[EUA] Com uma Pequena Faísca, Tudo Pode Queimar: Um Livro de Colorir Anarquista para Todas as Idades

Ao longo das gerações, o fio negro da anarquia atravessa a história, unindo pessoas para além de fronteiras, muros e nações. Ele reaparece repetidamente, não importa quantas vezes tenha sido cortado, reprimido ou arrancado à força das mãos de quem o carrega. Seguir esse fio significa entrar em contato com uma linhagem de rebeldes, sonhadores e pessoas comuns que enfrentaram o exílio, a tortura e a perda, mas que, ainda assim, plantaram ideias poderosas o bastante para florescer décadas depois.

Este novo e instigante livro de colorir, criado pelo renomado ilustrador anarquista N.O. Bonzo, acompanha esse fio: as histórias transmitidas de geração em geração, as vitórias e derrotas, as centelhas de esperança que se recusam a desaparecer. A obra convida o leitor a refletir sobre o que herdamos daqueles que vieram antes de nós e sobre o que deixaremos para aqueles que virão depois. Nestas páginas, o fio negro continua seu percurso, convidando você a segui-lo, segurá-lo e entrelaçar sua própria parte colorida no futuro.

Ilustrações de N.O. Bonzo (@nobonzo)

Sobre o ilustrador

N.O. Bonzo é ilustrador, gravurista e historiador anarquista, radicado em Portland, Oregon (EUA). É o ilustrador de Mutual Aid: An Illuminated Factor of Evolution (“Ajuda Mútua: Um Fator Iluminado da Evolução”) e criador de Off with Their Heads: An Antifascist Coloring Book for Adults of All Ages (“Cortem-lhes as Cabeças: Um Livro de Colorir Antifascista para Adultos de Todas as Idades”), Beneath the Pavement the Garden: An Anarchist Coloring Book for All Ages (“Sob o Calçamento, o Jardim: Um Livro de Colorir Anarquista para Todas as Idades”) e da história em quadrinhos The Beautiful Idea (“A Bela Ideia”).

Seu trabalho também inclui diversas biografias de anarquistas do passado, além da tradução e republicação de quadrinhos anarquistas. Bonzo também realizou inúmeras palestras sobre a história da arte, do artesanato e da gravura anarquistas. Mais informações sobre seu trabalho podem ser encontradas em nobonzo.com.

Promoção: 20% de desconto com o código JUNE até 1º de julho, na editora PM Press (https://pmpress.org/index.php?l=product_detail&p=2147).

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Na noite sem lua
o mar todo negro
se oferece em espuma

Eugénia Tabosa

[África do Sul] “Veganismo” sob a ótica da descolonização, de Venita Januarie

Da contracapa:
 
“Em uma nota pessoal, e falando como alguém que leva um estilo de vida “vegano”, muitas pessoas me perguntam por que decidi, de repente, mudar um aspecto tão importante da minha vida. Deixando de lado a modernização, a industrialização e a colonização, a resposta mais honesta que posso dar é que isso me permitiu a expressão mais autêntica de mim mesmo. Eu não poderia defender a vida e a proteção do meio ambiente enquanto claramente fechava os olhos para o sofrimento de criaturas sencientes e a destruição sistemática do nosso meio ambiente. Minha conclusão é e sempre será: devido à nossa história, a colonização sempre terá resquícios na África; nossa responsabilidade está em nossas escolhas e ações.”
 
Venita Januarie é uma defensora do estilo de vida vegano que frequentemente discute o veganismo sob a ótica da descolonização, da proteção ambiental e do bem-estar animal, particularmente no contexto africano. Ela destaca que a escolha de uma dieta vegana à base de vegetais é uma expressão de si mesma e uma posição contra a exploração de criaturas sencientes.
 
>> Para baixar “Veganismo” sob a ótica da descolonização (em inglês) – PDF:
 
https://warzonedistro.noblogs.org/files/2026/03/Veganism-Through-the-Lens-of-Decolonization.pdf
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
o vento a correr
leva a lua
na ponta de uma cana
 
Rogério Martins

[Internacional] Dia de ação direta pela libertação animal

JUNHO/JULHO – COMO PARTE DOS MESES DE SOLIDARIEDADE AOS ANARQUISTAS ENCARCERADOS

Este é um chamado para romper com essa passividade, um convite, independentemente de onde você viva, a todas as pessoas veganas, antiespecistas e anarquistas que estão cansadas da exploração animal.

Os animais não são recursos a serviço dos interesses especistas, capitalistas ou estatais. Por essa razão, conclamamos todas as pessoas a lutar contra todas as formas de opressão.

Queremos deixar claro que a libertação animal não será alcançada se continuarmos de braços cruzados. É muito fácil defender uma causa apenas no discurso enquanto nada se faz na prática e enquanto não se assume qualquer risco pessoal.

Também queremos deixar claro que o especismo não será superado simplesmente pela adoção do veganismo. Evidentemente, deixar de colaborar com a exploração animal é o primeiro passo, mas isso não basta. É ingênuo acreditar que apenas deixar de participar de uma injustiça fará com que ela desapareça sem um processo sério e organizado de resistência.

Estamos cientes de que o veganismo se tornou apenas mais uma tendência, mais uma escolha de consumo entre tantas outras, perdendo grande parte do conteúdo político necessário para possibilitar a verdadeira emancipação de nós, animais. Em alguns casos, acaba inclusive perpetuando o próprio problema que afirma combater, ao deixar de criticar e, às vezes, apoiando o capitalismo.

Acreditamos firmemente que chegou o momento de radicalizar a luta pela libertação animal. Entendemos “radicalizar” em seu sentido original: enfrentar um problema em sua raiz, e não no sentido pejorativo que essa palavra frequentemente recebe.

Por essas razões, convidamos nossas companheiras e nossos companheiros de luta a atacar efetivamente todas as formas de opressão contra nós, animais, utilizando todos os meios que estejam ao seu alcance. Algumas ações possíveis incluem essas, entre outras, mas não se limitem ao que está escrito aqui. Deixem que a imaginação e o desejo de alcançar a libertação total se expressem livremente. Transformemos toda a impotência, frustração e indignação que sentimos diante de tanta exploração e matança em força para resistir:

– Distribuição de panfletos

– Grafites

– Manifestações

– Sabotagem

– Libertação de animais

– Exibição de filmes

– Discussões e debates

– Performances e intervenções teatrais

– Oficinas

– Grupos de estudo

– Shows

– Feiras

– Sessões informativas

– Festivais

– Produção de textos, cartazes, músicas ou qualquer outro material que contribua para difundir a mensagem da libertação animal

Fonte: https://unoffensiveanimal.is/2026/06/25/day-of-direct-action-for-animal-liberation/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

dentro do jardim
o dia chega mais cedo
ao fim

Alice Ruiz

Nossa solidariedade à luta pela autonomia e pela vida na Grécia de baixo!

