[Alemanha] Solidariedade aos 9 anarquistas perseguidos na Itália na última operação

Solidariedade aos 9 anarquistas perseguidos na Itália por terem sabotado uma linha de trem de alta velocidade durante os últimos Jogos Olímpicos de Inverno e por formarem uma organização com o objetivo de subverter o Estado.
 
De Berlim, em solidariedade, enviamos a vocês força e amor!
 
Como um pequeno gesto para informar as pessoas na noite seguinte à notícia das batidas policiais, de suas prisões e do despejo, e para tirar isso da cabeça e começar a expressar nossa tristeza e raiva, penduramos uma faixa nas ruas de Berlim
 
Vocês estarão presentes em nosso dia a dia até que voltemos a caminhar juntos
 
Nossos pensamentos também são com aqueles que foram desalojados, mas não desanimados, pelo despejo oportunista do Bencivenga
 
Sara e Sandrone em nossos corações
 
Fonte: 
https://kontrapolis.info/18133/
 
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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/06/18/italia-em-tempos-de-guerra-sobre-a-batida-anti-anarquista-de-16-de-junho/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
no muro o caracol
se derrete nos rabiscos
da assinatura prateada
 
Dalton Trevisan

Relatório de Atividades – Projeto “Livro Livre”[

O Projeto  
Livro Livre  é uma iniciativa da União Anarquista Federalista (UAF) e da Federação Anarquista Capixaba (FACA) de incentivo à leitura e divulgação da cultura anarquista, desenvolvida no território dominado pelo estado do Espírito Santo, na cidade de Cachoeiro de Itapemirim. Seu principal objetivo é ampliar o acesso da população aos livros, promovendo o compartilhamento de conhecimento, a formação de novos leitores e o fortalecimento da educação por meio da circulação gratuita de obras literárias, educativas e, principalmente, anarquistas.
 
Desenvolvimento das Atividades
 
Durante os últimos seis meses, o projeto manteve suas atividades de forma contínua e organizada. O ponto de troca está disponível na comunidade, permitindo que qualquer pessoa deixe um livro e retire outro gratuitamente, incentivando a economia colaborativa, o acesso à leitura e o apoio mútuo.
 
Observamos uma participação crescente da população, com frequentes trocas de livros realizadas por estudantes, professores, famílias e demais moradores da região. O envolvimento da comunidade demonstra o reconhecimento da importância do projeto como instrumento de incentivo à educação e à cultura libertadora.
 
Paralelamente à participação do público, mantivemos o compromisso de abastecer o projeto semanalmente. Foram realizadas reposições constantes do acervo com livros, fanzines e panfletos, garantindo diversidade de títulos e boas condições de uso. Além disso, foram distribuídos panfletos informativos para divulgar a iniciativa e ampliar o alcance do projeto junto à população.
 
vs Observados
 
Ao longo do semestre, destacam-se os seguintes resultados:
 
Participação ativa e contínua da comunidade nas trocas de livros;
Renovação semanal do acervo por meio da inserção de novos materiais;
Distribuição regular de panfletos de divulgação e conscientização;
Maior visibilidade do projeto na cidade em que ele está instalado;
Fortalecimento da cultura anarquista da leitura e do compartilhamento de conhecimento;
Incentivo ao reaproveitamento de livros e ao acesso gratuito à informação.
 
Considerações finais
 
Os resultados obtidos nos últimos seis meses demonstram que o Projeto  
Livro Livre  vem cumprindo seu propósito social de incentivo à leitura e ampliar o acesso ao conhecimento sobre o anarquismo. A participação constante da população, aliada ao abastecimento semanal realizado pela equipe da UAF-FACA, tem garantido a continuidade e o fortalecimento da iniciativa.
 
A expectativa para os próximos meses é ampliar ainda mais o acervo disponível, fortalecer a divulgação do projeto e alcançar um número cada vez maior de participantes, consolidando esta ação como uma importante ferramenta de promoção do anarquismo.
 
União Anarquista Federalista – UAF e Federação Anarquista Capixaba – FACA.
uafbr.noblogs.org
Contato: 
uaf@riseup.net
 
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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/03/02/nasce-o-livro-livre-um-ponto-de-resistencia-anarquista-no-sul-do-espírito-santo/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
pérolas de orvalho!
olho e tétus em cada gota
a minha casa-espelh
 
Issa

Câmara Pires, um libertário anticolonialista!

Inocêncio Matoso Andrade da Câmara Pires (1898-1966) foi médico, periodista e militante libertário negro nascido em Luanda, capital de Angola colonizada por Portugal, em 4 de março de 1898.   Mudou-se para Lisboa onde se formou em Medicina. Câmara Pires combateu o capitalismo, o fascismo e o colonialismo em três continentes: África, Europa e América (do Sul).

Na universidade Pires se filiou a grupos antifascistas, como o Grupo de Defesa Acadêmico (GDA) e o Bloco Acadêmico Anti Fascista. O libertário também foi filiado à Federação Anarquista Revolucionária de Portugal (FARP) e à Federação Anarquista Ibérica (FAI), e um dos maiores opositores do Estado Novo Salazarista (1933-1976). Pires também colaborou com a imprensa libertária, nos jornais Liberdade, Rebelião, Seara Nova e no Avante! Além de estar na frente de combate durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), Câmara Pires fez parte do Grupo dos Budas, que contrabandeava armas de Portugal para a Espanha. O grupo foi formado por Jaime Zuzarte, Jaime Alberto de Castro Moraes, Armando Cortesão e outros.

Com o fim da Guerra Civil, Câmara Pires mudou para o Brasil em 1939 e manteve relações com os anarquistas brasileiros na capital federal. Colaborou com o periódico Ação Direta [1]. Neste jornal, o Libertário chegou a afirmar que o nacionalismo era uma “lepra da humanidade”. pois seria uma entidade sempre contribuindo para a solidariedade, liberdade e fraternidade humana. No Centro de Estudos José Oiticica palestrou contra o colonialismo na África alertando que uma mudança de governo nos territórios africanos dominados não significaria a efetiva emancipação social dos negros. Câmara Pires integrou o grêmio carnavalesco Pierrots da Caverna, como conselheiro fiscal da associação.

Na década de 1930, Câmara Pires correspondeu-se com Emma Goldman (1869-1940), radicada nos Estados Unidos da América. As correspondências tratavam sobre a vida de refugiados espanhóis na Inglaterra e de uma rede solidária de acolhimento de refugiados espanhóis em Paris. Numa dessas correspondências, Pires noticia, em espanhol, o aprisionamento de companheiros libertários em campos de concentração nazistas. As cartas também revelaram doações enviadas à Câmara Pires com a finalidade de financiar armas e produtos básicos para os antifascistas na Guerra Civil. 

No início dos anos de 1950, Câmara Pires mudou-se para a França, onde fixou residência que serviu também de acolhimento para diversos imigrantes e refugiados africanos. Com o advento do Pan-africanismo e do movimento Negritude, o libertário passou a militar também em favor da libertação dos povos africanos. O Libertário foi representante do Movimento Pela Libertação de Angola (MPLA) em Paris, participando de ações e planos anticoloniais.

Mesmo integrando um movimento marxista-leninista, Pires não abandonou as ideias libertárias, sendo, talvez, o único anarquista no MPLA. O objectivo comum aos socialistas, comunistas e libertários era o fim do colonialismo português e a libertação do povo angolano.

Inocêncio Matoso Andrade da Câmara Pires morreu em Paris, no dia 8 de abril de 1966, aos 68 anos de idade, sem conseguir ver a libertação dos povos africanos dominados por Portugal.

[1] AÇÃO DIRETA. N.39. 108/08/1947. Por que eu me tornei anarquista?.

REFERÊNCIAS

• AÇÃO DIRETA. N.39. 108/08/1947. Por que eu me tornei anarquista?.

• DÁSKALOS, Sócrates. Um testemunho para a História de Angola. Lisboa. Vega.2000

• KARLLOS, Jr. Brasil Negro Insurgente. Ed. Monstro dos Mares. 2025.

• RODRIGUES, Edgar. Companheiros. Vol.01. 1994.

• OS DOCUMENTOS DE EMMA GOLDMAN – Arquivo da Internet. Carta, 19 de maio de 1938.

Londres [para I. da Camara Pires], Marselha [França] / [Emma Goldman].

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).

agência de notícias anarquistas-ana

Vendaval. Nas nuvens,
veloz desfila o falcão:
um surfista no ar.

