
O surto social iniciado em 18 de outubro e a repressão desencadeada pelo Estado demonstraram o fracasso do modelo político chileno e de seu modelo econômico.
A origem de tudo isso vai além do governo contra o qual lutamos hoje, e a revolta que se espalhou após as evasões em massa realizadas por estudantes em dificuldades tem sua origem na fúria dos abusos apoiados e permitidos por décadas. Nada de bom pode surgir como resultado de dar ao Estado, políticos e autoridades a capacidade de decidir sobre nossas vidas enquanto tentamos sobreviver em um sistema que transforma nossas necessidades em negócios e nosso tempo no dinheiro que nos impuseram como a única maneira de conseguir o que precisamos.
Ao explodir as ruas e as consciências, muitas pessoas sentiram que, com a explosão de raiva, embarcamos em uma jornada sem volta à recuperação de nossa completa dignidade e liberdade. E no meio de tudo o que estamos experimentando pessoal e coletivamente, sabemos que há pessoas que, antes de 18 de outubro, já percorreram os caminhos da luta ancestral por uma vida livre sem um Estado ou autoridade.
Nessa caminhada, aprendemos que a medida do Estado de emergência com militares nas ruas e o toque de recolher decretado pelo governo de direita de Piñera é apenas parte do arsenal repressivo que todos os governos colocaram em prática de várias formas ao longo da história.
Rompendo com uma normalidade imposta por séculos
No Chile e no mundo, tortura, engano, assassinato, injustiça e reformas que não mudam nada estrutural fizeram parte da existência histórica do Estado como ferramenta de opressão em benefício de uma elite.
Antes, e também agora, no Chile, houve pessoas mortas, assassinadas, torturadas, aprisionadas, espancadas ou desaparecidas por causa da luta contra a ordem imposta ou apenas por causa de sua condição econômica, sexual ou étnica.
Uma sangrenta história de intervenção militar e policial circula em nossas veias para aniquilar revoltas e lutas sociais por uma vida digna e livre de opressão: o extermínio do povo mapuche, a Matança de Santa Maria de Iquique, a ditadura de Pinochet, o estado policial da democracia e agora também a repressão aguda contra a qual enfrentamos.
No entanto, nas últimas semanas, muito mais pessoas sentiram em si mesmas o papel opressivo do estado policial militarizado que já era evidente perseguindo há anos lugares como o Wallmapu, casas de okupas, populações combativas e escolas secundárias em luta contra quem o Estado declarou guerra há muito tempo.
Hoje, as autoridades mais uma vez protegem a ordem social, política e econômica que construíram para seu benefício e o fazem reprimindo nas ruas, enganando a imprensa e falando sobre um suposto inimigo que busca afetar a vida das pessoas.
Esse inimigo que eles mencionam é toda pessoa que luta e todo ato rebelde que se multiplica, buscando abrir caminho para maneiras de se relacionar, organizar e viver oposto àquelas que nos impuseram há anos.
Por essa razão, políticos, empresários e forças repressivas tentam nos convencer de que devemos ter medo da desobediência e revolta. Eles tentam nos fazer cair na armadilha de pensar que seus interesses e os nossos são os mesmos. Mas, ao contrário de outros momentos da história recente, hoje muitas pessoas não acreditam neles e continuam na luta.
É por isso que não esquecemos cada golpe, todo tiro contra nosso corpo e o de nosso povo próximo, toda mentira ou todo cúmplice que se posicionou a favor dos poderosos e de sua repressão.
Nem esqueceremos todo ato de rebelião, todo abraço e todo gesto de apoio entre companheiros, amigos e vizinhos. Essa memória e esses gestos de raiva, amor e rebelião fazem parte do cenário da vida e da luta que estamos construindo todos os dias.
A solução está em nossas mãos
No Chile, algo começou a mudar. Alguns acordaram antes, outros depois, mas a verdade é que, apesar da repressão, continuamos a seguir o caminho da vida com o qual decidimos romper.
Hoje somos mais que não queremos dar a ninguém, a não ser a nós mesmos, o poder de direcionar eventos e processos em direção a um horizonte de liberdade e dignidade. É por isso que sabemos que o que construirmos daqui em diante dependerá de nós e não estamos dispostos a dar aos outros a capacidade de decidir sobre nossas vidas.
Nem a esquerda oportunista nem a direita ditatorial. Nem a Frente Ampla nem qualquer partido político. Nem a renúncia de Piñera, nem novas eleições, nem uma nova Constituição. Nada do que vem da ordem estabelecida com a qual estamos rompendo pode nos dar uma solução.
Sabemos que muitas perguntas e preocupações sobre como continuar inundam muita gente agora. De nossa identidade anárquica de luta contra toda autoridade e do que experimentamos em contato com outras vontades no meio da revolta, descobrimos as respostas e ferramentas na experiência e aprendemos a tomar posições de combate no aprimoramento do conflito contra a ordem social que lutamos. Essas ferramentas e essas respostas são encontradas na multiplicação dos atos nos quais se expressam desobediência, apoio mútuo e ação direta.
Lutar juntos e nos apoiar diante dos efeitos da repressão e do medo da escassez causados pelo Estado, deixando nosso mundo pessoal e unindo forças com outras pessoas, contribuindo cada um de acordo com sua capacidade de agir e pensar em conjunto possibilidades de vida diferentes daquelas são respostas que temos forjado a partir da autonomia de não depender de ninguém, mais que de nossa vontade em ação.
Tudo isso foi experimentado por milhares de pessoas nas últimas semanas. Tudo isso e muito mais se desenvolveu sem líderes ou dirigentes.
A partir de agora, o que cada um de nós contribui influenciará o curso do que pode ou não acontecer.
Aconteça o que acontecer, continuaremos a lutar e conhecer todas as pessoas que continuam a experimentar e expandir a liberdade em todos os atos de revolta contra a ordem do dinheiro e da autoridade.
Não vamos desistir, não vamos recuar. Continuaremos a construir um novo mundo nas ruínas do sistema que estamos destruindo.
MULTIPLICAR DESOBEDIÊNCIA, APOIO MÚTUO E AÇÃO DIRETA!
VIVA A REVOLTA CONTRA TODAS AS FORMAS DE OPRESSÃO E AUTORIDADE!
Publicado originalmente em Confronto. Edição especial, outubro-novembro, região chilena, 2019
Tradução > Liberto
agência de notícias anarquistas-ana
Rosto no vidro
uma criança eterna
olha o vazio
Alphonse Piché
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!