
por Eric Laursen
Fifth Estate # 417, Winter 2025
Uma resenha de Stop Thief! Anarchism and Philosophy (Pare ladrão! Anarquismo e Filosofia, edição em inglês)de Catherine Malabou, e Carolyn Shread, tradução. Polity Press, 2023
O livro desafiador e de título provocativo de Catherine Malabou nos lembra o quanto o anarquismo é filosoficamente radical, começando pela decisão, que parece simples, de Pierre Proudhon de se autodenominar anarquista no século XIX. Em seguida, investiga um fato curioso sobre a filosofia europeia do pós-Segunda Guerra Mundial: quantas das figuras mais célebres foram atraídas pela ideia de anarquia, mas descartaram o anarquismo como filosofia política: a “negação ladra do anarquismo”, como Malabou a chama.
É um ponto importante, porque alguns desses pensadores continuam sendo muito influentes, inclusive em círculos anarquistas. Eles fizeram ou provocaram perguntas importantes; o que é democracia? O que é política? O que significa ser anarquista? Adicionaram novas compreensões importantes sobre poder e dominação, governamentalidade e resistência. Alguns deles também causaram grandes travessuras, caricaturando o anarquismo e insistindo que anarquia e anarquismo são duas coisas separadas.
Malabou é uma filósofa e acadêmica francesa conhecida; o seu orientador de doutorado foi o filósofo francês Jacques Derrida, e ela chegou a publicar um livro junto com ele; sobre neurociência, epigenética, psicanálise e feminismo, entre outros temas. Pare ladrão! é seu primeiro livro sobre anarquismo, e a sua análise oferece uma perspectiva renovada sobre o que torna o anarquismo único e importante como filosofia, e não só como movimento político.
Contudo, ela não examina o pensamento anarquista em detalhes, e o seu foco é Ocidental, voltando a Diógenes e Aristóteles, evitando o trabalho de pensadores anarquistas não europeus e não americanos. Isso porque a sua preocupação é como filósofos europeus do pós-guerra se apropriaram de elementos da filosofia anarquista, sem reconhecer a sua dívida, fazendo, no processo, a sua própria contribuição indireta para a tradição.
Os filósofos que Malabou examina são Reiner Schiirmann, Emmanuel Levinas, Jacques Derrida, Michel Foucault, Giorgio Agamben e Jacques Ranciere. Começa contrastando a obsessão do marxismo pela história e com a afinidade do anarquismo pela geografia, por meio de pensadores como Peter Kropotkin e Elisée Reclus que, por sua vez, foram geógrafos de destaque. Criaram uma forma mais horizontal e nova de entender as realidades políticas e econômicas, em vez das “leituras verticais” do marxismo, argumenta Malabou.
O anarquismo nunca foi simplesmente um ataque ao Estado, ela nos lembra, mas é “antes de tudo, uma luta contra a mecânica da dominação” em “todos os domínios da vida”. Proudhon e os pensadores anarquistas que vieram depois dele fizeram uma “revolução semântica”, que foi importante para todos os filósofos que Malabou discute no livro, propondo que a anarquia não é caos, é “a expressão mais alta da ordem” (Reclus), e que a ordem “árquica” é, na verdade, uma desordem porque “não é fundada no consentimento livre”.
“Arquia”, do grego arché, é uma palavra-chave para Malabou, estabelecendo a soberania e o poder do governo como o primeiro princípio da vida política. “Não há tratado na filosofia política clássica”, nos diz, “que não comece com a consideração conjunta da autoridade soberana e governamental, consideradas como pontos de partida absolutos”. Isso é um erro: anarquia, desordem, precede a arché, e a ofusca perpetuamente.
Ser anarquista, diz Malabou, implica “resistência absoluta à arché despotike“: à “domesticação” feita por sistemas de dominação. O próprio anarquismo é “a única forma política que precisa ser sempre inventada, moldada antes de existir, justamente porque não depende de um começo ou comando… Essa plasticidade é o significado do seu ser”. Reduzi-la a uma única autoridade, mesmo que seja a sua própria, é impossível.
Os seis filósofos que Malabou discute ajudaram a descentralizar o “paradigma árquico” na filosofia ocidental, argumenta. Levinas anarquizou o termo “eleição” para significar não a escolha de um candidato a cargo público, outro construtor do Estado, mas a escolha de agir sem coerção: “sem que qualquer regra seja apresentada à consciência ou à vontade”. Esse tipo de eleição só pode acontecer em uma sociedade realmente livre; Não é um “assunto nacional, é um fermento revolucionário global”.
Foucault, que Malabou chama de “um dos poucos filósofos do século XX que leva [o anarquismo] a sério no campo da política”, adotou a noção de Thomas Hobbes, de que o Estado, o soberano, é necessário para organizar a sociedade de modo que a natureza bruta da humanidade seja mantida sob controle.
O estado de natureza é a sociedade, argumentou Foucault, e o Estado é palco de uma guerra permanente entre aqueles que detêm o poder e os que não o detêm. Essa é a essência da política, desde que surgiram soberano e Estado.
Uma distinção fundamental para Malabou é entre o ingovernável e o não governável. Os ingovernáveis rebelam-se contra a autoridade, mas muitas vezes, ao fazê-lo, a reforçam, seja por meio da sua derrota ou deixando que ela os coopte. Para os não governáveis, ser governado simplesmente não é possível: “indiferença ao poder, indiferença à lógica do comando e da obediência”. Lendo nas entrelinhas, isso é o que o Grande Irmão mais quer eliminar em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de Orwell. É o anarquismo na sua essência, ou para Foucault, a “experiência limite”, aquela que leva a política ao limite.