Ronaldo Bomfim

[Espanha] Anarquismos na encruzilhada

Por Tomás Ibáñez

Admito, estou puto, muito puto, e isso explica por que reagi tão abruptamente a alguns textos vindos do setor plataformista, ou especifista, como eles mesmos preferem se denominar, e por que proferi expressões tão agressivas como a de qualificá-los de “anarquismos cavernícolas, retrógrados e reacionários”[1]

Estou puto porque sempre me pareceu desprezível que, nas controvérsias, se vá “para cima da pessoa” do adversário, atribuindo-lhe determinados traços ou características para desqualificar suas posições e seus argumentos, e é precisamente isso que se faz em escritos como os de Miguel Brea, do coletivo especifista madrilenho Liza.[2]

No afã de explicar que determinadas posturas se devem a situações ou a traços pessoais, não se deveria abandonar certa prudência, se não se quiser cair na indecência. Reprocha-se a mim, por exemplo, não estar presente nas lutas de rua contra os despejos e outras insuportáveis barbaridades. Reconheço que, aos meus 82 anos, já não estou para militar 24 horas por dia como fiz por muito tempo na minha juventude e continuei fazendo com intensidade decrescente por muitos anos mais.

Me irrita que se pretenda induzir a ideia de que minhas posturas se deveriam ao fato de eu ser um intelectual de gabinete, sem contato militante com a realidade, e me irrita ter que contrapor essa ideia com alguns dados sobre minha trajetória de rua, lembrando, por exemplo, que antes de ser maior de idade já estive diante dos tribunais por atividades anarquistas antifranquistas, ou que em janeiro de 1966 passei a integrar a Comissão de Relações da FIJL (ilegalizada na França por sua vinculação com a Defesa Interior), ou que sofri uma ordem de expulsão da França por minha participação na revolta de Maio de 68, sem esquecer que participei intensamente da reconstrução da CNT, e assim sucessivamente até o presente, fazendo o que razoavelmente posso para lutar por meus valores.

Aliás, quando se alude ao fato de que a elaboração de meus textos persegue o objetivo de serem publicados em revistas indexadas, deveria-se saber que não apenas me caracterizei por rejeitar essa prática, como também uma de minhas lutas acadêmicas foi, precisamente, a de denunciar esse critério como indicador de excelência em pesquisa.

Estou puto porque o procedimento que consiste em desqualificar a pessoa com o fim de minar seus argumentos me levou a mencionar alguns fragmentos de minha trajetória antes de abordar as questões de fundo, que é o que realmente apresenta algum interesse.

E, por último, mas não menos importante, também estou puto porque tenho o sentimento de que a corrente especifista, representada basicamente por Liza em Madri e por Embat na Catalunha, inscreve-se de forma quase mimética, e provavelmente sem pretender, num fenômeno mais geral que no âmbito marxista leva o nome de Movimento Socialista, originado no País Basco, e Horitzó Socialista nos países catalães.

No caso do anarquismo, o propósito de focalizar as lutas para a revolução social proletária e de recompor o tecido libertário fragmentado, aglutinando-o numa grande e potente organização, parece-me arrastar as lutas anarquistas para uma ineficácia política e social, afastando-as da realidade do mundo contemporâneo.

Espero que ter dado vazão à minha raiva tenha tido em mim o efeito catártico suficiente para que eu possa abordar agora, sem excessiva acrimônia, a controvérsia com a tendência especifista em torno de três temas principais:

— A revolução, o programa revolucionário e o desejo de revolução.

Ao contrário do que se sustenta desde o especifismo, não é a crítica ao antigo imaginário da revolução que desanima o fervor combativo de quem rejeita o sistema atual e anseia por outra forma de vida, mas sim o próprio fato de fomentar a crença na vigência desse imaginário. Com efeito, animar a lutar hoje por uma revolução social inspirada no conceito de revolução próprio das ideologias socialistas e anarquistas forjadas no século XIX está fadado a criar, mais cedo ou mais tarde, uma inevitável frustração, não apenas diante da evidência de que não se delineiam, nem a curto nem a médio prazo, condições que a tornem possível, mas também pelo escasso entusiasmo, e até mesmo pelo nulo interesse, que a perspectiva de uma revolução “à moda antiga” desperta na população.

Trata-se de uma falta de credibilidade e de uma ausência de interesse que pode desanimar aqueles que, movidos pelas melhores intenções, dedicam suas energias a “avançar” rumo à consecução da revolução, aprimorando estratégias, elaborando programas e delineando profundos projetos revolucionários, que em nenhum caso produzem avanços perceptíveis nessa direção.

Criticar a concepção de revolução forjada nos séculos XIX e XX não significa negar que o sistema vigente seja totalmente inaceitável, nem questionar que seja preciso lutar acirradamente contra ele. Não se trata de abandonar a imprescindível necessidade de transformar radicalmente o sistema, e está bem claro que os anarquismos desprovidos de um intenso desejo de revolução dificilmente mereceriam seu qualificativo. Não se trata de renegar a revolução, mas de ressignificar seu conceito. E é precisamente isso que se está fazendo nos setores que mantêm vivo o desejo de revolução, mas que desenvolvem suas práticas no mundo contemporâneo e não no fantasma de um mundo que já caducou há muito tempo.

Nesses setores, a revolução não é um objetivo mais ou menos distante para o qual se avançaria mediante “o correto desenvolvimento da estratégia correta”, mas, afastada de toda perspectiva escatológica, está incardinada no presente. A revolução ressignificada em termos atuais não se situa no porvir, mas acontece em cada espaço e em cada processo que se consegue subtrair ao sistema; não é aquilo para o qual nossas lutas tentam nos aproximar, mas sim o que estas produzem no curso de seu próprio desenvolvimento. Dito de outra forma, a revolução não é a meta de nossas lutas, mas é inerente a elas; não há propriamente revolução entendida como se a entendia antigamente, mas existem atividades que são revolucionárias na medida em que exemplificam a resistência contra o sistema, o contradizem e o racham no curso de seu próprio exercício. Faz-se revolução no dia a dia das lutas, sem esperar por nenhum estouro final que constituiria a recompensa de nossos esforços. A recompensa não reside em nenhum outro lugar senão no seio desses mesmos atos.

E para que não se diga que essa concepção é produto da ideologia neoliberal vigente desde o último terço do século XX, basta lembrar que já a encontramos prefigurada em escritos do século XIX, como por exemplo nos de Max Stirner. A título de curiosidade, ainda não havia terminado o ano de 1964 quando já havia publicado um texto que se intitulava em francês: “la révolution de papa est morte”.[3] Abandonar esse tipo de revolução me parecia então a melhor maneira de continuar sendo revolucionários e revolucionárias.

— A classe operária, sua consideração como sujeito revolucionário e o capitalismo atual

O peso do setor produtivo ao qual pertenciam os sujeitos catalogados como membros da classe operária não parou de diminuir tanto em termos absolutos quanto em termos relativos.

Para além da clássica distinção marxista entre a classe em si e a classe para si, é óbvio que apenas um indevido processo de reificação permite afirmar que existe algo como a classe operária (ou qualquer outra classe). A classe é um conceito sociológico, uma categoria, uma abstração, que carece de um referente material. Quando se hipostasia essa entidade conceitual, não apenas se incorre num erro inferencial, mas se assentam as bases para construir narrativas que tentam disfarçar seu caráter fantasioso sob uma linguagem tecnicista que acaba por distorcer nossa representação da realidade e por encaminhar nossa análise política, bem como as atividades dela derivadas, para rumos equivocados e conclusões errôneas.

Constatar o declínio da importância da chamada classe operária não é um viés ideológico induzido pelo neoliberalismo, mas um fato trivial por ser demasiado óbvio. Questionar a tendência a hipostasiá-la não é diminuir a importância do fato inquestionável da exploração capitalista, nem a existência bem real de multidões de pessoas que, para subsistir, se veem na obrigação de vender seu tempo, sua saúde, suas competências, suas energias em troca de contrapartidas econômicas sempre inferiores à mais-valia gerada, como exige a lei de ferro do capitalismo.