A Comunidade Ocupa de Prosfygika, em Atenas, existe há 16 anos. Ali vivem 400 pessoas de 27 geografias diferentes, criando espaços e estruturas autogeridas, recusando a lógica capitalista.
 
Por meio de estruturas autônomas de solidariedade, constroem, aqui e agora, um outro mundo contra uma cidade-mercado inóspita.
 
Assim, mantiveram e consolidaram o projeto apesar de muitas tentativas de despejo e criminalização por parte do Estado. No entanto, a partir de 2025, o Estado intensificou seus preparativos para o despejo dos edifícios e a destruição da comunidade. Em 2026, a luta pela defesa de Prosfygica entrou em uma fase crítica.
 
Diante das negativas do Estado grego em todos os seus níveis para reconhecer este exemplo de organização coletiva desde baixo, impondo sua lógica de colocar sua sede de lucros acima das necessidades das pessoas, a comunidade de Prosfygica entrou em uma nova fase de resistência. Apostaram na luta coletiva e na solidariedade internacional sob a afirmação de “Nossa língua comum é a Resistência. Venceremos ou venceremos!”
 
Nesta etapa da luta, os companheiros Aristotelis Chantzis e Suzon Doppagne iniciaram uma greve de fome em 5 de fevereiro e 1º de maio, respectivamente.
 
Na tarde de 24 de junho, e após a resolução do Conselho Municipal de Atenas, abriu-se uma porta para a esperança que permitiu que nossos companheiros tomassem a decisão de encerrar a greve de fome.
 
No entanto, a luta não terminou e seguimos em frente.
 
A greve de fome de Aristotelis durou 139 dias e sua vida esteve em perigo iminente!
 
Os coletivos da Europa Zapatista signatários nos solidarizamos e nos irmanamos com a luta da comunidade de Prosfygika e exigimos que suas REIVINDICAÇÕES sejam atendidas.
 
Unimos nossa voz à deles!
 
Porque a vida vale mais que os lucros dos de cima. A moradia é um direito, não uma mercadoria!
 
Porque a vida coletiva é o fôlego da autonomia e nossa força contra a Hidra do capitalismo.
 
Porque Prosfygika é um caminho de vida dentro de um mundo arrastado pela cultura da morte.
 
Pela Rede EuropaZapatista:
 
Assinaturas:
 
20ZLN. Italia / Asamblea Libertaria Autoorganizada Paliacate Zapatista. Grecia / Assemblea de Solidaritat amb Mèxic-ASMEX. País Valencià, Estado Español / Associació Solidaria Cafè Rebeldía-Infoespai. Barcelona, Catalunya / Associazione Ya Basta! Êdî bese. Italia / Batec Zapatista. Barcelona, Cataluña / Café Libertad Kollektiv. Hamburgo, Alemania / Cafez. Lieja, Bélgica / Cal Cases. Cataluña / Caracoleras de Olba. Olba, Teruel, Estado Español / CAREA e.V. Alemania / Centro de Documentación sobre Zapatismo. Cedoz. Estado Español / Colectivo Armadillo Suomi. Finlandia / Colectivo Calendario Zapatista. Grecia / Colectivo Ramona. Chipre / Collettivo Zapatista Lugano. Suiza / Comitato Chiapas Maribel. Bérgamo, Italia / Comité de solidaridad con Latinoamérica (LAG) – Chiapasgruppa LAG. Oslo, Noruega / Confederación General del Trabajo – CGT. Estado Español / Cooperazione Rebelde Napoli. Italia / CSPCL, París, Francia. / Espoir Chiapas. Francia / Frankfurt International. Alemania / Gira Zapatista Holanda. Holanda / Grupo México del Foro Internacional. Dinamarca / Gruppe B.A.S.T.A. Munster, Alemania / Kaffeekollektiv Aroma Zapatista, Hamburgo / Lumaltik Herriak. País Vasco / Mujeres y Disidencias de la Sexta en la Otra Europa y Abya Yala. / Mut Vitz 13. Marsella, Francia / Mut Vitz 31. Toulouse, Francia / Mut Vitz 34. Francia / Nodo Solidale Roma. Italia / Pallasos en Rebeldía. Estado Español / Quinoa. Bélgica / Red de Rebelión. Alemania / Red Ya-Basta-Netz. Alemania / Silbo Zapatista. Estado Español / Solidaridad Directa Chiapas. Suiza / Tatawelo. Italia / Terra Insumisa Alcamo / Sicilia Sud Globale. Sicilia, Italia / TxiapasEKIN. País Vasco / USI 1912 Italia e Usicons aps Italia / Y Retiemble. Madrid, Estado Español / Ya Basta Bolonia. Italia / Ya Basta Milano. Italia / Ya-Basta-Netz, Alemania
 
Tradução > Liberto
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
Um sol transparente
e um mar azulão
brilhando na areia quente
 
Winston

Amélio Robles:  Herói transgênero da Revolução Mexicana (1910)

Revolução Mexicana (1910-1920) também teve em suas fileiras homens trans. Fato bastante avançado para uma época em que pouco se criticava os papéis tradicionais de gêneros.

O caso mais conhecido é o do Coronel Amélio Robles Ávila (1889-1984). Nascido Amélia Robles, Amélio não apenas se “travestiu” para lutar, mas exigiu que fosse tratado de acordo com a sua vontade. Foi um coronel respeitadíssimo e fiel ao zapatismo até o fim da vida. Amélio nasceu em Xochipala no Estado de Guerreiro, Sul do México, no dia 3 de novembro de 1889.

Amélio Robles ingressou no Exército Zapatista em 1911 e participou de diversas campanhas para arrecadar fundos para a causa revolucionária. Devido a sua bravura, Coronel Robles esteve a frente de destacamentos armados e combates contra as tropas federais mexicanos nas montanhas do sul do país.

