Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra
A direita avança nas urnas. A pergunta que nos interessa não é quem venceu. É por que tanta gente submetida à precariedade, à violência e à exploração continua apostando em projetos que prometem ordem por meio de mais polícia, mais fronteira, mais punição e mais poder para quem já manda.
Não basta responder que “foram enganadas”. Essa é a explicação confortável de uma esquerda que, depois de perder contato com a vida concreta das pessoas, prefere imaginar o povo como vítima de manipulação do que reconhecer a própria falência. E é também a resposta de quem ainda acredita que a saída está na próxima eleição.
Não está.
O mapa
A virada é inegável nos números. Após as eleições recentes na Colômbia e no Peru, sete dos doze países sul-americanos são governados por direita, centro-direita ou extrema-direita, representando 58% da população da região. No Chile, Kast venceu o segundo turno em dezembro de 2025 com 59% dos votos. Na Bolívia, o Movimento ao Socialismo — no poder quase ininterruptamente desde 2006 — sequer chegou ao segundo turno. Nos EUA, Trump voltou com Congresso, Senado e Casa Branca na mão.
Muita gente vota à direita porque está cansada. Cansada de ser assaltada, de trabalhar muito e não sair do lugar, de ver serviços públicos deteriorados, de conviver com corrupção, de assistir a governos prometerem transformação e entregarem administração. A extrema direita não inventou esse desespero. Ela aprendeu a convertê-lo em medo, em punição e em demanda por autoridade.
E funciona porque o medo é real.
A esquerda que preparou o terreno
Durante décadas, governos progressistas prometeram reduzir desigualdades, ampliar direitos e democratizar a vida social. Em vários casos, houve ganhos concretos: renda, acesso a serviços, redução temporária da pobreza. Mas esses avanços foram construídos sem desmontar as estruturas que produzem a desigualdade.
Negociou-se com o agronegócio, com mineradoras, com bancos, com empreiteiras. Criminalizou-se o MST, militarizou-se o Complexo do Alemão, expulsou-se comunidade indígena para viabilizar usina. Chamou-se isso de governabilidade. Chamou-se isso de transformação possível.
Mas o aparato permaneceu intacto.
A polícia continuou pronta para reprimir pobres, indígenas, sem-terra e periferias. A máquina estatal continuou concentrando decisão, orçamento, informação e força. Quando os governos progressistas perderam força, deixaram para seus sucessores uma estrutura pronta para ser operada com menos pudor.
Quem constrói instrumentos de controle em nome de uma causa justa não controla quem os usará amanhã.
Esse é o nó que a esquerda parlamentar recusa desatar: não se trata de eleger pessoas melhores para administrar o Estado. Trata-se de reconhecer que o Estado concentra poder, e todo poder concentrado procura se preservar, expandir-se e encontrar novos inimigos. Sempre. Independente de quem assina os decretos.
O que a direita vende
A nova direita não cresce só por falar de costumes, deus ou anticomunismo. Ela cresce porque apresenta respostas simples para dores complexas.
Há crime? Mais polícia.
Há desemprego? Menos direitos trabalhistas.
Há crise de moradia? Mais expulsão.
Há migração? Mais fronteira.
Há corrupção? Um líder forte.
Há medo? Uma arma, uma cela, uma farda.
É uma política de atalhos. Ela não resolve as causas da violência — oferece alvos para a violência.
Não enfrenta a precariedade — disciplina quem sofre com ela. Não combate o poder econômico — protege-o, enquanto direciona a raiva social para migrantes, pobres, dissidentes e qualquer pessoa que possa ser transformada em ameaça.
O capitalismo produz abandono, competição, fome, humilhação e desespero. Depois, o Estado aparece para administrar os destroços com polícia, prisão e vigilância. A extrema direita não rompe esse ciclo. Ela o acelera — e o faz com aprovação popular, que é a parte que mais deveria nos incomodar.