Pretender que a classe operária é “o sujeito revolucionário” representa uma dupla falácia: primeiro, porque, se não existe uma classe operária, é impossível que ela seja o sujeito de qualquer coisa; e segundo, porque, se insistimos em chamar de sujeito revolucionário as entidades que produzem revoluções, acontece que esses sujeitos são múltiplos. Não há um sujeito revolucionário, mas muitos. E estes não costumam se definir mecanicamente por uma determinada inserção no tecido produtivo, mas sim se correspondem com as reações e resistências frente aos distintos dispositivos de dominação que conformam o tecido social e o semeiam de operações de discriminação. Para além da eventual potencialidade revolucionária dos coletivos explorados e/ou discriminados aos quais pertencem as pessoas, são revolucionárias aquelas que são animadas por uma rejeição consciente e radical da submissão e por um intenso desejo de revolução que as leva a desenvolver atividades revolucionárias voltadas a opor resistência às diversas formas de dominação próprias do sistema vigente.

É óbvio que o sistema em que vivemos há alguns séculos é um sistema capitalista absolutamente execrável, que Marx, mas não só ele, contribuiu para analisar. No entanto, a linguagem pretensamente rigorosa a que recorrem os textos especifistas, bem como outros de caráter filomarxista, reflete uma incapacidade de se desprender dos tópicos mais gastos do marxismo. O mantra que não para de se repetir há mais de um século é que o capitalismo entra em sua fase final e que está prestes a sucumbir sob suas insuperáveis contradições. Fala-se de capitalismo terminal, de capitalismo desvairado, de crise sistêmica e crônica do capitalismo neoliberal, da dinâmica degenerativa irreversível da acumulação, da entrada do capitalismo numa fase de turbulências estruturais, etc., etc. Nem todas essas expressões figuram literalmente nos escritos especifistas, mas se encaixam em seu incansável mantra de anunciar que o capitalismo está com os dias contados devido às suas próprias contradições internas, o que injeta uma moral de vitória adiada numa militância frustrada pelo fato de constatar que o moribundo capitalismo não para de resistir aos seus denodados ataques.

O lamentável é que esse tipo de análise não ajuda a entender as características atuais do capitalismo, e especialmente as dessa 4ª revolução industrial, ou revolução 4.0, na qual entramos desde os albores do século XXI.

Indissociável da revolução informática que deu início à terceira revolução industrial nos anos 1970, trata-se agora da integração das tecnologias digitais em todos os âmbitos da sociedade e da estrita dependência dos recursos digitais em que se encontram todos esses âmbitos – medicina, educação, comunicação, pesquisa, inclusive as guerras e, claro, a esfera econômica, que passa a configurar um capitalismo digital ou tecnocapitalismo que, entre outras características, consegue produzir mais-valia a partir dos enormes viveiros de dados explorados por potentes algoritmos.

A IA, a robótica, a engenharia genética, as nanotecnologias, os objetos conectados, os satélites, os computadores quânticos… etc. Tudo isso propicia, por um lado, a emergência de um novo tipo de totalitarismo[4] que começa a modelar a sociedade e, por outro, a entrada num regime de vertiginosa aceleração das mudanças em todos os âmbitos, criando, entre outras coisas, um contexto de incerteza e um sentimento de incontrolabilidade tanto do presente quanto do futuro.

Esse é o contexto em que se inserem nossas lutas atuais, e é bastante difícil vislumbrar como a classe operária enquanto sujeito revolucionário se encaixa no marco do capitalismo 4.0.

— A organização especifista

Obviamente, o cerne da questão não está em se é preciso se organizar ou não. Ter que se organizar é uma exigência inerente a qualquer atividade anarquista assim que envolve mais de uma pessoa. Portanto, quando se faz bandeira do anarquismo organizado, o que se está fazendo é excluir implicitamente dessa categoria boa parte das atividades anarquistas que também requerem organização, mas que se desenvolvem fora de um determinado tipo de organização. Assim, reserva-se a expressão “anarquismo organizado” para designar o anarquismo que se enquadra especificamente num determinado tipo de organização.

Por exemplo, seria manifestamente errôneo sustentar que os coletivos anarquistas que atuam a partir dos centros sociais ocupados e autogeridos, ou a partir de problemáticas locais, ou de pequenos coletivos autônomos, ou da luta contra determinadas discriminações particulares carecem de organização; no entanto, o próprio fato de deixá-los à margem do anarquismo organizado está transmitindo que, se esses tipos de anarquismo não merecem o qualificativo de anarquismo organizado, não é realmente porque carecem de organização, mas porque constituem um mosaico variegado, fragmentado, desconexo, carente de uma perspectiva estratégica que oriente suas lutas.

Essa apropriação hegemônica do atributo “organizado” frustra a pretensão de transformar o caráter organizado ou não do anarquismo num critério diferenciador entre dois tipos de anarquismo e deixa a descoberto a vontade de considerar como anarquismo organizado apenas o anarquismo próprio de determinadas organizações, entre as quais figuram, evidentemente, as organizações especifistas.

Uma mínima honestidade política exigiria que, em vez de falar genericamente de anarquismo organizado, quem assim o faz precisasse que está falando de anarquismo organizado segundo uma das concepções de organização, mas que há outras concepções e que, portanto, também existem outras variedades de anarquismos organizados. Isso deslocaria o debate para a comparação entre diversas formas de organização, para poder avaliar, entre outras coisas, quais são as mais adequadas às características da sociedade atual e as mais eficazes para transformá-la.

Pode ser, por exemplo, que a realidade atual exija modelos organizativos reticulares, muito mais flexíveis, mais fluidos, do que os das organizações tradicionais, orientados por simples propósitos de coordenação para realizar tarefas concretas e específicas, a partir de perspectivas meramente táticas.

Pode ser que a tentação de romper essa fragmentação e essa fluidez organizativa leve a condenar o movimento anarquista a sofrer um novo eclipse após o recente período em que conseguiu polinizar uma série de movimentos subversivos externos ao âmbito do anarquismo identitário e em que alcançou proliferar nos interstícios da sociedade.

Em todo caso, a fascinação por construir uma sólida organização anarquista articulada em torno de um programa revolucionário coerente e de perspectivas estratégicas capazes de sustentar eficazmente as lutas anticapitalistas deveria alentar a atividade militante de quem se inscreve nessa tesitura, sem que tenham que alimentar a enganosa ilusão de que as dificuldades que afligem as lutas atuais se devem, principalmente, à ausência de uma grande organização libertária, e que essas dificuldades desaparecerão assim que essa organização veja a luz.

Apesar de meus receios em relação às organizações que, de maneira mais ou menos explícita conforme os casos, fazem parte da tradição plataformista, ou seja, da tradição que representa no seio do anarquismo a versão mais próxima da “forma Partido”, própria das diversas variantes dos marxismos-leninismos e dos trotskismos, não me incomodaria tanto o intenso proselitismo que seus partidários desenvolvem se os esforços daqueles que anseiam por uma grande organização anarquista se voltassem para desenvolvê-la, conquistando novos espaços e nova militância, em vez de lançar mão do já existente, ou seja, de uma parte do anarquismo atualmente ativo para reestruturá-lo, sem perceber que, ao homogeneizá-lo e unificá-lo, corre-se o risco de destruí-lo.

Com efeito, parece que se estivesse lançando uma OPA sobre os centros sociais ocupados e sobre os coletivos anarquistas autônomos para que sua militância engrosse as fileiras “unitárias” do especifismo. Um pouco como ocorreu na Catalunha durante o chamado “Process“, quando os nacional-independentistas das CUP lançaram uma OPA sobre a militância anarquista espalhada pelo tecido social da Catalunha e conseguiram atrair para a atividade nacional-independentista boa parte dela.

O fato de que, desde o especifismo, se exorte a potencializar o poder popular e a empoderar o povo fortalece o ar de família com as organizações de índole marxista revolucionária, acentuando dessa forma o aroma de leninismo rampante que emana do especifismo. Não é surpreendente que, dessa proximidade, manifeste-se certa atração pelo reacionário conceito de “vanguarda”, ainda que tentando reformulá-lo e disfarçá-lo para torná-lo menos repelente nos meios anarquistas.[5]

A modo de conclusão provisória, é óbvio que, considerando apenas as divergências em torno desses três temas, delineiam-se orientações fortemente divergentes, para não dizer diferenças abissais.[6] No entanto, como ninguém pode ter total certeza de que seu ponto de vista é o mais acertado, acho muito bem que aqueles que se agrupam em organizações como LizaEmbat e outros coletivos do mesmo talante desenvolvam suas propostas e atividades sem que lhes coloquemos obstáculos, desde que também se abstenham de fazê-lo em relação a outras propostas anarquistas.