Este é o caso mais conhecido, mas não foi o único: Luz Barrera foi outro homem trans guerrilheiro zapatista. Também Angel Jimenez foi guerrilheiro zapatista a lutar na Revolução Mexicana. A mutabilidade de gênero também é praticada entre outros povos originários, como os Mapuches. Emília Errera Obrecht foi uma trans anarquista de origem mapuche que lutou pelo direito do seu povo, como também por sua liberdade de gênero.

No Brasil, entre os povos originários, tivemos as Cudinas entre os povos da Cultura Mabaya-Guaicuru. As Cudinas eram mulheres trans que assim se definiam e assim eram tratadas por todos da cultura Mbayá-Guaicuru, nos séculos 18 e 19.

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).

agência de notícias anarquistas-ana

Brilho da lua se move para oeste
a sombra das flores
caminha para leste.

Buson

[Itália] A memória de ontem para os desafios de hoje. 25 anos do G8 de Gênova

Há acontecimentos que marcam um divisor de águas na história, seja quando falamos de História com “H” maiúsculo, seja de histórias pessoais. Para a geração que se iniciou no ativismo na onda de 1968, foi certamente o massacre de estado da Piazza Fontana; para muitos da minha geração, foram os dias do G8 em Gênova, em julho de 2001. Não quero, de forma alguma, comparar os dois fatos, que tiveram gravidade, contextos e dinâmicas completamente diferentes, mas ambos decretaram para muitas pessoas o momento da “perda da inocência”. E é por isso que, embora tenham se passado vinte e cinco anos, a memória ardente daqueles dias ainda está presente como algo vivo, como se fosse ontem. E, portanto, é importante falar sobre isso e refletir, embora o mundo, nesse ínterim, tenha mudado radicalmente, em muitos aspectos para pior.

Para falar de Gênova, é preciso contar aquele movimento transnacional que foi chamado de “No global”, principalmente pela mídia mainstream. Embora de forma subterrânea já existisse há algum tempo, ganhou ressonância mundial com a contestação à cúpula da OMC (Organização Mundial do Comércio) em Seattle, no final de novembro de 1999, quando dezenas de milhares de pessoas foram às ruas com a intenção de contestar e bloquear de todas as formas possíveis aquele encontro dos poderosos da Terra. Entre o barulho das vitrines quebradas e das barricadas contra a polícia, entre o gesto de quem ajudava a amenizar os efeitos do gás lacrimogêneo e as paradas irreverentes do exército de palhaços (clown army), um novo, potente e multifacetado movimento internacional se impunha em cena para contestar os donos do mundo. A partir daí, onde quer que se realizasse um fórum dos organismos internacionais (FMI, Banco Mundial, OCDE, Otan…), dezenas e, às vezes, centenas de milhares de pessoas protestavam e sitiavam os locais físicos das cúpulas.

Além de sua difusão em todos os continentes, a outra característica importante daquele movimento foi sua capacidade de reunir não tanto as ideias, mas as diferentes práticas de rua. Com efeito, com modalidades diversas a cada vez, por quase dois anos não houve aquela divisão devastadora entre “bons” e “maus”, praga de tantas mobilizações, mas uma pluralidade de abordagens que conseguiam conviver: do exército de palhaços à marcha pacifista, do black bloc à greve sindical. As instituições responderam com violência crescente, até chegar a março de 2001, quando os protestos no Fórum Global em Nápoles terminaram com uma chacina policial na Piazza Plebiscito e com as torturas dos detidos levados ao quartel Raniero, e a junho de 2001 em Gotemburgo, quando um policial disparou três balas nas costas de um manifestante de 19 anos que, por sorte, sobreviveu. Uma clara antecipação do que aconteceria em julho.

O G8 de Gênova deveria representar, na cabeça de muitos, o ponto mais alto daquele movimento e, em vez disso, marcou seu fim, junto com o atentado às Torres Gêmeas em setembro do mesmo ano. Uma das causas foi que as muitas almas que se reuniram no Genoa Social Forum, a rede que organizou a contracúpula, reproduziram, de fato, as velhas lógicas hegemônicas e autoritárias dos aparatos políticos e sindicais, não incorporando aquelas novas formas de acordo e compartilhamento de práticas próprias do movimento antiglobalização em outros países. Foi assim que a violência estatal, desdobrada em toda a sua ferocidade, pôde ter campo livre para dividir o movimento, incutindo dúvidas e suspeitas. Isso apesar de a ordem de engajamento das “forças de segurança” ser clara desde a manhã de sexta-feira, 20 de julho: massacrar todos e todas sem hesitação. O assassinato de Carlo Giuliani, as surras selvagens nas ruas, as torturas de Bolzaneto, a chacina na escola Diaz não foram “incidentes”, mas o fruto de uma encenação planejada há muito tempo. Uma lição prática da democracia real, mais eficaz do que mil discursos subversivos. Apesar disso, muitas almas da esquerda pacifista e institucional continuarão, ao longo dos anos, a falar em democracia traída.

Os “Anarquistas contra o G8”, aos quais se referiam boa parte dos anarquistas de língua italiana que foram a Gênova, escolheram ignorar o cerco à zona vermelha onde estavam os Chefes de Estado, manifestando, em vez disso, em Sampierdarena, na Gênova proletária, aquela das grandes lutas operárias. Apostamos na greve geral, criamos comitês de greve em diversas cidades que deram vida a assembleias territoriais. Apostávamos na radicalidade dos objetivos e no enraizamento social. No número da Umanità Nova que foi distribuído em Gênova, escrevíamos:

“As manifestações internacionais, como a de hoje em Gênova, foram e serão importantes porque conseguem evidenciar o caráter destrutivo, violento e irrefreável dos vários organismos supranacionais, mas não podem representar o ponto central de um caminho que deve, necessariamente, desenvolver-se em outro lugar. A força deste movimento está na capacidade de conciliar radicalidade e enraizamento, agir e pensar localmente e agir e pensar globalmente, e não deve se esvaziar na mera contestação das cúpulas dos poderosos. Caso contrário, corre-se o risco de se tornar uma espécie de ’tour operator’ da contraglobalização, especializado em viagens para países exóticos. Uma espécie de Camel Trophy da subversão, com direito a emoções já programadas. Ou, pior, de servir de movimento de suporte para uma esquerda institucional exangue em busca de cargos e de novos rostos. No Genoa Social Forum, participaram políticos de todas as estirpes necessitados de legitimação. (…)

