[EUA] O apoio mútuo está se espalhando pelo mundo. Fazemos esta maneira anarquista de organização durar da seguinte forma


Texto Zoe Smith | Arte Michelle Pereira

Numa ensolarada quinta-feira à tarde em abril, cerca de 500.000 idosos e idosas em toda a Argentina abriram as suas portas para receber uma refeição recém-preparada, entregue de forma totalmente gratuita. Foi um gesto simples, mas comovente, que mostrou às e aos destinatários que a sua necessidade de se alimentar, apesar de viverem em isolamento obrigatório, não passou despercebida.

Este impressionante feito logístico não foi realizado pelo governo. Em vez disso, a iniciativa, envolvendo 2.000 cozinhas comunitárias em todo o país e o apoio e financiamento de pequenas empresas, de açougues a padarias, foi uma criação do movimento social de base argentino, Barrios de Pie.

É apenas um exemplo entre milhares de atos de compaixão, solidariedade e cooperação voluntária que vêm ganhando manchetes em todo o mundo. Esta base de atividade – que se enquadra sob a bandeira do “apoio mútuo” porque vem de dentro das próprias comunidades e é voltada a longo prazo, como o Barrios de Pie disse, para a justiça social e transformação social – tem, em muitos casos, superado as tentativas de voluntariado lideradas pelo Estado.

Talvez não nos devêssemos surpreender com o fato de que as e os humanos são gentis. No final de contas, esta é a tese que o autor, nobre e anarquista russo Pyotr Kropotkin, que inventou o termo, defende no seu ensaio de 1902 no qual escreve: “Além da lei da luta mútua, há na natureza a lei do apoio mútuo, que, para o sucesso da luta pela vida e especialmente para a evolução progressiva da espécie, é muito mais importante do que a lei da competição mútua.”

Ainda assim, estou curiosa para saber como é que esta ação coletiva, agora tão comum, pode ser mantida. O impacto econômico da pandemia irá muito além da crise de saúde – como podem comunidades, físicas e digitais, criar e sustentar soluções quando o Estado está ausente ou tem capacidade limitada?

Tomemos New Orleans como exemplo. Nas semanas seguintes ao furacão Katrina, o ativista local John Clark falou da onda inspiradora de grupos de apoio mútuo em resposta ao desastre. “As semanas que passei em New Orleans desde o furacão foram, sem dúvida, um dos períodos mais gratificantes da minha vida”, escreveu. “Raramente senti tanta gratidão pela bondade das pessoas, pela sua capacidade de mostrar amor e compaixão pelos outros e outras e pela sua capacidade de criar uma comunidade espontânea.”

No entanto, 15 anos depois do “pior desastre urbano da história dos EUA”, é claro que o ajuntamento inicial, em todas as extensões e efeitos, desfez-se. O ex-prefeito da cidade, Mitch Landrieu, denominou a recuperação pós-furacão de New Orleans “a melhor história de recuperação da América”, mas as áreas mais pobres e mais atingidas receberam a menor quantidade de dinheiro para reconstrução. Um em cada três moradores negros da cidade não retornou, a insegurança alimentar é generalizada e até mesmo as ambições do ator Brad Pitt de “fazer o acertado” na cidade conseguiram dar errado.

O projeto de Pitt, com o seu modelo de caridade de cima para baixo, é o oposto das iniciativas de apoio mútuo, impulsionadas pela solidariedade, e a diferença é clara: Os movimentos de trabalhadores e trabalhadoras desempregadas da Argentina têm sustentado as suas ações há quase duas décadas. Dezenas de milhares de argentinos e argentinas da classe trabalhadora, residentes nos bairros do país, têm mostrado grande capacidade de atender às necessidades a nível local, desde a educação até a cozinhas de sopa, programas de treino de habilidades e serviços de saúde. Como o fizeram?

Descobrindo a horizontalidade na Argentina

Para ter uma visão melhor de como o apoio mútuo funciona, eu contacto com Martyn Everett, um bibliotecário aposentado que tem décadas de experiência dentro de movimentos anarquistas. Fala-me pacientemente através da história: ideias em torno do anarquismo social, que se inspiram muito no trabalho de Kropotkin.

