
Por Santiago Navarro F | 31/07/2026
O governo de Donald Trump dá uma guinada estratégica redefinindo sua doutrina de Segurança Nacional e sua política externa ao classificar diversas expressões políticas sob o conceito de “terrorismo político de extrema esquerda”, um caminho que orienta sua agenda em matéria de segurança com os países que considera seus aliados. O objetivo é investigar, desarticular e perseguir certos movimentos sociais.
Sob a liderança do secretário de Estado Marco Rubio, no dia 16 de julho passado, foi realizada a Reunião Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político, através da qual conseguiu reunir no Salão de Conferências Loy Henderson – o maior espaço de reuniões do Departamento de Estado – delegações de 66 países, sob a narrativa de combater os “terroristas de extrema esquerda”. Entre os países participantes figuram Espanha, Argentina, Canadá, Alemanha, Itália, Chile, Uruguai e Israel.
Este fórum não é um fato isolado, mas sim parte de uma estratégia mais ampla desenhada e executada pela Casa Branca, equiparando “atos de terrorismo doméstico” a “assuntos prioritários para as forças de ordem federal” dos Estados Unidos, conforme estipula o Memorando Presidencial de Segurança Nacional N.º 7 (NSPM-7).
O NSPM-7 é o sustentáculo do evento presidido por Marco Rubio, mas, sobretudo, dos compromissos assumidos nesta ofensiva conjunta contra o denominado “terrorismo de esquerda”. O Memorando já havia sido assinado pelo presidente Trump desde setembro de 2025, no qual instrui todas as agências de inteligência e organismos de segurança dos EUA, bem como os encarregados de administrar a justiça, a desmantelar, desfinanciar e processar as redes qualificadas como “terroristas de extrema esquerda”.
Segundo o NSPM-7, o objetivo é “investigar, processar e desarticular entidades e indivíduos envolvidos em atos de violência política”.
De acordo com Trump, o móvel da determinação tomada em termos de classificar certos grupos de “extrema esquerda” foi o assassinato de Charlie Kirk – influente comentarista conservador que foi abatido por um disparo no mesmo mês de setembro –, classificada pelo mandatário como “horripilante”.
Este também tem sido o catalisador principal pelo qual foi convocado o encontro Ministerial, onde Marco Rubio atacou o que classificou como “ponto cego” histórico na doutrina antiterrorista ocidental, justificando que “a violência de extrema esquerda tem sido erroneamente classificada pela academia e pela mídia como um ‘excesso trágico de idealismo'”.
Na mira
Sob a mesma linha e, seguindo a rota da nova doutrina de segurança dos EUA, Stephen Miller, assessor de segurança nacional da Casa Branca, não hesitou em denegrir o movimento antifascista (antifa) e grupos afins, apontando-os como uma “infecção” que busca a derrubada dos sistemas de governo ocidentais, instando os aliados a não cederem aos apelos de “liberdades civis” desses atores.
O Departamento de Estado dos EUA classifica como “terroristas de esquerda” diversos grupos anarquistas e antifascistas, que se somaram aos protestos contra o genocídio de Israel em relação à Palestina. Os mesmos que saíram às ruas em favor dos direitos dos migrantes. São os que se manifestaram pelo assassinato de George Floyd, nas mãos de um oficial de polícia, em 2020 em Minneapolis, Minnesota. São os mesmos que saíram às ruas após o assassinato do migrante mexicano Lorenzo Salgado Araujo, neste mês de julho de 2026, depois que ele faleceu, após receber disparos de agentes do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE).
O Departamento de Estado classificou diretamente diversos grupos sob os termos de “extrema esquerda” como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO) e Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT). Entre os grupos apontados destacam-se:
Antifa Ost, (também conhecido em inglês como Antifa East) é denominado pelas autoridades alemãs e agências de inteligência como o “Grupo Lina E”. Um grupo militante com sede na Alemanha.
Federação Anarquista Informal/Frente Revolucionária Internacional (Informal Anarchist Federation/International Revolutionary Front). Um grupo anarquista militante que opera principalmente na Itália, com afiliados autoproclamados na Europa, América do Sul e Ásia.
Justiça Proletária Armada (Armed Proletarian Justice). Um grupo anarquista e “anticapitalista” de origem grega.
Autodefesa de Classe Revolucionária (Revolutionary Class Self-Defense). Um grupo anarquista e “anticapitalista” também de origem grega.
Convergência
O governo de Trump se preocupa, sobretudo, com a convergência entre esses movimentos, por isso, desde maio passado, executou com os grupos de segurança deste país e outros países convidados o Workshop Inaugural de Aplicação da Lei contra o Terrorismo, um fórum projetado para que profissionais de segurança dos EUA e do exterior compartilhem avaliações de ameaças e melhores práticas operacionais.
Entre os objetivos traçados nesses encontros com os países aliados está o intercâmbio de informações de inteligência, o fortalecimento de mecanismos de extradição e perseguição policial seletiva, sob a narrativa de unificar esforços.
De modo que a estratégia derivada do NSPM-7 não se limita a uma declaração política, mas responde a um plano de ação que implica a participação de múltiplas agências federais. Entre eles, o Grupo de Trabalho Conjunto contra o Terrorismo (JTTF) do FBI, que coordenará uma “estratégia nacional integral” para investigar e desarticular essas redes nos EUA.