Votar é delegar. Delegar é abrir mão.
A resposta automática da esquerda institucional é pedir mais unidade eleitoral, mais alianças, candidatos mais viáveis, melhor comunicação. Como se a derrota fosse problema de marketing.
Mas não existe campanha capaz de reparar uma política que se tornou indistinguível da administração da ordem existente.
E há um problema mais fundo que isso.
Votar é um gesto de delegação: eu entrego a outro, periodicamente, a decisão sobre minha vida, meu bairro, meu trabalho, meu corpo. É um ato que pressupõe a própria separação entre quem decide e quem obedece — a separação que é a base de toda dominação. Não importa em quem se vota: o ato em si reproduz a lógica de que a política é algo que acontece em outro lugar, feita por outras pessoas, e que o máximo que nos cabe é escolher o menos ruim de quatro em quatro anos.
Isso não é emancipação. É a forma mais pacífica de capitulação.
Quando governos de esquerda criminalizam protestos, preservam privilégios, militarizam territórios e tratam movimentos sociais como problema de gestão, não estão apenas cometendo contradições. Estão demonstrando, concretamente, que o Estado não muda de natureza quando muda de partido.
A direita entende isso melhor do que muita esquerda: ela se apresenta como ruptura enquanto protege exatamente os mesmos interesses econômicos de sempre. A esquerda parlamentar, muitas vezes, não consegue nem fingir ruptura — tornou-se defensora de instituições que as pessoas experimentam como distantes, lentas, corruptas e impotentes.
O pêndulo é a armadilha
A América Latina conhece bem o movimento pendular: direita, esquerda, direita, esquerda. Mudam os governos, trocam-se os discursos, alternam-se as bandeiras — e a maioria continua trabalhando demais, morando mal, temendo a violência e obedecendo a decisões tomadas de cima.
O pêndulo não é sinal de democracia saudável. É o mecanismo que mantém a vida política girando sem sair do lugar.
A ascensão da direita não deve produzir nostalgia de governos que administraram a miséria com linguagem progressista. Nem deve produzir desespero. Deve produzir clareza.
Clareza de que não haverá liberdade onde houver concentração de poder.
Clareza de que não se combate a violência multiplicando armas, prisões e fardas.
Clareza de que nenhuma eleição devolverá às pessoas o controle sobre a própria vida — porque esse controle nunca foi o que a eleição ofereceu.
A política que não espera permissão
Isso não é niilismo. É a recusa de uma ilusão — para que sobre espaço para o que funciona.
Cooperativas, sindicatos de base, ocupações de terra e moradia, cozinhas comunitárias, clínicas populares, redes de cuidado mútuo, comunicação livre, defesa territorial coletiva: essas práticas não são substitutas imperfeitas da “política real”. São a política real. A única que não produz novos donos ao final do processo.
Não são perfeitas. Reproduzem hierarquias, conflitos, exclusões. Por isso exigem democracia direta, rotatividade, transparência e o conflito aberto em vez do silêncio obediente. Autonomia não é ausência de organização. É organização sem chefe, sem partido, sem vanguarda que sabe mais do que você sobre a sua própria vida.
O relógio eleitoral continuará oscilando enquanto aceitarmos que ele mede o tempo da política.
A saída começa quando paramos de esperar o próximo governo e construímos poder onde vivemos — sem pedir licença, sem aguardar eleição, sem delegar a ninguém o que só nós podemos fazer por nós mesmos.
Produzido coletivamente.
anarkio.net
agência de notícias anarquistas-ana
Libélula voando
pára um instante e lança
sua sombra no chão
Masuda Goga
bom texto!
posição lúcida. organização anarquista com marca registrada? pedindo ação do estado contra trabalhadores? opa, pera lá caceta!
Comunistas, Capitalistas e Anarquistas e a servidão voluntária. Mas... A hora mais escura é logo antes do amanhecer. (Provérbio árabe)
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.
Enquanto isso no Brasil...