Este é um mundo que corre, corre cada vez mais rápido, e igualmente rápido tritura experiências, percursos e também os movimentos sociais que não sabem se furtar ao espetáculo, à lógica insana que, imitando insensatamente as regras impostas pelo marketing, consome rapidamente, tornando subitamente obsoleta, até mesmo a capacidade de crítica, superação e negação do instituído. É uma armadilha a ser evitada, desconcertando o adversário, multiplicando a própria capacidade de abrir novos terrenos, zonas autônomas, espaços livres. Para superar os numerosos impasses em que corre o risco de se enroscar, é necessário que o movimento saiba se espalhar pelo território como poeira, construindo relações conflituosas que se alimentem da capacidade de construção intencional de outros mundos, outras relações, outras vidas. Todos os dias, em qualquer lugar. A tensão para uma ação radical que saiba extrair seiva de um enraizamento profundo, de uma capacidade de projetar que possa penetrar profundamente o presente, pode ser o sinal de um movimento revolucionário capaz de construir seu próprio futuro no hoje. Como anarquistas, começamos, não sem dificuldades, a nos mover nessa direção, a única capaz de recolher as demandas mais fecundas desses movimentos. Mas pode-se e deve-se fazer mais.”

Acreditamos que essas palavras são mais atuais do que nunca. A história, de fato, deixou claro que somente onde nasceram movimentos amplos que conseguiram conciliar uma forte presença territorial com o método da ação direta de massa e não apenas de minorias de militantes, governos e patrões tiveram medo. A escolha de tentar ser radicais e enraizados é, portanto, para nós, o legado principal daqueles dias de julho, uma aposta que se renova a cada dia nas lutas que promovemos e atravessamos. Uma ação constante de subtração conflituosa do instituído que se combina com a prática da autogestão e da luta cotidiana.

Um companheiro que estava lá

Para ler e baixar o especial da Umanità Nova publicado logo após o G8:

umanitanova.org/wp-content/uploads/2021/07/Le-tre-giornate-di-Genova.pdf  

Fonte: https://umanitanova.org/36486-2/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

jardim sem flor
entre as páginas do livro
a rosa e sua cor

Alice Ruiz

A Maré Conservadora nas Américas — e o que ela revela sobre o Estado

Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra

A direita avança nas urnas. A pergunta que nos interessa não é quem venceu. É por que tanta gente submetida à precariedade, à violência e à exploração continua apostando em projetos que prometem ordem por meio de mais polícia, mais fronteira, mais punição e mais poder para quem já manda.

Não basta responder que “foram enganadas”. Essa é a explicação confortável de uma esquerda que, depois de perder contato com a vida concreta das pessoas, prefere imaginar o povo como vítima de manipulação do que reconhecer a própria falência. E é também a resposta de quem ainda acredita que a saída está na próxima eleição.

Não está.

O mapa

A virada é inegável nos números. Após as eleições recentes na Colômbia e no Peru, sete dos doze países sul-americanos são governados por direita, centro-direita ou extrema-direita, representando 58% da população da região. No Chile, Kast venceu o segundo turno em dezembro de 2025 com 59% dos votos. Na Bolívia, o Movimento ao Socialismo — no poder quase ininterruptamente desde 2006 — sequer chegou ao segundo turno. Nos EUA, Trump voltou com Congresso, Senado e Casa Branca na mão.

Muita gente vota à direita porque está cansada. Cansada de ser assaltada, de trabalhar muito e não sair do lugar, de ver serviços públicos deteriorados, de conviver com corrupção, de assistir a governos prometerem transformação e entregarem administração. A extrema direita não inventou esse desespero. Ela aprendeu a convertê-lo em medo, em punição e em demanda por autoridade.

E funciona porque o medo é real.

A esquerda que preparou o terreno

Durante décadas, governos progressistas prometeram reduzir desigualdades, ampliar direitos e democratizar a vida social. Em vários casos, houve ganhos concretos: renda, acesso a serviços, redução temporária da pobreza. Mas esses avanços foram construídos sem desmontar as estruturas que produzem a desigualdade.

Negociou-se com o agronegócio, com mineradoras, com bancos, com empreiteiras. Criminalizou-se o MST, militarizou-se o Complexo do Alemão, expulsou-se comunidade indígena para viabilizar usina. Chamou-se isso de governabilidade. Chamou-se isso de transformação possível.

Mas o aparato permaneceu intacto.

A polícia continuou pronta para reprimir pobres, indígenas, sem-terra e periferias. A máquina estatal continuou concentrando decisão, orçamento, informação e força. Quando os governos progressistas perderam força, deixaram para seus sucessores uma estrutura pronta para ser operada com menos pudor.

Quem constrói instrumentos de controle em nome de uma causa justa não controla quem os usará amanhã.

Esse é o nó que a esquerda parlamentar recusa desatar: não se trata de eleger pessoas melhores para administrar o Estado. Trata-se de reconhecer que o Estado concentra poder, e todo poder concentrado procura se preservar, expandir-se e encontrar novos inimigos. Sempre. Independente de quem assina os decretos.

O que a direita vende

A nova direita não cresce só por falar de costumes, deus ou anticomunismo. Ela cresce porque apresenta respostas simples para dores complexas.

Há crime? Mais polícia.

Há desemprego? Menos direitos trabalhistas.

Há crise de moradia? Mais expulsão.

Há migração? Mais fronteira.

Há corrupção? Um líder forte.

Há medo? Uma arma, uma cela, uma farda.

É uma política de atalhos. Ela não resolve as causas da violência — oferece alvos para a violência.

Não enfrenta a precariedade — disciplina quem sofre com ela. Não combate o poder econômico — protege-o, enquanto direciona a raiva social para migrantes, pobres, dissidentes e qualquer pessoa que possa ser transformada em ameaça.

O capitalismo produz abandono, competição, fome, humilhação e desespero. Depois, o Estado aparece para administrar os destroços com polícia, prisão e vigilância. A extrema direita não rompe esse ciclo. Ela o acelera — e o faz com aprovação popular, que é a parte que mais deveria nos incomodar.

Votar é delegar. Delegar é abrir mão.

A resposta automática da esquerda institucional é pedir mais unidade eleitoral, mais alianças, candidatos mais viáveis, melhor comunicação. Como se a derrota fosse problema de marketing.