Esta iniciativa despertou alarmes de diferentes setores, principalmente de organizações sem fins lucrativos. O escritório de advogados WilmerHale alertou que a medida poderia “impulsionar uma série de ações, incluindo revisões do status de isenção fiscal de organizações e, potencialmente, investigações criminais” contra “fundações, doadores individuais e outras organizações sem fins lucrativos”.
Os resultados da cúpula
A estratégia dos Estados Unidos tem sido encaminhar as delegações estrangeiras para homologar suas políticas de segurança com as diretrizes e interesses dos EUA. O embaixador Gregory LoGerfo, coordenador do Escritório de Contraterrorismo, detalhou pelo menos três resultados concretos da reunião ministerial, os quais envolvem seus aliados.
Durante a reunião ministerial, pressionou-se os parceiros internacionais para que “alinhem seus próprios marcos legais” para impedir que esses grupos operem ou se desloquem através de suas fronteiras livremente. Para isso, serão bloqueados vistos para aqueles que sejam considerados pertencentes a esses grupos. O veto de entrada seria para os EUA, mas também para seus países aliados.
Destaca-se também que, mediante o Workshop de Aplicação da Lei de Contraterrorismo, cuja próxima sede será a Alemanha, busca-se integrar as bases de dados de inteligência das polícias locais para “mapear” as atividades dissidentes globais, focando-se na proteção de redes de transporte e energia. Portanto, serão traçadas as rotas de intercâmbio de capacidades e de coordenação operacional das agências policiais e de inteligência dos países aliados.
Além disso, “em dezembro [2025], anunciamos o programa ‘Recompensas pela Justiça’, que oferece até 10 milhões de dólares em troca de informações que permitam desarticular o financiamento desses grupos”, disse Marco Rubio no evento ministerial.
O Caso da América Latina
No que concerne à região latino-americana, Marco Rubio recordou que “o terrorismo político de extrema esquerda não é uma novidade moderna dos últimos tempos”, e mencionou grupos que hoje são partidos políticos abertos, como os Tupamaros, os Montoneros, as FARC. Mas também a grupos armados que ainda estão vigentes, como o Exército de Libertação Nacional da Colômbia (ELN) e o Sendero Luminoso do Peru, vinculando-os a supostas redes de inteligência do regime cubano e redes de apoio iranianas.
“Não é uma ficção inventada por políticos conservadores. Na verdade, durante a maior parte da era moderna, foi a forma dominante de violência política. Todos os nossos amigos aqui presentes no evento Ministerial – provenientes das nações do hemisfério ocidental – recordam as décadas de sequestros, atentados a bomba, assassinatos e execuções”, afirmou o secretário de Estado dos EUA.
México
Apesar da pressão para unificar o discurso antiterrorista na região, o governo mexicano declinou do convite para assistir à ministerial. A presidente do México, Claudia Sheinbaum, argumentou que o enfoque da reunião era “mais político do que realmente relacionado ao combate a grupos criminosos”.
Diante disso, a resposta do embaixador Gregory D. LoGerfo foi manter o “convite aberto”, evidenciando a insistência de Washington em somar seu vizinho do sul ao seu esquema de segurança.
Arcabouço legal transnacional
Sob a perspectiva da doutrina de segurança estadunidense, a reunião ministerial de 2026 representa um sucesso diplomático que “fecha as brechas” ajustando as agendas de segurança. “Podemos identificar e mapear esta ameaça e reconstruir nossa arquitetura antiterrorista para derrotá-la. Assim como fizemos juntos antes, agora devemos fazê-lo novamente juntos”, afirma taxativo o secretário Marco Rubio.
No entanto, analistas críticos advertem que, ao definir de maneira tão ampla o “terrorismo de extrema esquerda” – incluindo conceitos como o “sabotagem econômica” e a “incitação” –, os Estados Unidos estão construindo um arcabouço legal transnacional que lhe permitirá perseguir a dissidência política e pressionar governos soberanos para que adotem sua agenda de segurança interna.
A cúpula de Washington deixa claro que os Estados Unidos buscam exportar sua política para que o resto dos países a façam sua. “É fácil destruir grandes coisas; é muito mais difícil criá-las. Os inimigos da civilização só são capazes da primeira. Só são capazes de destruir grandes coisas. A única coisa que conhecem é a destruição. Mas nós construímos grandes coisas juntos. Fizemos isso uma e outra vez. Sabemos o que devemos fazer”, conclui Marco Rubio.
Fonte: https://avispa.org/eeuu-crea-ofensiva-abierta-contra-anarquistas-y-antifascistas-en-diversos-paises/
Tradução > Liberto
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A lua surge
por cima dos prédios baixos.
Ah, contemplação.
Elciane Lima Paulino
Viva a revolução espanhola e viva a anarquia!
bom texto!
posição lúcida. organização anarquista com marca registrada? pedindo ação do estado contra trabalhadores? opa, pera lá caceta!
Comunistas, Capitalistas e Anarquistas e a servidão voluntária. Mas... A hora mais escura é logo antes do amanhecer. (Provérbio árabe)
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.