Fujimorismo: A dinastia do crime e da farsa de Estado no Peru

Manuel González Prada nos alertou que, no Peru, “onde quer que se coloque o dedo, pus escorre”. Décadas depois, a putrefação progrediu tanto que não encontramos mais um corpo doente, mas um cadáver social neste território ocupado chamado Peru. Grande parte dessa decadência se deve ao legado do regime de Alberto Fujimori e à perpetuação desse legado, agora liderada por sua filha, Keiko Fujimori.

O fujimorato da década de 1990 foi o exemplo perfeito de autoritarismo e controle social. Não só perseguiu opositores, como também neutralizou qualquer indício de dissidência social. Para alcançar esse objetivo, aperfeiçoou mecanismos de idiotização e despolitização em massa: uma mídia corrupta, um sistema de educação pública deplorável e programas de bem-estar social populistas envoltos em um eficaz marketing político. Dessa forma, construíram a figura de um “salvador” em uma nação historicamente acostumada a esperar por messias, impedindo-a de compreender que a verdadeira emancipação reside nos indivíduos organizados.

A compra literal de apoio político, revelada nos infames “Vladivideos“, filmados pelo mentor do regime, Vladimiro Montesinos, institucionalizou a corrupção, transformando-a em uma prática normalizada dentro da estrutura institucional peruana. Essa mesma lógica criminosa permanece intacta até hoje. O julgamento oral do “Caso Cócteles” contra Keiko Fujimori, no qual a promotoria busca uma pena de 30 anos de prisão, revelou a lavagem de mais de US$ 18 milhões, financiados secretamente pela construtora transnacional Odebrecht e pela oligarquia financeira local. Isso evidencia uma grande verdade anarquista: os partidos políticos não representam as comunidades, mas sim são empresas de fachada financiadas pela alta burguesia para comprar o aparato estatal por meio de votos delegados.

Apesar de sua fuga para o Japão e subsequente captura no Chile, a prisão de Alberto Fujimori acabou sendo um confinamento VIP. Enquanto isso, seu círculo íntimo operava nos bastidores para pavimentar o caminho para seus sucessores, consolidando Keiko Fujimori como chefe da organização. Com o tempo, o fujimorismo forjou alianças estratégicas com a APRA e outras facções da direita formal. Isso demonstrou que as redes estatais se reorganizam para manter o poder nas mãos dos mesmos grupos; os “líderes” podem cair, mas a máfia política permanece.

Na última década, as formas mudaram, mas não a essência. Ao conquistar a maioria no legislativo, o fujimorismo repetiu a lógica do absolutismo: fazer e desfazer decisões no Congresso. Utilizaram a mídia corporativa para empobrecer cognitivamente a população com conteúdo de baixa qualidade. Ao mesmo tempo, o movimento social — sistematicamente destruído na década de 1990 — tentou se reorganizar, mas acabou se dissolvendo devido à ascensão de líderes autoritários nacionalistas e de esquerda que buscavam apenas ganhos eleitorais, reforçando assim o mito messiânico do homem forte.

Hoje, um Congresso com maioria fujimorista e aliado aos setores mais ultraconservadores tomou o poder absoluto. Eles destituíram presidentes arbitrariamente, impuseram um sistema bicameral explicitamente rejeitado pelo povo em referendos e anularam a capacidade de legislação de iniciativa popular. Esse absolutismo parlamentar resultou nas chamadas “leis pró-crime”. Por meio de legislações como a Lei 32108, que obstrui operações judiciais contra o crime organizado, ou o prazo de prescrição para crimes contra a humanidade (Lei 32107), aprovada para garantir a impunidade dos assassinos do Estado na década de 1990 diante dos massacres de camponeses, o fujimorismo transformou o legislativo em um bunker protetor para corporações ilícitas e criminosos de colarinho branco. Tudo isso ocorre sob uma retórica de “democracia e ordem” que apela para o trauma histórico do conflito armado interno. O fujimorismo usa o espectro do Sendero Luminoso para rotular como “terrorista” (terruqueo) qualquer pessoa que levante a voz, justificando a criminalização do protesto e o uso implacável da violência policial.

Para pôr fim a essa desordem social destrutiva, a tarefa histórica não é reformar o Governo, mas desmantelar completamente o Estado da era fujimorista e seus mecanismos de controle. Atualmente, a coalizão mafiosa liderada pelo fujimorismo utiliza sistematicamente quatro mecanismos estatais principais para garantir sua hegemonia:

  1. O Mecanismo de Impunidade Legal (Captura do Sistema Judiciário): Através da subjugação do Tribunal Constitucional, da Ouvidoria e do constante assédio à Procuradoria-Geral da República, desativaram os mecanismos de controle e equilíbrio do sistema judiciário. O Estado não processa mais crimes; ele se tornou um escudo legal que engaveta as investigações do Ministério Público contra criminosos de colarinho branco.
  2. O Dispositivo de Castração Legislativa (O Cadeado do Congresso): Ao controlar o aparato bicameral, eles anularam o direito da população à iniciativa legislativa autônoma ou ao referendo. As leis não emergem mais do tecido social, mas são, em vez disso, decretos corporativos elaborados para favorecer monopólios e máfias envolvidas em mineração ou extração ilegal de madeira.
  3. O Aparato de Coerção Armada (Militarização e Leis de Impunidade Policial): Ao modificar as normas policiais e criminais para enfraquecer as investigações, o fujimorismo concedeu carta branca à impunidade às forças repressivas do Estado. O monopólio da violência armada serve para proteger os interesses comerciais da mineração e da extração, massacrando e processando qualquer tentativa de greves ou protestos regionais.
  4. O Dispositivo Ideológico da Alienação Mental (Guerra Cultural e Mídia): Operando por meio de corporações televisivas oligárquicas, elas disseminam conteúdo lixo que destrói a memória histórica, promove o hiperconsumismo e normaliza o fascismo social através da xenofobia e do classismo.

Nessa farsa de controle, tanto o fujimorismo quanto a esquerda partidária concordam: ambos reduzem a política ao ato submisso de votar. Os partidos obedecem a cálculos econômicos e pactos burocráticos que excluem completamente o povo da tomada de decisões diretas. A esquerda peruana, serva da lógica eleitoral, tem sido incapaz de renovar o movimento social sem instrumentalizá-lo em suas campanhas, alimentando a falsa crença em um “Estado salvador”. Mas o Estado peruano é uma máquina quebrada; não importa quantas vezes troquem de motorista ou tentem consertar o leme, ele só produz burocracia e um completo distanciamento das necessidades do povo.

Sob o jugo fujimorista, apostar em processos democráticos limitados às urnas é validar a continuidade do seu controle. O legado dos Fujimori persiste porque a estrutura estatal o permite. Diante disso, resta apenas a resistência popular auto-organizada. Precisamos de um movimento social autônomo, livre da interferência de partidos políticos, que teça redes genuínas de apoio mútuo em vez de depender da assistência estatal. O objetivo deve ser avançar rumo a autogovernos horizontais e federados que funcionem como polos econômicos alternativos ao capitalismo, desmantelando pela raiz os aparatos estatais que servem tanto ao fujimorismo criminoso quanto a uma esquerda reformista, desgastada e complacente. Poder popular e horizontal, sempre. Saúde e Liberdade nos Andes.

Christian Alarta

agência de notícias anarquistas-ana

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