Chamada de 2026 – 11 de junho: solidariedade sem fim

Neste ano, enquanto marcamos o Dia Internacional de Solidariedade a Marius Mason e a Todas as Pessoas Anarquistas Presas de Longa Duração, estamos pensando na natureza da solidariedade como algo sempre mutável e interminável. Nossa solidariedade não é apenas para aquelas pessoas que estão presas, mas para todas aquelas que são assediadas, intimidadas, deportadas, perseguidas, forçadas à clandestinidade, torturadas e até mortas. Não apenas para indivíduos, mas para as lutas das quais fazem parte. Assim como a repressão oscila e as táticas do Estado se adaptam, se transformam e inovam, nossa prática de solidariedade ativa também deve fazê-lo. Precisamos nos adaptar ao terreno em mudança e às necessidades de nossos movimentos.

A solidariedade não termina quando o julgamento acaba e um veredito é alcançado, quando uma greve de fome conquista suas reivindicações, ou mesmo quando alguém é libertado da custódia e retorna aos braços de sua família e amigos. As consequências da repressão estatal duram muito além dos grandes momentos e da atenção da mídia. Sempre que um ciclo de luta chega ao fim como alvo do Estado, outro tomará seu lugar. Sempre que uma pessoa companheira é libertada da prisão, outra será levada para dentro dela. Nosso apoio deve continuar se espalhando para além de nossas amizades e redes imediatas. Deve ultrapassar as fronteiras dos Estados em direção a todas as terras e territórios onde pessoas estão lutando. Deve expandir-se para além do momento presente, honrando companheiras do passado e pensando em qual legado deixaremos para quem vier depois de nós.

Embora nossas táticas e estratégias mudem e evoluam com o tempo, devemos sempre enfrentar o momento com o impulso de avançar, e não permanecer esperando. Podemos assumir momentos de evasão e postura defensiva, apenas para retornar mais fortes e mais intransigentes. O contexto em que nos encontramos está sempre mudando, mas nosso propósito permanece o mesmo. Solidariedade sem fim significa agir constantemente em direção ao objetivo de destruir a ordem vigente.

Os riscos permanecem os mesmos, mesmo enquanto o terreno muda. As ameaças permanecem as mesmas, ainda que estejam se tornando mais comuns. Sentenças antes curtas tornaram se mais longas com designações de terrorismo e agravantes. Campos surgem ao lado das prisões. O policiamento torna-se mais evidente. Assassinatos tornam-se genocídios. Isso não é novo, mas sim um retorno a um estado previamente escalado que construiu os impérios coloniais de assentamento. As forças reacionárias de extrema direita do mundo vêm recuperando influência e poder há bastante tempo, alimentando-se do medo gerado por crises simultâneas, enquanto moderados tentam se agarrar a um status quo moderno, boiando em uma maré crescente e turbulenta. As crises são reais, assim como as recessões econômicas e a escassez crescente. E também será real a violência vinda de cima enquanto as autoridades tentam manter e centralizar ainda mais seu poder.

Anarquistas e outras pessoas que falam e agem já estão sendo explicitamente perseguidas no Irã, Rússia, Belarus, Indonésia, Itália, Grécia, México, Estados Unidos e em outros lugares. Aqueles que buscam manter o status quo exclamam: “eles não podem fazer isso!”. Nós reconhecemos que sempre puderam, ainda que em escalas menores e mais “polidas” no passado recente. O medo das pessoas no poder também está se concretizando, enquanto vemos proliferações de levantes ao redor do mundo quebrando como ondas sobre uma praia em erosão. Vemos como a autoridade é vulnerável em momentos de crise, enquanto a luta retorna a velhos espaços como locais de trabalho e barricadas, ao mesmo tempo em que traçamos novas vias de ataque.

As consequências de agir contra a ordem dominante parecem estar se intensificando, então somos levadas a reconhecer aquilo que sempre soubemos ser verdade: meias medidas são uma armadilha. Colaborar com a esquerda institucional e com estatistas moderados em seus próprios termos significa apenas fortalecê-los para sua própria coerção e violência vertical caso triunfem. Encontramos cumplicidades produtivas quando agimos a partir de princípios anarquistas, construindo o fortalecimento de todas as pessoas contra qualquer nova autoridade. O poder sobre nossas vidas deve permanecer em nossas próprias mãos, sem mediações. E parece que muitas pessoas reconhecem isso quando centros de dados e inteligência artificial tornam-se focos de resistência.

A catástrofe climática em curso já havia sido reconhecida por nossas pessoas combatentes presas há décadas, enquanto novas tecnologias como a IA continuam aprofundando o curso ecocida. Nos preparando para a escassez, nos recolhemos para contra-atacar, idealmente sem nos solidificar a ponto de perder a adaptabilidade. Conforme o terreno muda, podemos permanecer móveis, sem esperar pela nova repressão. A solidariedade sem fim é tanto antecipatória quanto ativa.

Enfrentar os riscos reais de nossas lutas, vida e morte, não precisa nos conduzir a um caminho de pessimismo constante. Pelo contrário, pode nos oferecer o presente da apreciação por cada pequena vitória e por cada coisa mundana e bela. Isso também é um ciclo de solidariedade. Há dias que partem nossos corações. Há dias que os enchem novamente a tal ponto que tememos que explodam de nossos peitos. Cada pessoa companheira é preciosa. Assim como cada libertação, absolvição, acusação retirada ou acordo de não cooperação para obter pena já cumprida, cada pequena vitória conquistada por meio de uma greve, cada ação coletiva ou revolta individual ousada apesar de tudo dizer que não vale a pena. Devemos permitir que cada uma dessas coisas traga um sorriso aos nossos rostos, mesmo enquanto tantas outras pessoas continuam encarceradas. Devemos permitir que cada pequena vitória ocupe seu lugar na narrativa de nossas lutas, conectando passado e futuro. Devemos deixar que essa apreciação nos dê força e ousadia. Neste ano, celebramos a recente libertação de Hybachi LeMar, Peppy e Casey Brezik. Marius Mason, após quase duas décadas em uma prisão federal, deve ser transferido para uma casa de transição em maio deste ano. As acusações contra pessoas rés do movimento Stop Cop City nos Estados Unidos começam a ser retiradas. Monica Caballero, no Chile, terá outra chance de liberdade condicional. Acusações foram retiradas contra uma pessoa companheira em Munique e cinco anarquistas em Belarus foram libertadas. A solidariedade ativa, baseada em princípios e em expansão contínua ao redor do mundo, especialmente exemplificada por companheiras na Grécia em torno do julgamento de Ampelokipi.

>> Mais infos: june11.noblogs.org

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Um mundo de orvalho,
E em cada gota de orvalho
Um mundo de lutas.

Issa

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