Mas não existe campanha capaz de reparar uma política que se tornou indistinguível da administração da ordem existente.

E há um problema mais fundo que isso.

Votar é um gesto de delegação: eu entrego a outro, periodicamente, a decisão sobre minha vida, meu bairro, meu trabalho, meu corpo. É um ato que pressupõe a própria separação entre quem decide e quem obedece — a separação que é a base de toda dominação. Não importa em quem se vota: o ato em si reproduz a lógica de que a política é algo que acontece em outro lugar, feita por outras pessoas, e que o máximo que nos cabe é escolher o menos ruim de quatro em quatro anos.

Isso não é emancipação. É a forma mais pacífica de capitulação.

Quando governos de esquerda criminalizam protestos, preservam privilégios, militarizam territórios e tratam movimentos sociais como problema de gestão, não estão apenas cometendo contradições. Estão demonstrando, concretamente, que o Estado não muda de natureza quando muda de partido.

A direita entende isso melhor do que muita esquerda: ela se apresenta como ruptura enquanto protege exatamente os mesmos interesses econômicos de sempre. A esquerda parlamentar, muitas vezes, não consegue nem fingir ruptura — tornou-se defensora de instituições que as pessoas experimentam como distantes, lentas, corruptas e impotentes.

O pêndulo é a armadilha

A América Latina conhece bem o movimento pendular: direita, esquerda, direita, esquerda. Mudam os governos, trocam-se os discursos, alternam-se as bandeiras — e a maioria continua trabalhando demais, morando mal, temendo a violência e obedecendo a decisões tomadas de cima.

O pêndulo não é sinal de democracia saudável. É o mecanismo que mantém a vida política girando sem sair do lugar.

A ascensão da direita não deve produzir nostalgia de governos que administraram a miséria com linguagem progressista. Nem deve produzir desespero. Deve produzir clareza.

Clareza de que não haverá liberdade onde houver concentração de poder.

Clareza de que não se combate a violência multiplicando armas, prisões e fardas.

Clareza de que nenhuma eleição devolverá às pessoas o controle sobre a própria vida — porque esse controle nunca foi o que a eleição ofereceu.

A política que não espera permissão

Isso não é niilismo. É a recusa de uma ilusão — para que sobre espaço para o que funciona.

Cooperativas, sindicatos de base, ocupações de terra e moradia, cozinhas comunitárias, clínicas populares, redes de cuidado mútuo, comunicação livre, defesa territorial coletiva: essas práticas não são substitutas imperfeitas da “política real”. São a política real. A única que não produz novos donos ao final do processo.

Não são perfeitas. Reproduzem hierarquias, conflitos, exclusões. Por isso exigem democracia direta, rotatividade, transparência e o conflito aberto em vez do silêncio obediente. Autonomia não é ausência de organização. É organização sem chefe, sem partido, sem vanguarda que sabe mais do que você sobre a sua própria vida.

O relógio eleitoral continuará oscilando enquanto aceitarmos que ele mede o tempo da política.

A saída começa quando paramos de esperar o próximo governo e construímos poder onde vivemos — sem pedir licença, sem aguardar eleição, sem delegar a ninguém o que só nós podemos fazer por nós mesmos.

Produzido coletivamente.

anarkio.net

agência de notícias anarquistas-ana

Libélula voando
pára um instante e lança
sua sombra no chão

Masuda Goga

[Itália] Uma carta de Sara Ardizzone (Foligno, 2018)

Recebemos e divulgamos esta comovente carta da companheira Sara Ardizzone, com uma introdução que explica seu contexto. Sandro, Sara: não os esqueceremos!
 
Portanto, sem vitimismo, despeço-me de vocês. E se, quando as abraçar, me vier o choro, não será porque acredito ter sofrido uma injustiça ou um abuso, mas porque sentirei falta de vocês“. Carta de Sara Ardizzone às camaradas de janeiro de 2018
 
Fazendo arqueologia nos depósitos de uma vida de batalhas, reencontramos esta terníssima carta que Sara escreveu às camaradas de trabalho em janeiro de 2018. A carta surge na sequência de uma demissão por motivos disciplinares, uma insubordinação em defesa da própria dignidade que é reivindicada de cabeça erguida. O texto havia sido encaminhado na época também a alguns companheiros mais próximos.
 
É impressionante, depois de todos estes anos, (re)descobrir como não há diferenças nem em termos de estilo, nem sobretudo em termos de orgulho, de tenacidade, de primazia absoluta da ética, com outros documentos mais recentes e “políticos” como, um exemplo entre todos, a declaração que Sara fez no tribunal de Perugia em 15 de janeiro de 2025, durante a audiência preliminar do processo Sibilla. Uma demonstração – se é que ainda fosse necessária – de que Sara era a mesma pessoa diante de todos: diante dos colegas, diante dos companheiros, diante dos inquisidores. E assim foi ao longo dos anos. Diferentemente de uma pessoa solitária e de vida dupla, como escreveram alguns borra-papéis sempre prontos a tocar a trilha sonora que mais agrada aos poderosos.
 
Seu anarquismo nunca precisou de especificações ou adjetivos adicionais. Sua foi uma personalidade de orgulhoso, indomável individualismo, zelosa guardiã de sua liberdade individual, reivindicando em toda ocasião pensar sempre e apenas com a própria cabeça, sem receber ordens de ninguém e sem dar ordens a ninguém. Ao mesmo tempo, e sem linha de contradição, aliás com extrema naturalidade, sua interpretação universal dos eventos sociais sempre foi pautada por uma irredutível concepção de classe, coerente com os princípios anarquistas. Uma “propaganda pelo ato” que deixou marcas em muitas pessoas que tiveram a sorte de conhecê-la.
 
