
Por William C. Anderson
William C. Anderson relata a vida do anarquista Preto que sequestrou um avião para Cuba para escapar da perseguição política nas mãos do Estado americano, e que revolucionou o ativismo Preto para sempre.
A edição definitiva de Anarchism and the Black Revolution (Anarquismo e a Revolução Negra) já está à venda.
Não é um exagero dizer que Lorenzo Kom’boa Ervin mudou o mundo. Inúmeras pessoas foram afetadas e influenciadas por seu trabalho ao longo dos anos. Sua história é um testemunho às possibilidades extraordinárias que estão logo abaixo da superfície de muitos momentos passageiros de nossas vidas. A primeira publicação oficial deste livro lendário, Anarquismo e a Revolução Negra, é mais uma ocorrência monumental em uma vida que parece quase ser de cinema.
Lozenzo nasceu em 1947 na cidade de Chattanooga, no Tennessee, sua mãe era uma trabalhadora doméstica e seu pai motorista. Com ambos os pais à serviço dos mais ricos e brancos durante o apartheid da lei Jim Crow, não demorou muito tempo até Lorenzo interiormente entender os riscos de ser Preto.
Na sua juventude, Lorenzo entrou para o exército durante a Guerra do Vietnã onde ele se tornara um ativista antiguerra. Esse foi o primeiro ano em que as forças de combate dos EUA desembarcaram no solo de um país que ainda se recuperava de todo o dano causado pelas forças imperialistas. Ao mesmo tempo, nos EUA se desenrolava o Movimento dos Direitos Civis. A Lei dos Direitos de Voto era assinada naquele mesmo ano em que a polícia do Alabama assassinava manifestantes no “Domingo Sangrento” em Selma e atacava ativistas associados com o Comitê Coordenador Estudantil Não-Violento (SNCC). Essa organização de movimento histórico atrairia Lorenzo depois de seu ativismo antiguerra leva-lo à corte marcial para ser acusado e finalmente dispensado.
Lorenzo vendia o jornal dos Panteras Negras enquanto trabalhava com a SNCC, que tinha alianças com o partido. Ele eventualmente começou a trabalhar como membro do partido, porém mais tarde Lorenzo se decepcionaria com o estilo de liderança além de outros aspectos dos Panteras Negras. As circunstâncias então mudaram drasticamente logo após o assassinato de Martin Luther King Jr. Uma onda de rebeliões e protestos tomou o país, e como resultado, os oficiais do Estado do Tennessee convocaram grandes júris para investigar e punir ativistas pretos e grupos de direitos civis por acusações criminais. Acusado de contrabandear armas e ameaçar bombardear um juiz simpático a Ku Klux Klan, Lorenzo fugiu para Atlanta. Ele decidiu fugir de vez das acusações contra ele e sequestrou um avião para Cuba.
Na época da partida de Ervin, sequestrar aviões e fugir para Cuba era muito mais comum do que as pessoas pensam. Os casos em que Pretos radicais o fizeram eram as vezes romantizados, mas a experiência de Ervin destaca uma distinção importante. Logo após sua chegada, ele se juntou a outros sequestradores antes de finalmente serem presos e colocados em solitárias pelo governo de Cuba. O líder do Partido dos Panteras Negras Eldrige Cleaver (que já estava em Cuba) tinha uma relação desgastada com o governo cubano devido a desentendimentos contínuos. Os outros Panteras seriam afetados pela intensidade dessa situação que acabou levando Lorenzo a obter documentos de viagem antes de ser deportado para a Tchecoslováquia.
Sua experiência na Tchecoslováquia não foi muito melhor. Lá ele seria submetido a assédio e monitoramento por oficiais do governo antes de ser detido mais uma vez. Apesar dos esforços de Lorenzo em assegurar sua segurança e a solidariedade entre os universitários africanos com que ele se relacionou, ele ficou detido pelo consulado americano em Praga. Lorenzo fugiria de novo, desta vez para a Alemanha Oriental, que por sua vez, fazia parte do Bloco Leste durante a Guerra Fria. É neste momento em que ele é capturado por autoridades federais, que o mandariam de volta aos Estados Unidos após o torturarem na prisão.
