Não Temos Tempo de Ter Medo: Combater com Ação Direta a Ofensiva Reacionária

Comunicado nº 60 da União Popular Anarquista – UNIPA, outubro de 2018

Às trabalhadoras e aos trabalhadores do Brasil

À Juventude pobre da periferia

Aos povos indígenas e camponeses

Ao povo negro das favelas e periferias

Às mulheres combatentes e aos grupos LBGTT

Aos operários, desempregados, trabalhadores informais, estudantes e professores

Nenhum governo do mundo combate o fascismo até suprimir-lo, quando a burguesia vê que o poder lhe escapa das mãos recorre ao fascismo para manter o poder de seus privilégios.”

(Buenaventura Durruti – anarquista espanhol)

No Comunicado nº 57, de março deste ano, afirmamos que nem o lulismo e nem o anti-lulismo apresentariam soluções para os problemas estruturais da classe trabalhadora brasileira. A classe dominante, entre elas os altos escalões do poder judiciário brasileiro e as altas patentes militares, escolheram fazer uma ofensiva com objetivo de explorar, dominar e espoliar ainda mais o povo. E mesma toda conciliação de classe do lulo-petismo não foi capaz de evitar todo o processo de repressão e criminalização do PT e do Lula.

A burguesia apostou suas fichas numa ascensão do próprio PSDB de Alckmin no pós impeachment, no entanto, dois anos depois viu a ascensão do candidato de extrema direita, Jair Bolsonaro (PSL), que se tornou o principal favorito dessas eleições presidenciais. Alimentado pelo anti-petismo, pelo apoio das igrejas neopentescotais, e pela adesão do General Mourão, do PRTB (herdeiro do Prona) a sua candidatura mudou qualitativamente. Ela indica a adesão de uma parte da cúpula da burguesia militar a um projeto de reação autoritária, dando substância de classe ao mesmo, ganhando apoio do agronegócio, mineração e setores do comércio. O apoio do eleitorado a candidatura indica a formação de uma base social conservadora, mas contraditória, na aristocracia salarial e na pequena burguesia, além do apoio confuso de setores do proletariado marginal em parte com base num conservadorismo e messianismo de base religiosa, o mesmo que vota em Lula. Na reta final da campanha de primeiro turno temos ainda o início da adesão de uma burguesia e dos meios comunicação corporativos, de forma mais aberta a Rede Record do Bispo da Igreja Universal Edir Macedo.

Neste sentido, o programa político-econômico foi se consolidando como ultraliberal e conservador, a partir da assessoria do Economista Paulo Guedes, ex-assessor econômico na ditadura chilena de Pinochet. A desconfiança dos agentes capitalistas se deu apenas pela contradição entre a ação parlamentar de Bolsonaro e a nova pauta de sua candidatura: ultra privatizadora e pró-americana. Não tem nada a ver com defesa da democracia e de direitos civis, políticos e sociais. Ao chamado “mercado”, ou seja, a classe dominante, só tem interesse na maximização da exploração.

Ainda no Comunicado 57 afirmamos:

O Sistema capitalista brasileiro está oscilando da demagogia ao despotismo, implicando na reestruturação das relações de classe e de poder. A nova fase do Estado de Exceção visa permitir um aprofundamento da exploração, modificando as relações de classe; visa retomar o controle dos cargos e dos recursos do Estado pela grande burguesia e pela pequena-burguesia de mercado, expulsando assim a pequena-burguesia de esquerda, uma parte da tecnocracia e a aristocracia operária. Desse modo, a centralização do poder tem um conteúdo econômico e de classe. Ao atacar a aristocracia operária e setores da pequena-burguesia, a política ultraneoliberal do PMDB visa concentrar renda e riqueza, nivelando as condições de vida da classe trabalhadora por baixo.”

(UNIPA, Comunicado 57, março, 2018)

1. Os cenários: a volta Estado de Exceção neodesenvolvimentista ou à repressão ultraneoliberal

No Comunicado 57 delineamos 4 cenários:

Cenário 1) Lula reverte a decisão e se candidata;

Cenário 2) Lula fora das eleições, mas o PT lançando candidato alternativo;

Cenário 3) Lula fora das eleições com o PT colocado na ilegalidade como uma organização criminosa;

Cenário 4) Lula fora das eleições, com todos os Partidos de Esquerda com suas candidaturas inviabilizadas por uma estratégia de judicialização e criminalização.