Hoje fui comunicada da rescisão do meu contrato de aprendizagem. Não podemos negar que eu e os valores da Decathlon (infelizmente ou felizmente) seguimos em duas direções diferentes. Seria hipócrita da minha parte perguntar o porquê de uma decisão dessas por parte da empresa. Eu, pessoal, não sorrio. Eu não sorrio porque é contra a natureza (isso, sim, é verdade) sorrir para quem nos vaias nos corredores como se fôssemos cães. Porque eu não sorrio quando uma cliente me chama na recepção gritando que somos uns incompetentes porque a bicicleta comprada, por sua própria admissão, às 20h do DIA SEGUINTE, tem uma câmara de ar vazia. Eu não rio quando a mesma senhora me diz que fomos superficiais porque às 20h15 queríamos parar, lembrando-me que, por lei, se ela está na loja, somos obrigados a ficar até que o último cliente queira terminar suas compras. A lei eu não conheço, mas uma coisa aprendi… que nem sempre lei quer dizer justiça. E a minha justiça é mandá-la TOMAR NO C*. Porque em 1943 era lei mandar os judeus para os campos de concentração, mas a lei mudou, e mudou com a força. A mesma força que nossos colegas usaram num Ipercoop da Emília-Romanha, fazendo cordões humanos para não deixar os clientes entrarem para comprar no último 25 de abril. Portanto, sem vitimismo, despeço-me de vocês. E se, quando as abraçar, me vier o choro, não será porque acredito ter sofrido uma injustiça ou um abuso, mas porque sentirei falta de vocês.
 
Sempre de punho cerrado.
 
PATRÕES DE NADA, SERVOS DE NINGUÉM.
 
Um abraço.
 
Sara
09/01/2018
 
Fonte: https://ilrovescio.info/2026/06/19/una-lettera-di-sara-ardizzone-foligno-2018/
 
Tradução > Liberto
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
caminho de terra,
o mato à margem exala
perfumes silvestres
 
Zemaria Pinto

Atendimentos Jurídicos da FACA – 02/07/2026

A Federação Anarquista Capixaba (FACA) divulga sua agenda de atendimentos jurídicos e sindicais do início do mês de julho de 2026.

Todos os atendimentos serão realizados mediante agendamento no e-mail fedca@riseup.net.

02/07/2026: Iconha/ES.

Reforçamos: os atendimentos se darão mediante prévio agendamento no e-mail fedca@riseup.net.

Pela transformação social!

Pelo socialismo libertário!

Federação Anarquista Capixaba – FACA

Federada à União Anarquista Federalista – UAF

federacaocapixaba.noblogs.org/

agência de notícias anarquistas-ana

entre os vinte cimos nevados
nada movia a não ser
o olho do pássaro preto

Wallace Stevens

[Mogi das Cruzes-SP] CELIP, 05/07: “Anarquistas e a luta ecológica”

CELIP Mogi das Cruzes (SP) – Anarquistas e a luta ecológica | 05/07 (domingo), 16h

O Círculo de Estudos Libertários Ideal Peres (CELIP) em Mogi das Cruzes (SP) volta a se reunir no dia 5 de julho (domingo), debatendo o tema “Anarquistas e a luta ecológica”.

Para participar é preciso se inscrever pelo link: tinyurl.com/celipanarquismogi

SOBRE O CELIP

O CELIP é um espaço de formação política permanente que tem como objetivo aprofundar e estudar as principais referências do socialismo libertário e discussões de interesse coletivo. É aberto a quaisquer pessoas interessadas no estudo e na formação política libertária e em temas afins.

Organização Socialista Libertária – OSL

agência de notícias anarquistas-ana

Numa cachoeira
folia das gotas do rio.
São águas no cio.

Marcelo Santos Silvério

Votar? Nem pensar! Fogo a democracia e sua farsa eleitoral! 

[México] Tobi: militante operário e anarquista.

Por Kiko. | Ilustração: Martha.
 
O Coletivo Ação Libertária se forma no início de janeiro de 1992. Com integrantes que vinham de outras experiências, como o “Coletivo Mudança Radical Força Positiva” ou os “Punks Kennedys”. Todos vínhamos do movimento punk, que naquele momento pulsava vigoroso, criativo e construtivo. Éramos uma vintena de punks, mulheres e homens, Tobi entre eles, que vinha da “Mudança Radical” e era o vocalista da banda “Infectados pelo Sistema”, destacando-se por ser o principal animador da organização de coletivos.
 
Todos nos conhecíamos de anos antes e já tínhamos colaborado em alguma atividade de apoio a alguma greve, ou coincidido em algum evento ou tokin, ou nos movido por alguma causa como a Palestina, sendo Tobi um de seus principais defensores. Assim, houve acordo de que o coletivo se ocuparia mais da questão social a partir de uma visão do anarquismo de corte malatestiano, o que, é claro, foi incitado por Tobi.
 
Lembro que um dos acordos mais destacados foi contatar a CNT e a AIT para termos relação com essas entidades, e assim foi feito. Com o tempo, nos tornamos um grupo afinizado à AIT, como eles propunham em seus estatutos.
 
Esses anos foram de atividade vertiginosa, anos loucos. Martha primeiro, Tobi depois, foram trabalhar de maneira permanente com Ricardo Mestre na biblioteca; também frequentávamos com mais assiduidade o FAT, onde conhecemos, entre outros militantes do movimento operário independente, Alfredo Domínguez, militante histórico da estatura de Demetrio Vallejo ou Valentín Campa, entre muitos, e nosso amigo Benedicto, bom organizador operário.
 
E, é claro, José Trejo e o “Beto”, com quem pudemos fazer equipe. Sofremos correrias que nos impuseram os capangas da patronal ou dos pelegos, e até batidas da polícia em alguma luta operária, como a das trabalhadoras dos banheiros da central de abastecimento, onde o Trejito perdeu alguns dentes e ficou com um olho comprometido. Ali, Tobi se destacava pelo seu temperamento e arrojo, e por seu acompanhamento com as companheiras, incentivando-as a não dar nenhum passo atrás, nem mesmo nos momentos de repressão.
 
Naquela época, se não me engano, José Luis García Rua, secretário da AIT, enviou um companheiro para estabelecer contato conosco, para ver se já entrávamos como grupo de amigos da AIT. Ao que, conversamos com o companheiro e explicamos que naquele momento não havia condições para tal coisa, já que a lei federal do trabalho havia sido criada para proteger o capital e impedir a organização autônoma e a ação direta, aniquilando e impossibilitando o anarcossindicalismo, pelo menos legalmente.
 
O companheiro registrou a atividade da época em uma crônica em alguma edição do [jornal] CNT, e nos disse: “É uma loucura o que vocês fazem, são quatro gatos pingados e não se dão trégua”, e era assim. Algum processo organizativo de alguns operários em uma fábrica, apoio ao acampamento de greve em outro lugar, formação sindical em outras fábricas, alfabetização e educação básica para operários de outra, assim o tempo passava.
 
