
Entre o militarismo escancarado do Partido Trabalhista e um movimento pacifista domesticado, cabe aos anarquistas intensificar a resistência às armas de destruição em massa
~ Ned Skinn’ ~
O patriotismo de bandeirinhas e desfiles para comemorar o 80º aniversário do Dia D tem, por ora, desviado nossa atenção de outro aniversário que se aproxima: o dos bombardeios atômicos sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. As imagens de destruição e sofrimento humano que se seguiram mostraram uma realidade horrível, refletida em filmes do tipo “como seria”, como Threads. A humanidade prendeu a respiração e decidiu que ninguém queria que aquilo se repetisse. Foi o medo da “destruição mútua assegurada” que, argumenta-se, manteve uma paz nuclear desde então.
Mas agora, pela primeira vez em quase 20 anos, acaba de ser anunciado que armas nucleares norte-americanas voltarão a ser instaladas em solo britânico. O primeiro-ministro britânico nos diz que devemos nos preparar para a guerra. Fala-se em conscrição e em uma espécie de milícia voluntária ao estilo da “Dad’s Army” (série de TV sobre civis armados na Segunda Guerra). A imprensa de direita tenta nos vender a mentira de que poderíamos sobreviver a um confronto nuclear. Empresas estão sendo orientadas sobre como se manter operacionais durante a guerra. Até “inimigos internos”, como o grupo Palestine Action, estão sendo alvos, com o aumento dos poderes policiais para reprimir possíveis agitações civis.
Diante de tudo isso, o movimento anarquista neste país tem uma longa história de envolvimento com o antimilitarismo e com a resistência às armas nucleares. Boa parte dela, talvez, esquecida. Pode ser útil relembrar esse passado.
Logo após o início dos testes nucleares britânicos, em 1952, surgiu a primeira geração de manifestantes antinucleares, com a formação da Campanha pelo Desarmamento Nuclear (Campaign for Nuclear Disarmament – CND) e o mais radical Comitê dos 100 (Committee of 100). Esses movimentos tinham amplo apoio popular, e não demorou para que o Partido Trabalhista percebesse o potencial eleitoral dessa base. A preocupação pública, especialmente após a crise dos mísseis de Cuba em 1962, fez com que muitos acreditassem na promessa trabalhista: “Vote em nós e baniremos a bomba!”.
Como antimilitaristas, os anarquistas já participavam de lutas contra a guerra anteriormente e alertavam que o Partido Trabalhista não era confiável. E, de fato, em 1964, o Partido Trabalhista voltou ao poder com a bandeira “banir a bomba”, e não perdeu tempo em seguir desenvolvendo o arsenal nuclear britânico. Essas mentiras e traições deveriam ter sido lições a serem lembradas para sempre.
Infelizmente, como muitos movimentos com origens radicais, a CND e outras organizações pacifistas passaram a ser lideradas por liberais de classe média, pacifistas cristãos e socialistas estatais “entristas”. Desde então, gerações de pessoas desejando “fazer algo” foram atraídas para o mesmo beco sem saída: escrever cartas a políticos, participar de marchas e serem incentivadas a “votar no Partido Trabalhista, sem ilusões”, repetidas vezes. Essa postura se manteve durante a intensificação da Guerra Fria nos anos 1980. Apesar das manifestações em massa e do acampamento em Greenham Common, a liderança do movimento pacifista continuou canalizando tudo para protestos inofensivos e para a política eleitoral.
Os anos 1980 também viram o ressurgimento do movimento anarquista. O interesse pelo que mais tarde se tornaria a Class War Federation começou após sua presença nas manifestações da CND. A cena anarcopunk e a atuação de anarquistas nos movimentos pelos direitos dos animais e pelo meio ambiente impulsionaram o interesse em nossas ideias. A ação direta, em todas as suas formas, tornou-se popular. Os ataques dos Tories à classe trabalhadora provocaram greves importantes, como as de mineiros, gráficos e paramédicos, incentivando uma política anarquista de luta de classes e levando à criação de organizações especificamente proletárias, como a Anarchist Communist Federation.
E agora? Só nos resta esperar para ver que efeito os acontecimentos recentes terão sobre a população em geral, especialmente a classe trabalhadora. Acredito que talvez as coisas precisem piorar antes de melhorar. Com o crescente autoritarismo e militarismo da sociedade, e com os esforços intensificados para reprimir a dissidência, o governo trabalhista está mostrando sua verdadeira face. Até onde a população suportará antes de despertar e agir?
Devemos manter nosso posicionamento antimilitarista e apontar o fato evidente: o Partido Trabalhista não é a solução, mas parte do problema. Isso colocará a esquerda em um dilema, então, mesmo sendo poucos, devemos agir e falar com integridade. Precisamos nos cuidar, mas também nos levantar, gritar e nos organizar. É o anarquismo que pode fornecer a faísca que acenderá a chama da mudança. Só precisamos riscar o fósforo.
Imagem do topo: Bloqueio antinuclear em Faslane, 15 de abril de 2013. Ric Lander no Flickr – CC BY-NC-SA 2.0
Fonte: https://freedomnews.org.uk/2025/06/28/nuclear-weapons-on-british-soil/
Tradução > Contrafatual
agência de notícias anarquistas-ana
é quase noitinha
o céu entorna no poente
um copo de vinho
Humberto del Maestro
bom texto!
posição lúcida. organização anarquista com marca registrada? pedindo ação do estado contra trabalhadores? opa, pera lá caceta!
Comunistas, Capitalistas e Anarquistas e a servidão voluntária. Mas... A hora mais escura é logo antes do amanhecer. (Provérbio árabe)
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.
Enquanto isso no Brasil...