “terrorismo doméstico”. Segundo ele, o governo está “utilizando essa descrição vazia e sem significado para justificar a perseguição a manifestantes que lhes causam desconforto pessoal ou que temem que possam contribuir para o eventual fim de seu governo por meios não violentos”.
 
Dunn acredita que o ataque do governo federal ao direito de protestar terá um efeito intimidatório, mas também poderá produzir o efeito contrário, incentivando mais pessoas a se engajarem.
 
Enquanto aguarda seu julgamento na esfera estadual, Sanchez passou a frequentar almoços comunitários semanais realizados em uma igreja unitarista universalista em Fort Worth. Organizados por membros da igreja e pelo comitê de apoio aos acusados de Prairieland, esses encontros reúnem voluntários que escrevem cartas de referência em favor dos acusados enquanto compartilham uma refeição. Em um desses encontros, realizado em maio, os organizadores distribuíram zines sobre os acusados, ilustrados com retratos coloridos, sobre a mesa do jantar comunitário. No dia das sentenças, realizaram uma manifestação diante do tribunal de Fort Worth e organizaram novos encontros para as noites seguintes.
 
Desde a criação do comitê de apoio, a comunidade formada em torno do caso apenas se fortaleceu. Novas pessoas passaram a participar, entre elas Amber Lowrey, ativista ligada ao conselho escolar e irmã de Savanna Batten. Antes das acusações, Lowrey disse que não entendia quem eram os anarquistas e não conhecia pessoas trans. Segundo ela, participar do comitê transformou completamente sua visão de mundo. Hoje, produz vídeos sobre o caso para as redes sociais. Em uma declaração conjunta com o Dallas-Fort Worth Support Committee, Lowrey prometeu lutar para reverter as condenações. “Não descansaremos enquanto eles não forem libertados.”
 
Os acusados e seus apoiadores entrevistados pelo Guardian afirmam que o caso retrata pessoas de esquerda, pessoas trans e qualquer pessoa que critique o governo Trump como ameaças à sociedade texana, grupos que, segundo eles, já vinham sendo alvo do Estado havia anos. Lydia Koza e Autumn Hill mudaram-se para o Texas em 2023, justamente quando projetos de lei contra pessoas trans se multiplicavam pelo país, contrariando essa narrativa. Elas tinham familiares no Texas e pessoas que as acolhiam e apoiavam.
 
A solidariedade aos acusados de Prairieland também apareceu em uma livraria local, que distribuiu gratuitamente zines explicando o caso e vendeu patches serigrafados com as frases “Song não fez nada de errado” e “Zines não são crime”, destinando a arrecadação ao pagamento das despesas judiciais dos acusados. O comitê de apoio incentiva qualquer pessoa interessada no caso a criar seu próprio clube do livro Emma Goldman. Outras pessoas viajaram até a região para participar das ações de ajuda mútua, protestar diante do tribunal e apoiar os acusados. Um distribuidor de zines passou a vender um conjunto das publicações que foram incluídas como provas pelo governo, para arrecadar recursos destinados à defesa dos réus. A coletânea recebeu o título “O governo não quer que você leia estes zines”.
 
Os acusados e seus apoiadores sabiam que a maioria receberia as penas mais severas possíveis. O que lhes dá forças para continuar é a convicção de que nada dura para sempre.
 
Alguns dos poemas escritos por Song durante o inverno, enquanto permanecia em confinamento solitário, já foram reunidos em um zine. O último deles se intitula “tudo de uma vez”:
 
O tempo é um círculo
Não uma linha reta
Nosso abraço mais caloroso
Acontecendo ontem
Ainda acontecendo hoje
Continuará acontecendo amanhã
 
Fonte: https://www.theguardian.com/us-news/ng-interactive/2026/jun/24/prairieland-texas-ice-protests-zines
 
Tradução > Contrafatual
 
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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/09/09/eua-zines-nao-sao-um-crime-libertem-des-revol/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
sobre os vidros
traços de nariz e dedos
olham ainda a chuva
 
André Duhaime

[Espanha] Lançamento: Anarquia e Ordem. Herbert Read.

Introdução: Howard Zinn. Prólogo e tradução: Ana Muiña. Imagens de Herbert Bayer

Herbert Read (1893-1968) é uma das personalidades mais instigantes do pensamento contemporâneo. Publicou inúmeros trabalhos sobre literatura, história da arte, artes visuais contemporâneas e educação criativa.

“Anarquia e ordem. Ensaios sobre política, arte e poesia” reúne todos os textos que este influente filósofo, poeta e crítico literário inglês escreveu especificamente sobre anarquismo. Nesta cuidadosa tradução da La linterna sorda, Herbert Read expõe que a arte e a política são manifestações da consciência humana interligadas. O Estado-nação moderno é uma forma de controle social que reprime o desenvolvimento natural e “orgânico” das relações humanas e do potencial individual. A sociedade pode se organizar com a ordem harmoniosa de uma comunidade cooperativa sobre uma base federativa, ecológica e local. Sua filosofia singular conecta o artista rebelde à necessidade de uma “atitude libertária” para potencializar a criatividade. “A arte é um modo de expressar a vida da imaginação”.

“O que a civilização moderna, com seu ‘Estado de direito’, suas gigantescas empresas industriais e sua ‘democracia representativa’, trouxe de contribuição? Mísseis nucleares já apontados e prontos para destruir o mundo, e populações — alfabetizadas, bem alimentadas e que votam constantemente — dispostas a aceitar essa loucura. A civilização fracassou em dois aspectos: perverteu os recursos naturais da terra, que têm a capacidade de tornar nossas vidas felizes, e também os recursos naturais das pessoas, que têm o potencial do talento e do amor. Para romper esses limites, para estender a razão em direção ao futuro, precisamos de paixão e instinto, que emergem das profundezas do sentimento humano que escapa aos limites de um período histórico. Quando Herbert Read falou em Londres em 1961, antes de participar de um ato massivo de desobediência civil em protesto contra os submarinos nucleares e os mísseis Polaris, defendeu romper os limites da ‘razão’ por meio da ação”. Introdução de Howard Zinn

Anarquía y Orden. Herbert Read.

Coleção Guardiões do Sonho, 24

Contém imagens

288 páginas

Preço € 20

ISBN: 979-13-916064-0-4

Junho, 2026

lalinternasorda.com

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

minha sombra
com pernas mais longas
não me afasta

André Duhaime

[Bélgica] “Tons de Preto”: a exposição que traça a história do anarquismo

O Museu Mundaneum, em Mons, inaugurou uma nova exposição que explora a história e as ideias do anarquismo. Ela permanecerá aberta até 9 de maio de 2027.

Intitulada “Tons de Preto – Histórias e Ideias do Anarquismo“, a exposição reúne arquivos e documentos que raramente são disponibilizados ao público.

Os visitantes são convidados a mergulhar nas culturas anarquistas, questionando a percepção difundida de que o anarquismo está associado ao caos.

A mostra acompanha a influência histórica do movimento sobre as dinâmicas sociais, políticas e culturais desde o século XIX, por meio de cartazes, fotografias, jornais e outros materiais de arquivo.