No Centro de Detenção Federal em Nova Iorque, a vida de Lorenzo mudaria após o encontro com Martin Sostre, um advogado da prisão e Educador Radical Preto. Se Sostre sabia ou não, é mistério, mas seu encontro com Lorenzo afetaria as gerações por vir. Foi Sostre quem primeiro apresentou Lorenzo ao anarquismo e o orientou, sobre o qual ele refletiu mais tarde em um ensaio que escreveu sobre Martin:
Ele jogou uma nova palavra em mim: “Socialismo Anarquista”. Eu não tinha ideia do que ele estava falando na época… Ele me explicou sobre o “socialismo auto governável”, o qual ele descreveu como um Estado livre de burocracias e de ditaduras de partidos ou líderes. Quase todo dia ele me contava sobre “Democracia Direta”, “Comunitarismo”, “Autonomia Radical”, “Assembleias Gerais” e outras coisas que eu desconhecia. Então eu apenas ouvia por horas enquanto ele me ensinava.
Sostre já tinha remodelado o sistema de prisão através de uma série de processos vitoriosos em torno dos direitos dos presos depois que sua incriminação o levou à prisão. Ele não sabia na época ao ensinar Lorenzo a Teoria Anarquista, ele estaria mudando o curso de política para muitos ao redor do mundo. Lorenzo foi julgado na pequena cidade de Newnan, na Georgia, onde recebeu a sentença de prisão perpétua por um júri composto somente por pessoas brancas. Ele eventualmente foi transferido para a penitenciária federal em Terre Haute, Indiana. Essa, por sua vez, era uma penitenciária conhecida por sua brutalidade onde o legado da Ku Klux Klan permanecia vivo.
Anarquismo e a Revolução Negra foi escrito na prisão em 1979. Foi escrito a mão e teve que ser escondido das autoridades da penitenciária, que poderiam destruí-lo. O folheto foi produzido primeiramente por um coletivo anarquista em Nova Iorque. Seu caso se tornou uma campanha solidária Anarquista internacional, o que eventualmente levou a sua soltura da prisão.
Anarquismo e a Revolução Negra é a escrita definitiva do Anarquismo Preto nos Estados Unidos. Se não fosse por este livro, muitas pessoas nos Estados Unidos e no mundo teriam caminhos políticos significativamente diferentes. Isso não é um exagero, já que o livro delineou os contornos de mudanças radicais dentro e fora das lutas pretas mais importantes. Ou seja, este texto representa a rejeição subestimada de narrativas simples que condensam histórias intrincadas em linhas retas em vez de formas complicadas. Seu texto original e suas edições expandidas que seguiram, detalham uma crítica contundente sobre as falhas do Poder Preto e do Movimento dos Direitos Civis. E o fez como um texto fundamental que oferece essas críticas de uma perspectiva negra anarquista.
Lorenzo insiste que sim, a casa e a plantação estão de fato queimando, mas nós não precisamos queimar com eles. Como uma rejeição de reforma e estatismo, ele nos desafia a não simplesmente tentar criar um novo Estado e pintá-lo de preto ou vermelho. Ele nos pede pra ir além do que tenha tido sucesso ou falhado no passado e pensar sobre a necessidade do presente. Ele nos assegura de que a libertação não será alcançada pela mimetização do que não nos fez livre no passado e não será alcançado em não questionar o que está acontecendo ao nosso redor no presente. Ele prepara o palco para muito do que está acontecendo diante de nós, irrigando campos áridos com o sustento apaziguador de políticas visionárias.
>> William C. Anderson é um escritor e ativista de Birmingham, Alabama. Com trabalhos publicados no The Guardian, Truthout, British Journal of Photography e Pitchfork, entre outros. Ele é o autor de “The Nation on No Map”, e coautor do livro “As Black as Resistance” e cofundador do “Offshoot Journal”. Ele também fornece direção criativa como produtor do podcast “Black Autonomy Podcast”
Fonte: https://www.plutobooks.com/blog/anarchism-and-the-black-revolution/
Tradução > Adriano Filho
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crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!
Vida longa à uaf! Vida longa ao anarquismo!