[Espanha] Shum, o desenhista anarquista

Quase perde as mãos quando explodiu uma bomba em uma oficina clandestina em 1921. Foi condenado a morte e indultado pela República. Um ensaio – escrito como a crônica de uma pesquisa – resgata o esquecido Shum, o esquivo artista das identidades, exilado e com uma biografia que parece ficção.

por Vanessa Grael | 16/03/2019

 Shum? Soa a um ouch de HQ, a onomatopeia de um espirro. Mas foi um dos desenhistas mais esquivos, enigmáticos e rocambolescos da República e da Guerra Civil, com um exílio forçado que o levou à França e por todo o Caribe. E pareceu desvanecer-se. Shum é conhecido de várias maneiras: Joan Baptista Acher, O Poeta ou O artista das mãos quebradas. Não se tratava de uma coleção artística de heterônimos como Pessoa, mas da necessidade de ocultar sua verdadeira identidade. Fez parte das cenas anarquistas mais radicais dos anos 20 e enquanto estava em uma oficina clandestina de fabricação de explosivos, uma bomba detonou acidentalmente. Quase morre. Suas mãos ficaram como um pedaço de carne e feridas (por isso “o artista das mãos quebradas”). Foi condenado a morte, passou anos na prisão – onde reaprendeu a desenhar – e foi indultado em 1931 pela República. Não chegou aos anos 70, depois de sua morte, quando por fim se descobriu seu verdadeiro nome: Alfons Vila i Franquesa (1897 – 1967).

Shum era uma lenda. E foi tirado das sombras pelos veteranos estudiosos da HQ   Josep Maria Cadena e Lluís Solà i Dachs, junto com o desenhista Jaume Capdevila (aliás, Kap). Acabam de publicar Shum. “El dibuixant anarquista” (Diminuta Edicions), que se lê quase como um caderno de espionagem, a crônica de uma pesquisa, mais do que uma biografia usual. Mas quem foi Shum? “Até o ano de 1979 se acreditava que Shum era um personagem cuja lembrança se movia entre a fantasia e a realidade, que assinava com este anagrama incompreensível”, aponta Lluís Solà, que após anos de pesquisa (e algumas casualidades) pôde traçar uma biografia que parece ficção e que começa no campo de Lleida, no pequeno povoado de Sant Martí de Riucorb. Já quando menino, Alfons demostrou uma sensibilidade especial pelo desenho e a escrita. Com apenas 12 anos, ao morrer sua mãe, fez as maletas e foi para a industrial Terrassa, onde ganhava alguns cêntimos fazendo desenhos nos cafés. “Se em Terrassa passou fome, em Barcelona ainda mais”, aponta Solà. Assim que acabou indo a Paris, cruzando a fronteira de Portbou.

Rebelde e autodidata, logo se aproximou dos grupos libertários e anarquistas. Tantas foram suas identidades como seus estilos, até que começou a assinar com o anagrama de Shum. Publicou em algumas revistas da época, mas foi no cárcere onde ganhou toda sua popularidade. “Shum, o desenhista, nasceu na prisão”, aponta Jaume Capdevila. Em um capítulo intitulado Disparos na madrugada, Josep Maria Cadena reconstrói de forma literária os fatos que acabaram levando Shum à prisão: o ataque ao membro do conselho municipal conservador Salvador Anglada (um companheiro e ele, lhe dispararam), um atentado falido durante uma manifestação e a explosão de uma bomba na rua Toledo de Sants, em uma oficina clandestina. O jovem Alfons foi rapidamente julgado – sob o nome de Joan Baptista Acher – e condenado a morte com provas no mínimo duvidosas. Só tinha 19 anos. Setores obreiros e de esquerda começaram uma campanha para pedir um indulto. Campanha que chegou inclusive à França e às páginas do Industrial Pioneer de Chicago. Aí explodiu sua fama. E começou a enviar desenhos às principais mídias do país. Comutaram a pena de morte por cadeia perpétua, mas até o advento da II República não obteve a liberdade.

Desse Shum dos anos 20 e 30 surpreende a modernidade do desenho e sua capacidade de síntese: seu traço “minimalista e fino”, com “ar de arame”. “Busca a expressividade de seus desenhos com elementos limitados: o traço, a composição e o ritmo (…) Não há perspectiva, não há capacidade de criar volumes, não há proporções. E ele, de forma muito inteligente, consegue converter estas limitações em vantagens”, considera Capdevila.

Shum viveu uma época de turbulências sociais, anos de mão dura borbônica, ditadura, a ansiada (e efêmera) República, a Guerra Civil e o exílio. Um longo exílio do qual não voltaria jamais e que o levou da França às Américas (República Dominicana, Estados Unidos, Cuba e México). Em Nova York colaborou com a revista “Por esas Españas” e desenhou cartões de natal, caricaturas e publicidade para a Metro Goldwyn Mayer. “Passava o dia entre o Cassino Espanhol, um restaurante espanhol e consumindo 1.000 cigarros”, recorda o pintor Josep Bartolí, um dos expatriados. Mas foi no México, em Cuernavaca, onde encontrou a tranquilidade que nunca teve na Espanha. Se dedicou a pintar e inclusive abriu a primeira galeria de arte da cidade. E aí foi enterrado em 1967, enquanto a Espanha seguia em outra ditadura.

 Fonte:https://www.elmundo.es/cataluna/2019/03/16/5c8cc8b5fdddffcc698b4608.html

Tradução > Sol de Abril

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Rogério Martins

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