Os movimentos anarquistas historicamente se envolveram com questões como a emancipação das mulheres, a contracepção, a educação livre, o vegetarianismo, a ecologia e as críticas ao capitalismo. Ideias que, desde então, passaram a fazer parte do debate público.

A exposição estabelece paralelos com as desigualdades, crises e conflitos da atualidade, explorando a renovada relevância desses temas.

O centro de arquivos enfatiza que o anarquismo vai além da simples rejeição da autoridade, oferecendo propostas ousadas de autonomia, igualdade, solidariedade e organização coletiva.

Também destaca que os ideais libertários influenciaram trabalhadores, intelectuais e artistas, dando origem a debates que continuam relevantes até hoje.

Os visitantes podem conhecer como práticas inspiradas pelo anarquismo ainda impulsionam iniciativas de base e novas formas de imaginar a convivência social.

A exposição é resultado de uma colaboração entre o Mundaneum, o Instituto de História Social, Econômica e do Trabalho (IHOES) e o Centro de História e Sociologia da Esquerda (CHSG) da Universidade Livre de Bruxelas.

Fonte: https://www.brusselstimes.com/2199168/shades-of-black-the-exhibition-that-traces-the-history-of-anarchism

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

No olho das ruínas
as íris dos vaga-lumes
sob as tranças de ervas.

Alexei Bueno

Cuba abre suas portas (ao capitalismo)

Há quem sustente, ou pelo menos sustentava até não muito tempo atrás, que não se pode julgar o regime cubano apenas por ter visitado a ilha por um curto período como turista. Tal argumentação soava como um subterfúgio para continuar mantendo o mito da revolução cubana, ao que se somava o bloqueio estadunidense como motivo principal para a intolerável pobreza da população. O fato é que a primeira vez que visitei Cuba foi em meados dos anos 1990, estando a sociedade ainda sob as sequelas do denominado “período especial”, quando o colapso da União Soviética no início da década, da qual dependia economicamente em grande medida, levou a uma crise profunda. No entanto, décadas depois, não parece ter saído dessa etapa de profundas carências, enquanto o regime se fechava no autoritarismo com uma retórica persistente de defesa de uma suposta revolução estagnada (na verdade, fracassada e não apenas por fatores externos). Aquela minha estadia (sim, curta) foi talvez o ponto de inflexão para finalmente me desiludir sobre um sistema que, um dia, quis pensar que não era tão sangrento e repressivo quanto outros regimes, com alguma esperança de construir um verdadeiro socialismo, mas que na realidade escondia uma triste realidade muito similar. Já manifestei isso com frequência, como uma crítica devastadora, que se poderia resumir em uma intolerável falta de liberdades, uma alarmante ineficácia econômica do Estado e, apesar da propaganda do regime, uma ausência total de gestão pela sociedade civil em todas as esferas da vida. Não sei se, a esta altura, defensores da revolução cubana ainda sustentarão que minhas opiniões são as de alguém que não conhece aquela sociedade, que só a visitou como turista. O certo, sem querer me gabar de grandes conhecimentos, é que tenho parentes naquele país, conheço inúmeros cubanos com suas circunstâncias particulares e procuro, creio que sem qualquer suspeita de querer favorecer a predação capitalista, estar bem informado à margem de proclamas e simplificações.

O que observei em Cuba foi a mesma exploração e desigualdades que em qualquer sistema capitalista (aceitando, e isso já é muito aceitar, que o regime cubano não o é), ao que se somava a repressão e o controle social de um sistema totalitário. Por outro lado, tornar a revolução cubana, em suas origens, dependente e subsidiária da potência soviética dá uma ideia do fracasso econômico. Fracasso econômico, político, social, econômico e profundamente moral, tenho que dizê-lo sem rodeios. Sobre os supostos logros revolucionários, dos quais qualquer sistema autoritário se vangloria, seria preciso perguntar quão sólidos eles foram e a que preço foram obtidos. Lamento dizer essas palavras devastadoras, já que conheço boas pessoas que quiseram pensar que aquilo era diferente, mas a isso me vejo obrigado, justamente, para escapar dessa polarização irrefletida e tentar abrir um horizonte social um pouco melhor em alguma parte do mundo. Para isso, qualquer sistema deve deixar, ao menos, certa margem de liberdade à população para seus próprios projetos, à margem de tutelas estatais. Infelizmente, os movimentos sociais foram praticamente anulados em Cuba, já que a representação política está praticamente monopolizada pelo Partido Comunista e pela União dos Jovens Comunistas. E, como esperança para certo socialismo em liberdade, o anarquismo teve tradição na ilha, com certa atividade até bem entrado o século XXI, embora a repressão do regime tenha feito com que fossem muito intermitentes e, hoje em dia, tenham sérias dificuldades para se manter. Após o falecimento de Fidel Castro há uma década, e apesar de algumas reformas aparentemente liberais, houve certa continuidade, assegurando-se o controle estatal da economia, enquanto a população sofria uma crise atrás da outra e profundas carências de todo tipo. A retórica revolucionária do regime se mantinha, atribuindo os problemas, como em outros sistemas totalitários, a inimigos e fatores externos.

E, se é criminoso o bloqueio que o regime exerce sobre seu povo, não o é menos o que os Estados Unidos vêm praticando sobre Cuba há décadas, intensificado nos últimos tempos pelo iníquo Trump. Há poucos dias, neste mês de junho de 2026, foi anunciado que a pressão estadunidense deu resultado e a Assembleia Nacional do Poder Popular em Cuba autorizou inúmeras reformas, entre as quais estão a criação de bancos privados e a possibilidade de acionistas particulares dentro das empresas estatais, enquanto que, no âmbito trabalhista, os salários deixam de ter uma escala fixa e podem ser negociados com os trabalhadores. Em outras palavras, Cuba parece estar abrindo as portas para o capitalismo puro e duro. Entre as críticas que fiz ao regime cubano, supostamente revolucionário, esteve a de provocar nas pessoas que lhes seja difícil imaginar qualquer solução em nível econômico que não seja a entrada de investidores privados na ilha. Em outras palavras, trata-se de substituir o capitalismo de Estado, e não poderíamos chamá-lo de outra forma, pelo que ocorreu em Cuba durante as últimas décadas, por um capitalismo livre de barreiras para os que mais têm. Veremos se esse é o caminho final que se toma em Cuba, na mesma linha da China, embora o presidente Díaz-Canel tenha garantido que todas essas reformas não significam uma renúncia ao “socialismo”. É preciso verificar também se, dentro dessas transformações, está incluída a concessão de liberdades fundamentais ao povo cubano, tremendamente sufocado e mergulhado no desespero após um período infinito sofrendo uma tutela estatal repressiva e ineficaz. Infelizmente, como em tantos outros países onde se adotou a práxis marxista-leninista, autoritária, centralista e burocrática, as esperanças são depositadas no liberal-capitalismo e não em um horizonte autenticamente emancipador. Do nosso mais profundo desejo libertário (o verdadeiro, atenção), só podemos exigir, como já manifestou algum grupo anarquista, “todas as formas de autogestão daqueles que trabalham, convivem e criam em Cuba”, sem imposições autoritárias de nenhum tipo e com uma liberdade em todas as esferas da vida onde predomine a solidariedade.

