Da Crueldade à Revolução: O Caso Orelha como Sintoma do Capitalismo e Chamado à Insurreição

O assassinato do cão Orelha não é um ato de crueldade isolado, um desvio patológico de alguns adolescentes ricos. É o sintoma podre e lógico de uma sociedade capitalista em estágio terminal, uma sociedade que metaboliza a violência, a dessensibilização e a dominação como seu princípio vital. O mesmo sistema que diariamente espolia trabalhadores, envenena rios, e destrói comunidades inteiras em nome do lucro, é o mesmo que gera indivíduos capazes de espancar um animal comunitário até a morte por diversão. A brutalidade não é uma anomalia; é o produto de um mundo que reduz tudo – vidas, naturezas, afetos – a mercadoria ou a obstáculo. O capitalismo é a escola primária da violência, e seus alunos mais aplicados estão apenas refletindo, em atos hediondos, a lógica de exploração e descarte que respiram.

A revolta justa e pulsante que tomou as ruas e as redes sociais após a morte de Orelha é, no entanto, habilmente canalizada pelos mesmos mecanismos estatais que sustentam o status quo. Enquanto a multidão clama por “Justiça”, o Estado oferece seu catálogo de espetáculos punitivistas: a internação de um adolescente, o endurecimento pontual de uma lei. É um teatro macabro que serve para conter a fúria social dentro dos limites seguros da legalidade burguesa. Transforma uma crítica profunda à cultura da violência em um mero ajuste processual, perpetuando a ilusão de que o sistema judicial e penal, estruturalmente classista e racista, pode algum dia produzir justiça verdadeira. Enquanto isso, a violência econômica, a violência do despejo, a violência da fome – todas muito mais letais e disseminadas – seguem sendo negócios autorizados e protegidos por lei.

Para que a revolta por Orelha não seja em vão, ela precisa romper essa camisa de força jurídica e perceber que o inimigo não são apenas os braços executores da barbárie, mas o coração que a bombeia: a propriedade privada, a mercantilização da vida, o Estado garantidor deste desastre. O cão comunitário era, em sua existência simples, uma negação viva da lógica privatista. Era um bem comum, um nó de afetos compartilhados, cuidado coletivamente sem dono ou certificado. Sua eliminação foi um ataque simbólico à possibilidade mesma do comum, àquilo que escapa ao controle do mercado e do individualismo possessivo. Defender sua memória, portanto, exige atacar o sistema que necessita erradicar tais formas de convívio livre e solidário.

A mesma frieza que permite ver um animal como um objeto para extração de diversão sádica é a que permite ver um trabalhador como um recurso humano descartável, uma floresta como um estoque de madeira, um território indígena como um empecilho ao progresso. É a psicopatia socializada do capital. Concentrar a indignação apenas no ato individual é ignorar o tumor social que o produz. A luta contra a violência animal, para ser consequente, deve ser inseparável da luta contra a violência sobre todos os corpos exploráveis. Deve ser anticapitalista, pois é o capital que cria a hierarquia de valores que justifica o domínio e a crueldade. Deve ser antiestatal, pois é o Estado que, com sua polícia e suas leis, protege a propriedade dos meios de produção que geram essa miséria material e espiritual.

Portanto, que a hashtag #JustiçaPorOrelha se transforme em um grito de guerra contra toda a ordem que fabrica Orelhas todos os dias. Que os abrigos comunitários ocupados se tornem bases de apoio mútuo não apenas para animais, mas para todos os seres precarizados. Que a energia dos protestos seja direcionada não para pressionar deputados, mas para organizar a defesa comunitária, para expropriar os recursos monopolizados por uma elite, para construir aqui e agora, nas rachaduras deste mundo moribundo, a sociedade baseada no cuidado e não na exploração, na solidariedade e não na competição, na liberdade e não na posse.

O capitalismo é o verdadeiro crime de maus-tratos em escala planetária. O Estado é seu cúmplice e carcereiro. A morte de Orelha é um episódio horrível dessa guerra permanente. Honrar sua vida não será conseguir uma nova pena no código penal de Santa Catarina. Será dedicar nossa fúria organizada e inteligente à tarefa imensa de demolir os alicerces desse matadouro social e, sobre seus escombros, aprender a viver de um modo onde nenhuma vida, humana ou não-humana, seja novamente tratada como coisa a ser usada, quebrada e descartada. A justiça verdadeira só virá com a revolução social.

Liberto Herrera.

agência de notícias anarquistas-ana

Flores silvestres
pequeninas e sem brilho
à espera de abelhas…

Goga

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