Punk e Repressão: O movimento Punk no Brasil e sua repressão pelo Estado

Por Rafael César Rodrigues

Resumo: Esse artigo visa mostrar através de pesquisa literária, bibliográfica, músicas e cinema como foi a chegada do movimento punk no Brasil, com suas diferenças principais entre o movimento de uma classe mais operária no ABC paulista e paulistano em oposição ao movimento mais elitizado de Brasília. Também buscará exibir a diferença da forma de repressão que o Estado fazia entre elas. Irá expor o surgimento de algumas bandas do eixo paulista do movimento punk, juntamente com a do eixo brasiliense, mostrando a disparidade social entre elas e a forma de repressão que elas recebiam, bem como a análise de letras de músicas de compositores e intérpretes das músicas referentes ao movimento, e entrevistas dadas pelos mesmos.

1. Introdução:

Analisando o período em que o movimento punk chegou ao Brasil, podemos perceber que ele ocorre no final do período da Ditadura Civil-Militar brasileira, que teve início com o Golpe de 1964, que derrubou o governo constituinte instalado no poder por meios das eleições de 1960, representando um processo histórico complexo, havendo grande número de trabalhos e análises sobre as razões que levaram os civis e militares a desejarem e fazer a derrubada do Presidente João Goulart.

Esse golpe tem como fatores o contexto internacional da Guerra Fria e a necessidade de desenvolvimento do capitalismo brasileiro; a divisão da sociedade em torno do projeto de Reformas de Base proposto pelo Presidente João Goulart e um surgimento da esquerda na política; além de episódios como a Revolta dos Cabos e Marinheiros no Rio de Janeiro, o Comício da Central do Brasil e o discurso presidencial no Automóvel Clube, vistos como um processo de desestruturação da autoridade militar e desafio à hierarquia existente nas Forças Armadas.

O movimento punk como conhecemos se diferencia bastante, principalmente quando nos falamos entre São Paulo e Brasília. O movimento punk em Brasília é um movimento composto mais de jovens de classe média alta, como filhos de diplomatas e professores, pessoas situadas em uma cultura mais elitizada, que tinham como base os vinis que os pais traziam do exterior para eles e que não tinham muita noção do que acontecia com a população mais pobre.

Esse movimento se originou principalmente em três cidades: São Paulo, Brasília e Porto Alegre. Nesse trabalho analisaremos principalmente São Paulo e Brasília, salientando que Porto Alegre tem sua importância, mas que o eixo escolhido consegue nos mostrar um grande contraste e exibir o que desejamos para esse trabalho.

2. Desenvolvimento:

O movimento punk brasiliense tem sua formação inicial por filhos de diplomatas e filhos de professores da UNB em sua maioria, caracterizado por um poder aquisitivo alto e com informações adquiridas pelas mídias ou pela própria educação, mas que era muito mais elitizada do que em outros grupos.

Uma das bandas que deu início ao movimento punk em Brasília, por exemplo, foi o Aborto Elétrico, em 1978, com Renato Russo, filho de bancário; André Pretorius, filho do embaixador sul-africano e, que depois de um tempo, morreu de overdose; Fê e Flávio Lemos, filhos de professores.

A banda fazia parte de um grupo chamado “Turma da Colina”, juntamente com Plebe Rude e Os Paralamas do Sucesso. Em 1970, Brasília era um dos berços do rock nacional. O grupo teve seu fim em 1982, por causa da música “Química”. O integrante Fê havia dito que a música era muito ruim e que havia perdido o jeito de fazer música, gerando uma grande discussão e dando fim ao grupo.

Se pararmos para analisar uma música do grupo, como “Veraneio Vascaína”, composta por Renato Russo e Flávio Lemos e gravada somente em 1986 pela banda Capital Inicial, a música critica claramente a polícia. Por conta disso, o disco da banda era proibido para menos de 18 anos e tinha vetada a divulgação pública. O nome da música faz referência ao carro Chevrolet Veraneio, o mais usado pela polícia da época, e Vascaína, já que a pintura dos veículos da polícia tinha as cores preto, branco, cinza e vermelho, as mesmas cores do escudo do Vasco da Gama, com o número de série na lateral.