Juan Cáspar

Fonte: https://acracia.org/cuba-abre-sus-puertas-al-capitalismo/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Sesta no jardim:
a borboleta me acorda.
Coça o meu nariz.

Anibal Beça

Seis Razões para Abraçar o Anarquismo

Vivemos em um mundo onde a opressão se disfarça de normalidade: governos que nos vendem a ilusão de liberdade enquanto nos vigiam, empresas que nos exploram em troca de uma vida precária, fronteiras que nos separam para nos manter submissos. O anarquismo não é um convite ao caos, mas uma revolução radical contra todas as formas de dominação. É a coragem de perguntar: por que aceitamos hierarquias que nos esmagam? Por que naturalizamos a desigualdade como destino? Este pequeno texto é um chamado à insubordinação — àqueles que ousam sonhar com um mundo onde a autonomia, a solidariedade e a justiça não sejam ideais distantes, mas a base de uma vida verdadeiramente livre. Se o sistema nos trata como peças descartáveis, ser anarquista é recusar o script e escrever, com nossas próprias mãos, um novo começo. Portanto, seguem seis razões para abraçar o anarquismo:

01. O Estado é uma Máquina de Opressão


O Estado, em todas as suas formas, é um instrumento de controle que concentra poder nas mãos de poucos, perpetuando desigualdades e reprimindo liberdades. Seja através de leis que criminalizam a pobreza, polícias que assassinam em nome da “ordem” ou burocracias que sufocam a autonomia, o Estado não existe para servir o povo, mas para garantir a dominação de classes. Um anarquista entende que a liberdade só floresce quando destruímos essa estrutura hierárquica e construímos relações horizontais, onde todas as vozes têm igual valor.

02. O Capitalismo Corrói a Vida em Comum

O sistema capitalista transforma tudo em mercadoria: terra, água, até relações humanas. Trabalhadores vendem sua força por migalhas, enquanto bilionários acumulam riquezas à custa da exploração. O anarquismo propõe uma economia baseada na cooperação, não na competição. Cooperativas autogestionárias, onde os produtores decidem coletivamente seu destino, mostram que é possível viver sem patrões. Afinal, por que aceitar um sistema que nos faz mendigar por sobrevivência em troca de nosso próprio trabalho?

03. Liberdade Não se Concede: Conquista-se

A democracia representativa é uma farsa. Políticos são marionetes de corporações, e eleições são leilões para os mais ricos. O anarquismo defende a ação direta como forma de transformação: greves, ocupações, apoio mútuo e organizações comunitárias. A história prova que mudanças reais vêm da rua, não das urnas. Quando mulheres, negros e indígenas tomam praças e derrubam estatuetas de colonizadores, estão praticando anarquismo: questionando hierarquias e construindo poder popular.

04. Um Mundo sem Fronteiras ou Prisões

O Estado-nação é uma ilusão que divide a humanidade em “nós” e “eles”, alimentando guerras e xenofobia. O anarquismo sonha com uma sociedade sem fronteiras, onde ninguém precise fugir da miséria ou da guerra. Além disso, o sistema prisional é uma indústria de tortura que criminaliza a pobreza. Em seu lugar, comunidades autônomas podem resolver conflitos através da mediação e da justiça restaurativa, não da vingança estatal.

05. Ecologia ou Extinção

O capitalismo está destruindo o planeta. Governos e empresas sacrificam florestas e rios no altar do lucro, enquanto nos vendem falsas soluções “verdes”. O anarquismo eco-socialista entende que a Terra não é um recurso, mas nossa casa coletiva. Comunidades zapatistas em Chiapas ou os curdos em Rojava mostram nos dias de hoje que é possível viver em harmonia com a natureza, administrando recursos de forma coletiva e sustentável.

06. A Beleza da Autonomia e da Solidariedade

Anarquismo não é caos, mas ordem construída livremente. É a certeza de que, sem amos, podemos organizar escolas, hospitais e redes de apoio mútuo. Movimentos como o MST (mesmo com todos os seus problemas) ou as ocupações urbanas provam que, quando nos unimos, somos capazes de criar alternativas reais. A solidariedade, não o individualismo, é nossa maior arma contra o medo que o sistema semeia.

Por fim…  O Futuro é um Projeto Coletivo

Ser anarquista é rejeitar a ilusão de que “não há alternativa”. É lutar por um mundo onde ninguém domine ninguém, onde a vida valha mais que o dinheiro, e onde a liberdade seja prática cotidiana. Não precisamos de salvadores: somos nós, com nossas mãos e corações, quem pode construir essa utopia. A pergunta não é “por que ser anarquista?”, mas “como não ser?”.

Federação Anarquista Capixaba – FACA

federacaocapixaba.noblogs.org

agência de notícias anarquistas-ana

O silêncio é um campo
plantado de verdades
que aos poucos se fazem palavras.

Thiago de Mello

[França] Grenoble: Manifestação contra a OTAN e contra o imperialismo.

Manifestação no sábado, 4 de julho, às 19h, concentração Praça Félix Poulat.
 
CONTRA A CÚPULA DA OTAN:
 
guerra permanente e a militarização do mundo
 
Nos dias 7 e 8 de julho, em Ancara, na Turquia, a cúpula da OTAN reunirá potências imperialistas para um momento crucial de coordenação sobre políticas de rearme, planejamento militar e garantia da ordem econômica global.
 
Testemunhamos um aumento contínuo nos orçamentos militares, o desenvolvimento da indústria bélica e os preparativos para futuros confrontos. É evidente que a guerra está longe de ser considerada uma exceção, mas sim uma possibilidade permanente em torno da qual os Estados estão se organizando.
 
A OTAN não se limita a organizar a defesa militar dos estados aliados. Ela participa da construção de um mundo regido por imperativos de segurança, competição entre potências e gestão tecnocrática das populações. A guerra, portanto, não é mais considerada um fracasso político, mas sim uma ferramenta de governança.
 
Em todos os lugares, governos invocam ameaças externas para justificar o rearmamento. Bilhões são despejados nas forças armadas, enquanto serviços públicos e programas de bem-estar social sofrem cortes orçamentários. Preocupações com a segurança permitem a transferência de recursos públicos para os orçamentos militares e da indústria de defesa. Há também uma continuidade entre operações militares estrangeiras, políticas anti-imigração e práticas policiais. O que é testado em guerras acaba chegando às nossas cidades. Drones, biometria, inteligência artificial, vigilância em massa, técnicas de controle de multidões: as ferramentas da guerra estão gradualmente se tornando as ferramentas padrão do governo. Essa continuidade também reside na lógica colonial: intervenções militares para proteger interesses neocoloniais, reprimir a migração pós-colonial e militarizar bairros operários.
 
A OTAN alega defender a liberdade, a democracia e a paz. No entanto, suas prioridades concretas dizem respeito principalmente à proteção dos interesses estratégicos do bloco imperialista ocidental: rotas comerciais, fornecimento de energia, infraestrutura crítica, cabos submarinos e fluxos econômicos globais. As guerras também servem para garantir rotas marítimas, fornecimento de energia, redes de comunicação e circuitos de comércio internacional.
 
A OTAN surge menos como uma aliança defensiva do que como um instrumento para estabilizar a ordem econômica mundial. Seus membros são potências imperialistas e coloniais que se organizam para proteger seus interesses.
 