Falando sobre a Argentina, sugere que eu contacte Marina Sitrin, autora e editora de uma série de obras que olham para uma forma de poder popular que surgiu na Argentina chamada “horizontalismo”. “O horizontalismo é realmente o próximo passo do apoio mútuo”, diz Everett. “É a aplicação de apoio mútuo à organização social – para além de uma resposta ao desastre. As implicações são muito empolgantes!

Intrigada, pesquiso sobre Sitrin e contacto com o professor assistente de sociologia da Universidade Binghamton, nos EUA. Encontro uma definição de horizontalismo num artigo de 2014 que Sitrin escreveu, no qual diz: “Horizontalidade, [que é] muitas vezes traduzido como horizontalidade ou horizontalismo («horizontality or horizontalism», em inglês), foi usado pela primeira vez pelos movimentos que surgiram na Argentina no rescaldo da crise econômica de 2001. É uma relação social que implica, como o próprio nome sugere, um plano horizontal sobre o qual se comunica. Horizontalidade implica necessariamente o uso da democracia direta e a busca por consenso, processos em que são feitas tentativas de que todas e todos sejam ouvidos.”

Quando falamos numa manhã de sábado, Sitrin revelou, para meu deleite, que está na fase final da edição de um novo livro que conta a história das respostas ao nível da rua à pandemia atual em todo o mundo. Sem surpresa, há um capítulo sobre a Argentina e ela confirma que há de fato muito a aprender com todas as alternativas econômicas, políticas e sociais que surgiram após a profunda crise econômica do país sul-americano em 2001.

À medida que a economia se debatia, braços inteiros do governo deixaram de funcionar adequadamente e as comunidades locais auto-organizaram-se para preencher as lacunas. Sob a bandeira do Movimento dos Trabalhadores Desempregados, grupos reuniram-se para fazer comida, construir casas e fornecer educação para as crianças. Entre os seus variados programas, o Barrios de Pie, por exemplo, desenvolveu o Bachilleratos Popular, um sistema educacional independente que proporciona ensino superior a jovens e adultos. Outro grupo, a Coordenadora Aníbal Verón, apoia os seus membros que enfrentaram a violência doméstica, que precisam de cuidados de saúde ou que estão à procura de desenvolver oportunidades de trabalho por conta própria. Esta solidariedade coordenada e orientada localmente também vai além da esfera doméstica e das necessidades individuais.

Em 2003, o New York Times declarou que em toda a Argentina pelo menos 160 fábricas, empregando cerca de 10.000 pessoas, estavam sendo administradas como cooperativas pelos e pelas suas funcionárias, desde uma fábrica de tratores em Córdoba até uma fábrica de telhas e cerâmica na Patagônia. Hoje, cerca de 400 destas empresas autônomas e autogeridas ainda estão funcionando.

Como explica a definição de horizontalismo de Sitrin, a unidade central de tomada de decisão dentro destes movimentos é a assembleia onde se busca consenso em todas as decisões e a participação é aberta a todos. “As pessoas passavam muito tempo em assembleias, sentadas em círculo conversando e ouvindo-se umas às outras”, explica Sitrin sobre o que ela encontrou quando viajou para Buenos Aires em 2002, depois de ouvir sobre iniciativas lideradas pela comunidade que estavam surgindo em resposta à crise econômica. “Eles e elas compartilhavam o que estavam sentindo, mas também o que estavam fazendo e o significado de ambos. Reunir sentimentos e pensamentos e refletir à medida que se avança fortalece o processo.”

Sustentando a solidariedade

No seu livro A política da autonomia na América Latina, Ana Cecilia Dinerstein explora até que ponto movimentos sociais e organizações de base em todo o continente têm sido capazes de criar “utopias concretas” diante da reestruturação neoliberal, do colapso econômico e do deslocamento social generalizado.