Enquanto em Brasília o local onde se encontrava a origem do movimento punk era o Colinas, em São Paulo o espaço era a Vila Carolina, um bairro periférico onde a maioria dos moradores eram operários; onde o Estado os fazia gastar seus baixos salários com impostos e contas; onde o Estado classificava a música como da pior espécie; com uma poluição grande nas suas redondezas, especulações imobiliárias e degradação humana. Eles viram com o movimento punk a resposta para devolver para a sociedade tudo o que eles sentiam, na forma de movimento social e nas letras de músicas. Com isso começou a surgir as principais bandas e movimentos punks paulistanos. Em 1978 foi quando se deu início de fato a difusão desse movimento pela cidade, com as bandas Restos de Nada, AI-5, Condutores de Cadáver e Cólera.

O movimento punk paulistano veio para jogar o lixo que era descartado dos bairros mais ricos para os bairros periféricos na cara e nas calçadas das pessoas que tinham tudo que eles não possuíam, já que a revolta deles só aumentava a cada momento.

O ponto de encontro desses jovens era a praça em frente à Escola Estadual Tarcísio Álvares Lobo, onde a grande maioria dos integrantes do movimento punk estudava. Esse era o local onde se via a transição do rock para o punk, com bebedeiras, namoros, som e fumo atraindo aí alguns músicos e personagens estranhos, iniciando a Carolina Punk, maior e mais temida gangue de São Paulo. [ARIEL, 2011]

São Paulo e toda a região ao seu entorno estava vivendo nesta época uma era do disco, com danceterias por todos os lados, com poucos lugares que tocavam rock clássico e com frequentadores assíduos. Tais espaços, já raros, começaram a ser invadidos pelos grupos de punks, com seu visual e atitudes agressivas, roupas de estilo militar, alfinetes e jeans, que eram sua marca registrada, enquanto uma sociedade exigia calças sociais e roupas leves.

Os encontros que ocorriam eram sempre invadidos por policiais, com prisões por abuso de autoridade, letras fora do padrão da censura, transformando os punks em pessoas não gratas do sistema, elevando o ódio ao Estado ainda mais, com uma necessidade de continuar com o movimento e os grupos, criando força na contestação da repressão que eles sofriam. Greve dos bancários, dos professores, a luta pela liberdade, por uma reconstrução de uma União Nacional dos Estudantes foram fatores que só deram mais força e entusiasmo ao movimento. [ARIEL, 2011].

No circuito paulista se destaca as duas principais bandas, tidas como originárias do movimento: a AI-5 e Restos de Nada. A AI-5 tinha Sid como baixista, Fausto como guitarrista e Luiz como baterista, com um som bem estético e debochado. Sid trabalhava na Wop Bop Disco, principal ponto de encontro e venda de discos de vinil importados de São Paulo, que futuramente se tornaria a Galeria do Rock, e onde eram feitas as divulgações de shows que duraram de 1978 a 1979.

Já a Restos de Nada foi formada em 1978, com integrantes da Vila Carolina e em sua maioria estudantes da Escola Tarcísio Álvares Lobo. A banda durou até 1980 e era composta por Douglas Viscaino como guitarrista, Clemente no baixo, Ariel no vocal e Charles como baterista, único que não era da mesma escola. Essas duas bandas juntas participaram do primeiro show punk de São Paulo, realizado no porão de uma padaria abandonada no Jardim Colorado e promovido pelo radialista Kid Vinil.

Depois dessas duas, os próprios ex-integrantes começaram a formar outras bandas, como a Condutores de Cadáver, que teve Douglas e Clemente da antiga Restos de Nada e que tinha como intuito principal chocar ainda mais com as performances do que com a musicalidade.