O fluxo de mercadorias, capital e infraestrutura estratégica é protegido com extremo cuidado, enquanto a circulação de pessoas é cada vez mais controlada e criminalizada. Longe de garantir a paz, as alianças militares alimentam a própria dinâmica que afirmam combater. Cada lado justifica seu rearme citando o do adversário. Cada potência apresenta sua própria militarização como medida defensiva. Essa lógica alimenta uma corrida armamentista e aumenta o risco de confrontos.
 
A paz não pode se basear no acúmulo interminável de armas ou na ameaça constante de destruição cada vez maior.
 
As próprias cúpulas são entidades separadas das populações que afirmam proteger. Algumas centenas de líderes, altos funcionários, militares e representantes da indústria armamentista tomam decisões que afetam milhões de pessoas.
 
Enquanto isso, milhares de policiais garantem a segurança da área, as manifestações são restringidas, os controles são reforçados e os moradores são mantidos à distância.
 
A militarização não serve apenas para preparar guerras no exterior; ela também serve para disciplinar as sociedades. Diante de uma ameaça apresentada como permanente, a unidade nacional torna-se uma obrigação, as questões sociais são relegadas a segundo plano e a oposição é acusada de minar a segurança coletiva.
 
O militarismo não se limita a produzir armas. Ele produz uma visão de mundo baseada na obediência, hierarquia, disciplina, identificação constante de inimigos e aceitação do sacrifício em nome da segurança.
 
Rejeitamos essa lógica.
 
Rejeitamos um mundo governado pela competição entre potências e por um estado perpétuo de emergência de segurança.
 
Recusamo-nos a ter nossas vidas organizadas em torno da preparação para futuras guerras.
 
Afirmamos que uma sociedade é melhor protegida por serviços públicos robustos, redes de apoio, direitos sociais e autonomia coletiva do que pelo acúmulo interminável de armas, tecnologias de vigilância e dispositivos de segurança.
 
As pessoas não têm nada a ganhar com a competição bélica entre grandes potências e tudo a perder com a escalada militar.
 
Contra a militarização do mundo, contra a economia de guerra, contra a OTAN e todos os imperialismos, construamos a solidariedade internacional entre os povos.
 
Fonte: https://cric-grenoble.info/infos-locales/article/manifestation-contre-l-otan-et-contre-l-imperialisme-5233
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
um atrás do outro
cactus florescem
enquanto a lua não vem
 
Nenpuku Sato

[EUA] Com uma Pequena Faísca, Tudo Pode Queimar: Um Livro de Colorir Anarquista para Todas as Idades

Ao longo das gerações, o fio negro da anarquia atravessa a história, unindo pessoas para além de fronteiras, muros e nações. Ele reaparece repetidamente, não importa quantas vezes tenha sido cortado, reprimido ou arrancado à força das mãos de quem o carrega. Seguir esse fio significa entrar em contato com uma linhagem de rebeldes, sonhadores e pessoas comuns que enfrentaram o exílio, a tortura e a perda, mas que, ainda assim, plantaram ideias poderosas o bastante para florescer décadas depois.

Este novo e instigante livro de colorir, criado pelo renomado ilustrador anarquista N.O. Bonzo, acompanha esse fio: as histórias transmitidas de geração em geração, as vitórias e derrotas, as centelhas de esperança que se recusam a desaparecer. A obra convida o leitor a refletir sobre o que herdamos daqueles que vieram antes de nós e sobre o que deixaremos para aqueles que virão depois. Nestas páginas, o fio negro continua seu percurso, convidando você a segui-lo, segurá-lo e entrelaçar sua própria parte colorida no futuro.

Ilustrações de N.O. Bonzo (@nobonzo)

Sobre o ilustrador

N.O. Bonzo é ilustrador, gravurista e historiador anarquista, radicado em Portland, Oregon (EUA). É o ilustrador de Mutual Aid: An Illuminated Factor of Evolution (“Ajuda Mútua: Um Fator Iluminado da Evolução”) e criador de Off with Their Heads: An Antifascist Coloring Book for Adults of All Ages (“Cortem-lhes as Cabeças: Um Livro de Colorir Antifascista para Adultos de Todas as Idades”), Beneath the Pavement the Garden: An Anarchist Coloring Book for All Ages (“Sob o Calçamento, o Jardim: Um Livro de Colorir Anarquista para Todas as Idades”) e da história em quadrinhos The Beautiful Idea (“A Bela Ideia”).

Seu trabalho também inclui diversas biografias de anarquistas do passado, além da tradução e republicação de quadrinhos anarquistas. Bonzo também realizou inúmeras palestras sobre a história da arte, do artesanato e da gravura anarquistas. Mais informações sobre seu trabalho podem ser encontradas em nobonzo.com.

Promoção: 20% de desconto com o código JUNE até 1º de julho, na editora PM Press (https://pmpress.org/index.php?l=product_detail&p=2147).

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Na noite sem lua
o mar todo negro
se oferece em espuma

Eugénia Tabosa

[África do Sul] “Veganismo” sob a ótica da descolonização, de Venita Januarie

Da contracapa:
 
“Em uma nota pessoal, e falando como alguém que leva um estilo de vida “vegano”, muitas pessoas me perguntam por que decidi, de repente, mudar um aspecto tão importante da minha vida. Deixando de lado a modernização, a industrialização e a colonização, a resposta mais honesta que posso dar é que isso me permitiu a expressão mais autêntica de mim mesmo. Eu não poderia defender a vida e a proteção do meio ambiente enquanto claramente fechava os olhos para o sofrimento de criaturas sencientes e a destruição sistemática do nosso meio ambiente. Minha conclusão é e sempre será: devido à nossa história, a colonização sempre terá resquícios na África; nossa responsabilidade está em nossas escolhas e ações.”
 
Venita Januarie é uma defensora do estilo de vida vegano que frequentemente discute o veganismo sob a ótica da descolonização, da proteção ambiental e do bem-estar animal, particularmente no contexto africano. Ela destaca que a escolha de uma dieta vegana à base de vegetais é uma expressão de si mesma e uma posição contra a exploração de criaturas sencientes.
 
>> Para baixar “Veganismo” sob a ótica da descolonização (em inglês) – PDF:
 
https://warzonedistro.noblogs.org/files/2026/03/Veganism-Through-the-Lens-of-Decolonization.pdf
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
o vento a correr
leva a lua
na ponta de uma cana
 
Rogério Martins

[Internacional] Dia de ação direta pela libertação animal

JUNHO/JULHO – COMO PARTE DOS MESES DE SOLIDARIEDADE AOS ANARQUISTAS ENCARCERADOS

Este é um chamado para romper com essa passividade, um convite, independentemente de onde você viva, a todas as pessoas veganas, antiespecistas e anarquistas que estão cansadas da exploração animal.

Os animais não são recursos a serviço dos interesses especistas, capitalistas ou estatais. Por essa razão, conclamamos todas as pessoas a lutar contra todas as formas de opressão.

Queremos deixar claro que a libertação animal não será alcançada se continuarmos de braços cruzados. É muito fácil defender uma causa apenas no discurso enquanto nada se faz na prática e enquanto não se assume qualquer risco pessoal.