O cenário 2 se confirmou e com ele a previsão de fortalecer o lulismo e com isso desgastar o sistema representativo. Como avaliamos, para desarticular o lulismo e todas as formas de oposição por dentro do sistema seria necessário avançar para os outros dois cenários. Esses dois cenários (PT na ilegalidade e/ou todos os partidos de esquerda) podem evoluir no pós eleição de 2018 no caso de uma vitória da chapa Bolsonaro-Mourão (PSL-PRTB).

Um possível governo Bolsonaro-Mourão (PSL-PRTB), que teria em Bolsonaro uma liderança personalista de massas conversadora e autoritária, aglutinaria todas as forças reacionárias e conservadoras que se organizaram contra o PT e o lulismo com uma política econômica ultraliberal de retirada de direitos das trabalhadoras e trabalhadores. Do ponto de vista da violência contra a classe trabalhadora, a tendência é sua radicalização, podemos ter a implementação de um modelo parecido com a Turquia, um governo civil militarizado e extremamente repressor. Esse modelo tende ao aprofundamento da repressão sistemática para desarticular no médio prazo o lulismo e o petismo, bem como seus partidos satélites, e com isso desarticulando as principais forças hegemônicas dos movimentos da classe trabalhadora e dos movimentos sociais em geral.

O possível aumento da centralização do poder estatal, tornando a democracia burguesa mais restrita e limitada, tende a produzir efeitos contraditórios de desorganização e reorganização dos movimentos sociais. Ou seja, no curto prazo, o ultraliberalismo conversador, tende a uma ofensiva para destruir o lulismo e desarticular os principais movimentos sociais. Isso significaria o aumento da violência contra ativistas e militantes e das lutas sociais no geral, podendo inclusive girar atuação paramilitar especificamente contra as organizações da classe trabalhadora e seus militantes. Neste sentido é preciso destacar o grande número de militares eleito pela bancada do PSL, sem contar que uma parcela significativa dos eleitores de Bolsonaro forma uma base protofascista.

Considerando o plano das políticas governamentais, o ultraliberalismo tem uma agenda absolutamente anti-povo. Privatizações, incluindo a privatização de serviços públicos como saúde e educação, retirada de direitos mais básicos, entreguismo econômico, desprezo pelas pautas dos camponeses e indígenas, violência contra o povo negro e favelado. Nesse cenário, o ascenso das lutas e resistências populares será inevitável.

Num cenário de extrema repressão e de uma agenda governamental anti-povo, alternativa para os movimentos da classe trabalhadora e dos movimentos sociais em geral será a emergência de novas formas de consciência de classe, autoconscientes e auto-organizadas. Mas para isso será necessário que a classe trabalhadora abandone o lulismo enquanto ideologia, isto é, superando as ilusões personalistas, messiânicas e estatistas que até agora hegemonizam os movimentos sociais. Esse seria um processo de auto-organização e autoconsciência do desenvolvimento das forças coletivas da classe trabalhadora.

Um segundo cenário seria a vitória da chapa Haddad-Manuela (PT-PCdoB) tendo que aprofundar a política de conciliação e um ajuste fiscal que já se avizinha para os próximos anos, no entanto, com seu governo sendo questionado pela extrema direita que tende a não aceitar o resultado das eleições. E por outro lado, pressionados pelas forças liberais democratas pró mercado, aumentando o controle sobre o movimento sindical e social em troca de uma paz para sua sustentação politica, atendendo interesses da burguesia. As frações da burguesia, mesmo com toda experiência de conciliação do governo petistas e de acenos do próprio Haddad, mostraram um movimento paulatinamente adesão à chapa de extrema direita, Bolsonaro-Mourão, indicando que não há perspectivas para refazer o pacto de conciliação de classes. Portanto, um possível governo petista deve sofrer enormes ataques da burguesia e da extrema direita, com boicotes e locautes, principalmente se se confirmar a perspectiva de recessão da economia mundial. Neste sentido, não podemos descartar uma intervenção por parte do PSL e das forças políticas, sociais e econômicas que agora o apoiam, como o generalato, para derrubar um governo PT-PCdoB e realizar, inclusive novas eleições sem os dois partidos.

2. Caminhos da insurgência: auto-organização e ação direta

Seja qual for o novo governo, Bolsonaro-Mourão (PSL-PRTB) ou Haddad-Manuela (PT-PCdoB), os cenários mais prováveis é de acirramento da luta de classes e dos conflitos políticos, com o avanço do Capital sobre a classe trabalhadora, retirando mais direitos, aumentando da exploração e recrudescimento da repressão. E a saída para essa situação não passa pela disputa eleitoral, mas pela criação de espaços autônomos da classe (assembleias populares) que seja semente de um contrapoder com vista a organização de um congresso do povo. O autoritarismo e a tirania estão dentro do Estado. A liberdade está no autogoverno das trabalhadoras e trabalhadores. No socialismo.