Não podemos deixar de citar em qualquer tipo de publicação que faça referência ao movimento punk no Brasil o grupo Anjos do ABC, de São Bernardo do Campo, que surgiu numa região com o maior complexo industrial do Brasil, cercada de operários. O contexto inclui o final da década de 1970, quando estavam ocorrendo inúmeras greves, confrontos e reivindicações sindicais e operárias contra o governo militar, com uma população sufocada por uma crise econômica e a opressão do Estado, fazendo com que a classe trabalhadora refletisse nos jovens da região. [TEIXEIRA, 2007]

Esse grupo teve como principais fundadores os jovens do Jardim Silvana, em São Bernardo do Campo, que frequentavam o Clube SBEROC (Sociedade Beneficente Esportiva Recreativa Oswaldo Cruz) e se destacaram: Nenê, Pepeu, Jesus, Orai, Kico e Carleone, que se juntavam para ouvir rock.

Os anjos do ABC, a partir de 1978, começaram a tomar uma consciência mais política do que estava acontecendo a seu redor e se expressar com o movimento punk, com fortes traços mais operários e sindicais por conta de sua origem.

Em pleno período militar, jovens agregavam um novo som em protestos sobre a sua realidade, cercada de grande desigualdade e silenciada pelos órgãos reguladores, como fala Josué de Castro, em sua obra que foi proibida. Esses jovens possuíam pouco acesso a revistas e informações. A chegada de Ramones e Sex Pistols na imprensa brasileira, com suas roupas rasgadas e alfinetes, foram logo copiadas como forma de agressão à sociedade e ao sistema.

“Entre 1977 e 1980, os punks eram basicamente gangues de rua, que possuíam em comum a forma de vestir, o gosto pela música e o ódio um pelo outro. No início dos anos 80, as gangues de São Paulo começam a unir-se, mas ainda existia a rivalidade com os punks do ABC. Em 1982, Clemente, vocalista da banda Inocentes, Redson, vocalista da banda Cólera e mais alguns punks de São Paulo decidem organizar um festival para unir os punks de São Paulo e do ABC. Um pouco desconfiados, os punks do ABC topam vir para São Paulo participar do festival, e assim, é organizado o “Começo do Fim do Mundo”, festival histórico realizado no Sesc Pompéia. O festival acaba em pancadaria e polícia versus punks, e fica registrado como um dos maiores festivais punk do Brasil. Em 2001 e 2002, a então pre feita de São Paulo Marta Suplicy organiza na Lapa outros dois festivais em comemoração aos 20 anos do “Começo…”: “A Um Passo Para o Fim do Mundo” e “O Fim do Mundo”, com muitas bandas que participaram em 1982.”

Em meados dos anos 80, o movimento punk começou a assumir traços de um movimento com forte tendência à esquerda, com alguns punks colaborando com os anarquistas, direcionando a militância política com discussões e ações mais ativas, se opondo à mídia tradicional, ao Estado e às instituições religiosas. Em 1988, alguns punks se juntam com grupos anarquistas e criam os anarcopunks, com valores contrários ao machismo e à homofobia, e favoráveis a uma liberdade individual, um autodidatismo, onde o indivíduo se desenvolveria e aprenderia por si só, sem a necessidade de uma instituição pra mostrar o que ele deve aprender.

Buscando uma revolução e querendo quebrar a hegemonia de ideais burgueses, a divulgação das suas ideias era feita por meio de músicas e mídias alternativas, como os fanzines (panfleto com recortes). Os primeiros fanzines brasileiros são do movimento punk, que evitavam a grande mídia para difundir suas ideias:

” “O punk é um movimento sócio-cultural, ele é a revolta dos jovens da classe menos privilegiada, transportada por meio da música” disse Clemente, vocalista da banda Inocentes em carta resposta sem data à matéria intitulada “A Geração Abandonada” publicada pelo jornal O Estado de São Paulo também sem data definida, no ano de 1982.”

Os punks paulistas, em sua maioria, eram jovens da periferia da cidade e que tinham músicas contra o governo, contra a miséria, e que falavam diretamente com esses jovens que acabam se identificando e participando do movimento.