Agamben faz uma observação semelhante: essa transgressão, que é uma ofensa contra a lei ou autoridades estabelecidas, como o Estado ou a Igreja, muitas vezes pode parecer libertadora; mas pode, na verdade, fortalecer aquilo que pretende derrubar. O que precisamos, em vez disso, argumenta, é uma forma de falar sobre poder sem tomar emprestado nada da linguagem que lhe confira qualquer dimensão “sagrada”: revelar até mesmo a dimensão política de Deus. Isso nos dá a capacidade de “desativar” a autoridade e torná-la inoperante. O papel do anarquismo, diz Malabou, é explorar o potencial de ir além da transgressão e se tornar esse meio de desativação.
Rancière, a quem Malabou chama de “um dos grandes pensadores da anarquia”, pede que recuperemos o termo “democracia” do Estado, retornando ao seu significado original de “igualdade radical”. Isso expõe a contradição na política moderna chamada democrática: embora prometa igualdade na vida pública, isso nunca se traduz em igualdade “aritmética”, ou seja, distribuição igual do bem comum. O capitalismo e o Estado resolvem esse problema colocando as massas em tarefas simples e exaustivas que não lhes dão tempo para participar plenamente da vida pública.
A política real, argumenta Rancière, não se encontra na política falsa das eleições e órgãos representativos, mas fora deles, na “esfera na qual os erros podem ser formulados, expressos e julgados”. Estritamente falando, não existe governo democrático, sustenta, porque a democracia, no significado original, não é governável. “O político”, observa Malabou, “é a forma anárquica da comunidade”.
Como seria um estado de “igualdade radical”, ou anarquia? Seria “um bazar constitucional, uma roupa de arlequim”, escreve. “É propriamente o regime que derruba todas as relações que estruturam a sociedade humana”.
Ranciere e os outros nos lembram de não ignorar a anarquia no anarquismo, e que democracia e política real são, fundamentalmente, anarquistas. Então, por que relutaram tanto em se assumir como tal? Explicar esse fracasso quase a deixa perplexa, admite Malabou. “O problema anarquista, desde Proudhon, é justamente pensar em política sem a ajuda da hegemonia, observa, e esse é, de certa forma, o mesmo desafio que Agamben levanta.
Os seis filósofos abordados em Stop Thief! compartilham algumas críticas centrais ao anarquismo: a “confiança benevolente” na capacidade da natureza humana de criar uma sociedade justa sem coerção, e uma paixão niilista pela violência, o terrorismo e a morte. O mesmo, entretanto, pode ser dito de qualquer movimento político radical. Uma terceira objeção, mais ardilosa, é que o anarquismo enfrenta um duplo laço: ser anarquista é obedecer a uma ordem, o que seria muito pouco anarquista, semelhante à ordem de ser espontâneo.
O anarquismo é diferente, responde Malabou, porque é a única filosofia política que se ancora no não governável, com a sua radical estranheza à dominação. A não governabilidade se funde com o ser, ela diz, que não se importa com poder e, portanto, é improvável que o reproduza.
O desafio filosófico para a esquerda, portanto, era descobrir como “pensar” o ser e a política juntos. O comunismo tentou, mas somente recorrendo à arché, chegando a “becos sem saída aterrorizantes [e violentos]”. Malabou admite que o anarquismo também não resolveu o problema, até agora, mas com a base na não governabilidade, fica muito mais preparado para isso. “O verdadeiro anarquista”, diz, “é ser genuinamente quem é.”
Derrida, Foucault e companhia deixaram passar esse aspecto ontológico do problema, argumenta Malabou, o que pode explicar por que não conseguiam ver que a sua própria análise deveria tê-los levado ao anarquismo. É um ponto convincente. Ela também sugere algo um pouco mais mundano, no entanto. Todos os seis filósofos que discute começaram seu desenvolvimento político como marxistas, embora alguns tenham seguido em frente e todos tenham criticado pelo menos alguns aspectos da fé. O marxismo, porém, saturou os círculos filosóficos continentais nas décadas após a Segunda Guerra Mundial e os dotou do seu próprio esnobismo.
Para um filósofo, “não há vergonha, e nunca houve, em se declarar marxista”, observa Malabou, mas “chamar-se de anarquista é quase indecente”. Que tal “não governável”?
Eric Laursen é escritor anarquista, jornalista e militante de longa data. O seu livro mais recente é Polymath: The Life and Professions of Dr. Alex Comfort (Polímata: a vida e as profissões do Dr. Alex Comfort), autor de “The Joy of Sex” (A alegria do sexo). Ele mora em Connecticut.
Tradução > CF Puig
agência de notícias anarquistas-ana
sol em plenitude
uma rã pula — em versos
barulho de Vida
Roséli
bom texto!
posição lúcida. organização anarquista com marca registrada? pedindo ação do estado contra trabalhadores? opa, pera lá caceta!
Comunistas, Capitalistas e Anarquistas e a servidão voluntária. Mas... A hora mais escura é logo antes do amanhecer. (Provérbio árabe)
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.
Enquanto isso no Brasil...