Diante do acirramento da luta de classes e de recrudescimento do regime, a classe trabalhadora terá que passar por um processo de auto-reorganização, isto é, buscando formas organizativas livres das amarras da tutela das burocracias sindicais e políticas, bem como romper com as práticas e concepções legalistas e pacifistas da social-democracia, necessitando organizar sua autodefesa enfrentar a nova conjuntura de acirramento da luta de classes. Os cenários exigem um movimento de massas auto-organizado, resultante da rearticulação das forças coletivas do proletariado.

Por isso é necessário promover a ação direta e resistência local, por meio da promoção de lutas e greves parciais reivindicativas, de resistência à intensificação da exploração e retirada de direitos, combinada com a criação de organizações sindicais e cooperativas de tipo sindicalista revolucionária. É fundamental nos auto-organizarmos. Os cenários serão cada vez mais difíceis para as alternativas revolucionárias e combativas no curtíssimo prazo.

Será fundamental uma luta de palmo a palmo, casa à casa, rua à rua, combatendo em duas frentes: a reação clerical militar-burguesa e o lulismo-reformismo que aposta suas fichas na administração do governo federal. A estratégia revolucionária: resistir localmente, pensando e construindo globalmente. É preciso combinar as resistências e lutas locais com as formas globais contra o autoritarismo e a tirania, com a propaganda de construção de assembleias populares, que mesmo que não sejam imediatamente realizáveis, educam e forjam a consciência de massa para as lutas futuras.

A ação direta, o enfrentamento de rua e as greves terão de assumir uma nova dimensão. A ação direta não se resume a luta combativa, embora seja sua característica fundamental, pois ela significa a luta proletária autoconsciente, a ação política emancipatória da classe. O enfrentamento de rua não poderão se restringir aos grupos de autodefesa, pois será necessário uma luta ofensiva. As greves terão superar os limites das lutas reativas e corporativas. As greves gerais não poderão ser apenas políticas, mas terão de assumir a condição de uma greve geral insurrecional.

Há 84 anos, no dia 07 de outubro de 1934, foi dada uma lição aos fascistas. Anarquistas, Comunistas e militantes colocaram para correr os integralistas na praça da sé em São Paulo. A tirania e o autoritarismo deve ser combatidos com a auto-organização e ação direta da classe rumo ao socialismo, ao autogoverno das trabalhadoras e trabalhadores.

Entramos num ciclo de guerra de classe declarada contra as trabalhadoras e trabalhadores travestido de antipetismo. Para enfrentar essa guerra é necessário: 1) construir movimentos autônomos; 2) organizar a ação direta; 3) articular os comitês populares (antifas) de autodefesa.

NÃO VOTE, LUTE!!!

Organizar Assembleias Populares e um Congresso do Povo trabalhador e explorado!!!!

O fascismo não se discute, se destrói!!!

Greve Geral!!!

União Popular Anarquista – UNIPA

Site: uniaoanarquista.wordpress.com

Facebook: uniaopopularanarquista

E-mail: unipa@protonmail.com

agência de notícias anarquistas-ana

Escorre pela folha
a tarde imensa,
pousada em gota d’água.

Yeda Prates Bernis

4 responses to “Não Temos Tempo de Ter Medo: Combater com Ação Direta a Ofensiva Reacionária”

  1. Solvente

    É tudo tão patético: o texto é ridículo, vazio de realidade, a Unipa, uma das muitas siglas do que não existe.Tudo remete a universos paralelos… é triste. Sejamos honestos: Estamos perplexos diante da hecatombe que está se instaurando, nada sabemos da realidade, mas ainda assim achamos que estamos vivos e que temos relevância.#SóqueNão.

  2. marques

    Não sei se a UNIPA existe ou não mas o texto faz um diagnóstico objetivo do momento. O melhor caminho é contribuir e não desqualificar.Dar as mãos e seguir em frente, cada um dando o que pode.

  3. Marcela

    Os Panteras Negras, Os Zapatistas, o PKK, e todos os outros que se levantaram para uma luta real contra o sistama capitalista viviam num universo paralelo ou não existiram? Certamente nenhuma dessas experiências são resultado de quem viveu em universos paralelos, muito pelo contrário, são de mulheres e homens que partiram para a luta real quando todos diziam que era impossível construir a revolução social. Temos que acabar que esse ideia tola de que só existem as eleições como forma de luta. As eleições são, na verdade, a morte das lutas. Avante com ação direta Antifa!!!!

  4. Lucas

    Temos alguma articulação Anarquista, Autonomista pelo Telegram?

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