A periferia é acostumada a ter um grande enfrentamento de luta contra o capitalismo e a sociedade de consumo. Nesse sentido, a violência responde a diferentes necessidades, como repelir a violência policial, que era uma das formas de hierarquia que se tinha imposta. [D’AVILA, 2008]

Mas não é só violência a favor de seus ideais que existe no movimento. Apesar de alguns punks não pertencerem a nenhum grupo, as gangues ainda assombram o movimento. As brigas entre gangues ou entre punks e skinheads (neo-nazistas) ainda existem. Os casos mais graves, que muitas vezes acabam em morte, chegam à imprensa, o que taxa equivocadamente todo o movimento como muito violento.

3. Conclusão:

Com toda a análise feita podemos notamos claramente que a “repressão” que os movimentos de Brasília e São Paulo sofriam eram diferenciadas, seja pela sua origem, pela sua classe social ou local que estava inserida. A repressão ia desde uma mais branda com os punks brasilienses a uma repressão mais severa, com prisões dos paulistanos, a uma mais política de repressão pela classe social que estavam inseridas as do ABC.

As três têm seu início nas décadas de 1970 a 1980, com o movimento punk inglês, mais não podem ser apenas generalizadas como um movimento punk brasileiro único, já que não podemos nos esquecer que o movimento existiu também no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e outros Estados do Brasil.

Confundir também com os skinhead e os neonazistas, que são vertentes mais radicais e anarquista dos Punks é um erro que acaba sendo recorrente em alguns textos, sejam digitais ou físicos.

BIBLIOGRAFIA:

ALEXANDRE, Ricardo. Dias de Luta: O Rock e o Brasil dos anos 80. DBA. São Paulo. 2002.

ARIEL. A história do Punk Brasil. Entrevista ao portalrockpress em 5 de maio de 2011.
http://www.portalrockpress.com.br/modules.php?name=News&file…

BIVAR, Antonio. O que é Punk. Coleção primeiros passos. Editora Brasiliense. São Paulo. 1983.

CAPELATO, Maria Helena. História e Cinema. São Paulo. Alameda. 2011

CARVALHO, Vladimir. Rock Brasilia – Era de Ouro.2011

D’AVILA, Ivone Cecília. Punk: Cultura e Arte. Varia História. Vol 24. N. 40. 747-770. 2008.

FERREIRA, Jorge e DELGADO, Lucilia de Almeida Neves (ORG.) O Brasil Republicano: O tempo da ditadura – regime militar e movimentos sociais em fins do século XX. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. 2007.

FONTOURA, Antonio Carlos da. Somos tão jovens. 2013

MOREIRA, Gastão. Botinada: a origem do punk no Brasil. ST2 Videos, 2006.

NAPOLITANO, Marcos. 1964: História do Regime Militar Brasileiro. Editora Contexto. São Paulo. 2014.

TEIXEIRA, Aldemir Leonardo. O movimento punk no ABC paulista, Anjos: Uma vertente radical. 2007. 227p. Monografia (Mestrado em Ciências Sociais) – Pontifícia Universidade Católica. São Paulo.

https://whiplash.net/materias/curiosidades/000378-capitalinicial.html

Legião Urbana: Muito além do planalto

https://www.letras.com.br/biografia/restos-de-nada

Fonte: https://whiplash.net/materias/biografias/265499.html

agência de notícias anarquistas-ana

espuma do mar
adensa o voo das
gaivotas no ar

Carlos Seabra

One response to “Punk e Repressão: O movimento Punk no Brasil e sua repressão pelo Estado”

  1. Kruz Kredo

    Acompanho assiduamente a ANA, mas esse texto está deprimente. Acredito que qualquer jovem punk de 15 anos consiga fazer algo mais consistente. Punks de Brasília no início dos 80? Prefeita que organiza evento? Explica isso aí que todo mundo quer entender. Escrever só por escrever não leva a lugar algum.
    Melhor sorte em uma próxima oportunidade ao responsável por essa tentativa de texto.

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