
Moção da Federação Anarquista aprovada no 79º congresso em Merlieux, 22 de agosto de 2021
O clima social é de inquietude: crise social, crise sanitária, crise econômica…
Surfando na onda do mal-estar social, o Estado aproveita para reforçar o seu aparelho de segurança e repressão a fim de satisfazer um eleitorado cada vez mais conservador.
Com o movimento dos Gilets Jaunes [Coletes Amarelos], as forças da ordem macroniana têm curso livre para reprimir com virulência as manifestações, resultando num grande número de mutilados. Desde o início dos protestos, os ministros do Interior têm, um após o outro, defendido a atuação das forças de repressão.
Algumas declarações são um insulto às vítimas. Enquanto isso, o resto do governo faz vista grossa, assim como os parlamentares.
A manipulação está Em Marcha[1]: as ações coordenadas entre o poder e a mídia culminam num sentimento de insegurança na população e permitem passar sem alarde leis e decretos liberticidas.
Assim, torna-se possível reforçar o monitoramento dos indivíduos “sob suspeita”. Ninguém se indigna com isso, e as organizações que se opuseram ao decreto perante o Conselho de Estado fracassaram.
Estamos assistindo à mecanização do controle das populações: os algoritmos, a geolocalização, o controle sobre as comunicações eletrônicas, os drones, as câmeras de vigilância, e agora o QR code… Todo um arsenal tecnológico e jurídico transforma insensivelmente nossos Estados “de direito” em Estados policiais, e nossas sociedades “livres” em sociedades reféns do medo, onde a desconfiança barra a solidariedade e faz da hospitalidade um delito penal.
O dispositivo legislativo desenvolveu-se enormemente durante essa crise. A arbitrariedade policial aumentou. As liberdades dos indivíduos comuns são assas frágeis diante dos juízes.
A Federação Anarquista denunciara a proposta de lei de “segurança global”, em especial o célebre artigo 24 sobre a proibição de registrar imagens das forças policiais em ação, e de maneira mais geral o dispositivo que dava poderes excessivos aos policiais municipais. O Conselho Constitucional tomou uma posição curiosa: declarou inconstitucional o conteúdo do artigo 24 reformulado, mas aprovou outras disposições liberticidas. É de fato o texto como um todo que atenta contra as liberdades públicas, e que deve ser rejeitado.
Trata-se de uma tática que consiste em inscrever num texto um catatau jurídico, cujo grosso será evidentemente anulado para fazer passarem as minúcias, tão perigosas quanto.
Recentemente, o Conselho de Estado analisou o “Esquema nacional de manutenção da ordem” e contestou algumas disposições do texto. Da mesma maneira que no Conselho Constitucional, anula-se o grosso para fazer passar o resto. Assim, por exemplo, a tática do “kettling” é suprimida, por ser demasiado atentatória contra o direito de ir e vir.
Quatro disposições que miram a liberdade de informação também foram anuladas. Mas sejamos prudentes. Muitas disposições anuladas reaparecem noutros textos. Os redatores aproveitam-se da ausência de vigilância. Nos meses que se seguem, eleições presidenciais e legislativas obrigam, diante da ascensão da extrema-direita, a classe política profissional, direita e esquerda, a atacar com medidas restritivas e atentatórias contra as liberdades públicas. A Federação Anarquista não medirá esforços na luta contra o estabelecimento de um Estado cada vez mais policialesco e reacionário.
Federação Anarquista
federation-anarchiste.org
Notas:
[1] Jogo de palavras com o nome do partido de Emmanuel Macron, La République en Marche.
Tradução > Guilherme Tell
agência de notícias anarquistas-ana
Para esta viagem
A melhor companhia
É uma borboleta!
Shiki
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!