Dinerstein, cuja pesquisa acadêmica é sobre “a política global da esperança”, refere-se à autonomia como “a arte de usar o conhecimento criativamente e politicamente para tecer sonhos fora da miséria, contra as probabilidades, no meio da brutal violência estatal, da pobreza endêmica, da fome desesperada e da devastação social”. Isso pode soar poético, mas à medida que celebramos as crescentes respostas autônomas à pandemia, a definição de Dinerstein é um lembrete de que não podemos esquecer as complexas lutas – contra a “violência do Estado, a pobreza, a fome e a devastação” – que tornam tais iniciativas necessárias.

A realidade na Argentina também é uma precaução contra a romantização do apoio mútuo. O trabalho dos pesquisadores Fynn Kaese e Jonas Wolff identifica duas explicações para a continuidade dos movimentos de trabalhadores desempregados da Argentina – primeiro que estão profundamente incorporados nas comunidades locais e segundo que são adaptáveis, girando para responder coletivamente a qualquer que seja a crise atual – mas também salientam que muitas das organizações de apoio mútuo do país não só não são antissistema, mas são descritos como “aliados firmes do governo”. A sua capacidade de manter as suas atividades desde a virada do milênio tem sido, em parte, também por forjar laços com o governo. Do ponto de vista do Estado, o apoio a estes grupos populares torna-os aliados políticos.

Além disso, Kaese e Wolff mostram que o Plano Argentina Trabalha (PAT), um plano social para aumentar o emprego introduzido em 2009 como resposta às exigências dos movimentos de trabalhadores desempregados, pelo governo da então presidente Cristina Fernández de Kirchner, politizou-se desde então. Isto, por sua vez, polarizou os movimentos e intensificou as reivindicações de discriminação daqueles grupos que eram oposicionistas ao Estado. Além disso, a exigência original por trabalho digno, que sustentava a fundação dos movimentos e do PAT foi mal atendida pelos precários empregos de baixos salários criados.

A luta por algo e não apenas contra

Apesar destes desafios, Sitrin descreve a resistência dos grupos de apoio mútuo da Argentina como “notável”, apontando que mesmo quando coletivos específicos não existem mais, a sua forma de organização permaneceu. Os movimentos de direitos da terra, bem como as lutas contra o feminicídio, as leis antiaborto e agora, as ações que estão sendo tomadas em resposta à pandemia do Covid-19, estão todos adotando uma abordagem horizontalista.

Além disso, “não é de um dia para o outro que se derruba o Estado e se faz algo novo”, lembra Sitrin. “É um longo processo de forjar novas relações que são a base da nova sociedade. Está cheio de contradições e ainda há muita desigualdade na Argentina.”

Everett, que tem seis décadas de experiência na linha da frente da organização autodirigida, também é notavelmente otimista. Ele está otimista de que aqueles e aquelas que se envolveram no apoio mútuo como resultado desta pandemia verão que há uma maneira diferente de organizar a sociedade e de se relacionar uns e umas com as outras.

“As pessoas terão experienciado que não precisam ficar sentadas e esperar ordens para que algo aconteça. A construção da sociedade é algo que envolve toda a gente. Estou esperançosa de que se basearão nas organizações de apoio mútuo que estabeleceram e apliquem este ensinamento a outras áreas da vida social.”

Visto dessa perspectiva, qualquer pessoa interessada em mudanças sociais lideradas pela comunidade não precisa ficar ansiosa com o poder de permanência das iniciativas de apoio mútuo de hoje. Que elas existem, independentemente da sua duração, criam um quadro não só do que vale a pena lutar contra, mas também – e mais importante – pelo que vale a pena lutar.

Fonte: https://thecorrespondent.com/504/mutual-aid-is-sweeping-the-world-heres-how-we-make-this-anarchist-way-of-organising-last/553195377504-846fc559

Tradução > Ananás

agência de notícias anarquistas-ana

Manhã de neve.
Até mesmo os cavalos
Ficamos olhando.

Bashô

One response to “[EUA] O apoio mútuo está se espalhando pelo mundo. Fazemos esta maneira anarquista de organização durar da seguinte forma”

  1. Tui

    O mundo tá mudando, mude com ele!

    COOPERAÇÃO <3

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