Desde o convencimento de a necessária pluralidade dos anarquismos, quero apenas desejar-lhes sorte em sua caminhada, mas isso não implica renunciar à análise, às avaliações e à crítica de seus postulados e de seu fazer.

É essa mesma sorte, só que ainda maior devido à minha própria orientação dentro dos anarquismos, que desejo àqueles que se organizam fora dessas organizações nos coletivos anarquistas autônomos que procuram resistir e que, com isso, estão contribuindo para anarquizar o mundo no presente e em toda a medida do possível.

[1]: https://redeslibertarias.com/2025/10/10/anarquismos-cavernicolas-retrogrados-y-autoritarios/

[2]: https://regeneracionlibertaria.org/2025/12/03/anarquismo-no-fundacional-anarquismo-funcional-al-capital/

[3]: 1964. T. Ibáñez “La révolution de papa est morte”. *Bulletin des Jeunes Libertaires* nº 48

[4]: Veja o adendo sobre essa questão em meu livro *Anarquismo no fundacional. Afrontando a dominação no século XXI.* Barcelona Gedisa 2024

[5]: T. Morago, Recompor a vanguarda, *Regeneración libertaria*. junho 2026

[6]: A. Apilánez. https://kaosenlared.net/el-anarquismo-en-su-laberinto/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Na noite em silêncio
o relógio presente
marca o passado

Eugénia Tabosa

[Espanha] Em memória daqueles que defenderam a revolução contra os autoritarismos.

Em uma Espanha dilacerada pelo golpe de Estado e pela guerra, milhares de jovens deixaram para trás uma vida que mal havia começado para defender a liberdade, a justiça social e seus ideais.
 
Ela poderia ter sido uma estudante, uma trabalhadora ou uma vizinha qualquer. No entanto, a história a registrou nas ruas, com o gorro vermelho e preto e o macacão azul dos militantes anarquistas, participando ativamente da luta contra o fascismo.


A juventude anarquista daqueles anos não esperou que outros decidissem seu futuro.
 
Organizou sindicatos, coletividades, hospitais, refeitórios, escolas e milícias.
 
Sonhou com um mundo livre e justo e estava disposta a arriscar tudo por ele.
 
Esta imagem não mostra apenas uma jovem anarquista. Mostra uma geração que se recusou a se render.
 
Porque a liberdade, os direitos e a justiça social nunca foram presentes: sempre foi preciso lutar para conquistá-los.
 
Em memória daqueles que defenderam a revolução contra os autoritarismos.
 
Casa del Pueblo Gijón
 
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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/05/14/espanha-90-anos-da-revolucao-social/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Granizo na grama
Flores brancas que derretem
Nas mãos das crianças.
 
Cristiane Rafaela Bileski – 12 anos

Ação direta contra o ARTJOG 2026 e as práticas de “artwashing” patrocinadas pelo filho do presidente da Indonésia

YOGYAKARTA, Indonésia – O principal festival de arte contemporânea da Indonésia, o ARTJOG 2026, foi inaugurado em 19 de junho no Museu Nacional de Jogja, em meio a uma onda de protestos em todo o país contra o regime ditatorial de Prabowo Subianto. A controvérsia gira em torno do patrocínio do festival pela Fundação Didit Hediprasetyo (DHF), organização fundada por Didit Hediprasetyo — filho único do presidente indonésio Prabowo Subianto.

Artistas, coletivos e movimentos anarquistas em Yogyakarta apontaram que o festival estaria envolvido em “artwashing” — prática que os críticos descrevem como o uso da arte e da cultura para polir a imagem pública de entidades controversas. Alguns foram além, alegando que o patrocínio representa uma cooptação política das artes. A reação negativa levou à desistência de vários parceiros, à remoção do nome da DHF dos materiais oficiais e ao cancelamento, por parte de Didit, de sua participação programada como palestrante de abertura do evento.

O ARTJOG é o maior festival anual de arte contemporânea da Indonésia, realizado em Yogyakarta — cidade amplamente considerada o coração artístico e cultural do país. A edição deste ano, com o tema “Ars Longa Generatio”, vai até 30 de agosto e apresenta 96 artistas sob a direção curatorial de Farah Wardani. A exposição inclui obras de 25 artistas convidados, 19 jovens artistas selecionados por meio de uma chamada aberta e 52 crianças e adolescentes de 6 a 15 anos, por meio do programa ARTJOG Kids. O festival também apresenta exposições colaborativas de galerias regionais e internacionais.

O conceito curatorial da edição deste ano do ARTJOG baseia-se na obra do falecido antropólogo David Graeber (1961–2020), um pensador anarquista cujas críticas ao poder, à dívida e à burocracia remodelaram a teoria social contemporânea. O ARTJOG incorporou o texto “Another Art World” (Outro Mundo da Arte), de Graeber, ao seu conceito curatorial.

Por outro lado, o ARTJOG 2026 foi patrocinado por Didit Hediprasetyo, filho único do presidente Prabowo Subianto. Além disso, Didit Hediprasetyo tornou-se pessoalmente consultor da empresa proprietária do festival: a PT. Artjog Matra Nusantara.

O protesto eclodiu nos dias que antecederam a abertura do festival. Um pôster digital anunciando Didit Hediprasetyo como orador de abertura circulou nas redes sociais, mas desapareceu após intensa reação pública. O pôster foi substituído por outro indicando GKR Bendara, chefe do Departamento de Cultura e Patrimônio do Palácio de Yogyakarta, como a pessoa encarregada de abrir o evento.

Na noite de abertura, as tensões se intensificaram quando nossos colegas artistas jogaram tinta vermelha sobre uma obra de arte encomendada e espalharam flores de uma maneira que lembrava um ritual fúnebre. O pessoal de segurança e uma agência de segurança privada detiveram nossos amigos, com relatos de violência física contra eles. O diretor de programação do ARTJOG, Gading Paksi, pediu desculpas posteriormente pelas detenções e confrontos físicos, afirmando que eles violaram os regulamentos internos do festival.

O diretor do ARTJOG, Heri Pemad, reconheceu que a fundação era uma das várias patrocinadoras e sustentou que sua posição era equivalente à de outros apoiadores. No entanto, os organizadores do festival acabaram removendo o nome da Fundação Didit Hediprasetyo tanto do site oficial quanto dos cenários do evento.

Até o final de junho, o ARTJOG não havia emitido nenhum comunicado à imprensa sobre a violência cometida contra nosso colega artista em relação à ação direta na noite de abertura do ARTJOG, nem divulgado uma declaração oficial sobre o envolvimento de Didit Hediprasetyo — seja como patrocinador ou como consultor da empresa organizadora. A ação direta que realizamos representa nosso protesto contra a apropriação das ideias do antropólogo anarquista David Graeber, bem como contra a industrialização capitalista e extrativista da arte.

Escrito pelo Forum Kuratorial Anarkis (Fórum Curatorial Anarquista), com sede em várias cidades da Indonésia.

Tradução > Reno Moedor

agência de notícias anarquistas-ana

tomando banho só
no riacho escondido –
cantos de bem-te-vis

Rosa Clement

[Alemanha] Bloco Antifa na grande manifestação “Casamento sem armas! Juntos contra a guerra!”

Juntos contra o fascismo e suas guerras — Antifa na ofensiva! Junte-se a nós, participe do bloco Antifa na grande manifestação antimilitarista. Traga guarda-chuvas para chuva ou sol. E vamos nos conectar uns com os outros durante os dias de ação que antecedem o evento!
 
CONVOCAÇÃO PARA PARTICIPAR DO BLOCO ANTIFA na manifestação antimilitarista em 11 de julho de 2026 em Berlin-Wedding
 
Como antifascistas, estamos participando das ações da Aliança de Berlim Contra a Produção de Armas e faremos parte da grande manifestação “Casamento Sem Armas! Juntos Contra a Guerra!” no sábado, 11 de julho (14h na estação de metrô e trem Gesundbrunnen), com nosso próprio bloco antifascista. Convidamos todos a se juntarem a nós!
 
Desde a primavera de 2025, sabemos que a Rheinmetall pretende iniciar a produção de munição de artilharia na fábrica de sua subsidiária Pierburg GmbH, na Scheringstraße 2, uma antiga fornecedora da indústria automobilística, a partir deste verão. Esta será a primeira vez que armas serão produzidas em Wedding desde o fim da guerra, em 1945. Essa transição para a produção bélica faz parte de um maciço acúmulo de armamentos e militarização que temos testemunhado na Alemanha nos últimos anos.
 