Também queremos deixar claro que o especismo não será superado simplesmente pela adoção do veganismo. Evidentemente, deixar de colaborar com a exploração animal é o primeiro passo, mas isso não basta. É ingênuo acreditar que apenas deixar de participar de uma injustiça fará com que ela desapareça sem um processo sério e organizado de resistência.

Estamos cientes de que o veganismo se tornou apenas mais uma tendência, mais uma escolha de consumo entre tantas outras, perdendo grande parte do conteúdo político necessário para possibilitar a verdadeira emancipação de nós, animais. Em alguns casos, acaba inclusive perpetuando o próprio problema que afirma combater, ao deixar de criticar e, às vezes, apoiando o capitalismo.

Acreditamos firmemente que chegou o momento de radicalizar a luta pela libertação animal. Entendemos “radicalizar” em seu sentido original: enfrentar um problema em sua raiz, e não no sentido pejorativo que essa palavra frequentemente recebe.

Por essas razões, convidamos nossas companheiras e nossos companheiros de luta a atacar efetivamente todas as formas de opressão contra nós, animais, utilizando todos os meios que estejam ao seu alcance. Algumas ações possíveis incluem essas, entre outras, mas não se limitem ao que está escrito aqui. Deixem que a imaginação e o desejo de alcançar a libertação total se expressem livremente. Transformemos toda a impotência, frustração e indignação que sentimos diante de tanta exploração e matança em força para resistir:

– Distribuição de panfletos

– Grafites

– Manifestações

– Sabotagem

– Libertação de animais

– Exibição de filmes

– Discussões e debates

– Performances e intervenções teatrais

– Oficinas

– Grupos de estudo

– Shows

– Feiras

– Sessões informativas

– Festivais

– Produção de textos, cartazes, músicas ou qualquer outro material que contribua para difundir a mensagem da libertação animal

Fonte: https://unoffensiveanimal.is/2026/06/25/day-of-direct-action-for-animal-liberation/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

dentro do jardim
o dia chega mais cedo
ao fim

Alice Ruiz

Nossa solidariedade à luta pela autonomia e pela vida na Grécia de baixo!

A Comunidade Ocupa de Prosfygika, em Atenas, existe há 16 anos. Ali vivem 400 pessoas de 27 geografias diferentes, criando espaços e estruturas autogeridas, recusando a lógica capitalista.
 
Por meio de estruturas autônomas de solidariedade, constroem, aqui e agora, um outro mundo contra uma cidade-mercado inóspita.
 
Assim, mantiveram e consolidaram o projeto apesar de muitas tentativas de despejo e criminalização por parte do Estado. No entanto, a partir de 2025, o Estado intensificou seus preparativos para o despejo dos edifícios e a destruição da comunidade. Em 2026, a luta pela defesa de Prosfygica entrou em uma fase crítica.
 
Diante das negativas do Estado grego em todos os seus níveis para reconhecer este exemplo de organização coletiva desde baixo, impondo sua lógica de colocar sua sede de lucros acima das necessidades das pessoas, a comunidade de Prosfygica entrou em uma nova fase de resistência. Apostaram na luta coletiva e na solidariedade internacional sob a afirmação de “Nossa língua comum é a Resistência. Venceremos ou venceremos!”
 
Nesta etapa da luta, os companheiros Aristotelis Chantzis e Suzon Doppagne iniciaram uma greve de fome em 5 de fevereiro e 1º de maio, respectivamente.
 
Na tarde de 24 de junho, e após a resolução do Conselho Municipal de Atenas, abriu-se uma porta para a esperança que permitiu que nossos companheiros tomassem a decisão de encerrar a greve de fome.
 
No entanto, a luta não terminou e seguimos em frente.
 
A greve de fome de Aristotelis durou 139 dias e sua vida esteve em perigo iminente!
 
Os coletivos da Europa Zapatista signatários nos solidarizamos e nos irmanamos com a luta da comunidade de Prosfygika e exigimos que suas REIVINDICAÇÕES sejam atendidas.
 
Unimos nossa voz à deles!
 
Porque a vida vale mais que os lucros dos de cima. A moradia é um direito, não uma mercadoria!
 
Porque a vida coletiva é o fôlego da autonomia e nossa força contra a Hidra do capitalismo.
 
Porque Prosfygika é um caminho de vida dentro de um mundo arrastado pela cultura da morte.
 
Pela Rede EuropaZapatista:
 
Assinaturas:
 
20ZLN. Italia / Asamblea Libertaria Autoorganizada Paliacate Zapatista. Grecia / Assemblea de Solidaritat amb Mèxic-ASMEX. País Valencià, Estado Español / Associació Solidaria Cafè Rebeldía-Infoespai. Barcelona, Catalunya / Associazione Ya Basta! Êdî bese. Italia / Batec Zapatista. Barcelona, Cataluña / Café Libertad Kollektiv. Hamburgo, Alemania / Cafez. Lieja, Bélgica / Cal Cases. Cataluña / Caracoleras de Olba. Olba, Teruel, Estado Español / CAREA e.V. Alemania / Centro de Documentación sobre Zapatismo. Cedoz. Estado Español / Colectivo Armadillo Suomi. Finlandia / Colectivo Calendario Zapatista. Grecia / Colectivo Ramona. Chipre / Collettivo Zapatista Lugano. Suiza / Comitato Chiapas Maribel. Bérgamo, Italia / Comité de solidaridad con Latinoamérica (LAG) – Chiapasgruppa LAG. Oslo, Noruega / Confederación General del Trabajo – CGT. Estado Español / Cooperazione Rebelde Napoli. Italia / CSPCL, París, Francia. / Espoir Chiapas. Francia / Frankfurt International. Alemania / Gira Zapatista Holanda. Holanda / Grupo México del Foro Internacional. Dinamarca / Gruppe B.A.S.T.A. Munster, Alemania / Kaffeekollektiv Aroma Zapatista, Hamburgo / Lumaltik Herriak. País Vasco / Mujeres y Disidencias de la Sexta en la Otra Europa y Abya Yala. / Mut Vitz 13. Marsella, Francia / Mut Vitz 31. Toulouse, Francia / Mut Vitz 34. Francia / Nodo Solidale Roma. Italia / Pallasos en Rebeldía. Estado Español / Quinoa. Bélgica / Red de Rebelión. Alemania / Red Ya-Basta-Netz. Alemania / Silbo Zapatista. Estado Español / Solidaridad Directa Chiapas. Suiza / Tatawelo. Italia / Terra Insumisa Alcamo / Sicilia Sud Globale. Sicilia, Italia / TxiapasEKIN. País Vasco / USI 1912 Italia e Usicons aps Italia / Y Retiemble. Madrid, Estado Español / Ya Basta Bolonia. Italia / Ya Basta Milano. Italia / Ya-Basta-Netz, Alemania
 
Tradução > Liberto
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
Um sol transparente
e um mar azulão
brilhando na areia quente
 
Winston

Amélio Robles:  Herói transgênero da Revolução Mexicana (1910)

Revolução Mexicana (1910-1920) também teve em suas fileiras homens trans. Fato bastante avançado para uma época em que pouco se criticava os papéis tradicionais de gêneros.

