[México] Cherán, a prova de que o anarquismo é possível

Os habitantes desta cidade mexicana expulsaram criminosos, políticos e policiais, e organizaram um autogoverno que até hoje tem sido bem-sucedido.

Por German Camacho | 14/07/2020

Vivemos em um planeta rico em recursos naturais, mas a maioria das pessoas vive em condições marginalizadas. Uma sociedade confusa, guiada por dogmas fabulosos e governos desnecessários. Tudo para sobreviver, terra, comunicações, alimentação, vestuário, educação, saúde, conhecimento, tem sido monopolizado por uma elite. As pessoas não precisam nem de crenças nem de um Estado para dirigi-las, elas devem assumir o que é delas por direito: suas vidas.

Com base na tradição, teorias e modelos absurdos, a sociedade se permite ser mansamente controlada de uma forma sem sentido e escandalosa. Reduzidos a uma massa coletiva e homogênea, bilhões de pessoas mal sobrevivem. Forçados a produzir o que o modelo exige delas, depredando-se uns aos outros por necessidade. É hora de os cidadãos proclamarem seu direito de viver em uma comunidade justa para todos. O bem-estar geral não é uma utopia. Quanto mais as pessoas reconhecerem que estão livres de um Estado e crenças infundadas, mais rápido elas alcançarão progresso e qualidade de vida para todos. Quaisquer padrões estabelecidos devem ser aceitos pelos cidadãos como um compromisso voluntário de associação.

As pessoas devem ter o direito de se associar livremente, ou não se associar de forma alguma, com quem quiserem, e ninguém pode ou deve limitar tal liberdade, muito menos governos corruptos e ineficientes como os que existem hoje. A coerção do Estado é um escárnio da espécie humana, uma manipulação milenar que deve terminar mais cedo do que tarde. Cada cidadão é livre para se representar, sem a supremacia de uns sobre os outros, mas através de acordos mútuos e associações entre iguais, que, por sua vez, podem ser dissociadas quando eles considerem. Não deve haver nenhuma hierarquia de qualquer tipo. Cada indivíduo na comunidade deve ter o poder igualitário de dirigir sua organização econômica e social a partir da horizontalidade.

A ajuda mútua é uma manifestação natural das espécies, incluindo os seres humanos; nela reside o verdadeiro sucesso da evolução. Tal evolução coletiva não requer um Estado ou instituições baseadas em superioridades imaginadas. Os objetivos comuns proporcionam o imperativo social e econômico capaz de manter juntos grupos livremente organizados.

É a moralidade humana, não o Estado ou o dogma, que leva as pessoas a esforços comuns, e isto se reflete ao longo da história humana. Esta atitude não se limita à atividade produtiva de bens e serviços, mas se estende a toda a sociedade e a cada aspecto da mesma; é um modelo inato do funcionamento da espécie, de sua própria biologia coletiva.

O ser humano coexiste com seus pares; nada acontece no homem ou na mulher sem a inter-relação com o outro. A sociedade busca objetivos comuns que pode alcançar através de acordos livres, sem coerção de um Estado, de uma autonomia responsável.

Se queremos que esta humanidade tenha um futuro viável, ela deve renunciar aos jugos auto-impostos do Estado e das crenças, à supremacia imaginária de uns sobre os outros, ao poder unitário. Nenhum ser humano tem o direito de controlar, ordenar, escravizar ou manipular outro, da farsa da autoridade estatal, pública ou privada.

Em vista da corrupção atual, do descrédito geral dos políticos, de seus partidos e da maioria dos governos e instituições que manipulam o mundo, ninguém deve simpatizar com essas ideias obsoletas ainda em vigor.

Esta necessidade imperativa de dar origem a um novo conceito de organização social, apesar das forças que tentam evitá-lo, deu origem ao novo modelo e exemplo a seguir na cidade de Cherán, estado mexicano de Michoacán, que uma vez expulsou políticos, policiais e criminosos comuns, conseguiu se livrar da violência; deixando o controle das relações sociais e econômicas a cargo da comunidade. Um lugar onde o orçamento é dividido entre todos, de acordo com as necessidades de cada um e onde o crime organizado, sequestros, agressões e o crime em geral foram erradicados. Nenhuma parte pode reivindicar esta vitória, que é o resultado da organização e da vontade de seus habitantes.

Não há mais nenhuma organização política em Cherán. Um conselho formado por pessoas idôneas, eleitas pela comunidade, de forma consensual, determina como as decisões devem ser implementadas para o benefício comum. Essas pessoas também devem apresentar um relatório semanal, não são pagas como tal e não têm opção de serem reeleitas. Para eles, a posição é uma forma de contribuir para o desenvolvimento de sua comunidade.

Os habitantes de Cherán, sem qualquer tipo de intervenção estatal, se encarregaram do bosque, da produção de madeira, criaram viveiros e reflorestaram para um uso responsável dos recursos. Praticamente tudo o que é consumido é produzido dentro do povoado, o que fortalece a economia e gera emprego para todos.

Produtos agrícolas, madeira, materiais para estradas e casas, sistema de coleta de água da chuva que permite ter reservas para as culturas. Estação de tratamento de água, viveiro florestal, fábrica de resina, papelaria, sistema de recuperação, coleta e reutilização de detritos. Estas são apenas algumas das conquistas dos cidadãos, que antes da decisão de sua comunidade de assumir o controle, era uma das áreas mais pobres e mais infestadas pela criminalidade no país.

Cherán mostra que o anarquismo é possível.

Fonte: https://www.las2orillas.co/cheran-la-muestra-de-que-el-anarquismo-es-posible/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Meu pai também
Viu estas montanhas —
Reclusão de inverno.

Issa

3 responses to “[México] Cherán, a prova de que o anarquismo é possível”

  1. Leida

    É um anarquismo tão real e concreto,diferente de toda a ladainha que temos aqui no Brasil, com os”anarquistas canceladores,sexistas,autoritários….saudades do México

  2. Joaquim Ricardo Silva de Freitas

    Que motivador é ouvir uma notícia dessas!
    Que possamos reproduzir sempre a idéia, a vontade e as experiências de uma sociedade libertária!

  3. ziq

    As lutas no México,em especial a retratada na matéria, mostra a relevância das diferenças entre o “sul global branco”, a o mundo crioulo/indígena/miscigenado dessa outra américa,bem longe dos estereótipo da esquerda ainda coma cabeça no fordismo.

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