[Reino Unido] Mikhail Bakunin: Uma vida intensa e transbordante

Marcando os 150 anos da morte do grande revolucionário, cuja visão do anarquismo permanece mais relevante do que nunca

Por Nikolay Gerasimov

O nascimento político e cultural do anarquismo russo ocorreu na virada do século XX, quando Kropotkin e seus colaboradores começaram a publicar, no exílio, obras teóricas em russo. Foi então, décadas após sua morte (há exatos 150 anos), que o legado de Mikhail Bakunin passou a ser reinterpretado de forma intensa. De repente, descobriu-se que suas obras continham elementos de irracionalismo filosófico, misticismo e um forte pathos teomáquico (de enfrentamento ao divino). Como resultado, surgiu no anarquismo russo uma enorme diversidade de correntes, algo sem paralelo na Europa ou nos Estados Unidos: anarquismo místico, anarco-biocosmismo e anarquismo cristão, que combinava o radicalismo de Bakunin com a crítica de Tolstói ao Estado e à civilização.

Bakunin transformou-se ao longo de toda a sua vida. Houve o Bakunin romântico, fascinado pela filosofia clássica alemã. Houve o Bakunin defensor do método das ciências naturais. Houve o Bakunin socialista. E, finalmente, houve o Bakunin revolucionário anarquista. Todas essas características coexistiam na mesma pessoa, mas manifestavam-se em diferentes etapas de sua biografia. Para acompanhar essas transformações em detalhes, é necessário estudar profundamente sua correspondência. Mas uma coisa permaneceu inalterada: para ele, não existiam fronteiras entre seu mundo interior e o universo exterior, e ele sabia transformar todas as suas experiências em ação.

A ideia central de Bakunin é que o poder não está localizado em um único lugar, mas dissolvido em todas as instituições: sociais, econômicas e espirituais. O Estado, o capital e os produtores das normas culturais formam um único sistema de opressão. Hoje vemos que corporações transnacionais e Estados podem entrar em conflito, mas, em última instância, são sempre aliados. Por isso, colocá-los em oposição, por exemplo, considerando as corporações “progressistas” e o Estado “reacionário”, é um erro fundamental. A visão abrangente e integradora de Bakunin é hoje mais atual do que nunca.

A crítica de Bakunin à representação também atinge a moderna fé cega na tecnologia e na inteligência artificial. Para Bakunin, delegar a liberdade humana a qualquer agente abstrato, sejam cientistas, políticos, clérigos ou algoritmos de IA, é algo monstruoso. Isso porque todo o sistema digital de controle está nas mãos de um grupo social restrito que defende seus interesses financeiros e políticos. A liberdade só é possível por meio da auto-organização direta da sociedade. Da mesma forma, muitos políticos e figuras da mídia de hoje falam em nome dos oprimidos, enquanto defendem exclusivamente seus próprios interesses.

Quanto ao homem Bakunin: usando uma expressão atual, ele tinha limites pessoais muito frágeis. Intrometia-se abruptamente nas relações pessoais dos outros, mesmo quando ninguém lhe pedia isso. Um exemplo marcante são suas irmãs. Bakunin lhes dava conselhos constantemente, indignava-se com suas escolhas e, às vezes, influenciava de maneira significativa suas decisões sobre casamento e vida pessoal. Com seus amigos, comportava-se de forma semelhante.

Bakunin interessava-se absolutamente por tudo, ao mesmo tempo. De um lado, refletia incessantemente sobre seus próprios sentimentos, pensamentos e sofrimentos; de outro, era profundamente afetado pelos acontecimentos políticos e avaliava constantemente a sabedoria daqueles que faziam parte de seu círculo mais próximo.

Quanto ao seu sofrimento pessoal, ele talvez se assemelhasse ao de Emma Goldman, que também defendia o amor livre. Para Bakunin, isso não era um drama pequeno ou cotidiano. Seu sofrimento funcionava como uma fonte inesgotável de criação e era facilmente convertido em energia revolucionária construtiva.

Nacionalistas contemporâneos às vezes tentam apresentar Bakunin como alguém que compartilhava de suas ideias, alguém que teria combatido o universalismo em favor da liberdade dos povos eslavos. Mas isso é fundamentalmente incorreto. Bakunin acreditava que o mundo deveria desenvolver-se segundo o princípio de estruturas federativas ou, idealmente, confederativas. Sim, numa primeira etapa, grupos linguísticos e grupos étnicos precisariam libertar-se das amarras imperiais. Mas ele jamais defendeu a criação de Estados-nação separados com base na etnia. Pelo contrário, buscava unir povos diversos de modo que se evitasse tanto o surgimento de novos impérios quanto a formação de Estados-nação fechados.

Bakunin também não era um ateu banal. Oponha-se radicalmente ao ateísmo formal e superficial, em que alguém simplesmente declara que Deus não existe e encerra a discussão. Um de seus manuscritos, dedicado ao “fantasma divino”, trata justamente disso: para considerar seriamente a ausência de Deus, é preciso mergulhar profundamente na literatura religiosa e refletir sobre ela.

Na filosofia de Bakunin, o político e o religioso estão intimamente entrelaçados. Era fundamental para ele revelar a função governamental do sagrado dentro do sistema político e emancipar esse sagrado, libertando-o das amarras do poder. Bakunin detestava profundamente esquemas rígidos, fórmulas e estruturas fechadas. Compreendia que o sagrado, quando aprisionado no sistema estatal, inevitavelmente degenera em instrumento de violência.

Por isso, do ponto de vista de Bakunin, a simples destruição das instituições estatais não trará liberdade se não houver, simultaneamente, uma libertação e uma reelaboração do próprio sagrado. É por essa razão que alguns anarquistas cristãos contemporâneos se referem a Bakunin como um ateu que, na verdade, tentou “libertar Deus” do poder das estruturas formais.

Paradoxalmente, ao permanecer radical, Bakunin abriu caminho para a futura teologia da libertação (na qual Cristo é concebido como um libertador revolucionário) e para o anarquismo cristão. Bakunin argumentava que o sagrado, quando aprisionado nas paredes da Igreja histórica (especificamente da Igreja enquanto instituição, e não do Corpo místico de Cristo), inevitavelmente perece, transformando-se numa fórmula seca e sem vida. O próprio Bakunin, porém, foi o arauto de uma vida intensa e transbordante.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2026/07/01/mikhail-bakunin-a-vital-overflowing-life/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

gota de chuva
escorre na parreira
pára na uva

Carlos Seabra

Leave a Reply