O caso mais conhecido é o do Coronel Amélio Robles Ávila (1889-1984). Nascido Amélia Robles, Amélio não apenas se “travestiu” para lutar, mas exigiu que fosse tratado de acordo com a sua vontade. Foi um coronel respeitadíssimo e fiel ao zapatismo até o fim da vida. Amélio nasceu em Xochipala no Estado de Guerreiro, Sul do México, no dia 3 de novembro de 1889.

Amélio Robles ingressou no Exército Zapatista em 1911 e participou de diversas campanhas para arrecadar fundos para a causa revolucionária. Devido a sua bravura, Coronel Robles esteve a frente de destacamentos armados e combates contra as tropas federais mexicanos nas montanhas do sul do país.

Este é o caso mais conhecido, mas não foi o único: Luz Barrera foi outro homem trans guerrilheiro zapatista. Também Angel Jimenez foi guerrilheiro zapatista a lutar na Revolução Mexicana. A mutabilidade de gênero também é praticada entre outros povos originários, como os Mapuches. Emília Errera Obrecht foi uma trans anarquista de origem mapuche que lutou pelo direito do seu povo, como também por sua liberdade de gênero.

No Brasil, entre os povos originários, tivemos as Cudinas entre os povos da Cultura Mabaya-Guaicuru. As Cudinas eram mulheres trans que assim se definiam e assim eram tratadas por todos da cultura Mbayá-Guaicuru, nos séculos 18 e 19.

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).

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Brilho da lua se move para oeste
a sombra das flores
caminha para leste.

Buson

[Itália] A memória de ontem para os desafios de hoje. 25 anos do G8 de Gênova

Há acontecimentos que marcam um divisor de águas na história, seja quando falamos de História com “H” maiúsculo, seja de histórias pessoais. Para a geração que se iniciou no ativismo na onda de 1968, foi certamente o massacre de estado da Piazza Fontana; para muitos da minha geração, foram os dias do G8 em Gênova, em julho de 2001. Não quero, de forma alguma, comparar os dois fatos, que tiveram gravidade, contextos e dinâmicas completamente diferentes, mas ambos decretaram para muitas pessoas o momento da “perda da inocência”. E é por isso que, embora tenham se passado vinte e cinco anos, a memória ardente daqueles dias ainda está presente como algo vivo, como se fosse ontem. E, portanto, é importante falar sobre isso e refletir, embora o mundo, nesse ínterim, tenha mudado radicalmente, em muitos aspectos para pior.

Para falar de Gênova, é preciso contar aquele movimento transnacional que foi chamado de “No global”, principalmente pela mídia mainstream. Embora de forma subterrânea já existisse há algum tempo, ganhou ressonância mundial com a contestação à cúpula da OMC (Organização Mundial do Comércio) em Seattle, no final de novembro de 1999, quando dezenas de milhares de pessoas foram às ruas com a intenção de contestar e bloquear de todas as formas possíveis aquele encontro dos poderosos da Terra. Entre o barulho das vitrines quebradas e das barricadas contra a polícia, entre o gesto de quem ajudava a amenizar os efeitos do gás lacrimogêneo e as paradas irreverentes do exército de palhaços (clown army), um novo, potente e multifacetado movimento internacional se impunha em cena para contestar os donos do mundo. A partir daí, onde quer que se realizasse um fórum dos organismos internacionais (FMI, Banco Mundial, OCDE, Otan…), dezenas e, às vezes, centenas de milhares de pessoas protestavam e sitiavam os locais físicos das cúpulas.

Além de sua difusão em todos os continentes, a outra característica importante daquele movimento foi sua capacidade de reunir não tanto as ideias, mas as diferentes práticas de rua. Com efeito, com modalidades diversas a cada vez, por quase dois anos não houve aquela divisão devastadora entre “bons” e “maus”, praga de tantas mobilizações, mas uma pluralidade de abordagens que conseguiam conviver: do exército de palhaços à marcha pacifista, do black bloc à greve sindical. As instituições responderam com violência crescente, até chegar a março de 2001, quando os protestos no Fórum Global em Nápoles terminaram com uma chacina policial na Piazza Plebiscito e com as torturas dos detidos levados ao quartel Raniero, e a junho de 2001 em Gotemburgo, quando um policial disparou três balas nas costas de um manifestante de 19 anos que, por sorte, sobreviveu. Uma clara antecipação do que aconteceria em julho.

O G8 de Gênova deveria representar, na cabeça de muitos, o ponto mais alto daquele movimento e, em vez disso, marcou seu fim, junto com o atentado às Torres Gêmeas em setembro do mesmo ano. Uma das causas foi que as muitas almas que se reuniram no Genoa Social Forum, a rede que organizou a contracúpula, reproduziram, de fato, as velhas lógicas hegemônicas e autoritárias dos aparatos políticos e sindicais, não incorporando aquelas novas formas de acordo e compartilhamento de práticas próprias do movimento antiglobalização em outros países. Foi assim que a violência estatal, desdobrada em toda a sua ferocidade, pôde ter campo livre para dividir o movimento, incutindo dúvidas e suspeitas. Isso apesar de a ordem de engajamento das “forças de segurança” ser clara desde a manhã de sexta-feira, 20 de julho: massacrar todos e todas sem hesitação. O assassinato de Carlo Giuliani, as surras selvagens nas ruas, as torturas de Bolzaneto, a chacina na escola Diaz não foram “incidentes”, mas o fruto de uma encenação planejada há muito tempo. Uma lição prática da democracia real, mais eficaz do que mil discursos subversivos. Apesar disso, muitas almas da esquerda pacifista e institucional continuarão, ao longo dos anos, a falar em democracia traída.

Os “Anarquistas contra o G8”, aos quais se referiam boa parte dos anarquistas de língua italiana que foram a Gênova, escolheram ignorar o cerco à zona vermelha onde estavam os Chefes de Estado, manifestando, em vez disso, em Sampierdarena, na Gênova proletária, aquela das grandes lutas operárias. Apostamos na greve geral, criamos comitês de greve em diversas cidades que deram vida a assembleias territoriais. Apostávamos na radicalidade dos objetivos e no enraizamento social. No número da Umanità Nova que foi distribuído em Gênova, escrevíamos:

“As manifestações internacionais, como a de hoje em Gênova, foram e serão importantes porque conseguem evidenciar o caráter destrutivo, violento e irrefreável dos vários organismos supranacionais, mas não podem representar o ponto central de um caminho que deve, necessariamente, desenvolver-se em outro lugar. A força deste movimento está na capacidade de conciliar radicalidade e enraizamento, agir e pensar localmente e agir e pensar globalmente, e não deve se esvaziar na mera contestação das cúpulas dos poderosos. Caso contrário, corre-se o risco de se tornar uma espécie de ’tour operator’ da contraglobalização, especializado em viagens para países exóticos. Uma espécie de Camel Trophy da subversão, com direito a emoções já programadas. Ou, pior, de servir de movimento de suporte para uma esquerda institucional exangue em busca de cargos e de novos rostos. No Genoa Social Forum, participaram políticos de todas as estirpes necessitados de legitimação. (…)

Este é um mundo que corre, corre cada vez mais rápido, e igualmente rápido tritura experiências, percursos e também os movimentos sociais que não sabem se furtar ao espetáculo, à lógica insana que, imitando insensatamente as regras impostas pelo marketing, consome rapidamente, tornando subitamente obsoleta, até mesmo a capacidade de crítica, superação e negação do instituído. É uma armadilha a ser evitada, desconcertando o adversário, multiplicando a própria capacidade de abrir novos terrenos, zonas autônomas, espaços livres. Para superar os numerosos impasses em que corre o risco de se enroscar, é necessário que o movimento saiba se espalhar pelo território como poeira, construindo relações conflituosas que se alimentem da capacidade de construção intencional de outros mundos, outras relações, outras vidas. Todos os dias, em qualquer lugar. A tensão para uma ação radical que saiba extrair seiva de um enraizamento profundo, de uma capacidade de projetar que possa penetrar profundamente o presente, pode ser o sinal de um movimento revolucionário capaz de construir seu próprio futuro no hoje. Como anarquistas, começamos, não sem dificuldades, a nos mover nessa direção, a única capaz de recolher as demandas mais fecundas desses movimentos. Mas pode-se e deve-se fazer mais.”