Nós nos opomos à reintrodução do serviço militar obrigatório, à produção e venda de armas, a eventos de propaganda militarista como o Dia dos Veteranos ou visitas de oficiais às escolas, e aos “fundos especiais” bilionários para rearme, enquanto, ao mesmo tempo, centros para jovens são fechados, a vigilância interna é ampliada, nossa classe é empurrada para a pobreza e para a angústia existencial, e as conquistas arduamente alcançadas pelo movimento operário são gradualmente abolidas.
 
O rearmamento não traz segurança para a nossa classe. A militarização e o rearmamento sempre andam de mãos dadas com a restrição dos nossos direitos, o autoritarismo e uma corrida armamentista com outros Estados que leva a mais guerras. Isso não nos interessa: os Estados capitalistas estão sempre em competição uns com os outros, seja por matérias-primas, mão de obra barata ou acesso a mercados – e a guerra é sempre uma opção para eles. Quem quer paz para o povo precisa superar o capitalismo!
 
Os protestos contra a “nova capacidade militar”, no entanto, são criminalizados pelo Estado e recebidos com dura repressão. Atualmente, os cinco ativistas de Ulm, que organizaram um protesto contra a fabricante de armas israelense Elbit Systems, que, entre outras coisas, produz drones para o genocídio em Gaza, estão sendo julgados na prisão de segurança máxima de Stuttgart-Stammheim. Lá, eles estão sendo assediados em um julgamento espetacular pelo juiz Lauchstädt, que adere completamente à razão de Estado alemã. E aqui em Wedding, também, o Estado tenta intimidar os antimilitaristas. Recentemente, a polícia retirou ativistas de um carro em frente à fábrica da Rheinmetall no Parque Humboldthain e apontou uma arma carregada para eles, embora não representassem nenhuma ameaça. O conjunto habitacional próximo, na Schererstrasse, onde eventos antimilitaristas acontecem regularmente, também foi alvo de repressão estatal recentemente.
 
Não queremos agir isoladamente, mas sim conectar diferentes lutas. Não podemos deixar a questão da “paz” para a direita; nós, como grupos de esquerda e progressistas, devemos assumir uma posição clara. O verdadeiro antimilitarismo só funciona através do antifascismo, da solidariedade internacional vivida e de uma boa dose de rebeldia. Isso não é apenas uma lição da história: forças de direita como o AfD podem se opor à participação na guerra da Ucrânia hoje, mas na verdade querem apenas uma aliança diferente. Eles não têm nada contra uma Bundeswehr forte e a imposição militar dos “interesses alemães”. Nós, por outro lado, somos fundamentalmente contra o imperialismo e a guerra, seja ela iniciada pelos EUA, pela Rússia ou pela Alemanha. O principal inimigo ainda está em casa, porque é este país que quer nos enviar para a frente de batalha como bucha de canhão, e é lá que devemos organizar a resistência! Seja por meio de manifestações, unindo forças com nossos vizinhos e colegas, interrompendo eventos de propaganda da Bundeswehr, limpando nossos bairros do lixo propagandístico ou por meio de ações diretas, queremos ser uma pedra no sapato do imperialismo. É por isso que participamos dos dias de ação da Aliança de Berlim contra a Produção de Armamentos e da manifestação subsequente.
 
Junte-se a nós, participe do bloco Antifa na manifestação antimilitarista de 11 de julho e vamos nos conectar uns com os outros durante os dias de ação que a antecedem!
 
Juntos contra o fascismo e suas guerras – Antifa na ofensiva!
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
A chuva caindo
Devagar o tempo passa
Penso num haicai.
 
Taisa Lewitzki – 13 anos

30 de junho e o limite da conciliação

Por Coordenação Nacional FOB

A mobilização pelo fim da escala 6×1 e os limites da estratégia institucional das centrais e partidos

No dia 30 de junho, CUT, CTB, UGT, Força Sindical, CSB, NCST, Intersindical, Pública, além de PSOL, VAT, PT, PCdoB, PSTU e a Unidade Popular, convocaram atos em diversas capitais para pressionar o Senado a votar a PEC 221/2019, que extingue a escala 6×1 e reduz a jornada para 40 horas semanais. Os atos aconteceram em Natal, São Paulo, Rio Curitiba e outras cidades, com concentrações no inicio do dia ou fim da tarde, faixas, discursos e caminhadas até supermercados e pontos simbólicos. Não se pode dizer que nada foi feito. Mas é preciso perguntar: o que foi feito é proporcional ao tamanho da tarefa?

A resposta, do ponto de vista do sindicalismo revolucionário, é não. E a distância entre o que essas organizações fizeram e o que a situação exige revela, mais uma vez, os limites estruturais de uma estratégia sindical e política que trocou a força própria da classe trabalhadora pela mendicância parlamentar: esse é o sindicalismo propositivo socialdemocrata.

Uma pauta subordinada ao calendário do Senado

Do início ao fim, a campanha das centrais e dos partidos que a apoiaram foi desenhada em função de um único personagem: o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Toda a arquitetura da mobilização; os atos de rua, a plataforma digital “Na Pressão”, a coleta de assinaturas, a campanha “O Brasil Quer Mais Tempo”; foi construída não para paralisar a produção, a circulação e o consumo e obrigar o patronato a recuar, mas para convencer, sensibilizar ou constranger um único homem a colocar um projeto em pauta. É a lógica da súplica travestida de mobilização: mobiliza-se a base para pressionar as instituições, e não para que a base, pela força de seu próprio trabalho suspenso, imponha a pauta.

Essa é a marca de nascença do sindicalismo pelego e da esquerda parlamentar que ainda hoje comanda a CUT, a CTB e a UGT, e que o PSOL e a UP, apesar de discursos mais à esquerda, seguem sem confrontar na prática. A jornada de trabalho não será reduzida porque senadores tiveram boa vontade. Será reduzida, como foi historicamente em todo o mundo, quando o custo de mantê-la for maior do que o custo de aboli-la para quem lucra com ela. E esse custo só se impõe com paralisação real da produção, não com atos de rua às 18h, quando o expediente já terminou.

Ato não é greve

É sintomático que o próprio vocabulário da convocação evite a palavra “greve”. Fala-se em “Dia Nacional de Mobilização”, “Dia Nacional de Luta”, “ato político-cultural”. O que houve, na prática, foi um conjunto de manifestações pós-expediente, sem qualquer paralisação de categorias estratégicas; comércio, transporte, serviços essenciais; que são justamente os setores mais atingidos pela escala 6×1. Trabalhadores de supermercado, de quem a pauta mais deveria vir, apareceram nos atos como manifestantes solidários fora do horário de trabalho, não como grevistas que interromperam a operação das lojas.

Essa distinção não é semântica. É a diferença entre uma classe que pede e uma classe que impõe. Diferença da estratégia institucional parlamentar e do sindicalismo de ação direta.

O papel de PSOL e Unidade Popular

Chama atenção, mas sem surpresas, que partidos que se reivindicam socialistas, como o PSOL, e explicitamente anticapitalistas, como a UP, tenham somado suas siglas a uma convocação sem qualquer ruptura com a lógica de pressão institucional. Nenhum dos dois usou sua inserção nos movimentos sociais e sindicais para colocar na ordem do dia a construção de uma greve geral com data e método definidos. Preferiram somar-se ao mesmo roteiro das centrais pelegas: assinatura de manifesto, ato de rua, cobrança a parlamentares. Isso confirma, mais uma vez, que a esquerda eleitoral, mesmo em sua vertente mais à esquerda, tende a subordinar a ação direta da classe trabalhadora à sua própria inserção institucional, seja no Congresso, seja nas direções sindicais que disputa.

O que a estratégia institucional não pode entregar

A PEC 221 segue travada porque depende do voto de 49 de 81 senadores, em dois turnos, contra a vontade de um patronato organizado que já demonstrou disposição para flexibilizar ainda mais, e não reduzir, a jornada de trabalho. Não existe correlação de forças parlamentar capaz de vencer essa disputa sem que, paralelamente, exista uma ameaça concreta e crescente de paralisação da economia. As direções sindicais que hoje comandam CUT, CTB e UGT sabem disso. Mas construir greve real significa organizar de base, categoria por categoria, disputar a pauta contra o imobilismo de muitos sindicatos filiados, e assumir o risco de confronto direto com patrões e Estado, algo que essas direções, décadas depois de terem trocado a perspectiva de transformação social pela administração de contratos, lobby e participação em várias instâncias estatais, como os mais diversos conselhos, bem como suas bases em universidades, institutos e órgãos públicos preferem a ocupação de cargos e projetos, já não têm mais disposição nem estrutura para fazer.