Sempre preferimos estar no nível do chão de fábrica, nosso espaço por escolha e convicção, onde Tobi aproveitava toda ocasião para fazer amizade com os companheiros e falar sobre organização, luta, solidariedade, ação direta, em resumo, anarquismo.
 
Sempre na linha de frente, sempre no nível do chão de fábrica, compartilhando sangue, suor e lágrimas nas lutas pelo pão e pela dignidade, e também compartilhando risos e alegrias nas vitórias, em conquistas obtidas depois de meses de organização para estabelecer um sindicato independente.
 
Viver e lutar, no dia a dia, por um mundo melhor para todas e todos, essa foi sua prática cotidiana, meu bom amigo Tobi.
 
Saúde e avante sempre, que a vitória será nossa.
 
Tradução > Liberto
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
no contorno do gato
um ponto negro no dorso
dorme –
 
Krzysztof Karwowski

[Grécia] A luta venceu – a luta continua!

Nos últimos 5 meses houve uma luta sobre-humana de vida e morte para defensores dos refugiados da 
Comunidade de Ocupação Prosfygika contra a evacuação, deslocamento e dissolução do maior projeto de habitação social auto-organizado, de solidariedade e de benefícios comuns na Grécia e em toda a Europa. Contra eles um regime de assassinato social e o governador regional N. Chardalias, os planos da civilização e a política de aniquilação dos movimentos e das pessoas vivas.
 
Na vanguarda desta luta, o companheiro Aristotelis Hantzis (greve de fome desde 02/05/2026) e a companheira Suzon Doppagne (greve de fome desde 01/05/2026) foram os primeiros a se voluntariarem.
 
É uma luta que foi ganha em primeiro lugar, porque a única luta perdida é aquela que nunca foi dada. É uma luta justa, altruísta e coletiva, não só para os mais de 400 refugiados residentes, mas para a sociedade como um todo. Para cada um de nós. Pelo direito a um telhado, vida, dignidade, direito das pessoas de se organizarem, de definir suas vidas em tempos sombrios.
 
É também uma luta que, partindo das bases, se deixa por todo o lado, na Grécia e internacionalmente, na sociedade, nos movimentos, nas pessoas comuns, e até mesmo dentro das partes interessadas institucionais e das facções partidárias. É uma luta vencedora, não estreitamente política, mas profundamente social, que com a abertura e inclusão que promoveu, conseguiu reunir muitas e diferentes pessoas, dando a possibilidade de construir um movimento, que seja um exemplo de como as lutas vencedoras são construídas e as frentes de resistência social formadas em tempos sombrios, de recessão e fraturas generalizadas, apesar, é claro, das suas falhas e fraquezas.
 
Ontem, a Prefeitura de Atenas emitiu a sua segunda resolução, que surge como uma lápide do plano Hardália, que já desmoronou em todos os sentidos – técnicas, políticas, econômicas e outras coisas, e abrange principalmente nossos justos e evidentes pedidos – com base nas suas capacidades:
 
1. Convidou a Região da Ática a suspender a aplicação da decisão de expulsar refugiados e, simultaneamente, a 
Comunidade de Ocupação Prosfygika a suspender a greve de fome.
2. Reconhece a 
Comunidade de Ocupação Prosfygika , tanto como uma entidade autônoma como um sujeito social coletivo e, afinal, como um interlocutor igualitário com um papel decisivo em quaisquer futuros esforços de reabilitação da Comunidade.
3. Ela aceitou que todos os residentes refugiados permanecessem em suas casas e mesmo em caso de obras de reabilitação irão se deslocar dentro do bairro, aceitando assim a reabilitação parcial dos prédios que estamos propondo.
4. Ela sublinhou a parte das responsabilidades da Prefeitura (uma vez que tem poderes e responsabilidades claras, tanto ao nível das licenças exigidas em várias fases da reabilitação de edifícios, como no da habitação social) para garantir que não contribua e conceda o necessário, prevenindo qualquer ação da Região que se desvie do contexto acima determinado.
 
Quanto ao voto de abstenção em nome da Aliança Reversa e do Rali Popular, respeitamos a sua posição com base nas preocupações e divergências que consideramos. Além disso, também precisamos expressar nosso desejo sobre qualquer brilho entre o valor da vida humana e uma parede pintada. Principalmente quando esta vida foi largada por negligência institucional e interesses financeiros derretendo como vela durante 140 dias e sua sorte é suspensa por um fio.
 
Precisamos também afirmar que mantemos nossas dúvidas sobre a implementação dos compromissos reforçados pelas instituições, como evidenciado por tantos casos com a última greve de fome de Panou Ruchi, pai do assassinado Tempe Dennis, que ainda aguarda a implementação de sua demanda pelo governo. Esperamos que estes compromissos se concretizem e apelamos ao mundo da solidariedade para que se mantenham vigilantes.
 
Hoje, após o enorme movimento de solidariedade e o reconhecimento a vários níveis da 
Comunidade de Ocupação Prosfygika , o governo de Mitsotakis e a Região da Ática estão agora sozinhos contra toda uma sociedade. Não há mais nada a opor-se contra a comunidade, exceto uma arma de violência brutal. Estamos aqui para enfrentá-los, como temos todos estes anos de cruel repressão, em nome dos centros políticos mais reacionários.
 
Baseado no que precede, como Comunidade, ontem quarta-feira 24/06, discutimos juntamente com os grevistas de fome Aristos e Suzon e decidimos coletivamente suspender a greve de fome e paralelamente continuar a luta com outros meios, até a justiça final.
 
O resultado positivo da luta até agora e a satisfação da maioria dos nossos pedidos, nos permite acabar com uma greve de fome vitoriosamente e assim não corremos o risco de perder duas pessoas dignas para nós e para toda a sociedade, e também não nos sobrecarregar com mortes um movimento e um mundo que, ou não está familiarizado com lutas auto-sacrificantes, ou considera esta luta já vitoriosa.
 
Finalmente, se de facto o verdadeiro propósito do Governador Regional Nikos Chardalia foi, em primeiro lugar, restaurar e manter os edifícios e a sua história, permanecemos abertos ao diálogo para encontrar um consenso comum, baseado na permanência de todos os refugiados residentes e no reconhecimento da Comunidade auto-organizada existente.
 