Acreditamos que essas palavras são mais atuais do que nunca. A história, de fato, deixou claro que somente onde nasceram movimentos amplos que conseguiram conciliar uma forte presença territorial com o método da ação direta de massa e não apenas de minorias de militantes, governos e patrões tiveram medo. A escolha de tentar ser radicais e enraizados é, portanto, para nós, o legado principal daqueles dias de julho, uma aposta que se renova a cada dia nas lutas que promovemos e atravessamos. Uma ação constante de subtração conflituosa do instituído que se combina com a prática da autogestão e da luta cotidiana.

Um companheiro que estava lá

Para ler e baixar o especial da Umanità Nova publicado logo após o G8:

umanitanova.org/wp-content/uploads/2021/07/Le-tre-giornate-di-Genova.pdf  

Fonte: https://umanitanova.org/36486-2/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

jardim sem flor
entre as páginas do livro
a rosa e sua cor

Alice Ruiz

A Maré Conservadora nas Américas — e o que ela revela sobre o Estado

Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra

A direita avança nas urnas. A pergunta que nos interessa não é quem venceu. É por que tanta gente submetida à precariedade, à violência e à exploração continua apostando em projetos que prometem ordem por meio de mais polícia, mais fronteira, mais punição e mais poder para quem já manda.

Não basta responder que “foram enganadas”. Essa é a explicação confortável de uma esquerda que, depois de perder contato com a vida concreta das pessoas, prefere imaginar o povo como vítima de manipulação do que reconhecer a própria falência. E é também a resposta de quem ainda acredita que a saída está na próxima eleição.

Não está.

O mapa

A virada é inegável nos números. Após as eleições recentes na Colômbia e no Peru, sete dos doze países sul-americanos são governados por direita, centro-direita ou extrema-direita, representando 58% da população da região. No Chile, Kast venceu o segundo turno em dezembro de 2025 com 59% dos votos. Na Bolívia, o Movimento ao Socialismo — no poder quase ininterruptamente desde 2006 — sequer chegou ao segundo turno. Nos EUA, Trump voltou com Congresso, Senado e Casa Branca na mão.

Muita gente vota à direita porque está cansada. Cansada de ser assaltada, de trabalhar muito e não sair do lugar, de ver serviços públicos deteriorados, de conviver com corrupção, de assistir a governos prometerem transformação e entregarem administração. A extrema direita não inventou esse desespero. Ela aprendeu a convertê-lo em medo, em punição e em demanda por autoridade.

E funciona porque o medo é real.

A esquerda que preparou o terreno

Durante décadas, governos progressistas prometeram reduzir desigualdades, ampliar direitos e democratizar a vida social. Em vários casos, houve ganhos concretos: renda, acesso a serviços, redução temporária da pobreza. Mas esses avanços foram construídos sem desmontar as estruturas que produzem a desigualdade.

Negociou-se com o agronegócio, com mineradoras, com bancos, com empreiteiras. Criminalizou-se o MST, militarizou-se o Complexo do Alemão, expulsou-se comunidade indígena para viabilizar usina. Chamou-se isso de governabilidade. Chamou-se isso de transformação possível.

Mas o aparato permaneceu intacto.

A polícia continuou pronta para reprimir pobres, indígenas, sem-terra e periferias. A máquina estatal continuou concentrando decisão, orçamento, informação e força. Quando os governos progressistas perderam força, deixaram para seus sucessores uma estrutura pronta para ser operada com menos pudor.

Quem constrói instrumentos de controle em nome de uma causa justa não controla quem os usará amanhã.

Esse é o nó que a esquerda parlamentar recusa desatar: não se trata de eleger pessoas melhores para administrar o Estado. Trata-se de reconhecer que o Estado concentra poder, e todo poder concentrado procura se preservar, expandir-se e encontrar novos inimigos. Sempre. Independente de quem assina os decretos.

O que a direita vende

A nova direita não cresce só por falar de costumes, deus ou anticomunismo. Ela cresce porque apresenta respostas simples para dores complexas.

Há crime? Mais polícia.

Há desemprego? Menos direitos trabalhistas.

Há crise de moradia? Mais expulsão.

Há migração? Mais fronteira.

Há corrupção? Um líder forte.

Há medo? Uma arma, uma cela, uma farda.

É uma política de atalhos. Ela não resolve as causas da violência — oferece alvos para a violência.

Não enfrenta a precariedade — disciplina quem sofre com ela. Não combate o poder econômico — protege-o, enquanto direciona a raiva social para migrantes, pobres, dissidentes e qualquer pessoa que possa ser transformada em ameaça.

O capitalismo produz abandono, competição, fome, humilhação e desespero. Depois, o Estado aparece para administrar os destroços com polícia, prisão e vigilância. A extrema direita não rompe esse ciclo. Ela o acelera — e o faz com aprovação popular, que é a parte que mais deveria nos incomodar.

Votar é delegar. Delegar é abrir mão.

A resposta automática da esquerda institucional é pedir mais unidade eleitoral, mais alianças, candidatos mais viáveis, melhor comunicação. Como se a derrota fosse problema de marketing.

Mas não existe campanha capaz de reparar uma política que se tornou indistinguível da administração da ordem existente.

E há um problema mais fundo que isso.

Votar é um gesto de delegação: eu entrego a outro, periodicamente, a decisão sobre minha vida, meu bairro, meu trabalho, meu corpo. É um ato que pressupõe a própria separação entre quem decide e quem obedece — a separação que é a base de toda dominação. Não importa em quem se vota: o ato em si reproduz a lógica de que a política é algo que acontece em outro lugar, feita por outras pessoas, e que o máximo que nos cabe é escolher o menos ruim de quatro em quatro anos.

Isso não é emancipação. É a forma mais pacífica de capitulação.

Quando governos de esquerda criminalizam protestos, preservam privilégios, militarizam territórios e tratam movimentos sociais como problema de gestão, não estão apenas cometendo contradições. Estão demonstrando, concretamente, que o Estado não muda de natureza quando muda de partido.

A direita entende isso melhor do que muita esquerda: ela se apresenta como ruptura enquanto protege exatamente os mesmos interesses econômicos de sempre. A esquerda parlamentar, muitas vezes, não consegue nem fingir ruptura — tornou-se defensora de instituições que as pessoas experimentam como distantes, lentas, corruptas e impotentes.