A alternativa é a organização de base: é preciso avançar na unidade dos setores autônomos e sindicalistas revolucionários.

Do ponto de vista do sindicalismo revolucionário, o problema de 30 de junho não foi a ausência de vontade individual de quem foi às ruas, foi a ausência de um método. Reduzir a jornada de trabalho é uma pauta histórica da classe trabalhadora, e sua conquista, onde ocorreu, nunca veio de cima. Veio de anos de organização de base, comissões de fábrica e de loja, construção de solidariedade horizontal e, no momento decisivo, greves que de fato paralisaram a produção.

Enquanto a esquerda institucional, sindical e partidária  insistir em tratar a mobilização como instrumento de pressão sobre o parlamento, e não como construção de poder próprio da classe trabalhadora, seguiremos vendo atos simbólicos se repetirem a cada convocação, sem que a correlação de forças real se altere. A tarefa que fica para quem constrói o sindicalismo de base é clara: organizar nos locais de trabalho, disputar as categorias mais precarizadas pela 6×1; comércio, serviços, delivery;  e preparar sem ilusões parlamentares, a única ferramenta que historicamente já derrubou jornadas abusivas: as greves setoriais acumulando para a greve geral.

A FOB e suas organizações federadas e comitês sindicalista revolucionários procurou organizações ações neste dia 30 de junho para mobilizar e impulsionar a luta contra a escala 6 x 1, esmo sabendo das limitações de seu tamanho. Sabemos e temos plena consciência dos limites das  nossa ações e que é preciso construir e massificar o sindicalismo revolucionário e a estratégia da ação direta.

Nesse sentido, fazemos um chamado a todos os trabalhadores e trabalhadoras do campo autônomo popular, revolucionário e sindicalista revolucionária para construção unitária de um encontro nacional com objetivo de organização de ações conjunta para construção de luta e das greves.

Fonte: https://lutafob.org/30-de-junho-e-o-limite-da-conciliacao/

agência de notícias anarquistas-ana

pinga torneira
tic tac do relógio
luz com poeira

Carlos Seabra

[Reino Unido] Mikhail Bakunin: Uma vida intensa e transbordante

Marcando os 150 anos da morte do grande revolucionário, cuja visão do anarquismo permanece mais relevante do que nunca

Por Nikolay Gerasimov

O nascimento político e cultural do anarquismo russo ocorreu na virada do século XX, quando Kropotkin e seus colaboradores começaram a publicar, no exílio, obras teóricas em russo. Foi então, décadas após sua morte (há exatos 150 anos), que o legado de Mikhail Bakunin passou a ser reinterpretado de forma intensa. De repente, descobriu-se que suas obras continham elementos de irracionalismo filosófico, misticismo e um forte pathos teomáquico (de enfrentamento ao divino). Como resultado, surgiu no anarquismo russo uma enorme diversidade de correntes, algo sem paralelo na Europa ou nos Estados Unidos: anarquismo místico, anarco-biocosmismo e anarquismo cristão, que combinava o radicalismo de Bakunin com a crítica de Tolstói ao Estado e à civilização.

Bakunin transformou-se ao longo de toda a sua vida. Houve o Bakunin romântico, fascinado pela filosofia clássica alemã. Houve o Bakunin defensor do método das ciências naturais. Houve o Bakunin socialista. E, finalmente, houve o Bakunin revolucionário anarquista. Todas essas características coexistiam na mesma pessoa, mas manifestavam-se em diferentes etapas de sua biografia. Para acompanhar essas transformações em detalhes, é necessário estudar profundamente sua correspondência. Mas uma coisa permaneceu inalterada: para ele, não existiam fronteiras entre seu mundo interior e o universo exterior, e ele sabia transformar todas as suas experiências em ação.

A ideia central de Bakunin é que o poder não está localizado em um único lugar, mas dissolvido em todas as instituições: sociais, econômicas e espirituais. O Estado, o capital e os produtores das normas culturais formam um único sistema de opressão. Hoje vemos que corporações transnacionais e Estados podem entrar em conflito, mas, em última instância, são sempre aliados. Por isso, colocá-los em oposição, por exemplo, considerando as corporações “progressistas” e o Estado “reacionário”, é um erro fundamental. A visão abrangente e integradora de Bakunin é hoje mais atual do que nunca.

A crítica de Bakunin à representação também atinge a moderna fé cega na tecnologia e na inteligência artificial. Para Bakunin, delegar a liberdade humana a qualquer agente abstrato, sejam cientistas, políticos, clérigos ou algoritmos de IA, é algo monstruoso. Isso porque todo o sistema digital de controle está nas mãos de um grupo social restrito que defende seus interesses financeiros e políticos. A liberdade só é possível por meio da auto-organização direta da sociedade. Da mesma forma, muitos políticos e figuras da mídia de hoje falam em nome dos oprimidos, enquanto defendem exclusivamente seus próprios interesses.

Quanto ao homem Bakunin: usando uma expressão atual, ele tinha limites pessoais muito frágeis. Intrometia-se abruptamente nas relações pessoais dos outros, mesmo quando ninguém lhe pedia isso. Um exemplo marcante são suas irmãs. Bakunin lhes dava conselhos constantemente, indignava-se com suas escolhas e, às vezes, influenciava de maneira significativa suas decisões sobre casamento e vida pessoal. Com seus amigos, comportava-se de forma semelhante.

Bakunin interessava-se absolutamente por tudo, ao mesmo tempo. De um lado, refletia incessantemente sobre seus próprios sentimentos, pensamentos e sofrimentos; de outro, era profundamente afetado pelos acontecimentos políticos e avaliava constantemente a sabedoria daqueles que faziam parte de seu círculo mais próximo.

Quanto ao seu sofrimento pessoal, ele talvez se assemelhasse ao de Emma Goldman, que também defendia o amor livre. Para Bakunin, isso não era um drama pequeno ou cotidiano. Seu sofrimento funcionava como uma fonte inesgotável de criação e era facilmente convertido em energia revolucionária construtiva.

Nacionalistas contemporâneos às vezes tentam apresentar Bakunin como alguém que compartilhava de suas ideias, alguém que teria combatido o universalismo em favor da liberdade dos povos eslavos. Mas isso é fundamentalmente incorreto. Bakunin acreditava que o mundo deveria desenvolver-se segundo o princípio de estruturas federativas ou, idealmente, confederativas. Sim, numa primeira etapa, grupos linguísticos e grupos étnicos precisariam libertar-se das amarras imperiais. Mas ele jamais defendeu a criação de Estados-nação separados com base na etnia. Pelo contrário, buscava unir povos diversos de modo que se evitasse tanto o surgimento de novos impérios quanto a formação de Estados-nação fechados.

Bakunin também não era um ateu banal. Oponha-se radicalmente ao ateísmo formal e superficial, em que alguém simplesmente declara que Deus não existe e encerra a discussão. Um de seus manuscritos, dedicado ao “fantasma divino”, trata justamente disso: para considerar seriamente a ausência de Deus, é preciso mergulhar profundamente na literatura religiosa e refletir sobre ela.

Na filosofia de Bakunin, o político e o religioso estão intimamente entrelaçados. Era fundamental para ele revelar a função governamental do sagrado dentro do sistema político e emancipar esse sagrado, libertando-o das amarras do poder. Bakunin detestava profundamente esquemas rígidos, fórmulas e estruturas fechadas. Compreendia que o sagrado, quando aprisionado no sistema estatal, inevitavelmente degenera em instrumento de violência.

Por isso, do ponto de vista de Bakunin, a simples destruição das instituições estatais não trará liberdade se não houver, simultaneamente, uma libertação e uma reelaboração do próprio sagrado. É por essa razão que alguns anarquistas cristãos contemporâneos se referem a Bakunin como um ateu que, na verdade, tentou “libertar Deus” do poder das estruturas formais.