Porque as soluções para os problemas do nosso tempo são dadas juntamente com a sociedade e não contra ela. Contrariamente aos planos de vingança, hostilidade e extermínio político por parte de alguns estados, Região e governo Mitsotakis, essa luta é uma luta para defender a vida e a dignidade e outro exemplo para nossas sociedades e pessoas.
 
Encerrando, convidamos calorosamente a todos e a todos, desconhecidos e desconhecidos a maioria de nós, que permanecem ao nosso lado nesta justa e bela luta. Somos responsáveis ​​por quaisquer erros que cometemos e vamos pedir desculpas a quem quiser. Apelamos, finalmente, a estar vigilantes sobre a condição crítica da saúde de Aristóteles Hantzis, bem como o caso de vingança por parte do Estado e do Governo contra os grevistas e a nossa Comunidade como um todo, bem como a continuar o planejamento de guerra do Governo e da Região contra Refugiados.
 
PELOS REFÚGIADOS – PELA VIDA – PELA DIGNIDADE!
A LUTA CONTINUA!
OU VENCEREMOS OU VENCEREMOS!
 
25 de junho de 2026
 
Comunidade de Ocupação Prosfygika
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
estação
não trem sozinho
um passarinho
 
Ricardo Portugal

[Internacional] Comunicado desde Itália: Sobre a perseguição à CNT-AIT

A sigla CNT-AIT caracterizou-se como lutas do proletariado espanhol durante 116 anos: foi um elemento-chave na Revolução Espanhola de 1936-1939 e sobreviveu à ditadura de Franco. Hoje, na Espanha democrática, essa mesma sigla foi legalmente despojada de seus portadores. A razão é abominável e preocupante para todo o movimento sindical mundial.

A CNT©CIT, que abandonou a AIT em 2016 e promoveu uma nova organização internacional, a CIT, em 2018, registrou a sigla CNT, seu logotipo e sua bandeira como marca comercial. Com base nisso, tem-se compreendido ações legais contra os sindicatos locais e de empresa da CNT-AIT para impedir seu uso, ao mesmo tempo em que reivindica a propriedade da sede histórica para se apoderar de suas instalações.

Uma primeira sentença já afetou 16 sindicatos da CNT-AIT, obrigando-os a mudar seus nomes e siglas; novas sentenças são esperadas para as federações anarcossindicalistas restantes. Os companheiros anarcossindicalistas também foram alvo de pesadas multas coercitivas, que afetam sua própria capacidade de participação em atividades sindicais, e outras ameaças contra seus direitos.

Um grupo anarcossindicalista que busca proteção por meio de uma marca registrada é uma aberração que clama por vingança: utiliza uma fita do Estado para declarar um nome como “propriedade privada” e sancionar os trabalhadores que ousam usá-lo. Ontem, queimaram-se registros de propriedade; hoje, as pessoas se registram no escritório de patentes e colocam o símbolo © ao lado da bandeira vermelha e negra. E em nome de quê? De um símbolo que deveria viver nas ruas, nas paredes e na boca de qualquer um que lute, não trancafiado em um certificado, vigiado por advogados e defendido com advertências como se fosse a marca de um refrigerante. O logotipo do sindicato libertário restrito a um logotipo corporativo: uma bandeira vermelha e negra plastificada e registrada, para serem exibidas nos tribunais.

Quem restringe uma sigla, restringe uma ideia, e quem restringe uma ideia já traiu o anarcossindicalismo, pois foi admitido, na prática, que sem um policial para vigiá-lo, não pode se sustentar por si mesmo. Prega a abolição do senhor e súplica ao Estado, fonte da autoridade do senhor, que proteja seu nome.

Como Coordenação Anarcossindicalista, denunciamos as práticas libertadoras e autoritárias da CNT©CIT. Denunciamos e documentamos como a filial italiana da CIT também tem empregados práticas centralistas e autoritárias desde sua incorporação ao internacional, incluindo a expulsão de alguns sindicatos e a criminalização de organizações que lutaram contra as restrições impostas pelo Estado às liberdades sociais, como suspensões e os despedimentos durante uma pandemia.

Não pensamos que a forma de agir da CIT seja atacar outros trabalhadores, suas lutas e suas organizações, colocando-se sob a asa cúmplice e protetora do aparelho estatal, judicial e repressivo, que sempre foi o inimigo dos trabalhadores.

Reafirmando a necessidade de coerência entre meios e fins na prática de todo aquele que luta por uma sociedade libertária, reafirmamos nossa presença junto aos companheiros espanhóis da CNT-AIT, em uma solidariedade real e ativa, contra qualquer plano reacionário que pretenda apagar o modelo e a prática anarcossindicalista, sua história e a nossa, da luta de ontem e de hoje.

Coordenação Anarcossindacalista (Itália)

Fonte: https://cntaitalbacete.es/2026/06/internacional-comunicado-desde-italia-sobre-la-persecucion-de-la-cnt-ait

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

casa casa
cheio de habitantes
– de plasma

Carlos Seabra

Tradução | Ajuda | Colaboração

[Reino Unido] Banco HSBC atacado em solidariedade aos anarquistas presos na Indonésia

Solidariedade de Bristol à Indonésia

COM UNICADO

No dia 10 de junho, em Kingswood, Bristol, uma agência do HSBC Bank foi atacada e suas janelas foram quebradas. O Banco HSBC é um grande investidor e agente financeiro que opera na Indonésia, onde multinacionais estrangeiras e empresas nacionais aliadas ao regime de Prabowo saquearam e destruíram a ecologia e o trânsito locais. São os bancos, os capitalistas e as elites os responsáveis ​​pela miséria em nossas vidas, e não importa que nossos camaradas presos, Adit, Naufal, Komar, Mpe e Dena, estejam do outro lado do mundo.

Por meio da destruição de um alvo comum, neste caso de um banco de investimentos no Estado Indonésia, estamos tornando concreta a nossa solidariedade.

Forme grupos de camada e passe ao ataque.

Solidariedade internacional a todas as pessoas anarquistas presas neste 11 de junho, assim como as encarceradas pelas ações contra a Elbit, em Filton.

É o Estado e o Capital que são terroristas.

Libertem Alfredo Cospito.

Vida longa à Anarquia.

Raposas Negras / FAI-IRF

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

na rua deserta
brincadeira de roda
vento se sujando de terra

Alonso Álvarez