O pêndulo é a armadilha

A América Latina conhece bem o movimento pendular: direita, esquerda, direita, esquerda. Mudam os governos, trocam-se os discursos, alternam-se as bandeiras — e a maioria continua trabalhando demais, morando mal, temendo a violência e obedecendo a decisões tomadas de cima.

O pêndulo não é sinal de democracia saudável. É o mecanismo que mantém a vida política girando sem sair do lugar.

A ascensão da direita não deve produzir nostalgia de governos que administraram a miséria com linguagem progressista. Nem deve produzir desespero. Deve produzir clareza.

Clareza de que não haverá liberdade onde houver concentração de poder.

Clareza de que não se combate a violência multiplicando armas, prisões e fardas.

Clareza de que nenhuma eleição devolverá às pessoas o controle sobre a própria vida — porque esse controle nunca foi o que a eleição ofereceu.

A política que não espera permissão

Isso não é niilismo. É a recusa de uma ilusão — para que sobre espaço para o que funciona.

Cooperativas, sindicatos de base, ocupações de terra e moradia, cozinhas comunitárias, clínicas populares, redes de cuidado mútuo, comunicação livre, defesa territorial coletiva: essas práticas não são substitutas imperfeitas da “política real”. São a política real. A única que não produz novos donos ao final do processo.

Não são perfeitas. Reproduzem hierarquias, conflitos, exclusões. Por isso exigem democracia direta, rotatividade, transparência e o conflito aberto em vez do silêncio obediente. Autonomia não é ausência de organização. É organização sem chefe, sem partido, sem vanguarda que sabe mais do que você sobre a sua própria vida.

O relógio eleitoral continuará oscilando enquanto aceitarmos que ele mede o tempo da política.

A saída começa quando paramos de esperar o próximo governo e construímos poder onde vivemos — sem pedir licença, sem aguardar eleição, sem delegar a ninguém o que só nós podemos fazer por nós mesmos.

Produzido coletivamente.

anarkio.net

agência de notícias anarquistas-ana

Libélula voando
pára um instante e lança
sua sombra no chão

Masuda Goga

[Itália] Uma carta de Sara Ardizzone (Foligno, 2018)

Recebemos e divulgamos esta comovente carta da companheira Sara Ardizzone, com uma introdução que explica seu contexto. Sandro, Sara: não os esqueceremos!
 
Portanto, sem vitimismo, despeço-me de vocês. E se, quando as abraçar, me vier o choro, não será porque acredito ter sofrido uma injustiça ou um abuso, mas porque sentirei falta de vocês“. Carta de Sara Ardizzone às camaradas de janeiro de 2018
 
Fazendo arqueologia nos depósitos de uma vida de batalhas, reencontramos esta terníssima carta que Sara escreveu às camaradas de trabalho em janeiro de 2018. A carta surge na sequência de uma demissão por motivos disciplinares, uma insubordinação em defesa da própria dignidade que é reivindicada de cabeça erguida. O texto havia sido encaminhado na época também a alguns companheiros mais próximos.
 
É impressionante, depois de todos estes anos, (re)descobrir como não há diferenças nem em termos de estilo, nem sobretudo em termos de orgulho, de tenacidade, de primazia absoluta da ética, com outros documentos mais recentes e “políticos” como, um exemplo entre todos, a declaração que Sara fez no tribunal de Perugia em 15 de janeiro de 2025, durante a audiência preliminar do processo Sibilla. Uma demonstração – se é que ainda fosse necessária – de que Sara era a mesma pessoa diante de todos: diante dos colegas, diante dos companheiros, diante dos inquisidores. E assim foi ao longo dos anos. Diferentemente de uma pessoa solitária e de vida dupla, como escreveram alguns borra-papéis sempre prontos a tocar a trilha sonora que mais agrada aos poderosos.
 
Seu anarquismo nunca precisou de especificações ou adjetivos adicionais. Sua foi uma personalidade de orgulhoso, indomável individualismo, zelosa guardiã de sua liberdade individual, reivindicando em toda ocasião pensar sempre e apenas com a própria cabeça, sem receber ordens de ninguém e sem dar ordens a ninguém. Ao mesmo tempo, e sem linha de contradição, aliás com extrema naturalidade, sua interpretação universal dos eventos sociais sempre foi pautada por uma irredutível concepção de classe, coerente com os princípios anarquistas. Uma “propaganda pelo ato” que deixou marcas em muitas pessoas que tiveram a sorte de conhecê-la.
 
Hoje fui comunicada da rescisão do meu contrato de aprendizagem. Não podemos negar que eu e os valores da Decathlon (infelizmente ou felizmente) seguimos em duas direções diferentes. Seria hipócrita da minha parte perguntar o porquê de uma decisão dessas por parte da empresa. Eu, pessoal, não sorrio. Eu não sorrio porque é contra a natureza (isso, sim, é verdade) sorrir para quem nos vaias nos corredores como se fôssemos cães. Porque eu não sorrio quando uma cliente me chama na recepção gritando que somos uns incompetentes porque a bicicleta comprada, por sua própria admissão, às 20h do DIA SEGUINTE, tem uma câmara de ar vazia. Eu não rio quando a mesma senhora me diz que fomos superficiais porque às 20h15 queríamos parar, lembrando-me que, por lei, se ela está na loja, somos obrigados a ficar até que o último cliente queira terminar suas compras. A lei eu não conheço, mas uma coisa aprendi… que nem sempre lei quer dizer justiça. E a minha justiça é mandá-la TOMAR NO C*. Porque em 1943 era lei mandar os judeus para os campos de concentração, mas a lei mudou, e mudou com a força. A mesma força que nossos colegas usaram num Ipercoop da Emília-Romanha, fazendo cordões humanos para não deixar os clientes entrarem para comprar no último 25 de abril. Portanto, sem vitimismo, despeço-me de vocês. E se, quando as abraçar, me vier o choro, não será porque acredito ter sofrido uma injustiça ou um abuso, mas porque sentirei falta de vocês.
 
Sempre de punho cerrado.
 
PATRÕES DE NADA, SERVOS DE NINGUÉM.
 
Um abraço.
 
Sara
09/01/2018
 
Fonte: https://ilrovescio.info/2026/06/19/una-lettera-di-sara-ardizzone-foligno-2018/
 
Tradução > Liberto
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
caminho de terra,
o mato à margem exala
perfumes silvestres
 
Zemaria Pinto

Atendimentos Jurídicos da FACA – 02/07/2026

A Federação Anarquista Capixaba (FACA) divulga sua agenda de atendimentos jurídicos e sindicais do início do mês de julho de 2026.

Todos os atendimentos serão realizados mediante agendamento no e-mail fedca@riseup.net.

02/07/2026: Iconha/ES.

Reforçamos: os atendimentos se darão mediante prévio agendamento no e-mail fedca@riseup.net.

Pela transformação social!

Pelo socialismo libertário!

Federação Anarquista Capixaba – FACA

Federada à União Anarquista Federalista – UAF

federacaocapixaba.noblogs.org/

agência de notícias anarquistas-ana

entre os vinte cimos nevados
nada movia a não ser
o olho do pássaro preto

Wallace Stevens