Paradoxalmente, ao permanecer radical, Bakunin abriu caminho para a futura teologia da libertação (na qual Cristo é concebido como um libertador revolucionário) e para o anarquismo cristão. Bakunin argumentava que o sagrado, quando aprisionado nas paredes da Igreja histórica (especificamente da Igreja enquanto instituição, e não do Corpo místico de Cristo), inevitavelmente perece, transformando-se numa fórmula seca e sem vida. O próprio Bakunin, porém, foi o arauto de uma vida intensa e transbordante.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2026/07/01/mikhail-bakunin-a-vital-overflowing-life/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

gota de chuva
escorre na parreira
pára na uva

Carlos Seabra

[Itália] Carrara: F(A)I Festa. Ao assalto do futuro!

F(A)I Festa

Ao assalto do futuro!

Carrara

10–11–12 de Julho de 2026

Sexta-feira, 10 – Piazza Duomo

18h – “25 anos do G8 de Gênova: um relato daquela experiência na perspectiva das lutas de hoje” – participarão companheir*s do coletivo “Anarquistas contra o G8”.

Em seguida, jantar e show na Piazza delle Erbe com “I Premi Oskar”.

Sábado, 11 – Piazza Duomo

11h – Caminhada urbana para descobrir os lugares do anarquismo na cidade.

18h – “Anarquia e Transfeminismo: vozes em confronto para um encontro inadiável”.

Em seguida, jantar e show na Piazza delle Erbe com “Suonificio popolare apuano”.

Domingo, 12

10h30 – Encontro em Gabellaccia.

Excursão até a lápide onde foi fundada a brigada partisan anarquista “Elio”, em Campocecina.

Almoço por conta própria (autogestionado).

18h – Gragnana, no Circolo Malatesta: “A necessidade do antimilitarismo: experiências de luta contra a guerra e contra quem a financia”.

Em seguida, jantar e show de Alessio Lega e Guido Baldoni.

Possibilidade de acampamento gratuito e autogestionado.

Federação Anarquista Italiana – FAI

Para informações logísticas: arrembaggio@federazioneanarchica.org

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

De que árvore florida
chega? Não sei.
Mas é seu perfume…

Matsuo Bashô

[Alemanha] Medidas enérgicas de desarmamento na Telekom!

 
O setor de armamentos é uma nova área de negócios que a Telekom quer desenvolver, e ela vê um alto potencial de crescimento neste setor.
 
O que o CEO da Deutsche Telekom, Tim Höttges, descreve aqui como potencial de crescimento significa nada mais do que: a guerra é um negócio lucrativo e a empresa quer uma fatia desse bolo.
 
A empresa semipública, com seus serviços de TI para agências de defesa e segurança, é há muito tempo sinônimo da integração de tecnologias civis e militares. No entanto, sua atual incursão no mercado de armamentos representa uma nova dimensão significativa, colocando a Deutsche Telekom em boa companhia. A Alemanha busca se tornar mais preparada militarmente, e sua indústria, que enfrenta dificuldades, está sendo redirecionada para a defesa. Por exemplo, tanques devem sair das linhas de montagem da fábrica da VW em Osnabrück e da fabricante de trens Alstom em Görlitz, enquanto a Rheinmetall planeja iniciar a produção de munição de artilharia em julho, na antiga fábrica da Pierburg em Wedding. A Deutsche Telekom, por sua vez, planeja desenvolver um escudo antidrones em parceria com a Rheinmetall. Além disso, por meio de seu fundo tecnológico de € 2 bilhões, a empresa está investindo na startup de tecnologia de defesa Quantum Systems, que constrói drones autônomos de combate e vigilância.
 
Tudo isso merece uma resposta: foi por isso que, ontem à noite, retiramos de circulação seis veículos da Deutsche Telekom em Alt-Hohenschönhausen, Berlim. Eles não contavam conosco. Recusamo-nos a entregar nossos bairros para a produção de armas, nem morrer na linha de frente como bucha de canhão dos governantes.
 
Saudações de solidariedade ao Ulm5 e a todos os outros antimilitaristas que foram recentemente assediados pela polícia!
 
Contra todas as guerras – Contra todos os genocídios!
 
Foda-se o serviço militar obrigatório – Foda-se a Bundeswehr!
 
Combatamos a militarização e a distopia da vigilância por IA!
 
E como sempre: Defendam Rigaer94!
 
Vocês têm o poder, a noite nos pertence!
 
 
Adendo à declaração:
 
O Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento (T-Labs) e o Departamento de Investimentos Estratégicos (T-Capital) da Deutsche Telekom têm trabalhado em estreita colaboração com os respectivos departamentos de tecnologia militar israelenses desde o início dos anos 2000.
 
Timotheus Höttges (CEO da Deutsche Telekom): “O que podemos aprender com a cultura de inovação de Israel”:
https://de.linkedin.com/pulse/wir-von-israels-innovationskultur-lernen-können-tim-höttges-gtege
 
Fonte: https://anarchists4palestine.noblogs.org/post/2026/06/24/feurige-abrustungsmasnahme-bei-der-telekom/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Laranjas nos galhos
balançando sem parar
ao sopro do vento.
 
Luiz Felipe dos Santos – 13 anos

Atendimentos jurídicos da FACA – 09/07/2026

A Federação Anarquista Capixaba divulga sua agenda de atendimentos jurídicos e sindicais da segunda semana de julho de 2026.

Todos os atendimentos serão realizados mediante agendamento no e-mail fedca@riseup.net.

09/07/2026: São José do Calçado /ES.

Reforçamos: os atendimentos se darão mediante prévio agendamento no e-mail fedca@riseup.net.

Pela transformação social!

Pelo socialismo libertário!

Federação Anarquista Capixaba – FACA

Federada à União Anarquista Federalista – UAF

federacaocapixaba.noblogs.org/

agência de notícias anarquistas-ana

Após a garoa
Alegre joão-de-barro
Reforma seu lar.

Julieti Machado de Andrade – 13 anos

A Liberdade Não Se Concede! | Anarquismo anticolonial em Mário Domingues.

Mário José Domingues (1899-1977) foi um escritor, jornalista e anarquista anticolonialista nascido na antiga colônia africana, São Tomé e Príncipe. Sua mãe era uma negra angolana chamada Korigola Munga, natural de Malanje. O seu pai era um branco português de nome Antônio Alexandre José Domingues.

Aos 20 anos de idade, Mário Domingues já era um dos únicos militantes anarquistas assumidamente anticolonialista em Portugal. Como periodista, o anarquista publicou diversos artigos anticolonialistas em jornais operários de Portugal como: A Batalha, A Voz Anarquista, Renovação e A Comuna. O libertário usava a teoria anarquista contra o colonialismo português, contra o racismo e contra a exploração do continente africano. Tal postura teve consequências: a censura e o fascismo do salazarismo instaurado em 1926, após um golpe militar. 

Através dos seus artigos, Domingues criou um conceito para definir a colonização portuguesa na África: Colonização-Crime. De acordo com este conceito, o racismo, a colonização e o capitalismo eram fatores que estavam interligados.  A colonização seria um regime de poder e violência sobre o território e sobre os corpos negros africanos. O racismo legitimava os trabalhos forçados, a escravatura, os assassinatos políticos e a violência sexual contra mulheres negras.

A colonização era um crime permanente e o capitalismo gerava a exploração econômica, social e ambiental dos territórios dominados por Portugal e pelas outras nações europeias. O libertário africano escrevia sobre a dor e a luta dos povos africanos subjugados:

Mãos de revoltado! Imensas, grandes, rodinescas, que se alentavam em mil gestos convulsivos, clamando milhões de tragédias inéditas, ocultas, longamente sofridas nos casebres desolados, nas choupanas salientes! Mãos que se erguem em frêmitos, em contornos de revolta e vingança, sedentas de pão e justiça! Não há mãos mais belas e mais pungentes do que as dos ignorados, do que as mãos da miséria! Na energia do arremesso, na rudeza do ataque, na louca fúria do heroísmo, elas cantam, choram, riem, contam uma interminável história de escravidão e de fome. A BATALHA. P.2. N.228. Data: 14/10/1919.

