
Há acontecimentos que marcam um divisor de águas na história, seja quando falamos de História com “H” maiúsculo, seja de histórias pessoais. Para a geração que se iniciou no ativismo na onda de 1968, foi certamente o massacre de estado da Piazza Fontana; para muitos da minha geração, foram os dias do G8 em Gênova, em julho de 2001. Não quero, de forma alguma, comparar os dois fatos, que tiveram gravidade, contextos e dinâmicas completamente diferentes, mas ambos decretaram para muitas pessoas o momento da “perda da inocência”. E é por isso que, embora tenham se passado vinte e cinco anos, a memória ardente daqueles dias ainda está presente como algo vivo, como se fosse ontem. E, portanto, é importante falar sobre isso e refletir, embora o mundo, nesse ínterim, tenha mudado radicalmente, em muitos aspectos para pior.
Para falar de Gênova, é preciso contar aquele movimento transnacional que foi chamado de “No global”, principalmente pela mídia mainstream. Embora de forma subterrânea já existisse há algum tempo, ganhou ressonância mundial com a contestação à cúpula da OMC (Organização Mundial do Comércio) em Seattle, no final de novembro de 1999, quando dezenas de milhares de pessoas foram às ruas com a intenção de contestar e bloquear de todas as formas possíveis aquele encontro dos poderosos da Terra. Entre o barulho das vitrines quebradas e das barricadas contra a polícia, entre o gesto de quem ajudava a amenizar os efeitos do gás lacrimogêneo e as paradas irreverentes do exército de palhaços (clown army), um novo, potente e multifacetado movimento internacional se impunha em cena para contestar os donos do mundo. A partir daí, onde quer que se realizasse um fórum dos organismos internacionais (FMI, Banco Mundial, OCDE, Otan…), dezenas e, às vezes, centenas de milhares de pessoas protestavam e sitiavam os locais físicos das cúpulas.
Além de sua difusão em todos os continentes, a outra característica importante daquele movimento foi sua capacidade de reunir não tanto as ideias, mas as diferentes práticas de rua. Com efeito, com modalidades diversas a cada vez, por quase dois anos não houve aquela divisão devastadora entre “bons” e “maus”, praga de tantas mobilizações, mas uma pluralidade de abordagens que conseguiam conviver: do exército de palhaços à marcha pacifista, do black bloc à greve sindical. As instituições responderam com violência crescente, até chegar a março de 2001, quando os protestos no Fórum Global em Nápoles terminaram com uma chacina policial na Piazza Plebiscito e com as torturas dos detidos levados ao quartel Raniero, e a junho de 2001 em Gotemburgo, quando um policial disparou três balas nas costas de um manifestante de 19 anos que, por sorte, sobreviveu. Uma clara antecipação do que aconteceria em julho.
O G8 de Gênova deveria representar, na cabeça de muitos, o ponto mais alto daquele movimento e, em vez disso, marcou seu fim, junto com o atentado às Torres Gêmeas em setembro do mesmo ano. Uma das causas foi que as muitas almas que se reuniram no Genoa Social Forum, a rede que organizou a contracúpula, reproduziram, de fato, as velhas lógicas hegemônicas e autoritárias dos aparatos políticos e sindicais, não incorporando aquelas novas formas de acordo e compartilhamento de práticas próprias do movimento antiglobalização em outros países. Foi assim que a violência estatal, desdobrada em toda a sua ferocidade, pôde ter campo livre para dividir o movimento, incutindo dúvidas e suspeitas. Isso apesar de a ordem de engajamento das “forças de segurança” ser clara desde a manhã de sexta-feira, 20 de julho: massacrar todos e todas sem hesitação. O assassinato de Carlo Giuliani, as surras selvagens nas ruas, as torturas de Bolzaneto, a chacina na escola Diaz não foram “incidentes”, mas o fruto de uma encenação planejada há muito tempo. Uma lição prática da democracia real, mais eficaz do que mil discursos subversivos. Apesar disso, muitas almas da esquerda pacifista e institucional continuarão, ao longo dos anos, a falar em democracia traída.
Os “Anarquistas contra o G8”, aos quais se referiam boa parte dos anarquistas de língua italiana que foram a Gênova, escolheram ignorar o cerco à zona vermelha onde estavam os Chefes de Estado, manifestando, em vez disso, em Sampierdarena, na Gênova proletária, aquela das grandes lutas operárias. Apostamos na greve geral, criamos comitês de greve em diversas cidades que deram vida a assembleias territoriais. Apostávamos na radicalidade dos objetivos e no enraizamento social. No número da Umanità Nova que foi distribuído em Gênova, escrevíamos:
“As manifestações internacionais, como a de hoje em Gênova, foram e serão importantes porque conseguem evidenciar o caráter destrutivo, violento e irrefreável dos vários organismos supranacionais, mas não podem representar o ponto central de um caminho que deve, necessariamente, desenvolver-se em outro lugar. A força deste movimento está na capacidade de conciliar radicalidade e enraizamento, agir e pensar localmente e agir e pensar globalmente, e não deve se esvaziar na mera contestação das cúpulas dos poderosos. Caso contrário, corre-se o risco de se tornar uma espécie de ’tour operator’ da contraglobalização, especializado em viagens para países exóticos. Uma espécie de Camel Trophy da subversão, com direito a emoções já programadas. Ou, pior, de servir de movimento de suporte para uma esquerda institucional exangue em busca de cargos e de novos rostos. No Genoa Social Forum, participaram políticos de todas as estirpes necessitados de legitimação. (…)
Este é um mundo que corre, corre cada vez mais rápido, e igualmente rápido tritura experiências, percursos e também os movimentos sociais que não sabem se furtar ao espetáculo, à lógica insana que, imitando insensatamente as regras impostas pelo marketing, consome rapidamente, tornando subitamente obsoleta, até mesmo a capacidade de crítica, superação e negação do instituído. É uma armadilha a ser evitada, desconcertando o adversário, multiplicando a própria capacidade de abrir novos terrenos, zonas autônomas, espaços livres. Para superar os numerosos impasses em que corre o risco de se enroscar, é necessário que o movimento saiba se espalhar pelo território como poeira, construindo relações conflituosas que se alimentem da capacidade de construção intencional de outros mundos, outras relações, outras vidas. Todos os dias, em qualquer lugar. A tensão para uma ação radical que saiba extrair seiva de um enraizamento profundo, de uma capacidade de projetar que possa penetrar profundamente o presente, pode ser o sinal de um movimento revolucionário capaz de construir seu próprio futuro no hoje. Como anarquistas, começamos, não sem dificuldades, a nos mover nessa direção, a única capaz de recolher as demandas mais fecundas desses movimentos. Mas pode-se e deve-se fazer mais.”
Acreditamos que essas palavras são mais atuais do que nunca. A história, de fato, deixou claro que somente onde nasceram movimentos amplos que conseguiram conciliar uma forte presença territorial com o método da ação direta de massa e não apenas de minorias de militantes, governos e patrões tiveram medo. A escolha de tentar ser radicais e enraizados é, portanto, para nós, o legado principal daqueles dias de julho, uma aposta que se renova a cada dia nas lutas que promovemos e atravessamos. Uma ação constante de subtração conflituosa do instituído que se combina com a prática da autogestão e da luta cotidiana.
Um companheiro que estava lá
Para ler e baixar o especial da Umanità Nova publicado logo após o G8:
umanitanova.org/wp-content/uploads/2021/07/Le-tre-giornate-di-Genova.pdf
Fonte: https://umanitanova.org/36486-2/
Tradução > Liberto
agência de notícias anarquistas-ana
jardim sem flor
entre as páginas do livro
a rosa e sua cor
Alice Ruiz
Viva a revolução espanhola e viva a anarquia!
bom texto!
posição lúcida. organização anarquista com marca registrada? pedindo ação do estado contra trabalhadores? opa, pera lá caceta!
Comunistas, Capitalistas e Anarquistas e a servidão voluntária. Mas... A hora mais escura é logo antes do amanhecer. (Provérbio árabe)
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.