Domingues defendia a formação de uma confederação de povos africanos, não de nações. Uma confederação que respeitasse as línguas, culturas e histórias de cada povo. Esta era uma das particularidades do anarquismo anticolonialista de Mário Domingues:

a utopia anarquista da grande revolução mundial gerando uma sociedade sem estados nem fronteiras. A esperança histórica da emancipação da raça transformar-se-ia na luta pela independência que pairava “acima dos interesses mesquinhos das pátrias opressoras” e que colocaria um fim à tirania dos colonizadores, concretizando-se, não na formação de novos países, mas no quadro duma “Confederação Africana”, uma confederação guiada pelos princípios do antinacionalismo, do anticapitalismo e do antimilitarismo. (GARCIA, 2022.p.342)

Mário Domingues foi pioneiro ao denunciar a prática do Black Face como um ato de incitação de ódio racial. A pratica visava ridicularizar as pessoas negras, seus gestos e suas falas. O libertário chamou o ato de “brincadeira nojenta e cruel”.

ridicularizar, escravizar um negro é revoltante; ridicularizar, escravizar um branco pintado de negro, para criar entre as duas raças que deviam caminhar unidas, um ódio íntimo, um ódio surdo, que adquire expressões de divertimento sinistro quando alguns inconscientes agridem raivosamente o suposto preto, com uma bolada, é mais que revoltante, é abjecto, é cruel! A Batalha, 29/06/1922.

Com o que foi brevemente exposto, é possível afirmar Mário Domingues foi um precursor das lutas revolucionárias anticolonialistas na África. Bem antes da geração revolucionária, também antifascista, de Agostinho Neto e Amílcar Cabral, nos 50, 60 e 70, Mário Domingues, de dentro da capital de uma nação colonialista, cravou a seguinte frase: “A liberdade não se concede, conquista-se! Que a conquistem os negros!”

Autor:

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador e pesquisador. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil.

Fontes:

A BATALHA. P.2. N.228. Data: 14/10/1919.

_____________ 29/06/1922.

_____________ O ideal da independência. Lisboa. 05 /07/1922.

_____________ Confederação Africana. Lisboa. 13/07/1922. 

GARCIA, José Luís. Mário Domingues – A Afirmação Negra e a Questão Colonial. Textos 1919-1928. Lisboa: Tinta da China, 2022.

_________________ Linha de cor e “colonização-crime” em Mário Domingues: A série “Para a história da colonização portuguesa” (junho-julho 1922). P.334

agência de notícias anarquistas-ana

nenhuma flor resta
os troncos abatidos
nenhuma floresta

Núbia Parente

[EUA] Coletânea Beneficente em Apoio aos Réus do Caso Prairieland

O caso Prairieland é um processo federal no qual 19 pessoas foram acusadas de terrorismo após uma manifestação sonora em frente a um centro de detenção do ICE em Prairieland, Texas, em julho de 2025. A maioria já foi condenada e atualmente aguarda a sentença, após ter sido considerada culpada de múltiplas acusações federais.
 
Perto do fim da manifestação, um policial de Alvarado foi atingido de raspão no pescoço por um disparo. A acusação sustenta que isso fazia parte de uma emboscada coordenada por uma “célula antifa”. Segundo os organizadores desta coletânea, na realidade trata-se de uma acusação em massa contra pessoas que mantinham apenas vínculos superficiais entre si.
 
Caso o veredito deste processo não seja revertido, os organizadores afirmam que ele poderá estabelecer o precedente de que participar de um bloco negro (black bloc) constitui terrorismo e pode resultar em décadas de prisão. Eles declaram apoiar os réus que optaram por não cooperar com a acusação, não por considerá-los vítimas de um erro judiciário, mas porque apoiam todas as pessoas que resistem às formas de dominação.
 
Segundo o texto, os punks historicamente desempenharam um papel importante na difusão e no fortalecimento do anarquismo ao redor do mundo. Esta fita busca dar continuidade a esse legado. Os organizadores também afirmam que as prisões do ICE e a polícia devem ser abolidas e defendem a libertação de pessoas, plantas e animais das estruturas da civilização colonial. Encerram com as palavras: “Contra o Estado. Contra o capitalismo. Solidariedade aos presos anarquistas, agora e para sempre.”
 
O dinheiro arrecadado com esta coletânea será destinado ao pagamento das despesas jurídicas dos réus do caso Prairieland.
 
Para mais informações:
 
Artigo da CrimethInc.: “The Road to Prairie Land”
prairielanddefendants.com
Anarchist Black Cross: www.abcf.net
 
fireantmovement.org
 
Lançado em 27 de maio de 2026.
 
Agradecimentos a todas as bandas que contribuíram para esta coletânea.
 
Fonte: https://inheritedwasteland.bandcamp.com/album/prairieland-defendants-benefit-compilation
 
Tradução > Contrafatual
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
Imponente ipê
Briga com o velho prédio
Por um canto ao sol.
 
José Fernando Ribeiro Félix, 13 anos

[México] Peço desculpa aos animais.

Peço desculpa aos animais.
 
Aos cães e aos porcos, por compará-los e associá-los a policiais.
 
Peço desculpa também às ovelhas, por usá-las para falar de obediência e submissão humana.
 
Peço desculpa às raposas e às cobras, por transformar seus nomes em insultos.
 
E peço desculpa também aos gatos, por tantas vezes usá-los para falar de pessoas servis.
 
Peço desculpa porque muitas vezes os vi com fome na rua e, devido a diversas circunstâncias, não pude lhes dar comida.
 
Peço desculpa também porque, por necessidade ou por outros motivos, consumi sua carne sem realmente parar para pensar em vocês, em suas vidas.
 
Peço desculpa porque nós, humanos, os tratamos como objetos.
 
Tiramos seu espaço e sua liberdade.
 
E, no entanto, apesar do abandono, da violência e da indiferença que recebem de nós, vocês permanecem seres nobres e amorosos, capazes de dar afeto mesmo depois de todo o mal que lhes causamos.
 
Prometo tentar mudar isso. Prometo dar-te o lugar que mereces nesta vida, respeitar o teu espaço e lembrar-me de que este mundo também te pertence.
 
Flores de Goldman.
 
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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/04/13/colombia-nunca-policiais-todos-os-porquinhos-sao-bonitos/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Da minha janela
Vejo pequenas borboletas
Voando sem pressa!
 
Ane Caroline Marcelino da Silva – 8 anos

[Espanha] Barcelona: Refeitório Solidário Gregal sofre ataque fascista

30/06/2026

Na noite de sexta-feira para sábado, indivíduos incendiaram uma van do Refeitório Solidário Gregal (Menjador Solidari Gregal), que estava estacionada em frente ao local. Segundo fontes ligadas ao espaço, o veículo ficou completamente destruído pelo fogo e não pode ser recuperado. Ter que arcar com os custos da compra de uma nova van pode colocar em risco esse projeto solidário do bairro de Besòs i Maresme, em Barcelona. Para evitar isso, em breve será iniciada uma campanha de arrecadação de fundos para adquirir um novo veículo. Portanto, fiquem atentas e atentos.

Este não é o único ataque de caráter fascista que o espaço sofreu nos últimos tempos. Primeiro surgiram pichações nas paredes do local, com mensagens contra o projeto e contra a imigração. Depois, a situação se agravou, com pneus furados, danos ao portão e outros ataques à fachada, conforme denuncia a entidade. Tudo isso ocorreu em paralelo a uma campanha nas redes sociais contra o projeto, na qual ele é alvo de difamações constantes e de perseguição. Assim, o incêndio da van faz parte dessa escalada de ataques.

O Refeitório Solidário Gregal é uma cooperativa sem fins lucrativos. Sua atividade consiste na distribuição solidária de alimentos, chegando a fornecer cerca de 300 refeições por dia. Os serviços sociais de Barcelona encaminham regularmente ao Gregal pessoas em situação de rua ou sem recursos financeiros que não conseguem ser atendidas pelos equipamentos municipais.

O Gregal é um projeto criado por moradores do bairro de Besòs, que assumiram a gestão de um refeitório social. Esse refeitório funcionava no Ateneu Libertari del Besòs, que tinha sua sede no mesmo edifício. Quando aquele projeto foi encerrado, algumas pessoas decidiram manter o refeitório, que acabou se tornando a principal atividade do espaço. Assim, a ligação entre os dois projetos é evidente, como relata o artigo citado abaixo [1].

Deixamos também o contato do Refeitório Gregal [2], para que, quando a campanha de apoio for anunciada, vocês possam acompanhá-la e, se desejarem, contribuir.

[1] https://www.totbarcelona.cat/societat/ateneu-llibertari-besos-impulsa-menjador-solidari-gregal-497035/

[2] https://www.instagram.com/menjadorsolidarigregal/?hl=es

Fonte: https://alasbarricadas.org/noticias/node/59175

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

No banco da praça
aposentados cochilam —
Árvore sem folha

Jaíra Presa